22.1.07

Plutonizada?

“Plutonizado” foi eleita a palavra do ano (de 2006) pela American Dialect Society. Ela deriva de plutoed, um neologismo. Veja o verbete na coluna do Sérgio Rodrigues.
A ADS é uma sociedade que existe há 117 anos e faz um belo trabalho em torno dos usos, novidades, modismos e novos empregos da língua inglesa. Novidades essas que são quase que imediatamente adaptadas e usadas em todos os outros idiomas, como a amiga sabe.
E os vinhos com isso? Explico com exemplos:
Você gosta de vinhos e resolveu visitar a novidade do Tastes of the Valley - Sideways Wine Bar – um bar de vinhos inspirado no filme Sideways, que ganhou um Oscar de melhor roteiro adaptado em 2004 e é, com Mondovino, o filme sobre vinho mais badalado até agora. O wine bar fica em Solvang, Santa Bárbara, Califórnia, uma das locações do filme. Se você for, você é sem dúvidas uma turista plutonizada.
Ou pode querer, entre tornados e outras ventanias, visitar o Festival do Vinho da cidade de Nápoles (essa, na Flórida). E, se não morrer de tédio, seguir depois para conhecer o recém-inaugurado e exótico wine bar que funciona numa antiga sinagoga de Brooklyn, Nova York (era a velha Talmud Torah Beth Jacob Joseph, na Atlantic Avenue, no bairro de Boerum Hill). Se fizer isso, continua sendo uma turista plutonizada.
Continuando nessa linha um tanto profana, você pode até querer visitar um vinhedo plantado sobre um cemitério. Sim, agora existe. O lugar é bem próprio: Hayward, uma cidadezinha num braço da famosa Falha de San Andreas (uma falha geológica, um deslizamento lateral que se prolonga por mais de mil quilômetros através da Califórnia), perto de São Francisco, EUA. Logo, se não ocorrer nenhum terremoto, você conhece videiras de Zinfandel e Syrah que os padres católicos plantaram numa pequena área do cemitério do Santo Sepulcro, pertencente à Diocese de Oakland. Os padres argumentam que vão poupar dinheiro do vinho da missa e lembram também que vinho é o sangue de Cristo. Muito justo. Mas talvez você acabe sabendo mais de terror do que de terroir (perdão pelo trocadilho). Em qualquer caso, você além de sobressaltada vai permanecer plutonizada.
Vale quase tudo quando fazemos turismo, só não vale é ficar rebaixada, diminuída, transformada numa “turista-anã”, que é o significado da palavra campeã de 2006. Plutão era planeta desde 1930. Mas a partir de 2006 foi reclassificado como Planeta-anão.
Porém, sei que a amiga quer é se agigantar, pois gosta mesmo de vinho e quer fazer turismo a sério. Nesse caso, o negócio é fazer as malas já e partir para Fenavinho, em Bento Gonçalves.
A Fenavinho. Em termos de multiplicidade de ofertas, qualidade, variedade e propriedade de eventos (tem para adultos, crianças, profissionais e amadores do vinho etc.), alcance e duração – por tudo isso, para mim é a maior e mais importante feira de vinhos do continente. Imperdível.
É muito mais do que wine bars exóticos ou vinhedos “diferentes”. Degustações de vinho (a maioria, grátis) e vinhedos magníficos (sobre solo consagrado apenas pela natureza) você tem há muito tempo no sul do país.
Oficialmente a feira começa agora, dia 26 de janeiro, e vai até 20 de fevereiro. Se você for no período de Carnaval pode até participar da colheita da uva.
Mas se chegasse hoje lá conheceria o Caminhão do Vinho, que vem percorrendo os bairros de Bento Gonçalves desde o dia 20, distribuindo vinho e suco de uva gratuitamente.
A feira acontece numa dos maiores áreas de eventos da América Latina: o Parque da Fenavinho, em Bento Gonçalves (há uns meros 120 km de Porto Alegre), com 322.567 m² de área total e 50.000 m² de área construída.
No Parque, teremos uma exposição das 80 vinícolas de várias regiões produtoras do país, apresentando seus vinhos, que poderão ser degustados e até comprados por precinhos pra lá de camaradas.
Ao lado do pavilhão será apresentado um inusitado espetáculo cênico, ao ar livre: a História Cultural do Vinho, com mais de 500 figurantes, esculturas gigantescas em movimentos, alegorias, palcos fixos, cenários de fundo, cenografias, vídeos, efeitos, dramatizações. Será realizado todos os sábados, a partir das 9 da noite, numa arena com arquibancadas para até cinco mil pessoas. A turma da Fenavinho conta com o competente e criativo pessoal que faz o Festival Folclórico de Parintins, Amazonas, para a produção do show (logo, capaz de colocar o Carnaval carioca pra trás, em termos de qualidade de alegorias, cenários, esculturas etc.).
Entenda: essa feira está completando 40 anos. Ao longo desse tempo ela só fez melhorar e ampliar. O pessoal sabe muito bem como tudo deve ser feito.
Num dos pavilhões do Parque, teremos 150 produtores rurais da Serra Gaúcha e do estado expondo suas melhores uvas. Haverá premiação para os cachos mais bonitos. É a sua oportunidade, amiga, de conhecer as inúmeras variedades de uvas cultivadas no Brasil, quais suas características e que vinhos delas resultam. Vale por um curso de vinhos.
Você também poderá amassar a uva com os pés e voltar dias mais tarde para degustar o vinho doce, resultado da primeira fermentação. Num outro espaço, encontrará produtos feitos através da agricultura familiar, além de ofícios como a tecelagem, o artesanato em madeira e em vime, confecção de violinos, caldo de cana, erva-mate, moinho – e vai por aí. Já se sente desplutonizada?
Tem mais: conhecerá grandes fornos a lenha e ver de pertíssimo a fabricação de pães caseiros (e saboreá-los e levá-los para casa). Além disso, temos o Filó Gastronômico, um espaço com um restaurante de gastronomia italiana regional e um palco para apresentações de grupos de música, canto e dança. Você aqui se integra de vez com os hábitos e costumes dos imigrantes italianos. Além do Filó, teremos ilhas de gastronomia, com sopas, massas, comidas típicas italianas e a gastronomia campeira (a natural dos gaúchos).
Onde deixar os baixinhos. Para as crianças, a Fenavinho oferece a Piccola Cittá, um espaço de recreação com suporte de educadores, onde os pais poderão deixar seus filhos e visitar a feira sem medo de tomar uns goles extras. São 800 m², com apresentações de teatro, canto, oficinas do pão, corridas de pernas de pau, distribuição de lanches típicos, pintura, desenho e escrita. Cada criança será presenteada com o livro “Um mundo de lembranças. Um sonho de criança”, resultado da pesquisa que originou todo o projeto.
Enfim, o evento oferece também oportunidades inéditas para os profissionais do vinho, como os Projetos Comprador e Imagem: identificam potenciais compradores de vinho (para rede de lojas, supermercados, hotéis e restaurantes) e importadores e distribuidores para exportação de vinhos brasileiros. Devemos chegar a 378 milhões de litros em 2009, segundo previsão da APEX, agência de promoção de exportação e investimento no setor. Consumimos agora 1,8 litros por ano (por pessoa). Os franceses consomem 15 litros. Assim, segundo essa agência, já estamos em 15º lugar. Nada mal. Estima-se que 100 vinícolas brasileiras farão perto de 600 reuniões de negócios durante a feira.
Ah, tem também o Vinho Encanado, já uma tradição da terra: uma imensa pipa junto à Casa Del Vino, na Via do mesmo nome. É só pegar a sua caneca e ir pra lá fartar-se. Visite ainda as vilas típicas, como suas festas tradicionais, como a Três Sete, Bisca, Mora, Quatrilho. Participe de um torneio de bocha. Confira o Salão de Arte do Vinho e os desenhos de humor sobre o vinho.
Só não deixe de ir. Vi no site da Fenavinho que a CVC já tem roteiros aéreos e rodoviários prontinhos para a feira.
Pois é prestigiando mais o que é nosso, dando valor quando esse valor efetivamente existe é que você se agiganta e se desplutoniza de vez.

19.1.07

Música em sua taça

Que estilo de música você escuta enquanto degusta o seu vinho? Beethoven ou Chitãozinho e Xororó, Tom Jobim ou Elymar Santos? Cuidado, pois acaba de ser criada mais uma teoria nesse mundico dos vinhos já tão lotado de teorias.
Na verdade, eu deveria hoje fazer referência, mais uma vez, à chegada do Beaujolais Nouveau em todas as lojas do mundo. Dizem que estão lançando uma versão rosé. Pra quê, se o Nouveau já funciona de fato como um rosado?
Mas optei por falar dessa história sobre música e vinhos, que, juram: é verdade verdadeira.
Um conhecido enólogo e consultor de vinhos da Califórnia, Clark Smith, dono da Vinovation, garante que a música que você está ouvindo influencia o gosto do vinho que você está, ao mesmo tempo, degustando. Não, não se trata de atuar sobre os seus humores, o ambiente que o cerca ou sobre as pessoas em volta de você.
Smith garante que diferentes tipos de música vão fazer o vinho ser mais ou menos saboroso. Uma simples canção que pode elevar o seu Pinot Noir a um grau de suprema excelência. Ou deixar o seu Cabernet Sauvignon num estado execrável.
Smith é preparadíssimo: já passou pelo M.I.T., é enólogo graduado pela famosa Universidade da Califórnia, em Davis, já foi produtor da Vinícola R.H. Phillips (250 mil caixas por ano). Em 92, patenteou um sistema de redução e ajuste de álcool via a tão falada osmose reversa (osmose: um liquido, no caso, o vinho passa através de uma membrana, saindo de uma solução mais concentrada para outra menos concentrada). Ele está no meio da grande controvérsia que cerca vinhos com muito álcool. Entregam para ele um vinho com 12% de álcool e ele devolve a bebida com 15, 16% ou mais, como é a grande moda atual entre produtores interessados em agradar críticos como Robert Parker. Mas pode acontecer o contrário: de um vinho com 17% e ele o reduz para 12%. O freguês escolhe. Ele sabe o que faz. E acredita firmemente que o produto final sairá equilibrado, harmônico etc.
Acredita também, honestamente, que a música pode mudar o sabor dos vinhos. Ele realizou testes, onde um Cabernet de Bordeaux parece ficar melhor ao som da Metallica, famoso grupo norte americano de heavy metal.
Garante que uma determinada polca (tocada por uma banda local) transforma um ordinário Zinfandel branco em algo bem melhor do que a maioria dos seus tintos, mais caros. Na verdade, diz que polca só combina com Zinfandel branco. E com mais nada.
Revela que os vinhos tintos, na média, melhoram substancialmente com músicas que ofereçam uma “emoção negativa”. Não gostam de música alegre. Os Pinot Noir não gostam de música sensual. Os Cabernets gostam de músicas “zangadas”, como as da Metallica. Daí a dificuldade de encontramos uma música que seja boa ao mesmo tempo para a Pinot e para a Cabernet.
Apesar de ser um tecnólogo inveterado, Smith afirma que os vinhos possuem sua própria melodia. É um místico que ainda acredita na antiga idéia grega de separar os pensamentos e atividades entre as lógicas (que seriam originárias de Apolo, segundo ele) e as intuitivas (nascidas de Dionísio). Francamente, não entendi as analogias com os deuses gregos. Até hoje, não conheci um só deles cujo perfil apontasse para um ser lógico, coerente, racional. A lógica, o bom senso, o caminhar conforme as regras eram tarefas mais afinadas com os mortais, na maioria das vezes. Também não atino que pudessem ser apresentados como intuitivos: eles eram mais para espertos, estabanados, de caráter suspeitíssimo, mas ao mesmo tempo ingênuos.
O enólogo não sabe ainda explicar a razão pela qual o binômio vinho-música interfere em partes de nosso cérebro. Não consegue ainda explicar como, fisiologicamente, a Cabernet torna-se significativamente melhor com os The Doors (uma banda de rock americana que existiu entre 60 e 70, onde pontificava o lendário Jim Morrison), ou com a abertura da Carmina Burana, do que com Mozart ou os Beach Boys.
Já que “a música é o vinho que enche a taça do silêncio”, segundo o guitarrista e compositor Robert Fripp, não é de estranhar que tenhamos agora essa moda de música. O que não é uma exclusividade do Clark Smith.
O produtor Jean-Marie Zerr, da Alsácia, jura que a complexidade aromática de suas uvas, em particular as Gewürztraminer, melhorou substancialmente a partir do momento em que começaram a ouvir Brahms, Schubert, Mozart, Vivaldi, entre outros.
Zerr usa música clássica e um conjunto de sons estranhos, que só as uvas conseguem entender, mas que “não adequados aos ouvidos humanos”. Seus vizinhos já estão achando que ele é um caso perdido.
De qualquer modo, a hipótese da música de Bach ou de Tchaikovsky influenciar toda uma vinha está sendo pesquisada seriamente pela Universidade de Florença, Itália, a partir das experiências de um outro vinicultor, o toscano Giancarlo Cignozzi, que produz o famoso Brunello di Montalcino.
Um especialista italiano em neurobiologia vegetal, professor Stefano Mancuso, já começou a reproduzir em laboratório o que realizam esses vinicultores melomaníacos. E ele garante: “Os efeitos da música ou das freqüências sonoras sobre o crescimento das plantas são notáveis”.
Não sei, não. Uma amiga querendo livrar-se de um namorado, mas temendo ser indelicada, gravou o Soneto da Fidelidade, dito pelo próprio autor, o mestre Vinicius de Moraes. Fez um CD inteiro com o soneto – aquele que termina assim: “Eu possa me dizer do amor (que tive)/Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure.”
O rapaz foi a casa dela, jantou, conversou sobre o tempo, o trabalho, pediu cerveja e mais cerveja e depois um cafezinho. E o CD não parava de tocar, era também infinito. O namorado se fez de surdo ou era bronco mesmo. Sequer emitiu um comentário sobre o fundo musical neuroticamente repetitivo. Não adiantou nada. Foi embora com beijinhos e tudo. Ela optou por mandar uma carta encerrando o namoro. Estão casados desde então.
Desconfio que se colocar qualquer clássico para acalmar os meus cachorros e evitar que chacinem minhas galinhas, o esporte preferido deles, não vai adiantar nada. O mais seguro seria colocar um som eletrônico, tipo bate-estaca, bem alto para espantar as penosas para bem longe de feras residentes.
Também não sei o que faço com os vinhos que consumo habitualmente. Como resolver, por exemplo, a questão do premiado Rio Sol? É um dos vinhos servidos ao Papa Bento XVI quando visitou o país e feito numa vinícola à beira do rio São Francisco, Pernambuco. Devo degustar esse vinho, um Cabernet-Shiraz, ao som de um baião, de um coco, de um afoxé, frevo, jongo, maracatu, ou quem sabe de um xaxado, um batucajé? Um perigo arriscar.
Enfim, amigas, cada enólogo com a sua mania. A leitora tem alguma particular preferência musical quando degusta um vinho? Ou o som que prefere é o do papo entre amigos ao redor da mesa? Conte para nós aqui.

