20.7.05

Rótulos falantes

Na Itália, um produtor de rótulos, a Modulgraf, anunciou a criação de rótulos falantes. A empresa tem a patente da tecnologia dos microchips utilizados por muitas vinícolas contra a falsificação de vinhos e produz rótulos para algumas das maiores vinícolas do país, como Ornellaia, Arnaldo Caprai e a Tenuta Campo al Sasso, a nova empresa do grupo Antinori.
O rótulo falante terá o mesmo formato quadrado ou retangular, as mesmas cores e os mesmos desenhos das etiquetas em uso hoje. Será feito de plástico, mas poderá ser retirado e lido, digo, ouvido como um CD. Ou seja: serão verdadeiros discos digitais, porém aceitos apenas por um aparelho como o Walkman, também produzido pela Modulgraf. E o que ouviremos? A voz do produtor explicando as qualidades do vinho, as informações importantes da sua safra e da casa produtora.
O exclusivo Walkman será caro. A idéia é que só as lojas de vinhos finos, restaurantes de luxo e colecionadores adquiram o aparelho, especialmente para ouvir esses rótulos - que serão exclusivos apenas de vinhos muito caros.
A novidade será lançada no outono europeu e servirá também no combate à falsificação de vinhos (que normalmente acontece com os mais caros e raros).
O inventor da tecnologia, Florentin Doring, já usou o mesmo tipo de produto com livros, em outros mercados - e com sucesso.
Na Austrália, o Jacob’s Creek, a mais vendida marca de vinhos australiana, agora traz no rótulo de seus Chardonnays um sensor de temperatura. Basta colocar na geladeira que, em pouco tempo, aparecerá a mensagem “Perfeitamente Resfriado”, quando a temperatura chegar a exatos 8,2º C. Se esse sensor também falasse seria fenomenal: eu não teria que ficar abrindo e fechando a porta da geladeira à toda hora para checar a mensagem.

Taça inquebrável

Uma taça de vinho inquebrável? Cientistas ingleses e franceses estão na bica de produzir um super vidro. Feito de pequenas e frágeis cadeias de cristais, o vidro é por isso mesmo vulnerável. Só que descobriram um grupo de cristais que pode ser convertido em vidro com uma estrutura de maior densidade, mais sólida, praticamente à prova de choques. Esses cristais são as zeólitas (nome dos silicatos hidratados de alumínio e de metais alcalinos ou alcalino-terrosos, mais comumente o sódio e o cálcio), até agora utilizados no refino de gasolina e na manufatura de detergentes. O autor da descoberta, Neville Greaves, cientista da Universidade de Gales, avisa porém que falta um pouco para colocarem taças e garrafas com o tal de vidro inquebrável no mercado. Logo, ainda vou ter que continuar tirando o tapete da sala, pois tem sempre alguém (eu, para começar) derramando o vinho.

Garrafa inquebrável

Pois os portugueses acabam de lançar um vinho que vem numa garrafa de alumínio. O lançamento foi feito no mercado inglês: é um vinho rosado, o BrightPink. Custa 10 dólares nos supermercados da ilha. É todo modernoso: nem a tradicional rolha tem (para desespero da poderosa indústria de cortiça da terrinha, a maior do mundo). A tampa é de rosca de metal. É 100% alumínio, não enferruja e resfria cinco vezes mais rapidamente do que uma garrafa de vidro. A empresa (Bright Brothers Vinhos Lda, que fica em Fornos de Cima, Mato da Cruz, Portugal) é de um enólogo e consultor de vinhos australiano, Peter Bright, que tem negócios de vinhos em várias partes do mundo. De Portugal, ele quer mesmo são os deliciosos rosados. O vinho é 80% Castelão e 20% a Trincadeira. Tem 13% de volume alcoólico. Pode ser que venda bem: fora a novidade do novo frasco, em muitos países é proibida servir bebidas ou mesmo portá-las em garrafas de vidro em certos locais. Logo, concertos ou atividades ao ar livre, varandas de restaurantes etc. vão poder optar por esse tipo de garrafa. Claro, ainda tem a vantagem de ser reciclável. Se os ferozes hooligans jogarem essas garrafas em jogadores ou torcedores de times adversários, não vai acontecer nada: pesam apenas 100 g. Só poderão, no máximo, amassar a garrafa. Quem quiser ter uma visão da novidade é só procurar aqui.

Harmonia

As amigas Fernanda Prates e Lúcia Dias, donas do restaurante Pirilampo, lá no Vale das Videiras, pertinho aqui de casa, convidam para um jantar harmonizado dia 30 de julho, evento que se inclui no IV Circuito Gastronômico de Petrópolis. Convidaram o chef Deraldo Bonfim (vice-presidente da Associação Brasileira de Alta Gastronomia, discípulo de Paul Bocuse e consultor do restaurante) e o sommelier José Augusto, do Café Laguiole, do Rio. Dia 30, o cardápio do Pirilampo é especialíssimo e vai oferecer entradas como ostras gratin au champagne acompanhadas por um prosecco, uma muambinha de cordeiro com maçã e camembert servidas com um português, uma ema braseada ladeada com um Barbera D’Asti.
Semana passada citei aqui o grande Hemingway, sobre a tradição francesa de não comer sem um vinho à mesa. E não é só francesa. A prática vem de centenas de anos. E com ela, a busca das melhores combinações entre vinhos e pratos. O convite das minhas amigas me fez correr imediatamente para o guia do Hugh Johnson, indispensável para mim. Queria checar as combinações ou alternativas para muambinhas, ostras gratinadas e emas braseadas eventualmente contidas no guia.
O inglês Hugh Johnson é presença preeminente no mundo dos vinhos. Autor de vários best-sellers, entre eles o Atlas Mundial dos Vinhos e da insuperável História do Vinho, entre outras obras notáveis, vem publicando o seu “Pocket Wine Book” desde 1977. O guia de 2005, já disponível em inglês em algumas livrarias, revela, como nas edições anteriores, o que há de melhor em cada região do globo: não só os vinhos como seus preços. Analisa safras, em particular as de 2002 e 2003. E oferece dicas de harmonização entre vinhos e comidas. Como o capítulo das combinações dos vinhos às mesas é sempre assunto e tem até programa na TV, anoto aqui algumas das boas dicas do mestre Johnson. Resultam de 30 anos de estrada.
Antes da refeição, ficamos com os aperitivos de vinho de sempre: os espumantes (o Champagne como ponto alto) ou os fortificados (Jerez na Inglaterra, Porto na França e vermute na Itália). Uma taça de vinho branco ou rosado (ou tinto, na França) está na moda agora. O momento pede algo bem seco. Chenin Blanc e Riesling melhores que o Chardonnay. Por favor, evite amendoins como belisco nesses momentos: são picantes demais, destroem os sabores do vinho. Com eles, o melhor é o Jerez ou um Martini. Opções em lugar do amendoim: amêndoas, pistaches ou nozes.
Nas entradas, pratos de aspargos verdes, amargos, são difíceis de combinar. Precisam de vinhos brancos maduros, como os Sauvignon chilenos ou os Semillon australianos.
As maioneses carregadas no alho (aïoli) pedem algo muito refrescante: um vinho do Rhône, um espumante bem seco, um rosado da Provence, um Verdichio. As maioneses tradicionais, sempre muito ricas, e sabem melhor com vinhos que contrastem com sua forte presença: os brancos da Côte Chalonnaise, os Sauvignon Blanc da Nova Zelândia, ou os Spätlese Trocken do Pfalz.
Saladas: vinhos brancos secos. Mas cuidado com o vinagre, que destrói o sabor da bebida. Opte por temperar com o próprio vinho ou com um tantinho de limão. Uma Caesar Salad vai melhor com um rosado francês ou um vinho espanhol.
O Carpaccio combina bem com muitos vinhos: de bons toscanos ou Chardonnays, bem como Champagnes rosadas.
Os fondues de queijo, pedidas certas de inverno, ajustam-se bem com brancos secos, como os suíços Valais Fendant ou os Chasselas, ou um Riesling da Alsácia, ou até um Beaujolais Cru, tinto.
Evite ovos: conflitam com quase todos os vinhos. O mesmo vale para as omeletes. Evite vinho com eles.
Com foie gras, tente os brancos doces, como o Sauternes, os Tokáji Aszú, os Jerez amontilados.
Com ostras cruas, peça Champagne, Chablis Premier Cru, Sancerre ou uma autêntica Guiness. Com ostras cozidas, um Puligny-Montrachet, um Chardonnay do Novo Mundo ou Champagne. O guia não inclui ostras gratinadas, mas posso imaginar que a combinação do Pirilampo seja adequada, com o espumante italiano.
Massas: pode ser um branco ou um tinto; vai depender do tipo de molho ou de guarnição. Se for com um molho de tomate, escolha o tinto Barbera, do sul da Itália. Como molho de creme, um Frascati ou um Chardonnay do Alto Adige. Com molho de carne, um Merlot, um Montepulciano D’Abruzzo ou um Salice Salentino. Com molho ao pesto (mangericão), um Barbera, um Sauvignon Blanc da Nova Zelândia. Com vôngole ou frutos do mar, um Verdicchio, um Soave, branco finos de Rioja ou um Sauvignon Blanc. Essas observações valem também para os raviólis.
Pizza: qualquer tinto italiano.
Risoto com frutos do mar: brancos, como o Pinot Gris, os Semillon jovens. Com cogumelos: Pinot Noir do Novo Mundo. Com fungi porcini, um bom e maduro Barolo ou Barbaresco.
Escargôs: tintos do Rhône (Gigondas, Vacqueyras), St. Véran ou Aligoté. Queijo de cabra: Sancerre, Pouilly-Fumé ou Sauvignon Blanc do Novo Mundo, rosados da Provence.
Não encontrei referências diretas para a harmonização de uma ema na brasa. Mas o inglês fala que galinhas, perus e galinhas d’angola podem fazer par com qualquer vinho, inclusive as melhores garrafas de brancos secos e os melhores tintos da Borgonha. O Barbera d’Asti, esse ótimo tinto italiano do Piemonte, deve servir muito bem.
Já a muambinha de cordeiro seria demais para o Hugh Johnson. Isso é coisa nossa: desde as muambinhas culinárias e até as políticas, com suas malas, dólares em cuecas e mensalões. Fico com as muambinhas do chef Deraldo.
Mas o cordeiro assado é prato que tradicionalmente se casa com os bons tintos de Bordeaux. Logo, o tinto português selecionado só vai fazer bonito.
O Pirilampo fica na Estrada Almirante Paulo Meira, 8.601, Vale das Videiras, Petrópolis. Seu telefone é (24) 2225-3303. O e-mail é pirilamporestaurante@ig.com.br
Por favor, amigas, escrevam sobre as suas experiências com harmonização, aqui parda a Soninha, no soniamelier@terra.com.br.
Mas o melhor mesmo é me encontrar dia 30, sábado, no Pirilampo, para trocarmos idéias. É só perguntar quem é a dona do jipe mais velho e furreca estacionado por lá. Aí é que a gente vai harmonizar pra valer.

Para afastar o frio

Já apresentei aqui, recentemente, dicas para enfrentar o inverno com prazer. Mas ficaram faltando receitas de drinques, bebidas que ajudam a esquentar principalmente essas noites chuvosas, úmidas, frias mesmo – e que não faltam aqui na Serra.
Começo pelo popular quentão: não tem festa junina (que agora com freqüência acontecem em julho) que não considere o velho bom quentão. A receita mais simples está até no Aurélio: vinho fervido com cravo, canela e gengibre. Claro que servido quente. Mas quentão pode ser também a nossa branquinha, a cachaça, temperada com gengibre e canela e também servida quente.
A maioria das receitas de quentão que conheço destaca o vinho. E muito raramente a bebida é diluída.
Mas faço um aqui em casa que é diluído, não com água, mas com um xarope delicioso. O vinho só é adicionado no final. Veja só.
Numa panela média coloque: 250 ml de água (uma xícara), 250 g de açúcar, 4 bastões de canela, 10 cravos, uma colher de noz-moscada ralada, um tantinho de raspa de casca de limão e outro tantinho de raspa de casca de laranja.
Deixe ferver até que o líquido comece a reduzir e a se transformar num xarope. Acrescente, então, os sucos do limão e da laranja, e mais duas garrafas de vinho tinto. Por favor, um vinho tinto de qualidade (mas que não precise passar dos 20 reais).
Deixe esquentar – mas sem que ferva (para não deixar o álcool evaporar). O ideal é colocar todo o líquido numa jarra e deixá-la em banho-maria ou sobre um réchaud. Se achar que ficou um tanto amargo, acrescente mais açúcar.
Se existe o quentão, existe também o quentinho, que é bem mais simples. Experimente essa receita.
Você só vai precisar de 45 ml de água quente, uma boa dose (outros 45 ml) de uísque, uma colhe de sobremesa de açúcar e uma casca de limão. Numa caneca, coloque o açúcar, junte a água quente para dissolvê-lo. Depois é só acrescentar o uísque e o limão. Essa é uma receita individual. Se quiser mais, basta multiplicar pelos drinques necessários ou pelo número de seus convidados.
Outra receita de drinque individual é a do Rum na Manteiga.
Numa caneca, coloque: uma colher das de chá de açúcar e, em seguida, acrescente um quarto de xícara de água fervente, uma boa dose de rum (também um quarto de xícara), uma colher de chá de manteiga. Mexa bem e espalhe raspas de noz-moscada na superfície. Se tiver problemas com colesterol alto, evite.
Você pode transformar um caldo, um consommé de carne, por exemplo, numa bebida deliciosa, além de nutritiva.
Vamos aos ingredientes e suas medidas:
60 ml de caldo de carne (o melhor é o preparado em casa);
45 ml de vinho Jerez, o fortificado do sul da Espanha;
E pimenta, opcionalmente.
Aqueça o caldo, mas não deixe ferver. Coloque numa caneca.
Acrescente o Jerez e a pimenta (se for de seu gosto). O Jerez pode ser o Tio Pepe, bem seco. Não é problema encontrá-lo nas boas casas de bebidas.
Se tiver visitas em casa, prepare um ponche especial, de uma receita que retirei de revista dedicada a bebidas para o Natal e cujo nome original é Christmas Punch. Aqui o Natal se presta mais a refrescos. Mas agora, vamos aproveitar esse ponche: suas visitas vão ficar mais quentinhas e a conversa vai animar, com certeza.
Ingredientes: Três xícaras de água filtrada; meio quilo de açúcar; suco e cascas de quatro limões; uma garrafa de rum (o Bacardi Carta de Oro, por exemplo); uma garrafa de vinho do Porto Ruby (o Andresen costuma ser bom e barato), noz-moscada ralada, fatias de maçã e de laranja.
Ferva a água, o açúcar e o limão numa panela separada. Coe depois de esfriar. Acrescente o rum, o vinho do porto e o suco de limão.
Transfira tudo para uma poncheira, um alguidar. Coloque as fatias de maçã e laranja e espalhe a noz-moscada na superfície.
O ideal é deixar a poncheira sobre um réchaud. O ponche deve ser servido frio. Não esqueça xícaras ou copos adequados para suas visitas.
Se quiser mais receitas para enfrentar o frio é só clicar aqui para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Dois Nomes

