22.2.11

Um fruff nada aromático

Na sua primeira crítica de vinho, pelo Twitter, classificou de “merda” o Landskroon Shiraz 2007, um tinto sul-africano. Tuitou apenas isso: “Kak. 1/10”. A pontuação, de 1 a 10, estacionou mesmo na menor marca. “Kak” é gíria sul-africana, que poderia ser traduzida como “caca” ou, eufemisticamente, “horrível”, “repugnante”, se quiséssemos abrandar o comentário. Mas a verdade é que é “merda” mesmo e ponto, opção estilística e ideológica do crítico.

Andy Hadfield diz que não suporta esnobes do vinho, não tolera enochatices. E até hoje não consegue engolir a maioria das palavras que formam o chamado jargão do vinho. Bouquet flutuante? Taninos justos? Acabamento de carvalho? Para ele essas palavras ficariam melhores ao lado de esqui, jeans e pintura.

O sul-africano Andy Hadfield é empresário, dirige a One Big Widget, de consultoria de marketing para várias corporações da África do Sul. Não gosta do jargão e de muito palavrório, mas claro que adora vinhos. Há três anos começou a catalogar os vinhos que experimentava utilizando o Wine Notes, um aplicativo do iPhone. Logo, resolveu divulgar seus comentários pelo Twitter. E o retorno parece que foi bom. As pessoas pareciam gostar dessa prática minimalista e mais dinâmica de criticar vinho de modo franco, econômico, ecoando a fala das ruas. “É quando chamo uma garrafa de merda uma garrafa de merda”.

Então, achou que poderia transformar o seu hobby em alguma vantagem financeira e lançou o blog Real Time Wine.

Pode ser divertido, sem dúvidas. O Boschendal Sauvignon Blanc 2009 “cheira a spray de banheiro. Sabor vibrante e frutado. Nota: 5/10.” O Warwick Professor Black Sauvignon Blanc 2010 é “uma salada de frutas tropicais com sorvete de manjericão. Nota: 8/10”. O Savanha Chenin Blanc 2009 é “Azedo. Como laranjas estragadas cheias de álcool. Não é bom. Nota: 4/10”. Já o Uitkyk Sauvignon Blanc 2009 “parece papel perfumado. Ou apenas papel. Mas seu gosto é caramelado. Frutado. E bom. Nota: 7/10”.

No blog, Andy mantém uma seção de “Palavras Proibidas”. Entre elas, Nota (que frequentemente vemos se referindo a aromas: notas disso e daquilo), pois “isso não é música, caso contrários teríamos algum barulho acontecendo”. Harmonia é outra (“a não ser que estejamos falando sobre anjos”). No lugar de Cor acha que “tinto ou branco já serve”.

Essa história de texto curto, cada vez mais curto, antecede a Internet. Dizem que vem da TV, em particular da MTV, com seus videoclipes, cortes frequentes, seu grafismo, além da música, tudo numa linguagem dinâmica e econômica, atraindo os jovens em particular. Essa linguagem foi imitada na imprensa, talvez por motivos econômicos e na esperança de atrair uma nova geração de leitores. Entram em cena fotos a cores. E textos menores.

Chega então a Internet, a banda larga, que absorve tudo isso. Absorve e está substituindo as mídias impressas. O público se encanta com mais informações em tempos cada vez menores. E acontece o sucesso da chamada media social, do Facebook, Twitter, Squidoo etc., mais milhares de blogs e de smart phones e os torpedos das mensagens instantâneas (SMS).

Já li matérias de 10 páginas (mais ou menos cinco mil palavras) sobre fermentação. Se fosse hoje, não daria pé. Não por falta de espaço, mas porque o leitor quer ler menos, perder menos tempo.

Não estou reclamando. Parece que é o que é: temos menos paciência, menos tempo hoje de encararmos artigos longos seja sobre vinho ou qualquer outro assunto. Parece também que ninguém está dando muita bola para os livros. A Internet não é um meio ameno para os formatos longos, a não ser que seja para best-sellers que caibam num Kindle ou iPad. Queimar a mufa, nem pensar. O leitor comum quer mais é entretenimento.

E o que tudo isso pode significar para a compreensão do vinho, em particular para a turma mais nova e para as gerações que estão por acontecer? O crítico Steve Heimof se pergunta se o vinho poderá ser entendido por resumos seguidos de plim plins, como quer o crítico sul-africano.

Os leitores do Andy certamente não vão perder tempo com os vinhos “merda” e seus sinônimos. Vão comprar os vinhos “legais” e seus sinônimos. Notas acima de 7 e tá acabado. Legal. Nada de complicado para as suas cabeças.

Andy diz que o seu formato vai transformar seus leitores em críticos de vinho, também. Pode ser. Nesse formato só um recado, mesmo. Com ele, é difícil explicar até as mais simples trivias: como degustar, como abrir uma garrafa, quais os defeitos mais comuns, como entender um rótulo (rótulo alemão é bom nem tentar). E por aí vai.

Para Andy é mais fácil chamar o diabo de fedepê e estamos conversados. Esquecendo-se de alertar que mesmo essa entidade pode travestir-se como um anjo querubim ou ter chifres e rabos pontiagudos e até vestir Prada. Uma bebida de pelos menos 8 mil anos, produzida e consumida em quase todo o globo, apresentada em estilos os mais diferenciados que facilmente completaria uma Bíblia mais um Alcorão mais um Upanishades. No espaço de 140 dígitos só caberia mesmo um comentário – no caso de Andy, algo de impacto rasteiro: ora o vinho é uma caca, ora é bão.

Fora o óbvio, gostar da bebida em si, o vinho me atrai por ser um assunto praticamente inesgotável, riquíssimo, variadíssimo. Viajo com ele, atravesso séculos e mais séculos de história, topo com culturas as mais diferenciadas. E, no fim, vejo que ainda faltam milhares de horas para esgotar o assunto. E isso me dá prazer, que quero dividir com os leitores.

Andy não é o primeiro a usar o Twitter para comentar sobre vinhos. Um bom número de blogueiros está fazendo isso. Mas note, ele parte do blog para tuitar. O blog, o texto mais longo continua como necessária atração principal.

Andy talvez seja dos primeiros a optar pelo calão, pelo dialeto popular. Mas observe que apenas um sul-africano acostumado ao jargão das ruas de lá saberia o que é kak. Não há como fugir: os surfistas têm o seu jargão, assim como os médicos, os arquitetos. E os enófilos. O sul-africano trocou um jargão por outro, bem mais pobre.

A bola está com os editores e blogueiros: manter um formato de jornalismo que possa passar informação de modo adequada às necessidades dos leitores. Caberá a esses leitores, especialmente os mais jovens, tomar pé da situação que se apresenta: sair do texto mais longo para um mundo reduzido a 140 caracteres e um sinal sonoro pode representar um perigoso passo em direção ao isolamento tribal e à ignorância.

Minha nota, para o formato do Andy: um blog às vezes divertido com um fruff de aroma sulfídrico. 1/10.

Da Adega

Cadê o Châteauneuf. Recebi um e-mail promovendo um Châteauneuf-du-Pape: pela bela foto da mensagem, parecia que era o Xavier, uma garrafa de R$ 210,00 por R$ 185,00. Fui checar no site da promotora, a Tradebanc Wine & Food, loja virtual especializada em vinhos. E o Xavier não estava listado. Pelo menos até segunda, 21, pela manhã, dizia lá que nenhum Châteauneuf foi encontrado. Certamente, a leitora terá mais sorte.

Vinotage. Amiga, dê só uma olhada na linha de produtos Vinotage, feita a partir de uvas e de vinhos: cremes, hidratantes, shampoos, máscaras, óleos, sabonetes, tônicos faciais.

A Vinotage está no coração da maior região produtora de uvas e vinhos do país, a Serra Gaúcha, no RS. Na composição de seus cosméticos estão lá os polifenóis das uvas, as procianidinas mais potentes que a vitamina C e E no combate aos radicais livres.

A Vinitude também é uma loja virtual, indo dos vinhos aos cosméticos.

15.2.11

O pijama de Robert Parker

O imperador do vinho aposentou-se? Pelo menos é isso o que indica a maioria do noticiário em torno da alteração que Robert Parker fez no seu célebre boletim The Wine Advocate. Uns falam em “crepúsculo do Imperador”, outros em “fim de uma era”, em “semi-aposentadoria”, que Parker “ “passou a tocha...”, foi “destronado”.

Não se fala em outra coisa no mundo dos vinhos. Mas o mais influente crítico de vinhos do mundo (e em qualquer outra categoria) apenas informou que a partir de agora passa a crítica dos vinhos da Califórnia e da Borgonha para seu colega na TWA, Antonio Galloni, que já cobria a Itália e a região de Champagne. Parker continua com a sua querida Bordeaux e com o Vale do Rhône e passa a analisar safras mais antigas dos vinhos da Califórnia. Para muitos, a aposentadoria de Parker, com seus 63 anos, estaria bem próxima.

