25.9.08

Paris e seus vinhedos

O vinhedo mais inusitado que conheço fica num quartel de bombeiros, La Caserne Blanche, Paris, sede da 7ª companhia de “pompiers”, na rue Blanche, 28, perto da rue Pigalle. Amanhã, 26, esses bombeiros estarão festejando com a população a colheita das uvas Chassellas e Pinot das 27 videiras em seu quintal. Delas sairão entre 100 e 150 garrafas que serão leiloadas ano que vem para fins de caridade. De 26 até meados de outubro teremos muitas festas desse tipo, pois Paris ainda possui seus vinhedos, que valem mais pela teimosia de uns poucos cidadãos em continuar a fazer vinho nos locais os mais improváveis. E assim lembrar que a cidade já foi o centro da região vitivinícola mais importante do país.
Da festa da Caserne Blanche participarão prefeito, autoridades e, como sempre, algumas dançarinas do Moulin Rouge, que fica bem pertinho, no final da rua, na Place Blanche, Boulevard de Clichy, já em Montmartre, endereço do lendário cabaré, ao sopé do mais importante desses vinhedos parisienses. É só subir a “Colina” (“la Butte”), como Montmartre é conhecida, e driblar uma multidão de turistas com postais de Toulouse-Lautrec nas mãos. Se ladeiras e escadarias não são o seu forte, tente o Petit Train (um simpático trenzinho de parque de diversões), que sai da Place Blanche todos os dias, a cada 30 minutos. Pode também experimentar o funicular ou pega um ônibus. A pé, siga as setas que indicam o museu Montmartre até o topo da colina, dominado pela basílica de Sacre Coeur, uma das vistas mais fantásticas da cidade. Dê a volta por trás dela (rue du Chevalier de la Barre), vá em direção ao Parc de la Turlure, desça pela rue de la Bonne até a rue Saint-Vincent. Na altura do número 14 lá estará o Clos de Montmartre.
Suas vinhas foram plantadas em 1933 e desde a primeira colheita as festas acontecem. O vinhedo, da prefeitura, é tocado por Francis Gourdin, um respeitado vinicultor. Depois de colhidas, as uvas são levadas para uma cave no subsolo da prefeitura, onde são fermentadas. São duas mil vinhas formadas principalmente pela Gamay e a Pinot Noir, às quais se misturam com o que Gourin chama de “variedades rústicas”.
Paris produzia vinhos desde o século IV. Na Idade Média já era um centro produtor tão ou mais importante do que Champagne, Borgonha ou Bordeaux. As primeiras vinhas de Montmartre foram plantadas pela rainha Adelaide de Savoie, esposa de Luis VI, num mosteiro que criou em 1133. Nascia aí o “vinho das abadessas”. No século XVIII, a região possuía mais de 20 mil hectares de vinhedos. Traços desse passado ainda são visíveis em nomes de ruas de Paris: rue des Vignes, des Vignerons, du Pressoir (da Prensa) etc.
Em fins do século XVIII e início do seguinte, a Revolução Industrial promove profundas mudanças na economia, em particular na agricultura. Um intenso movimento migratório para a capital fez com que os vinhedos fossem substituídos por trigais e moinhos aparecessem na paisagem. Afinal, as pessoas precisavam comer. O Moulin Rouge e o de la Galette são lembranças dessa época. Para piorar, em fins do século XIX, quase dois milhões de hectares de vinhedos franceses são devastados pela peste da filoxera. E em 1870, a tradição vinícola de Montmartre chega ao fim.
Porém, em 1933 um artista, Francis Poulbot, ilustrador de livros infantis, consegue mobilizar a população local contra a exploração imobiliária, entre outras mazelas. Planta um vinhedo e o Clos Montmartre está lá até hoje, um foco de curiosidade histórica, orgulho cívico e de vinhos cada vez mais elogiados. Todo o primeiro sábado de outubro a festa da colheita toma toda a rua e é prestigiada pelo povo local, autoridades e vinicultores de toda a França. O vinho da colheita passada é vendido (mais ou menos mil garrafas) para fins beneficentes.
Do quartel de bombeiros até o vinhedo lá no alto da “Colina” é um passeio pela história, arte, literatura e pelos mitos que fizeram de Paris algo muito maior do que a soma de suas belezas. Da Place Blanche você logo, logo alcança a Place Pigalle, um trecho que no século XIX e início do XX fez a fama da vida noturna da cidade. O estúdio de Toulouse-Lautrec, que imortalizou o Moulin Rouge, ficava em Pigalle. Pablo Picasso, Vincent van Gogh moraram por aqui por uns tempos. A escritora Colette (autora de Gigi e Chéri, entre outros sucessos), provocava escândalos ao beijar na boca sua amante, a Marquesa de Belbeuf, num espetáculo que criou e encenou no Moulin Rouge. Edith Piaff também começou sua carreira nessa região.
Na outra extremidade da rue Blanche, na rue St. Lazare, perto da estação de trem, Zola, Flaubert, Maupassant, Huysmans e Gongourt fundaram num restaurante, na noite de16 de abril de 1877, o movimento naturalista na literatura. A caminho da nossa vinícola, lá no alto, passamos pelo cemitério de Montmartre, onde estão enterrados, entre outros, Dumas, Stendhal, Emile Zola os irmãos Gongourt, o teatrólogo Georges Feydeau, o poeta e novelista Théophile Gautier, o poeta alemão Heinrich Heine, os compositores Offenbach e Berlioz, o pintor Degas, a cortesã Marie Duplessis. A lista é grande: esse cemitério, criado no século XIX, guarda ainda os restos do bailarino Nijinsky, de Adolphe Sax (o inventor do saxofone), do genial diretor François Truffaut. E não poderia falta La Goulue (Louise Weber), a célebre dançarina de can-can do Moulin Rouge, a “rainha de Montmartre”.
O Clos de Montmartre e a Caserne Blanche não são as únicas vinícolas urbanas de Paris. No Parc Georges Brassens existe um vinhedo, no Parc de Belleville outro. Além disso, a Association des Vignerons de Paris reúne hoje mais de 250 associados que cultivam vinhas em quintais, jardins, vasos, balcões, terraços - onde podem. Ela foi criada por Jacques Mélac, dono do Bistrot a Vins Mélac (rue Léon Frot, 42, na Bastilha). Em meados de setembro, em meio a mais festejos, os associados trouxeram suas uvas para que Mélac as fermente na adega de seu bistrô. Charmoso, não?
No subúrbio de Issy-les-Moulineaux temos o Le Clos de Moulineaux, capitaneado por Yves Legrand, que faz um branco com a Chardonnay e a Pinot Beurot (parente da Pinot Gris). Um pouco mais distante, em Argenteuil, mais conhecida hoje pelos seus aspargos, o último vinicultor da região, Jacques Defresne, 74, continua a fazer vinho, a partir da Seyve-Villard, uma variedade branca. Em Suresnes, o Clos du Pas Saint Maurice, administrado por Jean Dumas, faz brancos com a Sémillon, Sauvignon e a Chardonnay.
O símbolo dos bombeiros da Caserne Blanche é um cacho de uvas. Como a história demonstra, o vinho sempre ajudou a apagar incêndios.
Da Adega.
Festival do Rio 2008. O destaque de um dos mais importantes festivais de cinema do país, que começa amanhã, no Rio, é o catarinense Francesco. Entre centenas de filmes, diretores, produtores, atores e atrizes. O Francesco é um tinto produzido pela nova vinícola Villa Francioni, de Santa Catarina, no município de São Joaquim. Essa vinícola resulta de um projeto bem moderno idealizado pelo empresário Manoel Dilor de Freitas, que na fria serra de São Joaquim, resgata a tradição de antepassados toscanos (a vinícola tem o mesmo sobrenome da mãe de Manoel Dilor). Inaugurada em 2005, a vinícola já produz cabernet sauvignon, cabernet franc, merlot, chardonnay, pinot noir e sauvignon blanc, além de petit verdot, malbec, syrah e sangiovese.
Saiba mais sobre a
Francioni aqui. E sobre o Festival do Rio 2008 aqui.
Como Palin atrapalha Palin? Um
bar de vinhos de San Francisco vinha, desde julho, vendendo muito bem o tinto orgânico, Palin Syrah 2006, importado do Chile. Até que Sarah Palin, governadora do Alaska, é nomeada candidata à vice-presidente na chapa do senador republicano John McCain.
A partir daí, as vendas do Palin Syrah começaram a cair. O proprietário do bar está em apuros. Era o vinho que mais vendia. Na carta da casa, aprendemos que é um vinho seco com aromas de pimenta branca.
Será que o vinho passou a incorporar aromas de pólvora? Os clientes do bar são democratas obstinados? O produtor chileno deveria mudar o nome do vinho? Mas mudança (change) é o mote dos democratas. Sara, a governadora, e Palin, o vinho se opõe: a candidata é proibicionista, linha dura etc. Saia justa.

18.9.08

Da vinha ao vinho II

E o que acontece agora? Na coluna anterior, vimos o que acontece nos vinhedos, a trabalheira que é produzir uvas saudáveis com o objetivo de produzir bons vinhos. Hoje, chegamos finalmente nas adegas.
Bom, todas aquelas uvas serão convertidas em suco. Os vinicultores comportam-se como chefs, que ora podem utilizar todo o instrumental de sua cozinha ou deixar que a uva fale por ela mesma. A cor e o estilo do vinho vão depender desse profissional. A fermentação é o único fator comum em todo esse processo.
Para produzi-la, o vinicultor pode utilizar levedos cultivados (no seu laboratório ou comprados em casas especializadas) ou os que naturalmente se desenvolvem e vivem naturalmente na vinícola. Ao serem introduzidos ao suco das uvas, eles se tornam ativos: vão atrás do açúcar contido naquele líquido, convertendo-o em álcool e em dióxido de carbono. Os levedos naturais, “selvagens”, podem ser difíceis de controlar, mas costumam produzir aromas e sabores que compensam a trabalheira.
O vinho branco. As uvas brancas, depois de livres de hastes e folhas, são prensadas e o seu suco separado de cascas e caroços. Assim é feito porque cascas, talos e caroços contêm taninos, amargos e rascantes: são importantes nos vinhos tintos, mas indesejáveis nos brancos. O suco é colocado num tanque para “repousar” antes da fermentação, que, quando começar, vai levar entre três e trinta dias. É normalmente conduzida em temperaturas mais frias para preservar o frescor do aroma e o sabor.
Depois de fermentado, os vinhos brancos que não ficaram em barris de carvalho já podem ser engarrafados, tornando sua produção mais barata. Há brancos que são fermentados em barris de carvalho, do princípio ao fim do processo. Outros são fermentados primeiramente em tanques de aço inoxidável antes de serem transferidos para barris de carvalho, onde a fermentação é finalizada (ou para que neles amadureçam). Nesse ponto, o vinho pode passar por uma fermentação secundária (a primeira é a alcoólica, como vimos), chamada fermentação malolática, ou “malo”, um processo através do qual o potente ácido málico (pense numa maçã ácida) é transformado em ácido láctico, mais suave (pense em leite). Nos vinhos tintos, esse processo é muito utilizado. Mas nos brancos é empregado para algumas variedades, como a Chardonnays e a Semillons, de modo a reduzir a acidez e a produzir aromas de manteiga queimada. Os brancos que vão para barris, ficam entre seis e 12 meses, sendo depois transferidos para um tanque para filtragem (para remover sedimentos, restos de levedo etc.) ou clarificação, um método menos invasivo de eliminar-se sedimentos: coloca-se clara de ovo, bentonita etc. no vinho para que se agreguem às partículas indesejáveis e as levem para o fundo dos barris (de onde são, depois, removidos). Alguns produtores evitam esse estágio, pois acreditam que o vinho pode perder as qualidades que ganhou durante todo o processo. Clarificado ou não, o nosso vinho branco já está pronto para ser engarrafado e selado e ser levado às lojas. Pronto para ser bebido.
O vinho tinto. A principal diferença para o branco, a leitora já percebeu, é que sua produção é feita com as cascas (e às vezes até com os talos). Se espremermos uma uva tinta, vemos logo que o seu suco é claro, tal e qual o de uma uva branca. São as cascas que proporcionam a cor, estrutura, textura e sabor dos vinhos tintos.
O fruto é composto de pele, polpa e sementes. A polpa contém água e açúcar, fonte de álcool para a fermentação. Além disso, encontramos nela ácidos orgânicos, como o ácido málico (que se decompõe em frutose e glicose) e o ácido tartárico. É na casca que vamos encontrar os materiais corantes e a maioria dos compostos aromáticos da uva. Se estivermos numa aula de química ouviríamos falar em antocianinas, flavonóide, fenóis. Em resumo, é a casca da uva que vai transmitir ao vinho todo o sabor que o fruto conseguiu produzir, o “gosto da terra”. E também a sua cor tinta.
Assim, todo esse coquetel, depois de prensado, é transferido para um tanque, que pode ser de madeira, de aço inoxidável ou de concreto. Uma vez iniciada a fermentação, o dióxido de carbono (um subproduto da fermentação) vai empurrar as cascas para a superfície do tanque. Mas o vinicultor precisa extrair o máximo de cor e sabor dessas casas e, portanto, não para de levar de volta as cascas para o seio do suco.
Quando a primeira fermentação se encerra, o que resta no fundo do tanque (cascas, semente, talos) é levado de volta para a prensa de modo a tentar-se obter mais suco – ou o que não foi extraído. Esse segundo suco será muito rico em cor e em taninos e poderá ser utilizado como um componente a ser misturado ao vinho.
A maioria dos tintos costuma passar de seis meses a dois anos em barris de carvalho.
O vinho rosé. Ele fica com um pé no branco e outro no tinto. O rosé é um vinho tinto feito tal e qual um branco (os que não passam por barris de carvalho). Embora existam vários métodos de produção, o mais comum é deixar as cascas das uvas tintas em contato com o suco por um curto período de tempo (muitas vezes apenas algumas horas), o bastante para a extração de pequena quantidade de cor e uma lambidinha de taninos. Sim, é possível fazer um rosado, misturando-se um branco e um tinto, mas fico como os primeiros.
Os espumantes. São quaisquer vinhos saturados com dióxido de carbono (as bolhas) sob pressão (ou seja, numa garrafa). A maneira mais barata de conseguirem as bolhas é injetar gás carbônico diretamente na bebida. Outra maneira é promover uma segunda fermentação do vinho, adicionando-se fermento a uma mistura de açúcar, num tanque fechado, de modo a não permitir que o gás escape. Quando a fermentação termina, o vinho é clarificado e misturado, se necessário. E em seguida engarrafado (ainda sob pressão para reter o gás).
O método tradicional (chamado de método champenoise, na região de Champagne) é aquele que, em geral, resulta nos espumantes de melhor qualidade (e de maior preço). Nele, uma segunda fermentação é provocada, mas dentro da garrafa. Os levedos acabam mortos no fundo do vasilhame e precisam ser removidos, o que é conseguido pelo método da “remuage”: as garrafas são colocas horizontalmente em bastidores de madeira, com orifícios para cada garrafa. Todos os dias, elas são giradas um oitavo e posicionadas mais verticalmente, de cabeça para baixo, de modo a que esses sedimentos se aglomerem nos gargalos. No fim desse processo, o gargalo é congelado, as tampas das garrafas removidas e, por pressão, os sedimentos forçados para fora. As garrafas são colocadas de cabeça para cima e nelas adicionado um vinho (com maior ou menor quantidade de açúcar): chamam de “liquer d’expedition”. Em seguida, são arrolhadas e protegidas pela tradicional tela. O vinho ficará ainda por um bom tempo descansado até que seja considerado pronto para a venda.
Vinhos doces. Na produção dos mais famosos vinhos doces, como os de Sauternes, em Bordeaux, as uvas são colhidas mais tarde, quando bem maduras (e, portanto, com muito açúcar) e, idealmente, já secas e enrugadas em razão da botrytis cinerea, um fungo que reduz a quantidade de água das uvas e, conseqüentemente, concentram o açúcar e ácidos. É a chamada de “podridão nobre”. O aspecto não nada animador, de fato, embora não haja nada de podre nesse quadro.
Vinhos como o Porto e o Jerez são também doces. Aqui, a fermentação é interrompida pela adição de um destilado de vinho, que aumenta o volume alcoólico da bebida. Quando esse volume chega aos 18 graus, os fermentos morrem. E o resultado é um vinho doce (pois os fermentos não conseguiram papar todo o açúcar da bebida) e forte (pelo seu volume alcoólico maior).
Esse panorama não se encerra aqui. Voltaremos ao assunto.

