29.3.07

O que é vinho kosher

O vinho que Jesus e seus discípulos beberam na Santa Ceia era kosher, o único vinho permitido aos judeus. A Santa Ceia foi registrada no Novo Testamento por São Marcos e São Mateus, mas nenhum dos dois registrou o que foi comido, que pratos foram servidos.
Mas, certamente, essa refeição teve como objetivo celebrar o Pessach, a Páscoa Judaica, a festa do pão sem levedo, palavra que em hebreu significa proteção, “passagem”, “passar sobre” e deriva de instruções dadas a Moisés para libertar os israelitas do jugo do faraó Ramsés III, há 3000 anos.
Moisés informou ao faraó que se não libertasse seu povo, todo o primogênito no Egito seria morto. Para se proteger, os israelitas foram instruídos a marcar suas casas com sangue de cordeiro, pois assim suas casas seriam identificadas e o problema “passaria sobre” elas.
A Páscoa cristã deriva diretamente da judaica. Em ambas, o vinho e o pão constituem símbolos fortíssimos, mas com sentidos diferentes.
O local identificado como o da Última Ceia, o Cenáculo (deriva do latim “cena”, jantar, ceia) em Jerusalém, pode ser visitado ainda hoje. É segundo andar de um edifício no alto do Monte Sion, ao lado da basílica Dormition, onde Nossa Senhora teria morrido. No andar térreo, fica o túmulo do Rei David. Pois é, as histórias se entrelaçam.
Mas os significados são outros. No cristão, o corpo e o sangue de Cristo, representados pelo pão e pelo vinho, remetem à salvação do espírito e à vida eterna.
No judaico, o pão é o sem levedo, o matzo, servido para lembrar a pressa com os hebreus tiveram que preparar o seu êxodo do Egito. E quatro taças de vinho são obrigatoriamente bebidas, cada uma simbolizando uma ação relativa à redenção do povo de Israel. São bebidas em períodos distintos da ceia do Pessach. E a cada taça é feita uma benção, o “kiddush”, “santificação”.
Mas o que vem a ser vinho kosher?
Kosher quer dizer “apropriado”, o que segue as leis dietéticas judaicas, o “kashrut”.
O vinho kosher começa no vinhedo com o “orlah” – a proibição de usar os frutos nos primeiros três anos de plantio. Apenas a partir do quarto ano é que poderão colher e prensar as uvas. É o que também acontece num vinhedo novo administrado por não-judeus, que só começa a produzir mesmo a partir do quarto ano do primeiro plantio.
A maioria dos vinhedos israelenses observa também a lei da “shmita”: ao final de cada ciclo de sete anos, o vinhedo precisa descansar por um ano, nada será cultivado nele nesse período. Todos os débitos da vinícola são zerados ao final. Criativos, sem desrespeitar a lei, vendem a terra para um não-judeu amigo e a recompram ao fim de um ano. Nada se interrompe.
Do momento em que as uvas são prensadas até o engarrafamento, essas mesmas leis proíbem também que o vinho seja tocado e, em certos casos, até mesmo visto, por um não judeu ou por algum judeu não religioso.
Para garantir essas leis, as vinícolas kosher empregam apenas “haredim”, judeus ultra-ortodoxos, observantes rigorosos do Torah. Qualquer visitante de um vinhedo kosher será sempre acompanhado por um supervisor do ”kashrut”, assegurando-se de que nada seja tocado. Isso vale até mesmo para um judeu pouco zeloso religiosamente.
Na vinícola, caso alguém não judeu toque em algum lugar onde haja vinho, o mesmo se tornará impuro, não seria mais kosher. Mesmo na seção de engarrafamento, depois de colocadas as rolhas, só se pode tocar numa garrafa depois que ela seja devidamente lacrada.
Todas as substâncias utilizadas no processo, como levedos, sulfitos, ácido tartárico serão obrigatoriamente kosher.
Se esse vinho for manipulado e bebido por judeus, ele não será fervido. Caso haja a possibilidade de um não judeu tocar na garrafa (um garçom, num restaurante, por exemplo), a fervura se impõe - mas apenas durante 22 segundo numa temperatura de 87 graus. Não perderá suas qualidades.
O grande crítico e historiador Hugh Johnson (“A História do Vinho”, Companhia das Letras) diz que, por trás das antigas normas, “mais importante do que o que se bebe é com quem se bebe. Os judeus não devem aceitar vinho dos gentios. Tal intercâmbio social pode levar à intimidade, e a intimidade pode levar aos casamentos mistos”.
Os judeus produziam vinho desde os tempos pré-Bíblicos. Chegaram, na Antiguidade, a exportar vinho para o Egito e para várias cidades do império romano. Quando os muçulmanos conquistaram a Palestina em 636 da era cristã, impuseram uma proibição ao vinho (e ao álcool em geral) por 1.200 anos. A produção só recomeçou em 1870.
Na Páscoa Cristã, celebrada a oito de abril, o frade São Tomás de Aquino, o grande filósofo do século 13, explicava o sentido do vinho: ela só pode celebrar-se “com vinho da videira, pois essa é a vontade de Cristo Jesus, que escolheu o vinho quando ordenou tal sacramento [...] e também porque o vinho da uva constitui de certo modo uma imagem do efeito do sacramento. Refiro-me à alegria espiritual do homem, pois está escrito que o vinho alegra o coração do homem”.
A Páscoa Judaica começa na noite de dois de abril, com uma ceia ritual, estritamente familiar, onde quatro taças de vinhos são tomadas obrigatoriamente.
Para um rabino citado por Hugh Johnson, o vinho “ajuda a abrir o coração ao raciocínio”. O objetivo, portanto, não é a inspiração, a embriaguez.
Uma quinta taça é deixada sobre a mesa para ser bebida pelo profeta Elias (Elijah). Dizem que ele vai de porta em porta anunciando a vinda do messias judaico.
Estima-se que existam pouco mais de 13 milhões de judeus em todo o mundo. Assim, faz sentido pensar que o profeta, acabada a noite do dia 2, vai dormir alegre e profundamente até a Páscoa do ano que vem.
Leitora, não dispense o vinho nessa Páscoa. Se sentiu falta dos coelhinhos e do chocolate é porque vamos falar deles em outra coluna.

20.3.07

A nova Eva

“Uma folha de parreira, uma Eva sem juízo, uma cobra traiçoeira, lá se foi o Paraíso” – diz uma marchinha do carnaval de 1951.
Pois as Evas de hoje vão poder se vestir com uma releitura da folha de parreira.
Fizeram uma releitura da célebre folha de parreira e já estão fazendo roupinhas a partir do vinho. Eu fiquei espantada quando li a notícia. Quem não ficaria?
Quando a produção de vinho é maior do que a demanda, muitos o transformam em etanol. Mas agora a bebida pode encontrar outros destinos, talvez nas novas Evas, com ou sem juízo.
É que cientistas da Universidade da Austrália Oriental conseguiram produzir, na verdade aproveitar celulose a partir da bactéria que produz o vinagre, o ácido acético. A bactéria é chamada tecnicamente de acetobacter.
Foi o químico francês Lavoisier (1743-1794) quem descobriu a origem dessa nova parreira: o vinagre é um vinho acetificado devido à absorção do oxigênio, resultado apenas de uma reação química.
Reação essa que forma uma fina camada gelatinosa na superfície do vinho avinagrado, que chamamos de “mãe do vinagre”.
Pois os biólogos australianos verificaram que essa camada um tanto emborrachada produzida pela acetobacter é uma forma de celulose.
Eles pegaram uma boneca inflável e começaram a cobri-la com essas camadas de celulose até chegar aos formatos de um vestido, de uma saia e de uma blusa.
Uma vez “vestida”, a boneca era esvaziada e, pronto, lá estava a roupinha pronta para ser usada, feita totalmente a partir do vinho avinagrado.Vi uma das fotos. Veja aqui. Parece a roupa certa para a mulher das cavernas.
Ou para a Jane, mulher do Tarzan. Ou, no máximo, entraria como opção de uma roupinha punk, saída de uma coleção da Vivianne Westwood.
Um dos principais cientistas envolvidos nesse projeto, chamado de “Micro’be”, Gary Cass, revela que se inspirou em “fermentar” vestidos quando trabalhava numa vinícola há alguns anos.
Notou que quando o oxigênio fazia contato direto com os barris e transformava o vinho em vinagre, produzia-se uma delgada camada na superfície da bebida. Era a tal celulose.
Até aí, nada de mais. Faço vinagre em casa, com sobras de vinho usando um garrafão aberto. Deixo meses assim. Meu vinagre é imbatível. Agora, sei que posso fazer um modelito exclusivo.
Para produzir esse tipo de tecido, Cass e seus colegas deixavam deliberadamente barris abertos. Depois foi só encontrar uma boneca inflável, tamanho gigante (provavelmente comprado numa Sex Shop) para produzir a roupa.
O cientista diz que não usa qualquer máquina de costura ou agulha para manter as fibras unidas.A roupinha que vimos nessa outra foto.
foi feita de vinho tinto e o seu “estilo” é um pouco mais “punk”, um tantinho mais ajuizado do que a simples parreirinha da Eva.
Mas os cientistas já fizeram roupas até de cerveja. Onde quer que se produza álcool, entre oxigênio e o acetobacter teremos celulose para confecção.
Só que no caso da cerveja ou do vinho branco, a roupinha ficaria muito clara, transparente.
De qualquer modo, essa “roupa de vinho” só pode ser usada se devidamente molhada. Seca, ficará como um lenço de papel, facilmente rasgável. Com mais fibras e fibras mais longas, esse risco seria evitado.
O cientista australiano já está promovendo a colaboração com um químico orgânico de modo a polimerizar as fibras de celulose para que fiquem mais longas. Um segundo objetivo é continuar a fazer essas roupas sem costuras. As bonecas infláveis estão aí mesmo para ajudar.
Lá se foi o paraíso? Bom, além da parreira, Eva perdeu (com o Adão, claro) o paraíso, pois entraram em cena uma cobra e uma maçã.
Não sei onde fica o paraíso hoje. Cristianismo, Islamismo e Judaísmo falam que ele está no outro mundo. Muita gente, porém, crê que ele pode ser encontrado aqui mesmo. Acreditam que você pode comer de qualquer fruto e ainda assim não ser expulso de lugar algum.
Ao usar essa roupinha agora, nossa Eva vai estar molhadinha, tal e qual naqueles concursos de T-Shirt. Será esse o paraíso?
Será o paraíso adentrar aos salões já com cheiro de fim de festa, com uma roupa saída de um barril de vinagre?
Caso essa experiência frutifique, fico imaginando como seria o marketing dessa nova roupa. Se falarem em “roupinha de Eva” acho que o pessoal vai buscar referências nos desfiles de Carnaval, no Big Brother e que tais. Logo, a nova roupinha será bem mais comportada.
Só espero que nenhum bobo, metido a entender de vinho, comece a cheirar as roupinhas com o objetivo (declarado) de determinar safras, origens, variedade de uvas etc. As segundas intenções, parece, foram criadas quando o primeiro casal perdeu o Jardim do Éden.
E a leitora, o que acha? Dispõe-se a experimentar uma blusinha ou uma mini feitas de vinho? Vai encarar o “new look” da folha de parreira?
Em tempo: o que abre a coluna é parte de uma marchinha do carnaval de 1951: “Papai Adão”, de Armando Cavalcanti e Klecius Caldas.

15.3.07

Uma nova mágica

Um médico americano e também Master of Wine, Dr. Pat Farrell, é um dos inventores de um dispositivo magnético chamado BevWizard, capaz, segundo ele, de amaciar aqueles taninos amargos nos vinhos mais jovens.
Já outro americano, James Randi, que dirige uma fundação educacional que pesquisa feitos paranormais (pretensos ou não), duvida do tal dispositivo. E oferece um milhão de dólares para quem prove que o tal BevWizard funciona.
James Cluer, também americano, concorre ao título de Masters of Wine (MW), e quer ganhar esse milhão, caso sua dissertação prove que esse dispositivo magnético realmente funciona.
O Master of Wine é talvez o título máximo para um enófilo ou enólogo, uma das qualificações mais difíceis de conseguir. O exame leva três dias.
O estudante está realizando essa pesquisa para seu exame pelo MW. Ele realizará testes em laboratórios na Califórnia, degustações às cegas e análises mercadológicas junto a comerciantes de vinho em todo o mundo (alguns deles já testando a nova “mágica”).
Alguns cientistas duvidam dos efeitos da BevWizard. “Não vejo como esse mecanismo possa funcionar, pelo menos não baseado em magnetos”, afirma o Dr. Markus Herderich, do respeitado Instituo Australiano do Vinho.
Mas vamos dar a palavra ao Dr. Patrick Farrel, um dos responsáveis pelo novo invento. Em resumo: “Os taninos pertencem à classe dos polifenóis, que podem causar sensações de adstringência e amargor na boca e encobrir sabores agradáveis no vinho, chá, café ou uísque e outros destilados. Eles são carregados negativamente por partículas. Os produtores usam um processo de “clarificação” do vinho (eliminação das partículas em suspensão na bebida) jogando proteínas (como albumina), carregadas positivamente. Elas levam essas partículas para o fundo do barril. Fazemos o mesmo misturando leite ou creme ao café, chá ou chocolate, anulando os taninos e fazendo a bebida mais suave. Vinhos de alta qualidade levam anos para amadurecer, ou ficarem mais suaves e saborosos”. Quando esses taninos carregados negativamente passam pela combinação de aeração e pelo campo magnético de alta intensidade do BevWizard eles imediatamente ficam mais macios. “E a bebida mais saborosa.”
vastíssima maioria dos vinhos produzidos em todo o mundo já chega ao mercado pronto para beber. Não precisa de magnetos nem nada. Apenas vinhos projetados para envelhecimento é que ficarão melhores com a idade. De novo, sem necessidade de magnetos e que tais.
Vou esperar para ver o resultado do teste. E torcer para que o futuro MW ganhe o seu milhão, qualquer que seja o resultado.