Quase todos se perguntam o que será o mundo dos vinhos sem Robert Parker. O grande guru dos vinhos é um modelo de sucesso à americana. Um advogado de sucesso, estabelecido em Maryland, que, ainda estudante encantou-se com os vinhos e a partir de 1978 começou a publicar o seu boletim, que revolucionou o mundo dos vinhos. Não aceitava anúncios (o próprio Parker comprava os vinhos que analisava). O guia vivia de subscrições. Como analisar vinhos objetivamente se você os estava também vendendo ou era amigão dos produtores e aceitava que pagassem por suas viagens, hotéis e jantares nababescos? O sistema de 100 pontos, que se tornaria mundialmente famoso (e copiado) também era apresentado. Um sistema que qualquer americano entenderia, pois é até hoje utilizado nas escolas. Um vinho abaixo de 64 deveria ser evitado; com 60-64, o vinho apresentava “faltas evidentes”; 65-74 era um vinho “médio”; 75-79, “acima da média”; 80-89, “muito bom”; 90-95, “excepcional”. “Extraordinário” estava reservado para aqueles entre 96-100.

Por 20 anos, até 2005, a influência desse guru só fez crescer, despertando infindáveis debates sobre se sua imensa influência. Em 1998, a TWA tinha 45 mil assinantes em 35 países. No final de 2006, Parker anunciou a contratação de cinco críticos para aumentar a sua cobertura. Ao fazer isso, ele alterou sensivelmente a sua marca – a de um degustador solitário e superdotado, um crítico ferozmente independente que não se importava com status ou popularidade.

O boletim espelhava apenas o fabuloso nariz de Parker, apenas um e consistente ponto de vista que ele passava agora para degustadores de reputações, talentos e estilos diferentes. Ninguém com o talento de mexer com mercados de vinho como ele (Bordeaux até hoje só dá preço a seus vinhos depois das notas de Parker).

O que aconteceu de lá para cá é o que aconteceu com o jornalismo impresso. Hoje, todo mundo tem blogs, está no Twitter e no Facebook. O mundo impresso perde publicidade, jornais e revistas fecham. O leitor hoje consegue conteúdo grátis. O modelo dominante de jornalismo dos últimos 30 anos está ficando sem gás, com um número limitado de vozes para tentar mostrar aos leitores como entender de vinhos. O leitor hoje possui um número infindável de oportunidades para conseguir informações, sem sair de casa, basta fazer um clique.

O mercado de vinhos também mudou, com uma nova geração de consumidores, gente jovem que jamais ouviu falar em Robert Parker, mas ávida em saber mais sobre o vinho, mas sem dar muita bola para revistas e boletins. Informam-se em lojas de vinho, com sommeliers e, sobretudo, com amigos. E amigos existem na vida real e on-line. Uma pesquisa norte-americana diz que 60% dos bebedores no país estão pesquisando e conversando sobre vinho on-line. Outro estudo mostra que há quatro milhões de consumidores de vinho apenas no Twitter.

As coisas estão mudando: em vez de uma visão de cima para baixo, essa nova era indica que os consumidores de vinho estão mais confiantes, diversificam mais, experimentam mais, sem dar muita trela para “autoridades”.

Todos se perguntam quem vai ser o próximo Robert Parker. Ele conseguiu conectar talvez milhões de consumidores com o mundo dos vinhos. A indústria de vinhos e nós, consumidores, devemos isso a ele. Mas dificilmente será substituído, pois duvido que esse mundo on-line admita uma só voz, como a de um imperador. Em seu lugar, talvez tenhamos mais vozes, numa quantidade que será difícil de acompanhar. O próprio Parker favoreceu esse quadro. A partir de 2006, quando ficou apenas com Bordeaux, Rhône e Califórnia, seus substitutos para o restante da Europa, América do Sul, Austrália e Nova Zelândia só fizeram diluir a influência do Wine Advocate. E muitos críticos ocuparam essas regiões. É o caso do Burghound.com, o guia mais procurado por consumidores e investidores interessados nos vinhos da Borgonha.

E a função do crítico de vinhos passou a ser mais educativa. Devemos ajudar a formar as leitoras, onde se informar, o que, onde e como conseguir seus vinhos. E isso sem a voz “de cima”, de uma autoridade obrigando o leitor a decorar cada château de Bordeaux. Com a internet todos são igualmente os críticos.

Porém, tem gente tentando ler nas entrelinhas do comunicado oficial de Parker sobre abandonar parte de suas responsabilidades no WA. Dizem que ego de Parker não permitiria qualquer tipo de “aposentadoria”. Se eventualmente perde influência no mercado norte-americano, está se preparando para ocupar o Pacífico, uma área imensamente maior, mais complexa e bem mais rica (em termos de dólares).

As premissas são as de que Parker continue reinando em Bordeaux. E a China é hoje o maior comprador dos rótulos ilustres (e caríssimos) de Bordeaux e ainda um mercado aberto à influências como as de Parker, que já tem um crítico operando em Singapura para as versões da sua newsletter. Alguns negociantes, como a Hermitage (baseada em Londres), já afirmam que “Parker é a melhor aposta para os investidores asiáticos”. Assim, por esse lado, Parker passaria cada vez mais tempo na China de modo a cimentar sua imagem lá como o grande mestre da cultura do vinho.

Logo, a propagada “semi-aposentadoria” ou o “passar da tocha” de Parker não seria senão um movimento estratégico. Está virando o jogo para o pedaço final de sua carreira. Faz mais sentido para mim. Para Parker, o pijama fica para mais tarde.

Da Adega

Bloco Espumas e Paetês. Esse é o bloco da turma do vinho. O sucesso de sua primeira saída, em 2010, garantiu sua oficialização esse ano – ano em que contará com uma madrinha. E que madrinha: a somelière e colunista Deise Novakoski.

A concentração será agora, dia 26 de fevereiro, a partir das 15h, na pracinha da R. General Glicério, em Laranjeiras, RJ.

O kit (camiseta + taça de espumante) já está à venda: agora, pelo site www.enoeventos.com.br, fica por R$ 25; no dia, R$ 40. O bloco conta ainda com o apoio da Winestore e Confraria Carioca, que fornecerão as borbulhas por preços mais em conta.

Veja no site do bloco os locais de venda e como o sisudo Dom Perignon entrou nessa história. Participe, amiga. Brinque no único bloco do mundo que é feito por e para enófilos.

7.2.11

Campanha “Eu bebo vinho”

Três milhões de dólares é o preço de um comercial de 30 segundos durante a transmissão de TV do Super Bowl, o maior evento esportivo norte-americano, que aconteceu neste domingo. Um espaço disputadíssimo, todos parecem dispostos a gastar milhares de dólares por um segundinho de atenção dos norte-americanos. E o Super Bowl é, com certeza, a hora de pegar quase todos os americanos pela TV.

Um blogueiro de vinho começou a pensar como seria bom para o vinho aparecer em eventos como o Super Bowl. Imaginou uma campanha genérica, “bem elaborada, dirigida aos públicos certos de consumidores, produzida de modo tão simples que impedissem classificações como “confusa”, “complicada, “intimidativa”, “pretensiosa”.

Essa campanha representaria naturalmente todos os setores da indústria de vinhos: vinícolas, varejistas, atacadistas, importadores, exportadores. Nenhuma região ou variedade ou estio teriam destaque.

Por fim, temos a questão mais complicada: qual o conteúdo, qual o tipo de mensagem desta campanha genérica que poderia fazer aumentar o consumo do vinho no país? O consumo de vinho por lá vem melhorando, mas nos EUA se bebe mais cerveja do que leite, café e mesmo água engarrafada. Se medida em latinhas, seriam 67 bilhões de latinhas por ano. Colocadas uma sobre a outra, teríamos uma coluna vertical equivalente a 20 vezes a distância da Terra à Lua. Os Estados Unidos, apesar de ser o 4º maior produtor de vinho do mundo (com 1,86 bilhões de litros) é apenas o 23º maior consumidor, com 7,70 litros per capita. Nós aqui ainda não chegamos aos dois litros de vinho por capita (1,85): somos o 29º nas estatísticas. Lá, 20% dos americanos que bebem vinho respondem por 90% do consumo. Mais ou menos, o que acontece aqui e o mesmo se dá com consumo de aspirina, com a maioria dos produtos.

Na opinião do Tom Wark, o blogueiro de Fermentation autor da proposta, essa mensagem deveria ter o formato de um testemunhal. Os comerciais de TV, anúncios impressos e on-line teriam o endosso de americanos famosos que simplesmente afirmariam: “Eu bebo vinho”.

Nada mais. Fundo neutro, mesa neutra, sobre ela uma garrafa não identificada e uma taça. O personagem caminha em direção à mesa, silencioso; abre a garrafa, despeja o vinho na taça. Olha para a câmera e declara. “Eu bebo vinho”.

Quem ele escolheu para passar essa mensagem? Selecionou dois homens e duas mulheres. Entre os homens, George Clooney e Alec Baldwin. Entre as mulheres Reece Witherspoon e Hillary Swank. Christina Aguilera nem pensar: ela errou a letra do hino nacional norte-americano, no citado Super Bowl, além de ser sexy e polêmica demais.

