30.10.07

Cápsulas

1. Essa é a cápsula mesmo. Elas ainda continuam populares entre produtores e consumidores. Você sabe: são esses invólucros cobrindo a tampa e o pescoço da garrafa. Elas emprestam às garrafas um acabamento limpo, ajudam a identificar o vinho e podem também revelar se a bebida foi adulterada.
Existem desde o século XVII, feitas de uma lâmina de chumbo, uma escolha fácil, pois praticamente indestrutível, maleável, fácil de amoldar-se às garrafas e de remover. Foram criadas para proteger a rolha contra insetos e ratos que infestavam as antigas adegas. Falam também que protegiam o consumidor de fraudes: nas tavernas, retiravam as rolhas, batizavam os vinhos e os rearrolhavam em seguida. Isso é feito até hoje, quase sempre fora dos restaurantes.
A partir de 1990, a lâminas de chumbo foram proibidas na Europa e nos Estados Unidos. Quem não limpava bem a boca garrafa acabava consumindo chumbo, com resultados nocivos para a saúde. Além disso, esse material representa um lixo tóxico, nocivo para o solo e para o que nele se cultiva.
Até hoje, temos esse ritual da retirada das cápsulas: o garçom retira a tampa da cápsula com a ajuda de uma pequena lâmina embutida no saca-rolha. Com ela, em seguida, raspa a boca da garrafa e a limpa finalmente com um guardanapo.
Mas qual seria a finalidade das cápsulas hoje? Não impedem a entrada do ar nas garrafas (algumas têm até pequenos orifícios para a passagem do ar), nem que a bebida vaze. Sua função acaba sendo apenas decorativa. Sem ela, muitos acham que a garrafa vai parecer “nua”, inacabada. Outros a julgam necessária para evitar mãos sujas ou contaminadas nas rolhas.
Assim, em lugar do chumbo tivemos folha de flandres (folha de ferro laminado revestido de estanho) e plástico (raios, vez por outra me corto com as pontas do PVC). Noto que cada vez mais utilizam um selo de papel ou de cera sobre a rolha – que, assim, é deixada à mostra para nosso exame. É uma boa solução para reduzir custos de produção - o que igualmente nos beneficiaria, consumidoras, e principalmente, o meio ambiente.
Aliás, as tampas de rosca, rolhas de plástico e as cápsulas representam um sério dano ao meio ambiente – são um lixo difícil de ser absorvido. As garrafas ainda podem ser reutilizadas, recicladas – com novos custos e mais emissão de gases.
Um crítico sugeriu a abolição de garrafas, tampas de qualquer tipo e de cápsulas. O vinho seria oferecido em pequenos barris de aço inoxidável, o que baratearia o custo da bebida e pouparia substancialmente o meio ambiente. Traríamos o vasilhame para casa e beberíamos o vinho direto da torneirinha ou o passaríamos para garrafas esterilizadas ou decantadores. Já pensaram, o clima de confraternização em volta do barril?
O crítico sonhou, é certo. Acho que os marqueteiros do vinho não topariam. Mas alguma coisa terá de ser feita com relação a materiais como as cápsulas, mais um pesadelo para o planeta.
2. Essa é uma cápsula informativa. A grande especialista inglesa Jancis Robinson, Master of Wine, comandou dia 25 de outubro uma grande degustação em São Paulo, onde destacou o vinícola Salton como a fabricante do melhor vinho brasileiro ao provar do Salton Talento 2004. Estamos no “caminho certo”, afirmou a crítica.

Uma questão de idade

Um leitor viu na lista de vinhos do famoso Amadeus, restaurante português com uma medalha do Guia Michelin, o vinho Luis Pato Vinhas Velhas 1999. Ele não se interessou pelo, mas ficou intrigado com a expressão “Vinhas Velhas”.
Vinhas velhas, vielles vignes, alte Reben, old vines – são indicativos de que vinhos produzidos a partir de, óbvio, vinhas velhas, a partir do conceito de que possuem uma qualidade extra, de que produzem vinhos melhores. Essas videiras anciãs são facilmente reconhecíveis: muito nodosas, de troncos grossos e raízes longuíssimas.
O fato é que não existem nos Estados Unidos, Europa e, acho eu, em nenhuma outra parte do mundo, regras relativas a essa expressão. Se o vinicultor tem uma vinha com mais de 15, 20, 30 anos pode colocar esse termo no rótulo.
E porque ele faria isso? A lógica do produtor seria essa: uma vinha velha produz menos quantidade de frutos e daí resultar num vinho de maior qualidade (“menos é mais”). Isso faz algum sentido já que muita quantidade de um mesmo vinho pode resultar em sabores difusos. E uma concentração maior de sabores normalmente se origina de uma produção menor e dar, no fim das contas, um vinho mais saboroso.
O racional do produtor é o de que, na medida em que envelhecem, as raízes da videira penetram cada vez mais fundo no solo. Quando jovens, essas raízes estão mais próximas da superfície e podem ser rapidamente afetadas por doenças, fertilizantes. Seus frutos dificilmente resultarão em vinhos de qualidade. Se o solo próximo à superfície não fornece nutrientes suficientes, as raízes vão procurá-los mais abaixo, muitas vezes descobrindo fontes importantes para melhorar o sabor do fruto.
O produtor acredita nisso e imediatamente adorna o rótulo com essa informação, tal como fez o Luis Pato descoberto pelo leitor.
A realidade é a de que não existem quaisquer provas científicas de que vinhas mais velhas produzem frutos melhores e, por isso, vinhos melhores.
Essa linha de argumentação nos leva a pensar que quanto menor a produção, melhor o fruto e melhor o vinho. Acontece que, quando menininha, uma videira foi podada de modo a produzir menos frutos, fazer com que a árvore se concentrasse nos poucos frutos restantes e assim eles ficassem mais densos, mais saborosos. Logo, o que está acontecendo agora com um vinha velha já acontecia há 50, 80 anos. Não parece confuso?
A idéia de que velhas vinhas produzem um vinho melhor é cultuada na legislação das Appellation Contrôlée, o sistema francês que controla todo o plantio e produção de vinhos em regiões determinadas. A legislação de lá exclui a produção das vinhas com menos de três anos. Quando ainda muito jovens, essas vinhas serão utilizadas apenas para um simples vinho de mesa.
Como uma regra geral, o produtor do Velho do Novo Mundo acha que as nossas vinhas velhas oferecem a mesma qualidade do que as jovens videiras, respeitando-se que tenham ambas os mesmos cuidados no controle de qualidade.
Já do produtor do Velho Mundo, cujos vinhedos estão com a sua família há gerações, vamos ouvir que as velhas vinhas oferecem mais concentração e complexidade em seus vinhos, desde que, como vimos, sua produção seja menor e que tenham um sistema de raízes tão profundo que conseguem buscar o melhor daquele solo.
Uma vez que uma vinha produza de uma a três safras normais e tenha entre e seis anos de idade, ocupe o seu lugar acima do solo, o seu rendimento anual se vai se estabilizar (só se alterando se houver alguma grande mudança nas condições de cultivo, plantio ou de políticas por parte do vinicultor). Uma vez que essa vinha esteja devidamente protegida de estresses, pestes, doenças, de muita ou pouca irrigação e nutrida com os minerais suficientes, ela pode ter vida muito longa.
O vigor a produção de muitos vinhedos comerciais começam a declinar depois de 20 anos. E lá pelos seus 50 anos muitos deles produzem tão pouco que normalmente são considerados antieconômicos.
Assim, o curso normal das coisas é o das vinhas perderem vigor à medida que envelhecem, tal como nós. Mas em razão de sua pouca produção, com poucas uvas e folhas expostas ao sol, temos indiretamente uma explicação para o efeito da idade da vinha sobre a qualidade do vinho.
Quando uma vinha pode ser considerada velha? Muitos produtores afirmam que é a partir dos 35 anos. A mais antiga vinícola familiar da Austrália, a Yalumba, no Vale Barossa, quer codificar o termo “Velhas Vinhas” nos rótulos. Para ela, só as vinhas que tenham pelo menos 35 anos podem receber esse galardão.
Há um mérito nisso, pois como não existem padrões para o uso dessa expressão, os produtores podem promover essas vinhas de modo arbitrário e potencialmente confuso. Ele propõe um critério, onde define o que é velho (35 anos), indica o que é “antigo” (ou “muito velho”: 70 anos) e o que é “centenário” (ou “excepcionalmente velho”): 100 anos.
Quando a leitora estiver fazendo turismo pela Inglaterra, vale visitar a famosa videira do Hampton Court Palace, perto de Londres. É o maior palácio da Inglaterra, feito há 400 anos e lá residiram vários Tudors. A videira foi plantada em 1768, tem ramos de mais de 30 metros de comprimento, um tronco de 3 metros de circunferência, e produz 300 quilos de uvas tintas, doces, a cada ano. Estando lá, compre um cacho delas – são as mesmas uvas que serviam à realeza britânica do século XVIII. Com 239 anos, é a maior e mais antiga videira do mundo.
Se quiser perguntar sobre outras idades (que não seja a nossa) é só clicar aqui para a Soninha no soniamelier@terra.com.br
Da Adega.
Hora de ajudar
. A Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, capítulo Rio de Janeiro está em busca de vinhos e afins para serem leiloados em benefício da Casa Maria de Magdala, (de Niterói), que atende a crianças e adultos portadores do vírus HIV. O evento será realizado dia 28 de novembro na sede da SBAV-Rio (Av. Nestor Moreira, 11, Botafogo).
O leilão será conduzido pelo vice-presidente da entidade, Marcelo Copello. Os interessados em contribuir para o leilão, através de vinhos, acessórios e afins, devem entrar em contato com a SBAV-Rio através do telefone: (21) 2543-2382 (13h às 18h) ou pelos e-mails: mcopello@mardevinho.com.br / secretaria@sbav-rio.com.br
A Casa Maria de Magdala, fundada em 1991, é uma instituição filantrópica, sem fins lucrativos. Funciona como abrigo para crianças e adultos portadores da doença. Todos recebem assistência médica, acompanhamento farmacêutico e nutricional, cuidados de enfermagem e de uma equipe multidisciplinar composta de profissionais de diversas áreas, 24 horas por dia. São mais de 300 profissionais cuidadores. Atende também a 160 famílias, com distribuição de cestas básicas mensais, oferecendo palestras onde são abordados temas voltados à promoção humana e à superação de dificuldades pessoais e vícios.
Maiores informações com o Leo Caldeira, da MLR Comunicação, via 55 21 3027-2340 ou 55 21 8255-1855.
Duvido que a amiga não tenha uns vinhos sobrando em casa e, mais importante, não queira ajudar a Casa Maria de Magdala.
Vinhos Salton entre os melhores. Na degustação da quarta edição do Prazeres da Mesa ao Vivo, realizada em São Paulo, no último dia 25 de outubro, a especialista inglesa Jancis Robinson, Master of Wine, classificou a Salton como o fabricante do melhor vinho brasileiro, durante a degustação do vinho Salton Talento 2004.
Na maior feira de alimentos e bebidas do mundo, a Anuga Wine Special 2007, realizada em setembro, em Colônia, na Alemanha, a Salton ganhou medalha de ouro.
O Salton Talento tem produção limitada a 30 mil garrafas. É um corte de 60% de Cabernet Sauvignon, 30% de Merlot e 10% de Tannat. Passa por um ano em barris de carvalho e descansa nove meses em adegas caves subterrâneas. Mais informações com a Elisângela Lima (elisangela@mdassessoriacom.com.br), da MD Assessoria & Comunicação.
Pesquisa: valorização dos consumidores de vinhos. Recebi da
Confraria Amigas do Vinho material relativo a uma pesquisa que vai certamente interessar a todas nós leitoras.
Essa pesquisa é parte de uma dissertação de mestrado, pré-requisito para titulação de mestre em agronegócios, orientada pelo Prof. Dr. Jean Philippe Revillion, que está sendo desenvolvida no Centro de Estudos e Pesquisas em Agronegócios – CEPAN - da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
O objetivo do questionário é identificar a percepção e a valorização dos consumidores de vinhos em relação à indicação geográfica, estratégia de diferenciação que vem sendo foco de muitas empresas brasileiras, seja no setor vitivinícola ou não.
Os resultados obtidos deste questionário possivelmente auxiliarão as empresas nacionais a melhor desenvolverem suas estratégias de mercado com relação aos diferentes segmentos de consumidores de vinhos.
Para que a pesquisa siga seu cronograma, é conveniente que a leitora encaminhe o questionário devidamente preenchido (não demora mais do que 15 minutos) 15 de novembro de 2007.
O link de acesso ao questionário é:
http://cepa.ea.ufrgs.br/pesquisa/alunos/thays/

25.10.07

Vinho: para beber ou comer?