16.9.08

Correspondência em dia

Cápsulas de Chumbo. O Ronaldo pergunta onde pode comprar cápsulas de chumbo para garrafas. Não sei. Para vinhos, elas foram abolidas em praticamente todo o mundo a partir dos anos 90. Lembro de uma coluna que publiquei aqui (“Beethoven por um fio”), em 2005, sobre documentário da TV inglesa relatando a trajetória de um chumaço de cabelo Ludwig van Beethoven, recolhido assim que o compositor morreu, em 1827. Analisada, essa porção revelou uma concentração extraordinária de chumbo, 100 vezes acima do nível seguro, o que explicaria a série de mazelas do autor (doenças estomacais, irritabilidade, surdez etc.), que o teriam levado à morte. O documentário sugeria que o compositor tivesse se intoxicado com o chumbo de águas de estações hidrominerais que freqüentou quando jovem. Mas um jornalista irlandês lembrou que ele poderia ter se envenenado através do vinho e da cerveja. É que no século 19 o chumbo era usado para adulterar essas bebidas de modo a melhorar seus sabores e aparência. O metal já era empregado pelos antigos romanos para que o vinho não avinagrasse. Nos tempos de Beethoven, bebia-se principalmente em canecas feitas de uma liga de estanho e chumbo e as garrafas eram limpas com jatos de chumbo; reservatórios e encanamentos de água continham chumbo. Por essas e outras é que as casulas de chumbo, que protegiam as rolhas, acabaram banidas. Elas podem contaminar o vinho e envenenar seus consumidores. Além disso, não são recicláveis e também contaminam os solos. Em boa hora, foram substituídas por plástico (polietileno ou PVC), alumínio e até mesmo papelão.
Ainda o absinto. O João Luiz, a respeito da última coluna (“Chernobyl e os vinhos”), diz que a bebida era servida colocando-se na boca do copo “uma peneirinha na qual se colocava uma pedra - cristal – de absinto. Despejava-se água em cima dela, dissolvendo-a para dentro do copo”. Mas o que ele quer saber mesmo “é onde o alcool entra”.
Bom, o absinto é uma bebida alcoólica, feita a partir de álcool etílico de origem agrícola ou de um destilado de origem agrícola, geralmente feito a partir de uvas. Esse álcool é aromatizado através da maceração com várias plantas. A mistura final é em seguida destilada e filtrada. Na etapa final, faz-se uma colorização, para ajustar o sabor e a apresentação da bebida, com o famoso tom esverdeado.
As ervas que entram na maceração (com o álcool etílico) são: artemisia absinthium, artemisia pontica, anis, funcho, melissa (ou erva-cidreira verdadeira ou citronela) e hissopo. Na colorização entram o pequeno absinto, o hissopo e a melissa.
Quanto ao serviço: colocava-se em cima da taça uma colher perfurada (poderia até parecer uma “peneirinha”), e sobre ela um tablete ou cubo de açúcar. Por cima deste, fazia-se jorrar, vagarosamente, água, até que o açúcar se dissolvesse na taça.
Por fim, o João Luiz insinua que os lendários pintores da Belle Époque, Toulouse-Lautrec e Amadeo Modigliani teriam morrido em função do absinto. Pelo que sei, Lautrec, de saúde já frágil, morreu em razão da sífilis e do alcoolismo. Era alcoólico desde jovem e assíduo freqüentador de bordéis. Criou um drinque famoso, o “Tremblement de Terre” ou “Terremoto”: três doses de absinto e três doses de conhaque. É de derrubar o Hulk!
A saúde de Modigliani também era frágil: sofria de tifo desde a infância e morreu tuberculoso, um fim apressado pelo alcoolismo e o haxixe. Acho que devemos culpar os excessos. O absinto fica como bode expiatório.
Qual o crítico mais influente? O Guilherme avisa que “não adianta eu ficar puxando a brasa para a Jancis Robinson, pois o crítico mais influente continua sendo o Robert Parker”.
Bom, acho que, em se tratando de Parker, sua influência é medida mais por quantidades. Sendo assim, atualmente o crítico mais influente é o Shizuku Kanzaki, um sommelier japonês, personagem da série de quadrinhos e desenhos animados, a Kami no Shizuku (“Gotinhas dos Deuses”). As indicações do sommelier de duas dimensões são capazes de esvaziar as lojas de vinhos japonesas e coreanas em poucas horas ou de fazer preços dispararem por um mero comentário a respeito de um ou outro rótulo. A newsletter de Robert Parker tem 50 mil assinantes. As aventuras (e dicas) de Shizuku são lidas por pelo menos meio milhão de japoneses todas as semanas.
Com a Jancis Robinson eu aprendo a conhecer mais sobre a bebida e a ser humildade e paciente pelo muito que ainda falta saber.

11.9.08

Da vinha ao vinho

O vinho que tomamos vem de um vinhedo, você sabe. E vinhedo é uma criatura difícil, exigente. Para começar, todo vinhedo tem o seu DNA, a sua própria personalidade, mais conhecida no mundo dos vinhos como terroir, um termo francês, que não significa literalmente terreno, mas a combinação de fatores ambientais e físicos que afetam a vinha: sua localização, clima e tipo de solo. Juntos, vão realizar um intenso trabalho que no final determinará a quantidade e a qualidade das uvas. A complexidade de cada um desses fatores e a quantidade de combinações possíveis que oferecem faz com que nunca dois vinhedos, mesmo vizinhos, sejam exatamente iguais.
As uvas. São, claro, as estrelas da festa. A espécie de vinha utilizada para a produção de vinho é a Vitis Vinifera, cultivada há milhares de anos. A Vitis é uma trepadeira da família das vitáceas. Existem mais de mil variedades dessa família. As uvas apropriadas para vinhos, ao contrário das de mesa, que compramos nas feiras e supermercados, costumam ser menores, suas cascas são mais grossas e têm caroços. Elas gostam de sol, mas não muito; amam o calor, mais não muito; gostam de umidade, mas não muita; adoram um solo ruim e como; e amam as altitudes.
Clima. É importantíssimo, tem influência não apenas no sabor, mas no tempo de vida de um vinho. Mais de 90% da produção de uvas apropriadas para vinhos acontece numa faixa de terra entre 35 e 45º, tanto no hemisfério norte quanto no sul. Como regra geral, os vinhos produzidos no hemisfério norte, em climas mais frios, serão mais ácidos e conterão menos álcool. Já aqui embaixo acontece o oposto: menor acidez e maior volume alcoólico.
Solo. Pode ser de calcário, argila, granito, até mesmo de cinzas vulcânicas – o solo desempenha um enorme papel na saúde dos vinhos e, por extensão, no seu sabor final. Alguns drenam melhor a água; outros são naturalmente mais ricos em nutrientes e minerais. São essas variações que determinarão quanto mais de água as vinha necessitará, sua capacidade de guardar calor, sabor, textura e até mesmo como vão se defender de pestes e doenças.
Água. Como qualquer planta, as vinhas precisam de água. Só que não tanta, assim. Pois elas são naturalmente estressadas. Se muita a água, ficarão preguiçosas para produzir um fruto de boa qualidade.
A natureza. Ela é o fator imponderável, como todo agricultor sabe. Pode ser cruel ou magnânima. Uma mudança nas condições climáticas de um ano para outro significa que o vinho também será alterado. Apesar de todos os avanços tecnológicos, a indústria do vinho ainda está à mercê dos elementos.
Métodos. Além das importantes considerações relativas ao clima, solo e água, a plantação de uvas depende de uma variedade de práticas. Por exemplo, a distância entre cada vinha, como será feita a poda, como protegê-la de doenças.
Na viticultura convencional, a mais comum, o agricultor usa o que quer e pode, como fertilizantes químicos etc., para assegurar os melhores resultados possíveis. Mas pode optar pela agricultura orgânica, cada vez mais popular, inclusive entre consumidores. Os vinhos orgânicos são aqueles produzidos a partir de uvas que cresceram sem o uso de fertilizantes, herbicidas e fungicidas industriais e sem que recebessem aditivos sintéticos.
Ou pode trilhar a viticultura biodinâmica, cuja base é a orgânica, mas que acrescenta elementos da homeopatia, astronomia e astrologia. Aqui todo o vinhedo é tratado como um único organismo vivo que opera em linha com os ritmos lunares e cósmicos.
O agricultor começa a trabalhar já em abril, quando a planta entra em hibernação, perde as folhas e fica descansando. Então é feito o plantio e enxertos das plantas novas e a poda nas velhas. É um trabalho que vai até julho.
De agosto a dezembro, vemos as folhas brotarem e mais ou menos dez semanas depois a floração, que vão resultar em cachos de uvas. Quando esses cachos estão completamente formados, o agricultor já sabe que está a 100 dias do amadurecimento completo. Com 70 dias, acontece o Véraison, quando as uvas mudam de cor e entram na fase final de amadurecimento. Logo em seguida, temos a colheita, primeiro a das uvas brancas, mais precoces, e depois a das tintas. As mãos são naturalmente mais delicadas do que as máquinas, que nem sempre alcançam onde nós podemos chegar.
A vinícola. Bem, as uvas colhidas são levadas com todo o carinho para a adega da vinícola, onde elas serão convertidas em suco por um processo relativamente simples. E desse suco, elas vão evoluir para vinho. E aí o trabalho é outro, talvez mais difícil.
Como fazer vinhos brancos, tintos, rosados, espumantes, doces, secos, fortificados. Tudo isso fica para a próxima semana, pois não queremos cansar a leitora.
Da Adega
Uva chocante
. Há oito anos, o jornalista gaúcho Lasier Martins, da RBS-TV, cobrindo ao vivo a Festa da Uva em Caxias do Sul, RS, quis mostrar um belo cacho de uvas sobre uma vitrine – que estava eletrificada sem que o repórter soubesse. Levou um choque de 220 volts e caiu, desacordado. Agora, o filmete do acontecimento está em toda a parte. Veja
aqui:
Mapa do Tesouro. A Academia do Vinho acaba de lançar a segunda edição do livro “O Mapa do Tesouro”, um guia divertido para iniciantes do mundo dos vinhos: história, as uvas, a vinificação, tipos de vinho, harmonização com alimentos, armazenamento, serviço e as principais regiões. A primeira edição esgotou-se rapidamente. A segunda vem revista e ampliada. Vendas pelo site da
Academia.