no Bolsa ou para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br
Da Adega.
Sabores do Sul da França. Não vamos esquecer que o festival Sabores do Sul da França termina dia 17, depois de amanhã. Ele acontece em 45 restaurantes do Rio, Niterói, Búzios e Petrópolis, onde harmonizarão vinhos do Languedoc-Roussillon com a gastronomia de cada casa. Só tem feras da cozinha francesa no festival: Troisgros, Roland Villard, Olivier Cozan, e muitos cobras nacionais. Saiba mais com a Juliana (juliana.castanheira@approach.com.br).
Etchart Cosecha Tardia no Brasil. A Pernod Ricard está lançando no mercado o Etchart Cosecha Tardia (“Colheita Tardia”, um vinho doce natural), da Bodegas Etchart, fundada em 1890, uma das mais antigas da Argentina. O vinho já chega premiado (o único colheita tardia medalha de ouro na feira Vinhos & Bodegas de Buenos Aires. Utiliza as uvas Torrontés, de origem espanhola, parenta da Moscato, é a variedade de uva branca mais utilizada naquele país. Uma preciosidade.
O Etchart Cosecha Tardia vem com um amarelo ouro brilhante, um buquê de flores e frutas intenso e complexo, além de notas de rosas, jasmim, pêssego e frutas cítricas. Você não pode perder. Mais informações no site da Pernod Ricard ou através do SAC: 0800 014 20 11.
http://www.bolsademulher.com/estilo/materia/musica_em_sua_taca/12164/1

Uma pergunta de peso

Pergunta: Sônia, um dos presentes que ganhei no Natal foi um maravilhoso jogo de taças de vinho, todas em cristal. Ouvi dizer que louças de cristal contêm chumbo, um veneno. Devo ou não usar essas taças?
Resposta: O mais seguro seria usar essas taças apenas no período de uma refeição. O cristal vai desprender mínimas partículas de chumbo com praticamente nenhum risco para a nossa saúde. Isso foi demonstrado por uma pesquisa realizada em 1991 pela Universidade de Colúmbia, Estados Unidos. O governo canadense também fez o mesmo teste e verificou que no espaço de tempo de uma refeição a quantidade de chumbo liberada por uma taça de cristal no vinho está bem abaixo da concentração de chumbo numa bebida permitida pelas leis do Canadá: 200 partes por bilhão.
A legislação brasileira a respeito, através de uma Portaria de março de 1996, da Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde (veja aqui) determina que vasilhames contendo metais pesados como o chumbo podem chegar até uma concentração de 4,0 mg/kg. Mas observa que “o cristal fica permitido para fabricação de artigos de uso doméstico, somente destinados a contatos breves e repetidos com alimentos”. As refeições estão entre esses “contatos breves”.
Isso porque não devemos colocar nessas taças (ou em qualquer vasilhame de cristal, com um decantador) bebidas ácidas (vinhos brancos, suco de laranja – ou de qualquer fruto cítrico) que tenha ficado nelas por mais de duas horas.
O cristal é um vidro que pode conter até 35% de óxido de chumbo, o que torna o vidro denso, menos quebradiço, translúcido e bem mais atraente, pelo seu intenso brilho. Se friccionarmos o corpo de uma taça de cristal com o dedo, ele vai ressoar como se fosse um sino. A taça de vidro comum não gosta muito de música.
Na União Européia, louças contendo menos de 4% de chumbo são definidas como vidro. A partir de 10% passam à categoria de cristais. Peças com mais 30% de chumbo são as de cristal de alta qualidade – categoria em que provavelmente estão as taças da leitora. Nos Estados Unidos, o rigor é maior: o vidro é considerado “cristal” com apenas 1% de chumbo.
No Brasil, apenas os vidros borossilicatos e sódio-cálcicos são permitidos para fabricação de embalagens e equipamentos para qualquer contato com os alimentos. Os de cristal, só por “breves momentos”.
Aqui, até o uso de chumbo em materiais de pesca (em anzóis e chumbadas) está proibido (serão substituídos por materiais como argila, areia e pó de pedra). Tintas à base de chumbo também estão sob controle.
Riscos. Exposição a níveis altos de chumbo podem causar vômitos, diarréia, convulsões, coma. E até a morte. Anemia é um problema comum, perda de apetite, dores abdominais, constipação, fadiga, insônia, irritabilidade, dores de cabeça, problemas nos rins, até danos ao sistema nervoso central.
As crianças são mais suscetíveis à contaminação, pois seus corpos absorvem o chumbo mais facilmente e seus sistemas nervosos, ainda em desenvolvimento, são rápida e permanentemente prejudicados pelos efeitos do metal. A Saúde Pública dos EUA estima que entre 5 e 10% das crianças americanas carregue uma quantidade nociva de chumbo em seu sangue.
Em concentrações maiores, o envenenamento pelo chumbo leva a ataques apoplécticos, coma e morte. Em níveis de baixos a moderados pode causar desvios de atenção, perda de audição, insônia, crescimento retardado, dificuldades de aprendizado, dores de cabeça e de estômago.
O vinho e o chumbo. Era prática comum na Europa “batizar” os vinhos com aditivos de chumbo, de modo a preservá-los e a adoçá-los – isso desde os tempos dos antigos romanos. Eles adoravam temperos doces. O mais popular deles era o defrutum, um xarope feito de suco de uvas: cozinhava-se o mosto em panelas de chumbo. Submetido a mais radical redução, esse xarope era chamado de sapa, que tinha sabor e aromas agradáveis. Pois a sapa era empregada regularmente como aditivo do vinho e também no preparo de vários pratos da cozinha romana.
O chumbo pode causar, entre vários problemas, infertilidade e a uma alta taxa de mortalidade infantil. Daí que muitos autores concluem que a digestão do defrutum e o fato de comer-se e beber-se em utensílios de bronze contendo chumbo foi um fator a contribuir para o declínio do império romano.
O hábito de batizar o vinho com essa mistura rica em chumbo foi, sem dúvidas, responsável por um grande número de epidemias e mortes. Mas apenas no século 17 é que essa prática foi reconhecida como originária dos vinhos. Na época, esse mal era conhecido, entre outros nomes, como a “Cólica de Poitou”.
Quem descobriu a origem da doença foi Eberhard Gockel, médico da cidade de Ulm, Alemanha, na época o principal centro de comércio de vinho do país. Uma infestação de cólica na cidade, em 1690, resultou em sérias perdas econômicas para a cidade. E, em razão das descobertas de Gockel, o Duque Eberhard publicou uma lei rigorosamente proibindo a adulteração do vinho com óxido de chumbo. As punições incluíam até a morte.
O nome “Cólica de Poitou” tem origem na região em volta da cidade de Poitou (habitada no tempo dos romanos pela tribo dos Pictones), uma antiga província da França, cuja capital era Poitiers (é atualmente a região de Poitou-Charentes). Poitou tinha triste fama tanto pelos seus vinhos rançosos como pela longa endemia de cólica convulsiva e dolorosa sofrida há tempos pelos seus habitantes. A doença causava danos no sistema nervoso central, levando à paralisia, cegueira e, com freqüência, à morte.
O médico Gockel era, sobretudo, muito astuto. Ele cuidava dos monges de dois mosteiros em Ulm, cujos monges bebiam do mesmo vinho, na mesma quantidade, todos os dias. E caíram doentes ao mesmo tempo, com os sintomas da famosa cólica. Os monges que não bebiam desse vinho não foram afetados. Não foi difícil para o médico descobrir a origem do mal.
O Duque de Ulm merece também nossos aplausos: ele talvez tenha publicado a primeira lei da história em defesa dos consumidores.
Assim, leitora, use muito pouco os seus cristais. Apenas por “breves momentos”, durante as refeições. E evite guardar vinhos ou qualquer outra bebida em decantadores de cristal. Mas não jogue fora as suas taças. Elas podem virar lixo e o o seu chumbo contaminar o solo, as plantas e os animais. E, no fim, numa simplória alface, estar de volta à nossa mesa
Da Adega
Liquidação na Expand. A sua hora de ter um importado de qualidade por preços camaradas chegou. Todas as 35 lojas da importadora, entre 10 e 31 de janeiro, vão colocar mais de 70 rótulos com descontos que chegam aos 50%. Não duvide, veja só alguns exemplos:
Terralis Bi-varietal – Trivento Bodegas (Argentina) - De R$ 13,90 Por R$ 9,90
Viña Enterizo Crianza – Bodegas Coviñas (Espanha) – De R$ 38,00 Por R$ 26,60
Montefino Reserva – Monte da Penha (Portugal) - De R$ 89,00 Por R$ 60,50
Fortant de France Syrah – Robert Skalli (França) - De R$ 35,00 por R$ 24,50
Prosecco VSAQ La Pieve – Wisco (Itália) - De 45,00 por R$ 31,50
O nome do evento é Expand Sale. Você pode parcelar os pagamentos em duas vezes para compras acima de R$ 200,00. De R$ 300,00 para cima, divide em 3 vezes. Valem cartões (VISA, Mastercard, Dinners e American Express).
Mais informações pelo telefone (11) 3847-4747. Saiba onde estão as lojas Expand
aqui.
Curso Intensivo de Vinhos. Não perca o Curso Intensivo do Grupo de Estudos e Degustação de Vinhos. Vai de 14 a 18 de janeiro, no Hotel Porto Bay Rio Internacional (Av. Atlântica, 1.500, Copacabana). Serão degustados 40 vinhos, ministradas 30 horas de aulas – que cobrirão, com degustações e almoços harmonizados, os vinhos do Novo e Velho mundo e os vários estilos de vinho.
Mais informações com pelo telefone (21) 8606-1506 ou com o Mike, via
riomikewines@yahoo.com.