Li que o vinho está para ser classificado como alimento e não mais como bebida alcoólica, segundo projeto antigo do senador Pedro Simon, ora em votação. Acho uma ótima manobra para a redução dos impostos e dos preços da bebida, o que ajudaria bastante a nossa indústria vinícola e todos nós, consumidores.
A argumentação do veterano político concentra-se nos benefícios do vinho para a saúde, o que, em minha opinião, não justificaria que ele abandonasse a sua condição de bebida alcoólica: bastaria, talvez, uma informação no rótulo sobre alguns benefícios comprovados do vinho para a saúde.
Alimento, como substância nutritiva, que faz subsistir, o vinho não é. No máximo é o que chamam de “alimento de poupança”: apenas estimula o sistema nervoso e produz energia passageira, com poupança das reservas do organismo (como faz a rapadura para o sertanejo).
Se a lei passar, é provável que haja uma regulamentação obrigando o “novo alimento” a se comportar como todos os demais: tenha no rótulo uma lista de seus ingredientes e dos respectivos valores nutricionais. E aqui temos um primeiro problema.
Em contraste com a maioria dos alimentos e bebidas, a legislação sobre o vinho na maioria dos países não exige que os produtores apresentem essa lista nos rótulos da bebida. A indústria do vinho vem resistindo fortemente aos esforços de mudar essa atitude.
Em agosto desse ano, o governo norte-americano apresentou duas propostas que, se aprovadas, obrigarão todas as bebidas alcoólicas vendidas no país a informar sobre o conteúdo alcoólico e o que contem cada dose (calorias, carboidratos, gordura e proteína etc.).
Pelo menos, uma parte substancial da indústria do vinho de lá está protestando: falam que essa medida é uma faca de dois gumes, vai representar mais uma despesa para o pequeno produtor, o vinho é promovido como um produto agrícola e parte de um estilo de vida saudável. E, de fato, é difícil determinar o valor nutricional exato do que está numa garrafa. A vinícola teria que analisar praticamente tanque por tanque, barril por barril.
Com base em análises nutricionais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e de uma série de outras fontes cheguei a uma lista que representa os valores nutricionais da média dos vinhos. É uma idéia geral, embora saibamos que variações podem existir em função de estilos de vinho. Por exemplo, um Riesling tem mais calorias derivadas do açúcar e mais carboidratos do que um tinto e branco secos. Um vinho com 13,5% de álcool por volume tem um pouco mais de calorias do que o vinho médio apresentado aqui, com 12% de álcool.
Vejamos: o vinho é 85% água, 12% álcool e 3% todos os demais componentes. Numa garrafa (750 ml ou 750 gramas) de vinho tinto, com capacidade para cinco taças, de 147 gramas (147 ml) cada uma. Em cada taça, teremos:
Calorias: 102,06; gordura total: 0 g; gordura saturada: 0 g; colesterol: 0 g; sódio: 7,09 mg (0,3%); total de carboidratos: 2,41 g (1%); fibras: 0 g; açúcares: 0 g; proteína: 0,28 g (0,44%), vitamina A, C, cálcio e ferro: nada: 0%; tiamina: 0,1%; riboflavina: 0,4%; niacina: 0,11%, folato (ou ácido fólico): 0%.
Os rótulos deveriam também dar informações adicionais sobre os valores percentuais diários com base numa dieta de tantas mil calorias. Os ingredientes desse vinho seriam: suco de uva fermentado, sulfitos naturais usados como preservativos. Fermento e itens de clarificação (albumina, bentonita, gelatina ou cola de peixe) que poderiam ter sido utilizados embora desapareçam no vinho acabado.
No vinho branco, na mesma quantidade, temos menos calorias (96,39), o total de carboidratos também é menor (1,13 g ou 0,35%), proteínas um pouco mais baixas (0,14g ou 0,22%).
Nos vinhos doces, considerando a meia garrafa (375 ml ou 375 gramas), cada taça com 88 ml, tem: calorias (130,13 gramas); gordura total: 0 g; gordura saturada: 0 g; colesterol: 0 g; sódio: 7,65 mg (0,3%), total de carboidratos: 10,04 g (5%); fibras: 0 g; açúcares: 8 g; proteína: 0,17 g (0,27%); vitaminas A e C, cálcio e ferro: 0%; tiamina: 0,02%; riboflavina: 0,02%; niacina: 18%. folato: 0%.
De qualquer modo, o projeto do senador Pedro Simon poderá reduzir pela metade as alíquotas de impostos atualmente pagas nossa indústria, fazendo-a mais produtiva, ajudando-a a modernizar-se.
Mas podemos desde já esperar que o segmento da saúde proteste. Pois sempre há quem abuse, amiga. Sob a cínica desculpa de que “estou me alimentando”, muita gente vai encher cara.
Nas vinícolas da Califórnia começa a haver um controle maior para acabar com excessos. Turistas entram lá para visitar, degustar vinho e eventualmente comprá-lo. Mas acabam entornando demais. Ninguém degusta, todos bebem mesmo. Então, numa turma de turistas, que chega de ônibus, ninguém está preocupado em dirigir e ser pego na estrada. Mas se os problemas não existem nas rodovias, existem dentro das vinícolas. Barulho, bagunça, briga etc.
O argumento utilizado pelo senador, os benefícios para a saúde do vinho, também pode ser utilizado de maneira abusiva. A desculpa será na base do “bebo para me tratar”.
Para mim, o vinho vai continuar sendo a bebida mais deliciosa, variada e a mais rica em sutilezas que existe. É incrível como uma bebida, quase 90% água, ser tão leve, cheia de vida, rica, aparecendo em várias cores e estilos, e que pode durar décadas e mesmo madurona ainda surpreender.
O leitor vai passar a se “alimentar”, a “se tratar” ou apenas a apreciar os vinhos? Opine!!
Da Adega.
II Encontro do Fórum de Eno-Gastronomia
. Esse não dá para perder. Vai acontecer no Rio, de 8 a 11 de novembro, no
Hotel Rio Internacional. São degustações de vinhos e comidas, palestras, exposições, shows musicais, não apenas no Hotel Rio Internacional, mas em outros hotéis e em restaurantes. Você poderá adquirir ingresso para um dos dias (70,00) ou para todos (135,00). O passaporte (válido para os 3 dias) dá livre acesso às palestras, show rooms, mesas redondas, exposições, ao almoço de confraternização no domingo, 11 de novembro, e ao pocket show na 6ª feira. Saiba mais, faça reservas e compras de ingressos ou passaportes via forumenogastronomia@yahoo.com
Papa da Gastronomia Molecular no Brasil. A Universidade Anhembi Morumbi está trazendo ao Brasil o químico-físico francês Hervé This, famoso por suas descobertas científico-culinárias. Estará no país de 28 de outubro a 1º de novembro e fará palestra aberta ao público na Universidade (29 de outubro) sobre Os Fundamentos da Gastronomia Molecular: O Fazer Culinário e a Nova Fisiologia do Gosto. Se a amiga quer saber o porquê da sua maionese desandar, como seu suflê pode crescer mais ou se o bife deve ser salgado antes ou depois de ir para a frigideira, basta assistir ao seminário do professor This. Ele vai deslindar essas questões e muito mais. This é doutor em Gastronomia Molecular e Física e trabalha no Laboratório de Química de Interações Moleculares do College de France, Paris.
Inscreva-se já no seminário, dia 29 de outubro, a partir das 20h30, no Campus Vila Olímpio, Auditório Theatro Casa do Ator. Procure o site da
Universidade ou peça informações pelo telefone: 11-3847-3050.
Mumm Cordon Rouge Magnum. Pois não é que a Pernod Ricard está importando para cá a versão de 1,5 litro dessa preciosidade, em edição limitada? Apenas 200 garrafas serão comercializada no país – todas em estojos especiais. Ela terá um preço médio de R$ 400,00 e poderá ser encontrada em restaurantes, delicatessens e empórios. No seu rótulo, a lendária faixa vermelha da Légion D`Honneur (Legião de Honra), a mais alta distinção francesa, concedida por Napoleão Bonaparte – que não saia de casa para suas batalhas em passar por Reims e se abastecer com a Mumm. A Mumm Cordon Rouge também é a marca oficial de Champagne da Fórmula I. Saiba mais com o SAC da Pernod Ricard (0800 014 20 11) ou através do seu
site.
Helicópteros salvam vinhedos. Na Nova Zelândia 100 helicópteros foram utilizados recentemente para livrar da geada alguns vinhedos na região de Marlborough. As hélices dos helicópteros fazem o ar quente descer e circular pelos vinhedos.
Veja o
filme feito por uma emissora de TV da NZ.

23.10.07

Vinho, uma ferramenta

Os colecionadores de vinho continuam comprando muito, ignorando até a grave crise da maior bolha imobiliária da história. Para eles, vinho é igual a prestígio, a poder, vale qualquer preço, está acima de qualquer crise. Não é preciso sequer apreciá-lo, apenas desfrutar da força que inspiram alguns de seus rótulos e safras. Ele certifica celebridades, empresta fama, concede autoridade.
É o enocentrismo, um sistema onde as pessoas idolatram não a bebida, mas a sua influência, a sua magia. Só assim entendo que alguém dê 157 mil dólares por uma garrafa, com o fez, em 1985, Christopher Forbes, o filho do bilionário Malcolm Forbes, o dono da revista Forbes, já morto. Ele comprou em leilão uma garrafa de um Lafite do ano de 1787, que teria pertencido a Thomas Jefferson, um dos pais da América. Outro multimilionário, Bill Koch, comprou quatro dessas garrafas por meio milhão de dólares. E hoje processa o ex-proprietário delas por achar que são falsas. Até o FBI investiga esse caso.
E a Martha Stewart, a Ana Maria Braga norte-americana? Ela é muito mais rica e poderosa, mesmo depois de ficar um tempo na prisão por mentir para o fisco. Sua empresa tem braços no mundo editorial (revistas e livros), programas de TV e rádio, sites na internet e promove ações de merchandising. E agora oferece uma coleção de vinhos. Vinhos da E&J Gallo, a maior produtora dos EUA. Da bebida, Martha sabe mesmo é que ela harmoniza com celebridade. Logo, precisava ter a dela. Poderia continuar falando do vinho da atriz pornô Savanna Samson, dos vinhos de celebridades vivas e mortas, todos embalados por esse tipo de magia.
Mais recentemente, a japonesa Nintendo lançou um jogo eletrônico no qual você escolhe um dos 120 vinhos listados para tentar combinar com algumas sugestões de comida. Parece instrutivo, mas não deixa de chamar a atenção que um mundo estranho ao vinho esteja já caidinho pelo que a bebida pode simbolizar (e ajudar a faturar).
Isso me lembra da febre pelas relíquias religiosas. Ter pedaços da cruz de Cristo, cueiros do menino Jesus, ossinhos de santos, sudários – valiam na Idade Média milhares de moedas de ouro e muito mais. Parodiando Eça de Queiroz (em A Relíquia), essas tão ambicionadas garrafas não valem pela autenticidade que possuem, mas pelo poder que inspiram.
Jefferson, o 3º presidente norte-americano, amava os vinhos, mas para degustá-los. Ocupava-se em construir um país, fazer história, ao contrário de Forbes: “Comprei mais do que uma garrafa, comprei um pedaço de história”.
A garrafa do Lafite 1787 ficou exposta num salão da revista, em Nova York, recebendo luz direta. Se ainda não era, virou vinagre de vez. Quando saiu vitorioso da Christie’s, de Londres, em 1985, colocou a garrafa (provavelmente falsificada) numa sacola com a logomarca e o famoso slogan de sua empresa: “Capitalist Tool” (“Ferramenta Capitalista”).