A herança de Chernobyl

Chernobyl está presente nos vinhos há centenas de anos, muito antes de ter seu nome vinculado ao maior desastre nuclear da história, ocorrido em 1986 na Ucrânia, então parte da URSS.
A catástrofe resultou em nuvens radioativas sobre várias partes da Europa, causando pânico. Na Suécia, por exemplo, a incerteza das conseqüências dessa terrível ameaça invisível continuam a assombrar a população, que evita consumir alimentos produzidos no rastro da precipitação. E isso incluiu os vinhos importados de algumas regiões da França sob a nuvem fatal, o que abriu caminho para vinhos dos EUA, em particular os de Washington, feitos ao estilo de Bordeaux.
Porém, a precipitação de Chernobyl está ajudando físicos da Universidade de Bordeaux a desenvolver um método de datar os vinhos pelos níveis de sua irradiação. Os cientistas estão medindo a radioatividade gerada pelos testes nucleares na atmosfera feitos em 1950 e 1963 e, agora, pelo desastre na Ucrânia. Com isso poderão determinar as safras dos vinhos e combater fraudes, protegendo principalmente colecionadores e investidores: investem pesado em rótulos de safras antigas, quando muitas vezes os vinhos nas garrafas são do ano passado. E isso poderá ser feito sem que se abram as garrafas.
Chernobyl, como substantivo, acompanha os vinhos desde os tempos em que os vinhos eram aromatizados com ervas, especiarias, resinas, açúcar ou mel. Afinal, era bem melhor assim do que beber vinagre. Nossos ancestrais da Idade Média flavorizavam o vinho rotineiramente: a bebida final era chamada de Hippocras (já que as ervas, especiarias etc. eram torcidas e coadas numa bolsa chamada “manicum hipocraticum” ou “manga - de camisa, vestido - de Hipócrates” (o grego considerado o pai da medicina).
Uma das ervas largamente utilizadas era a “artemisia absinthum”, que os alemães chamavam de “wermut” e que foi anglicizada para “wormwood”, planta de grandes qualidades medicinais, ótimo tônico para o estômago. A palavra “wermut” foi aproveitada por Antonio Benedetto Carpano, de Turim, Itália, quando criou em 1786 um vinho fortificado e flavorizado com ervas e especiarias (entre elas o “absinthium”), que chamou de Vermouth, nome tomado do alemão “wermut”, tradução de absinto, como vimos.
Acontece que uma possível versão de absinto para o russo é chernobyl. E por isso o desastre nuclear dessa usina é ocasionalmente ligado a um verso do Apocalipse (8:10,11), no Novo Testamento, quando o anjo joga uma estrela em chamas sobre rios e fontes de águas, fazendo-as amargas e letais: “e o nome da estrela é absinto” (“apsinthos” no original grego).
Parece que a bebida começou como uma panacéia criada por volta de 1792 por um médico francês, Pierre Ordinaire, que vivia na Suíça. Nos dois séculos subseqüentes, chegou a ser a bebida mais popular da França, o símbolo da Belle Epoque. Em 1910, os franceses beberam 36 milhões de litros de absinto, que ganhou as graças de artistas e escritores e era utilizada para estimular a criatividade. Mas logo foi ligada a crimes hediondos, ganhou a imagem de droga altamente tóxica, alucinógena, fatal, que fez vítimas famosas, como Oscar Wilde, Verlaine, Rimbaud, Villiers de l'Isle Adam, Alfred Jarry, entre outros.
Nada disso foi cientificamente provado. O caso é que o absinto, naquela época, tinha um grande conteúdo alcoólico (às vezes, mais de 60%) e um dos componentes químicos da planta, a tóxica tujona, era utilizada em altas doses (entre 50 e 100 mil partes por milhão), o que podia resultar em danos neurológicos. Na verdade, a bebida serviu de bode expiatório para o alcoolismo vigente e acabou banida em quase toda a Europa menos em Portugal, Espanha e Inglaterra, países que a partir de 1990 lideraram a sua recuperação em todo o mundo (claro que com menos álcool e quase nada de tujona).
Mesmo com a praga de um anjo apocalíptico, um desastre nuclear e fama de destruidor nas costas, o absinto voltou, ainda sem o sucesso do passado, mas já deixou filhotes deliciosos, pelo caminho, através dos pastis, ouzo, arak e raki, com o anis em lugar da artemísia.

3.9.08

Certo ou errado?

Qual o maior preço por uma simples uva? E onde fica o maior barril de vinhos do mundo? As igrejas agora têm wine bars? Champagne é terra de viúvas? Faça esse teste, verifique seus conhecimentos sobre os vinhos. Vamos lá:
As perguntas:
1) Uma igreja brasileira planeja abrir uma série de bares para servir vinhos aos seus fiéis. Será possível?
2) Recentemente, a revista americana especializada Wine Spectator concedeu um “Prêmio de Excelência” pela carta de vinhos a um restaurante brasileiro. Certo ou errado?
3) Júlio César, D. Pedro II, Napoleão: qual desses imperadores deliciou-se com vinhos feitos com a cepa Aleatico?
4) A melhor hora para degustar um vinho é entre quatro e seis da tarde. Certo ou errado?
5) Não se deve beber um vinho branco com pequenos cristais no fundo da garrafa ou sob a rolha. Certo ou errado?
6) Aromas de origem animal (couro, pele suada, almiscareiro...) são característicos de vinhos tintos jovens. Falso ou verdadeiro? 7) Já os aromas de frutas cítricas (laranja, limão, tangerina...) indicam vinhos brancos jovens. Sim ou não?
8) A filoxera é a doença mais conhecida dos vinhos?
9) Riesling é uma appellation d’origine contrôlée na Alsácia. Certo? Errado?
10) A Maison Chanoine Frères foi a primeira casa comercial de Champagne a ser fundada. Falso ou verdadeiro?
11) A diferença entre madame Clicquot e madames Perrier e a Pommery é que a primeira era viúva. Certo ou errado?
12) Champagne deve ser servida entre 5 e 8º C. Deve ou não deve?
13) A garrafa de Champagne com capacidade para trinta litros é chamada de Jeroboão. É isso mesmo?
14) Gewürztraminer é a variedade mais produzida na Áustria. Será?
15) Dolcetto, uma uva tinta do norte da Itália, é exclusiva das províncias de Cuneo ou de Alessandria, no Piemonte?
16) Quais dessas é a branca mais plantada em Rioja, Espanha: Macabeo ou Viura?
17) Cabernet Sauvignon é a uva dominante nos vinhos da terra de D’Artagnan, a Gasconha? Vrai ou Faux?
18) É no Japão, China ou Índia onde um cacho de uvas pode custar até mil dólares?
19) O mais antigo sobreiro, a árvore que produz cortiça, fica em Portugal e é apelidado de “Arvore dos Pássaros”. Certo ou errado?
20) O maior barril de vinho do mundo fica na França. Certo ou errado?
As respostas:
1) A anglicana Catedral de Birmingham, Inglaterra, vai inaugurar uma rede de wine bars na cidade, onde os fiéis poderão beber vinhos se comprarem tíquetes de desconto em sua sede. Os bares serão decorados com púrpura episcopal e vidraças com temas religiosos. Amém!
2) É de Milão, Itália, a Osteria l’Intrepido, restaurante inventado pelo autor e crítico de vinhos Robin Goldstein. A carta que criou para a Osteria era composta de vinhos anteriormente avaliados como medíocres pelos próprios críticos da WS. O restaurante só existiu virtualmente.
3) D. Pedro II fez muitas viagens, mas nunca esteve em Elba, ilha do primeiro exílio de Napoleão Bonaparte e famoso centro de produção de vinhos com essa tinta aromática, membro da família Moscatel, quase sempre vinificada doce. Napoleão era freguês certo.
4) Segundo mestres franceses, a melhor hora para degustarmos um vinho é 11 da manhã. Os sommeliers da Terroir Experience afirmam que, nesse horário, quando fome já se manifesta, estamos mais sensíveis e a degustação é mais pertinente.
5) Pode beber sem susto: quando gelado, é comum ocorrer uma precipitação de ácido tártaro nos vinhos brancos, o que resulta na formação de cristais absolutamente inofensivos.
6) Esses são aromas terciários, de evolução, característicos de tintos potentes e tânicos a partir de determinada idade.
7) Acertou quem respondeu vinhos brancos jovens, cítricos, de grande frescor.
8) A doença mais conhecida dos vinhos é a da rolha ou TCA (“bouchonné), que deixa um gosto ruim na bebida. A filoxera é um pulgão, um inseto que ataca a vinha e não o vinho.
9) Riesling é apenas o nome de uma cepa da Alsácia, única região da França autorizada a colocar o nome das cepas nos rótulos. Lá são cultivadas também a Gewürztraminer, Pinot Gris, Pinot Noir, Pinot Blanc, Muscat, Chasselas e Sylvaner.
10) Falso. A primeira casa comercial fundada em Champagne foi a de Nicolas Ruinart, em 1729. A Chanoine Frères começa a funcionar no ano seguinte. E a Moët et Chandon em 1743.
11) As três eram viúvas: assumiram e projetaram Champagne após a morte de seus maridos. Mas a região tem mais viúvas importantes: Camille Orly Roederer, Elisabeth Bollinger, Yolanda Kunkelmann (Piper-Heidsieck), Suzanne Gosset Paillard.
12) O champanhe deve ser servido entre 6 e 10º C. A temperatura ótima seria 9º C.
13) Não, a garrafa de três litros é a Jeroboão. A de 30 litros é chamada Melquizedeque (rei, profeta ou sábio no Velho Testamento).
14) A branca Grüner Veltliner é a variedade mais plantada na Áustria e resulta em vinhos picantes e aromáticos.
15) O Dolcetto é exclusivo das duas províncias: Cuneo e Alessandria.
16) A Macabeo também é chamada de Viura.
17) Os grandes vinhos da terra de D’Artagnan, a Gasconha, vinham da comuna de Madiran, no sudoeste da França, que também é uma AOC, produtora apenas de tintos, geralmente potentes, com muitos taninos. A uva dominante é a Tannat, de 40 a 60% presente em cada garrafa. A Cabernet Sauvignon e a Cabernet Franc (ou Bouchy, na região) são as uvas secundárias.
18) Num leilão realizado semana passada na cidade de Ishikawa, Japão, um cacho com 35 uvas foi vendido por US$ 910,00. Cada uva saiu por US$ 26,00. Trata-se da Ruby Roman, uma híbrida japonesa, cor de tomate e quase do tamanho de uma bola de pingue-pongue. Quem arrematou foi um dono de restaurante. Imagine o preço a ser repassado para os clientes da casa?
19) O sobreiro mais antigo do mundo foi plantado em 1783, perto da cidade de Águas de Moura, no Alentejo, Portugal. Seu apelido é “Árvore Assobiadora”, assim chamada pela grande quantidade de pássaros canoros que a habitam. É o mais antigo e também o mais produtivo do mundo. Tem 14 metros de altura e 4, 14 metros de circunferência. Na safra de 1991 produziu 1.200 quilos de cortiça, bastante para produzir mais de 100 mil rolhas para vinhos.
20) O maior barril do mundo fica no Castelo de Heidelberg, Alemanha, na cidade de mesmo nome. Foi construído em 1751 a partir de 130 carvalhos. Com 7 metros de altura e 8 de largura, tem capacidade para 220 mil litros de vinhos. Sobre ele o Príncipe Eleitor Karl Theodor mandou construir uma plataforma para danças. Diz a lenda que um anão chamado Perkeo, o bobo da corte, era quem tomava conta desse fenômeno. O anão teria morrido acidentalmente ao beber por engano uma taça de água. Seu sistema só admitia a Riesling.
Até o próximo teste.