Para o blogueiro, o que essa turma tem em comum é que apela a todos os sexos, mas não pode ser vista apenas como símbolo sexual. São pessoas respeitadas e admiradas, sem arestas. A Reece Witherspoon, por exemplo, atriz consagrada com o Oscar, entre outros prêmios importantes, é produtora, promove um fundo de proteção às crianças. Como embaixadora da Avon, além de participar de ações filantrópicas, entra sem contestações na casa de consumidoras de pelo menos 140 países. É pouco ou quer mais?

Uma campanha, assim, nada de complicado, nada para acentuar a já confusa reputação do vinho como uma bebida para pessoas de “conhecimento”, de “cultura”. Nada de “taninos maduros”, “vinho redondo”, “profundo”, “com retrogosto de 1,2 segundo” etc.

Vamos lembrar que a campanha é genérica. Ninguém vai apostar mais num estilo ou numa variedade ou numa região. O vinho é uma das raras bebidas onde o problema é uma qualidade: milhares de opções de escolha.

É tudo muito simples: uma pessoa que todos admiram Bebe Vinho! E Tom optou por celebridades, um fenômeno da cultura popular, “pois nada melhor do que a cultura pop para mexer com o norte-americano”. Para o blogueiro, “o vinho para crescer à sério precisa ligar-se à cultura popular”.

Todas concordamos, não é? Que adianta lembrar que no túmulo do Rei Midas acharam uma receita de cerveja e que há seis mil anos os gregos exportavam a lourinha? As cervejas exploram muito melhor a cultura popular. E é natural, apropriado, verdadeiro e efetivo que Zeca Pagodinho seja um brahmeiro. E que Paris Hilton anuncie a Devassa (basta que seu portfolio de escândalos se mantenha atualizado).

Aqui no Brasil, como seria essa campanha? Quem escolheríamos como personalidades. Quem teria crédito, autoridade, carisma para aparecer diante de milhares de brasileiros e convencê-los a considerar o vinho?

“Eu bebo vinho” seria dito por quem? Quais as duplas masculina e feminina? O José Guilherme Vereza, blogueiro do Bolsa e publicitário emérito, teria a resposta na ponta da língua. Minha posição, porém, é como a do blogueiro americano: fico no limite da técnica publicitária, mas não deixo de conviver com comunicação diariamente. Daí que vou meter o meu bedelho, assim como fez o americano.

Entre os homens indicaria Lázaro Ramos e Wagner Moura. Escolhi talento novo, gente que é celebridade em função apenas de seu talento, uma turma já com importante bagagem em TV, cinema e teatro. Bagagem e premiações internacionais. Precisamos conquistar um público mais novo. O mais maduro já está mais ou menos convencido e muitos, talvez, pelas razões erradas (os aspectos medicinais do vinho, status, por aí).

Queremos gente bebendo vinho nas praias, nos botecos, levando suas garrafas para as baladas. O Lázaro, além do seu inegável talento, vai riscar do mapa qualquer viés racial no perfil do consumidor de vinho. Um negro também pode achar que beber um vinho é “uma boa” (para parodiar os comerciais da Antarctica). O Wagner Moura está com o pé em Hollywood, utilizando apenas e tão somente o seu talento.

O Victor Fasano seria também uma boa opção. Talvez não esteja em grande evidência no momento. Mas, enfim, é um ator de TV e teatro famoso. E com um importante trabalho na área de proteção aos animais no Rio. Deixo na reserva as figuras mais ou menos óbvias, embora de grande valor, gente como Antônio Fagundes e Tony Ramos.

Entre as mulheres, aponto logo de saída a Cláudia Raia, a aloprada Jaqueline Maldonado de “Ti-ti-ti”, mais um gol da talentosa bailarina e atriz, que aos 10 anos era manequim de Clodovil, aos 13 estava no American Ballet Theatre, aos 15, em Buenos Aires, fazendo a Julieta de Shakespeare no Teatro Colón e aos 18 estreava numa novela de TV. E não parou mais, movida apenas pelo seu talento. O par para Cláudia seria a Camila Pitanga: teria um valor semelhante ao do Lázaro Ramos, falando com autoridade para jovens e jovens maduros.

Como reservas femininas minhas sugestões vão de Patrícia Pillar a Alinne Moraes.

Agora é com você leitora. Claro que você tem suas preferências? Para você quem escolheria para dizer “Eu bebo vinho” e convencer o consumidor brasileiro a aderir mais e mais a essa bebida?

Da Adega

Vinho sem álcool. A leitora Eliana F. Pinghera, de Sorocaba, SP, está atrás de vinhos sem álcool. E quer saber onde comprar. Fui de Google mesmo e não encontrei nada em Sorocaba. Encontrei um site de vendas on-line, o Bacco e Tabacco que oferece o La Dorni Branco Suave. Num artigo da revista Fator, que reproduzo, li que esse vinho pode ser encontrado “em muitas lojas de bebidas, em livrarias e lojas católicas”. O artigo destaca lojas como Casa Santa Luzia, La Rioja, Empório Frei Caneca, em São Paulo, o Lidador. Mundo Verde, Castelo do Vinho, no Rio de Janeiro e em redes como Wal-Mart, Carrefour e Bom Preço. Em outros estados como Belo Horizonte, Curitiba, Brasília, Florianópolis, Porto Alegre, Salvador. No shoppinguol, também de vendas on-line, temos esse La Dorni.

Visite o site da La Dorni, veja seus produtos e faça contato. Esse vinho é apresentado como o primeiro sem álcool a ser produzido na América Latina. Mas atenção que esse vinho não é 0% de álcool. Ele, como a maioria dos vinhos sem álcool, tem em média, 2º de teor alcoólico, detectável somente em laboratório. O suco de uva tem de 0,6 até 0,8º de teor alcoólico, o suco de maracujá tem 1º e o caldo de cana chega a 1,2º. E nosso próprio organismo produz cerca de 1-1,5g de álcool diariamente.

25.1.11

O mundo dos vinhos e as vítimas das chuvas

Você não pode faltar a essa degustação em benefício das vítimas das chuvas em Itaipava. Será realizada agora, dia 27 de janeiro, a partir das 19h, na sede do Botafogo, na Avenida General Severiano, 97, Rio de Janeiro.

Diversas importadoras também participarão e seus rótulos serão degustados. E degustados com a participação e orientação do mestre Dânio Braga; dos sommeliers João Souza, Dionísio Chaves, Marcos Lima; dos jornalistas Alexandre Lalas e Bruno Agostini; dos críticos de vinho e gastronomia Oscar Daudt e Luciana Plaas; do conceituado consultor Paulo Nicolay e dos diretores da ABS Ricardo Farias, Célio Alzer e Roberto Rodrigues, além de Anderson Barros (Diretor de Futebol do Botafogo).

O valor da entrada custa R$ 100,00 e o ingresso poderá ser adquirido na Confraria Carioca (21 - 2244-2286) ou pelo e-mail duda@confrariacarioca.com.br Toda a renda será revertida para as vitimas da cidade.

Não falte: Na ocasião também serão rifadas garrafas de vinho, uma Jamoneira e de duas camisas oficiais do botafogo autografadas. As importadoras que doaram seus vinhos e participarão do evento são: FTP Wines, Mercovino, Enoforum, Hannover, World Wine, Grand Cru, Vinci, MM Vinhos, Confraria Carioca, Wine Experience, Vinícola Maximo Boschi, Vinícola Santo Emilio, Cava de Vinhos, Península, Premium, Wine Society, KMM e Casa Flora. Além disso, o evento ainda conta com a participação da Caprilat, que doou os queijos de Cabra, e do Danes Buffet do Mauricio, que gentilmente cedeu o espaço e o Buffet.

Essa degustação será prazerosa em todos os sentidos, pois você estará igualmente ajudando a salvar vidas.

Liga agora, reserve o seu lugar, participe, ajude o povo da Serra.

22.1.11

O que é o que é?

Não chega a ser tradição, mas em 2010 (lembra dele, quando também aconteceram chuvas catastróficas no Sudeste, mas menos intensas no Rio?) comecei o ano com um quiz (“Um teste para começar”). Para não perder o costume, essa terceira coluna é também um teste, que vai ter muito de vinho e um pouquinho de desastres. Melhor dizendo: tragédias.

1. Sancerre é o quê? Um vinho ou uma região francesa? O famoso vinho branco de Sancerre é feito com que variedade de uva?

Chardonnay, Chenin Blanc, Sancerre, Sauvignon Blanc, Colombard?

2. O que é VDL?

3. E o que é Acavitis? Uma eau de vie francesa, um schnapps alemão, uma grappa italiana, um orujo espanhol ou uma bagaceira portuguesa?

4. Cheirando a querosene? Quando os fabulosos Rieslings alemães produzem seus tradicionais aromas de lanolina ou de petróleo quer dizer que seus vinhedos estão próximos a pastagens de ovelhas (no caso da lanolina, a cera bruta de lã) ou de campos de petróleo?