13.3.07

O que Bush perdeu

O vinho que Cabral serviu aos índios, quando nos “descobriu” foi o famoso alentejano “Pêra Manca”. Os índios não o aprovaram. Preferiam o seu cauim, mesmo.
De lá pra cá, já podemos nos ufanar. Por que não? Somos capazes de oferecer nosso vinho, de qualidade comprovada, ao novo conquistador. Pois foi com vinhos Salton, de Bento Gonçalves que Bush e comitiva foram servidos no almoço oferecido por Lula em São Paulo, no último dia 9.
Imagino que o Planalto já esteja servindo vinhos brasileiros há tempos. Mas essa data de 9 de março ganha destaque: nossos vinhos foram o único item “made in Brazil” no almoço no hotel Hilton, em Sampa, farto em ratatouilles, dacquoises e mousses. Estamos considerando que o almoço tenha sido inspirado pelo chef do Planalto e executado pelo pessoal do Hilton.
Levou foi muito tempo, séculos, para que os governantes brasileiros olhassem com bons olhos os vinhos nacionais. Os senhores portugueses, sempre que podiam, mandavam trazer pipas dos vinhos da terrinha. Essa prática atravessou os tempos de colônia, reinado, império e república.
O cauim era uma bebida ritual, de “cor turva e esbranquiçada de leite e um gosto de soro, porém bem mais ácido”, revelou o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, que viajou pelo Brasil (ficou aqui de 1816 a 22) coletando espécies de plantas. Era bebido na preparação de guerras, celebração de pactos, de vitórias e um dia antes do sacrifício de vítimas em cerimônias antropofágicas.
Os portugueses, porém, não queriam nada com o vinho de mandioca, mas sim o fermentado de uvas que tomavam em sua erra.
E foi o fidalgo Brás Cubas, experiente viticultor em sua cidade natal, o Porto, quem primeiro plantou videiras no Brasil, em Santos, cidade que fundou. Eram uvas da variedade vitis vinifera (a espécie de vinha da qual a maior parte do vinho fino, em todo o mundo é feito), que não vingaram no litoral, mas que, subindo a serra, no planalto de Piratininga, deram certo. O vinhedo ficava “pelos lados do Tatuapé”, perto da atual rua Tuiuti.
Quando os jesuítas chegaram aqui, precisavam do vinho para a missa, que faltava ou não vingava nos pontos onde se instalavam. Mandavam vir pipas de Portugal. Os vinhos de Piratininga, contudo, satisfaziam as necessidades dos religiosos da região.
Muito vinho rolou no Brasil colônia. Os bandeirantes o comerciavam à larga, mas escondiam seus ganhos. O vinho gerou tanto dinheiro, mas a Coroa não conseguia ter qualquer controle. Vinhos estão entre os principais produtos que os holandeses de Nassau negociavam por aqui. Exportavam açúcar, pau-brasil, fumo, sal etc. e importavam muito vinho (da Espanha e da França), além de cervejas e outros itens.
No início do século XVIII, um barrilote de vinho (na média, cinco litros da bebida) custava mais de meio quilo de ouro (ou, na medida da época, 200 oitavas de ouro). Mais caros só alguns tipos de escravos, cujo preço variava de 300 a 600 oitavas.
Tudo isso em razão da corrida do ouro nas Minas Gerais, que veio a desvalorizar moedas na Europa e encarecer tudo por aqui, o que não deve ter incomodado muito o nosso grande Aleijadinho. Suas finanças deviam ir muito bem: seu biógrafo, Waldemar de Almeida Barbosa, afirma que ele era “mulherengo e amante do vinho”. Sempre foram esportes caros.
Quando D. João VI chegou ao Brasil, fugido de Napoleão, trouxe consigo um batalhão de servidores para as mais diversas funções. Por exemplo: havia o reposteiro-mor, que avançava a cadeira ou poltrona toda a vez que D. João (ou algum outro fidalgo) fazia a menção de se sentar.
E havia o mordomo-mor, que controlava a Ucharia Real, o almoxarifado de víveres do palácio – e aqui entra o nosso vinho. Ele comandava o copeiro-mor, que respondia por provar e servir o vinho, a água e outras bebidas de D. João.
Nota o grande enólogo, crítico e historiador Carlos Cabral que foi “essa função que deu origem ao escanção, palavra do português que nos causa estranhamento, mas que compreendemos perfeitamente ... em francês: sommelier”. E, claro, o vinho passou a ser fornecido pelos ingleses. De qualquer modo, onde havia o copeiro, havia vinho também.
Nos tempos de Pedro I, o vinho português voltou às mesas brasileiras (pelo menos àqueles que podiam pagar por ele). E no reinado de Pedro II, o número de atacadistas e varejistas de vinho cresceu de meia dúzia em 1844 para 150 em 1854. “Era necessário um batalhão deles pra abastecer, além da corte e das grandes cidades nordestinas, também as fazendas de café e as cidades em seu entorno, onde começava a se formar uma ‘aristocracia da roça’”.
Os vinhos do Porto e da Madeira, com os franceses de Bordeaux e de Champagne lideravam as preferências, nessa época. No último suspiro do império, o Baile da Ilha Fiscal, foram consumidas 3.096 garrafas, entre Cristal, Ponsardin, Heidsieck, Madeira, Porto, Tokay, D’Yquem, Lafite, Leoville, Beyschevelle, Ponte-Canet, Margaux etc., etc.
A Princesa Isabel bem que tentou experimentar um vinho feito aqui, com a uva da época, a Isabel, sua xará. Não gostou, “amarga” que era. Tinha lá sua razão. As coisas nessa área só começaram a melhorar aqui com a chegada dos imigrantes italianos na Serra Gaúcha, ao final do vergonhoso período da escravidão. A Isabel foi trocada pela vitis vinifera. E tudo mudou, para melhor.
A família Salton chegou da Itália em 1878; fundou um negócio de secos e molhados. Mas as mudas de vinhas que trouxeram da Itália se deram muito bem aqui e pouco tempo depois os Salton dedicavam-se à cultura das uvas e elaboração de vinhos.
Os Salton chegaram à mesa de Bush como a maior produtora brasileira de espumantes e com centenas de prêmios internacionais: na Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Portugal, Estados Unidos, Eslovênia, República Tcheca, Espanha, Argentina, Hungria, Grécia, Bélgica e até na China, sem contar as marcas conseguidas aqui.
Bush é abstêmio, ficou na Coca Lite. Uma pena que tenha que ser assim. Talvez seu humor mudasse – e com ele o humor de todo o planeta. Tomara que alguém da comitiva do Bush tenha percebido: temos álcool para combustível para vender. E também um álcool que se pode beber com grande satisfação, via nossos vinhos, cuja qualidade já é reconhecida pela Comunidade Européia. Seria uma maneira de emplacarmos no maior mercado comprador de vinhos do planeta.
Aí está, leitora. Passe a considerar nossos vinhos seja no seu dia-a-dia, seja ao receber amigos. O presidente da Vinícola Salton, Ângelo Salton Neto, acha que com um pouco de patriotismo nosso vinho terá muito peso em nossa economia. “É só analisar o que ocorre nas grandes regiões produtoras, como França, Itália, Chile e Argentina. Só se bebe o vinho da terra”. Mas nem precisa ser patriota. Nosso vinho tá bom mesmo, sem patriotismos.
Essa coluna não seria possível sem uma referência fundamental: a do livro “Presença do Vinho no Brasil – Um Pouco de História”, do já citado Carlos Cabral.Se a leitora quiser a receita do cauim para alguma cerimônia ou a relação completa dos vinhos premiados do Vale dos Vinhedos e só clicar para a Soninha.

9.3.07

Os sommeliers vão acabar?

Por favor, amiga, não imagine um quadro de fregueses correndo atrás deles com saca-rolhas pedindo a sua expulsão dos restaurantes, em protesto contra atitudes arrogantes, o jogo do “empurra” para você escolher a garrafa mais cara. Ou por jogar cartas de vinhos de 5 quilos sobre a sua mesa, com 400 páginas manuscritas (escritas provavelmente pelo Asterix, pois tudo parece gótico para mim) para que você mesma escolha entre as milhares possibilidades ali encriptadas.
Também não se trata da classe dos restauradores fazendo uma caça a esses moços pelos prejuízos causados: desentendimentos por vinhos recusados, protestos contra bebidas com defeitos, serviço mal executado, adegas em pandarecos etc. Sim, aqui e em todo o mundo há um despreparo geral para a função. Mas a culpa não pode ser jogada em cima apenas desses profissionais. E os donos dos restaurantes e outras casas que servem vinho, como ficam na foto?
Do que se trata, então? Leio que a profissão se extinguiria sob pressão da tecnologia, da informática, mais precisamente. Computadores poderão substituí-los? Indicar quais os melhores vinhos para combinar com o prato escolhido; ou qual o branco do Novo Mundo vai melhor com uma determinada entrada? E do Velho Mundo? E qual o vinho ou o digestivo que vai melhor com essa ou aquela sobremesa, esse ou aquele queijo?
O robô japonês. Ano passado, os japoneses apareceram com um robô com capacidade de analisar amostras de vinho acuradamente. A máquina, desenvolvida pela NEC, pode distinguir entre 30 variedades de uvas e até mesmo cortes. Na época, foi chamada de wine-bot (ou “robô do vinho”), tinha o tamanho de uma caixa de vinho (o “bag-in-box”), mas de 6 litros, consistindo de um microcomputador e de um sensor ótico.
Esse robô não pode ir à mesa e escolher um vinho para você. Não pode degustar, muito menos cuspir o vinho e sequer abrir uma rolha. Mas coloque 5 ml de vinho num pires na sua frente que ele começa a emitir luzes infravermelhas em cima da mostra: em 30 segundos ele identifica os seus componentes. Poderá até dizer de que região o vinha se origina.
Logo, é uma máquina útil apenas para identificar fraudes, assim mesmo de 30 vinhos devidamente pré-programados.
Se for essa a ameaça, os sommeliers estão salvos.
O WinePod. O perigo viria do novíssimo WinePod? Com ele você pode fazer o seu próprio vinho em casa. Tem o formato de uma grande taça, integra todos os aspectos da produção, do equipamento e fontes de uvas até consultas e enólogos. Nele, as uvas são prensadas, fermentadas e amadurecidas numa só unidade, fácil de usa, diz a publicidade. Admite conexão sem fio com o seu computador onde um software exclusivo vai ajuda-lo a controlar a fermentação, além de facilitar acesso a vinicultores que já operam com esse equipamento. A empresa vendedora fornece também as uvas que você quiser, já maduras para que sejam prensadas e fermentadas. O vinho amadurece num tanque de aço inoxidável (que também integra a pensa). Tudo isso controlado de uma telinha de PC, em sua casa.Tem a capacidade de processar 56 litros de uvas, que resultarão em 4 a 5 caixas de vinho. Não precisa de instalação especial. Apenas de um lugar ventilado onde exista uma tomada. Custa US$ 3.499,00 e vendeu bem no Natal passado, nos Estados Unidos. Veja aqui.
O sommelier certamente não estaria na berlinda com o WinePod. Talvez, os produtores de vinho. É um brinquedinho para aficionadas com a carteira obesa.
O eSommelier. Esse é até mais caro: custa US$ 5 mil. E destina-se aos colecionadores de vinho – ou a quem possua uma senhora adega (e neste caso temos alguns restaurantes e hotéis).
Seu nome completo é eSommelier Wine Management Server: da telinha de um palm top você sabe a quantas anda a sua adega. Onde estão os brancos, os tintos, os espumantes etc. Sua origem, quando (e por quanto) foram comprados, quais as garrafas que estão prontas para beber e aquelas que ainda vão esperar algum tempo. Esse computador portátil pode estar na própria adega, no seu escritório ou na sua mala de viagem. O acesso é imediato, ao toque de um dedo.
O eSommelier pode estar também no balcão do restaurante, ajudando o sommelier a indicar vinhos, ou a comprá-lo para repor aquelas garrafas já vendidas. Logo, pode ser uma ameaça aos sommeliers profissionais, já treinados. O dono do restaurante, com ajuda desse brinquedinho, pode querer substituí-lo por um amador.
O Vinio. A ameaça pode estar aqui, nesse novíssimo recurso, feito para o amante do vinho que queira ajuda ao escolher sua garrafa num restaurante ou numa loja. É um lançamento recentíssimo da HP (chamado HP tc4400 Tablet PC). Foi criado por um sommelier (a idéia, o conteúdo), Andrew Bradbury. Veja aqui.
Trata-se de uma lista de vinhos interativa. O pequeníssimo computador facilita ao seu usuário selecionar seus vinhos por varietal, safra, país ou região de origem, preço e até mesmo por recomendações de críticos e outros usuários. Podem também saber das possibilidades de combinações entre vinhos e comidas. Seu tamanho pequeno e formato delgado permite seu uso numa mesa de restaurante. Funciona também ao toque de um dedo e permite tomada de notas através de um estilete. Acaba que os fregueses vão se sentir sommeliers.
Os donos de restaurantes já estão tendo a mesma sensação. Já viram que podem controlar melhor os inventários de seus vinhos, reduzir custos e aumentar vendas (até porque vão precisar muito pouco de pessoal especializado no salão).
É o mais barato e o mais sério de todos esses brinquedinhos: US$ 1.480,00 nos Estados Unidos, agora.
O sommelier desaparece? Mas quem é que vai alimentar todos esses brinquedinhos, criar todo o seu conteúdo, tanto em casa quanto nos restaurantes? Só um sommelier profissional poderá fazer isso à perfeição.
É natural que encontremos muita gente ainda despreparada. O número de pessoas que adotaram o vinho como sua bebida preferida tem aumentado muito rapidamente . Os restaurantes não estão dando conta. Colocam gente ainda inexperiente. Um pessoal cujo preparo demanda tempo e um investimento razoável.
Com informática ou sem ela, um restaurante que queira despontar no serviço de vinhos vai precisar de um profissional treinado, de um sommelier. Seu pessoal ainda não está maduro? Pois a Associação Brasileira de Sommeliers (entre outras) está aí mesmo para providenciar treinamento de alto nível e prepará-los devidamente para enfrentar qualquer brinquedinho da moda. Faz isso há vinte anos.
A amiga já topou com algum garçom do vinho dizendo que o 2004 é na verdade o mesmo vinho de 2003, “só um aninho de diferença”, confundindo um calhambeque com as uvas de uma determinada safra? Conte para nós a sua experiência