16.1.07

Situação dos vinhos e destilados

Como estarão o consumo e a produção de vinhos e destilados por volta de 2010?
A maior feira de vinhos do mundo, realizada a cada dois anos em Bordeaux (a próxima acontecerá entre 17 e 21 de junho), acaba de apresentar a sua costumeira projeção para o mercado, realizada pela IWSR (International Wine and Spirit Record), especializada em bebidas. O levantamento foi feito em 28 países produtores de vinho e em 114 mercados consumidores de vinhos e destilados.
Um dos principais destaques é o Reino Unido: nos próximos três anos o mercado crescerá tanto que os consumidores de vinho do país gastarão mais em vinhos (tranqüilos e espumantes) do que qualquer outro vizinho europeu. Lá por 2010, as vendas de vinho no varejo serão chegarão a 11 bilhões de dólares, ponto em que os ingleses estarão gastando mais do que os franceses, alemães e italianos, fazendo do Reino Unido o maior mercado de vendas de vinho da Europa. Entre 2001 e 2005, as vendas de vinho no país cresceram 25%, alcançando mais de seis bilhões de dólares.
Contudo, até 2010 os consumidores ingleses continuarão ainda bebendo menos vinhos dos os quatro primeiro colocados: França, Itália, Estados Unidos e Alemanha. O Reino Unido será o quinto país dessa lista.
Em 2005, os consumidores ingleses beberam perto de 1,7 bilhões de garrafas de vinho, ou perto de 27 litros por ano, por pessoa em idade legal de beber, aproximadamente o mesmo que os australianos (28,3 litros) ou holandeses (28,6 l), mas longe ainda dos dinamarqueses (38,3 l) ou alemães (38,6 l).
Em 2010, os ingleses beberão cerca de 28,5 litros por pessoa, equivalentes a 38 garrafas por ano ou 3,2 garrafas por mês: menos de cinco taças por semana.
Embora o uísque escocês ainda seja o destilado mais vendido no Reino Unido, suas vendas vêm caindo. A vodca deverá assumir a liderança em vendas de destilados em 2010, chegando à casa de 8,4 milhões de caixas.
E o resto do mundo? Eis aqui algumas das principais projeções da Winexpo para 2010.
  • O consumo mundial de vinho em 2005 totalizou 30,4 bilhões de garrafas e chegará aos 31,8 bilhões em 2010.
    A venda mundial de vinhos chegou aos US$ 107 bilhões em 2005. Para 2010 a estimativa é de alcançar US$ 117 bilhões.
    Os Estados Unidos serão os maiores consumidores de vinho do mundo em 2010, passando a Itália e a França. Eles já são o maior mercado de vinhos do mundo, com vendas de US$ 19,7 bilhões em 2005. Para 2010, as vendas deverão alcançar US$ 22,75 bilhões.
    A China chegou em 2005 já como o décimo maior consumidor de vinhos do mundo. Projeta-se que em 2010 assumirá o nono lugar.
    À sua frente, em oitavo lugar, ficará a Rússia.
    O vinho tinto seco responde por mais da metade do consumo de vinhos no mundo e chegará a mais de 15 bilhões de garrafas em 2010.
    Os vinhos rosados continuarão a crescer, mas a venda de brancos permanecerá estática.
    O consumo de vinhos aumentará na maioria dos mercados. Mas, em 2010, declinará nos atuais países líderes: França, Suíça, Portugal, Argentina e Espanha.
    O consumo mundial de destilados cresce a uma taxa de 1,4% ao ano.
    A Ásia responde por cerca de 47% de todos os destilados consumidos no mundo.
    A venda total de destilados em todo mundo deve chegar aos US$ 180 bilhões em 2010.
    As vendas de gim estão caindo, enquanto aumentam as de rum, uísque e tequila.
    A China será o segundo maior mercado para conhaque em todo o mundo, em 2010, com o Reino Unido na terceira posição. Os Estados Unidos são o maior mercado para conhaque.
    A pesquisa é intitulada “Décimo estudo global das tendências atuais no mercado internacional de vinhos e destilados e panorama para 2010”.
    Por ela, sabemos que a produção mundial de vinho chegou a 278.300 milhões de hectolitros em 2005, com uma projeção para 287.000 milhões de hectolitros em 2010.
    O consumo em 2005 foi de 227.881 milhões de hectolitros. Prevê-se quem suba para 238.825 milhões em 2010.
    Mas a Europa continuará como a maior consumidora de vinhos do planeta: com 163.553 milhões de hectolitros. Em segundo lugar teremos as Américas (Norte, Centro e Sul), com 51,100 milhões. Em seguida, a Ásia, com 14,651 milhões. E, por último, o que o estudo chama de “Resto do Mundo”: 10,609 milhões.
    No total, essas quatro regiões consumirão 239,914 milhões de hectolitros de vinho.
Veja mais aqui.
Vamos ver se, com esses números, seu Plínio (aquele da vendinha aqui do lado) se anima de vez em botar mais vinhos nas prateleiras.

História de uma dívida

Ao comentarmos sobre um vinho deveríamos sempre lembrar do seu aspecto cultural. Já até comentamos isso por aqui. Além dos seus aspectos sensoriais, organolépticos, enológicos, das suas importantes características regionais, devemos procurar registrar o que aquele vinho, aquela uva (ou uvas) ou aquele método de produção emprestaram para a história da humanidade. Afinal, a identidade dos vinhos permeia a história de vilas, cidades, países, continentes.
Prefiro falar sobre vinhos considerando também esse lado. Aliás, procuro fazer assim com qualquer assunto. Na maioria das vezes (e justificadamente), saímos atrás de apagar o incêndio. Mas é importante também sabermos onde e porque o fogo começou.
Olhe só o exemplo do Milk Thistle – que é um remédio citado com freqüência pela supercrítica inglesa Jancis Robinson. Ela, antes de qualquer degustação, toma um comprimido desse remédio, tido como milagroso para proteger o fígado. Para ela, o Milk Thistle é o “amigo dos bebedores, uma erva milagrosa”.
Pois esse Milk Thistle nada mais é do que o cardo mariano (silybum marianum), uma planta, também chamada de silimarina, considerada a talvez melhor das ervas para o tratamento do fígado, utilizada há mais de 2000 anos. O extrato das sementes dessa erva atua como um potente protetor do fígado, promovendo o nascimento de novas células hepáticas. Ajuda a proteger e eventualmente curar o órgão de danos causados pelo álcool, drogas, produtos químicos ou medicamentosos, venenos e até em hepatites. E ainda reduz a gordura depositada no fígado (a esteatose).
O Milk Thistle já pode ser encontrado em nossas farmácias por nomes como: Silimalon, Legalon, Milk Thistle mesmo ou Leberschutz, como é conhecido na Alemanha.
Será que é mera coincidência que a figura do cardo (thistle) é também o emblema heráldico nacional da Escócia – maior produtora mundial de uísque? A história oficial sobre o seu uso como símbolo nacional fala em batalhas, atos de heroísmo que datam de quase mil anos. Sei lá.
O exemplo da Croácia. Outro caso, esse comprovado historicamente, se localiza na Croácia, que fazia vinhos muito antes de cair sob o jugo romano, na antiguidade.
Outro dia, li uma resenha do blogueiro americano Alder Yarrow sobre um vinho branco da Dalmácia, uma província da Croácia. Alder é um crítico sério, muito bem informado: seu blog acaba de ser eleito o melhor dos Estados Unidos, em 2006, na categoria comida e bebida. Veja o Vinography aqui.
A Croácia já foi província romana, esteve sob o mando do Império Bizantino, dos Francos e dos Otomanos - quando suas tradições vinícolas conseguiram sobreviver às políticas antialcoólicas dos novos senhores. Em seguida, quando os otomanos saíram, ficou sob a jurisdição de Veneza e depois dos Habsburgos.
Até que, em fins do século 18, chegou um baixinho danado, Napoleão, que voltou a tornar um pouco mais difícil a vida dos croatas. O imperador francês foi logo impondo o pagamento de taxas, como é de praxe.
Mas como pagá-las, tão pobres que eram os croatas? Tinham peixe (a Dalmácia, uma província ao norte, é banhada pelo Adriático), que os franceses tinham e muito. Optaram por pagar com uma certa uva branca. Os franceses tinham muita uva, mas seus soldados estavam espalhados por toda a Europa, precisavam dos vinhos mais próximos de suas tropas (fora melhorar os ânimos, serviam como substitutos mais saudáveis da água).
E é sobre um vinho croata com essa uva de que fala o blogueiro Alder. A família do vinicultor, Alan Bibich, faz vinhos a cinco gerações. Esse vinho vem dos vinhedos da família em Skradin, no norte da Dalmácia. Além dele, Bibich experimenta vinhos tintos com variedades locais: Babich, Plavina e Lasin, além de híbridas da Syrah e da Grenache.
Não conheço o vinho. Mas o blogueiro diz que ele tem uma bela cor dourada, aromas de torrada, de pinheiros. Acidez viva, sabores minerais e de frutos verdes, com toques de baunilha (o vinho ficou em barril por 18 meses). Alder acha que ele tem semelhanças com um Sauvignon Blanc, Chenin Blanc, Riesling e Gruner Veltliner, cujas características são lembradas nessa bebida de várias maneiras.
Mas esse vinho possui uma carga histórica exclusiva: seu nome conta um episódio da história do país.
Os vinhos são nomeados normalmente ou pela variedade da uva (ou uvas) ou pela região onde as uvas são plantadas e o vinho produzido. De um modo geral, os vinhos do Velho mundo têm seus nomes a partir do local de produção, as uvas utilizadas ou não aparecem ou não tem destaque nos rótulos. Veja os exemplos de Champagne, Bordeaux, Rioja, Chianti etc.
Já nos vinhos do Novo Mundo (todos os lugares menos a Europa), o destaque fica para a varietal utilizada. Nota-se, nessa parte do mundo, que cada vez mais é dada importância às regiões de produção nos rótulos, ao lado do nome da uva utilizada. A grande exceção nesse continente é a Alemanha, onde não é raro encontramos o nome das varietais nos rótulos. Até na França, uma boa quantidade de produtores já começa a acrescentar o nome das uvas na identificação comercial dos vinhos.
No caso do nosso vinho croata, seu nome é Debit, uma uva branca, cujo nome remete não a uma região, mas aos tempos do domínio napoleônico, à solução para um problema nacional. Com essa uva que o povo da Dalmácia pagou seu tributo a Napoleão. Ninguém sabe exatamente que nome tinha antes do imposto. Mas ficou na história como Debit, dívida. Se quiser importar, seu nome todo é: Bibich Debit Skradin 2003.
E os croatas continuam pagando essa dívida. Não mais a imperadores, mas aos consumidores de seu vinho – e, ao que parece, com muita qualidade. Essa é uma história onde todos acabam felizes.

Soluções e problemas

De volta aos fatos do mundo das bebidas mais importantes de 2006 e que certamente continuarão em cartaz. Começamos pelo aquecimento global. Para contrabalançar, tivemos muita matéria sobre vinho e saúde.
Em 2006 o premiado professor Roger Corder revelou mais uma de suas descobertas com os vinhos: os benefícios de um tipo de polifenol, as procianidinas (que existem nos vinhos tintos), que talvez sejam até mais importantes do que o conhecido resveratrol. Corder é professor de Terapêutica Experimental no Instituto de Pesquisa William Harvey, em Londres, e recentemente lançou o livro The Wine Diet, onde apresenta a procianidina como chave para a solução ou melhoria de doenças cardiovasculares. Como em diferentes estudos, esse livro também destaca a importância da chamada dieta do Mediterrâneo, composta de nove elementos: vegetais, legumes, frutas, cereais, peixe, quase nada de laticínios e carne, muita gordura não saturada (azeite), pouco consumo de gorduras saturadas e um moderado consumo de álcool, prioritariamente vinho. Vários estudos comprovam que quando essa dieta é combinada com zero de cigarros, atividade física regular e moderado uso de álcool, teremos um risco bem reduzido de mortalidade originária de doenças cardíacas e de câncer.
Os italianos fizeram uma pesquisa de alcance mundial, envolvendo um milhão de pessoas. Ficamos sabendo que os moderados têm 18% de chances a mais de não morrer (de qualquer causa) do que os bebedores leves e até dos abstêmios. Mais recentemente, pesquisadores da Escola Médica de Harvard e do Instituto Nacional de Geriatria, EUA, descobriram que altas doses de resveratrol podem minimizar os efeitos negativos das dietas muito calóricas. A pesquisa foi feita em ratos. Os que viviam mais eram os que comiam de tudo, uns glutões, obesos. Só que esses ratinhos recebiam diariamente um concentrado de resveratrol equivalente a 1.500 e 3.000 garrafas de vinhos. Aconselho não repetir em casa a experiência.
Assim, em 2006 vimos que o vinho reduz o risco de ataques cardíacos e da aterosclerose, ajuda no combate ao Alzheimer, faz bem para os ouvidos (retardando a surdez) e visão (diminuindo a incidência de cataratas), ajuda no sono, é precioso no combate à diabetes tipo 2 e a vários tipos de câncer (nas mamas, garganta, pulmão e no colo, parte do intestino grosso, na próstata, na pele etc). Isso fora reduzir o colesterol, a incidência de gripes, tornar nossas artérias menos rígidas etc.
Em 2007, certamente teremos um problemão na área dos rótulos: em alguns países, autoridades ligadas à saúde querem que se mencionem os elementos utilizados para clarificar os vinhos (eliminar partículas). Clara de ovo, caseína (uma proteína do leite), cola de peixe (de uma substância retirada das tripas do peixe)? Todos podem causar alergias. Nos EUA, por exemplo, os rótulos já são obrigados a informar sobre a adição ou não de sulfitos, um conservante natural. Voltaremos ao assunto