18.10.07

Como degustar um vinho ruim

E quando você encontra um vinho ruim, muito, muito ruim? O que diz a etiqueta a respeito? Falo daquele vinho oferecido pela sua melhor amiga, comprado exclusivamente para você, escolhido por ter conseguido medalha de ouro no Concurso Regional de Piririburgo da Serra (que você jamais imaginou que existissem, tanto Piririburgo quanto o concurso), para ser provado numa ocasião especial, numa reunião onde todos a têm como “doutora em vinho”.
Já passei por isso e todas as vezes que escrevo sobre etiqueta do vinho (que taças utilizar, como servi-lo, como degustá-lo, o que apreciar nele, seus aromas, seus sabores etc.) lembro de comentar como é essa experiência beber um vinho imprestável, estragado, defeituoso. E diante de sua amiga do peito.
Olha que não estou falando precisamente dos defeitos mais comuns nos vinhos. Um vinho não é ruim só porque não caiu no seu gosto, não faz o seu estilo etc. Não é ruim porque o rótulo está rasgado ou a base da rolha veio cheia de pequenos cristais brancos. (o tais cristais de tártaro, inofensivos, subproduto natural de vinhos que não foram filtrados). Não é ordinário porque a rolha parece mofada ou se partiu em pedacinhos dentro da garrafa. Nada disso altera o vinho ou o torna intragável.
Os principais defeitos poderiam ser: o da chamada “doença da garrafa” ou TCA, numa linguagem mais técnica: você coloca o nariz na taça e o aroma parece com algo que saiu do lugar mais mofado da casa. TCA (2,4,6 tricloroanisole) é um elemento químico tão potente que mesmo em quantidades ínfimas causam aromas e sabores de mofo na bebida. Tem origem numa reação do cloro utilizado para esterilizar rolhas de cortiça.
Outro defeito seria o do vinho oxidado: você sabe que o oxigênio é o inimigo invisível dos vinhos, que se tornam oxidados quando expostos a ele. A bebida fica sem vida, insípida, já a caminho, literalmente, do vinagre.
Outro problema seria quando a garrafa fica por muito tempo exposta ao calor (certamente, porque foi armazenada inadeqüadamente). Chamam isso de “madeirização”, pois o vinho, geralmente o branco, fica com uma cor mais escura, oxidada, mais acastanhada e adocicada, algo que pode lembrar o vinho Madeira, que cuja produção implicava em propositadamente numa grande exposição ao sol, ao calor. O sabor do verdadeiro Madeira lembra amêndoas, frutas cristalizadas. Muitos críticos colocam oxidação e madeirização num mesmo saco. É fato que ela compreende também uma dose de oxidação. Mas esse tipo de sabor num vinho de mesa não fortificado (como é o Madeira verdadeiro) é considerado um defeito.
Uma quarta falta aconteceria quando alguns fermentos dorminhocos ficaram no vinho – e resolvem acordar e a trabalhar – dentro da garrafa. E, dentro dela, o vinho é refermentado, por acidente. Se fosse um champanhe, tudo bem. Mas quando você prova de um vinho de mesa tranqüilo sentirá na língua pequenas bolinhas, aspecto não recomendável nesse tipo de vinho.
Mas, no meu caso, o vencedor do concurso de Piririburgo era a soma de todos os defeitos e mais uma dezena. Era execrável em todos os sentidos. Achei que podia me livrar dessa situação com alguma elegância. E o que eu fiz pode servir como guia para as amigas que venham a enfrentar embaraços semelhantes (algumas das dicas abaixo foram inspiradas pela blogueira americana que escreve no WineScamp):
1º) Beba sem pressa. Aceite com graça a taça e prove um mínimo do vinho. Em seguida, após um diplomático intervalo de tempo, procure um canto, uma pia, um vaso de plantas, por exemplo, para esvaziar a taça e corra para beber água. Se alguém estranhar, diga que está um pouco desidratada e quer dar um tempo no álcool.
2º) Mantenha o vinho bem gelado – a refrigeração é sua aliada quando se trata de vinho danado da peste. O gelo emudece o sabor da bebida. Se ele é assim, péssimo, peça gelo e coloque na taça. Diga que os melhores críticos também fazem isso. Você é a “doutora em vinho”, lembra?
3º) Nada de cheirar. Sei que é um reflexo girar e cheirar qualquer coisa, como café, água e, claro, o vinho. Mas não coloque o seu nariz nessa droga. Sua situação ficará mais miserável ainda se liberar os aromas dessa bebida e cheirá-la.
4º) Não deguste. Beba em goles absurdamente grandes. E não respire ao sorver o vinho – tal e qual fazemos ao tomar um xarope de gosto ruim. Isso diminuirá o quanto de sabor e aroma você pode perceber.
5º) Misture. Seja espumante ou vinho tranqüilo, discretamente pegue o que tiver pela frente, de refrigerante a suco de frutas, e misture com o vinho. Ou, com todo o garbo possível, após a primeira provada, afirme que aquele vinho é ideal para uma Sangria. E torça para que sua amiga tenha algumas frutas em casa. Se tiver pouca, junte suco de frutas. Faça a sua Sangria salvadora com muito gelo e, se possível, um licor.
A outra saída é apelar para a mãe de todas as desculpas, pelo menos entre nós, mulheres. Após o primeiro gole, pouse a taça e peça um comprimido para dor de cabeça, urgente. Alegue que a sua velha e querida enxaqueca acaba de acontecer. Nesse caso, não saia de casa sem os óculos escuros na bolsa.
Se a amiga tem mais sugestões para sair de situações como essa com panache, por favor, conte para nós aqui.
Da Adega
GP Brasil de Fórmula I com o vinho da casa
. Um espumante, um rosé e um tinto nacionais foram selecionados para serem servidos nos camarotes do Hopitality Centre e nas áreas VIPs do autódromo de Interlagos durante a corrida do dia 21. São eles o Casa Valduga Espumante Premium Moscatel, o Casa Valduga Duetto Rosé Sangiovese-Barbera e o Casa Valduga Duetto Pinot Noir-Shiraz. Aliás, esses vinhos serão os únicos a serem servidos nos três dias do evento. A Casa Valduga fica no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, RS, e produz vinhos há quatro gerações.
Spa do Vinho no Brasil. Fazer um tratamento de beleza com produtos e técnicas assinadas pela famosa Caudalie agora podem ser feitos na Serra Gaúcha. A amiga não precisa mais viajar a Bordeaux. Saiba o que é o Spa Villa Europa, um hotel cinco estrelas em pleno Vale dos Vinhedos, RS, em meio, sim, em meio a belos vinhedos, degustando ótimos vinhos e vivendo um ambiente sofisticado, muito romântico. Veja mais
aqui.
Encontro nacional dos produtores de Vinho. A Vinotech e a Mercosul Bebidas, um dos maiores eventos da indústria vitivinícola e de bebidas em geral do Brasil e da América Latina, contará em 2008 com o Encontro de Municípios Produtores de Uva e Vinho do Brasil – são 162 municípios produtores em vários estados.
O encontro será feito em Bento Gonçalves, RS, nos dias 10 e 11 de abril e terá o apoio da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra) e do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin).
Produtores do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Bahia e Pernambuco estarão presentes para troca de experiência e análise de problemas diversos.
Em Bento Gonçalves, durante a Vinotech 2008, mais de 160 participantes
Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, fará mais uma Vinotech de 2008, e desta vez com o Encontro de Municípios produtores de Uva e Vinho do Brasil que somam mais de 160 em vários estados. Será nos dias 10 e 11 de abril.
O evento terá o apoio da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra) e do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), e vai integrar a programação da Semana Internacional Brasil Alimenta que será realizado no Parque de Eventos de Bento Gonçalves, de 8 a 11 de abril de 2008
Cidades produtoras de uva e vinho de nove Estados brasileiros deverão estar presentes ao evento. O Brasil conta com 162 municípios produtores de uva e vinho distribuídos nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Bahia e Pernambuco. o fortalecimento do setor vitivinícola nacional. e a troca de experiência com análise dos problemas diversos

15.10.07

#%+@$*&!!

“O que esse #%+@$*& do Al Gore sabe de vinhos? O melhor é encher sua boca de rolhas e mandá-lo passear”. Li esses comentários na Decanter online sobre a conferência que o Prêmio Nobel da Paz e ex-vice-presidente norte-americano fará sobre mudança de clima e seu impacto sobre os vinhos, em fevereiro de 2008, em Barcelona.
O fato de Gore ter dividido o Nobel com os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças de Climáticas já o credencia. Ele sabe que o clima nas regiões apropriadas para o cultivo da vinha (entre os paralelos 30 e 50, em ambos os hemisférios) já começou a mudar. Nas tradicionais áreas frias e úmidas, como a Inglaterra, já se produz vinhos de qualidade. E, ao contrário, nas regiões temperadas e quentes as dificuldades já se apresentaram. Continuar a cultivar as variedades clássicas começa a ficar difícil. Estudam já novas variedades, novos clones e uvas híbridas, com maior resistência às novas condições climáticas. Diferentes técnicas terão de ser pensadas. O efeito estufa promove prejuízos em todos os setores (não apenas o do vinho) em conseqüência de secas e enchentes, tornados e tormentas devastando grandes áreas do planeta: os prejuízos exorbitantes com a perda de vidas, reconstrução de cidades, portos, fábricas, cultivos, fome, saúde etc.
Al Gore pedirá atenção, por exemplo, para as destrutivas pegadas de carbono deixadas pela produção e transporte. Poderá comentar sobre itens algo esquecidos, como a moda em produzir garrafas bem mais grossas, de modo a induzir o consumidor a pensar que dentro delas vai um vinho melhor. Uma pesquisa inglesa demonstrou que os consumidores ao examinarem uma garrafa de vinho dão preferência, pela ordem: à variedade da uva (74%), ao preço (66%), ao país de origem (63%), à cor da garrafa (10%) e ao peso da garrafa (7%). 63% dos pesquisados acham que o vinho, qualquer vinho, deve se apresentar numa garrafa de vidro. Embalagens de plástico e em Tetra Pak tiveram 37% de aceitação. Al Gore e todos nós sabemos que o problema do aquecimento é obra dos homens.
E o prejuízo causado pelo transporte? Australianos estão começando a embarcar vinho a granel em containers para a Inglaterra. A bebida será engarrafa no destino. Os chilenos fazem isso há anos (para os EUA principalmente). É muito mais barato. O planeta acabará implodindo com a emissão de gases resultantes do transporte de garrafas pra lá e pra cá.
Imagino que Gore não vá girar uma taça, cheirar o vinho, provar dele e dar a sua nota. Vai mais uma vez explicar que o problema é gravíssimo, que está em nossas mãos minimizá-lo e adotar medidas severas, caso contrário nossos filhos e netos vão conviver com os efeitos catastróficos dessa atitude irresponsável de consumir sem remorsos os recursos naturais do planeta.
Sabe o que mais? #%+@$*& é quem fez o tal comentário.

11.10.07

Decantar ou não?