Hemingway. “Nessa época, na Europa, se pensava em vinho como algo saudável, tão normal quanto a comida, e também como um grande abastecedor de felicidade, de bem estar e deleite. Beber vinho não era esnobismo nem sinal de sofisticação, nem um culto; era tão natural quanto comer e para mim necessário, e eu não pensaria em fazer uma refeição sem beber vinho cidra ou cerveja. Adorava todos os vinhos, menos os doces ou adocicados e os vinhos muito pesados e nunca me ocorreu que repartir umas poucas garrafas de Mâcon, leve, seco, branco pudesse causar alterações químicas no Scott e transformá-lo num tolo”.
Ernest Hemingway está viajando com seu novo amigo, F. Scott Fitzgerald, de Lyon para Paris, num Renault sem teto (Zelda, a mulher de Scott não gostava de tetos no carro, não deixou que consertassem o carro, que um acidente deixou sem teto). Estamos na França, nos anos 20. E, num determinado trecho da viagem, o jovem Ernest Hemingway compra algumas garrafas do branco Macôn, especialidade da região do Mâconnais, na Borgonha (são os Pouilly-Fuissé, St. Véran, Mâcon-Villages): não duram muito, são feitos para beber logo, apreciados mais para refrescar, perfeita companhia para a viagem dos dois.
Como a amiga percebe, o vinho sempre foi considerado uma bebida saudável e indispensável acompanhante da comida. Já nos anos 20, as mímicas do esnobismo e da sofisticação se faziam presentes, embora desprezadas pelo genial autor.
As “alterações químicas no Scott” são relativas ao efeito que apenas um pouco de álcool podia causar no autor de “O Grande Gatsby”, o que não é muito estranho em alguns alcoólicos.
Essa referência foi retirada de “Paris é uma Festa" (A Moveable Feast), publicada postumamente em 1964: são memórias do autor da Paris dos anos 20, recheada de relatos, alguns irreverentes, de luminares como Gertrude Stein e F. Scott Fitzgerald. Ernest Hemingway nasceu em Illinois em 1899. Escreveu “O Sol também se levanta”, “Adeus às Armas”, “Por quem os Sinos Dobram”, “O Velho e o Mar”, pelo qual ganhou o prêmio Pulitzer de 1953. Ganhou também o Nobel de Literatura no ano seguinte. Hemingway morreu em 1961.
Ernest gostava das bebidas, entre elas o vinho. Dedicou um verbete à bebida no seu "Morte na Tarde" (Death in the Afternoon), sobre touros e touradas, publicado lá pelos anos 30. Como ele chegou a Paris por volta de 1920, já devia ter aprendido alguma coisa sobre vinhos. O verbete, Vino, integra um glossário do livro explicando costumes, regiões e muito particularmente o patois usado em touradas. Eis o verbete:
"Vino: Vino corriente é vin ordinaire ou vinho de mesa; vino del pais é o vinho regional, sempre bom de pedir; vino Rioja é o vinho da região de Rioja, no norte da Espanha, tintos e brancos. Os melhores sãos os da Bodegas Bilbainos, Marqués de Murrieta, Marqués de Riscal. Rioja Clarete, ou Rioja Alta são os mais leves e agradáveis dos tintos. Diamante é um bom branco para peixes. Valdepenas é mais encorpado que o Rioja, mas seus brancos e rosés são excelentes. Os vinicultores espanhóis produzem Chablis e Borgonhas que eu não recomendo. O Clarete Valdepenas é muito bom. Os vinhos de mesa em torno de Valência são muito bons; e melhores os de Tarragona, embora não viajem bem. A Galícia tem um bom vinho regional. Nas Astúrias se bebe cidra. Os vinhos regionais de Navarra são muito bons. Para aqueles que chegam na Espanha pensando apenas em Xerez e Málaga, os tintos secos, jovens serão uma revelação. O vin ordinaire espanhol é consistentemente superior aos franceses, já que nunca são adulterados e um terço mais barato. Acredito que sejam de longe os melhores da Europa. Não têm Grands Vins que se comparem aos da França."
Hemingway não tem preconceitos contra os rosés. Exibe o conhecimento clássico de harmonização (brancos com peixes) e anuncia uma série de marcas espanholas que ainda hoje são populares no Brasil. E, por ele, vemos que os vinhos regionais (vin de pays) eram considerados melhores que os vinhos de mesa. Uma mancadinha, apenas: Chablis é o formidável branco da Borgonha. Acho que ele estava se referindo genericamente aos brancos espanhóis. Quanto às adulterações, elas diminuíram, mas ainda existem até hoje em toda a parte.
Já Francis Scott Fitzgerald, talvez seja até maior artisticamente: O Grande Gatsby chegou a ser considerado, por uma enquête realizada pela prestigiosa Modern Library o segundo melhor romance de língua inglesa do século 20, atrás apenas do Ulisses, de James Joyce.
Beethoven. A TV inglesa exibiu recentemente um documentário sobre a trajetória de um chumaço de cabelo do gênio da música, Ludwig van Beethoven, recolhido assim que o compositor morreu, em 1827. Analisada, essa porção revelou uma concentração de chumbo 100 vezes acima do nível seguro – o que explicaria as mazelas do autor: doenças estomacais, grandes dores de cabeça, irritabilidade e, inclusive, a sua surdez (a partir de 1797-99) e que acabariam com a sua morte em 1827.
O documentário sugere que o compositor tenha se intoxicado com chumbo consumindo águas de estações hidrominerais que freqüentou quando jovem. Mas um jornalista do irlandês Sunday Life, John Hunter, acha que o gênio teria sido envenenado através vinho e cerveja, que adorava.
No século 19, o chumbo era usado para adulterar essas bebidas de modo a melhorar seus sabores e aspectos. O metal era empregado desde os tempos dos romanos, para que o vinho não avinagrasse e também para adoçá-lo. Duzentos anos antes, um médico alemão, Eberhard Gockel, estabeleceu a primeira relação da bebida adulterada com a saúde, observando que bebedores de vinho tinham os mesmos problemas que os trabalhadores em minas de chumbo.
Nos tempos de Beethoven, bebia-se principalmente em canecas feitas de uma liga de estanho (70%) e chumbo (30%), as garrafas eram limpas com jatos de chumbo, reservatórios e encanamentos de água continham muito chumbo. Nesse sentido, você poderia culpar qualquer bebida.
Traços do metal existem naturalmente em todas as plantas, inclusive nas uvas. A prática da adulteração foi banida há tempos e hoje o metal é precipitado já na fase de produção do vinho. Os equipamentos das vinícolas não utilizam chumbo. Só ínfimas quantidades são ainda encontradas em algumas cápsulas de chumbo que protegem as rolhas – o que já está proibido na maioria dos países. Podemos encontrar chumbo em taças e decantadores de cristal (produzidos com o metal). Um estudo revelou uma concentração de 5 mg por litro de chumbo num decantador deixado com vinho do porto por 4 meses. Para que uma pessoa se intoxicasse, teria que beber 10 litros da bebida quase que de uma vez. Sabe-se que os vinhos modernos contêm um máximo de 0,13 mg de chumbo por litro de vinho, bem abaixo do nível permitido. Na América o nível é de 150 partes de chumbo por bilhão. A média mundial é de 95 partes por bilhão. É como se o metal não existisse na bebida.
Uma autópsia descobriu alguns problemas no fígado, no baço e no pâncreas do autor. Diz a historiadora Anne-Louise Coldicott que o compositor teria uma colite ulcerativa, hoje curável com os medicamentos modernos. Sofria de depressão, talvez devido ao problema que causou sua surdez. Apesar de gostar de vinho, são infundadas as suspeitas de que era um alcoólico. Mas até agora não se sabia da presença letal de chumbo revelada pelo cabelo de Beethoven. A verdade é que nossas vidas sempre estiveram por um fio. E o chumbo continua matando. Só que não se pode mais culpar os vinhos por isso.
Desta vez, a série de “Nomes” deu preferência a personalidades. Vamos abusar do filão, pois nomes é o que não faltam. E se a amiga tiver sugestões, é só clicar aqui para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