10.1.07

Uma pergunta de peso

Pergunta: Sônia, um dos presentes que ganhei no Natal foi um maravilhoso jogo de taças de vinho, todas em cristal. Ouvi dizer que louças de cristal contêm chumbo, um veneno. Devo ou não usar essas taças?
Resposta: O mais seguro seria usar essas taças apenas no período de uma refeição. O cristal vai desprender mínimas partículas de chumbo com praticamente nenhum risco para a nossa saúde. Isso foi demonstrado por uma pesquisa realizada em 1991 pela Universidade de Colúmbia, Estados Unidos. O governo canadense também fez o mesmo teste e verificou que no espaço de tempo de uma refeição a quantidade de chumbo liberada por uma taça de cristal no vinho está bem abaixo da concentração de chumbo numa bebida permitida pelas leis do Canadá: 200 partes por bilhão.
A legislação brasileira a respeito, através de uma Portaria de março de 1996, da Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde (veja aqui) determina que vasilhames contendo metais pesados como o chumbo podem chegar até uma concentração de 4,0 mg/kg. Mas observa que “o cristal fica permitido para fabricação de artigos de uso doméstico, somente destinados a contatos breves e repetidos com alimentos”. As refeições estão entre esses “contatos breves”.
Isso porque não devemos colocar nessas taças (ou em qualquer vasilhame de cristal, com um decantador) bebidas ácidas (vinhos brancos, suco de laranja – ou de qualquer fruto cítrico) que tenha ficado nelas por mais de duas horas.
O cristal é um vidro que pode conter até 35% de óxido de chumbo, o que torna o vidro denso, menos quebradiço, translúcido e bem mais atraente, pelo seu intenso brilho. Se friccionarmos o corpo de uma taça de cristal com o dedo, ele vai ressoar como se fosse um sino. A taça de vidro comum não gosta muito de música.
Na União Européia, louças contendo menos de 4% de chumbo são definidas como vidro. A partir de 10% passam à categoria de cristais. Peças com mais 30% de chumbo são as de cristal de alta qualidade – categoria em que provavelmente estão as taças da leitora. Nos Estados Unidos, o rigor é maior: o vidro é considerado “cristal” com apenas 1% de chumbo.
No Brasil, apenas os vidros borossilicatos e sódio-cálcicos são permitidos para fabricação de embalagens e equipamentos para qualquer contato com os alimentos. Os de cristal, só por “breves momentos”.
Aqui, até o uso de chumbo em materiais de pesca (em anzóis e chumbadas) está proibido (serão substituídos por materiais como argila, areia e pó de pedra). Tintas à base de chumbo também estão sob controle.
Riscos. Exposição a níveis altos de chumbo podem causar vômitos, diarréia, convulsões, coma. E até a morte. Anemia é um problema comum, perda de apetite, dores abdominais, constipação, fadiga, insônia, irritabilidade, dores de cabeça, problemas nos rins, até danos ao sistema nervoso central.
As crianças são mais suscetíveis à contaminação, pois seus corpos absorvem o chumbo mais facilmente e seus sistemas nervosos, ainda em desenvolvimento, são rápida e permanentemente prejudicados pelos efeitos do metal. A Saúde Pública dos EUA estima que entre 5 e 10% das crianças americanas carregue uma quantidade nociva de chumbo em seu sangue.
Em concentrações maiores, o envenenamento pelo chumbo leva a ataques apoplécticos, coma e morte. Em níveis de baixos a moderados pode causar desvios de atenção, perda de audição, insônia, crescimento retardado, dificuldades de aprendizado, dores de cabeça e de estômago.
O vinho e o chumbo. Era prática comum na Europa “batizar” os vinhos com aditivos de chumbo, de modo a preservá-los e a adoçá-los – isso desde os tempos dos antigos romanos. Eles adoravam temperos doces. O mais popular deles era o defrutum, um xarope feito de suco de uvas: cozinhava-se o mosto em panelas de chumbo. Submetido a mais radical redução, esse xarope era chamado de sapa, que tinha sabor e aromas agradáveis. Pois a sapa era empregada regularmente como aditivo do vinho e também no preparo de vários pratos da cozinha romana.
O chumbo pode causar, entre vários problemas, infertilidade e a uma alta taxa de mortalidade infantil. Daí que muitos autores concluem que a digestão do defrutum e o fato de comer-se e beber-se em utensílios de bronze contendo chumbo foi um fator a contribuir para o declínio do império romano.
O hábito de batizar o vinho com essa mistura rica em chumbo foi, sem dúvidas, responsável por um grande número de epidemias e mortes. Mas apenas no século 17 é que essa prática foi reconhecida como originária dos vinhos. Na época, esse mal era conhecido, entre outros nomes, como a “Cólica de Poitou”.
Quem descobriu a origem da doença foi Eberhard Gockel, médico da cidade de Ulm, Alemanha, na época o principal centro de comércio de vinho do país. Uma infestação de cólica na cidade, em 1690, resultou em sérias perdas econômicas para a cidade. E, em razão das descobertas de Gockel, o Duque Eberhard publicou uma lei rigorosamente proibindo a adulteração do vinho com óxido de chumbo. As punições incluíam até a morte.
O nome “Cólica de Poitou” tem origem na região em volta da cidade de Poitou (habitada no tempo dos romanos pela tribo dos Pictones), uma antiga província da França, cuja capital era Poitiers (é atualmente a região de Poitou-Charentes). Poitou tinha triste fama tanto pelos seus vinhos rançosos como pela longa endemia de cólica convulsiva e dolorosa sofrida há tempos pelos seus habitantes. A doença causava danos no sistema nervoso central, levando à paralisia, cegueira e, com freqüência, à morte.
O médico Gockel era, sobretudo, muito astuto. Ele cuidava dos monges de dois mosteiros em Ulm, cujos monges bebiam do mesmo vinho, na mesma quantidade, todos os dias. E caíram doentes ao mesmo tempo, com os sintomas da famosa cólica. Os monges que não bebiam desse vinho não foram afetados. Não foi difícil para o médico descobrir a origem do mal.
O Duque de Ulm merece também nossos aplausos: ele talvez tenha publicado a primeira lei da história em defesa dos consumidores.
Assim, leitora, use muito pouco os seus cristais. Apenas por “breves momentos”, durante as refeições. E evite guardar vinhos ou qualquer outra bebida em decantadores de cristal. Mas não jogue fora as suas taças. Elas podem virar lixo e o o seu chumbo contaminar o solo, as plantas e os animais. E, no fim, numa simplória alface, estar de volta à nossa mesa
Da Adega
Liquidação na Expand. A sua hora de ter um importado de qualidade por preços camaradas chegou. Todas as 35 lojas da importadora, entre 10 e 31 de janeiro, vão colocar mais de 70 rótulos com descontos que chegam aos 50%. Não duvide, veja só alguns exemplos:
Terralis Bi-varietal – Trivento Bodegas (Argentina) - De R$ 13,90 Por R$ 9,90
Viña Enterizo Crianza – Bodegas Coviñas (Espanha) – De R$ 38,00 Por R$ 26,60
Montefino Reserva – Monte da Penha (Portugal) - De R$ 89,00 Por R$ 60,50
Fortant de France Syrah – Robert Skalli (França) - De R$ 35,00 por R$ 24,50
Prosecco VSAQ La Pieve – Wisco (Itália) - De 45,00 por R$ 31,50
O nome do evento é Expand Sale. Você pode parcelar os pagamentos em duas vezes para compras acima de R$ 200,00. De R$ 300,00 para cima, divide em 3 vezes. Valem cartões (VISA, Mastercard, Dinners e American Express).
Mais informações pelo telefone (11) 3847-4747. Saiba onde estão as lojas Expand
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Curso Intensivo de Vinhos. Não perca o Curso Intensivo do Grupo de Estudos e Degustação de Vinhos. Vai de 14 a 18 de janeiro, no Hotel Porto Bay Rio Internacional (Av. Atlântica, 1.500, Copacabana). Serão degustados 40 vinhos, ministradas 30 horas de aulas – que cobrirão, com degustações e almoços harmonizados, os vinhos do Novo e Velho mundo e os vários estilos de vinho.
Mais informações com pelo telefone (21) 8606-1506 ou com o Mike, via
riomikewines@yahoo.com.