28.8.08

Quando misturar é melhorar

A maioria dos vinhos finos do mundo é feita misturando-se diferentes variedades de uvas. Por aqui (e na maior parte do Novo Mundo) muita gente ainda pensa que vinhos feitos com apenas uma cepa são superiores aos aqueles feitos com mais de uma. Instintivamente pensamos que um vinho um puro Cabernet Sauvignon é melhor do que uma mistura dessa cepa com outras duas ou três variedades.
Porém, o vinho feito de uma cepa dominante, ou varietal, é uma herança recente, um conceito desenvolvido na Universidade da Califórnia, em Davis, logo depois do fim da Lei Seca, em 1933,. Os produtores americanos foram encorajados a plantar cepas de melhor qualidade, o que resultou no sucesso dos vinhos da Califórnia a partir dos anos 70. Para começar, o consumidor americano aprendeu a distinguir um Cabernet, por exemplo, dos até então usuais rótulos vendidos no país com nomes genéricos, como “Borgonha” ou “Chablis”. E de fato, ainda hoje continua sendo mais fácil identificar o vinho pela cepa do que pela região de origem, como é a regra há muitos séculos em grande parte da Europa.
No Velho Mundo, os vinicultores aprenderam a fazer com que o cravo não brigasse com a rosa. E, ao contrário, unissem seus aromas, formando uma nova e preciosa unidade. Se duas ou mais variedades de uvas de grande qualidade são misturadas, cada qual complementando a outra, o resultado final tende ser sempre mais interessante do que o vinho feito apenas com uma só variedade.
No Novo Mundo, o foco está sobre um punhado de algumas variedades: as brancas Chardonnay, Sauvignon Blanc e Riesling e as tintas Merlot, Shiraz, Pinot Noir e Cabernet Sauvignon – o que torna mais fácil entendermos o que bebemos.
Os franceses, por exemplo, preferem concentrar-se na origem do vinho e por isso não vamos encontrar a palavra Sauvignon Blanc numa garrafa de Sancerre ou Pinot Noir num vinho da Borgonha e Merlot num rótulo de Bordeaux.
Claro que temos grandes vinhos feitos de uma só variedade, seja no Vale do Mosela, Alemanha (com a Riesling), seja no norte do Vale do Ródano, França (Syrah), na Borgonha (Chardonnay ou Pinot Noir), em Marlborough, Nova Zelândia (Sauvignon Blanc) ou no Vale de Napa, Califórnia (Cabernet Sauvignon). Mas é bom observar que na maior dos países do Novo Mundo é permitido aos produtores acrescentar de 15 a 25% de outras variedades ao vinho, sem que isso seja mencionado no rótulo. Uma Chardonnay pode conter uma pobre Colombard, numa técnica descrita por um vinicultor como “o equivalente a colocar sardinhas no mingau de aveia”. Ou seja: uma brecha que possibilita a redução de custos e, algumas vezes, aproximar a bebida do medíocre.
Mas o fato é que os vinhos de corte fazem a imensa maioria das melhores garrafas. As mais famosas regiões vinícolas européias – Rioja, Vale do Duro, sul do Ródano, Chianti, Champagne e Bordeaux, por exemplo – basearam o seu sucesso combinando duas ou mais variedades.
Pense num prato de feijão. Agora, pense numa feijoada, um corte de mais uma dezena de elementos que resultarão num alimento mais complexo, com várias nuances, extremamente mais saboroso e estimulante, mas nunca ofuscando o importante papel do feijão. Com os vinhos, temos, por exemplo, o tinto Châteauneuf-du-Pape, do sul do Ródano, que usa até 13 variedades de uvas, inclusive brancas.
Em Bordeaux, a tradição e a lei permitem até cinco variedades: Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc, com pequenas quantidades de Petit Verdot e Malbec. E esse costume provavelmente se originou para proteger o vinicultor de acidentes. A Merlot e a Cabernet Sauvignon, por exemplo, têm ciclos de desenvolvimento diferentes. A Merlot amadurece mais cedo, o que a livra dos riscos das chuvas de outono. Já a Cabernet só ficará pronta para a colheita mais tarde, o que a coloca sujeita às chuvas. Jogando com essas diferenças, o produtor sempre estará protegido, garantindo ainda que o resultado final seja melhor do que um vinho feito apenas de uma só variedade (e sujeito a problemas com o clima).
Tomado simplesmente, um vinho de corte é aquele que combina dois ou mais vinhos para criar um novo. E o vinicultor, fora proteger-se contra os azares do clima, como vimos acima, faz isso para melhorar os aromas e a cor da bebida; ajudar o pH de um vinho; aumentar ou reduzir a sua acidez, o mesmo com o volume de álcool e os taninos; ajustar o açúcar; corrigir a presença em demasia do sabor de carvalho.
Ele pode ainda fazer corte de diferentes variedades, misturar uvas de variados vinhedos, de diversas safras, vinhos com vinificações desiguais ou de barris variados.
Ao realizar essas combinações, o vinicultor está muito mais do que misturando ou adicionando uma quantidade de vinho a outro. Está criando complexidade, uma diversidade de sabores e aromas originais, mais ricos do que os teríamos com o vinho de uma só variedade.
Essa, inclusive, é a grande hora do vinicultor, a sua hora de maestro da melodia resultante dessas combinações. Rodgers e Hart, dois dos maiores compositores populares de todos os tempos, autores de grandes clássicos da música americana (Blue Moon, Bewitched, The Lady is a Tramp etc.) tiveram no cantor e trompetista Chet Baker talvez o maior intérprete de My Funny Valentine – foi sem dúvida o seu mais inspirado vinicultor (já viu que sou fã de carteirinha do trompetista).
A leitora prefere só o baião ou acha melhor o baião de dois (feijão de corda e arroz numa mesma panela, como reza a receita de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)? Prefere os vinhos combinados, de corte, ou os varietais?
Da Adega
Os melhores do Wine Brasil Awards 2008
. Entre os vencedores a Miolo, Salton, Pizzato e Panizzon receberam medalha Grande Ouro. Casa Valduga, Goes & Venturini, Boscato, Cordelier, Don Abel, Luiz Argenta, entre outros, ficaram o Ouro. Outros 27 rótulos de 14 vinícolas ficaram com Prata. No total, apenas 44 vinhos foram premiados, na rigorosa avaliação de um júri composto por 15 especialistas de diferentes países, seguindo os critérios da Organisation Internationale de la Vigne et du Vin, no certamente recentemente encerrado em Bento Gonçalves, RS. A lista completa com os vinhos vencedores pode ser conferida no site da revista
Vinho Magazine, uma das organizadores do evento.
Medalha de Ouro para Cabernet da Valduga. O Casa Valduga Cabernet Sauvignon Premium 2005 garantiu a única medalha de ouro para o Brasil no VinAgora International Wine Competition 2008, realizado em Budapeste, Hungria. 2005 é considerada a melhor safra de todos os tempos no Brasil.

Como dói!

Pois é: jogaram no ventilador da Wine Spectator: ela concedeu um “Prêmio de Excelência” por sua lista de vinhos a um restaurante inexistente, obra de um iconoclasta, autor e blogueiro Robin Goldstein. Veja o post abaixo: “O Zizinho estava certo”.
O Editor Executivo da WS, Thomas Matthews, explicou que a revista foi vítima de uma “trapaça visando publicidade”, que o programa “Restaurant Awards” existe desde 1981 para “encorajar restaurante a melhorar seus planos quanto aos vinhos”, já tendo avaliado mais de 45 mil cartas de vinho. Revelou que realmente a revista não visita cada restaurante do programa e que cerca a terça parte dos inscritos em 2008 não conseguiu qualquer premiação. Afirmou que telefonaram para o restaurante várias vezes, mas deram com uma secretária eletrônica. Encontraram, pelo Google, a casa no seu endereço em Milão e a mesma enviou um link para um website que listava pratos e vinhos oferecidos pela virtual Osteria.
Matthews negou aos Los Angeles Times que o objetivo do prêmio seja gerar receita para a revista: “O programa foi feito para reconhecer os esforços feitos pelos restaurantes em melhorar suas listas de vinhos; os prêmios contribuíram para a crescente popularidade do vinho desde que o programa começou em 1981”.
A revista costuma ser apelidada “Wine Speculator” por seus críticos (“especuladora”, quem conjectura sem conhecer os fatos ou envolta em interesse, lucro). A WS é muito poderosa, a mais famosa publicação sobre vinhos do mundo (ao lado da inglesa Decanter). Como todo Golias, está sujeita a pedradas e rasteiras. Concordo que seja uma grande divulgadora do vinho, mas não com a sua voz de dona da verdade.
Ganhar esse prêmio e colocá-lo na parede, ter o nome da casa na revista e no seu site é justa ambição de muitos restaurantes em todo o mundo. É uma forma de marketing e publicidade: custa apenas US$ 250,00. E é fácil obtê-lo. Esse ano houve 4.500 inscrições. E todas, menos 319, ganharam prêmios de Excelência e alguns outros com mais predicados. No total, a revista faturou mais de US$ 1 milhão com o programa, o que é um bocado de dinheiro em qualquer lugar.
Robin Goldstein explicou que seu objetivo foi expor “os critérios duvidosos utilizados pela revistas em seus prêmios para culinária e vinho”. A lista que criou para a Osteria l’Intrepido é composta de vinhos avaliados acidamente pelos críticos da WS. Na sua escala de 100 pontos, entre 50-75, o vinho não é recomendado. Um vinho medíocre é o que fica entre 75-79. Por exemplo, na lista temos o Amarone Clássico Tedeschi 1998, com 65 pontos (“... bolorento e cansado...”). O Amarone Clássico ‘La Fabriseria’ Tedeschi 1998 ficou nos 60 pontos (“... Inaceitável. Aroma de inseticida...”). Já o Brunello ‘La Casa’ Tenuta Capararzo 1982 chegou aos 67 pontos (“... Aromas de cocheira...”). Não há um vinho “bom” nessa lista (entre 80 e 84 pontos).
Esse formato de premiação está evidentemente sujeito a “abusos”, especialmente nesses tempos de Internet. Agora, atacar os blogueiros, como fez James Mollesworth, Editor Senior da revista, é enfiar a carapuça: “Esse é o problema da blogosfera. É o jornalismo de preguiçosos. Ninguém faz pesquisa pra valer, apenas sapecam num link e jogam alguma conjectura na parede e pronto, conseguem alguma audiência e tráfego...”
É conjectura o fato de que a revista fature muito bem com restaurantes que não visita e com listas de vinhos que não analisa? E, no caso, vinhos cotados como medíocres por ela mesma e de tal forma que se fossem avaliados a sério a Osteria l’Intrepido seria eliminada. O que o nosso Davi fez foi levantar o tapete e descobrir que esse prêmio que está fazendo água. Não foi jornalismo de preguiçosos. Robin teve ter tido uma trabalheira danada. E quem abusou de quem aqui?
Olha que esse foi um golpe revelado pelo autor. Será que outros restaurantes também não inventaram listas e agora se promovem com diplomas vazios? E os que fizeram tudo certinho? Têm o direito de pensar que o que interessou mesmo foi a grana e que sua lista sequer foi considerada.
Peço licença ao grande Drummond e à sua querida Itabira: o Prêmio de Excelência da Wine Spectator é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!

21.8.08

O Zizinho estava certo

A essa altura, o leitor já deve ter sabido que um restaurante inexistente ganhou o Prêmio de Excelência da badalada Wine Spectator.
Repasso a notícia em memória de um grande amigo, o Zizinho Leite Garcia, criador da melhor e mais tradicional pousada de Petrópolis, o Tambo de los Incas. Na verdade, ele foi o pioneiro da hotelaria de primeira classe na Serra. Pois Zizinho esteve ao ponto de candidatar o seu Tambo, no Vale do Cuiabá, no famoso Restaurant Awards da revista americana especializada em vinhos.
Em meados dos anos 90, Zizinho já tinha farejado a moda dos vinhos se avizinhando. E investiu um bocado: criou uma adega espetacular para serviço exclusivo da casa; abriu, na frente da pousada, uma delicatessen cujo ponto alto eram os vinhos. E levou seus funcionários a fazer curso na Associação Brasileira de Sommeliers – investimento em pessoal raro até hoje, entre restauradores. Não falo dos cursos rápidos, informativos. Mas os de longa duração, de formação de sommeliers.
Com tudo pronto, ele buscou divulgar a sua casa, onde além de uma cozinha originalmente criada por um chef suíço, que por sua vez legou seus conhecimentos ao fabuloso Serginho – ela agora contava com grandes rótulos e profissionais preparados para o serviço de vinhos. Quer mais o quê?
Várias vezes me questionou sobre a validade de inscrever o Tambo no concurso. Seu problema era pagar US$ 150,00 para poder concorrer. “Seu estou fazendo a coisa certa, vão saber e me avaliar. Não preciso pagar nada”, comentava. “O Guide Michelin, por exemplo, não cobra nada”. E, por isso, acabou não entrando. Mas ficava em dúvidas. Naqueles tempos, um hotel na Serra ganhara um desses prêmios, com mais algumas casas do Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Todas certamente colocaram o diploma que a revista concede a cada premiado na parede. Sabe lá o que é isso, uma distinção vinda do estrangeiro? Zizinho só não tinha dúvidas em continuar investindo na casa, com mais e melhores quartos, novos serviços, ampliação da adega, taças alemãs e austríacas, pessoal cada vez mais afiado etc.
Agora, um autor dedicado aos vinhos, Robin Goldstein (é sucesso o seu “The Wine Trials”, onde demonstra que mesmo degustadores profissionais não conseguem diferenciar um vinho de US$ 20,00 de outro de US$ 100,00) resolveu entrar no concurso. Pagou US$ 250,00 (o preço válido para a edição de 2008 do concurso) e inscreveu um restaurante fictício, cujo nome inventou: “Osteria l’Intrepido”. Em seguida, tramou um cardápio, segundo ele, “uma divertida mistura de receitas na nouvelle cuisine italiana”, e uma lista de vinhos. Submeteu tudo à revista (pagando a taxa, claro). A lista foi aprovada e Goldstein recebeu o “Prêmio de Excelência”. A revista publicou em sua edição de agosto uma referência ao prêmio e à Osteria. Veja aqui
Tem mais: a lista de vinhos aprovada e premiada foi em sua maior parte tirada de vinhos italianos testados pela revista nos últimos 20 anos – mas aqueles com a mais baixa pontuação. Veja a lista no site criado especialmente por Goldstein.
Goldstein comenta o óbvio: “É problemático, naturalmente, que um restaurante que não exista possa ter ganho o Prêmio de Excelência. Mas também problemático é o fato de que o prêmio não esteja particularmente ligado à qualidade da lista de vinhos, mesmo pelos padrões da própria “Wine Spectator”. Diga-se que a revista não se obriga a visitar os restaurantes. O que me parece ainda mais problemático.
Se fosse vivo, Zizinho estaria me perguntando, sorrindo, se sabia de restaurantes tirando os diplomas da parede. O Tambo continua lindo, tocado agora pela filha do velho mestre, a Gilka, e ainda com o mesmo pessoal formado pelo pai. O Zizinho sempre esteve certo.