7.7.05

Vin de Merde

* Pois os portugueses acabam de lançar um vinho que vem numa garrafa de alumínio. O lançamento acaba de ser feito apenas na Inglaterra (por enquanto): é um vinho rosado, o BrightPink. Custa 10 dólares nos supermercados da ilha. É todo modernoso: nem a tradicional rolha tem (para desespero da poderosa indústria de cortiça da terrinha, a maior do mundo). A tampa é de rosca de metal. É 100% alumínio, não enferruja e resfria cinco vezes mais rapidamente do que uma garrafa de vidro.
A empresa produtora (Bright Brothers Vinhos Lda, que fica em Fornos de Cima, Mato da Cruz, Portugal) é de um enólogo e consultor de vinhos australiano, Peter Bright, que tem negócios de vinhos em várias partes do mundo. De Portugal, ele quer mesmo são os deliciosos rosados. O vinho é 80% Castelão e 20% a Trincadeira. Tem 13% de volume alcoólico. Pode ser que venda bem: fora a novidade do novo frasco, em muitos países é proibido servir bebidas ou mesmo portá-las em garrafas de vidro em certos locais. Logo, concertos ou atividades ao ar livre, varandas de restaurantes etc. vão poder optar por esse tipo de garrafa. Claro, ainda tem a vantagem de ser reciclável. Se os ferozes hooligans jogarem essas garrafas em jogadores ou torcedores de times adversários, não vai acontecer nada: pesam apenas 100 g. Quem quiser ter uma visão da novidade é só procurar aqui.
* E uma taça de vinho inquebrável? Cientistas ingleses e franceses estão na beira de produzir um super vidro. Feito de pequenas e frágeis cadeias de cristais, o vidro é por isso mesmo vulnerável. Só que descobriram um grupo de cristais que pode ser convertido em vidro com uma estrutura de maior densidade, mais sólida, praticamente à prova de choques. Esses cristais são as zeólitas (nome dos silicatos hidratados de alumínio e de metais alcalinos ou alcalino-terrosos, mais comumente o sódio e o cálcio), até agora utilizados no refino de gasolina e na manufatura de detergentes. O autor da descoberta, Neville Greaves, cientista da Universidade de Gales, avisa, porém que falta um pouco ainda para colocarem taças e garrafas com o tal de vidro inquebrável no mercado. Eu perco mais taças no processo de lavagem do que pelas quedas. Fico aqui esperando para ver.
* Tem mais uma novidade para quem não tem paciência para tirar a temperatura dos vinhos e servi-los como manda o figurino. O Jacob’s Creek, a mais vendida marca de vinhos australiana, agora traz no rótulo de seus Chardonnays um sensor de temperatura. Basta colocar na geladeira que, em pouco tempo, aparecerá a mensagem “Perfeitamente Resfriado”, quando a temperatura chegar a exatos 8,2º C. Isso vai ser bom mesmo é em restaurantes, pois os climatizadores têm portas de vidro e será fácil saber quando o vinho chegou na temperatura de serviço. No meu caso, vou ficar abrindo e fechando a geladeira, ansiosa como sou.
* Para quem duvida da força das mulheres e de sua importância no mundo dos vinhos, vem aí a primeira revista de vinhos exclusiva para mulheres. É a Wine Adventure, que chega às bancas norte-americanas agora em julho. Além de vinhos, a revista conterá matérias sobre viagens, degustação em vinícolas, gastronomia e estilo de vida, indicações de vinhos, entrevistas com personalidades do setor, testes etc. A sua editora, Michele Ostrove, diz que a Wine Adventure vai procurar alargar os horizontes viníferos das suas leitoras e ao mesmo tempo proporcionar entretenimento. Tava na hora: afinal, as mulheres são, no mínimo, metade da população consumidora de vinho nos Estados Unidos. Não falta muito para termos a nossa revista de vinhos por aqui. Mas tem que tomar cuidado para não fazermos uma "Caras" para o segmento de vinhos.
* Quando uma garrafa é vedada com uma rosca metálica, em vez da tradicional rolha de cortiça, sabemos que essa mudança aconteceu principalmente para evitar que vinho se perdesse em razão da “doença da rolha”, ou TCA. Um fungo ataca a cortiça deixando no vinho um aroma pra lá de desagradável. A garrafa é devolvida, a imagem do produtor é prejudicada. As perdas são enormes. Assim, cada vez mais as rolhas estão sendo substituídas por tampas de borracha ou pelas roscas metálicas.
Perde-se também toda aquela cerimônia de desarrolhar a garrafa no restaurante. Daí que alguns produtores estão procurando cultivar um novo ritual, tentando apagar da mente do consumidor a força da tradição gerada por séculos de arrolhamento.
São apenas 4 passos, todos naturalmente executados pelo sommelier, sempre às vistas do freguês. Primeiro: rompe-se o selo da garrafa (o que cobre a tampa e parte do gargalo). Segundo: o sommelier coloca a garrafa, em particular, a parte superior (gargalo e tampa), sobre o antebraço, devidamente coberto por uma toalha. Terceiro: delicada, mas firmemente, faz a garrafa rolar sobre o antebraço, de modo a desenroscar a tampa. Quarto e último passo: a tampa se desenrosca e é segura pelo sommelier, abrindo a garrafa. Pronto, o vinho já pode ser servido. É quase como trocar seis por meia dúzia, pelo menos em termos de etiqueta.
* Chegamos, por fim, ao título, que naturalmente chama atenção pela palavra grosseira, que o francês utiliza a três por dois, como se fosse um bonjour. Só que ela gerou um rififi tremendo há dois anos, quando uma revista francesa regional, a Lyon Mag, publicou matéria onde o vinho Beaujolais é classificado como “vin de merde”.
Os produtores de Beaujolais, em vez de tamparem o nariz, abriram a boca. E processaram a revista, que acabou multada por difamação por uma corte local.
O processo transformou-se numa “cause célèbre” na França, aparecendo em todos os grandes órgãos da imprensa do país e até no exterior. Mas a revista teve de pagar US$ 111.122,00 de multa – um bocado de dinheiro.
Só que o caso foi levado para a mais alta corte de apelação do país, que recentemente julgou não haver nada difamatório no artigo. “A publicação de uma crítica, mesmo severa, sobre vinho não constitui crime no contexto de um debate público sobre subsídios do estado concedidos a produtores...”, rezou a corte.
A crítica, publicada na edição de julho de 2002, examinava as razões pelas quais os produtores de Beaujolais solicitaram ao governo que transformasse 100 mil hectolitros de vinhos que não conseguiram vender em vinagre. A revista citou o chefe do Grande Júri de Provadores Europeus, François Mauss: ele afirmou que muito do vinho de Beaujolais não era “vinho propriamente” e que seus produtores tinham consciência de comercializarem um ‘vin de merde’.
A revista vai ter de volta o dinheiro da multa e os produtores de Beaujolais ainda pagaram as custas do processo (perto de 2.500 dólares).
E o principal é que se preservou a liberdade de imprensa. Se os produtores estão livres para cantar as maravilhosas virtudes de seus vinhos, os críticos também têm o direito de achar o contrário.
Amiga, não vai dizer que se intrigou com a expressão rififi, que está até no Aurélio e significa “conflito ou briga em que se envolvem numerosas pessoas”? Resolvi utilizá-la para “afrancesar” o texto, já que rififi entrou nos dicionários nacionais em razão de um filme de Jules Dassin (Du Rififi Chez les Hommes), de 1955, contando a história de um assalto a uma joalheria em plena Rue de Rivoli, em Paris. Se encontrar em DVD compre: não só em um grande filme, como a amiga vai conhecer um homem, o ator Jean Servais, que os franceses não conseguiram ainda um igual e que não não ficou datado como rififi.
Fico intrigada com os franceses: Stephen Clarke, um empresário inglês, passou um ano na França e resolveu colocar essa experiência num livro. Título: “A Year in the Merde”.
É um trabalho de ficção, que reconta as aventuras (e desventuras) de Paul West, como o autor, um empresário enviado a Paris. “Merde” aqui é real e metáfora. Só em Paris, os cachorros depositam na ruas 15 toneladas de cocô anualmente, resultando na hospitalização de centenas de pessoas. Diz o autor que se os franceses rosnarem para você, usando esta famosa palavrinha, mostre-lhes os dentes – e tudo se resolve. Foi o que a revista de Lyon fez: não se intimidou, mostrou os dentes e acabou livrando-se da “merde”. Stephen Clark não foi processado e o livro, mesmo em inglês, virou best-seller na França. Sem rififi.
Se você já experimentou um "vin de merde", como a Soninha tem feito ao longo dos anos, ao lado de outros ótimos, pois escreva para cá e reconte a sua experiência. A Soninha está no soniamelier@terra.com.br

4.7.05

Vinho para gays

A Adriana Brandão, da New Marketing, gostaria de saber sobre empresas que fabricam vinhos para gays.
Acho que não existem vinhos para gays, assim como cervejas para pedófilos, limonadas para moças absolutamente virgens, guaranás exclusivos para serial killers e vinhos para balzacas como a sua amiga aqui, a Soninha.
Mas a Rainbow Ridge Winery (http://www.rainbowridgewines.com/), na Califórnia, é talvez a primeira vinícola do mundo a classificar-se como “uma companhia gay”. Logo, o vinho que produz seria eminentemente para gays? Sua logomarca é um cacho de uvas nas cores do arco-íris. E o arco-íris (em inglês rainbow, o nome da empresa) é o símbolo oficial do movimento gay.
Seus fundadores, Dennis Costa e Tom Beatty, sócios no negócio e na vida, mal lançaram o seu primeiro vinho, o Alicante Bouschet e já ganharam prêmios em concursos e conseguiram excelente pontuação na prestigiosa revista “The Wine Enthusiast”: 91 pontos numa escala de 100. Coisa séria.
Só que os vinhos que fazem, o Alicante Bouschet, e recentemente a sua versão de Chardonnay são para heteros, homos, lésbicas, simpatizantes e desinteressados. São vinhos de grande qualidade. A Alicante, uma uva considerada rústica e apenas muito utilizada na França, onde é das mais plantadas lá, mas raramente utilizada como a principal, como nessa versão. Dennis e Tom conseguiram lançar uma novidade – e com qualidade e bom preço.
A Rainbow Ridge contribui para o Centro de Gays e Lésbicas de Nevada e para um projeto de combate a AIDS em Los Angeles. Seus donos são gays, a empresa é gay, o slogan de sua publicidade é "Come Home To Family" (“Venha para a Família”), para a comunidade gay, portanto.
Apenas isso. Os vinhos servem a todos os credos, times, partidos, sexos e, principalmente, gostos. Isso é o mais importante.
Mas fomos encontrar em Roma o que está sendo considerado o primeiro vinho na história dedicado aos gays. O editor italiano Roberto Massari manda produzir vinhos especiais para uma série que intitulou de Vini da Leggere (“Vinhos para Ler”). Isso mesmo, os livros são os rótulos e contra-rótulos dos seus vinhos. Um livro de duas páginas.
A série, que já conta com 11 “vinhos literários”, entre eles um rosé dedicado à revolucionária marxista e feminista Rosa Luxemburg. É o Rosé Luxemburg, um Montepulciano d´Abruzzo 2001. E um branco também da região de Abruzzo, o Barricadero Blanco, em homenagem a Che Guevara.
Massari decidiu ano passado lançar um livro (na Itália seus vinhos são legalmente considerados livros) em homenagem ao primeiro ativista gay da história, o advogado e escritor alemão Karl Heinrich Ulrichs (1825-1895).
Karl assumiu sua condição de homossexual publicamente (e precisava ser muito macho para fazer isso naquela época e naquele país, reduto de prussianos com aquele jeito meinkampf de ser). E publicou panfletos defendendo direitos de gays, lésbicas e das mulheres em geral, que não tinham também quaisquer direitos. Como, advogado, Karl amparou homossexuais acusados de “má conduta pública”, essas coisas. O alemão agitou tanto que acabou preso e depois perseguido em seu país. Buscou refúgio na Itália, onde morreu na cidade de L´Aquila, na região de Abruzzo.
Massari deu ao vinho-livro o nome de Rosso Gayardo (“Tinto Gayardo”), um vinho denso e forte, com 13,5% de álcool, feito com uvas Nebbiolo, da região do Piemonte. É um senhor vinho, uma homenagem a qualquer amante da bebida de bom gosto, não importando sua preferência sexual.
O nome resulta de um jogo de palavras. Em Roma, quando você quer dizer que alguém é forte, valente e que não tem medo de nada, você diz “gagliardo”. Com o sotaque romano, “gagliardo” soa como “Gayardo”. Vale o jogo de palavras e a ironia envolvida.
Bem mais recentemente, em novembro de 2004, a Kim Crawford Wines (http://www.kimcrawfordwines.co.nz/), da Nova Zelândia, lançou o seu Pansy na Austrália. O Pansy é um rosé, misturando merlot, cabernet france um tanto de chardonnay. Sempre foi muito procurado por gays australianos em visita à Nova Zelândia. Daí que a vinícola resolveu lançá-lo na Austrália. Pansy pode ser traduzida como uma espécie de hortênsia, mas é mais entendida como indicativo de homossexual. Na cabeça da vinícola, um vinho para gays deve ser rosado. Logo, quem de onde vem o preconceito?
Temos também a Merryvale Vineyards, uma pequena vinícola do Vale de Napa, na Califórnia (veja em http://www.merryvale.com/), com verba pequena para publicidade, cuja alternativa foi buscar um nicho de mercado. E está tentando o segmento gay. Só que não criou nenhum vinho especial para isso, como a Kim Crawford.
Não existe propriamente um vinho feito para um grupo específico do gênero humano. Não há um vinho para pretos, por exemplo. Contudo, até na África do Sul temos hoje vinícolas pertencentes a pretos e pretos fazendo vinho, como quaisquer brancos, pardos, amarelos etc. E vinhos para quaisquer etnias, credos e opções sexuais.
E se existissem essas marcas? É um assunto para os doutores em marketing, mas pessoalmente acho que esses vinhos teriam muitas dificuldades em ter sucesso comercial.
No Brasil, estima-se que gays e lésbicas somem 10% da população. Nos Estados Unidos, somam cerca de 19 milhões de pessoas com um poder de compra de 800 bilhões de dólares. A maioria dos consumidores gays norte-americanos, por exemplo, tem pouquíssimos ou nenhum dependente e uma renda pessoal alta por quase toda a sua vida. Como resultado de poucos comprometimentos familiares, essa comunidade tem mais tempo para socializar e mais dinheiro para gastar.
85% dos gays e lésbicas adultos afirmam que precisam achar maneiras de reduzir o stress. Entre heterossexuais adultos esse índice é de 78%. São, assim, alvo prioritário para fabricantes de bebidas e mensagens que destaquem prazer e tranqüilidade associados a beber socialmente.
No primeiro mundo, 62% dos gays e lésbicas possuem um computador e 52% deles assinam serviços online. 65% dos que usam a Internet, navegam mais de uma vez por dia. E 71% compram produtos ou serviços através da rede.
Lá, 39% dos gays freqüentam regularmente concertos de música clássica, cinco vezes mais do que a população em geral (8%). É uma comunidade que vai ao cinema duas vezes mais do que o restante da população.
Gays e lésbicas respondem fortemente a marcas e a campanhas de publicidade que refletem seu estilo de vida e valores. Mas reagem negativamente a representações estereotipadas. Por exemplo, a norte-americana Anheuser-Busch, a maior cervejeira do mundo em faturamento, é tida como a preferida dos gays do país, pois coloca anúncios regularmente em publicações para essa comunidade. O mesmo acontece com a vodca Absolut.
E talvez aqui, leitora, esteja o X do problema. Um vinho feito em homenagem a um ativista gay, o primeiro da história; um vinho feito por uma companhia declaradamente gay, a primeira do mundo – tudo bem, são maneiras de bom gosto de acessar a comunidade. Até porque ela é informada o bastante para, em primeiro lugar, experimentar os vinhos. Se forem bons, mesmo, ficará freguesa.
Mas vai virar o rosto para caçoadas, piadinhas de mau gosto: por exemplo, um vinho rosé com a cesta da Carmem Miranda no rótulo. O rosé, normalmente um ótimo vinho, teria de ser soberbo para ser consumido.
Até o momento, Adriana, são essas as referência que dispomos em nossos arquivos. Avise se precisar de mais. Tenho comigo a pesquisa do Datamonitor, a New Direction in Drinks 2000-2005. Ela mostra tudo o que se bebe, como se bebe, quem bebe, onde e porque bebe. Foi de onde retirei os dados estatísticos dessa coluna.
Abraços!