6.3.07

O crítico vai acabar?

Pontuação de vinhos: como comentamos numa coluna recente (Um intruso na festa - veja abaixo), essa história de pontuar vinhos voltaria às manchetes. E o faz agora de modo desmoralizante.
Tá bom que os consumidores entendem uma escala de 100 pontos: um vinho com 98 pontos deve ser melhor do que outro de 85. Eles assim, em teoria, podem fazer uma escolha que não envolva apenas preços. Afinal, tem algo objetivo para julgar: uma simples escala numérica. Mas meu problema reside em vinhos premiados, digamos, com 99 pontos e outro com 98 – pelo mesmo crítico. Qual exatamente a diferença, por favor? Além disso, em quem você vai acreditar quando dois críticos dão ao mesmo vinho diferentes notas?
O caso é que nenhuma dessas pontuações considera a região de origem do vinho e até mesmo por quantas “mágicas” tecnológicas passaram para chegar ao nível da “bomba de frutas” celebrizadas pelo imperador da crítica, Robert Parker Jr.: vinhos com muita fruta, muito carvalho e muito álcool.
Essas “bombas” são a moda do momento: os atributos que fazem um vinho ganhar notas altas, altíssimas. Que os fazem ficar muito mais caros, pois vão ser muito procurados.
Até em algumas de nossas lojas de vinho já encontramos garrafas com tiras nos gargalos exibindo os pontos que ganharam de um crítico (normalmente do próprio Parker) ou de uma revista (em geral, da Wine Spectator). Nada contra o fabricante, importador ou lojista exibir essas marcas. São diferenciais de mercado, concordo.
Muitos e muitos críticos utilizam esse sistema; o mesmo com a maioria das revistas especializadas. Sem dúvidas, essa escala, principalmente a de 100 pontos (criada por Parker), é um dos itens mais polarizadores desse mundo hoje.
Mas eis que agora temos algo novo nesse pedaço. É o Justwinepoints .
É um site que apenas qualifica vinhos a partir do sistema de 100 pontos. Nada de palavras, nenhuma referência aos degustadores que estão concedendo as notas. Apenas pontos, pois, como argumenta o pessoal do site, “nada mais importa”. Dizem que não temos mais tempo para “verborragias” ou para “todos os floreios da bagagem descritiva”. Falam que o site resulta de 20 anos de pesquisas. E, ah, se quiser mostrar o rótulo do seu vinho ao lado dos pontos conquistados é só fazer “uma contribuição” (olha o dinheirinho, aí). As lojas vão gostar. Basta mostrar as notas e citar site (que será mais procurado e ganhará mais “contribuições”). Não precisa nem do crítico.
Ironia: o mesmo sistema criado por um crítico o está engolindo.
O crítico vai acabar? Olhem só os exemplos da Daise Novakoski (na revista Rio Show) ou o do Renato Machado (no GNT), que qualificam os vinhos que degustam utilizando aquela forma de comunicação um tanto fora de moda, mas eterna: palavras.

27.2.07

Vem aí o vinho nanico

Quer transformar vinho branco em tinto, reduzir seu volume alcoólico, amaciar seus taninos? Ou fazer exatamente o oposto? Falta muito pouco para que isso aconteça. Li no inglês Observer que gigantes da área de alimentação, como a Kraft Foods, em parceria com alguns laboratórios de pesquisa, estão envolvidíssimos no projeto de alimentos e bebidas “programáveis”. A Kraft é a maior empresa de alimentos dos Estados Unidos, a segunda maior do mundo, parte do grupo Philip Morris. Está em cerca de 150 países e no Brasil possui a Lacta, as sobremesas Royal, os biscoitos Nabiscos, os bombons Bis, a Maguary, entre outros.
Falar de alimento ou bebida “programável”, no caso, é falar de nanotecnologia.
O mundo nanico. Lembra do Willy Wonka, da “Fantástica Fábrica de Chocolate”? Nesse ótimo filme, Willy Wonka (Johnny Depp) pode ser considerado o pai da nanotecnologia.
Ele inventou uma goma de mascar que contém três refeições completas. “Meu chiclete será o fim de todas as cozinhas e do ato de cozinhar”, diz ele para as crianças. E apresenta o seu Chiclete Mágico, uma tira. Numa ponta, uma sopa de tomate; no meio um rosbife com batatas rostie e na outra extremidade uma sobremesa. A menina que o acompanha pegou o chiclete e o comeu. Quando chegou na parte da sobremesa, cuspiu uma torta três vezes o seu tamanho.
A palavra “nanotecnologia” existe desde 1974 e descreve as tecnologias que permitem a construção de materiais na escala de um nanômetro. Um nanometro (ou um nano, um “anão”) é igual a um milionésimo do milímetro. Para atingir a grossura do fio de um cabelo são necessários 100 mil deles.
O princípio básico é a construção de estruturas e novos materiais a partir dos átomos. Imagine só: se os átomos de carbono contidos num bloco de grafite de 0,6 cm fossem do tamanho de um grão de arroz poderiam fazer o trajeto de ida e volta entre a Terra e o Sol 50 milhões de vezes. É nessa escala que opera a nanotecnologia.
Um dos produtos trabalhados pela Kraft é uma bebida sem sabor e cor. Você compraria a bebida num supermercado e, quando chegasse em casa, decidiria a sua cor e sabor – e que nutrientes desejaria que ela contivesse. Vai ligar um transmissor de microondas (que provavelmente será vendido também pela Kraft) e, pronto. Pode beber.
Esse transmissor vai ativar as nano cápsulas na bebida – cada uma menor que um vírus. Cada uma contendo os elementos químicos que permitirão transformar aquele líquido neutro: a sua cor, seu sabor e dar um toque de saúde (colocar uma vitamina C, ou um pouco de óleo Omega 3). Esses ingredientes foram os escolhidos e são os que vão ser dissolvidos. Mas a bebida possui muitos outros. O que acontece com eles? Vão ser ingeridos sem que se dissolvam, aparentemente sem problemas para seu organismo.
O que a nanotecnologia promete é algo de gigantesco, revolucionário. A indústria de alimentos projeta ganhos de 20 bilhões de dólares lá por 2010 na área de alimentos e embalagens. Já existe um chiclete tipo Wonka. Ele utiliza das cápsulas nanicas para dar a sensação de que se come um chocolate de verdade.
Os perigos. Mas a indústria de alimentos e o meio científico cismam a respeito da reação do público para essa formidável inovação. Acham que vão reagir negativamente.
Mas porque ficar com medo de algo que nos promete e oferece tanto: alimentos mais saudáveis, menos uso de elementos químicos e todos eles mais bem direcionados; menos gastos, embalagens “inteligentes” e até a promessa de uma solução tecnológica para o problema de um bilhão de pessoas que não tem o bastante para comer?
Os consumidores lembram dos problemas relacionados aos produtos geneticamente modificados e da “doença da vaca louca”. Este último resultante de um tipo de ração dada ao gado: uma farinha de carnes e ossos que não pode ser destinada ao consumo humano. Quantos aos produtos geneticamente modificados (o trigo, por exemplo), o argumento de uma série de instituições de pesquisa é de que ainda não existem pesquisas suficientes que garantam sua plena qualidade.
“A matéria tem um comportamento diferente na escala nanica”, diz o Dr. Kees Eijkel, da Universidade da Holanda. “Isso significa que existem riscos diferentes, que as leis atuais (sobre a introdução de novos processos alimentares) não levam em consideração”.
O alumínio transforma-se num explosivo, na escala nano. Alguns tipos de carbono, nessa escala, que estão já sendo utilizados na indústria eletrônica, mostram-se altamente tóxicos se liberados no meio ambiente. Alguns metais eliminam bactérias quando ficam nanicos e, por isso, o interesse em utilizá-los em embalagens de alimentos. Mas o que acontecerá caso se liberem dessas embalagens e entrem em contato conosco? Ninguém parece saber.
A questão do tamanho é crucial. Partículas de 100 nanometros, por exemplo, menores do que um vírus, podem atravessar as barreiras naturais do nosso corpo, e penetrar em nossas células ou, através do fígado, na corrente sangüínea. Ou mesmo, atingir o cérebro através da parede celular que o protege.
O médico Qasim Chaudhry, do Laboratório Central de Ciência, órgão do governo inglês, lembra que “estamos dando a materiais muito tóxicos a habilidade de atravessar nossas membranas celulares e, assim, ir para onde nunca foram antes. Já se demonstrou que nano partículas livres, quando inaladas, vão diretamente para nosso cérebro; as preocupações são muitas”.
Fazem uma analogia com o amianto, utilizado há sessenta anos como uma grande descoberta, um isolante perfeito. Mas suas micro-fibras, uma vez liberadas, tinham efeitos letais sobre nossos pulmões.
Ainda são poucos os produtos que se baseiam nas nano partículas, como os que utilizam embalagens antibacterianas, ou um spray de vitamina B12 destinado às crianças. É só o garoto abrir a boca que você aplica um jato: as vitaminas são absorvidas instantaneamente pelas mucosas. Terá o sabor de uma bala e as crianças pedirão mais, conforme se lê na bula do spray, fabricado pela americana Nanoceuticals, bem conceituada pelo que li.
Filtros nanicos permitirão que se eliminem todas as bactérias do leite ou da água sem que haja fervura. Ou que se misture a água com o óleo (e vice-versa) – o que significa que poderemos alterar o conteúdo de gordura e sal dos nossos alimentos.
A Samsung já vende refrigeradores que utilizam uma camada nanica de prata de modo a eliminar bactérias. Já em uso, também, na produção de leite e derivados, filtros nanicos que barram a entrada de micro-organismos e até mesmo de vírus. A lactose pode agora ser retirada do leite, por filtração, e substituída por outro tipo de açúcar: o leite poderá ser consumido por pessoas com intolerância à lactose. E a indústria utilizará menos produtos químicos e tratamentos especiais (como o calor) no processamento de alimentos.
E os vinhos? Finalmente, chegamos a eles. Como poderia chegar a eles sem antes falar sobre o que aprendi lendo sobre esse mundo liliputiano, dessa engenharia em escala atômica, da nanotecnologia? Se ela já está podendo oferecer talheres e meias auto-limpantes, um leite que informa se está estragado quando o seu rótulo muda de cor, é claro que o mundo dos vinhos poderá ser também alterado.
Por exemplo: defeitos clássicos dos vinhos, como os da “doença da rolha” (ou TCA) poderão ser corrigidos: as rolhas conterão nano partículas que eliminarão o fungo que causa o estrago.
Já existem filtros nanicos que podem converter vinho tinto em branco (e branco em tinto ou rosado), assim como alterar o seu conteúdo alcoólico. Ou fazer com que fiquem mais macios (menos taninos), mais ou menos frutados, mais ou menos mineralizados, mais ou menos ácidos.
É só esperarmos para ver. E torcermos para que haja uma rigorosa fiscalização quanto à segurança do que vamos consumir.
Claro que não vou desistir nunca do meu vinho tradicional. Aqui em casa só tenho um fogão à lenha, microondas não entra (acho que se ligá-lo a energia da região entra em colapso). Assim, nada de ativadores de células nanicas. A nanica aqui sou eu, ativada sempre por uma taça de vinho.
Agora, é sim uma tecnologia com promessas vitais, como as de fazer com que milhões de famintos passem a comer e a comer saudavelmente. Mas preferiria que o Willy Wonka saísse do seu mundo de ficção e caísse na real para dirigir todos esses projetos. Eu sei que ele quer é o sorriso das crianças e não faturar bilhões.E a leitora, vai adotar a nova tecnologia? Quer parar de pilotar um fogão? Tem ou não alguns receios?