5. Qual a relação entre tragédia, vinho e o Caramelo?

Respostas:

1. Sancerre é uma Appellation d'origine contrôlée (AOC) que dá nome aos vinhos ali produzidos, a leste do Vale do Loire. Seus elegantes vinhos brancos são feitos com a Sauvignon Blanc, a principal uva da região.

2. VDL: Vin de Liquer, um vinho cuja fermentação é encerrada com ajuda de álcool (um licor, uma aguardente) com o fim de aumentar o seu volume alcoólico (que costuma ficar entre 15-22%). É um vinho doce fortificado, normalmente utilizado como aperitivo. Alguns VDL famosos: Pineau des Charentes (com a Ugni Blanc, Colombard e Sémillon, produzidos na região de Cognac). O Floc de Gascogne, produzido na Gasconha e na província de Armagnac, França, é fortificado com o supremo Armagnac, um destilado que não perde em nobreza e sabor para o Cognac. E o Macvin du Jura é uma AOC também no leste francês exclusiva para esse VDL, feito com a uva Savagnin, fervida até que o suco restante seja misturado a um aguardente. Na União Europeia, o termo Vin de Liquer pode também referir-se a qualquer vinho fortificado, como os Porto, Madeira, Jerez, Marsala.

3. ACAVITIS. Acavitis talvez seja mais quente do que qualquer das aguardentes citadas. Com prazer lhe apresentamos a Associação Catarinense dos Produtores de Vinhos Finos de Altitude, a Acavitis. Ouviu falar em vinhos finos de altitude, certamente ouviu falar dos vinhos de São Joaquim, com vinhedos entre 900 e 1400 metros de altitude, produzindo dentro dos melhores padrões de qualidade. Ela foi criada em 2005 para orientar os produtores de uvas e vinhos finos de altitude do estado e atualmente representa três regiões produtoras: de São Joaquim, de Campos Novos e de Caçador. A variedade predominante no momento é, sem surpresas, a Cabernet Sauvignon. Merlot, Pinot Noir, Cabernet Franc, Sangiovese, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Trincadeira, Malbec, Sauvignon Blanc e Chardonnay já estão a caminho.

4. Lanolina, petróleo: muitas vezes os vemos citados em avaliações de vinhos com as Rieslings ou com as Chenin Blancs. Mas, nesses casos, essas expressões significam apenas o aroma de óleo. A lanolina é um óleo derivado da lã de carneiros. Para mim, tem delicioso aroma de um suéter. Já petróleo, óleo cru, pode cheirar a gasolina, querosene, aromas clássicos dos Rieslings.

5. Tragédia, vinho e Caramelo. A palavra tragédia teria vindo do grego antigo, formado por tragos (bode) e odé (canto), que formavam tragoidia (mais ou menos “canção dos bodes”). Há uma segundo explicação, dada pelo autor e gramático grego Ateneu de Náucratis, colônia grega no Egito, onde nasceu (cerca de 200 a. C.) Dele, só restou uma obra, “O banquete dos filósofos”. Ateneu afirma que a forma original da palavra tragédia era trygodia, de trygos (colheita da uva) e ode (canto). Nas duas versões significava a apresentação de dramas (e comédias) em homenagem a Dionísio, deus do vinho. Do vinho e da loucura ritual.

Se na Grécia Clássica, tragédia era uma representação teatral, aqui na Serra ela aconteceu e ainda está em cartaz infundindo horror, infortúnio, desespero, lágrimas.

Moro em Secretário, como sabem. Perdi vizinhos. Cadê o Vale do Cuiabá, Cadê o Tambo, pousada pioneira que abriu as portas para atividades importantíssimas no turismo, na hotelaria, na gastronomia e na enofilia em todo o Estado? Há 20 anos, o Tambo e seus seguidores abriram espaço para que a região pudesse oferecer algo mais do que camisetas.

Sobra nada para o vinho nessa tragédia, amiga leitora. Dos gregos, lembro Sócrates: ele dizia que não se pode definir erro sem que também definamos conhecimento. Pois em 2005 o Brasil e mais 167 países firmaram acordo estabelecendo sistemas de alerta para reduzir riscos de desastres naturais. Isso aconteceu logo após o tsunami na Ásia. Nada foi feito e o desastre aconteceu. Conhecimento havia e há. É a população de todo o país, com sua incrível insuperável demonstração de solidariedade, que está tentando reparar o erro.

Lambo minhas feridas, como o Caramelo, o cão que ainda cata o que perdeu.

(Para quem puder ajudar acesse o G1 e saiba como ajudar os desabrigados da chuva na Região Serrana do Rio)

Da Adega

S.O.S. Caramelo. Raquel Geraldi, Julia Pessôa e Katia Zonta são voluntárias para ajudar os animais, cães e gatos, sem casa, comida, água, remédios. Sem seus donos, enfim.

Elas não querem doações em dinheiro, mas ajuda através de produtos como: rações de qualquer marca e tamanho; comidas pastosas para os filhotes; coleiras, guias; potinhos/recipientes para colocar comida e água; toalhas (limpas), panos, lençol, caminhas (tudo limpo, por favor!); sabonete neutro, de coco ou shampoo para animais; remédios - vermífugos, de pulgas, rifocina, enfim qualquer remédio na validade para gato ou cachorro.

As voluntárias podem ser achadas pelos celulares: Raquel G: (21) 9936-3965; Julia Pessôa: (21) 7867-8815; Katia Zonta: (21) 9175-6782.

(O título, S.O.S. Caramelo é meu; o trio de moças lança apenas um S.O.S).

Seleção Mercosul: A Vinitude está com um promoção de tintos argentinos e chilenos, todos com pontuação acima de 88. Dê uma olhada. A Vinitude é a loja on-line da importadora Vitis Vinifera.

Espanhol pontuadíssimo. Um espanhol 100% Tempranillo, mais 91+ da Wine Advocate (Robert Parker), você encontra na Península Vinhos de Espanha. Peça pelo Finca Villacreces Pruno 2008.

18.1.11

Vinho em casa

“Boa tarde, meu nome é Fernando e gostaria de saber como posso fazer um vinho em casa...”

O Fernando quer saber ainda se pode utilizar as uvas encontradas no mercado, qual o tipo de fermento, quanto tempo deve esperar pela fermentação, quais equipamentos empregar. Quer começar o ano metendo a mão (e talvez os pés) na massa.

Imereti, uma cidade da Cólquida, na Geórgia, descoberta por Jasão, o herói grego, é ainda hoje uma tradicional produtora de uvas. Há videiras por toda a parte, mas nenhum sinal de vinho, de barris, jarras etc. As famílias chegam com as uvas em cestas cônicas e as despeja num tronco oco. O agricultor tira o sapato, lava os pés com água quente de um balde e lentamente põe-se a pisar as uvas até não sentir mais nenhuma resistência.

Depois, despeja as uvas esmagadas em grandes jarras de cerâmica, kwevris, enterradas no chão até a boca. É ali, escondido, em meio à terra fresca, que acontecerá a fermentação. Estamos no verão. Na primavera, o lavrador transfere o vinho para outra jarra (com uma cuia fixada num cabo), deixando as cascas que servirão de aguardente para os imeretianos. Essa segunda jarra está também enterrada até a boca. Ela é fechada e o vinho se conservará. Mas não por muito tempo, pois de tempos em tempos os vizinhos do agricultor vão aparecer com suas tigelas de argila.

Esse é o relato do historiador, autoridade em vinho, o inglês Hugh Johnson, no seu best-seller “A História do Vinho”. Os costumes dos imeretianos nada mudaram desde os tempos de Homero. Sabe-se que a Geórgia e a Armênia, ali nas fraldas do Cáucaso, são berços da videira. O vinho pode ser sido criado por um acaso: um cacho de uvas caiu num buraco, então as uvas fermentaram, alguém bebeu, gostou e repetiu ao seu modo o incidente. Na Geórgia foram encontradas caroços próprios de uvas cultivada que pertencem ao final da Idade da Pedra, de 7000 a 5000 a.C.

Em setembro passado, arqueólogos descobriram a talvez mais antiga vinícola do mundo, numa caverna no Monte Cáucaso, na atual Armênia. Bem perto de Imereti, na mesma área montanhosa na qual foi descoberto o mais antigo resíduo de vinho feito de uvas, datado de 5.400 a.C., em jarras de barro.

Lembra, Francisco, que Noé desembarcou no Monte Ararat, entre a Armênia e Turquia? Desembarcou e logo começou a plantar vinhas e a fazer vinho, segundo o Gênesis. Pois Ararat e essa caverna ficam bem perto de Imereti. E Noé teria feito vinho tal e qual os imeretianos.

A vinícola descoberta estaria em plena operação entre 4.100 e 4000 a. C. Na caverna, acharam uma prensa rudimentar (algo um pouco melhor do que um tronco oco), um tanque de fermentação para uns 50-60 litros, vasilhames e até mesmo restos de cascas e sementes de uvas. De lá pra cá, efetivamente pouco mudou. Talvez tenha ficado um pouco mais complicado, pois somos mestres em fazer adições, “temperar” as coisas.