Descobriram que você gosta de vinhos e, logo, logo, acabou presenteada com um decantador. É uma peça linda, decorativa, na qual qualquer vinho fica mais vistoso. Mas a pergunta é: a amiga alguma vez já usou o decantador?
Usar ou não usar, quando usar, para vinhos jovens, maduros, só para tintos, para tintos e brancos? Para espumantes? A controvérsia é grande.
Um dos mais reverenciados enólogos do planeta, o Professor Émile Peynaud, francês responsável por muitas das mais modernas idéias sobre vinificação, não achava necessário decantar – a não ser para eliminar sedimentos: cristais de tártaros nos brancos e partículas de componentes de cor e fenóis polimerizados (taninos, em sua maioria), nos tintos maduros. Jancis Robinson, no seu “The Oxford Companion to Wine” a define como “uma opção controversa para servir vinho”.
Começa a história. A origem dos decantadores está na Roma clássica, onde a técnica de produzir objetos e utensílios de vidro soprado foi bastante desenvolvida. O vinho era servido em jarras (ou decantadores) de prata ou de vidro, primeiro porque a bebida era armazenada em vasilhames enormes, em ânforas de argila ou em barris de madeira. Desse modo, algum tipo de recipiente era necessário para trazer o vinho desses grandes vasilhames, nas adegas, para as taças na mesa. Surgem então jarras de vidro (ou de metal) para fazer esse serviço. Seriam os primeiros decantadores. Mas lá pelo século V, o império Romano entrou em colapso e a produção de vidro declinou.
No século XVI, os Venezianos redescobriram a tecnologia do vidro de sopro e suas belas e rebuscadas taças, garrafas e outros vasilhames percorreram o mundo e foram largamente copiadas.
No início do século XVII, conseguiu-se produzir garrafas mais resistentes, além de muito escuras e pesadas, com um formato de cebola, com a base chata, e gargalo muito curto e corpo globular - um formato impossível de colocá-las na horizontal, mesmo que tivesse uma rolha tampando-as. Eram utilizadas mais para servir vinhos e não para guardá-los. Ou seja: uma espécie de decantadores.
Artefatos de cortiça, como as tampas, representavam uma tecnologia muito nova no século XVI e ninguém pensou em tampar as garrafas com rolhas de cortiça. Assim, tampas de vidro eram ocasionalmente utilizadas para selas essas garrafas, pelo menos temporariamente.
Com o costume de uma tampa de vidro para cada garrafa, tornou-se imperativo que os dois itens não mais se separassem, pois as tampas não eram intercambiáveis. Cada uma cabia apenas na garrafa para a qual havia sido feita. Assim, eram permanentemente presas por um cordame ou fio metálico ao gargalo. Podemos verificar vestígios dessa prática em algumas das garrafas de hoje, que possuem uma aba em suas bordas.
É no início do século XVIII que se redescobriu algo muito importante: as safras, a idade dos vinhos e o que pode acrescentar na qualidade da bebida. Se pudéssemos guardar os nossos melhores vinhos bem guardados eles poderiam melhorar enormemente. E a melhor maneira de armazenas um vinho seria numa garrafa de vidro se tampada com um novo e exótico material: a cortiça.
A guarda de vinhos, ótima para desenvolver a bebida, resultava, porém, num probleminha: camadas e mais camadas de sedimentos na garrafa. É compreensível: na época, as técnicas de filtragem, estabilização, afinamento não estavam ainda desenvolvidas e muitos vinhos liberavam sedimentos, cristais de tártaro, ficavam foscos, enevoados. A resposta para isso foi, naturalmente, decantar os vinhos num vasilhame límpido deixando para trás os detritos.
Assim, as pessoas podiam decantar seus vinhos bem antes de amigos ou visitas chegassem para um jantar. Os vinhos estariam dispostos em diferentes decantadores, cada um apropriado para os vários tipos de pratos, cada um com um etiqueta de identificação dependurada no gargalo.
O decantador hoje. Ele ganhou uma nova função, a de fazer com que os vinhos despertem para seus aromas e sabores.
A maioria dos decantadores é feita de vidro transparente, incolor, com volume entre 30 a 50% maior do que o da garrafa padrão (750 ml), com bastante espaço para deixar o vinho “respirar”, esticar as pernas, liberar seus aromas. No caso dos sedimentos, a operação é mais delicada: você tem de despejar o conteúdo da garrafa no decantador e, com uma lanterna ou vela sob a o gargalo da garrafa, ficar atento para os sedimentos não passem para o decantador.
Pela minha experiência, esse “respiro” não apenas levanta os aromas, como ajuda também a eliminar o que eventualmente restou de dióxido de carbono (CO2) na garrafa (deixando o vinho um tantinho frisante). A bebida fica mais macia. Se ela apresenta uma apreciável quantidade de sulfitos, a decantação vai oxidá-los e eliminar esses aromas (de fósforo queimado). Isso acontece muito nos vinhos com rosca metálica (é a tal da “redução”, uma condição que resulta da ausência total de ar). Os vinhos marcados fortemente com sabores e aromas de madeira (como muitos Chardonnay do Novo Mundo) vão perder um pouco essa característica e mostrar mais as frutas. Aqueles muito tânicos ficarão menos adstringentes e mais amistosos, saborosos e aromáticos.
Decantar vinhos mais delicados, como um Pinot Noir, um Sauvignon Blanc, um Riesling ou um Beaujolais não vai melhorá-los. Mas um Chardonnay com muito carvalho, um Cabernet Sauvignon encorpado ou um Amarone vão se beneficiar. Alguns livros, inclusive, recomendam que o caríssimo toscano Brunello di Montalcino, feito com a Sangiovese, deve ser decantado um dia antes de servi-lo.
Ah, ia me esquecendo: até mesmo os espumantes podem ser decantados. Isso é feito de modo a que esses vinhos liberem um pouco do gás carbônico e se tornem mais cremosos, frutados e menos ácidos. O dono da Riedel, Maximiliam Riedel, criador das mais famosas taças de cristais para vinhos, homem refinadíssimo, diverte-se e espanta convidados quando decide decantar champagne. “Surpreendo meus amigos americanos quando decanto Champagne. Os americanos pensam que é necessários termos muitas bolhas, mas para mim uma Krug ou Dom Pérignon são até melhores sem elas, pois você então pode efetivamente provar o vinho”. Leia a entrevista de Riedel aqui.
O caso é que se decantam espumantes desde o século XIX. O objetivo, claro, não é fazer com que eles percam suas bolhas, mas que seus aromas e sabores se apurem mais, não se deixem esconder pela efervescência, fiquem mais macios. É só um tempinho no decantador (que tem o gargalo bem menor do que o feito para vinhos tranqüilos, como você pode ver aqui).
Afinal, decantar ou não? Tire a dúvida você mesma, amiga. Faça um teste e comece a usar o decantador que você ganhou e largou num canto. Com duas garrafas de um mesmo vinho, da mesma safra, decante o primeiro meia hora antes de servi-lo. Abra o segundo e sirva-o imediatamente. Compare-os. Pelo meu gosto, o do decantador sai-se melhor.
Da Adega.
Um gás para a vodca. A Orloff reformula a sua linha, o que compreende não só embalagens, mas uma família de vodcas cinco vezes destiladas (a bebida passa de três vezes destilada para cinco) e a Orloff Gás: uma vodca efervescente, mais refrescante. A Orloff é uma vodka nacional produzida no Brasil desde a década de 60. Elaborada a partir do álcool de cereais, a marca sempre é pioneira no mercado nacional. Em 2006, ganhou a sua primeira variante com sabor, a Orloff Mix Lemon e agora chega com fórmula evoluída (cinco vezes destilada) e a versão efervescente. Veja mais no site da
Pernod-Ricard.

27.9.07

Esqueça o saca-rolhas

Já temos o nosso primeiro vinho com tampa de rosca (screwcap): são dois rótulos da linha Sunny Days, dos Vinhedos Almadén, de Santana do Livramento, RGS, pertencentes ao poderoso grupo francês Pernod-Ricard, o segundo maior em vinhos e destilados no mundo.
As tampas de rosca parecem ser até agora a melhor solução para o grave problema da contaminação pelo TCA (2,4,6-trichloroanisole), um componente químico que infecta a rolha, deixando a bebida intragável. Estima-se que, no total, a indústria vinícola perca entre 3 e até 10% de seus vinhos pela “doença da rolha”.
Uma rolha contaminada vai naturalmente infectar o vinho, deixando-o com aromas de mofo e sabores rançosos. Se a vinícola tiver sorte, o consumidor identificará o problema (TCA), e ganhará uma nova garrafa. Se tiver azar, o consumidor não saberá do que se trata e vai maldizer aquele vinho. Um senhor prejuízo e, daí, a busca por tampas alternativas.
A Nova Zelândia lidera a busca pela mudança, favorecendo as tampas de rosca, seguida pela Austrália e Estados Unidos. Até Bordeaux, tida como um bastião do tradicionalismo, já oferece um Deuxième Cru Classé com tampa de rosca. É o Les Tourelles de Longueville, o segundo vinho do famoso Château Pichon-Longueville.
É grande a controvérsia envolvendo as tampas de cortiça natural e as alternativas, principalmente as tampas de rosca. As rolhas de cortiça ainda lideram a preferência de consumidores e vinicultores. Uma pesquisa recente, realizada pela empresa de pesquisa e consultoria, a inglesa Wine Intelligence, dedicada à indústria do vinho, mostra que as rolhas de cortiça ainda são, por larga margem, as preferidas – tanto por consumidores quanto por produtores. Contudo, demonstra também que as tampas de rosca de metal estão cada vez mais ganhando as simpatias desses dois públicos.
No seu livro “To Cork or not to Cork” (Scribner, 2007) - mais ou menos “Arrolhar (com cortiça) ou não arrolhar (com cortiça)” -, o americano George M. Taber informa que a produção mundial de rolhas de cortiça foi de 16 bilhões de unidades (80% do total), contra 2,5 milhões de rolhas de plástico (12,5%), 1,5% bilhão de tampas de rosca (8,5%) e 20 milhões de tampas de vidro (as Vino-Seal, também da Alcoa, com 1%).
Em termos de popularidade por país, esse autor diz que as rolhas de cortiça têm 84% na França, 80% nos Estados Unidos, 5% na Nova Zelândia e 30% na Austrália. As de plástico chegam a 13% na França, 15% nos Estados Unidos, 1% na Nova Zelândia e 20% na Austrália. As tampas de metal conseguem 3% na França, 5% nos Estados Unidos, 95% na Nova Zelândia e 50% na Austrália.
Claro que essa pesquisa foi feita perguntando ao consumidor o que ele prefere ou não. Porém, pesquisadores da Universidade do Estado do Oregon, EUA, mostraram um trabalho, em julho de 2007, no qual os consumidores não conseguiram diferenciar entre vinhos com rolha de cortiça, sintética ou com tampa de rosca. Ninguém perguntou nada: pediram apenas que experimentassem vinhos (cujas tampas ficaram desconhecidas).
O vinicultor da Tablas Creek Vineyard, Jason Haas produz vinhos que, dependendo do estilo desejado, ora utilizam tampas de rosca, ora de cortiça. Como profissional, ele diz que os vinhos com as tampas metálicas são mais refrescantes, são mais ácidos, mais minerais. Os com tampa de cortiça parecem mais suaves, mais doces, mais maduros, com um paladar menos ácido, o que equivale a uma percepção de doçura. Haas é um técnico, treinado para saber das diferenças – que o consumidor, como vimos na pesquisa do Oregon, não percebe.
Em resumo: muito da força da rolha de cortiça reside na tradição, na imagem de que garrafas com essa tampa oferecem vinhos de maior qualidade. Uma imagem construída há séculos. Afinal, os romanos as utilizavam desde 500 a.C. Saem de uso em 500 d.C., em razão do caos provocado pela queda do Império. São citadas até por Shakespeare, no seu “As You Like It” (“Como quiseres”, de 1599). Até que em 1632, a criação das garrafas de vidro fez proliferar o uso das rolhas de cortiça. O curioso é que o saca-rolhas foi patenteado muito tempo depois, em 1795. Como será que faziam sem ele? Pois ele é fundamental no cerimonial de abertura da garrafa. É uma prova de fogo para o garção. Se não passar por ela, ele é demitido.
Já as tampas de rosca vêm fechando potes de alimentos, com toda a segurança, desde 1858 – quando uma tampa dessas foi patenteada pelo inglês John Mason. E vêm fechando uísques, dos mais simples aos mais nobres, desde 1926. Com relação às garrafas de vinho, a França começou a pesquisá-las em 1959. Em 1972, vinícolas suíças lançaram com sucesso as tampas Stelvin (do grupo Alcoa) e as estão usando até hoje. Os neozelandeses e australianos as empregam desde 2000. Sem reclamações.
As queixas mais comuns contra as sintéticas são que podem passar um sabor de plástico aos vinhos. Funcionam bem apenas para vinhos feitos para serem bebidos imediatamente após a compra (a maioria deles). A grande queixa, porém, é a da extrema dificuldade de retirá-las e a quase impossibilidades de serem recolocadas na garrafa. É dose: já pedi ajuda até ao carteiro para desarrolhar vinhos com elas.
Isso não acontece com as tampas de rosca: simplicidade e praticidade são duas de suas maiores características. Só que sua imagem está ligada a vinhos de baixa qualidade. Mas esse impedimento parece que está caindo.
Entre os profissionais, têm-se os vinhos fechados com tampa de rosca podem desenvolver aromas “redutivos”. “Redução” é o oposto de oxidação. Durante o processo de vinificação, o vinho faz contato com o oxigênio (o fermento não viveria sem ele). Quando o vinho é engarrafado, o seu meio muda, nada de oxigênio, e ele se torna “redutivo”. O vinho em contato com um ambiente oxidativo vai irremediavelmente morrer. Mas a oxidação pode ser parte de um estilo de vinificação, pode ser administrada. Essa seria uma das vantagens da cortiça: deixar passar mínimas quantidades de oxigênio ao longo dos tempos, quando o vinho ganharia mais complexidade.
Mas um vinho com tampa de rosca praticamente não deixa passar nada (embora já exista uma tampa de rosca, a Stelvin Lux, feita de modo a permitir a passagem de pequena quantidade de oxigênio, imitando a porosidade da cortiça). Esses vinhos, contudo, podem desenvolver aromas originários do fato de estarem num ambiente “redutivo” (aroma de suor ou de animais, por exemplo). Mas isso não destrói o vinho. Basta abri-lo e deixá-lo arejar por um tempinho.
Além do fato de eliminar o risco da contaminação pelo TCA, e serem facílimas de abrir (e fechar), as tampas de rosca afastam também a ameaça esporádica da oxidação. E facilitam o armazenamento do vinho na vertical (ganhamos espaço e facilmente identificamos a garrafa). Além disso, são mais resistentes às alterações da temperatura (as rolhas “trabalham” com essas alterações, aumentando ou diminuindo o seu volume, facilitando a entrada do oxigênio ou a saída da bebida). Elas também não são afetadas pela umidade ou pelos odores do ambiente.
A linha Sunny Days da Almadén, agora modernizada com as tampas de rosca, vem nas versões Branco e Blush (rosado). São vinhos frisantes, e, segundo vinícola, bem refrescantes e aromáticos, suaves e frutados. Feitos para um dia de verão.
Se a leitora quer experimentar esses vinhos pioneiros com tampa metálica é só visitar o site da Pernod (veja aqui) ou falar com a Allys Franco, da divulgação, pelo allys.franco@brodeur.com.br
Ajude um garção a continuar no trabalho, leitora. Experimente os Sunny Days e depois conte para nós o que achou.
Da Adega
Grande degustação de vinhos da terrinha
. Mais de 200 rótulos de importantes vinícolas e regiões portuguesas estarão sendo degustados hoje, 27, em reunião supimpa promovida pelo Cônsul de Portugal, Sr. Antônio Almeida Lima, e sua esposa Vanda, nos salões de sua residência, no Palácio São Clemente, em Botafogo. Além do consulado, promovem o evento a ViniPortugal e a AICEP. O objetivo é, claro, divulgar os vinhos lusitanos e atingir novos grupos de consumidores aqui.
No belo Palácio, um dos marcos arquitetônicos do Rio, são esperados 400 convidados, entre críticos, consultores, empresários, grandes consumidores de vinhos e profissionais do setor como donos de restaurantes, de lojas e sommeliers. O evento acontecerá das 16 h às 21 h.
As importadoras participantes são: Adega Alentejana, Aurora, Barrinhas, Casa Flora, Casa Aragão, Carvalho e Filhos, Caves Aliança, Comercial Beirão da Serra, Decanter, Diageo Brasil, Expand, Enoport - Dom Teodósio, Euro Real, Grand Cru, Impexco, Interfood, La Pastina, Lusitana, Mistral, MGC, Msé Trading Company; Paralelo 35 Sul, Portugal Trade Show, Qualimpor, Vinhas do Douro, Vinci Vinhos, Wine Company e World Wine.