25.6.05

Quando o frio chega

Aqui em Secretário, na Serra de Petrópolis, faz é frio e chove. O inverno chegou mesmo e com chuva. Falam que este ano a estação será mais amena, mas os santos daqui ainda não foram avisados disso. Nesses tempos, temos que tentar mesmo o que manda a estação. Abusar um pouco mais dos queijos, fazer pratos mais suculentos, ler um livro certo ao pé de uma lareira e escolher as bebidas mais estimulantes, saborosas e adequadas.
Comecemos pelo livro:
“Um Bom Ano” é o mais recente trabalho do inglês Peter Mayle, cujo primeiro livro “Um Ano na Provence”, de 1989, transformou aquela região francesa na maior coqueluche do mundo turístico. O inglês foi obrigado a procurar outro canto para morar, pois sua casa era invadida por turistas a todo o instante. Dizem que o livro fez aumentar o fluxo turístico da Provence em até 10%.
Max Skinner é o personagem principal: importante executivo numa corretora de valores em Londres, seu chefe puxa-lhe o tapete e ele se vê desempregado, duro e cheio de dívidas. Só que, ao mesmo tempo, descobre-se herdeiro uma propriedade na Provence, deixada por um tio que não vê faz muitos anos. O cenário continua o mesmo da maioria dos trabalhos de Mayle: os campos e as cidades em torno da Montanha do Luberon (Avignon, Gordes, Roussillon, Ménerbes, Bonnieux etc.). A propriedade é imensa, cercada de vinhedos, mas produzindo péssimos vinhos. Mas, sem querer, descobre que um vinho ótimo, verdadeiro néctar, vinha sendo produzido meio que às escondidas pelo caseiro. A bebida, em barris, era contrabandeada para Bordeaux, engarrafada, rotulada e vendida para uns poucos por um negociante inescrupuloso ao absurdo preço de 60 mil dólares a caixa. Ficamos pasmas, mas isso acontece a três por dois por lá. Acontece que o inglês põe em prática um plano esperto e você poderia até comprar o livro e ajudar a editora Rocco e o Peter Mayle a faturar mais um pouquinho e descobrir as várias e deliciosas peripécias dessa nova aventura no paraíso que é a Provence.
Agora, um prato para o frio.
O livro é recheado de bebidas, como o marc (um destilado de uva, a cachaça local), vinhos roses (marca registrada dos vinhos da Provence), pastis (o aperitivo nacional francês, herdeiro do Absinto, feito de anis) e alguns pratos, como o célebre Cassoulet de Toulouse. Bom, o prato revelado por Peter Mayle leva feijão branco, pato em conserva, lingüiça com alho, carne de porco salgada, pernil de carneiro, gordura de pato, cebolas pequenas, lombo de porco, saucisse de Toulouse (claro), tomates, vinho branco, alho e ervas.
Não precisa adivinhar que as salsichas de Toulouse, sem as quais o tal cassoulet não pode ser feito, não se encontram por aqui. Elas levam carne de porco, mais pimenta, vinho, alho, basicamente. A saída é improvisar. Adaptei uma receita antiga que leva: 500 g de feijão branco, 2 lingüiças calabresas defumadas cortadas em pedaços, 2 lingüiças calabresas frescas cortadas em pedaços, 2 salsichões cortados em pedaços, 200 g de toucinho magro, 2 folhas de louro, 2 colheres (sopa) de óleo, 1 kg de pedaços de frango, 500 g de lombo de porco cortados em cubos ou de costelinhas de porco picadas, 3 tomates, sem pele e sem sementes, picados, 1 cebola grande picada; sal e pimenta-do-reino (ou molho de pimenta) a gosto.
Coloque o feijão, as lingüiças e o louro numa panela de pressão grande. Complete com água até ultrapassar o feijão (cerca de 4 dedos) e feche a panela. Assim que começar a ferver, cozinhe por 10 minutos. Enquanto isso, aqueça o óleo e doure o frango e o lombo. Junte os ingredientes restantes, tempere com sal e pimenta a gosto e deixe no fogo baixo com a panela tampada, mexendo de vez em quando, até que as carnes estejam bem cozidas (se necessário, acrescente um pouco de água). Acrescente essa mistura ao feijão e mexa bem. Pode, se quiser, juntar salsinha e cebolinha verde picada. E não esqueça de crostinhas de pão por cima de tudo. Sirva bem quente com arroz branco. Dá para 8 pessoas.
E o vinho para acompanhar? Ah, se possível um vinho da terra. Se puder, amiga, tente encontrar o magnífico Domaine de Trévallon (citado no livro). É um tinto, metade Cabernet Sauvignon, metade Syrah, originário de um vinhedo que fica entre Arles e Avignon, propriedade de um amigo de Picasso, o pintor e escultor René Dürrbach. Hoje, a vinícola é administrada pelo seu filho, Eloi.
Termine a refeição com um prato de queijos. E, nesse caso, vamos falar de queijos (e vinhos).
1. Quanto mais macio o queijo, mais ele cobre o nosso palato, bloqueando assim muito dos sabores e aromas dos vinhos. A melhor solução é escolher os vinhos brancos, os mais ácidos, que vão ajudar a "limpar", refrescar o nosso paladar dos efeitos dos queijos cremosos.
2. Muitos dos queijos suaves sabem ligeiramente a doce e fazem com que os vinhos secos pareçam mais ácidos, até azedos. E isso acontece sempre que um alimento é mais doce do que o vinho que o acompanha. Solução: os vinhos doces ou meio-secos são mais versáteis do que os secos com esse estilo de queijo.
3. Queijos muitos pungentes, picantes, bem maduros podem sobrepujar o sabor da maioria dos vinhos. Solução: queijos fortes, vinhos fortes. Tintos bem encorpados, com muita fruta. Ou brancos doces e os fortificados, como os Portos, Madeiras e o Jerez.
O caso é que os queijos suaves se ajustam a uma variedade maior de vinhos do que os queijos mais cremosos e maduros. No geral, os vinhos brancos combinam melhor com queijos do que os tintos. E mais: os brancos doces tendem a ser mais versáteis do que os brancos secos. Um tinto com muito tanino (um bom Bordeaux muito jovem, por exemplo) vai combinar melhor com queijo duro, bem maduro.
Experimente um brie macio com um vinho espumante ou com a Chardonnay. Um queijo de cabra com Sauvignon Blanc. Cheddar, Cantal, Gouda, Gruyère com Cabernet Sauvignon ou Merlot. Um Cheddar maduro com Syrah (ou Shiraz), Zinfandel ou os doces naturais. Roquefort com Sauternes ou outros bons brancos doces. Um inglês Stilton (se conseguir encontrar) com um ótimo Porto Tawny. Tintos com algum tanino vão bem com queijos duros, desde que estes não sejam muito fortes ou salgados (você viu que o sal enfatiza o amargo do tanino).
Os queijos duros fatiados ou em raspas sempre vão bem com os tintos. Os queijos macios do tipo camembert e pont l'evèque são mais difíceis de combinar. Consuma-os antes que se tornem muito moles e intensos em sabor.
Se além dos queijos você acrescentar frios e patês, tente os brancos leves (Muscadet, Pinot Grigio, Sauvignon Blanc, Riesling). Com salmão, atum ou presunto defumado não se esqueça dos brancos encorpados (os do Rhône, a maioria dos Chardonnays australianos e californianos, o Albariño, o Pouilly-Fumé etc.). Agora, só me falta acender a lareira.
Não esqueça, amiga, que uma garrafa regular de vinho tem 750 ml, o bastante para 5 taças. Se considerarmos que cada pessoa vai beber em média 3 taças e se em nossa mesa tivermos 5 pessoas, o consumo será de apenas 3 garrafas. Na verdade, eu optaria por 4 garrafas, pelo menos. O frio nos fará beber mais. A resolver apenas são quantos estilos de vinho (branco, tinto, fortificado, doce) para que tipos de queijos.
Tentar apenas um vinho que combine com toda uma tábua de queijos (azul, um camembert, cabra e um duro), não dará certo. Se for este o seu caso, limite-se a apenas um único e grande queijo. E esse é o caso do final do nosso cassoulet.
Acho que degustamos quase todo o livro do Mayle. Se quiser outras receitas de pratos e bebidas para o frio é só clicar aqui para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br

Vinhos sem álcool

E os vinhos sem álcool? Volta e meia, recebemos perguntas a respeito. Você está tomando remédios que não podem ser misturados com álcool. Ou por algum outro motivo de saúde ou religioso, está proibido de consumir álcool. Até mesmo, porque vai dirigir e é uma pessoa responsável. Várias são as razões de pensarmos num vinho sem álcool.
Eles existem comercialmente há cerca de 20 anos e, na realidade, seu nome deveria ser outro, pois não existe efetivamente vinho sem álcool. Os vinhos “sem álcool” têm de menos de 1 vão até 2% de etanol. A categoria com “baixo teor de álcool” vai de 2 a 5,5%.
Como sabemos, o álcool é resultado da fermentação das uvas. O fermento se alimenta do açúcar e o transforma num tipo de álcool, o etanol. O vinho sem álcool é aquele em que, passado pelo tradicional processo de fermentação, o álcool é retirado (quase que totalmente), através de várias técnicas.
O resultado pretendido é ter uma bebida a mais próxima possível do vinho verdadeiro, aquele com álcool, que normalmente contem de 11 a 14% de teor alcoólico. O conteúdo de menos de 1 até 5% de etanol coloca esse tipo de vinho fora da jurisdição das bebidas alcoólicas e mais na categoria dos sucos. Quem por graves motivos de saúde (portadores de hepatite C, por exemplo) está terminantemente proibido de álcool, em qualquer quantidade, não pode tocar nesse vinho. Até mesmo um suco de laranjas fresco pode conter pequenas quantidades de álcool, resultantes da fermentação natural do suco.
O álcool pode ser retirado do vinho através de vários métodos: pela diluição, pela fermentação parcial, via destilação a vácuo. Aqui, os componentes do vinho são desmembrados numa câmara de baixa pressão e temperatura ambiente. Os componentes não voláteis (minerais, ácidos, fenóis, açúcares e vitaminas) são preservados. A maior parte do álcool é evaporada. Técnicas mais modernas, como a da osmose inversa, por exemplo, podem ajustar a concentração de ácidos ou de álcool nos vinhos e, dizem, resultam em melhores vinhos “sem álcool”.
O caso é que o álcool é o elemento mais potente no vinho e o que se distingue mais obviamente do suco da uva. Ele não tem sabor, mas possui efeitos claros em nosso sistema nervoso (se consumido em demasia), mas principalmente no sabor e textura do vinho. Quando bem equilibrado, ele simplesmente não vai ser notado. Quando em excesso, deixa uma sensação de calor. Os vinhos classificados como “encorpados” são geralmente aqueles com alto teor alcoólico.
O caso é que andei experimentando alguns e continuo achá-los muito ruins. Sem o álcool temos uma bebida que não vinho, nem suco de uva. Boa parte deles é feita com uvas marginais.
Se o leitor tiver que evitar álcool, o melhor mesmo é ficar com os nossos ótimos sucos de uvas. Vinho tem que ter álcool. Até Noé sabia disso.