17.8.08

Por via das dúvidas

Temo no que possa dar essa Lei Seca para motoristas. As eleições estão aí e diante do portentoso noticiário conseguido pela nova legislação alguns candidatos dados ao vício da abstinência (é um vício, segundo o Millôr), podem ter planos de ampliá-la. Uma coluna como “Adega & Bar” pode ser proibida, sua amiga aqui processada e até presa.
Por isso, para cair nas graças desses candidatos, ofereço algumas sugestões de leis ainda em vigor nos Estados Unidos, filhotes da famosa Lei Seca que lá vigorou de 1920 a 1933.
Na Califórnia, nenhuma bebida alcoólica pode estar a menos de dois metros da caixa registradora, caso a loja venda bebida alcoólica e também óleo combustível. Será que os clientes confundem latas de cerveja com as de óleo combustível? Em Dakota do Norte, bares e restaurantes estão proibidos de servir cerveja e pretzels ao mesmo tempo. Em Nebraska, os bares só podem vender cerveja se, ao mesmo tempo, estiverem com uma panela de sopa no fogo. Em Houston, é ilegal comprar cerveja depois da meia-noite de domingo, mas nos conformes comprá-la a qualquer hora a partir de segunda-feira. Como sabemos, as segundas-feiras começam um segundo depois da meia-noite de domingo. Dá pra entender? Em Nova York, a palavra “saloon” é proibida em letreiros. O restaurador Michael O’Neil não sabia disso quando colocou a tabuleta no seu estabelecimento. Para não perdê-la, mudou o nome da casa para “Baloon”.
No Missouri, garotos carregando sacos de lixo que contenham garrafas de vinho vazias podem ser indiciados por possessão ilegal de bebida alcoólica. No Michigan é proibido a jovens oferecerem garrafas de destilados a adultos. O que é pouco, pois no Kentucky mesmo um adulto pode passar cinco anos na cadeia se flagrado presenteando amigos com bebidas alcoólicas.
No Texas, motoristas com qualquer carga de bebida alcoólica não podem cruzar municípios do estado onde o álcool seja proibido. Têm de buscar outros caminhos. Já viu que essas encomendas vão custar a chegar. Esse mesmo Texas baniu a Enciclopédia Britannica porque ela ensina como fabricar cerveja em casa.
Se eu vivesse em Maryland estaria em sérios apuros. Lá um jornalista só pode comprar três garrafas de vinho de cada marca, desde que certificado por uma agência estadual como especializado na bebida. Já em St. Louis podemos sentar em qualquer lugar e fazer qualquer coisa, menos beber cerveja num balde. Em alguns estados, para beber é obrigatório sentar, já em outros só de pé. No Texas, em pé, mas só três goles.
Só espero que toda essa onda de temperança não resulte numa Carrie Nation, senhora famosa durante a Proibição por invadir bares com a bíblia numa mão e uma machadinha na outra a destruir copos e garrafas. Chegou a faturar com isso: tinha sempre miniaturas de sua machadinha para vender como suvenir. Temo que essa lei, de perfil islâmico, atravesse as rodovias e invada nossas casas, com novas Carrie Nation de bíblia e bafômetro em punho.
Por via das dúvidas, dependendo do andar da carruagem eleitoral, penso até em mudar nome da coluna para apenas “BS.” Uma sigla relacionada a bebidas? Não, apenas uma cuidadosa referência a “Bom Senso”, algo que talvez esteja faltando a esses rigores legais. A Proibição nos EUA, com todo o seu zero de tolerância, resultou em mais bebidas, mais bêbados e em mais crimes – o que levou à sua abolição.

Questões de linguagem

Rua Mata-Cavalos: Machado de Assis não cansa de citar essa rua, onde nasceu e morou por bom tempo Bentinho, o protagonista de Dom Casmurro. Mas por que Mata-Cavalos?
E por que Bordeaux, Chardonnay, Pinot, Merlot, Sauvignon, Petrus etc.? Pois fizemos uma rápida investigação ao redor da etimologia de palavras recorrentes no mundo dos vinhos, sempre com a ajuda do google, de alguns livros e de uma ótima cronista de vinhos, a americana Jennifer Rosen. Eis aí no que deu:
Como todos os diletantes sabem, o jargão do vinho tem matriz na França. E, nesse país, Bordeaux é rico em ofertas lingüísticas. Veja o seu próprio nome: eau é água; bord é beira, margem. Au bord de l’eau significa “ficar à beira d’água”, que no caso, é sentar à beira do estuário do Gironde (que desemboca no Atlântico) e seus tributários, o rios Garonne e o Dordogne, que possibilitaram a Bordeaux tornar-se o sucesso que é hoje, com um importante porto comercial para vinhos e outros produtos.
Entre o Dordogne e o Garonne fica um pedaço de terra chamado, naturalmente, Entre-deux-mers, “Entre dois mares”.
Ao norte, na margem esquerda do Gironde, temos o Médoc, com apelações muito famosas pelos seus vinhos tintos: Margaux, Saint-Julien, Pauillac, Saint-Estèphe, Listrac e Moulis. Pois Médoc deve seu nome ao latim, Medicullicus, ou “terra dos Medulli, antiga tribo celta que ali habitava. O Médoc é terra dos grandes Châteaux. Na apelação de Pauillac temos os Châteaux Lafite-Rothschild, Mouton-Rothschild e Latour, entre outros.
Lafite é o nome da família que foi dona dessa propriedade desde a Idade Média. Só em 1868 é que o Barão James de Rothschild adquiriu o château. Lafite vem do gascão, la hite ou “pequena colina”. Mouton, propriedade de outro braço da família, significa carneiro, sempre presente nos rótulos de seus vinhos. A propriedade pertencia ao Baronato de Mouton. Latour refere-se à torre (tour) existente na entrada da propriedade.
Na apelação de Saint-Julien, ainda no Médoc, o Château Ducru-Beaucaillou é cortado por um belo riacho. E Beaucaillou é uma homenagem a esse riacho, pois beau caillou significa “belos seixos”. Outra propriedade do Médoc, o Château Beychevelle recebeu esse nome em razão dos veleiros navegando pelo Gironde. Todas as vezes que passavam diante da propriedade baixavam suas velas, pois estavam chegando ao porto. O comando “Baixar Velas!” em francês é Basse Voile!, que com o tempo deu nome ao château: Beychevelle.
Um dos vinhos mais caros e mais reverenciados do mundo, o Petrus, na apelação do Pomerol, pegou o seu nome da palavra grega petros, ou pedra. O nome foi transliterado para o latim como Petrus, que deu origem a Pierre, Peter e Pedro.
O nome de duas das principais uvas de Bordeaux, cabernet sauvignon (para os tintos) e sauvignon blanc (brancos) dividem a mesma raiz: sauvignon vem sauvage, selvagem. Merle é o nome dado a uma variedade de tordos e no dialeto de Bordeaux a um melro preto, o Merlot, outra das grandes uvas da região.
Já na Borgonha, só utilizam a Chardonnay (branca) e a Pinot Noir (tinta). Chardonnay vem do latim cardonnacum ou “lugar cheio de cardos“. Cardo (do latim cardu) é aquela planta emblema nacional da Escócia. Já a Pinot Noir, a mais escura das uvas da família Pinot, deve seu nome ao formato de seus cachos: de uma pinha.
Alguns dos famosos vinhedos da Borgonha revelam origens singelas: Chambertin foi cultivado por um camponês chamado Bertin. Aquele era o seu champ, seu campo, espaço de terreno. A região da Campânia, na Itália, tem a mesma raiz, assim como Champagne e a nossa Campanha gaúcha.
Um prestigioso branco da Borgonha, o Chablis Grand Cru Les Grenouilles tem em sua propriedade um grande número de rãs: são as Grenouilles.
Os nomes dos rios Reno (Rhein) na Alemanha, e Ródano (Rhône), na França possuem, ambos, raízes indo-européias. Mas o primeiro vem da raiz reie ou fluir, e o segundo de ret ou rodar, mas também pode ser assar, grelhar, tostar. Lá, a região do Côte Rôtie pode significar literalmente “declive tostado”, pois é uma rocha fortemente banhada pelo sol.
Na segunda metade do século XVI, bem antes dos tempos de Bentinho, quem quisesse tomar a direção de São Cristóvão, tinha que percorrer um caminho que saia dos Arcos (da Lapa), contornava o Morro do Desterro (Santa Teresa) e seguir por uma trilha enfrentando perigosos atoleiros e barrancos, que muitas vezes não só impediam como matavam os animais. Esse era o Caminho (depois Estrada e em seguida Rua) de Mata-Cavalos, hoje Rua do Riachuelo. Se houvesse uma vinícola por lá, por certo teríamos o vinho “Mata-Cavalos”, nome não muito mais estranho do que Château das Rãs, do Baixa a Vela!, ou do que um vinho feito com a uva do melro preto.
Peço desculpas às leitoras que enviaram e-mails nas últimas duas semanas. Um piripaque eletrônico ocorreu no meu PC. Segundo os técnicos, pode ter sido uma entorse lombar, um resfriado, uma crise de fígado, um ataque de gota... Nossa, a lista ficou enorme. Enfim, o meu Outlook voltou a funcionar e agora tento colocar a correspondência. Continuem escrevendo aqui para o Bolsa ou para a Soninha.
Da Adega
Que tipo de vinho você é? Lá da Bahia, a leitora Ludmila Aguiar fez o teste (
veja aqui) sugerido na coluna Um blend de assuntos. E descobriu que é a sofisticadíssima Pinot Noir. “Sofisticada e mundana, provavelmente você conhece mais sobre vinho do que a maioria dos degustadores. Tem excelente gosto e aborda todos os aspectos da vida com atitude de gourmet. Acredita que as pequenas coisas da vida devem ser valorizadas e apreciadas, desde que com a melhor qualidade possível. Demorar mais tempo em fazer uma refeição ou em dar uma volta pela cidade sempre será um tempo bem gasto. No fundo você é uma charmosa sedutora. Seu estilo em reuniões sociais é refinado – nunca “festeiro”. Está melhor em companhia de queijos caros e de aromas intensos”.
Ludmila, que faz parte da Confraria Amigas do Vinho, seção Salvador, implicou corretamente com a última frase do teste. Em inglês é: “Your company is enjoyed best with: Stinky expensive cheese". Stinky pode ser, literalmente, “fedorento”. Mas acho que estavam mesmo é querendo indicar um queijo de aroma intenso, como são normalmente os queijos azuis, os Roquefort, Gorgonzola, Stilton.
Aliás, não concordo com a harmonização sugerida: um vinho com a Pinot Noir, elegante e sutil, seria facilmente sobrepujado por queijos muito intensos e musculosos.
Vinho de James Joyce na praça. Os vinhos suíços estão de volta ao Brasil, agora pelas mãos da importadora e distribuidora Vitis Vinifera, baseada no Rio de Janeiro. Entre eles, a leitora vai encontrar o Fendant du Valais, o branco com uva Chasselas, o preferido de James Joyce, célebre autor de Ulisses, Finnegans Wake (onde o vinho é citado), Retrato de um artista quando jovem, entre outras obras-primas. Compre pelo site da
Vitis Vinifera.
Vertical de Haut Brion. A mesma Vitis Vinifera e a
Escola Mar de Vinho realizarão no próximo dia 25, das 19h30m às 22h30m, uma vertical daqueles que muitos consideram o maior vinho do mundo: o Château Haut-Brion safras de 1988, 1996, 2001 e de 2002. A apresentação será do professor Marcelo Copello. O evento compreende ainda um jantar assinado pela chef Ciça Roxo. Não perca: as vagas são pouquíssimas. Informações e reservas: 21-2235-7670/2235-3968 e vanessa.miranda@vitisvinifera.com.br
O universo do vinho, sob o olhar feminino. Esse é o nome do novo projeto da Confraria Amigas do Vinho. A cada mês, a Confraria apresentará uma vinícola ou uma importadora. E o primeiro encontro acontecerá já no dia 2 de setembro, quando Bianca Bittencourt apresentará a Casa Valduga, sua história e seus vinhos. O encontro, que inclui degustação de vinhos da Valduga e um bufê de pães variados, queijos e pastas, acontecerá às 19h30m no Porto Bay Hotel (Av. Atlântica, 1500, Copacabana, RJ. Para ingressos fale com a Ana Valéria (21-9968-2454 ou imprensa.amigasdovinho@hotmail.com) ou Kátia Regina (21-9983-8318) ou Maria Lúcia, Presidente Nacional da Confraria (21-9797-8277 ou amigasdovinho@uol.com.br )