Álcool, direção e gravidez

1) Leitor quer saber quanto de vinho deve tomar para ficar no limite legal. Bom, aqui as leis de trânsito (resolução 476 de 1974) consideram dirigir em estado de embriaguez quando a concentração de álcool no sangue for igual ou superior a 0,8g/l.
A maioria dos estudos compreende o consumo de álcool muito rapidamente e com o estômago vazio. No trabalho mais citado (envolvendo oito homens, bebedores leves) o pique de concentração de álcool na corrente sangüínea aconteceu entre 30 e 60 minutos, chegando a 0,19 depois de um drinque; 0, 46 com dois e 0,70 após três taças – tudo consumido rapidamente. Com mulheres, essas taxas seriam 20% mais altas. Se tudo fosse bebido vagarosamente e com comida, a concentração de álcool no sangue cairia pela metade.
Para um homem de peso médio consumindo de duas a três taças de vinho (com 12% de álcool) num jantar, a estimativa é de que essa concentração alcance menos de 0,5 (nível em que, sugerem alguns estudos, começam os distúrbios motores). As mulheres chegariam a esse nível com menos vinho. Na média, três taças de vinho levariam cerca de 5 horas para serem completamente metabolizadas e para que o índice de concentração de álcool no sangue voltasse a zero.
Mas é bom lembrar que as respostas ao consumo de álcool vão variar segundo a idade, peso, sexo, estado de saúde, medicamentos em consumo, hábitos quanto às bebidas alcoólicas e níveis de certas enzimas e genes em nosso corpo. Com 200 mg de álcool (200 mg/dl) um bebedor esporádico já ficaria sem coordenação e legalmente intoxicado (início da fase “alegre”). Um habitual apresentaria apenas sinais mínimos. Com mais de 300, os primeiros poderão entrar em coma e os segundos em estado letárgico. Assim, beba sempre alimentado, vagarosamente e acompanhado de muita, muita água.
2) Leitora pergunta se pode beber vinho no período de gravidez. Pergunta difícil, mas freqüente. Não há nenhum estudo demonstrando que o consumo ocasional de uma taça de vinho durante a gravidez possa prejudicar o feto. Mas, a orientação “oficial” e a mais segura é evitar o vinho (ou o álcool) nesse período. O pior resultado do consumo de álcool durante a gravidez, que é a chamada síndrome alcoólica fetal, ocorre somente como resultado de alto consumo de álcool. As mães são geralmente alcoólicas e incapazes de parar de beber nesse período. Se a leitora decidir que quer continuar a ter o seu vinho na gravidez deve consumi-lo em pequenas quantidades, sempre vagarosamente e com comida, de modo a evitar um aumento da concentração alcoólica no sangue. Mas não deixe de consultar seu médico, leitora.
Para essas duas perguntas minhas referências vieram do reputadíssimo Dr. R. Curtis Ellison, professor de medicina e de saúde pública na Escola de Medicina da Universidade de Boston, onde também dirige o Instituto de Saúde e Estilo de Vida da escola.

20.2.07

Cada coisa

Como classificar as notas que seguem abaixo? Quase todas estão relacionadas às bebidas, ao vinho em particular. Decadentes, surpreendentes, curiosidades? Ainda não me decidi, mas como ainda teremos mais carnaval neste sábado, acho que poderão formar um bloco animado.
O vinho de Hitler. Esse está certamente intragável – sob todos os aspectos. Uma garrafa do Fuhrerwein (“vinho do Fuhrer”), de 1943, foi leiloada por oito mil dólares. O vinho foi distribuído em 1943, na data do aniversário do Fuhrer, 20 de maio, a oficiais de alta patente do exército alemão. No gargalo, um pequeno selo com á águia nazista com suas garras agarradas à suástica. No rótulo, uma foto do ditador (de paletó e gravata) e as palavras “Schwarzer Tafelwein” (vinho tinto de mesa), com 12% de volume alcoólico e uva de procedência desconhecida. O vinho foi achado numa garagem francesa e comprado por um leiloeiro inglês. Um comprador de Devon, Inglaterra, ficou com a garrafa. O leiloeiro disse que não teve problemas morais em negociar com esse vinho. Na Alemanha, estaria em apuros. Hitler era abstêmio, mas não teve pejo em colocar seu nome e imagem num rótulo de vinho. O novo proprietário, porém, preferiu o anonimato.
Esse moço pagou US$ 7.794,00 por uma garrafa - que pode ser falsa.
Um grupo de historiadores já questionam a autenticidade do vinho, pois desconhecem que Hitler costumasse a dar tais presentes a oficiais de alta patente. Sir Ian Kershaw, professor de história moderna na Universidade de Sheffield, Inglaterra, afirma que “esse não era o estilo de Hitler”. Uma foto autografada do ditador, diz o professor, seria um presente muito mais desejado. Contudo, diz que não pode assegurar que a garrafa seja falsa.
A casa leiloeira, Plymouth Auction Room, a que vendeu o vinho explica que “não tem motivo para acreditar que a garrafa seja falsa”. E acrescenta: "Deixamos bem claro que a garrafa nos foi oferecida sem uma garantia de sua origem, de sua propriedade. Nossa casa não é especializada nessa área”. O leiloeiro, Paul Keen, pensava que o Fuhrerwein fosse levado por apenas 200 dólares. Veja a garrafa aqui.
Essa história de fraude é antiga no mundo dos vinhos. E ainda vair dar o que falar: é só esperar.
Chardonnay Rosso. É possível, um Chardonnay tinto? Como explicar um vinho tinto feito de uma uva branca, cuja versão tinta não existe? A Chardonnay vende feito água nos EUA e uma vinícola de lá (The Green Creed Winery, na Carolina do Sul) resolveu faturar em cima da fama da varietal criando um factóide. E lançou o ”Chardonnay Rosso”. Um corte de Chardonnay com a tinta Chambourcin (uma uva européia híbrida: cruzamento de uma vitis vinifera com uma espécie americana, mais resistente a doenças). É o próprio samba do crioulo doido!
A mais cara garrafa. Um norte-americano deu 100 mil dólares por uma garrafa de vinho branco, agora considerada a mais cara do mundo. É um Château d’Yquem, safra de 1787, um vinho doce natural, da famosa região de Sauternes, França.
Foi vendida pela Antique Wine Company, especializada em vinhos raros, para um colecionador, já freguês da Antique, que também preferiu manter-se no anonimato. Estimando que uma garrafa de 750 ml seja equivalente a cinco taças, cada uma custará ao novo dono desse Sauternes a bagatela de US$ 10 mil. Não me espantaria saber que esse vinho ainda esteja bom de beber.
Ah, as vacas australianas! Quer dizer, o gado australiano. Os da raça Wagyu, fora grãos, feno e massagens diárias, estão consumindo uma garrafa de vinho tinto, todo o dia. É um Chestnut Grove Cabernet/Merlot 2004, de mais ou menos R$ 35,00 (preço de lá). Os criadores australianos esperam que desse gado saiam os filés mais suntuosos já provados em todo o mundo.
O gado Wagyu é originário do Japão (‘Wa’ significa japonês e ‘gyu’ é gado), a mesma raça que produz o famosíssimo e raro bife de Kobe (nome da cidade de onde se originou, há 170 anos). No Japão, dão uma garrafa de cerveja, aplicam massagens e tocam Mozart para relaxar os animais. Se você é o que você come, não é de estranhar que meio quilo dessa iguaria chegue a custar mil dólares nos Estados Unidos.
Mensagem na garrafa. Tim Dickinson, 28 anos, da cidade de Pekin, Illinois, estava trabalhando numa estrada interestadual, cavando, quando achou uma garrafa. Dentro dela, um pedaço de papel com algo escrito. Sua tampa era de madeira, indicando grande idade.
O bilhete dizia: “Estou cansado da vida. T. J. Riley”. A garrafa é de uísque parece datada de 1896, segundo um colecionador da região. Restou um tantinho da bebida. Será que Riley bebeu tudo e... suicidou-se? Deixou família? Ninguém sabe? Esse até que é um bom começo de uma movimentada novela policial.
Só bebo Bilk. Em inglês “bilk” quer dizer “iludir”, “enganar”, “fraudar”, por aí. Mas no Japão “Bilk” passou a ser o nome de leite fermentado tal e qual uma cerveja, pois é produzido por uma cervejaria na cidade de Nakashibetsu, na ilha de Hokkaido. “Bilk” é a soma de “Milk” (leite) com “Beer” (cerveja). O produto final parece com uma cerveja, mas tem um ligeiro sabor de frutas. Vende por uns 13 reais a garrafa.
O maridinho chega em casa, pra lá de alegre, dizendo que bebeu apenas leite na rua. Convenhamos: o nome só podia ser “Bilk” mesmo, considerando a versão norte-americana.
Um jantar por 53 mil reais. Sim, o equivalente a US$ 25 mil por pessoa. Esse jantar aconteceu em Bangkok, Tailândia, no dia 10 de fevereiro, no mais alto edifício da Ásia, a “Torre do Estado”. Seus chefes, cada um com estrelas do Michelin (quatro da França, um da Itália e um da Alemanha) elaboraram o cardápio, com pratos complexos, como bife de Kobe com caviar Beluga Imperial e ostras de Belon (da Bretanha, França).
O chef Antoine Westermann, do Le Buerhiesel, um classudo restaurante em Strasbourg, França, preparou 100 gramas de trufas do Perigord, França, (mais um menos R$ 750 a porção) para cada prato do seu “Coquille Saint-Jacques e trufas”.
O celebrado chef Alain Soliveres, do Taillevent, Paris, ofereceu uma de suas especialidades: creme brûlée de foie gras, devidamente acompanhado por um champagne Cristal safra de 1990 (que vende mais ou menos por R$ 1.100,00 a garrafa, isso lá fora). Mas esse foi um dos vinhos mais baratos do jantar.
Os convidados, cerca de 40, puderam experimentar safras lendárias, como o Romanee Conti 1985, o Château Mouton-Rothschild 1959, o Château d’Yquem 1967, o Château Palmer 1961 (esse, considerado um dos maiores vinhos do século 20). Só esse vinho custou US$ 200 mil (duzentos mil, eu disse) a garrafa: quase meio milhão de reais. E dez garrafas dessas foram servidas.
Os chefs submeteram suas listas de ingredientes aos organizadores do ágape (como falava meu querido pai) para que fossem remetidos bem frescos e com a qualidade desejada: as trufas negras, o foie gras,as ostras e lagostas vivas da Bretanha, da França. O caviar da Suíça e as trufas brancas da Itália.
Um professor médio no Brasil (da 4ª. à 8ª. série) levaria uns 10 anos para pagar esse jantar, considerando que o salário médio anual de um professor seja de uns R$ 10 mil. Tem o salário, impostos e todas as demais despesas a que nos submetemos.
Os organizadores disseram que o jantar foi feito para promover o turismo na Tailândia e que a maior parte dos lucros seria dirigida a dois programas de caridade organizados pelo soberano do país.
Entre os convidados, a maioria originária da lista dos 500 mais ricos do mundo da Fortune, o dono de um cassino em Macau e o proprietário de um hotel em Taiwan. Mas, como em casos anteriores aqui nessa coluna, seus nomes não foram revelados.
Dos chefs que não citei, temos: Jean-Michel Lorain, La Cote Saint Jacques, em Joigny, França (que serviu uma lagosta “Osso Buço”). Vinho: Romanee-Conti 1985.
Annie Feolde, a única mulher do grupo, da Enoteca Pinchiorri, Florença, Itália; Marc Meneau, de “L’Esperance”, em Vezelay, França; Heinz Winkler, do Residenz Heinz Winkler, em Aschay, Alemanha.
A maioria dos chefs achou tudo isso um desperdício, uma aberração. A mesma coisa que você e eu acharemos se tentarmos pagar a conta em seus restaurantes.
Vinho e Romance. O que pensam solteiros e solteiras da América a respeito de vinho e romance? Pois o Escritório do Vinho da Austrália e o Match.com, site líder de encontros em todo o mundo fizeram uma pesquisa envolvendo 2.300 entrevistados em todos os Estados Unidos.
Descobriram que 62% deles acreditam que a escolha da bebida feita pelo seu par é um forte indicativo do seu estilo de vida, enquanto 52% acham que é indício da personalidade.
E aí entra o ponto importante: mais de sete entre 10 pesquisados (72% do total) concordam que conhecimento sobre vinhos tornar o parceiro ou parceira sexualmente mais atraente.
Está na hora da amiga se inscrever de algum curso de vinhos.