24.6.05

Das safras

Lá pelos idos de 1967, José Carlos (Carlinhos) Oliveira, um dos cronistas mais populares e polêmicos do Rio de Janeiro entre 1960 e 1980, foi ver um show numa nova casa da cidade, uma cervejaria “gigantesca” chamada Canecão. O show era o da banda dos Herman’s Hermits, que fazia sucesso na esteira dos Beatles. Jovens trepavam nas mesas para ver a banda e dançar.
Uma garota “gentilmente envolvida numa minissaia, de vez em quando se abaixava para esticar as meias. Era um gesto displicente, estudado e atrevido. Uma espontaneidade cruel, de acordo com a conduta das mocinhas de hoje”. E o Carlinhos lá, “sentado ao pé de uma dose de uísque”, só olhando.
A conclusão dele foi que se o show fosse dos Beatles, “veríamos o maior festival de bumbum de todos os tempos”.
Assim, podemos dizer que a safra de 67 na noite carioca, pela mostra dada no Canecão, destacou os bumbuns das moças.
Safra pode ser o processo físico de colher a uva e fazer o vinho - e, nesse caso, o nome mais apropriado é colheita.
Mas é principalmente o ano em que um determinado vinho foi produzido, o que normalmente vem registrado nos rótulos das garrafas. Corresponde também às características daquele ano. A safra foi boa, foi ruim, o vinho é bom, é medíocre. Na noite carioca, a característica da safra de 67 foi o bumbum das moças, na avaliação do Carlinhos.
Essas características derivam em sua maior parte das condições climáticas na região aonde a vinha foi cultivada e suas uvas colhidas. Mas dependem igualmente do tipo de solo e da variedade da uva plantada nele: como reagirão à exposição ao sol, às chuvas, às geadas eventuais; qual a capacidade de drenagem desse solo; como a videira reage a uso de determinados pesticidas; qual foi o acerto das podas: resultaram em maior exposição ou em excessiva proteção contra o sol?
Os melhores vinhedos em regiões de solo bom são aqueles menos sujeitos a variações sazonais. Conseguem assim manter alta qualidade consistentemente.
Cada variedade de uva reage de modo diverso às condições de tempo e do terreno. Cada espécie tem seu tempo de floração, frutificação e amadurecimento. Está, portanto, à mercê das estações e dos cuidados que o vinicultor terá com ela ao longo do ano.
Assim, a receita para o vinho é bons frutos, bom solo, bom vinicultor e bom tempo. Basta apenas um desses ingredientes ser classificado de excepcional para termos um vinho igualmente excepcional.
No nosso hemisfério sul, a data da safra corresponde ao ano em que as uvas foram colhidas, mesmo que o ciclo de crescimento da videira tenha na verdade acontecido no ano anterior.
No hemisfério norte, a data da safra corresponde tanto ao ciclo completo de crescimento da vinha como também ao ano da colheita.
Qualificar uma safra não é nada fácil. Comerciantes e críticos de vinho provam os vinhos muito novos, ainda em barris, como os vinhos da safra de 2004 de Bordeaux, colhidos em outubro, depois prensados, fermentados, levados aos barris e provados nas duas primeiras semanas de abril. Como estarão esses vinhos, em garrafas, daqui a 2 anos, daqui a cinco, dez, vinte anos?
As tabelas de safras podem ser úteis, mas são falíveis. Por exemplo: você lê numa tabela que um vinho de Graves da safra de 1990 (Graves é uma importante região de Bordeaux, famosa por produzir tanto tintos e brancos de grande qualidade) recebeu de um crítico a nota 90 (90 de um máximo de 100; excelente marca) e está hoje, 2005, pronto para ser bebido. É uma generalização arriscada, pois essa região tem centenas de produtores, cada qual com vinhos de estilos diferentes, cada qual sujeito a solos e subclimas diversos entre eles.
E não se pode afirmar que o ano de 67 para os vinhos foi bom ou mau. Tudo depende principalmente das condições climáticas na região onde as uvas foram colhidas.
Pois Carlinhos de Oliveira, que escreveu durante 23 anos no Jornal do Brasil, foi o crítico das várias safras da vida boêmia do Rio de Janeiro. É considerado o primeiro e talvez único cronista até hoje a construir uma narrativa panorâmica da boemia brasileira. Através dele temos notas críticas sobre bares e restaurantes que fizeram época. O Vermelhinho, por exemplo, em frente à Associação Brasileira de Imprensa, onde, nos anos 50, era o “quartel-general do existencialismo verde-amarelo”.
Dos anos 50 em diante, Carlinhos comenta os bares do Centro da cidade (como o Vilariño, o Juca’s Bar, o Amarelinho), passando pelo Lamas e o Taberna da Glória e por Copacabana, quando ela começou a florescer, com safras ótimas de bares e restaurantes: Vogue, Sacha’s, Fred’s, Plaza, Fiorentina, Alpino, Le Rond Point, Michel, Drink, Zum-Zum, Au Bon Gourmet, Alcazar, Lucas, as boates do Beco das Garrafas e toda aquela influência do jazz.
Depois, chegou a histórica safra de Ipanema, onde foi até acusado de criar a mitologia do bairro e provocar a especulação imobiliária na região. Não vamos esquecer que ficava lá o Veloso, onde Tom e Vinícius viram passar aquela coisa mais linda. O Veloso é hoje mais um ponto turístico da cidade e mudou até de nome, por isso: para um óbvio Garota de Ipanema.
Sobre um bar e boate de Copacabana, o Le Bateau, Carlinhos fala, numa crônica também de 1967, que “As meninas estão soltas. São lindas. Dançam à maneira das deusas de outrora... elas dominam o ambiente. Próximas e inalcançáveis. Distantes e acessíveis. Inocentes e cruéis.”
Ele até arrisca antecipar como será a futura safra. “A safra de 1970 vai ser fogo! Compreendemos com clareza que cada ano implica um novo tipo de mulher. Novo por dentro e por fora.”
Enquanto Carlinhos aprecia a leva de 1967 no Bateau, vejo numa tabela que a safra desse mesmo ano não resultou muito boa para os tintos de Bordeaux, mas os brancos doces saíram melhor.
Muita gente utiliza safra em sua versão inglesa, “vintage”, uma palavra que deriva do latim, “vindemia”, vindima, colheita. E vintage ficou na moda, com sentido de “maravilhoso”. Tal coisa é “vintage”, mesmo que não seja colheita, vinho etc.
Sendo assim, os tempos de Carlinhos Oliveira foram “vintage”. Afinal, por décadas ele ia de bar em bar, no profundo da noite, sem esbarrar com arrastões, assaltos, balas perdidas e ataques covardes de pitty boys.
Os tempos de Carlinhos eram principalmente os do uísque e, em segundo lugar, do chope. Hoje, em compensação, vemos mais vinhos nas mesas, com os rótulos do hemisfério sul cada vez mais cada vez. De algum modo, os hábitos se tornaram mais largos, mais variados. Os nossos vinhos melhoraram bastante, já as cervejas aguaram.
José Carlos Oliveira, um carioca do Espírito Santo, conta como foi a maravilhosa noite do Rio, em O Homem na Varanda do Antonio’s (Editora Civilização Brasileira, 2004), uma imperdível seleção de suas crônicas, de suas perambulações boêmias, onde uma parte fundamental da safra carioca de arte, invenção, alegria e civilização é magistralmente descrita.
É um período “vintage”, tal como seu autor e suas crônicas. A safra atual mostra diferenças soturnas: nela não vejo nada de “vintage”, apenas algumas coincidências. Nos tempos de Carlinhos, tivemos a calça Saint Tropez e hoje as cinturas caíram mais ainda, com avenidas propondo acesso ao cóccix e ao púbis das meninas. Talvez, mais uma vez, tenhamos aí novamente um novo tipo de mulher.
Aproveitamos, como se vê, misturar safra de vinhos com o contexto dos tempos e costumes, onde nem tudo que brilha é “vintage”. Com exceção do Carlinhos Oliveira.
Leitora, o que está achando da atual safra na noite de sua cidade? Qual a safra de qual vinho mais lhe agrada? Comente aqui para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Outros códigos de da Vinci

Outro dia, telespectadores ingleses reclamaram que um comercial de TV, oferecendo uma nova salada de uma rede de fast food, mostrava um grupo de trabalhadores comendo o produto, mas falando e cantando ao mesmo tempo. Diziam que o filmete encorajaria nas crianças maus modos à mesa.
Modos é uma outra maneira de nos referirmos à etiqueta, aquela série de códigos ou de regras de conduta, de comportamento social, seja à mesa para comer, seja num campo de futebol ou de golfe, seja simplesmente andando na rua, conversando ou trajando as roupas adequadas que demonstramos o nosso grau de civilidade, nossa capacidade de conviver com o próximo.
São códigos normalmente não escritos, refletindo o comportamento ou a tradição de toda uma sociedade. Na antiguidade, as violações de simples regras de etiqueta poderiam resultar em grandes tragédias.
A norma entre os tapuias é comer com as mãos e entre nós, os chamados civilizados, usamos garfos e facas, embora nem sempre saibamos utilizar a completa coleção de talheres ou de copos num banquete pra valer. É uma questão de cultura, que também não pode ser conduzida com intransigência e arrogância. Luis XIV estabeleceu um elaborado e rígido cerimonial para a sua corte, mas continuou a utilizar os dedos para comer – sempre com muito estilo, para horror dos burgueses já familiarizados com garfos e facas.
Seria inevitável que o vinho, tão fortemente ligado à cultura dos homens há milênios, tivesse gerado a sua série de códigos, a sua etiqueta própria. E é sobre ela que vamos falar. É um assunto que pode compreender várias colunas. Nessa primeira, vamos dar atenção à etiqueta dos vinhos nos restaurantes.
1. Quando o sommelier retira a rolha, colocando-a ao seu lado na mesa e em seguida lhe apresenta a garrafa, não cheire a rolha. O que você tem de cheirar (atenção que é só cheirar, não é provar) é aquela pequena quantidade de vinho que o profissional coloca em sua taça. Cheirar é tudo o que você precisa fazer para saber se o vinho contém algum defeito, alguma falha. Apenas sentir os aromas originários da taça, identificar se a bebida apresenta os fortes odores de mofo causados pela “doença da rolha” (o terrível TCA), ou parece avinagrado.
Não, não gire a taça para depois cheirá-la. Ao girá-la, você poderá disfarçar tais odores. Só gire a taça após aprovar a garrafa (ou seja, você não encontrou nenhum defeito depois de ter sentido os tais aromas). Nessa ocasião, poderá até provar o pouco vinho que lhe foi servido. Mas o melhor é solicitar que o sommelier sirva as demais pessoas presentes à mesa para, ao final, completar a sua taça.
2. A pessoa que solicitou o vinho (normalmente é quem o escolheu) é quem deve prová-lo e aprová-lo ou não. Nada de ficar passando a taça para os outros convidados à mesa e pedir suas opiniões. Se você não se sente seguro para escolher, peça ajuda ao sommelier: é para isso que ele estudou, treinou e está lá no salão.
3. Não traga um vinho de casa sem antes consultar o restaurante sobre essa possibilidade. Afinal, é o mesmo que levar uma pessoa a uma festa para a qual não foi convidada. Consulte, antes, o dono da festa.
Caso o restaurante aceite que você traga o seu vinho de estimação, tome o cuidado de estudar a carta de vinhos do restaurante. Afinal, seria ofensivo você aparecer com um rótulo que já consta da lista do restaurante. O correto seria levar um vinho excepcional, que não exista na carta daquela casa.
Os restaurantes com cartas de vinhos mais simples costumam não cobrar pela “rolha” – ou seja, uma taxa sobre o vinho que você trouxe de casa.
As casas com uma adega rica, uma carta variada, com vinhos do Velho e Novo Mundo, de vários estilos, e uma gama de preços de médios a caros, costumam cobrar pela “rolha” – e a taxa vai depender da qualidade (e preço) do seu vinho. Afinal, eles vão ter algum trabalho com a sua garrafa: resfriá-la, prepará-la, servi-la etc.
Outros restaurantes, normalmente dentro da categoria acima, simplesmente não aceitam. Argumentam (li em alguma parte) que isso seria o mesmo que você trouxesse a sua comida de casa. Faz sentido.
4. Caso tenha sobrado algum vinho à mesa, peça para sejam novamente arrolhados e leve-os para casa. Você pagou pelo vinho, ele é seu. Nenhum restaurante vai se opor: não há etiqueta que condene essa atitude.
Mas se prefere que os vinhos solicitados sejam todos consumidos. Ou, melhor, que não haja desperdício (pediu vinho demais etc.), calcule mais cuidadosamente a quantidade de garrafas. Às vezes, pedir uma garrafa de 750 ml, o tamanho padrão, e várias meias garrafas (375 ml) seja a melhor solução. O problema é saber se o restaurante possui meias garrafas do vinho que você escolheu.
O melhor mesmo é levar para casa o que sobrou. Nada de beber até a última gota simplesmente para que não sobre nada. Não esqueça que você e seus convidados vão dirigir em seguida.
5. Se o vinho está “com um sabor estranho”, a primeira coisa a fazer é pedir a opinião do sommelier. Atenção: não é ir logo reclamando. Peça educadamente a opinião do profissional. Ele vai colocar uma pequena quantidade do vinho num tastevin (aquele objeto que parece um medalhão dependurado no pescoço do sommelier) ou numa taça de degustação, cheirar e eventualmente dar uma provada no vinho. Ele vai confirmar ou não as suas suspeitas.
Antes de chamá-lo, porém, tente mais uma vez. Cheire e prove novamente. A primeira provada num vinho quase sempre resulta num sabor muito ácido. Sempre será mais ácida, inclusive, se você experimentar um vinho logo depois de ter terminado o seu coquetel. Dê um tempo, beba água, coma um pedaço de pão. Enfim, limpe a boca. Deixe o vinho “respirar”.
Certifique-se de que seguiu as recomendações do sommelier: deixou o Cabernet Sauvignon “descansar” por algum tempo, concordou em que o vinho fosse decantado (se necessário) – e só então experimentou por uma segunda vez.
Se nada disso der certo, fale com o profissional. Certamente, a sua garrafa será trocada. Em alguns restaurantes, o primeiro a provar o vinho é o sommelier (normalmente, fora das vistas do cliente) – o que evita embaraços futuros.
6. Pode acontecer de você, simplesmente, não gostar do vinho que escolheu, devolver a garrafa e escolher outro vinho. Isso acontece até em casamentos. Se o restaurante for efetivamente sofisticado e segue a etiqueta, a garrafa recusada não será cobrada (o que é raríssimo de acontecer em casamentos).
7. Se você tem uma mesa com muitos convidados, com gostos diferentes, tente pedir vinho em taças. Nem sempre é uma solução barata. E nem sempre possível, pois o normal é encontrarmos ofertas muito pobres de vinho em taças, mesmo em boas casas. Experimente chegar a um acordo quanto às preferências por tintos e brancos e peça a quantidade de garrafas que possa atender a todo o pessoal.
No caso de brancos, vinhos como o Sauvignon Blanc, Chardonnay e Riesling são capazes de cobrir uma grande gama de comidas. Entre os tintos, um Pinot Noir e um Syrah costumam fazer o mesmo.
Leonardo da Vinci ficava indignado com o costume do seu senhor e protetor, Ludovico de Sforza, o homem forte de Milão, em pleno Renascimento, de amarrar coelhos à cadeira de seus convidados para que pudessem limpar a gordura das mãos. O mestre também condenava o hábito do mesmo Ludovico em limpar sua faca nas roupas de seus companheiros de mesa. “Por que não o faz como o resto dos membros da Corte, na toalha da mesa?”
Os Cadernos de Cozinha de Leonardo da Vinci, um conjunto de notas descobertas em 1980 na Itália, nos dá uma idéia das normas de conduta e práticas culinárias em pleno Renascimento. Leio na orelha da obra, editada aqui pela Record, que todos os indícios apontam para a autenticidade dessas notas. Da Vinci é tido como o inventor dos guardanapos, das tampas de panelas e até do sanduíche, criação atribuída aos ingleses (ao Conde de Sandwich, aristocrata do século 18, que criou o prato para não perder tempo comendo enquanto jogava).
Se na Itália do grande gênio italiano os códigos já tentavam evitar as práticas horrendas (o comensal “deverá abandonar a mesa se está para vomitar. E o mesmo se tiver para urinar”), é isso que eles continuam fazendo até hoje.
Quando tratamos da etiqueta para os vinhos ou para as bebidas em geral as pessoas muitas vezes torcem o nariz por entenderem que são complicadas ou inúteis. Mas o que ela certamente faz é nos ajudar a saborear a bebida em paz, com a tranqüilidade e o respeito que ela e os nossos convidados merecem.
Comente sua experiência com as etiquetas, amiga leitora, e clique aqui para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