13.8.08

De onde ninguém se chama João

Se houvesse uma olimpíada para vinhos, a China ameaçaria agora ganhar em pouco tempo um punhado de medalhas. Imaginem se apenas uma pequena parcela de sua população, hoje de um bilhão e trezentos e trinta milhões de habitantes, passasse a consumir um litro de vinho por mês. Poderia até faltar vinho em nossas mesas. A bebida começa a cair no gosto dos chineses.
Há cinco anos, a China mal conhecia vinho feito de uvas: era apenas um “acontecimento marginal”, relata a minha guru e sempre citada Jancis Robinson. Mas nesse curto espaço de tempo o país tornou-se o sexto maior produtor de uvas viníferas com aspirações grandiosas de tornar-se o maior produtor mundial de vinhos. Estima-se que até 2058, a China liderará a produção mundial, “com Cabernets capazes de concorrer com os de Bordeaux”. Ela já possui os vinhedos, mas ainda não a técnica.
No mercado de vinhos finos, a presença chinesa não é nada sutil. Os novos ricaços do país não param de correr atrás dos grands crus franceses. Por conta dessa voragem, os preços dos Romanée-Conti e Lafite normalmente altíssimos, chegaram à estratosfera.
Jancis Robinson esteve na China em 2002, 2005 e recentemente, em março de 2008. Ficou impressionada com a baixa qualidade dos vinhos e com a grande proporção destes que buscavam lembrar, mesmo longinquamente, os tintos franceses. Em março, a grande crítica inglesa notou o grande número de chineses com aspirações crescentes pelo estilo de vida ocidental e como o vinho tornou-se um acessório cada vez mais familiar a esse estilo.
Hong Kong hoje já rivaliza fortemente com Londres e Nova York como um importante centro comercial de vinhos. Estima-se que os colecionadores da Hong Kong respondam agora por um quarto dos vinhos vendidos em leilões. A empresa no momento líder do mercado de leilões nos Estados Unidos, a Acker Merrall & Condit, realizou o seu primeiro evento em Hong Kong e a resposta foi exuberante: venderam US$ 8,2 milhões.
Há dez anos o consumo de vinho cresce no país: 50% na primeira metade dessa década e estima-se em mais 70% na segunda metade. Claro que produtores, comerciantes e outros luminares do vinho, no ocidente, começaram a ver o país mais seriamente. O “imperador” do vinho Robert Parker, o mais famoso crítico do ocidente, acaba de fazer a sua primeira visita ao país, que incluiu um jantar de US$ 2.300 por cabeça na Grande Muralha. O site de Jancis Robinson já está sendo traduzido para o chinês. Contam-se às centenas as visitas de diretores de vinícolas para apresentar seus vinhos. Inclusive, produtores brasileiros ofereceram seus vinhos na International Wine Exposition em Shangai, em março último.
Recentemente, um milionário chinês, David Li, participou de um badalado leilão em Napa, Califórnia, e adquiriu por meio milhão de dólares seis magnums do Screaming Eagle 1992 (é considerado o melhor Cabernet Sauvignon do país – e um dos melhores do mundo; uma garrafa custa a partir de US$ 1 mil, isso quando puder ser encontrada). David Li declarou que “os vinhos do Vale de Napa são os melhores do mundo”.
E muita gente torce para que para que os demais novos ricos chineses imitem David Li. O problema é que eles cobiçam mesmo apenas os grandes vinhos franceses, particularmente os de Bordeaux e Borgonha: são suas pedras de toque, suas referências mais importantes. Já começaram a comprar vinícolas em Bordeaux, como acaba de acontecer com a venda do Château Latour-Laguens (que não tem relação com o famoso Château Latour). O Château Lafite transformou-se numa obsessão para os chineses fãs de vinho. Segundo apurou Jancis Robinson, preferem o Lafite a outros de mesmo porte, como o Mouton-Rothschild, Margaux, Latour ou o Haut-Brion, pois seu nome é mais fácil de pronunciar em mandarim do que os de outras marcas francesas. Será?
O caso é que os novos ricos chineses não diferem muito dos nossos: compram mais pelo prestígio rótulo, bebem marcas famosas, o que está na moda (desde que seja em Paris, Londres ou Nova York).
Para evitar que os chineses limpem as adegas de vinhos finos ocidentais só torcendo para que a indústria vinícola do país floresça. A China produz vinho desde a dinastia Han (206 a 220 A.C.). A bebida, porém, sempre foi estranha aos paladares chineses, tanto que a palavra mais usada para vinho é CHIEW, que significa genericamente bebida destilada e fermentada.
No fim dos anos 70, após a morte de Mao e a abertura da China para investimentos estrangeiros, um grupo de indústrias de bebidas ocidentais (Rémy Martin, Allied Domecq etc.) estabeleceram parcerias com vinícolas locais, que receberam equipamentos modernos e começaram a produzir vinhos ao nosso estilo, secos. Os vinhos chineses até então pareciam xaroposos e eram muito doces. Mais recentemente, verificou-se um aumento no número de pequenas vinícolas cujo objetivo é produzir vinhos com apelo internacional e, para isso, utilizam enólogos e consultores internacionais. Na província de Shanxi, um desses novos ricos, C. K. Chan, fundou uma vinícola que é réplica de um château francês, o Grace Vineyard (o nome está em inglês em razão da referência encontrada: seria “Vinhedo da Graça”). Produz um vinho com o blend clássico de Bordeaux (Cabernet, Merlot, Cabernet Franc), vendido a US$ 60,00 a garrafa.
No total, existem cerca de 450 vinícolas no país, da Mongólia, ao norte, até o Mar Amarelo, uma enorme faixa de terra compreendendo diferentes topografias, solos, climas e variedades de uvas. O sempre preciso crítico da Slate, Mike Steinberger, observa que não há razão para se pensar que o país não possa produzir vinhos de qualidade; a questão estaria em saber onde e com quais variedades. Mas a confiança é grande.
O fato é que para esse país continental e para a maioria dos mais de um bilhão de habitantes o vinho de uvas viníferas ainda é uma bebida estranha. Um experiente vinicultor inglês, Bartholomew Broadbent, sócio de uma vinícola a uns mil quilômetros a leste de Beijing, emprega um neozelandês como enólogo. Segundo ele, o maior desafio é “ensinar aos chineses a fazer vinhos adequados ao paladar ocidental. “Eles nunca provaram da comida ocidental e não existe ainda uma cultura do vinho. “Possuem a terra e o clima para fazer um grande vinho; agora é só uma questão de treino”. Essa vinícola já exporta vinhos para os Estados Unidos: um cabernet sauvignon, um riesling e um chardonnay, todos em torno dos US$ 13,00. Nenhum desses vinhos receberia uma medalha de ouro (ou 90 pontos de Robert Parker), diz Steinberger. Mas, acrescenta, “como diria Lao-tzu, uma jornada de vinhos de mil dólares começa com um simples gole”.
O chinês vai saber rapidinho o estilo de vinho do ocidental. Vai demorar mais tempo em ajustar suas comidas, normalmente mais doces, mais picantes e ácidas, aos vinhos – que não serão os tintos que tanto produzem. Mas os brancos delicados e elegantes: os Rieslings da Alemanha e os Gewürztraminer da Alsácia, por exemplo.
No lugar do Lao-tzu, fico com o nosso grande Haroldo Barbosa, que já sabia há tempos que “lá na China ninguém se chama João, e o china come sentado no chão”. É tudo diferente, menos a vontade de ganhar todos os ouros possíveis.

12.8.08

O sabor que vem da terra

Terry Theise talvez seja pouco conhecido por aqui. Mas é importante personalidade do mundo dos vinhos nos Estados Unidos e na Europa. É um importador americano, renomado por descobrir vinhos de grande qualidade originários de pequenos produtores. Vive de importar vinhos da Alemanha, da Áustria e de Champagne. Anualmente publica um catálogo sobre suas novas descobertas, com comentários sempre provocantes, que valem nossa reflexão. O que apresento abaixo é parte de uma palestra que fez em San Francisco, EUA: uma “Meditação sobre a importância do Terroir”.
Terroir é um termo francês polêmico e para o qual não existe uma tradução específica. É mais do que “terra”. Seria a soma de solo, topografia e clima. Combinados darão a cada vinhedo o seu exclusivo Terroir, o que será refletido nos vinhos de modo mais ou menos consistente de ano para ano. É uma idéia mais aceita no Velho Mundo e menos no Novo. Vamos ao que Thiese tem a falar a respeito.
“Eu estudava na Alemanha quando entrei em contato com os vinhos. Explorei as regiões vinícolas e comecei a aprender por experiência e também pelo que as pessoas pensavam sobre os vinhos – que os sabores de um vinho vinham dos solos onde as vinhas eram cultivadas. Isso passou a ser simplesmente o meu entendimento de como o vinho era gerado. E fiquei muito chocado quando pela primeira vez soube que algumas pessoas não acreditavam nisso”.
“Na verdade, Terroir é algo pelo qual vale a pena lutar. E francamente essa luta tornou-se cansativa. Há dois tipos de pessoas nesse mundo. Aquelas que entendem que o solo faz o vinho; e aquelas que são idiotas”.
“Eis a minha definição de Terroir: é a causa e o efeito do relacionamento entre os componentes do solo e os sabores de um vinho, para os quais nenhuma outra explicação parece possível. É isso”.
“É obvio que existem fatores que influenciam o terroir: estrutura geológica, drenagem, o pH do solo etc. O clima age sobre o Terroir e naturalmente a mão do homem também”.
“Falar sobre a ação do solo é como dizer que em alguns anos Elvis (Presley) estava magro e gordo em outros. Os componentes estão lá, criando sabores, modificados por tudo o que acontece às uvas naquela safra, incluindo as nossas próprias ações. Mas os componentes estão lá”.
“Naturalmente, isso ainda não foi provado cientificamente. Mas é verdade. E verdade para mim significa que todos os corvos são pretos até que apareça um branco. Se eu encontrar evidência que contradiga essa minha hipótese mudo de opinião. Continuo esperando pelo corvo branco. Quando removemos todas as variáveis, verificamos que um tipo de solo resulta em determinados sabores e outros solos em outros”.
“Gosto de dizer que o texto escrito por um vinho está na terra. O viticultor determina a fonte. O sabor são as notas musicais e o produtor o maestro. A partitura é escrita antes que o mastro a conheça. Quem a escreve é a terra: o maestro apenas a interpreta. Uma vez perguntei a um produtor o que era mais importante para ele. Sua resposta: saber quando não fazer nada”.
“Fazer vinho é preservar o sabor que já existe”.
Traduzi aqui trechos de um artigo do blogueiro Alder Yarrow (“Vinography”) sobre a fala de Terry Thiese no referido seminário.

5.8.08

Que vinho é você?