13.2.07

ABC do Vinho III

Então, já que aprendemos que o vinho é o suco de uvas fermentado e também passamos pelos rudimentos da identificação de sabores e aromas, treinando nossos paladar e nariz, vamos falar hoje das uvas. Selecionamos algumas de nossas principais personagens. Quem poderia ser a rainha das uvas: a Helen Mirren (indicada para o Oscar de melhor atriz, pelo filme “A Rainha”, com muita justiça)? Mas será que ela desbanca a queridinha de Hollywood, Merryl Streep (que concorre com “O Diabo Veste Prada”)? E as princesas, quais seriam? Os reis e os príncipes, os simples cortesãos também contam? E a plebe, como entra nessa seleção? Sim, temos uvas consideradas nobres e outras mais simples.
Mas não se engane, amiga, uma uva considerada “simples”, meio esquecida, pode, de repente, transformar-se numa Cinderela, casar-se com o príncipe e virar rainha.
Uma uva, nobre ou não, depende de muita coisa para chegar à corte e reinar.
Por milhares de anos os homens desenvolveram a arte de produzir uvas, seja através da experimentação ou via avanços tecnológicos. Acredite: antes que um vinhedo possa apresentar uvas de boa qualidade, temos anos e anos de muito investimento e cuidadosa atenção a um zilhão de detalhes.
Para que a uva se desenvolta, os itens mais importantes são o ciclo da vinha, o terreno, a administração do vinhedo, o combate a pestes e doenças, o terroir (que vimos semana passada) e o plantio das uvas.
Desses fatores, o clima é um dos mais importantes. As uvas crescem melhor em climas moderados, normalmente nas faixas entre 30 e 50 graus de latitude, acima e abaixo do Equador. Quando vai plantar suas uvas, o produtor precisa determinar qual varietal utilizar baseado nas características da terra e do seu clima.
Essas variáveis climáticas incluem a temperatura, a exposição ao sol, vento, chuva e geadas. Mas é a temperatura o mais importante aspecto climático.
Algumas uvas preferem climas mais quentes e outras se dão melhor no frio. Vamos a alguns exemplos.
Entre as tintas:
Cabernet Sauvignon. É, sem dúvidas, a uva mais famosa do mundo. Os frutos são negros e esféricos, com cascas bem duras, o que permite que se saia bem numa grande variedade de condições climáticas e geológicas. Na Europa é a principal componente da maioria dos mundialmente reconhecidos cortes de Bordeaux (com a Merlot e a Cabernet Franc, principalmente). Dão em vinhos fortes, de estrutura complexa, frutados com abundantes em taninos (ou seja: poderão melhorar muito com o tempo, terão longa vida). Ao contrário da Syrah, a Cabernet Sauvignon se afina bem com o carvalho, onde fica por alguns meses, adquirindo seus sabores e taninos. Os Cabernets do Novo Mundo são normalmente mais intensos, enquanto os da Europa mais sutis.
Merlot. É o segundo violino de uma orquestra onde a Cabernet é a primeira solista. A Merlot também é plantada em todo o mundo. Dos Estados Unidos ao Brasil, ao Chile, Austrália e França, você acha a Merlot. Ela também tem bons taninos, tantos quanto os da Pinot Noir (que veremos a seguir), mas seus sabores não chegam a ser tão envolventes quanto os da Cabernet. É mais macia na boca. Um dos mais famosos (e caros) vinhos do mundo, o Petrus, é feito com a Merlot.
Syrah. Resulta em vinhos encorpados, pungentes, picantes, intensos. É originária do Vale do Ródano, França, mas com o nome de Shiraz sai-se bem também na Austrália e nos Estados Unidos. Na França, se apresenta em cortes com a Grenache e Mourvedre. Se vai comer uma comida mais apimentada, não esqueça da Syrah.
Pinot Noir. É a paixão de Miles, que passa pelo filme Sideways em busca de uma perfeita e única Pinot Noir. É um tinto que se disfarça de branco, pois é leve, delicado, elegante, mas com características próprias. Seus taninos são como um veludo cobrindo sua língua e boca. Seus aromas incluem cerejas, morangos e até mesmo chocolate. São uvas de cultivo difícil, saindo-se melhor em regiões mais frias. Sua residência oficial é a Borgonha, França. Mas temos bons exemplares vindos do Oregon e da Nova Zelândia.
Malbec. É hoje a uva que melhor representa uma das mais importantes regiões vinícolas da América do Sul, a Argentina. Vinhos quase violetas, encorpados, com taninos suaves e frutos maduros. Tem origem em Bordeaux, onde era usada como uva de corte, uma segunda uva, cujo lugar foi tomado pela Merlot. Continua como primeira uva na região de Cahors, França, onde é chamada de Auxerrois. Mas ela brilha mesmo é em Mendoza.
Vamos agora a alguns exemplos de uvas brancas. Elas estão, aqui, em ordem de intensidade de corpo. Da mais leve a mais encorpada. Assim, como veremos, a Riesling é a mais leve e delicada entre os três exemplos que forneço. A Chardonnay, por sua vez, é a mais encorpada e mais cheia de sabores entre as três.
Mas, por favor, não esqueça de que os estilos de vinhos variam tremendamente. Sempre teremos exceções. Enfim, temos que começar por algum lugar, certo?
Riesling. Faz um vinho leve, fresco, animado, com sabores delicados, com baixo teor alcoólico (entre 7 e 11%), com sabores de maçãs verdes, peras, abacaxis e até mesmo de mel. Na Alemanha, temos Rieslings que vão do seco aos moderadamente doces e até mesmo aos bem doces. Mas são, em sua maioria, secos.
Sauvignon Blanc. É um pouco mais “pra cima” do que a Riesling. Uva de corpo médio e também muito aromática, com toques de frutos cítricos, maracujá e alguma coisa de ervas e pimenta. O seu estilo é historicamente representado pelos vinhos secos de Graves e do Vale do Loire. É plantada por toda a Europa, mas está concentrada na França. Porém, nos últimos vinte anos, a Nova Zelândia tornou-se o onde essa uva tornou-se um padrão em todo o mundo. Vai comer peixes, frutos do mar, mariscos? Tente a Sauvignon.
Chardonnay. Ela está em todo o mundo, resultando ora em vinhos encorpados, com ousados volumes de álcool e fortes aromas de baunilha e maçã. E até nos Chablis, o Chardonnay produzido na Borgonha (de onde se origina), com aromas minerais, espertos, revigorantes. Talvez seja a varietal branca mais produzida no mundo.
O caso é que existem outras uvas, dezenas e dezenas de tintas e brancas oferecendo vinhos maravilhosos. As que você preferir serão suas rainhas, suas princesas. Todas têm sua chance, a sua vez.
Para você completar para valer esse ABC resta é começar a experimentar. Só assim a amiga vai poder conhecer de fato a mais deliciosa, mais variada e mais complexa bebida existente no mundo. Comece agora.

Um intruso na festa

Acho que a expressão “bomba de frutas”, corrente nas críticas de vinhos, teve origem em Robert Parker, justamente o rei (ou ditador) dos críticos, apesar de não constar do glossário do próprio Parker.
Mas certamente foi ele quem celebrizou o vinho “bomba”: muita fruta, muito carvalho e muito álcool. Vinhos assim ganham notas altíssimas do famoso crítico, seus seguidores e de revistas como a Wine Spectator.
O problema dessas “bombas” são os seus altos níveis de álcool, uma tendência que cresceu nos últimos dez anos. No passado, com gabaritos entre 11,5 e 13,5% de álcool, para o presente, com as taxas chegando a 16, 17%, o vinho começou a ficar longe da noção de que deveria ser uma bebida equilibrada, com os seus elementos bem integrados, próprio para um bom prato.
E a crítica se dividiu: de um lado, a turma de Parker e a Wine. De outro lado, contra esse estilo de “vinhos com esteróides” (como os chamou o grande Hugh Johnson), os europeus, com destaque para Jancis Robinson e a revista inglesa Decanter, os vinhos mais equilibrados.
Vários tintos da Califórnia são feitos com uvas que ficam na vinha por muito, muito mais tempo, de modo a ganhar mais açúcar (e, assim, mais álcool) e a amaciar seus taninos ao ponto de se tornarem imperceptíveis. São vinhos que acabam com baixa acidez. Quanto maior o tempo que passam sob o sol, menor é a acidez das uvas. Assim, no final, nossa “bomba de frutas” não será nada refrescante e seu álcool em excesso aproximará a bebida de um vinho do Porto, algo para ser tomado antes ou depois das refeições. Durante, nem pensar.
O álcool é o fator invisível, o “gênio na garrafa” (mais uma vez, do Hugh Johnson), que em altos níveis vai tornar-se indesejável, um intruso na festa, fazendo o vinho parecer mais doce do que na verdade é, mais “quente” (sua garganta ferve, leitor) e, no final, completamente desequilibrado.
A inglesa Jancis Robinson, carinhosamente, disse que gostaria de presentear cada um dos produtores da Califórnia com um Chateau Latour 2004 para demonstrar que os taninos também podem ser deliciosos e refrescantes.
E esse é um debate que também voltará em 2007. Nos últimos meses do ano passado começamos a anotar comentários de que essa tendência estava já em declínio. Os produtores não estão gostando muito da possibilidade de afastar os vinhos das mesas de refeições. Vão perder muito dinheiro.
Vimos nessa série, até aqui, os principais temas a dominar o noticiário do vinho: aquecimento global, a questão das tampas (de cortiça, de roscas, sintéticas?), vinho e saúde, o valor da origem (ou do terroir). E agora, com muito álcool, chegou a hora de comentarmos outros fatos.