9.1.07

Outras combinações

A coluna sobre vinhos e comidas, publicada recentemente, foi a vice-campeã de e-mails de 2006, perdendo apenas para Os Esnobes do Vinho. Contudo, a combinação que mais chamou à atenção foi aquela sobre vinhos e insetos, que retirei de uma matéria de 2004 da Wine Spectator. O colunista falava de combinar vinho com escorpião, com tarântula etc.
Mas existem outras combinações, amiga. E bem criativas. Vejamos:
Vinho e Música. Qual o melhor vinho para ouvir um Eric Clapton? Tem gente que aposta num Chardonnay fermentado em barril. Nessa linha, o colunista David Swingler, do site Wine. investiga várias possibilidades. Swingler, cientista e músico formado, fez uma experiência sobre como a música pode afetar nossa experiência com um vinho. Um vinho ouvindo Jimi Hendrix teria que nota? E o mesmo vinho ouvindo Mozart? E por aí vai a experiência, que embora não tenha nada de científica, sabemos que uma briga entre namorados com o fundo sonoro de um funk neurótico dá em baixaria.
Mas combinação de vinho e música, no duro, que fez foi o premiadíssimo músico australiano Tony King. Seu novo álbum, Wine Music, foi criado inteiramente a partir de sons feitos pelo vinho e seus acessórios. Passou dois anos tirando rolhas e gravando os seus “plops”, assoprando bocais de garrafas, batendo em barris de carvalho, nas laterais de taças de vinho (daquelas finíssimas, as Riedel) e gravando o fervilhar das uvas fermentando.
“As flutes de Champagne soam como violinos e órgãos... os barris pareciam tambores africanos”, disse King, que então escreveu as músicas que descreve como algo que gostaria de ouvir num jantar à luz de velas. Nesse seu último CD, cada instrumento tem relação com vinho. Com as taças, pôde fazer reproduzir diferentes notas, pois encheu quarenta delas, de diferentes formatos e tamanhos, com ajuda até de um conta-gotas de modo a que oferecessem o som certo. “Uma gota a mais ou menos pode fazer uma nota mais ou menos aguda”, explica. O músico, inclusive, criou sons novos esfregando seus dedos em taças de vinhos ou batendo numa taça de champagne com o saca-rolha.
São 11 músicas no CD, com títulos como “Journey to the Barrel” (“Viagem ao Barril”), “Sunrise on the Vine” (“Amanhecer na Vinha”), “Perfect Blend” (“A mistura perfeita”) etc.
Nesses dois anos, King utilizou apenas os vinhos que gosta de beber. “Esse era o prêmio, após cada sessão de gravação”, diz o australiano. É o caso de se ouvir e de também lembrar que, em alguns casos, é inevitável, justo e até ótimo beber no trabalho.
Vinho e Charutos. Arre! Agora temos também essa novidade. Um produtor de vinhos sul-africano criou o primeiro charuto específico para complementar os sabores de vinhos tintos finos.
O nome do moço é Mike Ratcliffe. Seu negócio é vinho e não charutos. Mas ele se frustrava pelas paupérrimas (eu diria impossíveis) combinações que os charutos fazem com os vinhos tintos. “A maioria deles é feita para ser fumada com um copo de conhaque – e mataria qualquer vinho que bebêssemos”. (Às vezes mata o conhaque e certamente o fumante).
Então, Ratcliffe, que é um figurão do vinho na África do Sul, criou uma parceria, a Vilafonté, que junta especialistas norte-americanos e sul-africanos, parar criar a primeira vinícola do país cuja proposta é produzir vinhos exclusivamente para o mercado dos Estados Unidos.
A vinícola produz apenas dois vinhos: a Série C, com a clássica combinação de Bordeaux: Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Malbec. E a Série M, blend de Merlot, Malbec e mais um tanto da Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc.
E agora, a grande novidade: um charuto, o Vilafonté Série X para ser consumido ao lado de vinhos do mesmo rótulo. É um Corona longo, de estilo leve, utilizando fumo cubano (o miolo) e capa da Sumatra. O charuto é montado e amadurecido na fábrica de Tamboril.
O dono da Wine Spectator, Marvin Shanken, também fuma charutos: é raro uma foto sua aparecer sem a presença do edipiano símbolo. Pudera, ele também edita a revista Cigar Aficionado, onde, fora os charutos, só aparecem destilados. Nada de vinhos.
Enfim, taí, amiga: em vez de você se esconder na garagem, com os tradicionais e fortes charutos, agora talvez possa ficar aguardando na varanda (se o ventilador estiver funcionando), enquanto o queridinho faz puff, puff na sala.
Em seguida, temos uma das combinações mais apreciadas pela Soninha.
Vinho e Poesia. Pois existem críticas de vinhos como as que gostaríamos de fazer: através de poesias. Diacho, porque não pensei nisso antes?
Estou falando do nova-iorquino Lane Steinberg, cujo blog Red Wine Haiku consegue refrescar uma antiga tradição poética e dar uma cambalhota na maneira conservadora de comentar sobre vinhos. Ele usa apenas e exclusivamente formato dos haiku (ou haikai, ou hai-kai) japoneses. E só comenta o estilo de vinhos que mais aprecia: os tintos.
Haiku é uma forma poética originária do Japão, surgida lá pelo século XVI. É a arte de dizer o máximo com o mínimo. Saiba mais aqui.
Veja o que ele diz sobre o vinho francês Antoine Rodet Gevrey-Chambertin 1998:
Nariz como um cachoro
Sorando umidade como chuva forte
Mas bebe-se como um sonho
Vinho e TV. Pois o seríssimo crítico inglês Jamie Goode propõe uma combinação de vinhos com programas de TV. Jamie Goode tem PhD em biologia, foi editor, e escreve uma dos mais importantes sites sobre vinho, o wineanorak.com Tem também um blog imperdível.
Ele fala que a tradição é consumirmos vinhos à mesa, com a comida. Logo, não tem crítico, revista ou jornal que deixe de falar do que estamos falando (colateralmente): combinações. Mas o inglês se permite a uma digressão.
Acha que nos dias de hoje a maioria dos vinhos não é consumida à mesa, mas em frente à telinha. Então, ele sugere vinhos para acompanhar alguns dos programas da TV inglesa. Para ele, isso seria mais relevante para a maioria dos seus leitores. Vivo tomando espumante com pipoca diante da TV. Só consigo parar lá pelas 11 da noite. Cadê forças e vontade para jantar?
O guia que Goode sugere vale, claro, para a TV inglesa. Vou tentar adaptá-lo, quando for o caso.
Jornal da Noite. É o Newsnight da BBC2, que tem um pouco mais conteúdo político e social do que o Jornal da Globo, comandado pelo ótimo William Waack. As notícias do dia repassadas com mais comentários, mais interpretações.
Devemos beber, então, algum vinho sério, mas que não chame muita atenção. Um Riesling do Mosel Saar Ruwer, por exemplo.
Hustle. Ah, essa série ainda passa aqui. Acho que se chama Hustle: o Golpe. Nela, um grupo de espertalhões bem educados e vivíssimos aplica golpes, mas quase que exclusivamente em cima de outros trambiqueiros. Tipo Robin Hood, ladrão que rouba ladrão. Inspirada nos originais Ocean’s Eleven, o Golpe (The Sting), esse grupo de ingleses compõe tramas sofisticados, bem escritos e desempenhados, onde você rara, raramente ouve um tiro ou vê um dedinho machucado. Passa na People & Arts, acho eu, bem de madrugada. É sofisticada, merece um champagne, ou um dos ótimos espumantes do Vale dos Vinhedos, RS. Tem que ter pipocas sobrando.
Law & Order. Série de sucesso aqui, com bastante sangue rolando, mas bem narrada e, até certo ponto, didática (a estou substituindo por Midsomer Murders, a citada por Goode). É do tipo: crime cometido e nossos detetives e promotores farão justiça. O mal impera na primeira parte, para perder (na maioria das vezes) na segunda.
Para combinar, um inofensivo e barato Chardonnay nacional.
Inspector Morse. Essa série já passou por aqui e não sei porque não a repetem. O personagem principal, Inspetor Endeavou Morse, interpretada magnificamente por John Thaw, resolve problemas muito intrincados na lendária Oxford.
O inspetor Morse gosta de óperas, anda num antigo e valioso Jaguar, ainda por cima é solteiro, tem um ou outro caso. E gosta de beber bem.
Para vê-lo em ação basta conseguir algo sofisticado, intelectual e, sobretudo bem tradicional, como um Leoville Barton 1982, de St. Julien. Custa 150 dólares a garrafa. É só para ver de vez em quando, se não estouramos o orçamento.
Ground Force. É um reality show sobre jardinagem, um dos esportes favoritos dos ingleses. Uma equipe aparece de repente em sua casa e renova o seu jardim. Assim, de repente. Ninguém em Copacabana iria se incomodar. Aqui, um equivalente próximo seria Minha Casa, Sua Casa, também da People & Arts. Não gostaria de ver o meu quarto pastel ganhar um roxo cardinalício. Nem ninguém enxotando minhas galinhas para reformar o meu jardim. Ficaria chocada. Mas...
Para combinar: um vinho alemão barato, como o Blue Nun, ou um chá verde.
Como contribuição, já que na Inglaterra de Goode não existem as novelas como as daqui, acrescento:
Páginas da Vida. Um vinho de garrafão. Por exemplo, o 7 Irmãos Tinto Bordô Seco(exatamente assim como está escrito, caro revisor), com quase cinco litros, dá para você acompanhar tudo aquilo por uma semana. Em mais um mês, você compra outro garrafão e assiste mais uma semana. Nem o vinho ou a novela estariam mudados. Custa só 24 reais. Na véspera do Ano Bom, o seu Plínio aqui da vendinha baixou para R$ 21,00 e vendeu tudo.
Com relação à TV, se a combinação não está a esperada, desligamos o aparelho ou paramos com o vinho. A mesma coisa com as comidas e vinhos.
Se o vinho lhe parece muito agressivo, coloque um pouco de limão, vinagre ou sal à comida. Se um prato muito ácido retira do seu vinho as frutas que você espera dele, junte açúcar à comida. Até mesmo, neste caso, o ketchup, com seu açúcar e acidez, podem ser bons aliados.

8.1.07

Enquanto Nero canta

Quanto aos vinhos, quais seriam as notícias mais importantes de 2006, aquelas que talvez tenhamos de volta em 2007?
Para mim, a mais importante continua sendo o que lemos sobre o aquecimento global, definitivamente afetando vinhedos em ambos os hemisférios. Se o vinho revigora e refresca, nós, humanos, conseguimos alterar a composição da atmosfera, aumentando os níveis de gases como o dióxido de carbono, o metano, o óxido de azoto e os clorofluorcarbonos (usados em aerossóis e geladeiras). Eles danificam a camada protetora de ozônio e agem também como gases do efeito estufa, absorvendo a luz do sol levando ao aquecimento do planeta. Prevê-se um aumento de 2 a 6º C para os próximos 100 anos, maior do que qualquer aumento de temperatura registrado desde o aparecimento da civilização na Terra. Caso essa emissão de gases não seja controlada, iremos provavelmente assistir às maiores catástrofes naturais já registradas no planeta. E somos nós os responsáveis por esse desastre, segundo o Painel Intergovernamental sobre a Mudança de Clima (IPCC). Veja aqui.
Vai haver mudança de toda a ordem. O desaparecimento das neves das montanhas diminuirá a quantidade de água disponível para uso doméstico e para irrigação. Isso já acontece nos Andes e começa a afetar Mendoza, Montreal e a Califórnia e os vinhos dessas regiões.
Os canadenses se preocupam com o seu Icewine, o “vinho de gelo”, cujas uvas devem ser colhidas sob a neve, congeladas a abaixo de menos 8º C. Está difícil colhê-las esse ano. No Alasca e no Pólo Norte, geleiras e calotas estão derretendo.
As produções agrícolas em áreas frias podem até aumentar, enquanto as de áreas quentes ou secas podem diminuir. Teremos problemas de alimentação – num momento em que a população mundial está aumentando, o que causará impacto ambiental ainda maior (com mais recursos consumidos e mais rejeitos descartados per capita). O aumento do nível dos mares como resultado do derretimento de neve e gelo trará perigos de inundação e erosão de planícies costeiras. Não só o aumento das águas, mas o seu aquecimento, com as conseqüentes tempestades, furacões.
O aquecimento global não é assunto passageiro, veio para ficar. Há de se tomar atitudes firmes para resolvê-lo ou pelo menos atenuá-lo. Ele apresenta riscos reais para a todo o planeta, não apenas para o mundico dos vinhos.
Ah, diria o otimista: isso vai ser bom, pois poderemos ter vinhos na Suécia, tintos na Inglaterra, na Alemanha. Ah, os novos Cabernets, Merlots, Chardonnays etc. Soa a Nero cantando diante de Roma incendiada. Voltaremos com outros fatos de 2006 que ainda não se resolveram.

31.12.06

De poça em poça

Tentei comprar pão na vendinha do seu Plínio, aqui perto de casa, em Secretário. Mas era 1º de janeiro e feriado para todos, inclusive para seu Plínio. Na volta, de mãos abanando, busquei assunto para a coluna, pulando de poça em poça, pois a chuva não para.
Vinho e Tratamento de Beleza. Taí um bom assunto para o Bolsa. Duas repórteres americanas perguntaram a estrelas de cinema quais os seus segredos de beleza. E colocaram tudo num livro, The Black Book of Hollywood Beauty Secrets . E lá descobrimos que Teri Hatcher toma banho com vinho tinto. Fiquei chocada, desperdiçar essa boa bebida na banheira? Teri Hatcher, 42, é quem faz a confusa e divertida divorciada Susan Mayer no Desperate Housewives. Indicada para melhor atriz num Emmy e um Globo de Ouro, ela já foi a Kiki Tango no filme Tango & Cash, Lois Lane, na série Lois & Clark: The New Adventures of Superman, entre outros papéis.
Melhor não. Já andei falando da Caudalie, o famoso spa francês que utiliza vinhos e seus subprodutos (cremes, óleos etc.) e é freqüentado por famosíssimas estrelas de cinema. Dei o nome de algumas delas aqui e uma até botou advogado atrás da Soninha. Não deu em nada, pois nossa referência era legítima. Curioso: elas fazem tratamento mas não querem que ninguém saiba.
Diferente da Teri, que conta tudo o que faz para continuar linda. Mas gastar todo aquele vinho numa banheira, menina?
Fico com a Susan Sarandon. Para ela, a felicidade é a verdadeira arma da beleza.
Splash, pisei numa poça!
Château Al Qaeda. Quem sabe apelar para sensacionalismos? Agora mesmo, no Natal, a polícia peruana apreendeu em Chiclayo, ao norte de Lima, o Champagne Bin Laden.
Custava apenas um dólar a garrafa. Pensa o quê? Que o espumante foi retirado em razão do seu nome? Nada disso: seu fabricante é clandestino e sua venda ilegal. Além disso, a polícia suspeita que o produto pudesse até cegar seus consumidores. Tenho certeza que, se o vinho continuasse no mercado, os franceses iriam protestar pelo uso ilegal da palavra champagne.
O mundo dos vinhos pode cegar, sem dúvidas. Na Itália, o produtor Lunardelli, vende vinhos com fotos de Hitler, Mussolini, Stalin, entre outros, desde 1995. Fatura direitinho, legalmente. Um casal norte-americano ligado à área de entretenimento lançou o vinho Jesus Juice, “Suco de Jesus”. No rótulo, um Michael Jackson desnudo, apenas com uma tanga, fazendo as vezes de crucificado.
Splash, splash! Pronto, acabei de ensopar minhas botinhas, mais meias e pés. Amanhã, é a lama, é a lama. É pau, é pedra! Diacho, as águas de janeiro já estão fechando o meu verão e ainda não encontro um bom assunto para a coluna.
Tá todo o mundo fazendo. Quem sabe não falo do questionário que o site de vinhos do casal De Long está passando para os seus leitores? Na linha das aberrações do Champagne Bin Laden e dos vinhos do Lunnardeli, o site pergunta quais foram os vinhos mais “ultrajantes” de 2006. É um bom assunto, que vez por outra abordo aqui.
No mundo dos vinhos, além da batalha de egos, temos também a moda da permutação: cantores, atores, modelos, socialites, treinadores de futebol, todos fazem ou se ocupam com a bebida. É um troca-troca já conhecido: cantores atuam, atores cantam, esportistas assinam grifes etc. O vinho é apenas uma nova fronteira. Assim, temos o da Madonna, do Francis Ford Coppola e até o da atriz pornô Savanna Samson (seu vinho, o Sogno Uno, recebeu nota 91 do supercrítico norte-americano, Robert Parker).
O casal De Long submete os seguintes rótulos:
Diesel Farm Rosso di Rosso 1999 – criado pelo magnata dos jeans pra lá de caros, o italiano Renzo Rosso, fundador da Diesel. É produzido por Roberto Cipresso, o mesmo que faz o “Sogno Uno”, de Miss Samson. Custa US$ 225,00, em NY.
Royal DeMaria 2000 Chardonnay Icewine. É feito pelo agora ex-cabeleireiro, Jospeh DeMaria, no Canadá. Custa hoje US$ 30 mil. Porém, perto da última unidade, DeMaria promete que seu preço chegará a US$ 500 mil por uma garrafa de 375 ml. O mais caro icewine “normal” (nota 100 de Robert Parker) é o Hermann Donnhof Riesling Eiswein Oberhauser Brucke 2001: US$ 250,00.
Gold – é um Chardonnay com a garrafa carregada de “flocos” de ouro 24 quilates, numa nova criação do vinhateiro americano Jackson Woodbridge, de Napa. O rótulo fala de líderes tribais, reis, lendas, batalhas, mistérios etc. – mas nada indica a safra, nem a região. Apenas que é feito na Austrália. Vende por 30 dólares. Nem tudo que reluz...
Mike Ditka Kick Ass Red. Já falei dele aqui: Mike Dikta, um famoso ex-treinador de futebol americano (aquele em que a bola parece um zepelim), ganhador do Super Ball, a Copa do Mundo deles, também lançou seu vinho. Claro que em parceria com um vinicultor da Califórnia. Seu nome poderia ser “Vinho Legal Tinto de Mike Ditka”. Ou, ao pé da letra, “Tinto Pé na Bunda de Mike Ditka”. Um pé na bunda e você ainda paga 50 dólares.
E tem mais o Kiss This, que comemora os 30 anos da banda de rock “Kiss”. É produzido pela americana Celebrity Cellars – que tem vinhos dedicados a Madonna, Pink Floyd, Rolling Stones etc. Cada beijo custa US$ 100,00.
Eu acrescentaria o espumante austríaco Kattus Hochriegel 2004, cuja garrafa vem adornada com 49 diamantes, e custa US$ 13.200,00. Um joalheiro vienense levou 38 horas para colar os diamantes na garrafa, que será vendida num leilão, no próximo dia 22.
Vinhos? Tá todo mundo fazendo. Melhor assoviar o Let’s do it, de Cole Porter. Ou Façamos, na comportada versão do Chico Buarque.
Enfim, cheguei em casa, completamente encharcada. Depois dos splashes, os atchins vêm aí, sem dúvidas.
Desejo às amigas entradas bem melhores que as minhas. Se tiverem sugestões para a coluna, por favor cliquem aqui para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