“Sonia, venho guardando uns poucos vinhos numa velha geladeira, que deixei na lavanderia aqui de casa só para esse fim. Ouvi falar que isso não é bom, pois as rolhas ressecam. É verdade? Que outro lugar poderia guardar meus vinhos em casa?”
Querida leitora: ligada e numa temperatura constante a geladeira é o pior lugar possível para guardar vinhos permanentemente. Sim, as rolhas vão ressecar, deixar o ar entrar e o líquido sair. Funciona só se ficarem muito pouco tempo: digamos, uma semana. Além disso, as geladeiras comuns vibram – e os vinhos precisam ficar em paz, quietos, caso contrário os elementos que o constituem vão se confundir, se desestruturar. Pense num ônibus lotado, andando aos solavancos. Os climatizadores são, na verdade, geladeiras que “funcionam mal”, desligam-se mais vezes permitindo um ambiente com umidade controlada, de modo a não ressecar as rolhas (sabemos o que acontece ao deixarmos a porta de um refrigerador mal fechada: em três tempos, tudo lá dentro fica gotejando). Além disso, mal vibram. Na falta de uma adega climatiza, buscaria um lugar escuro, o mais fresco da casa, como aquele cantinho debaixo da escada. Num apartamento sem cantinhos ou escadas, eu evitaria fazer uma adega. Compraria vinhos apenas para o dia-a-dia ou para um jantar especial.
Qual o preço do conhaque Louis XIII Grand Champagne Très Vielle, da Remy Martin? Leitora possui uma garrafa deixada pelo seu pai, ainda no estojo original guardando uma bela garrafa de cristal Baccarat.
Apresar de ter procurado, não encontrei essa preciosidade em lojas brasileiras. Na França, numa loja especializada de Cognac, região onde o Louis XIII foi produzido, custa US$ 2.652,00. Imagine o seu preço ao chegar numa importadora daqui.
Por que tão caro? O Louis XIII é composto de mais de 1.200 dos melhores conhaques da Remy Martin, envelhecidos entre 40 e cem anos, em barris de carvalho da região de Limousin. Estima-se que cada garrafa teve a influência de pelo menos três gerações de mestres de adega (os encarregados pelos blendings) e do trabalho combinado de 10 mil pessoas. Cada garrafa é feita à mão e exclusiva. Falam que as impressões de seus sabores permanecem em nossas bocas por uma hora. Seu fosse a leitora, ficaria com o Louis XIII e aproveitaria cada gota dele, brindando sempre a lembrança do pai. Caso resolva vendê-lo por aqui, tentaria o ebay.
Meu marido, ao provar um vinho que ele mesmo comprou, o desqualificou, dizendo que o mesmo estava com a “doença da rolha”. Pediu que o jogasse fora. Mas será, Soninha, que esse mesmo vinho não daria para ser utilizado na cozinha? O tal do cheiro ruim não desapareceria na panela?
Amiga, só posso falar da minha experiência, que não foi boa ao tentar fazer o que você pretende. O molho que estava preparando era muito leve e o aroma de mofo, de jornal velho, ainda perdurou. Talvez, com molhos mais fortes esses aromas não fossem notados.
Um vinho com a doença da rolha (ou bouchonée, em francês) fica com aromas e sabores de mofo, para dizer o mínimo. Foi afetado pelo fungo do TCA (2,4,6 tricloroanisol), promovido ora pela exposição do carvalho a pesticidas ou pelo processo de esterilização de rolhas de cortiças, à base de cloro.
O crítico inglês Oz Clarke descobriu um método para eliminar o TCA. Ele envolve uma agulha de tricô num plástico de cozinha (desses que utilizamos para embrulhar e proteger comidas), introduz esse bastão encapuzado na garrafa e agita bem. Aparentemente, o plástico absorve o TCA. O vinho perde um pouco de sua estrutura, mas pode ser utilizado na cozinha, pelo menos.
Que tipo de vinho é você? Desta vez quem fez a pergunta foi o computador. Respondi a um teste na Internet e descobri que sou um vinho com a uva Chardonnay. Sou uma Chardonnay, amigas!
O teste consta de cinco perguntas muito simples. A primeira foi sobre o tipo de fundo musical que prefiro num bar: eclética, jazz, retro, clássica, exótica? Escolhi jazz.
A segunda, sobre a região de vinhos que escolheria para fazer um passeio. As opções compreendiam Austrália, África do Sul, Chile, França e Itália. Esqueceram do Brasil, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Nova Zelândia. Fiquei com a França.
Eu brindaria à amizade, paz mundial, alegria, vida ou à saúde? Fiquei com a amizade, nessa terceira prova.
E minha atitude quanto aos vinhos? Ela é casual (gosto, mas não faço muita questão); aberta (experimento qualquer coisa); moderna (conheço as novidades e sei o que experimentar em seguida); conhecedora (sei bastante a respeito e não me envergonho de ser um pouquinho esnobe)? Marquei a aberta: para um mundo tão diversificado quanto o do vinho, deixar de experimentar é perder tempo.
A quinta e última pergunta diz respeito a situações que lhe desagradem mais: infantilidades, sentir-se incompreendida; modas ultrapassadas, gente de baixo nível, falta de educação. Fiquei com a incompreensão. Para quem vive tentando se comunicar, a falta de entendimento é um sério problema, certo?
Daí que o resultado deu que sou um vinho com a Chardonnay. Sou: “fresca, espirituosa e clássica – sua personalidade tem muitas facetas. Você pode ser doce e leve. Ou profunda e complexa. Tem sempre algo a oferecer a qualquer pessoa: não espanta que seja tão popular. É acessível e jamais presunçosa, fácil de fazer amigos (e de amar). No fundo você é modesta, digna de confiança, educada e despretensiosa. Fica melhor em companhia de carnes frias ou de caça.”
Faça o teste você também, amiga. De minha parte tenho apenas um reparo: eu também sou chegada e muito a carnes quentes. De resto, sou uma feliz Chardonnay, pelo menos até o próximo teste.
Clique aqui, leitora, e saiba que tipo de vinho você é. E depois conte para o Bolsa ou para a Soninha para contar como se saiu.

4.8.08

Ponto e vírgula

Numa solenidade oferecida pela embaixada francesa em Buenos Aires foi servido o espumante Chandon brasileiro, conta Daniela Pinheiro numa matéria sobre o jornalista argentino Jorge Lanata (revista piauí, julho). Noblesse oblige. Os espumantes nacionais são ótimos mesmo. Mas servido por franceses para argentinos? Estranho.
Não estranharia, contudo, se nossas embaixadas servissem espumantes importados. O governo não apóia o setor. Nossos vinhos estão sofrendo com o aumento da importação e do contrabando, principalmente dos países do Mercosul. Pode ir à Lidador ou à rede Pão de Açúcar, entre outras: os vinhos importados saem mais em conta do que os equivalentes nacionais, pois pagam muito menos impostos que os brasileiros. Aqui, onde o vinho não recebe quaisquer subsídios, como acontece com a maioria dos importados, só 5% do seu valor refere-se ao líquido, como lembra o crítico Carlos Cabral. “O resto é frete, garrafa, rótulo, caixa de papelão, salários, insumos e impostos”. Duas vezes mais do que os impostos cobrados dos importados. Estes, como diz o crítico e autor da “Presença do Vinho no Brasil”, são “um bom mal necessário, pois nos dão a oportunidade de constatarmos que porcaria se faz no mundo todo”. Há três anos, 53% dos vinhos vendidos no Brasil eram nacionais; hoje, de cada dez garrafas à venda, somente três são brasileiras; das sete restantes, quatro são sul-americanas. Não dá para entender.
Na França, encontramos até maiores estranhezas. Em St. Emilion, por exemplo, onde uma reclassificação das vinícolas é promovida pelo governo a cada 10 anos, em 1996 foi realizada a penúltima. Quem perdeu posição apelou e em julho uma corte reconsiderou a reclassificação. Quem desceu voltou a subir. Mas quem estava em cima, já com o vinho de 2006 engarrafado, pronto para ser vendido tomou um grande prejuízo. Muito dinheiro foi gasto em rótulos, garrafas, caixas. E mais dinheiro será perdido, pois o vinho não poderá ser cobrado de acordo com o padrão conquistado. É de pasmar.
Um eminente produtor do Beaujolais, Jean-Paul Brun, proprietário do Domaine des Terres Dorées, não poderá colocar o rótulo de Beaujolais nas 5 mil tantas caixas do seu “l’Ancienne 2007”. É que as autoridades francesas acharam que o vinho é “atípico” da appelation. Os burocratas de lá experimentaram o vinho e verificaram que o mesmo não estava no mesmo nível de mediocridade produzida na região. Vários críticos e especialistas experimentaram o vinho e o louvaram. Comentam que os burocratas querem padronizar a bebida por baixo; quem faz um “gran vin” está fora; incompreensível.
Lá o vinho já está sendo tratado como pornografia, e como tal estará também fora da Internet, onde não poderá mais promovê-lo ou vendê-lo. Além da ação dos burocratas, como vimos acima, temos o lobby antiálcool dominando o legislativo do país. Não é de estranhar, portanto, que os jovens adultos franceses (20 anos e mais) abandonaram o vinho por outras bebidas como cerveja e destilados, segundo pesquisa da Universidade de Montpellier. Acham que vinho é para gente velha; não entendem seus rótulos; o bom vinho é muito caro e o barato muito ruim; cerveja é mais fácil e em conta. É de assustar.
Na França, hoje, se debate (e calorosamente) o destino do ponto e vírgula, um “mero parasita, coisa insípida, denotando apenas incerteza, falta de audácia, pensamento impreciso”, segundo o autor e editor François Cavanna, favorável à eliminação do “point-virgule”. O sinal seria uma influência da língua inglesa. Logo, nocivo. Leia a divertida reportagem do inglês The Guardian aqui .
Por outro lado, o americaníssimo hambúrguer é agora très chic em Paris. Conhecemos países assim, envoltos em debates inúteis e fartos de burocracias destrutivas. Daí que, tentando homenagear o mestre Machado de Assis, que usa essa pontuação à perfeição, a empregamos à farta nesta coluna; representa apenas uma pausa maior que uma vírgula, evitando um ponto final para essas questões, pois temos esperanças por soluções que espantem os nossos espantos; os daqui e os de lá.