6.2.07

ABC do Vinho II

Então, você lembra que vinho nada mais é do que: Fermento + Uvas = Vinho + um gás (dióxido de carbono).
Vimos isso na de 31 de janeiro. E também que vinho não é, portanto, um suco de uva com álcool. Vamos encontrar nele os mais surpreendentes e deliciosos aromas e sabores, justamente por conter substâncias únicas que resultam nos seus sabores e aromas.
Logo, o passo seguinte desse ABC é identificar esses sabores e aromas. Beber vinho é fácil. Basta inclinar a taça e engolir. Mas com os vinhos devemos treinar nosso paladar e nosso nariz. Gostamos de ouvir boa música, ler um bom livro, cozinhar à sério, cuidar do jardim. Talvez não sejam atividades vitais, mas que enriquecem a nossa vida. O mesmo acontece com o vinho: devemos aprender a degustar. O melhor de um vinho é apreciá-lo. E não apenas joga-lo goela abaixo.
Dicas para a sua boca, língua e nariz. A partir de agora, fique sabendo que o seu nariz foi feito para cheirar o vinho. Não tema em colocá-lo bem dentro da taça e aspirar fortemente algumas vezes. Não detectou nada? Espere um pouco. Você está lidando com aromas, matérias voláteis. Elas levam um tempinho para saírem da taça. Surpreenda-se com a série de aromas que você certamente vai perceber.
A sua boca e língua vão também passar informações importantes. Por exemplo, se o vinho está ou não bem equilibrado. Se ele apresenta alguma doçura, ela será percebida na ponta de sua língua. A acidez do vinho será sentida nas laterais da língua e sua boca vai “aguar”. Se o vinho tem um conteúdo de álcool mais significante, você sentirá a parte de trás da língua e a garganta mais quentes.
Os vinhos tintos contêm taninos, um daqueles elementos da família dos polifenóis, como vimos na coluna passada. Eles são encontrados numa vasta gama de plantas, como o chá. Aparecem fartamente nas sementes, talos e cascas das uvas. Seu papel na natureza é o de defender a planta. Têm um sabor fortemente adstringente, aversivo para os pássaros: eles evitam, assim, bicar as uvas ainda verdes, que conseguem então amadurecer em paz.
No vinho, são importantes contribuintes para sua cor e sabor. Podem dar a impressão de secura na boca. Mas na quantidade correta dão ao vinho um caráter de limpeza, livre de imperfeições. Sem eles, o vinho fica muito pouco interessante, chato, sem vida. Em demasia, deixa a bebida amarga e adstringente. Um vinho bem equilibrado não deverá surpreender a sua língua com essas sensações (amargor, adstringência etc.).
O que raios isso quer dizer? Você já deve ter lido, em alguma resenha, na lista de vinhos de um restaurante ou no contra-rótulo de um vinho algumas palavras, expressões ou frases que parecem ininteligíveis. Pois o fato é que como os mecânicos falam de birimbela da carrapeta, os médicos de virose, a turma do vinho também construiu sua própria linguagem. Com o tempo, você vai se acostumar e aprender esse “idioma”. Ele será certamente um bom instrumento através do qual você comunicará suas impressões sobre os vinhos que experimenta.
Vamos dar alguns exemplos:
Aeração. Permitir que o vinho “respire”, que seus aromas saiam da taça e se desenvolvam o mais plenamente possível. Fala-se também que o vinho “está abrindo”, quando esses aromas começam a evoluir da garrafa, após aberta.
Acidez. É um preservativo natural do vinho que contribui enormemente para o seu sabor. A acidez transmite uma sensação agradável de refrescância provocada pelo conjunto de ácidos contido no vinho (cítrico, lático, tartárico, málico etc.). Como vimos, deixa a sua boca “aguada”. Você vai salivar. Contudo, quando essa acidez é demasiada dizemos que o vinho está “acídulo”.
Aroma. É o cheiro ou odor que vem do vinho. Temos uma primeira camada com o aroma da uva. Em seguida, os aromas resultantes da vinificação. Há um terceiro tipo de aroma, originário do envelhecimento, que acontece dentro da garrafa, e chamado de buquê. Aroma de boca ou retrogosto é aquela percepção de sabor deixada pelo vinho na boca depois de ser degustado. Alguns críticos marcam quanto tempo esse sabor demora na boca. E isso vale bons pontos.
Aparência. É justamente isso: o vinho está opaco, límpido, claro, rubi, dourado. Um Cabernet Sauvignon tende a ter uma cor profunda, escura. Já a aparência do Cabernet Franc é mais leve, transparente.
Áspero ou Agressivo – Um vinho com muita adstringência e acidez. Muitas vezes é um vinho que foi aberto antes do tempo certo.
Austero – adstringente.
Bouchonnée. É a “doença da rolha”: um vinho com cheiro de rolha, de mofo, um vinho com defeito. A palavra vem do francês, bouchon, rolha.
Blanc de Blancs (“Branco de brancas”). Vinho branco feito apenas de uvas brancas. Muitos espumantes, inclusive os de Champagne, são feito de uvas brancas.
Blanc de Noir (“Branco de tintas”). Vinhos brancos feitos com uvas tintas. O suco dos vinhos não é fermentado com as cascas das uvas tintas. E são elas que dão cor ao vinho.
Botritizado. Um vinho de sobremesa, doce, produzido a partir de uvas que foram contaminadas pelo fungo Botrytis cinerea, daí a variação para botritis e botritizado. O parasita perfura as cascas das uvas provocando a saída de água deixando lá apenas o açúcar. As uvas ficam parecendo passas ou apodrecidas, o que resultou no nosso podridão nobre (ou noble rot em inglês, pourriture nobre em francês, schimmelbefall, em alemão). Esse açúcar extra resulta num vinho doce.
Brut. É como os franceses se referem aos espumantes muito secos.
Caráter. Um vinho que tem qualidades distintas, que pertence a um tipo ou a um grupo de vinhos, que tem originalidade. Um vinho sem caráter é insípido, não fede nem cheira.
Charmoso. Um vinho agradável, sedutor, elegante. Verdadeiramente charmant.
Château. Uma propriedade vinícola, em particular na região de Bordeaux, França. Não precisa ter um “castelo” (como indica o nome): basta que a propriedade produza vinho. Mise em bouteilles au château (que vemos muito nos rótulos franceses) quer dizer que o vinho foi engarrafado no local de produção.
Chato. Vinho sem acidez, espumante sem gás. Chata também é a pessoa que inventou de servir esse vinho para você.
Corpo. Vinho que é rico em extratos sólidos, denso, de peso, que provoca a sensação de “boca cheia”.
Decantar. Ação de separar o vinho de partículas sólidas (colóides, levedos), impurezas depositadas em barris ou garrafas. O garçom transfere o vinho para um decantador cuidando para deixar na garrafa essas impurezas.
Defeito. Doença, dano ou qualquer anomalia ou desarmonia que torna o vinho desagradável.
Delicado. Termo aplicado quando o vinho libera aromas elegantes e harmoniosos. O mesmo que elegante.
Demi-sec. Termo aplicado ao Champagne e espumantes em geral que tenham açúcar residual entre 33 e 50 g/l. Portanto, é um vinho um tanto doce.
Diluído. Um vinho pouco intenso, não muito concentrado.
Eiswein (“Vinho de gelo”, em alemão). Vinho feito de uvas colhidas congeladas, entre -5º e 8º C.
Encorpado. Como o nome diz, um vinho com muito corpo.
Fortificado. Um vinho como o Porto, Madeira, Jerez, Marsala etc. Seu conteúdo alcoólico foi aumentado com a adição de um destilado de vinho.
Fragrante. Vinho rico em odores, aromas agradáveis.
Generoso. Vinho encorpado, robusto, normalmente com maior teor alcoólico.
Harmonioso. Vinho bem equilibrado, especialmente na sua estrutura de sabores.
Herbáceo. Caracteriza o odor de uma planta, muitas vezes de grama verde. É considerado um sintoma de má qualidade.
Jovem. Pode ser um vinho novo, feito para ser consumido rapidamente. Ou um vinho que ainda não está pronto para ser bebido, depois de um ano na garrafa.
Maduro. Vinho no seu apogeu, pronto para beber. Dessa fase em diante ele decairá.
Nervoso. Vinho com alta acidez, mas certamente bebível.
Odor. Emanações voláteis com efeitos no nosso olfato. Podem ser de diferentes naturezas. florais, frutadas, de madeira, tostado, animais etc.
Pálido. Um tinto com pouca cor, quase um rosado.
Pêssego. Odor de fruta lembrando o pêssego. É causado por um éster (condensação de um ácido orgânico com um álcool) chamado undecalactona.
Petillant. Francês para ligeiramente espumante.
Rascante. Adstringente.
Rústico. Vinho sem finesse, mas honesto, limpo e saudável. Falta-lhe sutileza de aroma e sabor. Não tem elegância, mas não é vulgar.
Sensual. Um vinho amistoso, elegante, harmonioso, com bom corpo. Prazeroso.
Terroir. Famosa palavra francesa que mesmo um dicionário de lá não consegue descrever o seu grande sentido quando aplicado a vinho. Vai dizer que significa “solo”, “chão”, “terra”. Mas a palavra é ainda mais complexa, interconectando solo, geologia, topografia, clima e microclima, micróbios e leveduras e, claro, a variedade da uva. Já que todos esses componentes raramente acontecerão ao mesmo tempo e da mesma maneira, é a singularidade da combinação de todos esses elementos que constituem o terroir. As influências de técnicas, do vinhateiro, embora muito relevantes, não se constituem um fator no complexo de itens que compreende o terroir. Ele é a alma do vinho, que o vinhateiro pode ou não revelar completamente.
Untuoso. Vinho agradável, sedoso (pode ser um tinto macio ou um branco com açúcar residual a mais).
Verde. Cor verde ou esverdeada em certos vinhos brancos. Ou vinhos nervosos com muita acidez. Ou Vinhos Verdes feitos com uvas ainda não maduras (como os Verdes portugueses).
Vigoroso. Vinho encorpado, robusto, generoso.
Semana que vem tem mais.

Oui, temos terroir!

Deu manchetes, com toda a justiça: os vinhos do Vale dos Vinhedos, Rio Grande do Sul, tiveram a sua denominação de origem, ou, como dizemos aqui, sua Indicação Geográfica (IG) reconhecida pela União Européia. Somos os únicos a conquistar essa chancela de qualidade, ao lado dos vinhos do Vale de Napa, na Califórnia.
Em miúdos, isso quer dizer que todos os 21 vinhos associados à Aprovale (Associação dos Produtores de Vinhos do Vale dos Vinhedos) e que conseguiram o Selo de Indicação de Procedência do Vale, passam a ter entrada livre nos países que integram a União Européia. Nos seus rótulos vamos ter além do nome, da safra etc., o IG, a certificação de origem, a comprovação do sabor exclusivo de uma região vitivinícola. É uma senhora qualificação, vamos poder exportar mais.
Para mim, bastava já a conquista da Aprovale, criada em 1995, incluindo principalmente vinícolas da região de Bento Gonçalves. Ela tornou reconhecido aqui mesmo o selo de certificação de origem, que soma região com qualidade, uma preocupação e prática que existem desde os gregos. Na França, você não toma um Pinot Noir, mas um Borgonha. Ou bebe um Bordeaux, um Champagne. Na Itália, degusta um Chianti. Na Espanha, um Rioja etc. O que vale é a região.
Isso lembra o bate-boca de sempre em torno do famoso terroir, uma palavra francesa que mesmo um dicionário de lá não consegue descrever o seu grande sentido quando aplicado a vinho. Vai dizer que significa “solo”, “chão”, “terra”. Mas a palavra é ainda mais complexa, interconectando solo, geologia, topografia, clima e microclima, micróbios e leveduras e, claro, a variedade da uva. Já que todos esses componentes raramente acontecerão ao mesmo tempo e da mesma maneira, é a singularidade da combinação de todos esses elementos que constituem o terroir. As influências de técnicas, do vinhateiro, embora muito relevantes, não se constituem um fator no complexo de itens que compreende o terroir. Ele é a alma do vinho, que o vinhateiro pode ou não revelar completamente.
No premiado documentário Mondovino, de Jonathan Nossiter, fica claro que o sabor da terra, a expressão do terroir é a mais alta distinção da vinicultura. Bastou esse americano, agora residindo no Brasil, fazer uma carta só com vinhos nacionais (a maioria do Sul) para um restaurante carioca, que começaram a chover louvações e mais louvações sobre a nossa bebida.
Muitas vezes, leitor, a boa surpresa está aqui mesmo em casa. Se for por falta de algum estrangeirismo, vimos que os vinhos do Vale também têm terroir e são bebidos e recomendados, sem quaisquer preconceitos, por um expert norte-americano.
Beba um Vale, leitor! Agora mesmo saíram os novos vinhos com as Indicações de Procedência Vale dos Vinhedos (I.P.V.V.), com os certificados da safra de 2005. Faça a sua escolha aqui, antes que os europeus comprem tudo. Como a coluna de hoje já demonstra, o terroir vai continuar a dar samba em 2007.

30.1.07

Esse vinho contem peixe

Volto aos rótulos de vinho, um potencial bafafá para 2007. É dos Estados Unidos que vem a onda. Lá, desde os anos 80, os rótulos são obrigados a alertar sobre a presença de sulfitos, sobre os riscos de beber durante a gravidez e de beber e dirigir. Mas, como já dissemos, há disposição em também impor menções aos alérgenos (ou alergênios, agentes capazes de produzir alergia). Saia curta para o produtor norte-americano, que está proibido de colocar uma menção sequer sobre os benefícios do vinho para a saúde. Assim, é fácil prever que os rótulos terão grande destaque esse ano.
Sulfitos (um derivado do dióxido de enxofre, que existe livre na natureza) o nosso próprio corpo produz uma grama por dia, em média. Utilizado desde os tempos dos gregos, são vitais na conservação dos vinhos. Todos os vinhos contêm sulfitos, produzidos naturalmente durante a fermentação. O produtor acrescenta mais, ao final, de modo a garantir que a bebida chegue a salvo às prateleiras. Nos EUA e aqui, o limite máximo é de 350 mg por litro. Na Europa, desde 2005, é obrigatória a menção. Na Austrália e Nova Zelândia também. De fato, eles podem ser um mal para os asmáticos. Mas peixes, camarões, também recebem esse tratamento (o industrializado). Frutas também, em particular as secas. Só não vi os alertas.
Praticamente, quase todos os produtores de vinho em todo o mundo acrescentam sulfitos. E os alertas no rótulo já existem. Acontece que, segundo pesquisas, a média de sulfitos dos vinhos em todo o mundo é de 80 mg/litro, bem abaixo do requerido pelas várias leis dos países citados.
Porém, o pessoal da saúde dos EUA quer mais: menções claras sobre outros alérgenos contidos nos vinhos. Assim, a cola de trigo (usada às vezes para selar os barris de vinho), as claras de ovos, a gelatina de peixe, a caseína (proteínas do leite) empregadas na clarificação do vinho deverão aparecer nos rótulos. As claras dos ovos, por exemplo, atraem e fixam impurezas e as carregam para o fundo do barril, com perda mínima de cor ou sabor para o vinho. Essa é a ação desses alérgenos: aglutinar partículas resultantes de todo o processo e ir para o fundo do barril. São em seguidas filtradas e temos o vinho claro, límpido, livre dessas partículas. E livre também desses alérgenos. O que eventualmente poderia chegar à nossa mesa é desprezível, no entender dos produtores.
O pessoal da saúde de lá não concorda. E, assim, o produtor fica temendo que, fora a grande despesa que terão em mensurar a eventual quantidade de alérgenos em cada garrafa, os consumidores desistam de um vinho com um aviso de que ele contém cola de peixe, por exemplo. Não é pra menos.
É muita aflição regulatória, gente. Até agora não vi nenhuma ação ou um alerta contra a China, o maior poluidor do mundo com os dióxidos sulfúricos (parente do nosso sulfito): suas emissões em 2005 foram estimadas em 25.49 milhões de toneladas, que chegam à sua casa e pulmões sem avisos.
Almadén Tannat Merlot 2005.
Agradeço ao pessoal da Pernod Ricard pelo suculento presente, que comemora os 30 anos da Almadén no Brasil, vinícola pioneira (a primeira a chegar à Campanha Gaúcha) e líder em vendas em sua categoria. Sucesso, Almadén.