27.12.06

Não é água, não

Pensei que estava dançando até que alguém pisou na minha mão. Pois é, com muito álcool você vai dançar, de alguma maneira. O Natal na minha casa é pelo menos seis ou sete vezes melhor do que em qualquer outro lugar. Enquanto a maioria vê apenas um Papai Noel, vemos sempre seis ou sete. W. C. Fields (1880 - 1946), o famoso ator cômico e bebum.
O álcool está entre nós há milhares de anos. Não tem cheiro, cor ou sabor. E é venenoso, com exceção do etílico – tolerável em pequenas quantidades. O problema está nessas pequenas quantidades. Quando consumido, ele passa do nosso estômago para o trato digestivo de onde entra na corrente sangüínea, minutos após o ser bebido. Boa parte (90%) é absorvido em uma hora. Viaja por toda a parte de nosso corpo, especialmente o cérebro, o fígado e os rins. Já na corrente sangüínea, o fígado começa a eliminá-lo através dos rins. Uma pequena quantidade sai via nossa respiração, lágrimas, saliva e transpiração. Mas remédio algum vai ajudar a eliminá-lo mais rapidamente.
Quando você acha que o seu trabalho está interferindo com a sua bebida, quando você não consegue chegar até o fim dessa coluna, dorme e se cobre com o jornal, cuidado.
O álcool é um sedativo do nosso sistema nervoso central. Quanto mais bebemos maiores serão esses efeitos sedativos. Tudo vai depender de quanto bebemos, da rapidez com que bebemos e de nosso tamanho e quantidade de gordura.
Se não fosse pela azeitona de seu Martini, você morreria de fome? Com um ou dois drinques, ficaremos mais à vontade socialmente. Em quantidades ainda maiores, nossas funções mentais vão desacelerar, perderemos a memória, o poder de julgamento, a coordenação motora, teremos a fala enrolada, a visão turva, náuseas, vômitos e eventualmente até a morte.
Você acordou sentindo-se estranho porque não percebeu que não tinha ficado de ressaca?
A ressaca é causada por desidratação. O álcool é diurético e aumenta a saída de líquidos do nosso corpo, que fica seco e nos faz mais sedentos. Bebidas escuras (vinho tinto, uísque, conhaque) têm mais congêneres (subprodutos da fermentação), que contribuem para as piores ressacas. Se beber muito e rápido, maior será a quantidade de álcool no sangue e maiores os seus efeitos tóxicos no cérebro e a irritação em nosso estômago. Daí que beber de estômago cheio, bem forrado, vai ajudar a reduzir a taxa de absorção do álcool.
Seus amigos acham que você "fica estranho" sempre que o encontram sóbrio? Para cada drinque, um copo d’água. Sempre acompanhe a bebida com algo para comer. Beba devagar. Dilua seus drinques. Não misture bebidas. Antes de ir para cama beba pelos menos uns três copos d’água. E Feliz 2007. Você não sabe se fui eu ou você que disse isso?

26.12.06

Milhões de bolhinhas para você

Sabe mesmo qual a diferença entre Cava, Prosecco, Sekt e Crémant? Prefere seu Champagne brut, sec ou demi-sec?
Já que vamos brindar o 2007 daqui a pouco e quase que certamente com um espumante seria interessante falarmos um pouco mais sobre essa maravilhosa bebida.
Aquele monge. Claro que você já ouviu falar em Dom Perignon, um monge beneditino francês do século XVII tido como o “inventor” do champagne. Acontece que os espumantes já existiam muito antes do monge. O que ele fez foi melhorar muitos dos procedimentos utilizados na produção desse famoso espumante. Ele chefiava as adegas da Abadia de Hautvillers, em Epernay (região de Champagne). Aplicou suas idéias de colher as uvas seletivamente, durante um período de dias e não todas de uma vez; e também de misturar vinhos de diferentes variedades e vinhedos. Seus métodos são seguidos até hoje pela casa Moêt & Chandon (seu vinho principal tem seu nome) e por outras.
Mas de onde? Todo o Champagne é espumante. Mas nem todos os espumantes são champagne. O nome champagne pertence por tradição e direito aos espumantes feitos numa região do nordeste da França centrada em torno da cidade de Reims, bem perto de Paris. É uma área mais fria, as uvas são colhidas menos maduras e mais ácidas.
O nome Champagne, inclusive, foi protegido pelo Tratado de Versalhes, que deu fim à 1ª. Guerra Mundial. Só que os Estados Unidos já eram o que são hoje: não honraram o Acordo de Kyoto, sobre o meio ambiente, como não assinaram oficialmente o Tratado de Versalhes. Daí que muitos produtores americanos chamam o seu espumante de champagne – uma prática que a União Européia muito recentemente conseguiu abolir (é o que declaram).
A região de Champagne produz quase que 10% de todos os espumantes do mundo. Os borbulhantes franceses produzidos fora dessa região são chamados de crémant. Portanto, crémant du Jura, crémant d’Alsace, crémant de Bordeaux são Appellation d’Origine Contrôlée para suas respectivas regiões.
Nos Estados Unidos, os espumantes se originam principalmente da Califórnia e de Nova York e são produzidos (inclusive por muitas casas francesas) a partir de uvas colhidas mais maduras e, por isso, resultam mais frutados.
A Espanha é a terra dos deliciosos Cava, produzidos em sua maioria na região de Penedés, ao sudoeste de Barcelona. São produzidos pelo mesmo método de Champagne: uma segunda fermentação dentro da garrafa.
Na Itália, o nome é Spumante. Se for feito com a uva moscatel é chamado de Asti. O norte do país produz uma penca deles: o doce Asti, o seco Franciacorta e o frutado e nosso muito conhecido Prosecco.
Na Alemanha são chamados de Sekt, na maioria das vezes originários dos Vales do Reno e do Mosel. Temos Sekts feitos pelo mesmo método de Champagne ou pelo sistema do tanque (método Charmat). O alemão é o maior consumidor de espumante do mundo. Sekt é uma redução popular que substitui o “caminhão” Qualitätschaumwein-(“vinho espumante de qualidade”). Em vez de você pedir: “Me dá um Qualitätschaumwein”, pede um Sekt. Bem melhor, né?
Temos ainda a Austrália, com o Hot-Red (que tem uma cor rubi), feito com a uva Shiraz.Agora, você não pode esquecer dos nossos espumantes. Esse ano vou provar um prosecco da Casa Perini, feito em Garibaldi, RS. Confio muito nessa produtora, cuja enóloga, Vanessa Stefani, foi jurada (a convite da Associação Brasileira de Enologia) no VI Concurso La Mujer Elige, realizado em Mendonza na Argentina, em outubro. Considere alguns dos mais premiados nesse concurso. Veja aqui.
Por falar em uvas. Já viu que os espumantes se utilizam de diferentes uvas.
Quando no rótulo de um champagne você encontrar a palavra Cuvée, ela se refere a um “blend”, a uma mistura de vinhos. Em Champagne, as grandes produtoras criam os seus estilos exclusivos misturando vários vinhos antes de chegar ao produto final, ou seja: produzindo uma segunda fermentação dentro da garrafa, o chamado Méthode Champenoise. Cuvée deriva de cuve, tanque, denotando “o conteúdo de um tanque”.
Fora de Champagne, cuvée é também utilizado para vinhos parados (sem borbulhas). Pode significar vinhos com uvas de diferentes vinhedos, ou mesmo uvas de variedades diferentes.
Em Champagne, na grande maioria das vezes, temos um cuvée de três uvas: Pinot Noir (que dá corpo e estrutura ao vinho); Chardonnay (frescor e delicadeza) e Pinot Meunier (aromas de flores e de frutas).
Fora dessa região outras uvas são utilizadas, como vimos acima.
Os estilos. São três: o Blanc de Noir (Brancos de Pretos). As cascas da uva tinta Pinot Noir são prensadas de modo a ficar pouco tempo em contato com o suco – e daí não impregna-lo com a sua cor. O resultado, claro, é um vinho branco feito com uma uva preta.
Blanc de blanc: um branco de branca – que apenas utiliza a Chardonnay, uma uva branca e de cascas brancas.
Por fim, temos o Rosé: um vinho rosado feito com a adição de vinho tinto ao branco. Ou deixando-s as cascas da uva tinta um tempo maior em contato com o suco branco.
Os métodos. O segredo é prender as famosas bolinhas dentro da garrafa. Elas são formadas pelo dióxido de carbono, o gás resultante da fermentação. Para isso, os produtores se utilizam de dois recursos.
O histórico, muito trabalhoso, que implica numa segunda fermentação na garrafa, é chamado de Méthode Champenoise, Classique ou Traditionelle. O suco das uvas fermenta em tanques de aço inoxidável por duas ou três semanas. Em seguida é misturado com açúcar e fermento (chamado liqueur de tirage) e colocado em sua garrafa com uma tampa metálica. A segunda fermentação, que vai acontecer de um a três anos, captura as famosas bolhas na garrafa.
Quando finalmente esse sedimento é retirado, rapidamente o produtor coloca uma dose de açúcar na garrafa e só então a garrafa é arrolhada. É essa dosagem de açúcar (chamada de açúcar residual) que vai decidir pelas várias categorias da bebida, a partir da sua doçura.
Veja abaixo, tal como o Oxford Companion to Wine nos ensina (o que temos aí são gramas de açúcar residual por litro):
Brut nature: 3 gramas de açúcar;
Extra brut: 6 gramas;
Brut: 15 gramas;
Extra sec (extra seco): 12 a 20 gramas;
Sec (seco): 17 a 30 gramas;
Demi-sec (meio seco): 33 a 50 gramas;
Doux (doce): 50 gramas.

Como vê, amiga, demi confuso, não?
Já o método Charmat (nome do francês que o patenteou) é mais econômico e rápido. O vinho é submetido a uma segunda fermentação em tanques de aço e engarrafado sob pressão.
Para entender os rótulos. A maioria dos espumantes (isso vale particularmente para os de Champagne) não traz o ano da safra nos rótulos. São os NV (Non-vintage), pois dentro da garrafa temos uma mistura de vinhos de safras diferentes. Muitos NV são misturas de 30 ou 40 diferentes vinhos.
Mas quando no rótulo temos o registro do ano, o Champagne é Vintage, significando que aquele ano em particular resultou em uvas espetaculares. E o espumante é feito apenas com as uvas daquela safra.
Um Champagne Non Vintage reflete o estilo do produtor, enquanto o Vintage espelha o ano.
Cuvée, já vimos, é o termo francês para mistura, “blend”. A expressão Prestige cuvée significa que o produtor usou as melhores uvas de uma determinada safra: é um espumante de longa vida e normalmente custa mais.
Por falar nisso, os mais caros espumantes são os que têm as menores bolhinhas, cerca de 50 milhões delas, presas dentro da garrafa sob um pressão de 90 libras (o pneu de um carro médio leva umas libras). O que explica porque os vidros e as rolhas das garrafas de espumantes são mais grossos dos que os das demais garrafas.
Mas os espumantes não precisam amadurecer, ficar algum tempo na adega antes de serem consumidos. São vendidos prontos para beber.
Devem ser bebidos em torno dos 8º C. E abertos assim: segure a rolha com o seu polegar e uma toalha. Vagarosamente, gire a garrafa (e não a rolha). Não deixe a rolha se ejetada. É perigoso. Quanto mais silenciosa é sua retirada mais perfeito e elegante foi o seu trabalho.
E, pronto, dê vivas ao ano novo que chega. Ou a qualquer coisa que você ache que vale a pena brindar. Até mesmo o espumante que você escolheu. Você e todas as minhas amigas merecem.