Em 2007 contei a história de Alistair Bland, que bicicletou pela Califórnia no ano anterior. Alimentava-se do que colhia das árvores, amoras, figos, amêndoas, uvas. Sentiu sede e resolveu fazer o seu próprio vinho. Sua receita é simples e sempre repetida (basta pesquisar na Internet). Alistar fez um vinho de amoras, mas poderia ser de qualquer outra frutinha vermelha ou de uvas. São apenas seis etapas na minha versão:

1ª) Compre cinco quilos de uvas de mesa. Elas também são da espécie Vitis Vinífera, de origem europeia. Pode escolher as com semente (a Itália, a principal variedade de uva fina de mesa do país; ou a Red Globe, a Benitaka e suas primas, a Rubi e a Brasil; e a Patrícia). Ou sem semente: Superior Seedless ou Festival, Crimson Seedless e a Thompson Seedless ou Sultanina, a mais importante uva de mesa consumida no mundo. Saiba mais sobre essas uvas no site da Embrapa.

2ª) Faça o suco. Imagino que não tenha em casa uma árvore oca (como os imeretianos) ou um tanque grande o bastante para amassar as uvas com os pés. Então, use uma meia, como fez o repórter americano. Vá colocando os cachos no pé de meia e torcendo. Despeje o suco numa vasilha de tamanho adequado. Para vasilha deverá, depois, ir também tudo o restou na meia: cascas, talos e sementes (se existirem). O ciclista não fez isso: só utilizou o suco. Minha preferência é a de que o suco da uva mais cascas etc. vão ajudar principalmente na cor e eventualmente mais taninos e ácidos. Atenção, não substitua a meia por liquidificadores, processadores: o amargor das cascas e das sementes será incorporado ao sabor do vinho.

E você vai precisar de pelo menos duas dessas vasilhas. Tente dessas para armazenar água ou combustível, assegurando-se que estejam zero quilômetro, bem limpas. Tudo o que fizemos até agora foi para a primeira vasilha- que não deve ser preenchida até a boca: deixe pelo menos um terço dela vazia, dando espaço para a fermentação.

3ª) Acrescente fermento seco, desses comprados em padarias: tente com um envelope, para começar. Se não começar a fermentar nas 12 horas seguintes, acrescente mais um saquinho e uma concha de feijão de açúcar.

4ª ) Deixe o suco fermentar por 7-10 dias. Quando você der uma olhadinha e verificar que a agitação do suco cessou, que está tudo calmíssimo – então a fase da fermentação estará completada. Tampe o vasilhame com um plástico furado: utilizo um simples balão de festas como uma capa em torno da tampa e faço uns três furos de modo a deixar que gases naturais da fermentação escapem, sem deixar que o oxigênio entre. Há quem use um bloqueador de ar (ou airlock) em lugar o meu simplório balão. O nosso repórter não usou nada. E deu certo!

5ª) Decante o agora vinho, novamente usando uma meia (limpa, pois não?) para filtrar todo o suco e separá-los de cascas, sementes e talos). Passe tudo para o segundo vasilhame.

Se quiser, divida todo o volume por garrafas de vinho (devidamente limpas). No presente exercício, você vai precisar de seis garrafas de 750 ml (4.500 ml no total), mais uma meia garrafa de 375 ml. Crie rótulos: “Château Francisco”?

6ª) Beba. Deverá ser um vinho dominado por aromas de fermento e de uvas, pobre em taninos, com um volume alcoólico de uns 8%, bem leve. É simples assim mesmo. Os imeretianos só iriam estranhar as meias e o airlock (o fermento já vinha com as uvas). O restante, Fernando, é quase tudo como acontecia nos tempos de Jasão e Noé.

Referências:

- Matéria do Alistair Bland

- Vinho Artesanal.

- Wine Making Articles (Artigos sobre vinhos caseiros).

Da Adega

Clube do Vinho. Ou ClubeW (o clube do vinho da Wine.com.br). Você visita o site da Wine.com.br e assina e serviço. E a partir daí passa a receber mensalmente uma série de vantagens, como, por exemplo, quatro garrafas selecionadas pelo site com descontos de até 50%, sem cobrança se frete e com descontos garantidos de até 15% em todas as compras. Dê uma olhada.

Compra coletiva. Ou mais gente comprando fica mais barato. Essa é a ideia de um site dedicado à compra coletiva de vinhos. Eles conseguem até 60% de redução nos preços desde que um mínimo de garrafas seja comprado a cada vez. Vale analisar.

7.1.11

Sugestões para 2011

Partimos sempre do fim para começarmos alguma coisa, disse um poeta. O que o ano passado nos deixou, como será o novo ano em termos de vinho? Li algumas das costumeiras resenhas de fim de ano, aquelas listas com os “melhores” e os “piores”, os momentos mais e menos marcantes do mundo dos vinhos em 2010 e mais os esforços de tentar ver nas bolas de cristal como será 2011.

Estou fora. Prefiro fazer como o colunista Matt Kramer, da revista Wine Spectator. Sua atual coluna diz tudo: Open to Suggestions (“Aberto a Sugestões”), onde ele propõe que reconsideremos algumas das práticas ainda comuns entre os amantes da bebida. Bobagens que não valem a pena ser repetidas, pois só nos prejudicam. E não fazer o errado é uma ótima maneira de começarmos o ano.

O efeito Cinderela. Por exemplo: só levar para a adega aqueles vinhos que consideramos nossas primas donas, os vinhos finos, rótulos nobres, necessariamente caros. Será que só os vinhos caros merecem ir para a adega? O colunista nos apresenta então o efeito Cinderela, quando uma pobre empregadinha se transforma na sensação do baile.

“Os vinhos Cinderela são aquelas joias baratinhas que em razão de sua obscuridade, moda ou apenas por marketing mal feito não conseguem um preço que sinalize vinho fino”, explica o colunista americano. Vamos, portanto, passar por cima de algum esnobismo e da ilusão do preço. Damos sempre mais atenção (ou preferência) ao que é mais caro.

A sugestão é esquecer os preços e tentar achar as Cinderelas. O mundo dos vinhos chegou a um ponto tal de preparo tecnológico que hoje existem mais vinhos baratos de grande qualidade do que os suspeitos de sempre, sempre caríssimos, inacessíveis. Temos aí uma multidão de Cinderelas esperando ser encontradas. E são elas as que deverão ser guardadas. Um vinho de preço modesto pode transformar-se numa preciosidade depois de um tempo na adega. Daqui a pouco falarei sobre os que tenho em minha adega: você vai entender mais sobre o efeito Cinderela.

Pra geladeira. Outra sugestão de Matt Kramer é repensar como guardar vinhos já abertos e desistir de tentar resolver o problema da guarda de restos de garrafa com, por exemplo, essas Vaccumm Pumps, bombinhas de vácuo, apresentadas num estojo acompanhadas normalmente de duas tampas plástica. Não funcionam, perdem o vácuo numa noite.

O que funciona mesmo é a nossa geladeira. Sobrou vinho, volte a tampar a garrafa e coloque a garrafa no refrigerador. Punto e basta. A bombinha é a esquifosa. Existe algo bem mais eficiente, barata e à mão. Está na sua cozinha. Se o caso é reduzir a oxidação do vinho, o frio é a melhor maneira.

Maneira provada pelo químico sueco Svante August Arrhenius (1859-1927), prêmio Nobel de 1927, pela criação da fórmula chamada depois de Equação Arrhenius. Ela demonstra que quando há um aumento de 7,7º C na temperatura, a taxa média de reação química num determinado material dobrará. E o mesmo acontecerá com o inverso: quanto mais fria a temperatura, menor a taxa de reação. Ou seja: menor a taxa de oxidação. Nossa vida ficará mais fácil, pois certamente a maioria dos vinhos que vão sobrar são jovens, justo aqueles que menos sofrerão com a oxidação (se devidamente guardados na geladeira).

Engrosso a receita de sugestões do Matt Kramer com algumas minhas. Elas dizem respeito ao vinho perfeito, às pesquisas e ao vinho brasileiro.

Vinho perfeito? Como vinho perfeito entenda-se aquele feito com todos os requintes e recursos técnicos, com levedos especiais para a fermentação, enzimas para clarificar o vinho e “quebrar” correntes de proteínas, micro-oxigenação para amaciar taninos, cones giratórios para concentrar ou reduzir o conteúdo alcoólico da bebida; e bastante carvalho para dar novos sabores ao vinho. A lista de macetes é grande. No fim, ficamos sem saber a identidade do que está na garrafa, de onde veio aquele vinho, qual o seu jeito, sua graça, se o seu balançado é mais que um poema. E saberiam que ela é de Ipanema. Tom e Vinícius não fariam um poema a partir de uma peituda oxigenada do Playboy, o original das mulheres melancias.