Um ABC do Vinho

Querida leitora: você se sente deslocada por não saber nada de mecânica de automóveis? Ou de futebol, ou de poesia concreta? Acho que não, nenhuma de nós vai se sentir desconfortável por não saber nadica de nada de qualquer desses assuntos e de muitos outros.
Então, porque muita gente se sente obrigada ou se sente inadequada, um zero à esquerda, se não sabe muito a respeito dessa bebida?
O colunista Eric Azimov, do New York Times, se fez essa pergunta em seu blog, um dia desses. É uma questão crucial, principalmente para quem escreve sobre vinhos. Segundo o crítico americano, “a julgar pelas perguntas que me fazem regularmente, muitas pessoas parecem sentir que sua ignorância sobre o vinho é um defeito de personalidade”.
Mas, leitora, não deixe que essa idéia passe por sua cabeça. Você não precisa saber muito de vinho. Por que deveria? Você não precisa saber nada de mecânica para dirigir seu automóvel e ter prazer com ele. Você não precisa saber nada de poesia para ter prazer ao ler: De manhã escureço/De dia tardo/De tarde anoiteço/De noite ardo.
Desfrute o seu automóvel e deixe os problemas de mecânica na oficina. Que os críticos literários destrinchem o Vinícius de Moraes.
A ótima crítica de vinhos Jennifer Rosen, em seu livro The Cork Jester’s Guide to Wine confessa: “Vou ser honesta com você. Não posso simplificar vinho. Francamente, vinho é complicado e fica mais complicado a cada dia. Está difícil para mim manter-me atualizada sobre as novas vinícolas e regiões”.
E assim começamos a nossa série de matérias sobre o conhecimento de vinhos. E, como a amiga já percebeu, vamos deixar a coisa o mais simples possível. O nosso objetivo continua o de sempre: descomplicar essa matéria e fazer dela um gostoso passeio.
Como é feito o vinho? Essa bebida resulta de um processo simples, que parece uma mágica:
Fermento + Uvas = Vinho + um gás (dióxido de carbono).
O fermento (ou levedo) é um microorganismo unicelular com a capacidade de se auto-reproduzir, ou de se reproduzir assexuadamente, e de provocar trocas químicas. Quando uma célula dessas se reproduz ela gera uma segunda célula, um perfeito clone da primeira. Estamos falando do mesmo fermento que mamãe usa para fazer crescer o bolo ou o pão. Existe à vontade na natureza. Quando abrimos a boca e inspiramos, engolimos um punhado dessas células. Sem problemas, não vão fazer mal algum.
Os fermentos existem abundantemente na natureza. E, no caso, nas uvas ou ao redor delas. Como qualquer ser vivo, precisam se alimentar. E elas sabem que vão encontrar comida à vontade quando as uvas são esmagadas: todo aquele açúcar que aquelas frutas contêm.
Na medida em que consomem o açúcar, vão excretando um tipo de álcool (que é o nosso vinho) e, quando soluçam, soltam gás, o dióxido de carbono (que é o mesmo gás que você encontra na garrafa dos espumantes).
Esse processo é conhecido como fermentação alcoólica, utilizado na produção de vinhos e de cervejas.
O vinho é apenas isso? O vinho, posto de modo muito simplificado, é o resultado natural da fermentação do suco de uva. Mas ele oferece mais umas coisinhas. Por exemplo: nele encontramos mais e melhores sabores e aromas do que num suco de frutas. Existem partes nas cascas das uvas, nas sementes e talos que contribuem para essas qualidades adicionais. Partes, inclusive, que se desenvolvem com o tempo.
Por fim, a maneira como é feito tem um importante papel na melhoria daqueles sabores e aromas. Se um vinho amadurecer em barris de carvalho o resultado é um. E outro, se descansar num tanque de aço inoxidável.
O que existe num vinho? Falam que o vinho é o segundo fluído mais complexo que existe. O primeiro deve ser o sangue humano.
O vinho é uma mistura de ácidos, açúcares, alcoóis, polifenóis e muitos mais.
Ele é composto por: água (85%), álcool (12%) e por apenas 3% dos ácidos, açúcares etc. que citamos acima.
Os principais componentes são:
Acetaldeído, numa concentração típica de 70 mg/litro;
Glicerol (ou glicerina): 7.000 mg/litro;
Alcoóis (incluindo o etanol, bebível, e pequenas quantidades de outros tipos, com mais de dois carbonos, oleosos): 500 mg/l;
Sorbitol e Manitol: 300 mg/l;
Sulfitos: 80 mg/l;
Ácidos (fixos): 6.000 mg/l.
Ésteres: 60 mg/l;
Minerais: 1.200 mg/l;
Fenóis: 1.800 mg/l;
Ácidos voláteis: 400 mg/l
Sim, é meio complicado. O acetaldeído, por exemplo, é um líquido incolor, acre, produto primário do etanol. E um dos agentes responsáveis pela ressaca. Em algum momento vamos falar mais do acetaldeído. Mas isso só vai importar mesmo se você quiser saber as razões de sua ressaca depois de tomar umas taças a mais.
Do ponto de vista da química, o vinho é uma solução hidroalcoólica contendo de 20 a 30 gramas de substâncias em solução, que constituem o seu extrato e resultam no sabor da bebida. E várias centenas de miligramas de substâncias voláteis que resultam nos seus aromas.
Porém, não precisamos saber de química, amiga. Alguns críticos até são químicos. Outros têm um nariz com grande sensibilidade e precisam apenas provar o vinho (e contar pra gente o que acharam). Quem precisa mesmo saber de química, pelo menos um pouco mais, são os enólogos, os que lidam com o vinho e a sua fabricação. Só citei esses componentes para você sentir mais de perto o que a americana Jennifer Rosen quer dizer com “... vinho é complicado”.
Todo o vinho é uma mistura de componentes naturais e criados pelo homem. O sabor final é determinado por elementos como: o número de horas de sol que as uvas pegaram, quanto de chuva o vinhedo pegou, se houve geadas. Ou se o vinicultor resolveu deixar o suco das uvas macerando por 10 dias ou três semanas. Tudo isso vai alterar o resultado final do que vem dentro da garrafa.
Mas você também não precisa saber de toda essa operação. Para o consumidor basta provar os vinhos e anotando suas diferenças. Melhor aprender assim.
Nas próximas colunas, vamos continuar com esse ABC.

ABC do Vinho I

Querida leitora: você se sente deslocada por não saber nada de mecânica de automóveis? Ou de futebol, ou de poesia concreta? Acho que não, nenhuma de nós vai se sentir desconfortável por não saber nadica de nada de qualquer desses assuntos e de muitos outros.
Então, porque muita gente se sente obrigada ou se sente inadequada, um zero à esquerda, se não sabe muito a respeito dessa bebida?
O colunista Eric Azimov, do New York Times, se fez essa pergunta em seu blog, um dia desses. É uma questão crucial, principalmente para quem escreve sobre vinhos. Segundo o crítico americano, “a julgar pelas perguntas que me fazem regularmente, muitas pessoas parecem sentir que sua ignorância sobre o vinho é um defeito de personalidade”.
Mas, leitora, não deixe que essa idéia passe por sua cabeça. Você não precisa saber muito de vinho. Por que deveria? Você não precisa saber nada de mecânica para dirigir seu automóvel e ter prazer com ele. Você não precisa saber nada de poesia para ter prazer ao ler: De manhã escureço/De dia tardo/De tarde anoiteço/De noite ardo.
Desfrute o seu automóvel e deixe os problemas de mecânica na oficina. Que os críticos literários destrinchem o Vinícius de Moraes.
A ótima crítica de vinhos Jennifer Rosen, em seu livro The Cork Jester’s Guide to Wine confessa: “Vou ser honesta com você. Não posso simplificar vinho. Francamente, vinho é complicado e fica mais complicado a cada dia. Está difícil para mim manter-me atualizada sobre as novas vinícolas e regiões”.
E assim começamos a nossa série de matérias sobre o conhecimento de vinhos. E, como a amiga já percebeu, vamos deixar a coisa o mais simples possível. O nosso objetivo continua o de sempre: descomplicar essa matéria e fazer dela um gostoso passeio.
Como é feito o vinho? Essa bebida resulta de um processo simples, que parece uma mágica:
Fermento + Uvas = Vinho + um gás (dióxido de carbono).
O fermento (ou levedo) é um microorganismo unicelular com a capacidade de se auto-reproduzir, ou de se reproduzir assexuadamente, e de provocar trocas químicas. Quando uma célula dessas se reproduz ela gera uma segunda célula, um perfeito clone da primeira. Estamos falando do mesmo fermento que mamãe usa para fazer crescer o bolo ou o pão. Existe à vontade na natureza. Quando abrimos a boca e inspiramos, engolimos um punhado dessas células. Sem problemas, não vão fazer mal algum.
Os fermentos existem abundantemente na natureza. E, no caso, nas uvas ou ao redor delas. Como qualquer ser vivo, precisam se alimentar. E elas sabem que vão encontrar comida à vontade quando as uvas são esmagadas: todo aquele açúcar que aquelas frutas contêm.
Na medida em que consomem o açúcar, vão excretando um tipo de álcool (que é o nosso vinho) e, quando soluçam, soltam gás, o dióxido de carbono (que é o mesmo gás que você encontra na garrafa dos espumantes).
Esse processo é conhecido como fermentação alcoólica, utilizado na produção de vinhos e de cervejas.
O fermento (ou levedo) é um microorganismo unicelular com a capacidade de se auto-reproduzir, ou de se reproduzir assexuadamente, e de provocar trocas químicas. Quando uma célula dessas se reproduz ela gera uma segunda célula, um perfeito clone da primeira. Estamos falando do mesmo fermento que mamãe usa para fazer crescer o bolo ou o pão. Existe à vontade na natureza. Quando abrimos a boca e inspiramos, engolimos um punhado dessas células. Sem problemas, não vão fazer mal algum.
Os fermentos existem abundantemente na natureza. E, no caso, nas uvas ou ao redor delas. Como qualquer ser vivo, precisam se alimentar. E elas sabem que vão encontrar comida à vontade quando as uvas são esmagadas: todo aquele açúcar que aquelas frutas contêm.
Na medida em que consomem o açúcar, vão excretando um tipo de álcool (que é o nosso vinho) e, quando soluçam, soltam gás, o dióxido de carbono (que é o mesmo gás que você encontra na garrafa dos espumantes).
Esse processo é conhecido como fermentação alcoólica, utilizado na produção de vinhos e de cervejas.
O que existe num vinho? Falam que o vinho é o segundo fluído mais complexo que existe. O primeiro deve ser o sangue humano.
O vinho é uma mistura de ácidos, açúcares, alcoóis, polifenóis e muitos mais.
Ele é composto por: água (85%), álcool (12%) e por apenas 3% dos ácidos, açúcares etc. que citamos acima.
Os principais componentes são:
Acetaldeído, numa concentração típica de 70 mg/litro;
Glicerol (ou glicerina): 7.000 mg/litro;
Alcoóis (incluindo o etanol, bebível, e pequenas quantidades de outros tipos, com mais de dois carbonos, oleosos): 500 mg/l;
Sorbitol e Manitol: 300 mg/l;
Sulfitos: 80 mg/l;
Ácidos (fixos): 6.000 mg/l.
Ésteres: 60 mg/l;
Minerais: 1.200 mg/l;
Fenóis: 1.800 mg/l;
Ácidos voláteis: 400 mg/l
Sim, é meio complicado. O acetaldeído, por exemplo, é um líquido incolor, acre, produto primário do etanol. E um dos agentes responsáveis pela ressaca. Em algum momento vamos falar mais do acetaldeído. Mas isso só vai importar mesmo se você quiser saber as razões de sua ressaca depois de tomar umas taças a mais.
Do ponto de vista da química, o vinho é uma solução hidroalcoólica contendo de 20 a 30 gramas de substâncias em solução, que constituem o seu extrato e resultam no sabor da bebida. E várias centenas de miligramas de substâncias voláteis que resultam nos seus aromas.
Porém, não precisamos saber de química, amiga. Alguns críticos até são químicos. Outros têm um nariz com grande sensibilidade e precisam apenas provar o vinho (e contar pra gente o que acharam). Quem precisa mesmo saber de química, pelo menos um pouco mais, são os enólogos, os que lidam com o vinho e a sua fabricação. Só citei esses componentes para você sentir mais de perto o que a americana Jennifer Rosen quer dizer com “... vinho é complicado”.
Todo o vinho é uma mistura de componentes naturais e criados pelo homem. O sabor final é determinado por elementos como: o número de horas de sol que as uvas pegaram, quanto de chuva o vinhedo pegou, se houve geadas. Ou se o vinicultor resolveu deixar o suco das uvas macerando por 10 dias ou três semanas. Tudo isso vai alterar o resultado final do que vem dentro da garrafa.
Mas você também não precisa saber de toda essa operação. Para o consumidor basta provar os vinhos e anotando suas diferenças. Melhor aprender assim.