19.12.06

Evite as tarântulas

Já planejou o que vai servir na ceia de Natal? Já sabe que vinho ou vinhos deverão ser oferecidos para combinar com os acepipes?
Olhe, já li sobre como combinar vinhos e insetos! Pensa que foi algo ligado a treinamento de boinas verdes? Nada disso: o redator da revista especializada Wine Spectator, Nick Fauchald, relata uma experiência sua em 2004, quando até gostou de escorpião bem torradinho com Sauvignon Blanc. “Nada mau”, confessou. Ah, teve também uma tarântula que foi bem com um Chardonnay amanteigado. “Combinam muito bem!”, revela o herói. Pois ainda temos grilos com Pinot Noir. Eu estaria dependurada no lustre da sala, berrando por socorro, pedindo um copo de Listerine, pelo amor de Deus. Isso é matéria para os enochatos. “Ontem, comi uma centopéia com Cabernet, não qualquer um, mas um vero Bordeaux; a bichinha perfeitamente tostada. Experiência única, imperdível”. Fala de boca cheia e eu com ânsias de vômito. Veja aqui.
Alguns princípios. Tiro da frente a idéia de que combinar comidas e vinhos seja uma ciência misteriosa. Ela é até muito simples, basta que não paremos de experimentar – e de nos divertir. O que está abaixo vem de experiências pessoais, em casa e em restaurantes. Nessas experiências procurei repetir dicas de críticos e selecionei as que para mim deram mais certo. Entre esses críticos figuram: o inglês Jamie Goode e o jornalista Craig Schweickert (que escreve eventualmente para o site Wine LoversPage.com). Alguns princípios foram seguidos:
Tintos com carne vermelha, brancos com carne branca. Claro que você já ouviu isso centenas de vezes. Mas esse velho princípio funciona bem quando você tem um vinho tinto jovem, com muitos taninos, que vai suplantar um prato delicado de carne branca, um simples peixe, por exemplo. Ao mesmo tempo, um vinho branco, bem fresco e delicado, como o Viognier, vai sumir perto de um suculento rosbife.
Mas temos as exceções. Uma galinha assada não deixa de ser carne branca, mas em termos de paladar, presença e potência, funciona como carne vermelha. Logo, o melhor é optar por um tinto para acompanhá-la. O mesmo acontece com peixes de grande presença como o salmão.
Essas exceções acontecem também com o divórcio entre vinhos e comidas na gastronomia atual. Temos vinhos cada vez mais alcoólicos, potentes, “bombas de fruta”, incompatíveis com comidas. Por outro lado, a cozinha da moda ficou muito eclética. São mais ingredientes por prato, com grande participação de itens orientais, entre molhos e especiarias. É a tal da fusion. São cada vez mais pratos por refeição. Fica complicado (e caro) escolher apenas uma garrafa por refeição.
Iguais com iguais. Procure um vinho com sabores e aromas que lembrem os sabores e aromas de sua entrada. Se ele é ligeiramente doce, por exemplo, tente um vinho que tenha essas características. Não, ele não deve ser necessariamente um vinho de sobremesa, cuja doçura pode matar a sua entrada. Pode ser, por exemplo, um bom Chardonnay do Novo Mundo (quando acompanhando uma rica lagosta).
Os opostos se atraem. Aqui, colocamos a regra anterior de cabeça para baixo. Assim, um vinho ácido como o Sauvignon Blanc (do Loire) pode se dar bem com um peixe rico, de carne gorda, oleoso, como a anchova (não a de lata) ou a cavala.
Beba o que quiser. Agora, se você quiser beber o seu vinho branco preferido com aquele bife mal passado, ótimo! O privilégio é todo seu e não vai ter esnobe para dizer que você está errada. Cada um com a sua experiência e preferência. Revelo agora algumas dessas preferências – minhas, naturalmente.
Carne de Porco. Para mim, fica melhor com brancos bem ricos, como a maioria dos Chardonnays e Pinots Blanc. Um alsaciano com a uva Riesling ou Gewürztraminer: os dois também funcionaram (embora me custassem caro). E até mesmo um Pinot Noir e um Beaujolais Villages assentaram bem. Isso vale para carne de porco, bem como galinha e vitela.
Presunto. Difícil faltar um Tender na mesa natalina. Mas não é muito fácil achar um vinho para combinar com ele, que é muito salgado, sabor muito presente, que ainda por cima costuma vir temperado por cravos e calda de damasco. Procuro vinhos que não briguem com ele, como um Beaujolais, um Pinot Noir saboroso, mas discreto. Se optar por brancos, fico com Riesling ou Chenin Blanc.
Peru. Também não é muito simples escolher um vinho para ele, que oferece tanto carnes brancas como escuras. ambas um tanto oleosas, nem sempre muito amigas de vinhos secos. Minhas escolhas aqui são as mesmas para o Tender: Beaujolais se quiser beber com um tinto. E Riesling e Chenin Blanc caso prefira os brancos.
Bacalhau. Não sei qual das 365 receitas de bacalhau você vai utilizar. Mas, mesmo em Portugal, há um time enorme de gente que prefere o prato com um refrescante vinho verde (que dribla muito bem o sal que costuma ser abundante em qualquer uma das receitas do peixe). Ou um tinto até encorpado. E é fácil conseguir esses vinhos.
Na venda mais próxima aqui de casa, bem pertinho, seu Plínio voltou a vender vinho. Começou com o Periquita 2004 (tinha só uma caixa; seis garrafas ficaram comigo: o 2004 acabou logo e hoje só tem o 2003). Depois, teve uma recaída e passou a oferecer o “Nossa Ceia” (um “Cooler de vinho tinto e suco de uva”, diz o rótulo) que seu Plínio comprou aos montes e vende por R$ 4,50. Mas em seguida, como bom português, comprou o que classifiquei de “Seleção do Mandrake”: além do Periquita, o verde Acácio, o Porca de Murça (o branco e o tinto, da Real Companhia Velha, da região do Douro) e um Dão Terras Altas.
O Mandrake é o personagem principal do ótimo “A Grande Arte”, de Rubem Fonseca. Esse advogado mulherengo bebe vinho sempre que pode – e de preferência os portugueses. Seu Plínio não sabe, mas todos esses são consumidos no livro. Menos o tal do “Nossa Ceia”. E do Acácio ao Terras Altas todos vão bem com bacalhau.
Saladas. Em qualquer dia, inclusive no Natal e Ano Bom, temos saladas lá em casa. Ideal para o calorão. Mas todo mundo sabe que vinagre é um inimigo natural do vinho. Eu raramente tempero minhas saladas com vinagre: uso azeite e sal – no máximo uma ou duas gotinhas de limão. A solução é não tomar vinho durante a salada. Ou criar uma mais amistosa com os vinhos. Por exemplo, a “Caesar Salad”, que leva alface, azeite, pão francês, alho, filés de anchova, um tantinho de mostarda, um tantinho de suco de limão, um pouquinho de pimenta do reino, sal, gemas de ovo, queijo parmesão. Nada de vinagres ou molhos vinagretes. Com esse tipo de salada, a minha escolha é a de um vinho rosado – da Provence ou, mais baratos, alguns da Argentina, com a uva Malbec (mas preste atenção para o volume de álcool: nada que ultrapasse os 13%).
Agora, um bom espumante, dos Champagnes, às cavas, os premiados nacionais – todos eles suportam bem acompanhar todos esses pratos. E podem até fazer par com suas sobremesas – desde que estas não sejam aquele banho de açúcar e chocolate.
Boas Festas, amigas. Evitem as tarântulas e fiquem com os vinhos.