20.9.07

O pote de maionese

O que o vinho representa na minha vida? Eu circulo exclusivamente em torno do vinho? Não faço outras coisas?
Essas perguntas se repetem e se repetem. Não são a maioria delas, mas estão sempre se repetindo. Então vou tentar responder recontando uma historinha que circula há bastante tempo na internet. É a história do “Pote de Maionese”. O Google diz que existem quase 900 mil resultados para Mayonnaise Jar, que é o pote em questão.
Sua autora ou autor não são conhecidos. Um endereço jura que é uma pedagoga norte-americana especializada em crianças. E existem versões dessa história, cujo título original é “O Pote de Maionese e as Duas Xícaras de Café”. Bem, ora são duas xícaras de café, ora são duas canecas de cerveja, depende da versão que você encontrar. Não faz muita diferença.
No caso da minha (que vai logo aí abaixo), e em atenção às leitoras curiosas, eu optei por duas taças de vinho. Eis como conto a história do pote, com um mínimo de alteração:
  • Um professor, diante de sua turma, prepara-se para uma aula de filosofia. Tem diante dele alguns itens. Quando a aula começa, sem dizer uma palavra, o mestre pega um grande pote de maionese vazio o começa a enchê-lo com bolas de golfe. Então, pergunta aos alunos se o pote está cheio. Todos concordam que está.
    Em seguida, o nosso professor pega um punhado de pedras de brita bem pequenas e as despeja no pote. As britas rolam pelas áreas disponíveis entre as bolas de golfe. E, mais uma vez, o professor pergunta se o jarro ficou cheio. Sim, todos concordam.
    Mas agora o professor pega uma caixa de areia e despeja seu conteúdo no pote. Claro que a areia ocupou todos os espaços restantes. E a classe, mais uma vez, assente que o pote desta vez está completamente cheio.
    Foi aí que o mestre apareceu com duas taças de vinho que estavam debaixo da mesa. E as derramou no pote, dessa vez efetivamente lotando todo o espaço. Os estudantes riram.
    “Agora, disse o professor, enquanto a turma ria, quero que vocês considerem esse pote como representante de suas vidas. As bolas de golfe são as coisas importantes: família, filhos, saúde, amigos, suas paixões, coisas que, se tudo o mais fosse perdido, e só elas ficassem, suas vidas ainda continuariam repletas”.
    “As pedras são as outras coisas que importam: o trabalho, a casa, o carro. E a areia representa o resto, as pequenas coisas”, explicou o mestre.
    “Se colocarmos a areia primeiro no jarro”, continuou, não haverá espaço para as coisas que são verdadeiramente importantes para nós. Temos que prestar mais atenção àquilo que é crítico para a nossa felicidade. Brincar com os filhos, ter tempo para cuidar da saúde. Levar o namorado para jantar. Jogar mais uma partida [de golfe].”
    “Sempre haverá tempo para arrumar a casa, lavar o carro. Verifique as suas prioridades, pois o resto é areia”, finalizou o professor.
    Foi quando um estudante levantou a mão e perguntou o que o vinho representava.
    O professor sorriu: “Que bom que você perguntou. Ele demonstra que não importa o quanto a sua vida parece cheia, sempre haverá espaço para umas taças de vinho com um amigo”.
Amigas, faço uma porção de coisas: crio galinhas d’angola (ou “to fraco” ou faraonas, em italiano, pintades, em francês) e as vendo para outros criadores ou restaurantes. Ainda faço trabalhos para publicidade (na área de planejamento). E tive um comércio de vinhos – que fracassou. Mas aí já era tarde, a bebida tinha penetrado por todo o meu “pote”. E o vinho tem me acompanhado desde então, cada vez mais abrindo espaço para que saiba um pouco mais de história, de geografia e dos caríssimos seres que me rodeiam. As colunas que assino são resultado disso tudo.
Muita gente acha que o filme Sideways é sobre uma viagem de dois amigos a uma região produtora de vinho. Eu já acho que é sobre amor, amizade, relacionamentos, auto-avaliação. O vinho serve como metáfora para tudo isso.
Ah, mas a história não termina aqui. Na verdade, o autor começa a história com uma espécie de moral:
Quando parece que temos coisas demais para fazer, quando 24 horas por dia não são o bastante, lembrem-se do Pote de Maionese e das Duas Taças de Vinho.
A amiga já avaliou o seu pote? Quais as suas prioridades? Cabe espaço para mais umas taças de vinho?
Da Adega
Curso de sommeliers. Atenção: a SBAV-SP está lançando um Curso de Sommeliers com o objetivo de preparar profissionais para o mercado do vinho em restaurantes, lojas, empórios e afins. Terá a duração de 40 semanas e será dividido em quatro módulos com dez aulas cada. Para ingressar no módulo seguinte, os alunos devem fazer um exame e recebem um diploma com a quantidade de horas/aula e os temas estudados em cada etapa. As aulas, sempre às terças-feiras, das 15h30min às 17h30min horas, são ministradas por enólogos, engenheiros de alimentos, perfumistas, sommeliers e especialistas em cervejas, destilados, charutos, cafés e chás. Carina Cooper, César Adames, Gianni Tartari, Rosana Wagner e Manuel Luz são alguns dos professores. O primeiro módulo tem início no dia 2 de outubro e segue até 11 de dezembro.
A SBAV-SP fica na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 2586, em São Paulo. Inscrições e outras informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3814-7905, com Nelson, ou pelo site www.sbav-sp.com.br.
A Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, primeira sociedade enológica brasileira, foi fundada em São Paulo há 27 anos, com o intuito de reunir apreciadores da bebida para degustações, troca de conhecimentos e difusão do mundo do vinho.
V Concurso do Espumante Fino Brasileiro. Já saíram os resultados do V Concurso do Espumante Fino Brasileiro, evento promovido pela Associação Brasileira de Enologia (ABE) e que foi realizado no Hotel Casacurta, no município de Garibaldi, RGS. Estamos falando da maior avaliação de espumantes nacionais. Das 147 amostras inscritas, 44 foram premiadas: 37 com medalha de ouro e 6 com medalha de prata.
Veja a lista dos premiados no site da
Academia do Vinho. E faça já a sua lista para as festas de fim de ano.

13.9.07

Esqueceram das brancas!

A uva vinífera pertence ao gênero Vitis na classificação botânica. E ela é organizada por divisão, classe, ordem e família. Com relação às suas vinhas, o gênero Vitis apresenta inúmeras espécies. As mais comuns são a Vitis vinifera, Vitis labrusca, Vitis aestivalis, Vitis rotundifolia e Vitis editorialis (produtora da famosa casta Diniz).
Mas onde queríamos chegar mesmo é que essas uvas crescem em plantas perenes, em cachos, e se apresentam em quase todas as possíveis cores: dourada, verde, púrpura, vermelha, marrom, pêssego, branca, preta, azul, rosa etc.
As uvas brancas derivam das tintas. Através de uma mutação, as antocianinas não são produzidas nas brancas. As antocianinas são parte de um grupo de fenóis responsável pela cor das uvas tintas e pretas. São pigmentos comuns no mundo das plantas e respondem pelas cores de vermelhas a azuis nas folhas, frutos e flores. A palavra vem do grego anthos (flor), mais cyan (azul).
Essa antocianina é também uma das substâncias responsáveis pelos efeitos benéficos da uva e do vinho para a nossa saúde. Veja reportagem sobre as experiências do professor Roberto Soares de Moura, no Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes.
A crítica americana Jennifer Jordan comenta que “a ausência de antocianinas deixas as brancas, assim, brancas e metaforicamente vermelhas de inveja”. Isso porque aparentemente as tintas tenham conquistado a preferência do consumidor, em princípio devido a sua associação com a saúde. Talvez não tão vermelhas e nem tão invejosas, assim.
Até fins de 80, as brancas imperavam e a Chardonnay era sem dúvida a rainha de todas as uvas. Mas a campanha “vinho-tinto-faz-bem-à-saúde” não parou desde a história do Paradoxo Francês.
Em novembro de 1991, o programa de TV da norte-americana CBS apresentou uma reportagem sobre a correlação do consumo francês de vinho tinto e baixa taxa de doenças cardíacas na França. No mundo todo, em particular na América, uma multidão correu para as lojas para se abastecer de vinhos tintos, cujas vendas cresceram imediatamente 44%. Essa correlação ficou conhecida como Paradoxo Francês.
E a impressão que se tem hoje é a de que até os críticos de vinho se esqueceram das brancas.
Assim, a partir daquela data, os viticultores mudaram de lado e começaram a plantar as tintas da moda, primeiro a Cabernet Sauvignon e na seqüência a Syrah/Shiraz e depois um bando de outras.
A Master of Wine Jancis Robinson (que voltará ao Brasil em outubro para um evento enograstronômico em São Paulo) analisa esse fenômeno.
“O resultado disso é que em muitas regiões, contudo, tem havido escassez de uvas para a produção de vinhos brancos, porque durante todo esse tempo e apesar de todas as colunas de vinho em jornais e revistas dedicarem-se substancialmente aos tintos a demanda pelos vinhos brancos tem permanecido sólida”.
Até hoje, nos Estados Unidos, nota a crítica inglesa, apenas quatro entre dez garrafas são de tintos. Na Inglaterra, importante mercado para vinhos de todo o mundo, o branco vende bem mais que o tinto. E o mesmo acontece em outro grande importador, a Alemanha. Na Austrália, mesmo com todo o frenesi em torno dos tintos, se consome mais brancos do que tintos. E o quadro na África do Sul é bem parecido. Já no Brasil, a produção de brancos (considerando-se apenas dados do Rio Grande do Sul, segundo a Embrapa) é um pouco maior que a de tintos: 15.273.937 litros de brancos parados mais espumantes contra 13.335.764 de tintos. É inegável a nossa vocação pelos brancos.
“Uma análise do que se lê”, comenta a crítica inglesa, “sugere que vivemos numa era em que só tintos são bebidos”.
Nas lojas de qualquer lugar, o que mais se vê é vinho tinto. Enquanto os tintos são bastante promovidos, os brancos são vendidos sem aviso prévio, quase que às escondidas. Na maioria das adegas domésticas, a maior quantidade é, quase sempre, de vinhos tintos. Servem branco quando a sogra, a madrinha, a mamãe ou qualquer rabo-de-saia visitam.
“É uma situação bizarra”, diz Jancis Robinson, “se consideramos a evolução de nossos paladares culinários”. Ela se refere aos pratos clássicos para combinar com vinhos tintos, quase que a totalidade recomendando carne vermelha, muita carne vermelha. “Mas isso parece que está em queda”.
“Hoje, estamos comendo mais leve: mais peixe, mais vegetais e saladas e mais pratos picantes – nada disso combina com os tintos”. Muita gente ainda insiste em recomendar vinho tinto para fazer par com queijos. Aqui, sempre recomendamos vinhos brancos: não tem cabimento combinar uma bebida mais potente com queijos, igualmente potentes, gordurosos, fortes.
E ainda temos o aquecimento global, onde os brancos e rosados vão pontificar mais que os tintos. Pudera, são opções bem mais refrescantes em ambientes mais quentes.
Outro argumento a considerar é o de que os brancos podem ser tão “sérios”, ter qualidade equivalente à dos tintos. A crítica comenta que sempre se perguntou, por exemplo, porque se convencionou que as taças de vinho branco sejam menores que as de tinto. “Isso quando os brancos encorpados se beneficiam da aeração tanto quanto os tintos. Eu decanto vinhos brancos e reconheço que parecem bem mais bonitos num decantador, cintilantes, dourados – mais apetitosos do que os escuros tintos”.
Jancis observa que uma volta aos vinhos brancos de qualidade está acontecendo já há algum tempo na França, Itália, Espanha e Portugal.
E, de olho no aquecimento do planeta, acredita que estamos para assistir a uma nova revolução: a da explosão dos vinhos rosados, que já está ocorrendo lá fora e aqui.
A amiga vota em que partido: dos brancos, rosados ou tintos?
Da Adega.
Jancis de volta
. Se você é profissional da área ou tem um mínimo de interesse em gastronomia e vinhos, não perca o Tendências, um fórum voltado para chefes de cozinha e profissionais da área, inspirado no Madrid Fusion e no El Major de la Gastronomia. Uma parceria entre a revista Prazeres da Mesa e o SENAC trará ao Brasil chefs como o espanhol Quique Dacosta, Ken Oringer, o crítico Nick Lander e sua esposa, a consagrada crítica inglesa Jancis Robinson. Essa é a primeira edição de Tendências e acontecerá nos dias 23, 24 e 25 de outubro, em São Paulo. Informações pelo (11) 3023-5509 e reservas no (11).5533-8848.