22.1.07

Tampar com o quê?

Claro que em 2007 continuarão chovendo notícias sobre qual a melhor tampa para vinhos: a de cortiça, a sintética ou a rosca de metal, entre outras? As torcidas, nesse campo, se dividem basicamente entre as tampas de cortiça (a turma mais tradicional, do Velho Mundo) e as de roscas de metal (o grupo do Novo Mundo, em particular, da Nova Zelândia, Austrália e Estados Unidos). Como diz a renomada Jancis Robinson: estão fazendo uma guerra santa em torno do assunto.
Ao retirar a rolha, sentimos um cheiro forte de mofo, de “papelão molhado”, de “cachorro molhado”. É a “doença da rolha”, que o francês chama de “bouchonné” (“odor de rolha”). A rolha é um produto orgânico, originária de um tipo de carvalho, o Quercus Suber. Na maioria dos casos, o problema se origina de um elemento químico, o TCA (2,4,6-trichloroanisole), identificado em 1982 na Suíça e que pode ter originem na própria árvore, nos barris, onde quer que haja madeira e produtos à base de cloro, utilizados em limpeza, inclusive das rolhas. A turma pró-cortiça estima que entre 1 e 2% das rolhas ficam contaminadas, em todo o mundo. Já para o pessoal pró-roscas o número é, claro, maior: até 15%. Mesmo que fiquemos no meio, 7%, o prejuízo é enorme, em termos da imagem dos vinhos e das garrafas perdidas. Daí a procura por outro tipo de tampa.
Na Nova Zelândia, 70% dos seus vinhos já são selados com as roscas metálicas. Os principais argumentos são que elas eliminam tanto o risco de TCA quanto o da oxidação, impedem a alteração no sabor; são próprias para o envelhecimento tanto dos vinhos brancos como dos tintos e podem ser armazenadas na vertical. Só que até agora ninguém sabe, com certeza, como ficará o sabor de um Château Margaux depois de 50 anos com uma tampa de rosca metálica. Com a cortiça já se sabe: continuará maravilhoso (se não acontecer o TCA).
Para esquentar o debate, descobriu-se agora que os vinhos com tampas de rosca também podem se transformar em “bombas de mau cheiro”. Análises feitas pela londrina International Wine Challenge (que testa cerca de 9 mil vinhos por ano) verificaram que 2,2% de garrafas com as roscas metálicas foram afetadas por sulfitização – uma reação química causada pelo uso em excesso de sulfitos (usados para conservar o vinho, prevenir a sua acidificação e enaltecer a sua cor) e a falta de oxigênio. Nota o IWC que 4,4% das garrafas com cortiça, neste teste, também tinham problemas com os sulfitos, minorados porque as rolhas permitem a entrada do oxigênio na garrafa, reduzindo o mau cheiro (de ovo podre, borracha ou fósforo queimados).
Assim, nesse momento o jogo está empatado. Vamos esperar e, como recomenda Jancis Robinson, jogar um balde de água fria sobre o assunto.
Ah, e não deixe de visitar a Fenavinho, em Bento Gonçalves, RS, a maior e melhor feira de vinhos da América Latina. Começa dia 26 de janeiro.

Plutonizada?

“Plutonizado” foi eleita a palavra do ano (de 2006) pela American Dialect Society. Ela deriva de plutoed, um neologismo. Veja o verbete na coluna do Sérgio Rodrigues.
A ADS é uma sociedade que existe há 117 anos e faz um belo trabalho em torno dos usos, novidades, modismos e novos empregos da língua inglesa. Novidades essas que são quase que imediatamente adaptadas e usadas em todos os outros idiomas, como a amiga sabe.
E os vinhos com isso? Explico com exemplos:
Você gosta de vinhos e resolveu visitar a novidade do Tastes of the Valley - Sideways Wine Bar – um bar de vinhos inspirado no filme Sideways, que ganhou um Oscar de melhor roteiro adaptado em 2004 e é, com Mondovino, o filme sobre vinho mais badalado até agora. O wine bar fica em Solvang, Santa Bárbara, Califórnia, uma das locações do filme. Se você for, você é sem dúvidas uma turista plutonizada.
Ou pode querer, entre tornados e outras ventanias, visitar o Festival do Vinho da cidade de Nápoles (essa, na Flórida). E, se não morrer de tédio, seguir depois para conhecer o recém-inaugurado e exótico wine bar que funciona numa antiga sinagoga de Brooklyn, Nova York (era a velha Talmud Torah Beth Jacob Joseph, na Atlantic Avenue, no bairro de Boerum Hill). Se fizer isso, continua sendo uma turista plutonizada.
Continuando nessa linha um tanto profana, você pode até querer visitar um vinhedo plantado sobre um cemitério. Sim, agora existe. O lugar é bem próprio: Hayward, uma cidadezinha num braço da famosa Falha de San Andreas (uma falha geológica, um deslizamento lateral que se prolonga por mais de mil quilômetros através da Califórnia), perto de São Francisco, EUA. Logo, se não ocorrer nenhum terremoto, você conhece videiras de Zinfandel e Syrah que os padres católicos plantaram numa pequena área do cemitério do Santo Sepulcro, pertencente à Diocese de Oakland. Os padres argumentam que vão poupar dinheiro do vinho da missa e lembram também que vinho é o sangue de Cristo. Muito justo. Mas talvez você acabe sabendo mais de terror do que de terroir (perdão pelo trocadilho). Em qualquer caso, você além de sobressaltada vai permanecer plutonizada.
Vale quase tudo quando fazemos turismo, só não vale é ficar rebaixada, diminuída, transformada numa “turista-anã”, que é o significado da palavra campeã de 2006. Plutão era planeta desde 1930. Mas a partir de 2006 foi reclassificado como Planeta-anão.
Porém, sei que a amiga quer é se agigantar, pois gosta mesmo de vinho e quer fazer turismo a sério. Nesse caso, o negócio é fazer as malas já e partir para Fenavinho, em Bento Gonçalves.
A Fenavinho. Em termos de multiplicidade de ofertas, qualidade, variedade e propriedade de eventos (tem para adultos, crianças, profissionais e amadores do vinho etc.), alcance e duração – por tudo isso, para mim é a maior e mais importante feira de vinhos do continente. Imperdível.
É muito mais do que wine bars exóticos ou vinhedos “diferentes”. Degustações de vinho (a maioria, grátis) e vinhedos magníficos (sobre solo consagrado apenas pela natureza) você tem há muito tempo no sul do país.
Oficialmente a feira começa agora, dia 26 de janeiro, e vai até 20 de fevereiro. Se você for no período de Carnaval pode até participar da colheita da uva.
Mas se chegasse hoje lá conheceria o Caminhão do Vinho, que vem percorrendo os bairros de Bento Gonçalves desde o dia 20, distribuindo vinho e suco de uva gratuitamente.
A feira acontece numa dos maiores áreas de eventos da América Latina: o Parque da Fenavinho, em Bento Gonçalves (há uns meros 120 km de Porto Alegre), com 322.567 m² de área total e 50.000 m² de área construída.
No Parque, teremos uma exposição das 80 vinícolas de várias regiões produtoras do país, apresentando seus vinhos, que poderão ser degustados e até comprados por precinhos pra lá de camaradas.
Ao lado do pavilhão será apresentado um inusitado espetáculo cênico, ao ar livre: a História Cultural do Vinho, com mais de 500 figurantes, esculturas gigantescas em movimentos, alegorias, palcos fixos, cenários de fundo, cenografias, vídeos, efeitos, dramatizações. Será realizado todos os sábados, a partir das 9 da noite, numa arena com arquibancadas para até cinco mil pessoas. A turma da Fenavinho conta com o competente e criativo pessoal que faz o Festival Folclórico de Parintins, Amazonas, para a produção do show (logo, capaz de colocar o Carnaval carioca pra trás, em termos de qualidade de alegorias, cenários, esculturas etc.).
Entenda: essa feira está completando 40 anos. Ao longo desse tempo ela só fez melhorar e ampliar. O pessoal sabe muito bem como tudo deve ser feito.
Num dos pavilhões do Parque, teremos 150 produtores rurais da Serra Gaúcha e do estado expondo suas melhores uvas. Haverá premiação para os cachos mais bonitos. É a sua oportunidade, amiga, de conhecer as inúmeras variedades de uvas cultivadas no Brasil, quais suas características e que vinhos delas resultam. Vale por um curso de vinhos.
Você também poderá amassar a uva com os pés e voltar dias mais tarde para degustar o vinho doce, resultado da primeira fermentação. Num outro espaço, encontrará produtos feitos através da agricultura familiar, além de ofícios como a tecelagem, o artesanato em madeira e em vime, confecção de violinos, caldo de cana, erva-mate, moinho – e vai por aí. Já se sente desplutonizada?
Tem mais: conhecerá grandes fornos a lenha e ver de pertíssimo a fabricação de pães caseiros (e saboreá-los e levá-los para casa). Além disso, temos o Filó Gastronômico, um espaço com um restaurante de gastronomia italiana regional e um palco para apresentações de grupos de música, canto e dança. Você aqui se integra de vez com os hábitos e costumes dos imigrantes italianos. Além do Filó, teremos ilhas de gastronomia, com sopas, massas, comidas típicas italianas e a gastronomia campeira (a natural dos gaúchos).
Onde deixar os baixinhos. Para as crianças, a Fenavinho oferece a Piccola Cittá, um espaço de recreação com suporte de educadores, onde os pais poderão deixar seus filhos e visitar a feira sem medo de tomar uns goles extras. São 800 m², com apresentações de teatro, canto, oficinas do pão, corridas de pernas de pau, distribuição de lanches típicos, pintura, desenho e escrita. Cada criança será presenteada com o livro “Um mundo de lembranças. Um sonho de criança”, resultado da pesquisa que originou todo o projeto.
Enfim, o evento oferece também oportunidades inéditas para os profissionais do vinho, como os Projetos Comprador e Imagem: identificam potenciais compradores de vinho (para rede de lojas, supermercados, hotéis e restaurantes) e importadores e distribuidores para exportação de vinhos brasileiros. Devemos chegar a 378 milhões de litros em 2009, segundo previsão da APEX, agência de promoção de exportação e investimento no setor. Consumimos agora 1,8 litros por ano (por pessoa). Os franceses consomem 15 litros. Assim, segundo essa agência, já estamos em 15º lugar. Nada mal. Estima-se que 100 vinícolas brasileiras farão perto de 600 reuniões de negócios durante a feira.
Ah, tem também o Vinho Encanado, já uma tradição da terra: uma imensa pipa junto à Casa Del Vino, na Via do mesmo nome. É só pegar a sua caneca e ir pra lá fartar-se. Visite ainda as vilas típicas, como suas festas tradicionais, como a Três Sete, Bisca, Mora, Quatrilho. Participe de um torneio de bocha. Confira o Salão de Arte do Vinho e os desenhos de humor sobre o vinho.
Só não deixe de ir. Vi no site da Fenavinho que a CVC já tem roteiros aéreos e rodoviários prontinhos para a feira.
Pois é prestigiando mais o que é nosso, dando valor quando esse valor efetivamente existe é que você se agiganta e se desplutoniza de vez.