28.5.05

Nomes

Pensei primeiro em “Palavras” como título de uma coluna sobre as palavras ligadas ao mundo das bebidas. Refletindo um pouco mais, optei por “Nomes”, que engloba palavras ou locuções com que se designam classes de coisas, pessoas, animais, acidentes geográficos. Vocês vão ver que temos até nomes de uvas se confundindo com nomes de pessoas. Logo, achei “Nomes”: é muito mais abrangente para que comecemos uma espécie de glossário, sem ordem, mas em nada desordenado. Sem preferências também: teremos verbetes de fermentados e destilados e sobre personalidades de destaque nesse meio. A coluna de hoje é a primeira de uma série, mas não esperem que continuemos na próxima semana, embora não tenhamos a menor vontade de repetir o George Lucas, que levou 29 anos para completar a série “Guerra nas Estrelas”. Vamos aos nomes e que o lado bom da força esteja com vocês.
Álcool – começou com uma palavra árabe para descrever um fino pó metálico usado como cosmético - como sombra e delineador para os olhos (al-kuhul). Por extensão, qualquer pó fino, impalpável, que representasse a concentração, a quintessência do material de origem. É do século XVII o sentido de “o puro espírito de alguma coisa” – pois a palavra começou a ser aplicada a fluídos que representassem a essência – ou o espírito – de alguma coisa. E, assim, a qualquer produto resultante da destilação. Daí “spirit”, a denominação de destilados em inglês.
Mas foi somente no século XVIII que álcool começou a ser utilizado no sentido de algo que você pudesse ou quisesse beber. Já alcoólico existe apenas a partir do século seguinte, como algo com sabor ruim, pelo excesso. Ou pelo rolo promovido pela turma do funil.
Rosé. Não, não é um vinho só para moças ou para metrosexuais. Fica entre o tinto e o branco, daí seu nome: rosado. Pode ser feito, hoje em dia, de duas maneiras: o suco do tinto fica pouco tempo em contato com as cascas das uvas (que fornecem a cor). Ou misturando-se uma quantidade de vinho tinto com vinho branco. O sabor do rosé por esse processo é bem diferente do conseguido pelo primeiro método, o da maceração. Pois esse vinho voltou à voga. Não deixe de tomá-lo como um branco, bem seco e resfriado. É bem refrescante (e não promove aquela barriguinha dos cervejeiros).
Reserva. Essa palavra aparece em diferentes formas (reserva, reserve, riserva), com diferentes significados em diferentes regiões viníferas. Nos Estados Unidos, “reserve” não tem definição oficial e pode ser usado num rótulo do jeito que o produtor quiser. Normalmente, a utilizam para valorizar o vinho (e sem qualquer justificativa para isso). “Riserva” e “Reserva” (utilizadas na Itália e na Espanha, respectivamente) são designações legais, autorizadas desde que certas condições sejam atendidas. Essas circunstâncias variam de região para região, mas na média têm relação com o tempo de maturação de um vinho. Num “riserva” italiano normalmente se indica que o vinho ficou cinco anos em barril de carvalho e depois em garrafa até ser colocado à venda. Num espanhol “reserva”, o vinho levou pelo menos três anos amadurecendo (e pelo menos um deles em barril de carvalho). Quanto maior o tempo de maturação ou de “reserva”, não tenha dúvidas: o vinho fica mais caro.
Bloody Mary. Muita gente pensa que o nome desse clássico coquetel tem origem em Mary Tudor, filha de Henrique VIII, da Inglaterra. “Maria Sanguinária” (“Bloody Mary”) seria um apelido seu por não parar de esfolar protestantes em nome da Igreja Católica. Mas o nosso Bloody Mary é criado muito mais tarde, nos agitadíssimos anos vinte, em plena idade do jazz. E dois barmen reclamam a autoria desse famoso coquetel, o pai curativo de todas as ressacas (é o que dizem).
Um deles, Fernand Petiot, um americano, barman (ou bartender, naqueles tempos) no legendário Harry’s Bar de Paris. Um dia, em 1926, testava coquetéis quando misturou duas porções iguais de suco de tomate e vodca. Algum cliente encostado ao balcão disse que a mistura lembrava um clube de Chicago chamado “Bucket of Blood” (“Balde de Sangue”; imagine só esse antro) e, mais especificamente, uma garota que conhecia de lá, chamada Mary. Imediatamente, o nome “Blood Mary” foi cunhado pelo barman.
Mais tarde, já de volta aos Estados Unidos, Petiot foi trabalhar no bar do hotel St. Regis. Tentou mudar o nome do coquetel. Não deu certo. Mas começou a adicionar uns toques na bebida: pimenta preta e vermelha, molho inglês, limão, Tabasco, numa versão mais picante que continua sendo utilizada, com mais alguma coisa e menos outra, até hoje.
Um outro barman, George Jessel, jura que criou o drinque na casa de um amigo, em Palm Beach, em 1927. Revela que o nome é uma homenagem a uma ricaça, Mary Brown Warburton, que acabava de chegar à casa do tal amigo. Ela logo pegou um copo, que escorregou de sua mão, derramando a nova criação de Jessel sobre seu vestido. Ela não perdeu a pose e disse: “Agora todos podem me chamar de Bloody Mary”. Parece meio anedota, mas enfim, cada qual com suas versões.
Aberto, Fechado. São palavras que com freqüência encontramos nas resenhas sobre vinhos, normalmente como uma referência à estrutura, concentração e corpo do vinho. Um vinho “fechado”, numa analogia feita pela revista Wine Spectator, pode ser comparado a uma pessoa quieta, reservada, envergonhada. Leva algum tempo e esforço para que cheguemos a ser amigas dessa pessoa, exatamente como um vinho com essa característica. Suas qualidades estão lá, guardadas, mas ainda não se “abriram”.
A comparação pode igualmente ser feita para uma pessoa completamente sociável, gregária, que todos conhecem. Um vinho “aberto” permite uma opinião imediata.
Na medida em que amadurece, um bom vinho experimenta um processo de abertura: seus taninos ficam mais suaves, sua estrutura inicial relaxa e ele começa a mostrar suas qualidades – coisa que, envergonhado, “fechado”, não fazia quando saiu da vinícola.
Daiquiri. Dizem que o nome desse drinque apareceu impresso, pela primeira vez em 1920, na esplêndida novela “Esse lado do paraíso”, do grande F. Scott Fitzgerald – que devia gostar muito da mistura, pois fez com que seu personagem pedisse logo quatro daiquiris duplos de uma só vez. O fato é que seu inventor é tido como um engenheiro americano, Jennings Cox, que juntou suco de limão, açúcar, rum e gelo num boteco da cidade de Daiquiri, em Cuba. Outros falam que o coquetel já existia naquela cidade e o gringo levou a receita com ele. Falam também que em Daiquiri a mistura só era tomada com “fins medicinais”. Você acredita em histórias de botequim? Nem eu.
Vinho Verde. Você já viu um vinho verde, verde? Pois ele é branco ou tinto. É chamado de verde, em Portugal, porque costumeiramente são vendidos bem jovens. É um vinho leve, ácido e às vezes ligeiramente espumante. A maioria dos tintos é bebida mesmo em Portugal e praticamente apenas o branco é exportado. Daí o pessoal pensar que o verde de seu nome está errado. É mesmo de dar um branco. São originários da maior região vinícola demarcada do país, a Costa Verde, acima da cidade do Porto.
Cuvée. Em francês, a palavra “cuve” significa tanque, tonel, cuba. Logo, “cuvée” é o vinho originário desse vasilhame. Uma vinícola pode lançar dois “cuvées” de uma mesma safra e variedade, mas com diferenças no sabor ou no metido de amadurecimento. Cuvée é também um blend de vinhos amadurecendo num mesmo tonel. Na região de Champagne, França, as “cuvées de prestige” são os melhores espumantes que uma vinícola pode produzir. Geralmente, são originários do melhores vinhedos, amadurecem mais tempo nas adegas do que os demais vinhos daquele produtor.
Chipre. Foi o primeiro país do Mediterrâneo a produzir vinho. A descoberta é recentíssima, feita por uma arqueóloga italiana. Maria-Rosaria Belgiorno revelou que descobriu evidências que a ilha produza vinhos há 6 mil anos. Ela encontrou potes e jarras datando de 3.500 anos A.C. Acreditava-se até agora que o vinho na região vinha de onde é hoje a Turquia e a Síria. O primeiro vinho foi de arroz, feito na China há cerca de 9 mil anos. Há evidências que o vinho feito de uvas data de 7 mil anos e tem origem no atual Iran.
Isabel. Lá pelos idos de 1844, a Princesa Isabel e seu marido, o Conde D’Eu viajaram pela Província de São Paulo. No diário de viagem, a Princesa comentada sobre um vinho produzido na Chácara Califórnia, propriedade do italiano Ângelo Feline: “Provei do melhor, não é mau, mas tem sempre aquele amère goüt resinoso que noto em quase todo o vinho feito no Brasil”.
O “gosto amargo resinoso” era resultado da fruta homônima da Princesa – a uva Isabel ou Isabella, ou Americana trazida dos Estados Unidos entre os anos de 1830 e 1840. Isabel, a uva, é uma vitis labruscana Bailey, uma híbrida espontânea labrusca-unífera. Foi a uva mais utilizada pelos produtores brasileiros, por ser muito resistente ao clima úmido e às pragas tropicais. Foi tão utilizada que fez desaparecer as castas européias no país, numa situação que apenas se reverteu com a chegada dos imigrantes italianos na Serra Gaúcha, quando começou a ser trocada pela vitis vinífera, ou seja: a espécie que resulta nas uvas com as quais se produzem os vinhos nacionais (e internacionais). Pois tudo isso aprendi no livro do Carlos Cabral, “Presença do Vinho no Brasil: um pouco de história”, da Editora Cultura (ISBN 85.293-0070-X). Não deixe de lê-lo. Aproveite Bienal do Livro, no Rio, para comprá-lo.
Jackie Gleason. “Beber remove cravos e espinhas. Não as minhas, mas das pessoas para quem olho”.
Essa é uma das tiradas de um grande bebedor e ator ainda maior (nasceu em 1916 e morreu em1987).
Viu? Não faltaram nomes de uvas e de personalidades. Logo, acho que o nome da coluna é apropriado.
Mas não deixe de comentar, através do soniamelier@terra.com.br