É mais provável que você encontre mais vinhos mais naturalmente produzidos, quase que artesanalmente, entre os mais desconhecidos, de pouca produção, não muito fáceis de encontrar. E nem sempre com preços justos. De certo modo, podem parecer gatas borralheiras. Mas achá-los seria como tentar encontrar a Ana Luíza, a do Tom Jobim: onde anda Luíza, em que lago, em que serra, em que mar se oculta? Dá trabalho, sim, mas vale a pena.

Não acredite nelas. Quanto às pesquisas, vale a pena ler a matéria The Truth Wears Off (“A verdade cansa” ou opcionalmente “A verdade danifica”), na New Yorker de 13 de dezembro. Nela o repórter Jonah Lehrer demonstra que muitos dos resultados de estudos científicos que passam por rigorosamente provados e aceitos começam a mostrar falhas, a “cansar”. Os produtos que antes seriam milagrosos começam a não dar no couro nos capítulos seguintes.

É por isso que ouvimos sempre as pessoas reclamando que “primeiro nos dizem que isso faz bem ou mal, para em seguida afirmar o oposto”. O ovo era do mal, agora é do bem. Até quando?

Para arrematar um catedrático americano, John Paulos, revela que a maioria dos estudos sobre saúde está impregnada de “ses”: se isso, se aquilo, se ainda aquilo outro e tome “ses”. Ele cita um renomado pesquisador, John Ioannidis, da Universidade de Ionannina, na Grécia, que estudou 45 estudos científico-médicos, que alcançaram grande publicidade entre 1990 e 2003. Suas conclusões: os resultados de aproximadamente um terço desses trabalhos foram desmentidos por trabalhos posteriores.

Temos a história da terapia por reposição hormonal que supostamente protegeria contra doenças cardíacas entre outras. Mas que aparentemente negou fogo. Ou o caso dos efeitos protetores da vitamina E. Não, ela não protege contra problemas cardíacos, reza uma grande pesquisa recente.

E os conhecidos estudos sobre os milagrosos efeitos antioxidantes do vinho tinto? Ninguém duvida que as uvas tintas, o chá e os vegetais possuem qualidades maravilhosas. Só que seus efeitos são bem mais modestos do que imaginam os amantes do vinho.

Recentemente o laboratório GlaxoSmithKline suspendeu pesquisas sobre uma nova droga baseada no resveratrol, um polifenol farto nas uvas tintas considerado quase como milagroso para o tratamento de uma série de problemas de saúde, a começar pelos cardiovasculares. Em boa hora, o laboratório verificou que as doses que pareciam benéficas para os animais demonstraram-se impraticáveis para o ser humano. Não duvido que tenha aparecido na mídia algo como a cura do câncer pelo resveratrol.

Continuamos respeitando as notícias sobre vinho e saúde, assim como continuamos lembrando que a bebida está aí para nos dar prazer, ajudar no convívio – tarefas importantíssimas. Logo, a sugestão continua: não busque no vinho um remédio. E não deixe de ler o artigo do Dr. John Paulos.

Fique com os brasileiros. Nossa última sugestão para 2011: prestigie mais os vinhos brasileiros.

A qualidade dos vinhos sul-americanos já está consolidada no Hemisfério Norte. Estão, por exemplo, na lista de tendências para 2011 do gerente de uma importante adega na Califórnia, a Bernard's Wine Gallery.

A Tannat uruguaia, a Carménère chilena e a Malbec argentina conseguiram furar o bloqueio e tornaram-se símbolos da boa qualidade vitivinícola desses países.

O Brasil também tem uma arma poderosa, ‘mas sem nome – pelo menos um nome tão específico quanto, digamos, a Malbec (falou em Malbec, falou em Argentina).

Dois respeitados críticos ingleses visitaram recentemente a Serra Gaúcha e concluíram que nossos espumantes são ótimos, o nosso símbolo vinífero. Mereceriam até tornar-se uma categoria exclusiva.

Jonathan Ray (veterano crítico de vinhos do londrino The Daily Telegraph) e Charles Mecalfe, também crítico, um dos criadores de um dos maiores eventos do mundo dos vinhos, a International Wine Challenge.

Ambos afirmam que “os espumantes são o futuro do Brasil. Poderão ser para o país o que a Carménère é para o Chile”, dizem. Sugerem que encontremos um nome para essa nossa maravilha e sugerem: Brut de Brazil. Lembram que a África do Sul já criou o seu Cap Classique, que promove o espumante sul-africano, feito pelo método champenoise, tal como na Serra Gaúcha. Não espanta que Jonathan Ray tenha selecionado o Miolo Brut Millésime 2006 entre os 10 melhores vinhos sul-americanos.

Que nossos vinhos brancos, em particular os espumantes, têm grande qualidade é de conhecimento geral. Mas sem dúvida os dois ingleses ajudam a melhorar nossa foto lá fora.

Assim é que você vai ter que passar 2011 procurando. Não aceitar que o vinho brasileiro seja apenas mais uma gata borralheira. Tenho que certeza que, assim como o Richard Gere tirou da obscuridade uma Julia Roberts, você vai encontrar no vinho brasileiro a sua Cinderela, cheia de graças.

Em tempo, os dois críticos ingleses sugerem para os nossos espumantes o nome promocional de Brut de Brazil. Será que pega, que é melhor do que Cap Classique? Copa e Olimpíada estão aí. O que vamos oferecer para os visitantes? Taí mais uma sugestão: crie um nome para as nossas bolinhas e quem sabe você não dá uma bela faturada para começar 2011.

28.12.10

É hora das bolinhas!

Acho meio bobo escrever uma coluna sobre espumantes, tradicional nessa época do ano. Bobo, porque com coluna ou sem coluna pelo menos dois terços de todos os espumantes em todo o mundo serão entornados nas festas de Ano Novo. O melhor seria promovermos os espumantes em junho.

Vale lembrar que, além do Ano Novo, espumantes são abertos em batizados, aniversários, casamentos (e também descasamentos, tanto para celebrar como para lamentar: funciona das duas maneiras). Para os casais apaixonados, todo o dia é dia de abrir um espumante. Já me explicaram que é como “molhar os dedos na água do mar antes de dar um mergulho”. Pode ser, mas eu não preciso desse tipo de aquecimento.

Esses casais de pombinhos estariam perfeitos na fita de dois pesquisadores que afirmam: beber é típico de sociedades monogâmicas. Mara Squicciarini e Joan Swinnen, membros da “Associação Americana de Economistas do Vinho” apresentaram recentemente um trabalho sobre o assunto: “Mulheres ou Vinho? Monogamia e Álcool”.

Eles se aventuraram nessa pesquisa ao notar que mórmons e maometanos permitem a poligamia e não consomem álcool. Será coincidência, perguntam?

Analisaram a correlação entre álcool e arranjos casamenteiros desde as sociedades primitivas, de nômades caçadores, pescadores ou colhedores, até os tempos atuais.

No final, acho que não conseguiram uma correlação segura entre os dois fatos, uma evidência, algo concreto confirmando que o consumo de álcool explique a mudança de poligamia para monogamia. Um comentarista pergunta: bebemos porque somos monógamos ou se somos monógamos porque bebemos? (Leia sobre toda a pesquisa aqui)

O Ano Novo taí e sabemos que todo mundo quer é festejar, muitos monógamos vão brincar de polígamos. E muitos polígamos vão virar o ano chupando o dedo.

É isso, vamos estourar e bolinhas, apenas ar embrulhado deliciosamente para presente. Uma festa fácil de brincar.

Veja só no filmete: se você é uma pessoa normal nunca notou que bastam apenas seis voltas para desfazer a “gaiola” de arame que protege qualquer garrafa de espumante. Ninguém sabe exatamente a razão: poderiam ser sete ou cinco voltas. Mas são seis e pronto.

Essa gaiola é a muselage, palavra francesa que pode ser traduzida como mordaça (daquelas que usamos em cães). Quando a retiramos podemos ver a plaque de muselet, uma capa de metal sobre a rolha. Muitas vêm com emblemas e cores, com a marca do produtor; algumas são verdadeiras obras de arte, itens colecionáveis. Para isso, você precisaria beber espumante o ano inteiro, o que é ótimo.

Não acredite muito em histórias como a de que os espumantes “sobem” mais rápido para as nossas cabeças por causa do gás. Se fosse assim, ficaríamos embriagadas com uma inocente água mineral gasosa. Talvez fiquemos mais eufóricas com ela em função da peça que está nos acompanhando.

Champagne vem da região de Champagne, na França. Na Itália, temos o Prosecco, feito com a uva deste nome, do norte da Itália. Na Espanha, a turma festeja com a Cava. Do Brasil, temos dos melhores exemplares de espumantes do mundo, feitos na Serra Gaúcha. Nossas bolinhas são uma escolha segura em qualquer ocasião. E ficam mais em conta.

Os estilos são vários: se você não gosta da bebida doce, procure as versões naturais (o doce é uma adição feita com algo doce chamado “dosage”). Basta ver no rótulo “zero”, “extra brut” ou apenas “brut”.