6.9.07

Brincando de Deus

Pois então franceses e italianos acabam de decifrar o genoma das uvas viníferas, através de uma mostra da Pinot Noir, uma das mais antigas e caprichosas variedades existentes, a principal tinta da Borgonha, que faz um dos vinhos mais complexos e sutis do planeta, a paixão de Miles no filme Sideways, responsável por disparar as vendas da Pinot nos Estados Unidos.
O feito poderá ter aplicações práticas para a indústria do vinho, pois responde a importantes questões sobre a evolução das plantas com flores (angiospermas). Descobriram que, comparada a outras, tem duas vezes mais genes produtores de aromas, geram mais taninos e sabores e bem mais resveratrol, o componente dos tintos associados a uma grande variedade de benefícios para a saúde. O produtor saberá melhor onde e como cultivá-la, como proceder a cruzamentos e a produzir clones e a identificar cepas mais resistentes a doenças.
A Vitis Vinifera (a espécie de vinha mais utilizada na fabricação de vinho) é a quarta planta cujo genoma é decifrado. Segundo Jean Weissnbach, 59, diretor da Genoscope, um centro de pesquisas genéticas francês, que participou do consórcio franco-italiano responsável pelo feito, a Vitis foi escolhida porque ocupa um lugar importante na herança cultural da humanidade.
"O estudo do genoma dessa videira foi eleito porque é ela uma espécie muito sensível a inúmeras fitopatogenias (moléstias das plantas)." Para reduzi-las, "a idéia é identificar os genes mais resistentes", o que facilitaria a introdução de cepas mais fortes para cruzamento ou transferência de gene.
O genoma da videira, que conta com cerca de 30 mil genes, é constituído de três genomas reunidos. O genoma do homem é dito "diplóide", porque cada cromossomo está presente em dois exemplares, um transmitido pelo pai e outro pela mãe. O da videira é dito "hexaplóide", porque é constituído de três genomas diplóides, ou seja, de seis conjuntos de cromossomos.
Jean Weissenbach explica que foram necessários pelo menos dois eventos maiores, dos quais um teria acontecido há entre 130 milhões e 240 milhões de anos, para passar das plantas de flores diplóides às plantas de três genomas como a videira.
Leio no Globo que tudo isso resultará num “vinho mais saudável” e, no Bloomberg, “na chance de criar novas nuances no vinho feito dessa uva”.
E o diretor da Genoscope antecipa: “Os vinicultores, ao ligarem e desligarem esses genes, poderão somar ou subtrair características de seus vinhos”. E acrescentou: “Por muito tempo o homem tem tentado selecionar sabores por meios clássicos. Vamos ver se podemos fazer melhor”. É, vamos ver.
Começa que tomo vinho por prazer e não em função de saúde. Mas agora temo por ela. Caímos no terreno do geneticamente modificado, (GM) – prática, por sinal, banida na União Européia. O caso é que se eu “ligar ou desligar” um gene de João, ele deixa de ser João. A Pinot Noir deixa de ser Pinot Noir.
Só essa uva possui pelo menos 46 clones autorizados na França (veja os casos da Pinot Blanc, Pinot Gris e Pinot Meunier), todos por mutação natural. Existem pelo menos 10 mil variedades conhecidas da vinifera.
Se quisermos “novas nuances” basta escolher uma entre as centenas de garrafas num supermercado. Tem Pinot Noir francesa, alemã, italiana, americana, australiana, neozelandesa etc. E isso sem “ligar e desligar” genes, sem alterar DNAs. Como “fazer melhor”?
Acho que experiências genéticas com as vinhas podem vir a se constituir numa verdadeira revolução, mas se tratadas com muito cuidado, com as pesquisas sendo verificadas por um organismo independente e realizadas num ambiente confinado, por prazos muito longos, assegurando-se que as inovações ocorram a partir de métodos compatíveis ecologicamente.
Já aconteceu com as culturas geneticamente modificadas de milho e soja contaminaram outras culturas antes que as devidas pesquisas fossem feitas.
O mesmo pode acontecer com as vinhas, com conseqüências irreversíveis. E o tal João poderá até virar um monstro.
Essa história de genes mais resistentes a doenças dá o que pensar. Denis Dubourdieu é figura conhecida e respeitada em Bordeaux. Pesquisador e ao mesmo tempo vinicultor, é respeitado mundialmente pelos seus trabalhos sobre a vinificação do vinho branco.
Eis o que ele afirmou uma entrevista à revista Decanter: “Um grande vinho é igual a complexidade e o papel dos produtos geneticamente modificados é o de simplificar. Apenas isso já os faz desinteressantes. Os que estão a favor argumentam que as vinhas geneticamente modificadas eliminariam a necessidade, por exemplo, de fungicidas. Mas eles não dizem que as plantas geneticamente modificadas trazem dentro deles um fungicida”.
Querem mais? Li num artigo científico sobre vinhos GM, do professor Joe Cummins, do Instituto de Ciência em Sociedade, de Londres, que “genes sintéticos, toxinas e cianureto são alguns dos elementos que poderão estar nos vinhos em sua mesa”. Confira aqui.
Acreditem, não sou contra a intervenção humana no processo: eletricidade, tanques de aço, gás inerte, lascas de carvalho, lençóis de plástico sob as vinhas, seleção de clones, enzimas, filtragem estéril etc. Tudo bem. O problema é que engenharia genética para os vinhos ainda está em testes, mas já é um grande negócio.
O mais famoso consultor de vinhos do mundo, o francês Michel Rolland, certa vez declarou ao New York Times que, essencialmente, o “vinho é um negócio”.
Vale tudo para vender. Também entendo isso, mas brincar de Deus para no final colocar cianureto numa garrafa é dose.
A amiga acha que o vinho é apenas um negócio ou um prazer a ser desfrutado com segurança? Fale aqui para a Soninha no soniamelier@terra.com.br
Da Adega
ProChile 2007
. A 4ª. Degustação Anual de Vinhos Chilenos, com degustações no Rio e em São Paulo, no final de agosto, foi sucesso absoluto. Os vinhos chilenos já estão em primeiro lugar entre os vinhos que importamos, deixando para trás a Argentina, Itália e Portugal. Os chilenos, de janeiro a maio deste ano, já exportaram 6.255.492, 50 litros de vinhos. E olha que somos apenas o 8º maior mercado para o Chile, ficando atrás do Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Holanda, China e Dinamarca. De 100 marcas contidas nas listas de restaurantes americanos, 15 são franceses, 7 são italianos, 2 australianos e 1 é chileno (segundo o relatório anual do The Restaurant Magazine). Eles não só sabem fazer como promover seus vinhos.
Casa Valduga é Ouro. O espumante Casa Valduga Extra Brut Gran Reserva 2002 conquistou a Gran Medalha de Ouro no “Wine Brasil Awards 2007”, premiação do Concurso Mundial de Bruxelas destinada aos vinhos brasileiros. O espumante, no início do ano, já havia recebido uma medalha na França. O espumante é feito pelo método champenoise, com as uvas Chardonnay e Pinot Noir.
A Casa Valduga, no mesmo Brasil Awards, obteve mais dois ouros: pelo seu Casa Valduga Identidade Ancelotta 2005, um tinto, e pelo branco Casa Valduga Chardonnay Gran Reserva 2005.
A Valduga fica no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves (RS). Visite o site:
www.casavalduga.com.br.

28.8.07

Para relaxar e gozar

Apenas comentários sobre duas notícias que li recentemente e que dizem respeito à presença dos vinhos em nosso cotidiano e ao desenvolvimento da imagem que se faz dessa bebida, como elitista, esnobe, pretensiosa, um mundo nada banal, colocado no topo do Olimpo, livre de todas as mazelas. Será?
Uma polícia de sommeliers. A Associação Italiana de Sommeliers, em Roma, acaba de diplomar 25 oficiais de elite do seu esquadrão antifraude (lá chamados de Carabinieri del Nac) como sommeliers. Não é pouca coisa.
Pois é: a Polícia Militar italiana está se equipando com pessoal especializado para combater fraudes na indústria do vinho. Ainda agora, descobriram uma quadrilha internacional que contrabandeava vinhos da Itália para a Alemanha e Dinamarca. Eles transportavam vinhos de mesa simples, baratos e sem rótulo da Puglia e do Piemonte, mas com nova identidade, travestidos de Barolos, Brunellos di Montalcino, Amarones e Chiantis, vinhos famosos e bem mais caros.
Eles acabavam em supermercados, restaurantes e até na internet. Vinhos custando menos de dois euros eram vendidos ao público por 100 euros.
A produtora de um dos vinhos falsificados, Rafaella Bologna, disse que o trabalho era até sofisticado, que só poderia ter sido realizado por alguém bem familiar com o seu vinho. “Não só os rótulos com as caixas de madeira eram boas cópias, como a própria bebida, que, apesar de não ter nada com o seu Barbera, tinha o mesmo nível alcoólico mencionado no rótulo”.
E foi a nova brigada de policiais sommeliers que ajudou a acabar com essa rede de falsificadores. Essa equipe opera em parceria com o Ministério da Agricultura e participa de investigações especiais em conjunto com o Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF), como foi o caso dos vinhos vendidos na Alemanha e Dinamarca.
A missão é, no mínimo, muito difícil. As fraudes são limitadas apenas pela imaginação humana e acontecem desde que a bebida começou a ser um item importante no comércio entre os povos, desde os egípcios, fenícios, gregos, romanos etc., até hoje.
Mas as leis mudam conforme os tempos. Na Grécia antiga era impensável tomar um vinho sem diluí-lo com água. Hoje, na maioria dos países, é crime adicionar água à bebida. Acrescentar açúcar durante a fermentação melhorando a presença do álcool é outra controvérsia. Na França de Napoleão, o ministro Chaptal tornou a prática legal e respeitável (daí o termo chaptalização). Mas em regiões mais quentes, onde o fruto amadurece com boa quantidade de açúcar, esse uso é evitado ou ilegal. Era comum, no século XVIII, misturar os caros Bordeaux com vinhos mais baratos do Ródano ou do sul da França. Hoje é crime.
A revista Wine Spectator estima que 5% de todo o vinho produzido no mundo é falso. E adulterar rótulos seja talvez o crime mais comum. Os prósperos, nascentes e inexperientes mercados asiáticos, em particular o chinês, sofrem mais com essa prática. Em 2002, centenas de garrafas do Château Lafite-Rothschild, de uma safra pobre, a de 1991, receberam rótulos de uma colheita aclamada, a de 1982. E foram vendidas na China.
As autoridades italianas juram que seus policiais feitos sommeliers, mesmo disfarçados como civis, não vão beber em serviço. Será?
E aqui, como seria? A prática de “dar uma cervejinha” pro guarda seria abolida? Aquelas garrafas de cachaça sem rótulos nos pés-de-chinelo seriam apreendidas? Seriam chamados de “Milícia do Vinho”? Andariam em dupla, como faziam os “Cosme-Damião” de antanho? Um bebe e o outro é que fica tonto?
Relaxe e goze. Que tal degustar o Cabernet Seduction (Cabernet Sedução) ou o Chardonnay Foreplay (Chardonnay “Amasso” – ou “Preliminares” – não encontrei outras possibilidades para Foreplay)?
Sim, esses vinhos foram servidos, dia 15 último, a uma seleção de convidados lascivos, com um acompanhamento de queijos exóticos, trufas refinadas e frutos banhados em chocolate – tudo ao som de poesia erótica.
O local foi o mais apropriado possível: uma loja de produtos eróticos muito bem considerada em Nova York, a Babeland, que oferece, entre outros, cursos de sexo oral e uma centena de brinquedinhos eróticos de ponta (sem segundas intenções).
A Babeland, propriedade exclusiva de um grupo de mulheres, foi o lugar escolhido pela Perfect Palate New York para apresentar a sua soirée especial, a “Degustação de Vinho Erótico”. A Perfect Palate é uma empresa que planeja eventos privados envolvendo o vinho. Quer fazer uma degustação (por assim dizer) no seu jatinho? Chame-os: o serviço é completo, das taças, aos vinhos e ao serviço. Ah, esse então: eles oferecem as suas (e seus) Sexy Sommeliers, que fazem as coelhinhas do Playboy parecerem moças do colégio Sion (a ministra Marta Suplicy passou por lá – pelo Sion, bem entendido). São garotas e rapazes que qualquer crítico daria 90 pontos ou mais. A empresa diz que seu objetivo é mudar a maneira pela qual o vinho é visto, “eliminar a associação comum com a pretensiosidade”.
Sim, é verdade que a indústria do vinho sofre com essa imagem de elitismo, esnobismo – que afasta o consumidor, em particular os mais jovens. Há esse jargão estranho dos críticos, a maneira pela qual a bebida é reverenciada, a etiqueta rebuscada do serviço – uma imagem de “alta cultura” jogando o vinho para um Olimpo difícil de escalar.
Mas aí é que está: moravam no Olimpo deuses e deusas pra lá de sacanas. Eles odiavam, amavam, invejavam, guerreavam, gatunavam, fuxicavam, extrapolavam tal como os mortais. O antropomorfismo era completo.
É antiga essa história de vinho e sexo. Não estou falando do mundo clássico, das orgias dionisíacas. Temos, hoje, sites “de vinho” especializados em encontros amorosos (veja o Wine Lovers Meet), bem como revistas (como a Wine Adventure Magazine, onde colabora a Baronesa Sheri de Borchgrave, autora do autobiográfico “Uma ligação perigosa”, de corar o fauno mais libidinoso), jornais, blogs etc. A lista é grande.E o sexo é o destaque.
Sim, muitos tratam o vinho como sedução, sensualidade, romance, quando querem dizer sexo. A Perfect Palate diz que busca eliminar o nexo do vinho com esnobismo, mas, claro, sem perder de vista maiores vendas.
Se não há “pretensiosidade”, há o risco da banalização: do sexo e do vinho. E o vinho pode ser muitas coisas, menos uma bebida banal.
Só espero que os convidados no Babeland tenham evitado os brinquedinhos de origem chinesa. Quanto ao tema vinho e sexo, a alternativa é relaxar e gozar.
A amiga já fez alguma degustação erótica? Conte aqui para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br
Da Adega
Associe-se à SBAV. Não perca essa oportunidade, amigas: quem se associar à SBAV-Rio ainda esse mês estará isenta da taxa de adesão, pagando mensalmente o valor de R$40,00, semestralmente R$ 200,00 (isenta de uma mensalidade) e anualmente R$400,00 (isenta de 2 mensalidades).
A SBAV, Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, surgiu em 1980, formada por pessoas que se reuniram com a intenção de agrupar apreciadores de vinho que quisessem aprender e aprofundar seus conhecimentos num assunto tão vasto, além de difundi-lo. A entidade cresceu e hoje existem SBAVs em São Paulo, Rio Grande do Sul (Porto Alegre, Blumenau, Serra Gaúcha, Novo Hamburgo e São Leopoldo), Pará (Belém), Ceará (Fortaleza), Minas Gerais (Belo Horizonte), Rio Grande do Norte (Natal), Brasília, Pernambuco (Recife), Amazonas (Manaus), Alagoas (Maceió) e recentemente no Rio de Janeiro.
A SBAV-Rio oferece cursos, degustações, harmonizações, viagens orientadas e vinícolas, entre um variado cardápio de serviços.
Fale com a Alice Nunes: SBAV-Rio, Av. Repórter Nestor Moreira, 11, Botafogo - Rio de Janeiro – RJ, CEP: 22.290-210. Telefone: 21-2543-2382 ou
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23.8.07