12.12.06

Festas à brasileira

Não entenderia alguém não gostar de receber uma garrafa de vinho cuidadosamente escolhida. Também passo ao largo das questões de etiqueta: o vinho presenteado deve ser servido logo ou o pode ser guardado para uma outra ocasião? A craquérrima Jancis Robinson, inglesa crítica de vinho, Master of Wine etc. e tal, fala de sua experiência: Se alguém me traz um vinho branco ou um espumante, já resfriados, ou um tinto já decantado, entendo que o presenteador espera que o seu vinho seja bebido na ocasião. Já se o convidado coloca a garrafa de lado, sem comentários, você não está obrigada a abri-la. Contudo, a anfitriã perfeita iria desembrulhá-lo, agradecer e perguntar se o seu convidado gostaria de degustá-lo...
Mas o que comprar? As ofertas são tantas, tão variadas que esse é o menor dos problemas. Você estabelece os seus limites: por preço ou por algum diferencial: garrafas assimétricas, com rótulos intrigantes, vinhos com uvas deferentes ou de regiões poucos conhecidas. Ou que pretendam uma redefinição nos hábitos de beber vinhos.
Esse é o caso, por exemplo, do novíssimo Shuttle, uma garrafinha de 187 mililitros que tem como tampa uma taça (também de plástico). Basta girar, virar todo o vinho na taça e pronto. É um lançamento da australiana Hardy Wine Company, no momento em teste apenas no país. Mas se você estiver nadando em dinheiro, quase se afogando nele, pode também tentar comprar uma garrafa (na verdade, meia-garrafa, 375 ml) do canadense Royal DeMaria Chardonnay Icewine, que vai custar 330 mil euros ou meio milhão de dólares.
Pode ainda escolher Champagne – sempre apreciada. Se quiser gastar dinheiro, e achar que a pessoa a ser presenteada é daquelas que bebe o produto francês desde criancinha, tente as Bollinguer, Louis Roederer, Cristal ou as mais caras ainda Krug e Dom Pérignon.
Quais as minhas escolhas? Repito o que venho pregando há tempos: minha grana é curta e o produto nacional melhorou substancialmente. E não apenas os já consagrados espumantes da Serra Gaúcha, mas também tintos e brancos.
Agora mesmo acabo de receber nota informando que nossos vinhos conquistaram 69 medalhas (sendo duas Grande Ouro, 59 de Ouro e oito de Prata) no 3º Concurso Internacional de Vinhos do Brasil, promovido pela Associação Brasileira de Enologia. 420 vinhos de 13 países foram inscritos e 125 receberam medalhas.
Recebemos mais da metade dos prêmios. O júri foi formado por 42 especialistas de oito países, que analisaram vinhos da África do Sul, Alemanha, Argentina, Austrália, Brasil, Chile, Espanha, França, Itália, México, Nova Zelândia, Portugal e Uruguai. O evento acaba de acontecer em Bento Gonçalves, RS, e os premiados brasileiros estão abaixo:
Cavalleri Cabernet Sauvignon (Adega Cavalleri Ltda.) - PRATA
Adega Chesini Gran Vin Cabernet Sauvignon (Adega Chesini) - OURO
Boscato Reserva Merlot (Boscato Indústria Vinícola Ltda.) - OURO
Boscato Gran Reserva Cabernet Sauvignon (Boscato Indústria Vinícola Ltda.) - OURO
Boscato Gran Reserva Cabernet Sauvignon (Boscato Indústria Vinícola Ltda.) - OURO
Calza Cabernet Sauvignon (Calza Júnior Ind. e Com. de Vinhos) - PRATA
Fabian Reserva Merlot (Cantina de Vinhos Fabian Ltda.) – PRATA
Casa Valduga Espumante Brut 130 Anos (Casa Valduga Vinhos Finos Ltda.) - OURO
Casa Valduga Espumante Brut Premium (Casa Valduga Vinhos Finos Ltda.) - OURO
Casa Valduga Cabernet Sauvignon Premium (Casa Valduga Vinhos Finos Ltda.) - OURO
Casa Valduga Duetto Cabernet Sauvignon / Merlot (Casa Valduga Vinhos Finos Ltda.) - OURO
Casa Valduga Identidade Arinarnoa (Casa Valduga Vinhos Finos Ltda.) - OURO
Casa Valduga Gran Reserva Cabernet Sauvignon (Casa Valduga Vinhos Finos Ltda.) – PRATA
Família Piagentini Espumante Moscatel (Cia Piagentini de Bebidas e Alimentos) – OURO
Família Piagentini Prosecco Espumante Brut (Cia Piagentini de Bebidas e Alimentos) – OURO
Décima Gran Reserva Vinho Tinto (Cia Piagentini de Bebidas e Alimentos) – OURO
Aurora Espumante Brut (Cooperativa Vinícola Aurora Ltda) – OURO
Conde de Foucauld Espumante Brut (Cooperativa Vinícola Aurora Ltda) – OURO
Aurora Reserva Chardonnay (Cooperativa Vinícola Aurora Ltda) – PRATA
Garibaldi Chardonnay Espumante Brut (Cooperativa Vinícola Garibaldi Ltda) - OURO
Garibaldi Prosecco Espumante Brut (Cooperativa Vinícola Garibaldi Ltda) - OURO
Castellamare Chardonnay Espumante Brut (Cooperativa Vinícola São João Ltda) - OURO
Aliança Espumante Moscatel (Cooperativa Viti-Vinícola Aliança Ltda.) - OURO
Aliança Varietal Chardonnay (Cooperativa Viti-Vinícola Aliança Ltda.) - OURO
Dal Pizzol Tannat (Dal Pizzol Vinhos Finos) – GRANDE OURO
Dal Pizzol Espumante Brut (Dal Pizzol Vinhos Finos) - OURO
Dal Pizzol Espumante Brut Charmat (Dal Pizzol Vinhos Finos) - OURO
Estrela do Brasil Prosecco Espumante Brut (Estrelas do Brasil Com. e Ind. de Vinhos) - OURO
Estrelas do Brasil Espumante Brut (Estrelas do Brasil Com. e Ind. de Vinhos) - OURO
Dall Agnol Superiore Vinho Tinto (Estrelas do Brasil Com. e Ind. de Vinhos) - OURO
Terranova Shiraz (Fazenda Ouro Verde Ltda.) – OURO
Miolo Fortaleza do Seival Tempranillo (Fortaleza do Seival Vineyards) - OURO
Fortaleza do Seival Sauvignon Blanc (Fortaleza do Seival Vineyards) - OURO
Mistela Reggio di Castela Moscato Giallo (Irmãos Molon Ltda.) - OURO
Il Vino Venerabile Cabernet Sauvignon (Sakura Nakaia Alimentos) - PRATA
Panizzon Espumante Moscatel (Sociedade de Bebidas Panizzon Ltda) - OURO
Panizzon Prosecco Espumante Brut (Sociedade de Bebidas Panizzon Ltda) - OURO
Panizzon Moscato Giallo (Sociedade de Bebidas Panizzon Ltda) - OURO
Terrasul Espumante Moscatel (Terrasul Vinhos Finos Ltda) - OURO
Cave Antiga Espumante Moscatel (Vinhos Finos Velha Cantina Ltda) - OURO
Cave Antiga Gran Reserva Cabernet Sauvignon (Vinhos Finos Velha Cantina Ltda) - OURO
Valdemiz Reserva Touriga Nacional (Vinhos Monte Reale Ltda) – OURO
Rendeiras Cabernet Sauvignon / Syrah (Vinibrasil) - PRATA
Luiz Argenta Espumante Moscatel (Vinícola Argenta Ltda.) - OURO
Luiz Argenta Cuveé (Vinícola Argenta Ltda.) - OURO
Amadeu Espumante Brut (Vinícola Cave de Amadeu Ltda) - OURO
Cordelier Espumante Moscatel (Vinícola Cordelier Ltda) - OURO
Granja União Espumante Brut (Vinícola Cordelier Ltda) - OURO
Cordelier Reserva Cabernet Sauvignon (Vinícola Cordelier Ltda) - OURO
Cordelier Reserva Merlot (Vinícola Cordelier Ltda) - OURO
Courmayeur Espumante Demi-Sec (Vinícola Courmayeur Ltda) - OURO
DC Merlot Dom Cândido (Vinícola Dom Cândido Ltda) - OURO
Don Abel Merlot (Vinícola Don Abel Ltda) - OURO
Gheller Cabernet Sauvignon (Vinícola Gheller Ltda.) - OURO
Giacomin Espumante Moscatel (Vinícola Giacomin Ltda) - OURO
Quinta do Jubair Chardonnay (Vinícola Góes e Venturini Ltda) - OURO
Miolo Espumante Brut (Vinícola Miolo Ltda.) - OURO
Miolo Reserva Chardonnay (Vinícola Miolo Ltda.) - OURO
Miolo Reserva Merlot (Vinícola Miolo Ltda.) - PRATA
Casa Pedrucci Millesime Espumante Brut (Vinícola Pedrucci Ltda) - OURO
Casa Perini Espumante Moscatel (Vinícola Perini Ltda) - OURO
Casa Perini Marselan (Vinícola Perini Ltda) - OURO
Casa Perini Ancellotta (Vinícola Perini Ltda) – OURO
Fino Peterlongo Espumante Demi-Sec (Vinícola Peterlongo S.A.) – GRANDE OURO
Armando Peterlongo Espumante Brut (Vinícola Peterlongo S.A.) - OURO
Salton Espumante Brut (Vinícola Salton) - OURO
Salton Espumante Moscatel (Vinícola Salton) - OURO
Salton Volpi Merlot (Vinícola Salton) - OURO
Salton Volpi Chardonnay (Vinícola Salton) – OURO

Pronto, a sua lista de vinhos está pronta. Pode presentear ou dar uma festa prestigiando a premiada produção nacional. São comprovadas delícias, fáceis de encontrar e com preços pra lá de competitivos.

5.12.06

Você está descrevendo quem?

Eis a série de sabores que o imperador do vinho Robert Parker descobriu em algumas garrafas que degustou (num artigo para “Executive Life”, de 4 de setembro): flores, passas, ameixa, figo, incenso, temperos asiáticos, cedro, ervas secas, creme de cassis, alcaçuz, grafite, azeitonas pretas, cenouras pretas (uma especialidade originária da Turquia: nota minha), amora-preta, fumaça (ou fumo), tempero de churrasco, tapenade (pasta de azeitonas, uma especialidade da Provence), acácia, carne assada, “pain grille” (como o francês chama a sua simples torrada).
Aprendemos muito no uso de caracterização criativa com os críticos de vinho. Recomendo lê-los, principalmente para quem estiver interessado em escrever ficção.
Ao descrever um Châteauneuf-du-Pape La Reine des Bois 2004, o crítico lascou: Uma usina de força para a sua idade ... maravilhosamente equilibrado apesar do seu peso. Tá falando de vinho ou de um velho? Sobre um Finca Mirador, Mendoza 2004: Adorável, mas requer paciência. A moça não deu no primeiro encontro? Paciência. Sobre uma garrafa do Rio Negro 2004, também de Mendoza: Encantadora, densa ... seu paladar continua a nos prender a atenção graças à sua excelente acidez. Está falando da futura esposa? Suculenta, profunda, camada por camada formando um todo coerente. Tem um tremendo estilo, intensidade e longa vida pela frente. É uma “femme fatale” ou o Shiraz Barrossa Valley 2002?
Um Malbec Alfa Crux 2003, do Vale do Uco, tem um estilo floreado, com bastante torrada e bacon, sem perder o foco. Ótimo na boca. Se fosse um homem, mudaria de calçada.
Nossa boca apenas transmite o doce, o salgado, o amargo, o ácido e o novo e misterioso umami. Sabores mais complexos, até mesmo o de uma simples maçã, é na maioria das vezes aroma. Não sabemos ainda quantos componentes de aroma somos capazes de identificar, mas por sorte parece que seu número está na casa das dezenas de milhões. Sem esses aromas nossas vidas seriam horrivelmente mais chatas, em particular para quem gosta de comer e beber.
Será que o Robert Parker e os demais críticos (a maioria aqui da revista Wine Spectator) conseguiram perceber tudo aquilo? A resposta é sim. Só porque eu nunca provei “cenouras pretas” não quer dizer que algumas pessoas não o tenham feito. Acho que a mesma coisa percebeu Proust, ao provar das madeleines de Combray e sua memória disparou em busca do tempo perdido. O poder dos aromas é tal que podemos perceber algo que nem está mais presente, na nossa frente, sob nossos narizes.
Troçar dos críticos, desses “superprovadores”, com os sentidos de olfato afiadíssimos, é facílimo. Mas tente lembrar-se de como você ficou emocionado ao sentir um restinho de aroma há muito esquecido, aquele fac-símile de vida que nos chegou pelo nariz. Voltaremos aos aromas e ao papel dos críticos.

O calor da festa

As festas chegaram, você vai servir vinho – para as amigas (ou para você mesma). E quer que tudo funcione direitinho. Entre outras coisas, isso quer dizer que você precisa armazenar e servir seus vinhos nas temperaturas corretas.
Agora, atenção que servir o vinho na temperatura correta é uma coisa; degustá-lo na temperatura ideal é outra.
A temperatura certa de servir um vinho produz um senhor efeito nos aromas e sabores da bebida. Cada estilo de vinho deve ter a sua temperatura de serviço apropriada (vai realçar os pontos positivos e esconder os negativos da bebida).
A maior parcela de prazer ao bebermos vinhos está relacionada com seus aromas. Sabor mesmo, o que está na boca, só oferece quatro possibilidades: o doce, o amargo, o salgado e o ácido. É o nosso nariz que faz todo o restante da festa. Eles precisam sentir aqueles vapores que saem da taça.
E tais vapores são criados na medida em que o vinho vai aquecendo.
Quanto mais alta a temperatura, mais facilmente os componentes de sabores se evaporarão da superfície da bebida na taça. Daí que servir um vinho lá entre os seus 16 e 18oC (já um tanto lépido) faz sentido, pois estaremos enfatizando os aromas da bebida.
Com temperaturas acima de 20oC, o álcool começa a evaporar-se de tal modo que desequilibra a bebida. Assim, temos: excessivamente gelado, ele vai perder todo o seu sabor e aroma. Muito quente, ficará intragável, apenas o sabor de álcool se destacando.
Um vinho muito gelado liberará muito pouco de seus sabores e aromas. Os defeitos gustativos de um vinho simples, de má qualidade, podem ser mascarados pela baixa temperatura de serviço.
As temperaturas mais frias deixam nosso paladar mais sensível à doçura, daí que se recomenda servir vinhos doces, os de sobremesa, mais frios.
Já esse mesmo paladar é mais suscetível a taninos e ao amargor em temperaturas mais quentes. Os vinhos tânicos ou amargos, como muitos italianos e qualquer tinto jovem de qualidade, devem ser servidos relativamente lépidos.
A temperatura influencia também vinhos contendo dióxido de carbono: os espumantes em geral. Quanto mais gelado, mais gás será liberado. Ou seja, nossos espumantes podem se tornar intragáveis lá pelos seus 18oC.
Em resumo: esses vapores são criados, como vimos, na medida em que o vinho se aquece. Daí que ele precisa estar alguns poucos graus abaixo de sua temperatura de degustação para que possa liberar seus aromas.
Temperatura de serviço. Eis aqui uma tabelinha para a sua orientação (a temperatura está em graus Celsius):
Temperatura (Celsius)
19º - Vinho do Porto Vintage
15 – 18º - Bordeaux, Syrah (vinhos tintos tânicos, complexos)
17º - Borgonha tinto, Cabernet Sauvignon
16º - Rioja, Pinot Noir
15º - Chianti, Zinfandel
14º - Porto Tawny e Non Vintage
13º - Temperatura ideal para armazenar qualquer vinho
12º - Beaujolais e vinhos rosados.
11º - Viognier, Sauternes
9º - Chardonnay
8º - Riesling
7º - Champagne, espumantes em geral
6º - Ice Wines
5º - Asti-Spumanti

E a temperatura para beber o vinho? A crítica americana Lisa Shea pesquisou, testou, pesquisou, testou e chegou a esta tabela (a temperatura está em Celsius e é a de uma geladeira comum). Os tempos marcados são os minutos decorridos de uma garrafa retirada da geladeira.
Retire o vinho da geladeira e sirva depois de ...
0:10 (dez minutos depois) - 8º - Chablis/Riesling
0:30 - 12º - Sauvignon Blanc
0:50 - 13º - Chardonnay
1:00 - 14º - Zinfandel/Chianti
1:50 - 17º - Pinot Noir
2:00 - 18º -Cabernet Sauvignon
Mas, por favor, entendemos que a “tal temperatura ambiente” do local onde você está servindo seus vinhos não se refira ao Amapá, logo ali perto da linha do Equador. Se for esse o caso, você deve tomar seus vinhos dentro da geladeira mesmo.
O que essa tabela diz é que os vinhos não devem ser servidos na temperatura em que saíram da geladeira. E não tão quentes quanto a falada “temperatura ambiente” comentada acima.
Climatizadores, geladeiras e principalmente os baldes com gelo fazem um ótimo trabalho gelando e conservando nossos vinhos. Mas para aquecê-los, prefiro o calor de minhas mãos em cada taça.
Assim, amiga, para manter o calor da festa, sua ou dos amigos, o melhor é gelar o vinho (na temperatura certa para cada estilo) e deixá-lo entre suas mãos até ficar no ponto. Aromas e sabores vão justificar a presença das garrafas que você com tanto cuidado escolheu.