Se não possuir as “flutes”, aquelas elegantes tulipas, utilize uma taça de vinho branco. As bolinhas vão se dissipar mais rapidamente; em compensação, a bebida vai ficar mais aromática.

Bobagem essa história de se beber é monógamo, se não beber é polígamos. Na verdade, precisamos é de gente, de calor humano. “Pessoas. Pessoas que precisam de pessoas” reza da música “People”, numa formidável interpretação da Barbra Streisand. Vamos encerrar a coluna com ela. Vejam só: http://www.youtube.com/watch?v=GhOap2Vldaw

Muitas bolinhas para vocês, nesse fim de ano, no começo do próximo. E sempre que der vontade.

20.12.10

O que Noel tem para nós?

A essa altura ninguém tem mais dúvida que as bebidas, em particular os vinhos, fazem parte da vida de suas amigas e amigos. Alguns embarcaram no transatlântico dos vinhos por pura moda. O que é ótimo. Como falou um celebrado crítico de vinho: moda é muito mais do que roupas ou design; moda é a projeção de um sonho. Os vinhos estão associados a sofisticação, refinamento, elegância, cultura. Quem não quer isso? Para outros, o vinho ou o destilado é parte inseparável de suas vidas gustativas.

Então, vamos aos presentes, sem esquecer que nem todo o tipo de bebida alcoólica é apropriado para que seja oferecida a seus amigos. Devemos observar uma, digamos, certa etiqueta.

Pro chefão lá da empresa, por exemplo. Você sabe que ele é uma pessoa de bom gosto, conhece o mundo, badala por gosto e por necessidade. Logo, não vai escolher algo que seja genérico, óbvio. Procure saber o que ele gosta, o que costuma pedir nos bares e restaurantes, quais seus hábitos e hobbies.

Uma sugestão seria o Cave Geisse Terroir Nature, um espumante nacional feito pelo método tradicional (o utilizado na região de Champagne). É um espumante qualquer: seu produtor é Mário Geisse, um enólogo chileno que veio para o Brasil dirigir a Moet & Chandon em 1976 e, hoje, encontrou no solo e na altitude de Pinto Bandeira, na serra gaúcha, o necessário para de lá tirar espumantes reconhecidos como de grande qualidade internacionalmente. Escreva umas poucas linhas sobre o vinho, demonstre que pesquisou.

Convidado para uma dessas festas de fim de ano, sabe que uma garrafa de vinho irá cair bem. Mas não espere que sua garrafa seja aberta durante a festa. A etiqueta aqui diz que sua anfitriã não precisa servir o vinho que você trouxe. Assim, continuo nos espumantes: o Miolo Brut Millésime 2006 cairá muito bem. Pode ser até que o abram na hora. Ou também que seja utilizado como presente em outras festas onde a anfitriã de hoje será a convidada.

Para o seu sogrinho, não vá pegando qualquer garrafa da prateleira. Você sabe que gosta de um trago na hora do almoço (e mais outro, à noite). Não se preocupe, cientistas da Universidade de Monash, na Austrália, descobriram que uma dose de uísque por dia proporciona os mesmos benefícios antioxidantes de um copo de laranjada. Ou seja: equivale a consumir vitamina C. Aliás, os testes demonstraram que o uísque contém mais antioxidantes do que o ácido ascórbico. Claro que o sogrinho vai preferir um trago de um Johnny Walker do que bater um prato de brócolis.

Para um amigo ou uma amiga, a tentativa é encontrar algo raro, especial e de qualidade, tudo ao mesmo tempo. Qualquer coisa que implique sobretudo em bom humor. Por exemplo, pedras de gelo, mas feitas de pedras mesmo, nada de gelo. Há alguns anos, tínhamos aquelas “pedras” de gel, e que depois de saírem do congelador num instante estavam mornas e ainda deixavam um gosto estranho nos nas bebidas.

Agora, não. São pedras mesmo, cubos de granito que podemos colocar no congelador e em seguida colocar em nossos drinques. Veja aqui.

Outra pedida é um bafômetro. Já existem os de bolso a preços módicos. Beber é coisa séria e dirigir também. Os dois juntos não combinam. Às vezes, achamos que bebemos pouco, mas o bafômetro do pessoal do Lei Seca vai demonstrar que não. Então, é sempre bom ter um à mão, para tirarmos as dúvidas antes que o pior aconteça. Veja alguns modelos aqui.

O problema é que essas duas dicas são importadas. Até chegar aqui as festas de fim de ano acabaram.

Então, insisto com os vinhos. Que tal o Espumante 130, da Casa Valduga. Um dos mais interessantes espumantes nacionais. Os 130 do rótulo comemoram a chegada à serra gaúcho dos primeiros Valduga, essa mesma gente que nos dá agora um espumante par de qualquer Champagne (desde que a francesa seja de grande qualidade). Feita pelo método tradicional com uvas chardonnay e pinot noir, a segunda fermentação em garrafa leva 36 meses. O Valduga 130 não para de ganhar medalhas em concursos internacionais. A lembrança desse presente sua amiga irá guarda-la para sempre, mas o espumante será bebido em três tempos. Saiba mais aqui.

Papai Noel está mais do que abundante, farto, opulento até em matéria de vinhos. E de preços. Espero que você selecione algumas garrafas para você. É um presente que você sabe que merece.

Feliz Natal, gente.

Da Adega

Feliz Festas. A todas as empresas de comunicação que prestigiaram a coluna com o envio de notícias. E mais uma vez o muito obrigado para as amigas da Confraria Amigas do Vinho-CAV & Federação Brasileira de Confrarias e Associações Femininas do Vinho e do Espumante-FEBAVE. E pelas dicas valiosas e saborosas do grande Roldão Simas, um vero descobridor. Um particular abraços à turma do Bolsa, que sempre arruma um canto para nos alojar.

18.12.10

Entre a poesia e o micróbio (parte 1)

Vinho pode ser a prova constante de que Deus nos ama e quer felizes, na formulação de Benjamim Franklin. Ou poesia engarrafada, como queria Robert Louis Stevenson. E talvez isso explique a razão de existir dos que escrevem sobre vinhos. Mas estamos aqui para tornar mais simples esse conhecimento, desmitificá-lo. Por isso, pergunto: o que você sabe sobre os micróbios que habitam essa mística bebida?

Pois é, os micróbios, esses pequeníssimos organismos que vivem em todas as partes: na água, nos oceanos, no ar, dentro de rochas. Adotam formatos diversos: bactérias, fungos, archeas, protistas (que podem se auto nutrir, pois possuem clorofila e fazem a fotossíntese), plantas (como as algas verdes, as chlorophyta) e animais, comos os plânctons, base da cadeia alimentar dos ecossistemas aquáticos, e que serve de alimentação até para as baleias

Esses microorganismos são fundamentais: transformam matéria orgânica em sais minerais, água e dióxido de carbono, o nitrogênio da atmosfera em amônia, um processo essencial para a vida, pois é dessa maneira que vamos obter os formadores de DNA e RNA e os amino ácidos das nossas proteínas. Por isso, são explorados pela turma da biotecnologia na preparação de alimentos e bebidas e em técnicas de engenharia genética. Mas nem tudo é assim azul maravilha: temos os micróbios patogênicos, nocivos: invadem outros organismos causando doenças, que podem matar pessoas, animais e plantas.

No caso dos vinhos, vou logo avisando que não há micróbios nocivos para nós. Os principais são:

1. Saccharomyces cerevisiae – mais popularmentre conhecida como levedo, o fermento, pertencente ao reino dos fungos, utilizada na produção de pão, cerveja e vinhos. O que ela faz deixa o vinhateiro, o produtor do vinho envergonhado e certamente, em segundo plano. É a principal força em todo o processo de fermentação, que na verdade é apenas a hora da bóia do ponto de vista do levedo. Ele usa o açúcar do suco da uva como alimento e excreta etanol e dióxido de carbono (Saccharomyces significa literalmente “fungo do açúcar”, pois ele só pode sobreviver da sacarose).

Pronto: eis o vinho, feito por um fungo presente nas uvas em todos os vinhedos, o mesmo utilizado há séculos para fazer o nosso pão de cada dia.

2. Oenococcus oeni. Quem gosta de pipoca de microondas a conhece, pois um de seus subprodutos, o Diacetil, o agente promotor do sabor e aroma da manteiga. Durante a fermentação, enzimas existentes no levedo criam ésteres de sabores e liberam compostos de aroma transformando aquele suco numa bebida resplandescente. Mas existe um importante microorganismo que é ator importante em estilos de vinhos muito apreciaods. É o nosso Oenococcus oeni, na prática o sub-chefe do vinhateiro, pois responde pela tão falada fermentação malolática (ou “malo” no jargão dos expertos). Ele consegue sobreviver onde poucos organismos o fazem: grande quantidade de etanol, a baixa alcalinidade – ou pH -, acidez alta e poucos nutrientes). Pois alimenta-se do ácido existente no vinho. Daí ser chamada de bactéria malolática, nome tirado da sua principal função: converter o ácido málico em ácido láctico. O ácido málico é um dos dois principais ácidos encontrados no vinho (ou outro é o tartárico). E é igualmente o principal ácido componente das maçãs (do latim, mālum, maçã) e ele é, como podemos adivinhar, muito acres, azedo, ácido, enfim. Com o nome também derivado do latim (lac, lact, leite), o ácido láctico é a estrela principal entre os produtos derivados de fermentados do leite, como o iogurte. É muito menos ácido. O primeiro é bem mais forte que o segundo, logo a tal de fermentação malolática reduz a acidez (e aumenta o pH) dos vinhos, amaciando arestas e acrescentando diferentes sabores. Graças a ele conseguimos Cabernets mais redondos e Chardonnays amanteigados.