Mais Nomes

Leitores que se deram ao trabalho de ler a coluna passada (“Nomes”) pediram mais. Sir Isaiah Berlin (1909-1997), historiador, filósofo e ensaísta inglês, disse que existem duas classes de escritores: os ouriços e as raposas. Os primeiros se enrolam formando uma bola e giram constantemente em torno dos mesmos assuntos. Os raposas vivem farejando assuntos os mais diferentes e raramente param num mesmo ponto. Assim, vamos dar uma de ouriço e voltar ao tema dos nomes, mas ainda no círculo das bebidas, mantendo a desordem como ordem e de algum modo tentando ser uma raposa e descobrir novidades.
Orgânico. Significa evitar produtos químicos para matar insetos, fungos, sementes ou fertilizantes químicos para nutrir o vinhedo. A principal vantagem da produção orgânica é a de minimizar os resíduos químicos no solo, na atmosfera, nas fontes de água natural e no vinho, finalmente. Ninguém pode afirmar quais os efeitos de longo prazo que esses resíduos promovem em nós e no planeta. Portanto, um vinho orgânico pode ser visto como um fermentado produzido com muita cautela, com muita segurança. Num vinhedo convencional (não orgânico), os produtores aplicam sprays com substâncias químicas para combater pragas e proteger a sua colheita. No curto prazo, essas aplicações têm sucesso. Mas com o tempo, elas adquirem resistência às químicas e reaparecem. Seus predadores naturais, as joaninhas, são também eliminadas pelo spray e o equilíbrio natural do vinhedo é destruído. Os resíduos químicos contaminam o solo, as fontes de água e o vinho. O sagrado “terroir” (conjunto de solo, sol, ventos, chuva numa determinada região) é adulterado a cada ano pelo uso de fertilizantes sintéticos, fungicidas e inseticidas.
Os vinhedos orgânicos preferem usar cavalos, para arar o solo e distribuir as sementes, por exemplo. Os tratores podem compactar o solo, mas poluem e não fornecem o adubo fertilizante, como os cavalos – que, ainda, fazem com sejamos menos gananciosos, pois a produção costuma ser muito pequena se comparada com a dos produtores convencionais, e fazem vinhos mais concentrados. Mas atenção que por ter a palavra “orgânico” no rótulo o vinho não é inerentemente melhor do que o não-orgânico. O produtor precisa manter a vinícola limpa, descontaminar o solo. E principalmente saber fazer vinho.
Biodinâmico. Um vinhedo biodinâmico é uma variante do orgânico. Também não utilizam fertilizantes, pesticidas, herbicidas – nada de químico ou sintético, exatamente como o orgânico. Mas acredita que na natureza existem forças vitais em ação e procura operar de acordo com o ritmo dessas forças. Por exemplo, as fases da lua. A passagem da lua por diferentes constelações exerce influências nos quatro elementos básicos: a água, a terra, o ar e o fogo, representados pelas folhas, raízes, frutos e flores, respectivamente. Uma lua crescente aumenta a vitalidade, o aroma ou a cor da planta. A minguante influencia os líquidos internos da planta. Tem algo de Santo Graal, de Código de Da Vinci nessa variante.
O celebérrimo Romanée Conti, em Vosne-Romanée, na Borgonha, é um vinho biodinâmico.
Força. As queridas leitoras podem se divertir assistindo a uma versão em animação do “Guerra nas Estrelas” e se deliciar com a grande batalha dos orgânicos contra o “lado negro da Força”, frutas, legumes e vegetais não orgânicos.
É o Store Wars, a “Guerras do Mercado”, onde o herói não é o Luke Skywalker, mas “Cuke” (Pepino) Skywalker. Seu mestre não mais é Obi Wan Kenobi, mas Obi Wan Cannoli (uma pasta enroladinha, famosa sobremesa siciliana). O Chewbacca, o co-piloto da Millenium Falcon, fiel escudeiro do Han Solo, passa a se chamar Chewbrócoli. E vai por aí.
É um desenho animado que tenta fazer com que você engrosse o “lado bom da Força” e passe a consumir produtos orgânicos. Veja aqui.
Doença da Rolha. É o que o francês chama de “bouchonné” (“odor de rolha”). A rolha de cortiça serve para selar o vinho na garrafa e evitar que se altere rapidamente e seja destruído pelo oxigênio. Porém, a rolha é um produto orgânico, com origem num tipo de carvalho, o “Quercus Suber”, o Sobreiro português, maior produtor de cortiça do mundo (e, logo, de rolhas para garrafas).
Essas rolhas contêm microorganismos que podem infectar o vinho (que deviam proteger) como resultado dos produtos químicos utilizados para tratá-las antes de cortadas e inseridas nas garrafas. O resultado é que o vinho fica cheirando a “papelão molhado, mofado”, “cachorro molhado” etc. No final, além do mau cheiro, o vinho tem o seu sabor também afetado.
A contaminação da rolha é feita por um elemento químico conhecido por TCA (trichloroanisole). Estimam que entre 7 e 10% de todo o vinho produzido no planeta chegue ao consumidor contaminado pelo TCA, ou seja: perdido. É muita coisa, são milhares de garrafas, uma fortuna. Há produtores mudando já faz tempo para tampas alternativas: rolhas de material sintético e roscas de metal são as opções mais procuradas. Parece que as tampas de rosca metálica vêm agradando mais.
Brettanomyces. Ou apenas “Brett”, no jargão dos conhecedores de vinho, é uma variedade de fermento indesejável, que ataca o vinho deixando nele odores desagradáveis, descritos como “cheiro de estábulo” (que é uma maneira delicada de nomear o cheiro da bosta de boi, na verdade).
Um vinho pode apresentar vários outros defeitos, como o “AV”, para acidez volátil, que deixa um cheiro de acetona, cola de aeromodelos etc. Mas isso fica para outra coluna.
Bogart. Sim, o grande ator, Humphrey Bogart (1899-1957), o Rick de Casablanca, o grande amor de Ingrid Bergman (a Ilsa do filme). Pois Bogart era um senhor bebedor. Conhecia demais esse departamento. Foi o verdadeiro criador do “Rat Pack”, grupo de amigos que recebia em casa para jogar conversa fora. E beber. Do grupo original faziam parte Richard Burton, Frank Sinatra, Judy Garland e naturalmente a última esposa do ator, Lauren Bacall.
Bogart, que fez o bebum capitão do barco, em “African Queen” bem que mereceu o Oscar de melhor ator. Mas quem levou a estatueta foi seu par, a grande Katherine Hepburn. Juram que foi nesse filme que fizeram o primeiro merchandising no cinema. Aquilo de mostrar um produto comercial meio que de passagem. É que a bebida do capitão era o gim Gordon’s. E ele carregava caixas e mais caixas da bebida no seu barco. A evangélica Hepburn joga tudo no rio.
Dizem que é do ator a frase “O mundo todo está três drinques atrasado”. Mas parece que a frase original foi: “Se todo o mundo bebesse três drinques, não teríamos problemas”. Eram os anos 50, em plena Guerra Fria. “Se Stalin, Truman e todos os outros tomassem três drinques agora poderíamos relaxar e nem das Nações Unidas íamos precisar”, acrescentou.
Ao morrer de câncer em 57, não deixou de mencionar as bebidas: “Eu não devia trocar o uísque pelos martini”.
Que a Força fique com vocês. Caso ela falte é só clicar para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br

O turbante da Carmem

Bebidas e comidas brasileiras ganham mais espaço nos EUA, que já conhecem bem a tequila e as salsas, tortilhas e tacos mexicanos. É o que leio numa matéria do Datamonitor, sobre as possibilidades de “novidades étnicas” nos EUA.
Não que comidas e bebidas brasileiras substituam imediatamente as ofertas mexicanas já no gosto do americano. Mas “o avanço firme dos produtos brasileiros sugere que o Brasil está no ponto de transformar-se no novo México para comidas e bebidas nos Estados Unidos”, diz o editor da Productscan Online, que organizou um levantamento sobre o assunto.
A matéria cita que pelo menos uma grande empresa, a belga InBev, maior produtora de cerveja do mundo e dona da AmBev, já está pronta para “fazer samba”. Ela está lançando a nossa antiga Brahma nos EUA (e em mais outros 14 países). A cerveja (a garrafa é igual à da Skol Beats) está sendo anunciada como leve, refrescante e com uma “nota de mamão papaia” em seu sabor. Mamão papaia? A publicidade do produto lá enfatiza “o otimismo brasileiro”, bem como o estilo de vida “relaxado” do país. Papaia, otimismo, vida relaxada? O site do produto vende a ginga brasileira, como um “effortless flair”. Pronto: com ginga e “jeito relaxado” já somos os substitutos ideais do mexicano preguiçoso, um clichê nos faroestes americanos.
A matéria fala ainda do sucesso da cachaça e da caipirinha nos bares e restaurantes do país. Revela o grande interesse pelas frutas brasileiras e que a indústria de alimentos e bebidas está procurando maneiras de incluir o guaraná como um ingrediente estimulante em energéticos e até em barras de chocolate e iogurtes. O açaí já se tornou moda lá. Um refrigerante, o “Sambazon”, feito com açaí, vende muito bem, “direto da floresta amazônica, o coração da terra”, com direito a índio no rótulo, e o “Puro Poder da Amazônia” como slogan. A mesma empresa, baseada na Califórnia, vende o açaí em tabletes, como poderoso antioxidante. A fruta era desconhecida do norte-americano até 2004. De lá para cá, já estrela em 16 novas bebidas, segundo o Productscan. Vale tudo: “Sambazon”, mistura samba com “Amazon”, tem índio no rótulo, açaí no conteúdo, vende força, energia: é o rock do americano doido. Outro sintoma da presença brasileira são as churrascarias, outro sucesso com os conhecidos rodízios onde não faltam as plaquetas vermelhas e verdes sobre as mesas. Elas começaram a ficar populares nas grandes cidades, mas agora podem ser encontradas em várias cidades do interior do país.
Diz o editor da Productscan, Tom Vierhile, que essas tendências nas áreas de comidas e bebidas indicam que “o país que deu a tanga ao planeta pode estar oferecendo um novo sabor de bebidas e comidas para o mundo”.
Além dos personagens da novela América, vamos torcer para que agricultores e produtores brasileiros tirem também uma casquinha dessa tendência. Do jeito que está, acho que apenas retocaram o turbante da Carmem Miranda.
Quer saber mais sobre os rocks malucos que existem no mundo das bebidas? É só perguntar para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

16.5.05

Edy e as ressacas

A Edy Rodrigues é bartender e adora a sua profissão. Mas fica intrigada com o vinho, em sua opinião a bebida mais saudável. Só não entende é como uma bebida dessas pode promover uma “ressaca pior que as outras, que nem Baco pode reverter”, diz ela. Ela quer saber que substâncias o vinho tem capazes de causar estragos olímpicos.
Bem, Edy, vinho é seguramente uma bebida saudável – mas apenas se consumido com moderação. Como qualquer outra bebida. Será que seus clientes ficaram apenas em duas ou três taças? Se bebem demais estão, naturalmente, sujeitos a uma ressaca, o tão terrível “dia seguinte”. Isso sem falar nas gracinhas e estragos que provocaram naquela fase “alegre” do porre, anterior à ressaca.
Mas o vinho, como disse, não é diferente das outras bebidas alcoólicas. Ressaca acontece por excesso de álcool e um e outro problemas com o seu cliente. Não se hidratou, estava com o estômago vazio, vinha de outros excessos, o corpo fatigado, suas resistências perigosamente abaixo do normal etc.
As histaminas. Agora, o vinho, em particular o tinto, possui algumas características que favorecem olímpicas dores de cabeças em algumas pessoas. Uma das principais razões é a histamina, quase sempre a culpada pelas dores de cabeça em quem consome vinho tinto.
A histamina é encontrada nas cascas de todas as uvas, brancas ou tintas. Acontece que os vinhos tintos fazem contato com essas cascas por um tempo bastante prolongado e, portanto, têm uma grande quantidade de histamina, ao contrário dos brancos.
Esse componente químico é uma proteína importante envolvida em muitas reações alérgicas. As alergias são causadas por uma resposta do nosso sistema imunológico a substâncias normalmente inócuas, como o pólen, a poeira. Essas respostas geralmente incluem a liberação de histamina causando vários sintomas alérgicos, contribuindo para inflamações, constrições vasculares etc.
O que acontece é que pessoas com baixa ou nenhuma tolerância à histamina acabam com coceiras na pele, narizes escorrendo, vermelhidão nas faces, diarréia, respiração entrecortada e uma senhora dor de cabeça. Até crise de asma pode acontecer em algumas pessoas. Basta uma taça para provocar todos ou alguns desses sintomas.
Para termos uma idéia sobre o papel da histamina na intolerância ao vinho, uma pesquisa demonstrou que 79% de pacientes que beberam 125 ml de vinho tinto (equivalente a 50 microgramas de histamina) tiveram alguns dos sintomas acima, apenas 30 minutos após tomar o vinho.
A verdade é que a maioria desses pacientes era intolerante ao vinho em razão da deficiência de uma importante enzima, responsável por metabolizar a histamina.
Pessoas com essa deficiência têm dor de cabeça crônica. O remédio para elas é fazer uma dieta livre de histaminas, com apoio de vitamina B6, que melhora a atividade da tal enzima citada acima.
Muita gente toma um anti-histamínico, como o Allegra ou o Claritin antes de sorver as suas taças de vinho. Mas o bom mesmo é consultar um médico e descrever esses sintomas – sem esquecer de dizer quantas taças tomou ou vem tomando. Ou pretende tomar.
Os congêneres. Esse é o termo genérico para as muitas e várias impurezas encontradas nos destilados e fermentados, quando abaixo de 100% de álcool por volume. Quanto mais baixo o teor alcoólico, maior a quantidade desses congêneres, componentes biologicamente ativos.
Essas impurezas, contudo, são precisamente os ingredientes que dão aos destilados o seu caráter. Daí a necessidade de conseguir-se um delicado equilíbrio que possa incluir o máximo de congêneres aromáticos numa bebida, enquanto eliminando aqueles nocivos.
A tarefa do produtor se complica ainda mais porque essas substâncias são muito variadas e incluem aldeídos, fenólicos e éteres. Cerca de 150 congêneres diferentes podem ser encontrados numa bebida recém destilada, seja uísque ou conhaque.
Embora estejam presentes em doses muito pequenas em vinhos e destilados, os congêneres contribuem de modo ainda pouco entendidos para a qualidade final da bebida.
Mas os pesquisadores sabem que eles contribuem para as ressacas também, pois as bebidas tradicionalmente com poucos congêneres (gim e vodca) resultam em ressacas mais leves, pouco severas, do que aquelas com quantidade maior: conhaque, uísque e vinho. É por isso que falam que as bebidas “escuras” são tidas como as mais favoráveis às ressacas – e, logo, às dores de cabeça.
O metanol. Quem bebe vinho além da conta sabe o que é uma ressaca: além das dores de cabeça, a náusea, vômitos, a sede insuperável.
Segundo o British Medical Journal, esses sintomas não devidos apenas ao consumo excessivo de álcool (etanol) comum nos vinhos, cervejas e destilados.
Porém, os médicos ingleses afirmam que esses sintomas são multiplicados quando o etanol deixa o nosso sistema. A maioria dos cientistas culpa os mencionados congêneres pela maioria dos problemas de excesso, entre eles as ressacas dos clientes da Edy.
E o metanol é um congênere comumente encontrado nos vinhos e quase sempre o culpado pela ressaca.
O etanol impede a ação o metanol. Pois é: o álcool que está circulando em seu sistema é que está ainda evitando que você ingresse no túnel de horror da ressaca. O que vai finalmente acontecer quando ele, por fim, é eliminado. O metanol está presente nos conhaques, uísques e vinhos tintos e é metabolizado pelas mesmas enzimas que operam o álcool, só que mais vagarosamente, pois essas ficam inibidas pela presença do etanol. Os cientistas acham que o metanol pode induzir a um aumento de histaminas, resultando em dores de cabeça inigualáveis.
Os sulfitos. Os sulfitos (sais do ácido sulfuroso) existem na natureza e são, desde os antigos romanos, utilizados para conservar alimentos, inclusive os vinhos. Cerca de 1% da população do planeta e 4% dos que sofrem de asma podem reagir negativamente a esse componente.
Os vinhos americanos, por lei, até colocam um alerta nos seus rótulos quanto a presença de sulfitos. Nos demais países, isso é considerado um preciosismo inútil. A quantidade de sulfitos é baixíssima, os problemas são raros. Tudo depende da sensibilidade dos consumidores e da quantidade de sulfitos. Os alimentos podem conter legalmente (nos Estados Unidos) níveis de 6 a 5 mil partes por milhão. A quantidade média de um vinho de grande qualidade está abaixo de 40 partes por milhão. Praticamente inexistente. Não há vinhos sem sulfitos.
Fenóis e taninos. Os fenóis, às vezes chamados de polifenóis, são substâncias químicas responsáveis pelos pigmentos naturais das frutas (e das uvas, portanto), pelos taninos e pelos componentes de sabor.
Os vinhos tintos possuem em média 10 vezes mais polifenóis que os brancos. E são eles os maiores responsáveis pelos benefícios de saúde dos vinhos: combatem do câncer aos problemas coronarianos.
Muitas pessoas são sensíveis aos fenóis taninos e acabam ficando com dor de cabeça. Mas dificilmente pegam uma ressaca por conta deles.
O álcool é um diurético natural, eliminando a água do seu sistema. Logo, o segredo é beber uma taça ou dose de qualquer alcoólico acompanhada de um copo d’água. Cada dose deve ser consumida a cada hora. Quer dizer: você deve levar duas horas para tomar duas doses. E não parar de beber água.
Um remédio ainda melhor é simplesmente beber moderadamente. Muito de qualquer coisa sempre é demais para a nossa saúde. E isso vale também para o vinho.
Pois é o que sei a respeito das ressacas e de outras mazelas ligadas ao vinho. Espero que os clientes da Edy tenham condições para ouvir a origem de suas dores e ressacas. Acho que a parte dolorosa da tarefa da Edy será sugerir moderação. Ou que passem antes num médico para saber mais de suas condições.
Edy, como ela falou, é uma bartender – que fica ali no bar fazendo aquelas misturas, preparando os coquetéis e demais drinques. Bar é abreviação de “barrier”, barreira, pois ao final do século XVI era necessária uma barricada para separar bebidas de bebedores. E palavra “bar” foi criada nessa época para descrever o edifício onde ficava essa perturbadora barreira.
A palavra que primeiro definiu a profissional responsável pelos drinques foi Barmaid, que aparece em 1772. Bartender começa a ser utilizada 50 anos depois. E o “mosca de botequim”, o “barfly”, surge já no século XX, pedindo bebida de graça, jogando conversa fora e tentando saber o telefone da bartender.
Logo, os bebedores radicais sempre causaram dores de cabeça. Em primeiro lugar nas bartenders e em seguida neles mesmos.
Façam como a Edy Rodrigues: escrevam para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br e tentem esclarecer as suas dúvidas.