De pé atrás

Ainda outro dia li notícias afirmando que poucos drinques por dia poderiam nos livrar da demência. Beba e não fique demente, eram os títulos. Mas os pesquisadores, da Universidade de Bari, Itália, (no artigo original, no jornal Neurology, especializado) faziam ressalvas. Não tinham dados do estilo de vidas das pessoas pesquisadas, não sabiam de suas dietas, por exemplo.
Agora, leio que para nos livramos das cáries e dos dentistas o melhor mesmo é tomar vinho. A fonte é outra pesquisa italiana. Um grupo da Faculdade de Farmácia da Universidade de Pávia investigou os efeitos antibacterianos de vinhos brancos e tintos em nossa boca e garganta. Com ligeira vantagem para os tintos, ambas as variedades se saíram muito bem ao inibir o crescimento de várias cadeias de estreptococos (gênero de bactérias) relacionadas com a deterioração de nossos dentes e também, em muitos casos, com inflamações na garganta.
“Nossas descobertas parecem indicar que o vinho pode agir como um eficiente agente antimicrobiano contra estreptococos orais e podem ser ativos contra cáries e na prevenção de patologias do trato respiratório superior” – concluem dos pesquisadores de Pávia.
Apenas algumas das notícias ressalvavam um dado importante. Os cientistas italianos observam que seu trabalho foi realizado “in vitro”, em laboratório, sob condições controladas, em sistemas fechados, normalmente em tubos de ensaio.
A notas também não falavam nada sobre um outro problema envolvendo vinhos e dentes. A bebida pode promover a tal da “Síndrome do Vinho Tinto” e o “Efeito Drácula”. Acontece normalmente com degustadores profissionais, pessoas que provam até centenas de vinhos por dia. Os dentes acabam manchados, avermelhados. A síndrome compreende o tingimento gradual de seus dentes até levar à sua destruição, pois os ácidos dos vinhos vão aos poucos corroendo o esmalte protetor. O remédio é não deixar de ir ao dentista, pelos menos uma vez a cada seis meses.
O “Efeito Drácula” é quando os dentes (e língua e lábios) ficam tingidos, mas apenas temporariamente, após uma sessão de degustação. Trata-se simplesmente de uma camada de saliva misturada com vinho. Basta enxaguar bem a boca e esperar uma hora até que o equilíbrio de acidez volte ao normal. Só então escove os dentes. Provoque a salivação (com um chiclete sem açúcar, talvez), pois a saliva forma uma camada de glicoproteína (proteína que agrega moléculas de açúcar) que amortece os ácidos. Faça isso, mas também não deixe de ir ao dentista regularmente.
E não hesite em pesquisar sempre sobre todas as notícias envolvendo saúde (melhorada por vinhos, bananas etc.). Caso contrário você é quem vai ficar lelé com a conta dos médicos ou dos dentistas. Benjamin Franklin dizia que se aconselhava com vinho, mas só decidia com água. Leia, mas de pé atrás.

22.8.07

O custo da bolha

Já que o assunto é a “bolha” norte-americana, falemos dos preços dos espumantes: Por que essas bolhas são sempre mais salgadas? Em particular as dos champanhes. Claro, nem todos: os mais baratos, espumantes, são quase sempre nacionais (e dou graças a isso). Porém, um Casa Valduga Natura Gran Reserva Exellence 2002 já está na casa dos R$ 60,00. Um simples Veuve Clicquot Rosé Reserve 2000 está na casa dos R$ 300,00 (em nove vezes sem juros nas Americanas).
Será que são mais caros por uma questão de imagem? Sim, não podemos negar que os preços dessas bolhas, principalmente se forem francesas, têm um pé na reputação que conseguiram graças à sua qualidade e ao perfil de seus consumidores.
Agora, tirando a fama de lado, o que temos? Começando do alto (das garrafas), tanto os vinhos parados quanto os espumantes vêm com cápsulas, o material que cobre o “pescoço” e a rolha das garrafas. Mas há diferenças. Nuns as cápsulas não passam de uns cinco centímetros e mesmo nos vinhos mais caros usam um plástico bem fino, comum.
Já as cápsulas dos espumantes são normalmente feitas de metal impresso e colorido e ainda incluem uma “aba” (falo aba por desconhecer o termo técnico) que chega até a metade da garrafa.
Quando retiramos essas cápsulas, temos apenas uma rolha enfiada na garrafa e nada mais. Isso, nos vinhos parados. Nos espumantes, encontramos o tal colorido medalhão de metal, com o nome e logomarca da vinícola. Essa peça é coberta por uma rede metálica, obrigatória por lei em qualquer vinho que contenha grande quantidade de CO2, dióxido de carbono.
Tem mais: a rolha do vinho parado não é lá muito longa. Já no espumante, uma vez retirados o tal medalhão e a rede, temos uma rolha, um bulbo, uma senhora cabeça de alho, duas vezes o tamanho e o peso da tampa do vinho parado. E feita de várias camadas de cortiças de qualidades diferentes: a que fica em contato com o vinho é um disco de 5 a 6 mm de espessura.
Agora, chegamos às garrafas. Umas são simples, leves. Já as de espumantes são mais espessas, gordas, pesadas, por razões de segurança, pois o gás que está lá dentro estilhaçaria uma garrafa comum em três tempos.
A todos esses itens juntamos o custo da embalagem final. Garrafas mais pesadas pedem caixas mais resistentes – nada de papelão comum, mas daquele com o dobro da espessura utilizada nos vinhos parados. Logo, mais caras. Se o papelão e muitas vezes a madeira pesam mais, o seu transporte custará mais também. Assim, com o peso real mais o da sua reputação, ao nosso espumante somamos o peso dos impostos. É o governo invadindo a nossa festa. Com o dólar subindo graças à outra bolha, o leitor deve começar em brindar apenas com os nossos ótimos espumantes.

A pêra na garrafa

Leitor ganhou uma garrafa de Poire Williams, um destilado, um eau-de-vie, como é chamado na França. Notou, porém, que fabricado por G. E. Massenez. E o que faz o Williams no rótulo? Curioso, o leitor não perguntou como é que o fabricante conseguiu colocar uma pêra dentro da garrafa do poire (pêra, em francês), que é a apresentação mais chamativa desse tipo de destilado. Veja aqui..
Sim, Massenez é o nome do fabricante. Muitos outros fabricam poire. como, por exemplo, as também francesas Trimbach, Olivet e Danflou, a suíça Etter e a americana Clear Creak (cujo poire é considerado o melhor do mundo, atualmente).
Já Williams é o nome de uma variedade de pêra; é uma espécie de Cabernet Sauvignon das pêras. Descoberta originalmente em 1765 por um mestre-escola inglês, um tal de Stair, passou a ser conhecida por esse nome, pêra Stair. Mais tarde, um jardineiro chamado Williams adquiriu a propriedade de Stair e com ela as suas pereiras. E tornou essa fruta muito popular em toda a Inglaterra, quando ela passou a ser conhecida pelo seu nome, Williams.
Em 1799, James Carter importou várias pereiras Williams para os Estados Unidos, onde foram plantadas numa fazenda de Massachussetts. Mais tarde, Enoch Bartlett comprou a propriedade de Brewer e, sem saber da origem das pereiras inglesas, as propagou por todos os Estados Unidos sob o seu nome. Assim, as Williams são conhecidas como Bartlett nos Estados Unidos.
Claro que existem outras variedades. Se temos quase oito mil tipos diferentes de maçãs em todo o mundo, as pêras apresentam apenas 850 variedades. As mais conhecidas, fora as Williams (ou Bartlett), são a pêra d’água (entre nós), a japonesa, a Rocha, a Anjou e a Comice, a mais doce e suculenta variedade da fruta, com carne muito macia, muito rotunda, com o “pescoço” curtíssimo, desenvolvida por cientistas americanos no Oregon lá pelo século XIX, derivada de sementes francesas. São as mais raras e caras.
Mas para fazer um eau-de-vie de pêra só mesmo com a Williams, uma variedade muito aromática, de sumo intenso, mais ácida, de polpa rígida, com casca verde e manchas avermelhadas quando jovem e completamente dourada quando madura.
Eau-de-vie é o que chamamos aqui de aguardente, um tipo de brandy. Bem, já falamos sobre brandy aqui. Seria estritamente uma aguardente de vinho. A origem de seu nome, holandesa, diz tudo: brandwijn - vinho queimado, ou destilado. As formas mais famosas e nobres de brandy são ainda hoje o Cognac e o Armagnac, produzidos na França. Mas o termo passou a ser aplicado a qualquer destilado feito de frutas, de damasco, a ameixa, a pêra, a maçãs (das quais o Calvados, da Normandia, França, é o exemplo mais famoso), cereja (o saboroso kirshwasser, aguardente alemã), entre outras.
A França e os Estados Unidos, contudo, obrigam a que brandy seja estritamente um destilado de vinho.
Eau-de-vie vem do latim, aqua vitae, “água da vida”. A palavra whiskey tem origem no gaélico, uisge beatha, também com o mesmo significado. A mesma coisa no sueco e no norueguês (akvavit). no polonês (wōdka) e no russo vodka.
Na Idade Média atribuíam a esse destilado propriedades medicinais, até mesmo mágicas, recomendado para quase todo o tipo de mazela. A destilação foi inventada no século XVII e veio em busca de curas para pragas, como a da cólera.
A maioria desses “espíritos” não tem cor e são derivados uma ou mais frutas, fermentadas e, em seguida, destiladas. Você colhe a fruta apropriada quando bem madura, esmaga-as e deixe-as fermentar. Diferente do seu primo, o cognac, as eaux-de-vie raramente são envelhecidas em barris de madeira, como fazem com o Calvados, para aproximá-lo do sabor do cognac.
A nossa cachaça é da mesma família, só que feita a partir destilada a partir da cana-de-açúcar. Entre as destiladas com base nos resíduos da uva (da borra resultante da prensagem das uvas), temos a bagaceira portuguesa e a grappa italiana.
As águas da vida, uma arte secular, praticada em toda a Europa, especialmente na Alsácia, são fruto da necessidade. Afinal, precisamos beber qualquer coisa, seja para curar um calo no pé ou na alma. Não tem uva? Então pega a primeira fruta que encontrar! A base sempre é a mesma: o fruto maduro é fermentado, destilado e rapidamente engarrafado de modo a preservar o frescor e aroma da fruta original. Não custa pouco, não: são precisos 14 quilos de pêra para uma garrafa de 750 ml de destilado.