3. Lactobacillus. É uma família de primas da Oenococcus oeni. Lamentavelmente, comportam-se como as Irmãs Metralha, infernizando a vida do produtor. A Lactobacillus kunkeei, (ou “feroz lactobacillus”) pode destruir todo o processo de fermentação. A Lactobacillus fructivoran, apelidada de “Bolor de Fresno” (Fresno, um município da Califórnia), pode entupir uma garrafa de vinho com filamentos parecidos com algodão. A Lactobacillus hilgarddi pode deixar o vinho com aroma de rato morto (os tintos, em particular). Várias dessas Lactobacilli, são apontadas como responsáveis por fermentações interrompidas. Porém, algumas delas conseguem ser utilizadas na fermentação malolática.

4. Schizosaccharomyces pombe. Ela se reproduz por fissão, dividindo-se: daí o “schizo” em seu nome (do grego schizein: fender, separar, esquizo – o de “esquizofrenia”, em medicina). Já o “pombe” de seu nome vem do idioma Banto e significa cerveja, (foi originalmente isolado de uma cerveja africana). Ela é capaz de metabolizar o ácido málico em etanol. Se o suco de um vinho ainda está muito ácido, quem sabe jogar nele um pouco da nossa S. Pombe? O problema é que ela tem o péssimo hábito de deixar odores nada recomendáveis. Que fazer? Produzem uma espécie de sachê gigante cheio da S. Pombe; jogam-no no mosto, monitoram o pH e tiram fora o sachê logo que o pH aumenta e antes que o mal cheiro se instale, claro.

5. Brettanomyces. O pessoal carinhosamente a chama de Brett. Mas todo cuidado é pouco. Pode ser que venha a colaborar com o vinhateiro, mas frequentemente é uma adversária. É também um levedo, de uma família grande, reunindo nove “irmãos” e “irmãs”, que podem infestar o vinho com notas de esgoto, suor de animal. Também podem, ocasionalmente, deixar traços de couro e especiarias. Alguns enófilos acham que Brett no vinho é defeito. Outros já acham que ela pode dá caráter diferenciado ao vinho. Caso você perceba certo bodum de animal ou de estábulo num tinto, é provável que a nossa Brett esteja presente. Negociar um pouquinho de Brett no vinho e esperar aquelas prometedoras notas de cravo, pode ser muito perigoso. O produtor teria que primeiro isolar aquele dos “irmãos” ou “irmãs” que fosse do bem, tarefa tida como improvável. Mesmo que tenha dado a sorte de encontrar uma Brett boazinha, terá de tomar cuidado, pois em grandes quantidades o vinho pode ficar desagradavelmente desequilibrado.

Brettanomyces pode fixar residência em qualquer lugar na adega: em barris, em tanques de fermentação, em prensas etc. É um fungo muito arisco. Para livrar-se dele para valer, o nosso produtor vai ter que absolutamente tudo, paredes, assoalhos, tetos, barris – e fazer isso assiduamente. E isso só quando todos esses equipamentos não estejam operando. Daí que a maioria dos produtores não encoraja sequer negociar com as Brett, mesmo as do bem.

Mas elas podem ser prevenidas, controladas. Taí uma das razões pelas quais os famosos sulfitos são utilizados: eles inibem o crescimento desse levedo. Contudo, a nossa Brett pode e frequentemente consegue escapar dessa “bala de prata”. A única maneira segura de eliminá-la é através do processo de filtração, que muitos vinhateiros temem, pois pode danificar o produto final (além de ser bem caro). Os produtores norte-americanos, sul-africanos e neozelandeses podem usar um conservante, o Dimetil Dicarbonato, DMCD – cujo emprego no resto do planeta é proibidíssimo. Esse composto é um esterilizante poderoso, muitas vezes utilizado em lugar dos sulfitos.

E agora, o que fazer quando você encontra um vinho infectado pela Brett? Em primeiro lugar, esclarecemos que não é, de modo algum, tóxica. Apenas fede. Portanto, não se incomode se você tiver entornado alguns goles de um vinho que só depois percebeu estar com aquele aroma de cavalariça.

Se a “infecção” não é muito intensa, ela pode sumir algum tempo depois da garrafa aberta. Embora sem provas técnicas, acredita-se que a exposição ao ar elimina ou dilui os levedos que produzem o mal cheiro. Caso a intensidade não tenha sido reduzida ou eliminada, o melhor é jogar o vinho pelo ralo. Ele não vai dar para ser aproveitado nem para cozinhar. Sua comida pode ficar cheirando a chiqueiro, já pensou?

Semana que vem Pediococcus, Acetobacter, Kloeckera/Hanseniaspora, Botrytis cenerea e alguns membros da família Saccharomyces cerivisiae estarão com vocês.

Da Adega

Verão no Due Cuochi. O restaurante italiano, dos chefs Paulo Barros e Ivo Lopes, vem com novos Tratares de atum, salmão ou robalo, leves e frescos para enfrentar o verão. O cardápio de almoço da casa muda diariamente e inclui entrada e sobremesa e ainda traz vários tipos de saladas, massas, risotos, carnes e peixes. A casa é premiada pela Veja São Paulo, pela Prazeres da Mesa e pela Go'Where Gastronomia. Saiba mais aqui.

O Velho Mundvs da Valduga. Depois de escalas no Chile e na Argentina, a linha Mundvs da Casa Valduga apresenta agora rótulos portugueses, em particular da região do Alentejo, uma das mais tradicionais zonas vitivinícolas do mundo, com uma seleção das uvas Syrah, Aragonês e Alicante Bouschet. Está resolvido com que vinho o nosso bacalhau natalino fará companhia. Veja mais.

Pericó, o terroir da altitude. 2010 será o ano da 4ª. Safra de Vinícola Pericó, no Vale de São Joaquim, Santa Catarina. Nesse curto espaço, a Pericó só fez ganhar prêmios: medalha de ouro no Concurso Mundial de Bruxelas, com o seu espumante Cave Pericó brut 2010. O Cave Pericó Brut Branco e o Rosé são os primeiros espumantes das terras de altitude e da neve catarinense.

Os 70 anos do vinho da missa. Além de festejar o seu centenário esse ano, a Salton celebra também 70 anos de elaboração do vinho Canônico, produzido pela vinícola desde 1940 e atendendo a igrejas de todo o país. São 300 mil garrafas anualmente, 80% das quais comercializadas para as paróquias. Os 20% restantes vão para consumidores que apreciam o vinho para acompanhar sobremesas ou como aperitivo.

No início, a Salton esta localizada no Centro de Bento Gonçalves, diante da Igreja Matriz de Santo Antônio. Na época, não se produzia um vinho exclusivo, destinado às missas, problema resolvido pelo padre da igreja, um espanhol de nome Franco, com Nini Salton (Antônio Salton, um dos fundadores da vinícola). O padre passou o modo de elaboração do vinho Canônico, que, segundo a matéria que meu amigo Roldão Simas enviou, é preparado da mesma forma em todo o mundo. O vinho Canônico é um corte de 50% de Moscato, Saint Emilion (40%) e Isabel (10%). É um vinho rosado, licoroso, com 16% de álcool. É a mais antiga marca comercial para esse particularíssimo vinho e que necessita da autorização da Cúria Metropolitana para a sua elaboração e venda. Saiba mais sobre a Salton e o Canônico no site.

Johnnie andou e Sônia dançou. Pessoal, me perdoe: não deu para participar da degustação dos Johnnie Walker (Red, Black e Green Label) trazidos pela Diageo para o Dionísio Clube de Vinhos. Perdi também a palestra que Colin Pritchard deu sobre esses néctares, suas características visuais e olfativas. Pena. Mas fique de olho no Dionísio, que está no pedaço para promover a cultura do vinho e tem uma infra com sommeliers e profissionais qualificados. É o nosso “andador” é tudo de bom.

Soninha mudou. Pois não é que um outro micróbio, o da mudança, me pegou. Saí de uma casa imensa em Secretário e fui parar em... Secretário. Só que numa casa e terreno bem menores: reduzi trabalho e despesas. O panorama da Serra de Petrópolis, o clima ameno, a nota rural, o falar amineirado ainda estão presentes. Nada de “bandas largas”. Navegamos mesmo é “por essas bandas”. E é por elas que voltamos às amigas leitoras.