17.1.08

Leia sem moderação

Uma corte francesa decretou que, a partir de agora, artigos sobre vinhos em jornais devem apresentar as mesmas advertências contidas nos anúncios de bebidas alcoólicas. Quer dizer: qualquer conteúdo jornalístico sobre bebidas alcoólicas, a começar dos vinhos, passa a ser considerado um anúncio pago e deve passar a incluir advertências como “L’abus d’alcool est dangereux pour la santé. Consommer avec modération”, que é utilizada normalmente nos rótulos dos vinhos do país. Nada diferente das nossas “Evite o consumo excessivo de álcool”; “Beba com moderação” etc.
Algum juiz lá leu a matéria do diário Le Parisien, “O Triunfo da Champagne”, sobre o sucesso da bebida nas festas de Natal e imediatamente julgou o texto uma peça publicitária, mesmo que a página do jornal não fosse paga e o texto se identificasse claramente como matéria jornalística.
Claro que uma reportagem dessa natureza, como sempre, qualifica e recomenda marcas, fala sobre os produtores e apresenta preços, um serviço para os leitores. Mas o juiz achou que, até pelos seus entretítulos (“Boas e baratas”, “Champagne, a incontestável estrela da festa”, “Quatro garrafas de sonho”), se identificavam claramente como um anúncio.
Assim, a corte julgou que esse artigo tinha a intenção de “promover vendas de bebidas alcoólicas, exercendo ação psicológica sobre o leitor, incitando-o a comprar álcool”. E que “qualquer comunicação a favor de uma bebida alcoólica (tal como o artigo sobre o espumante) constitui uma publicidade e, portanto, sujeita ao código de saúde pública”.
O Le Parisien foi obrigado a pagar cinco mil euros à Associação Nacional de Prevenção ao Alcoolismo e à Dependência (ANPAA), mas sob protestos de que o artigo era puramente uma peça editorial.
A decisão é, sem dúvidas, uma escandalosa violação da liberdade de imprensa. Um dos dogmas do jornalismo numa democracia é a intocabilidade dos fatos tais como são registrados ou interpretados, sem interferência de governos ou de quaisquer outros órgãos. Nosso trabalho como jornalistas não é simplesmente “comunicar”. É informar, participar da educação dos leitores e não fazê-los encher a cara.
Parece até que o judiciário francês é uma “Appelation Descontrollée”. Em 2003, a corte de Villefranche-sur-Saône quase leva uma revista, a Lyon Mag, à falência, apenas por ter citado o comentário de um eminente crítico, François, Mauss, presidente do “Grande Júri Europeu de Vinhos” sobre os vinhos Beaujolais. Mauss afirmou que a região conscientemente comercializava um “vin de merde”.
A revista foi condenada a pagar perto de US$ 350 mil aos produtores de Beaujolais. Toda a imprensa do país protestou, houve apelação e só em 2005, a corte voltou atrás e liberou a revista da multa.
A publicidade de bebidas alcoólicas e cigarros na França é regida pela severa Lei Evin desde 1991. Ela proíbe desde anúncios dirigidos a jovens, publicidade de bebidas em televisão ou cinema e até patrocínios de eventos culturais e esportivos. Nos veículos, eventos ou lugares onde a publicidade é autorizada o seu conteúdo é controlado.
E mais, as mensagens e imagens contidas nos anúncios devem referir-se estritamente às qualidades dos produtos (como origem, composição, meios de produção, modos de consumo etc.).
Como conseqüência, desde 1991, a linguagem da publicidade perdeu o seu caráter sedutor. Não mais se permite mostrar-se de consumidores ou retratar atmosferas favoráveis ao consumo de bebidas. Por isso, as pessoas foram banidas dos anúncios.
Isso acontece no país que originou o lendário Paradoxo Francês. Em 1991, o famoso programa 60 Minutes, da CBS, levou ao ar uma reportagem mostrando porque os franceses sofrem relativamente pouco com doenças coronarianas, apesar de seu dieta ser extremamente rica em gorduras saturadas. A razão está no consumo regular de vinho, em particular o tinto, cujas vendas cresceram cerca de 40% só nos Estados Unidos, da noite para o dia. Pois a França parece agora preocupada que os leitores passem a achar que os vinhos sejam uma bebida saudável.
O Presidente Nicolas Sarkozy, em sua campanha eleitoral ano passado, prometeu reformar a Lei Evin. Mas nada fez até agora. Ele que, sobre os vinhos, diz que França deixou de ser competitiva por conta de uma legislação de má qualidade.
Paris Hilton e o Prosecco. E se a moda pega? Uma reportagem sobre o recém-divorciado Sarkozy e o seu anunciado casamento com a modelo e cantora Carla Bruni deveria conter também uma advertência: “O casamento pode ser prejudicial à sua saúde”.
Ou sobre as biografias da ex-mulher de Sarkozy, sempre apimentadas com as histórias de seu caso com um publicitário. Como terminaríamos uma matéria a respeito? “Maridos: evitem ser chifrados”. Ridículo!
As matérias sobre políticos deveriam ser acompanhadas por avisos como: “Atenção, políticos podem causar apoplexia”. As placas nas estradas também poderiam avisar: “Muito cuidado: estrada consertada pelo governo”.
E se os jornais franceses apenas reproduzissem a Marselhesa, o hino nacional francês: “Aux armes citoyens! Formez vos bataillons! Marchons, marchons, Qu'un sang impur abreuve nos sillons”. Seria uma incitação à violência e à ordem pública? Seriam multados também?
As matérias sobre a modelo (e celebridade) Paris Hilton promovendo anúncios de uma empresa de bebidas austríaca, a Rich Prosecco, também mereceriam cuidados. Vamos lembrar que a bisneta do fundador da cadeia de hotéis de mesmo nome conseguiu os seus 15 minutos de celebridade com um filme de TV fazendo sexo com seu namorado. Não processou ninguém. Deu certo e os 15 minutos estão se estendendo. A moça já tem uma bagagem invejável como atriz, cantora e modelo. Conhece bem o métier.
Hilton aparece nessa campanha como sempre: com roupas minúsculas e até nua e toda pintada de dourado, lembrando a loura de Goldfinger, um dos filmes de James Bond. Veja aqui.
Ela é o pulo do gato da empresa austríaca para vender um prosecco (uma uva italiana de origem, responsável por famosos espumantes) em três versões: um com sabor maracujá (Rich Passion), outro de cassis e morango (Rich Royal) e o terceiro de prosecco propriamente dito.
Os anúncios falam de um “drinque perfeito para começar a noite ou para um prazer especial, um prêmio ao final do dia”.
Já viram que não se trata de vinho, mas de marketing. Não entendo porque os produtores italianos do prosecco autêntico estejam uma fera. Vociferam contra o produto austríaco. Acham que ele (vem numa latinha) pode deformar a imagem do espumante original. Penso que eles deveriam parar de protestar e contra-atacar com uma campanha educativa, demonstrando as qualidades do espumante original.
Caso contrário, terão de protestar também contra o Marilyn Merlot, um sucesso de vendas nos Estados Unidos. Ou os vinhos da Madonna, sem falar do rótulo da atriz pornô, a norte-americana Savanna Samson, o Sogno Uno, italiano legítimo, feito pelo enólogo Roberto Cipresso – e elogiado (o vinho) até pelo imperador dos críticos, Robert Parker. Ninguém ficou desesperado com possíveis danos às imagens dos vinhos norte-americanos ou italianos, para ficar apenas nos exemplos acima.
Mas voltemos ao problema da censura, a sarna que os franceses ameaçam espalhar pela imprensa mundial. E se a moda pega?
As matérias sobre lançamento do Rich Prosecco da Paris Hilton deveriam incluir também uma advertência, como “Melhor beber com camisinha”, tal é a folha corrida da modelo?
Continue lendo esse blogo sem moderação.
Da Adega.
Casillero del Diablo com tampa de rosca
. A conhecida marca segue agora uma tendência renovadora e troca as tampas de cortiça, pelas “screwcaps”, de rosca metálica, nos vinhos brancos (Sauvignon Blanc). A nova versão chega ao mercado brasileiro ainda este mês.
A marca, que no Brasil é comercializada pela multinacional Pernod Ricard, está promovendo a substituição da cortiça por tampas de rosca metálica apenas nos seus vinhos brancos. As de cortiça permitem um acesso mínimo de oxigênio que favorecem mais à evolução dos tintos. Essa característica, contudo, é indesejável para os brancos, afetando em particular os seus aromas. O Casillero del Diablo é um dos carros-chefe da famosa vinícola chilena Concha y Toro e uma lenda, origem do seu nome, alimenta a sua história. Saiba mais
aqui.
Mais informações pelo SAC 0800 014 2011 ou pelo site da
Pernod Ricard.
Sou insuportavelmente otimista. Não sei como foi possível. Mas ontem bateu um motoqueiro da ECT na minha porta com um elegante embrulho cor-de-rosa. Achar a minha casa, aqui em Secretário, gente, é como conseguir entrar no Uzbequistão e chegar a Samarcanda, a cidade do Tamerlão, por onde esteve Marco Polo. O embrulho continha uma caixa também cor-de-rosa abrigando uma belíssima garrafa de cava rosé e duas belas flutes de cristal. Um gesto gentilíssimo do pessoal do Bolsa, que me classificou como no título acima. Estou insuportavelmente grata. E preocupada com o motoqueiro. Será que conseguiu voltar?

3.1.08

Pit Stop

Acho que vou começar o ano com o pé direito. Fiquei quase duas semanas sem beber, sem colocar nada, nadinha de álcool na boca. Só voltei a beber na antevéspera do Natal. Estava com problemas? A fim de me “livrar das toxinas”, de purificar meu corpo? Não, nada que passasse perto do Ganges.
Em primeiro lugar, finalmente, fiz o meu grande exame clínico, que deveria ser anual. Só que estava devendo uns bons três anos ao médico. Marquei para meados de outubro, fiz as malas e passei duas semanas no Rio, em casa de amigas – preocupada com meus cachorros e minhas galinhas em Secretário. Mas fiz todos os exames possíveis.
Entrei confiante. Afinal, colocava grande crédito nos vinhos que consumo há anos: meia garrafa diariamente. Esperava que ou o resveratrol ou as procianidinas dos tintos estivessem funcionando, como antioxidantes e drenos para minhas artérias. Meu estilo de vida é saudável, acho eu. Não fumo, como frugalmente, muita fruta e vegetais, evito frituras, carne só de vez em quando etc. Minha lida no sítio, correndo atrás de galinhas, limpando o terreno, arrumando a casa etc. contam como exercício físico regular. Não sou nem obesa, nem sedentária.
Bem, os resultados foram um tanto decepcionantes. Minha pressão está supimpa. Mas o colesterol, tanto o bom (LDL) quanto o ruim (HDL) estão altos. Um resultado ao mesmo tempo ruim e bom. Os triglicerídeos (que armazenam gordura) oscilam para cima e para baixo – mas na média estão perigosamente no limite (exatos 150 mg/dl).
E, novidade para mim, o médico, desta vez, pediu um exame adicional. É o que determina uma tal de Proteína C-reativa (PCR). Ela é produzida pelo fígado: aumenta quando temos alguma inflamação causada por doenças, acidentes ou estresse. O médico fala que é o único indicador de inflamação que sozinho prediz o risco de um ataque cardíaco. Não há riscos, mas o médico confessou que gostaria que os marcadores estivessem melhores, mais baixos (mais uma vez, o nível estava no limite: 1.0 mg/L. Abaixo disso, é baixo o risco de desenvolvermos alguma encrenca cardiovascular. Acima disso, bandeira amarela. Se passar de 3.0, o risco é muito grande.
Ele não condenou minha dieta, nem meu estilo de vida. Mas me receitou pílulas de estatina, para colocar os níveis de meu HDL em ordem. Não sei se vou tomá-las. Falam que as estatinas podem causar problemas nos músculos e no fígado. Com a quantidade de vinho que tomo, elas podem até ser fatais. Tenho a meu favor não fumar e um exemplar estilo de vida.
Mas muita coisa não conseguir responder ao médico. Quanto de vinho tenho de consumir para o resveratrol fazer efeito: uma taça, uma garrafa, um galão, uma caixa? Não adianta argumentar com as procianidinas, pois elas são encontradas em maiores quantidades nos tintos com a uva Tannat, da Gasconha, região do sudoeste francês. Teria de me mudar para lá.
E agora temos um estudo ligando colesterol com etanol, o álcool do vinho. O Departamento de Doenças do Fígado da Escola de Medicina da Universidade de Nova York pesquisou o consumo de etanol por ratos. Aparentemente, eles inibem a secreção de um ácido produzido pelo fígado e que, quando chega aos intestinos, funciona como um detergente para ajudar na absorção das gorduras.
Se não formos moderadas no consumo de vinho, estaremos contribuindo para aumentar os níveis de colesterol. Taí, o nó da questão. Estou torcendo para que essa pesquisa não dê em nada. Pobre dos ratinhos!
Meu médico concorda que o consumo moderado de vinho é recomendável. Mas pediu-me que considerasse melhor o meu, digamos, estilo de moderação. Também não me pediu para parar com as bebidas. Sugeriu, contudo, a alternativa de uma “descansada”. Em primeiro lugar ele quer ver os índices caírem, em particular o do tal PCR.
Acho que ele também quer saber se sou dependente, seja de vinhos ou de qualquer outra bebida alcoólica. Por quase toda a minha vida adulta venho bebendo diariamente. Moderadamente, afirmo eu!
Portanto, decidi aceitar o desafio. Logo após ter retornado a Secretário, com uma senhora pulga atrás das orelhas, fiquei as duas primeiras semanas de dezembro a seco. Apenas água, água, sucos e sucos, café e chás e mais café e chás.
Não tive problemas, pois me submeto a esse “descanso” há muito tempo (e, se não me engano, já escrevi sobre isso aqui). Não, não sou uma dependente física do álcool, nada de tremedeiras. Até agora, estou conseguindo parar sem precisar que me tranquem num quarto.
Claro, que, principalmente nas refeições, sentia a falta da minha taça de vinho. Mas olhava o copo com água com muito carinho e seguia em frente. À noite, a saudade do vinho aumentava. Televisão não é a fogueira da minha caverna, para lembrar o Veríssimo. O escritor disse que a fogueira deve ter sido a TV do homem das cavernas. Ele ficava lá hipnotizado pelo fogo, assim como se faz hoje quando se assiste TV, esperando o sono chegar.
Bebo vinho por puro prazer. E o prazer, como ensina o filósofo espanhol Juan Antonio Rivera, é um fenômeno cinético, que consiste na viagem da falta de comodidade para a comodidade. Sem dificuldades, encontrei ótimos e cômodos substitutos.
À noite, costumo beliscar uma fruta, tomar umas duas taças de vinho e prosseguir na leitura do livro da vez.
Nas duas semanas de abstenção, à noite, substitui o vinho por chás e a minha leitura foi a de “Milênio”, do Manuel Vázquez Montalbán, que criou o detetive Pepe Carvalho.
Pepe me colocou à prova. Ele, além de detetive e gourmet, é um sabido bebedor. Pois, amiga, o detetive espanhol me ajudou muito nessas duas semanas. A nossa imaginação concebeu um paliativo astuto e sutil para resolver o divórcio entre a vida real e os nossos apetites desmedidos: a ficção. Através dela, somos mais, somos outros, sem deixarmos de ser nós mesmas. É uma espécie de droga que consumo sem moderação.
Nada de tremedeiras, alucinações, aranhas gigantes nas minhas costas. Ótimas noites de sono profundo, uma sensação de mais tempo sobrando, pois não tinha que provar desse ou daquele vinho, não tinha que tomar notas etc.
Há muito tempo, li uma entrevista com o mestre Maynard A. Amerine, professor de enologia da Universidade da Califórnia, em Davis. Ele pesquisou aspectos técnicos do cultivo da uva e da produção de vinho. Seu trabalho é considerado peça fundamental pela sucesso da indústria vitivinícola em todo o mundo. Morreu aos 86 anos em 98.
Pois o professor Maynard dizia que se, num mês, pudermos parar de beber uma semana, ou “descansarmos” um mês inteiro num ano, então podemos estar certas de que temos um relacionamento saudável com o vinho.
Se eu bebo regularmente, não custa tomar um ou dois cuidados. Estou consumindo agora de duas a três taças por dia. Sei que não vou sair viva desse mundo (só para lembrar uma música do cantor country Hank Williams: “I’ll never get out of this world alive”). Agora, o vinho está entre as coisas que fazem esse mesmo mundo mais palatável para mim.
Se algumas das leitoras for uma bebedora regular de vinhos (ou de qualquer outra bebida alcoólica), porque não faz um teste, um pit stop ao contrário: parar para desabastecer. É só uma semana por mês. Faça isso e em seguida anote as suas reações e conte tudo aqui para a Soninha