Absoluta Verdade

A KRP, agência de Relações Públicas da vodca Absolut no Brasil, escreve solicitando correção de erro que teríamos cometido na coluna de 28 de abril, “Abril Costurado” (veja post logo abaixo). A matéria informa sobre a proposta de compra da Allied Domecq pela francesa Pernod Ricard em parceria com a americana Fortune Brands.
A KPR diz que o erro foi “mencionar a marca Absolut como participante dessa fusão, que não tem nenhuma relação com esta aliança”. Fala ainda que “Future Brands distribui, nos EUA, ABSOLUT e Jim Beam”.
Ué, mas não foi isso que escrevi? Cito a coluna do dia 28: “Já a compra da Allied compreendeu uma parceria entre a Pernod Ricard e o conglomerado americano Fortune Brands, dona de destilados, equipamentos esportivos e produtos domésticos. Ela já distribui o uísque Jim Beam e a vodca Absolut...” Nada falo da marca envolvida em fusões e compras. Mas talvez não tenha ficado claro. A vodca Absolut pertence ao grupo sueco Vin&Spirit. E não participa dessa compra. Pronto.
O caso é que a aquisição da Allied pela dupla Pernod-Fortune não pode ainda ser considerada definitiva, pois outros colossos do mundo das bebidas parecem dispostos a melhorar a proposta de US$ 14,2 bilhões dos franceses.
A Constellation Brands, que comprou a Mondavi ano passado e a BLR Hardy em 2003, estuda uma contraproposta e procura aliados para isso. A Brown-Forman, dona de marcas como o Jack Daniel’s, está analisando as suas chances. A Diageo, a número um em bebidas alcoólicas do planeta, quer também entrar nessa briga. Outra candidata é a Bacardi. Nessa arena, só entra bicho grande.
A aquisição da Allied deixaria a Pernod como a segunda maior do mundo, colada na Diageo. Leio na Wine Spectator que a francesa está até disposta a livrar-se da Seagram’s e da vodca Wyborowa para ficar apenas com a Stolichnaya, vendida pela Allied a partir de exclusivo contrato de distribuição com a russa Soyuzplodimport. É uma proposta difícil de igualar. A Diageo e a Bacardi dificilmente vão abrir mão da Smirnoff e da Grey Goose, respectivamente. A Constellation poderia abdicar de suas várias marcas de vodca, mas sua distribuição perde para a da Pernod.
O segmento de cervejas vem perdendo vendas, enquanto vinhos e destilados crescem nos Estados Unidos. Existem poucas marcas de qualidade à venda atualmente. Daí, a atração pela Allied.
O mercado norte-americano, o grande alvo desta transação, é o que mais cresce nos segmentos de vinhos e destilados. Se a Pernod tem sucesso na compra, ficará com 20 das maiores marcas de destilados do mundo. A Diageo fecharia com 17.
O título da coluna é uma homenagem à célebre campanha da Absolut, que durante 25 anos criou um ícone a partir de uma garrafa, sempre começando os anúncios pelo nome da marca. Um desses anúncios é “Absolut Truth”, “Absoluta Verdade”, título que abona também o conteúdo de nossa coluna.
Quer saber? Bebidas é no Sonia Melier. Ligue-se: soniamelier@terra.com.br

6.5.05

Mentiras brancas

Será que existe um tipo de vinho exclusivo para mulheres? Melhor: será que as mulheres precisam de uma versão exclusivamente feminina do nosso querido fermentado? A indústria americana, segundo leio em várias matérias, do New York Times (Veja aqui, somente para assinantes) à Associated Press , está determinada a nos seduzir, fazer de nós sólidas consumidoras de vinhos.
Não é para menos, pois enquanto os homens ficam contando os pontos que os vinhos ganham dos críticos e pesquisando as safras nas várias regiões, as mulheres é que movimentam essa indústria: são responsáveis por 77% das compras e 60% do consumo de vinhos na América.
Por isso mesmo, uma vinícola do porte da Beringer Blass, baseada em Napa, na Califórnia, mas pertencente ao poderoso grupo australiano Foster’s, está lançando um vinho branco, um Chardonnay, com baixo volume de álcool e pouquíssimas calorias. Seu nome: White Lie Early Season Chardonnay.
O nome do vinho, White Lie, me ajudou a entender melhor que tipo de consumidora esses produtores estão buscando. Não se trata do segmento feminino como um todo, mas de uma parte dele, talvez a mais afluente ou a mais visível em termos de mídia.
White Lie é aquela mentirinha quase sempre sem importância, inofensiva, diplomática, trivial, que evita conflitos ou nega racionalizar verdades ou problemas. Um exemplo possível é quando o marido chega em casa com aquele bafo de uísque e pergunta tatibitate se o dia da esposa foi bom. “Agora está melhor!”, responde nossa Escrava Isaura com um sorriso Kolynos, mais falso do que o loiro de seus cabelos, tentando agradar quem que se faz desagradável e evitando perguntas mais sérias. Nada de “discutir a relação”.
Esse vinho vem com um rótulo vermelho de esmalte de unha, e letras cursivas, de novelas baratas. Sua campanha promocional envolve a autora Jennifer Weiner, com vários best sellers no currículo, como o “Good in Bed”, livros ao estilo do “Diário de Bridge Jones”, uma categoria que os americanos chamam de “chick-lit” – com jovens independentes, normalmente solteiras, quase sempre cosmopolitas, disputando bons empregos. Quer dizer: “mudernas”, embora, ao final, alimentem o sonho de um grande amor em sua vida. Ou vivam lambendo as feridas por causa do amor de sua vida. Pois é, o tal “amor de sua vida” continua em cartaz. Todas querem um Mr. Big (ou uma Ms. Big) até que a morte os separe (ou, se não for possível, um bom advogado).
Os Estados Unidos são o país da segmentação. Sabem exatamente quantos homens vestem camisas sociais de listas vermelhas verticais, onde vivem, trabalham, o que comem, quanto ganham etc. E como se comportam diante dos homens que vestem camisas vermelhas com listas horizontais. É por aí.
Há tempos temos lá vinhos para os consumidores gays. E mais recentemente, essa segmentação se ampliou. Em mais alguns dias, uma vinícola de Washington lançará um vinho dedicado às “jovens trabalhadoras”, o “Working Girl White”, como um comprimento às mulheres trabalhadores, segundo a dona, Kato Charlton, da Olympic Cellars.
Uma vinícola de Napa faz o “Seduction”, um tinto: “voluptuoso, com sabores sensuais e um beijo de veludo”, diz o rótulo.
Em janeiro, um produtor de Seattle apresentará o “Mad Housewife”, para a dona de casa tensa, sempre nervosa. No rótulo teremos: “Em algum lugar no frio escuro da lavanderia, depois da lixeira, entre dos brinquedos espalhados. Essa é sua hora”. Francamente!
A coisa não para aí. Temos até um vinho dirigido a amigos dos cães, o “Dog House”, a ser lançado por esses dias, nas versões tinta (Cabernet) e branca (Chardonnay), por cerca de 9 dólares, 50 centavos dos quais para apoiar a instituição “Guide Dogs for the Blind” (Cães Guias para Cegos), sem fins lucrativos. O “Dog House”, por sua vez, se encaixa numa nova tendência de marketing nos States, com vinhos apresentando uma variedade de animais nos rótulos, de pingüins, a porcos, cangurus, gatos e, agora, a cães. O australiano “Yellow Tail”, com um canguru amarelo no rótulo, é o importado que mais vende no país. Não sei se esses vinhos são vendidos em veterinárias.
O professor Robert Smiley, diretor de programas da Universidade da Califórnia, na cidade de Davis, especializada em enologia, diz que apenas 10% dos americanos bebem vinho regularmente. “Num supermercado, onde cerca de um terço de todos os vinhos é comprado, os consumidores ficam confusos e nervosos ao verem centenas de garrafas e rótulos diferentes”.
“Refrigerantes, cervejas e cafés são dominados por marcas bem conhecidas, que gastam dez vezes mais em promoção do que toda a indústria do vinho”, diz ele. “E para competir, os produtores de vinhos têm de ser inovadores”.
Pois os marqueteiros da Beringer foram bem inovadores. Criaram uma promoção com a própria Jennifer Weiner, autora de sucesso, (do já citado “Good in Bed”, e de “In Her Shoes”, que está sendo filmado), que participará de reuniões em clubes de livros e promoverá um concurso nacional sobre as melhores histórias envolvendo “mentiras brancas”.
As rolhas do vinho levam mensagens representativas dessas mentirinhas: “Estarei em casa as sete”; “Essa é a cor natural (dos meus cabelos)”, “Comprei na liquidação”, “Dinheiro não é importante”. Algumas garrafas oferecerão ainda imãs de geladeira com outra “mentira branca”: “Não como nada entre as refeições”.
O White Lie Early Season Chardonnay (feito com a uva branca mais popular nos Estados Unidos), custará 10 dólares a garrafa.
Será um vinho com baixo volume de álcool, apenas 9,8% e pouquíssimas calorias: 97,4%. Os produtores buscaram um nicho que ligar as mulheres de modo positivo ao vinho e ao humor. Nada de muito álcool, nada de ficar tonta – e de perder a forma.
Linda Bisson, que também é professora da Universidade da Califórnia, em Davis, não está muito convencida dessa idéia, mas concorda que muitas mulheres não gostam de bebidas muito pesadas, com muito álcool - e acha que esse vinho talvez possa agradar esse segmento de mulheres.
Volto a repetir uma experiência de marketing que acompanhei de perto, ao longo de alguns anos, com a tentativa de se criar e manter uma marca feminina de cigarros entre as fumantes brasileiras. Nenhuma vingou. O lançamento mais sofisticado, mais caro, o dos cigarros Charm, acabou com o cigarro sendo preferido mesmo pelos homens. Pode? As mulheres que fumam, fumam as marcas existentes no mercado, sem cobrar o "sexo" dos produtos.
Acho que queremos conhecer mais e melhores vinhos, com preços pra lá de justos, claro. Talvez não queiramos saber se esse é um vinho pra gays, lésbicas, cachorros ou para homens. Para nós, talvez, o vinho tem de ser bom e caber em nossa bolsa. E isso. Agora, se Mr. Big gostar dele, melhor para Mr. Big, pois a bebida eu já provei e aprovei.
Diga querida leitora: você se sentiria mais confortável se tomasse um vinho feito só para você, ou seja, pensando apenas no gênero feminino? Ou, não importaria se a calcinha mais parecesse uma cueca, pois o caso é apenas tomar um bom vinho?
Responda aqui para a Soninha através do soniamelier@terra.com.br