Mas como ela entrou na garrafa? Como diz o Eric Azimov, do New York Times, eau-de-vie seria a anti-vodka, cuja sua destilação busca remover quaisquer sabores. Já o destaque desse tipo de aguardente é preservar o máximo da fruta original. A vodka foi feita para misturar-se em vários coquetéis. Mas não existem coquetéis de eau-de-vie, ou pelo menos não deveria, segundo os puristas.
Sim, mas como é que a pêra foi parar dentro da garrafa?
Ah, pois é. Ninguém poderia imaginar passar uma pêra pelo gargalo de uma garrafa e ainda assim mantê-la intacta, integral, não é?
Na verdade, a pêra cresce na garrafa. É uma prática tradicional na Alsácia, onde o destilado da fruta é feito há séculos.
Parece simples, mas dá trabalho. Primeiro, colocar as garrafas nas árvores, em maio quando o pequeno fruto da pereira ainda passa pelo gargalo da garrafa. E dentro dela vai crescer durante todo o verão (no hemisfério norte). Em fins de agosto, será colhido (a pêra já crescida dentro da garrafa). Quando a eau-de-vie estiver pronta, colocam o líquido na garrafa e a vedam. Pronto. Veja aqui.
Da Adega
A festa da Thalita
. Ela quer dar uma senhora festa para 210 pessoas e dispõe de R$ 15 mil. Pergunta se dá para fazer a festa.
Usei um site que há muito recomendei, o
Evite.com.
Estimei uma festa de 6 horas de duração, onde de bebidas alcoólicas fossem servidos uísque, cerveja e vinho, na seguinte medida: 42 pessoas (2% do total) seriam bebedores pesados; 147 (70%) bebedores medianos e 59(28%) bebedores leves.
O calculador do site que, para as bebidas escolhidas, eu iria precisar de:
559 latinhas de cerveja; 112 garrafas de vinho (750 ml) e 28 garrafas (litro) de uísque.
Utilizei preços de supermercados para produtos medianos e considerei também uma negociação para volumes: R$ 2,00 para a lata de cerveja, R$ 40,00 para a garrafa de vinho (tanto para o tinto quanto para o branco) e R$ 45,00 para o litro de uísque.
Assim, meus totais foram de R$ 1.118,00 para cerveja, R$ 4.480,00 para vinho e R$ 1,80,00 para uísque.
Total de bebidas: R$ 6.870,00
Ainda restariam R$ 8.130,00 para alimentação (sanduíches, tira-gostos, canapés etc.), água, sucos e refrigerantes, aluguel de salão e algum entretenimento (música mecânica, DJ, CDs).
Portanto, Thalita, acho que dá para dar uma boa festa.
Vinhos da Casa Marin. A importadora Vinea está trazendo para o Brasil vinhos da Vinícola Casa Marin (quatro de seus vinhos receberam acima de 90 pontos de Robert Parker, o imperador dos críticos).
Aqui, a Marin é representada pela Vinea Store, onde você vai encontrar o Casa Marin Sauvignon Blanc Cipreses 2006 e o Marin Pinot Noir Lo Abarca 2004 (ambos com 92 pontos); o Sauvignon Blanc Laurel 2005 (91 pontos), o Pinot Noir Litoral 2004 (90 pontos) e o Casa Marin Gewürztraminer 2005, (89 pontos).

16.8.07

Sabe com quem está falando?

Imagine que a um cliente de um restaurante serviram um vinho tinto chamado Sonia Melier – Bordeaux, França. Na mesa ao lado ofereceram o mesmo vinho, mas com o rótulo ligeiramente diferente. Era o Sonia Melier, Vale do São Francisco, Brasil. O Cliente que recebeu o "Bordeaux" elogiou tanto o vinho quanto o prato escolhido. Na outra mesa, o resultado foi negativo.
Esse foi, em resumo, o resultado de um teste realizado por pesquisadores da Universidade de Cornell, Nova York, liderados pelo professor Brian Wansink. Eles selecionaram um restaurante de uma cidadezinha da distante Illinois. Todos os clientes receberam uma taça de Cabernet Sauvignon como oferta da casa para acompanhar um mesmo prato de comida francesa.
Uma garrafa de vinho foi colocada em cada mesa. Em metade das mesas, as garrafas traziam um rótulo informando que se tratava de um Cabernet Sauvignon da Vinícola Noah, Califórnia. Na outra metade, as garrafas tinham dizeres quase idênticos. A vinícola era a mesma Noah, só que de Dakota do Norte (estado do meio-oeste, fronteira com o Canadá). Ninguém sabia que nas duas metades o vinho era o mesmo: um baratíssimo Charles Shaw (o produtor que criou o “Two Buck Chuck”, o vinho de dois dólares a garrafa, um fenômeno de vendas no país).
Aqueles que pensavam ter bebido um vinho da Califórnia (o maior e mais famoso produtor de vinhos do país) avaliaram muito bem o vinho e o prato que comeram (e chegaram a comer mais 11% do que a outra metade), além de indicarem que voltariam ao restaurante.
Era de se esperar que a outra metade não se saísse tão bem. As pessoas não acreditavam que os vinhos de Dakota do Norte fossem lá essas coisas. “Os rótulos dos vinhos podem tanto iluminar como sombrear tanto um vinho quanto uma refeição”, explicou o professor Brian Wansink, diretor do Laboratório de Alimentos de Cornell, com foco na psicologia por trás do que comemos e a freqüência com que nos alimentamos. É também autor de sucesso, como o “Por que comemos tanto?” (ISBN: 8535221956, Elsevier Editora).
Para confirmar esse teste, uma pesquisa similar foi feita entre 49 estudantes de grau acadêmico, durante uma degustação de queijos e vinhos. Novamente, aqueles que receberam vinho indicando a Califórnia como origem qualificaram bem melhor a bebida e os queijos.
Essa é a “carteirada” no mundo dos vinhos, o famoso “Você sabe com quem está falando?” Os rótulos influenciam tanto quanto preços: vinho quanto mais caro melhor é o mito comum. No caso desse teste, não. A origem do vinho foi o fator decisivo.
Tão decisivo, tão forte que até transpirou para a comida. Incrível. Será que sexo depois do vinho seria igualmente bem avaliado?

14.8.07

Imagine um vinho

Se em vez de números, estrelas, palavras estruturadas a partir de um dialeto particular, a linguagem dos críticos, dos especialistas. Se em vez de tudo isso nos mostrassem apenas uma imagem, como a do girassol num novo blog? Pois agora, um pessoal do sul da Califórnia criou uma revolucionária maneira de comentar vinhos.
Conheça um dos mais intrigantes blogs sobre vinhos, o Château Petrograsm, um jeito impressionista e inédito de abordar a bebida.
Podemos olhar para a foto do girassol acima e imaginar como foi avaliado o vinho a que está associada, no caso, o Summerland Chardonnay 2005, da Vinícola Bien Nacido. Uma representação de sua cor, do seu frescor, capaz de nos dar prazer num dia de muito sol e calor, suas frutas maduras, uma presença marcante, a lembrança que deixará em nosso paladar, sua forma solar revelando todo o seu alcance e potência.
Achava que já tinha visto de tudo em termos de avaliações, das pioneiras estrelas do Guia Michelin, até as escalas numéricas, de um a cinco, de um a 10, a 20, até 100; polegares para cima ou para baixo, inclusive em forma poética, como faz Lane Steinberg e seus haiku.
Recentemente, a Michelle Lentz, do seu blog Wine-Girl lançou uma escala com as carinhas (ou “emoções”, como quer o Messenger), que vai da mais sorridente, passa pelas sérias ou neutras até chegar à mais triste. Veja aqui.
Tanto o Lane Steinberg quanto a Michelle se recusaram a juntar vinhos com números, optaram pela poesia num caso ou pela imagem caricatural e bem humorada em outro.
O fundador do Château Petrograsm, Benjamim Saltzman, diz que seu objetivo é relaxar os padrões das resenhas de vinho e equilibrar pragmatismo com diversão de modo a que mais pessoas possam desfrutar dos prazeres de beber (vinho) e dividir essa experiência.
“Quando tentamos descrever um vinho encontramos problemas. Primeiro, como se parece o vinho? É certo, eficiente dizermos que o vinho possui uma cor que lembra a de um prego enferrujado? Ou devemos simplesmente reproduzir essa cor (que certamente vai variar, dependendo da luz sob a qual o vinho será consumido)?
“Não importa quanto de esforço utilizamos para tentar reproduzir um vinho (seja por palavras ou por alguma forma de arte), sempre faltará alguma coisa. Por isso, nada substitui uma prova de vinho. É isso que torna falidas as tradicionais resenhas e, ao mesmo tempo, faz do vinho um grande prazer”.
Falidas, falsamente esnobes (esnobe de verdade foi Oscar Wilde, um autor genial), afastando o leitor dos verdadeiros prazeres do vinho. Vejam só um exemplo, enviado pelo amigo Roldão Simas. E um tópico sobre o tinto alentejano Vinhas da Ira 2004, da Herdade da Mongorra:
Completamente opaco no centro, com curtíssima auréola de tons rubis/violeta, quase imperceptível. Nariz em evolução, de média a elevada intensidade, com um aroma super definido: feijão verde recém cozido. Abanando o copo aparece alguma cera e suave químico. Muito original e ganha pontos por isso. Boca de acidez média a elevada, a dar um toque de classe ao conjunto. Muito encorpado, mas curiosamente mais firme que rechonchudo. Taninos em elevada presença, algo incisivos, Fruta suficiente, em média+ quantidade, do tipo silvestre, muito bem combinada com o interessante sabor de feijão verde que também aparece na boca. Algum eucalipto e chocolate preto. Final de média+ persistência, com personalidade original, pecando apenas pela sensação de alguma secura devido à supremacia dos taninos.
(Publicado na revista portuguesa
Blue Wine, de 9 de fevereiro último).
A revista diz, no seu site que “pretende juntar à sua volta todos aqueles que sintam paixão pelo vinho e que queiram viver melhor através da partilha de bons momentos”.
Sim, o vinho é isso: paixão, viver melhor, partilha de bons momentos.
Mas... opaco no centro, com curtíssima auréola...nariz em evolução, feijão verde recém cozido, alguma cera, boca de acidez média a elevada, mais firme que rechonchudo...?
Isso me afasta da idéia de um gole relaxado e prazeroso, me distancia do Vinhas da Ira.
E isso é tudo o que o Château Petrograsm não faz. Ele avalia e descreve vinhos afastando-se dos métodos tradicionais de resenha (como é o exemplo do Blue Wine acima).
O pessoal do site utiliza cores, desenhos, fotografias e outras mídias visuais de modo a transmitir tanto os componentes intrínsecos de um vinho em particular além de uma impressão geral do mesmo. “Vinho é arte, bebê-lo deveria sê-lo também”, afirma seu fundador.
“Se vinho é uma forma de arte, então falar sobre ele deveria ser como descrever uma pintura. Logo, pode parecer duvidoso submeter uma pintura como resenha de outra pintura”.
Porém, explica Benjamin Saltzman, “desde que o prazer que temos pelo vinho retrata claramente uma experiência subjetiva, ela não pode ser descrita apenas por palavras. Usando arte abstrata de transmitir tanto a experiência de beber quanto a impressão de um vinho podemos ir além dos limites das palavras. E se um vinho cheira como mel, então precisamos fazer com que esse mel marque a nossa imaginação e, portanto, a imagem utilizada”.
No Château Petrograsm as palavras mais importantes utilizadas são aquelas inscritas nos rótulos das garrafas resenhadas, não importa de que países se originam. Assim, eles conseguem vencer até a barreira dos idiomas, meramente utilizando imagens.
Posso concordar que esse modo “impressionista” de resenhar vinhos pode não ser tão preciso quanto uma boa descrição escrita. Contudo, como já argumentou Saltzman, a palavra escrita não consegue descrever completamente o vinho em função da natureza subjetiva que vinho tem sobre cada um de nós.
Seria como uma recriação do famoso Teste de Roschard, onde, no caso, somos levadas a interpretar imagens que, sabemos de antemão, podem nos levar a prazeres ou decepções escondidas em algumas garrafas.
É um trabalho de desconstrução, um divertido exercício intelectual, quando paramos para considerar as implicações e significados das imagens sem qualquer ajuda de palavras, de legendas.
Um bom exercício para nossas mentes e melhor ainda para nossos espíritos.
Faça um teste agora, amiga: o que está pensando do girassol lá de cima. Ou melhor, do Summerland Chardonnay 2005?
Da Adega
Mundvs Malbec 2006. Não é da Argentina que vem o melhor Malbec? Pois a Casa Valduga criou um Malbec, sob controle e supervisão do enólogo da família, João Valduga, na localidade de Lujan de Cuyo, Mendoza, um dos melhores redutos dessa variedade. E, assim, o Mundvs Malbec 2006 já está à venda no Brasil.
João Valduga adianta que o vinho apresenta um bouquet elegante, lembrando especiarias e intensas notas de frutos vermelhos, com destaque para ameixas e amoras, e toques de coco e frutas vermelhas, corpo robusto, com acidez equilibrada, taninos maduros e intensa persistência gustativa.