26.9.06

Vinho, cerveja e babosa

Vinho X Cerveja. Sempre me perguntam porque prefiro vinho à cerveja. Vejam: eu bebo cerveja, gosto muito. Mas prefiro vinho. O assunto poderia terminar aqui. Mas como acham que sou a “expert” em bebidas me cobram as razões, uma postura racional, didática. Só levando no bom humor. Mas conheço um colega, Mark Fisher, que escreve o blog “Uncorked”, e oferece alguns bons motivos para justificar a minha preferência.
10 razões que tornam o vinho melhor que a cerveja:
1. A amiga já ouviu falar de uma “barriga de vinho”?
2. As taças de vinho pesam menos do que os canecos de cerveja.
3. Com o vinho, você arrotará menos (caso evite muita Champagne). Desculpem: poderia optar por “eructação”, que, para mim, equivale a dois arrotos lingüísticos.
4. Com vinho você vai bem menos ao toalete, concorda?
5. Ainda não vi nenhum filme onde a cerveja seja a estrela principal e ainda por cima é indicada para o Oscar (tal como aconteceu com Sideways, ano passado).
6. Vinho envelhece melhor (assim como aqueles que o bebem).
7. Jesus não transformou água em cerveja. Esse milagre hoje está a cargo das cervejeiras, que conseguem transformar cerveja em água num instante.
8. O vinho vai melhor com qualquer tipo de comida e não apenas com lingüiça, fritas e pastéis.
9. Nenhum homem vai ganhar pontos conosco se disser que sabe tudo de cervejas. Caso ele dissesse isso sobre vinhos, sua nota seria próxima de 10, certo?
10. E, para acabar com a argumentação: o vinho é simplesmente a bebida mais deliciosa, mais variada e mais complexa do planeta. É incrível como o suco fermentado de uma fruta apenas, a uva, pode nos oferecer estilos tão diferentes de líquido. Isso é apenas uma amostra do que a maior crítica de vinhos e degustadora do mundo, em minha opinião, Jancis Robison, pensa sobre a bebida.
Mas, cervejeiros, não percam por esperar. Nas próximas colunas vou apresentar as 10 principais razões pelas quais a cerveja é melhor do que o vinho.
A babosa e as uvas. As uvas também usam protetor solar, tá pensando o quê? Você pega um bronzeado hoje e enruga amanhã. As uvas também. Pensando assim, um produtor de Napa, Califórnia, que adota o método biodinâmico em seu vinhedo, aplica um “chá” em suas uvas de modo a prevenir que murchem sob o sol. Essa solução junta algas (para absorver raios ultravioletas) e “Aloe vera” (babosa) como um suavizante.
O vinicultor é Aaron Pott e a vinícola a Quintessa , de propriedade do casal Agustín e Valeria Huneeus. São 113,3 hectares em Rutherford onde produzem um blend de cabernet e merlot com o mesmo nome da vinícola, Quintessa. E que já recebeu extraordinários 94 pontos da revista Wine Enthusiast.
A vinícola não deixa de usar as formas tradicionais para abrandar o calor no verão: poda adequada das folhas e ramos das videiras e a rega da vinha com água fresca.
O composto de algas e babosa está relacionado com a biodinâmica, uma forma de agricultura onde é proibido o uso de pesticidas, herbicidas e fertilizantes artificiais e promove a diversidade no plantio e da vida animal para controlar pestes.
Os vinhos orgânicos já são uma realidade no mercado. Nossa ignorância dizia que a cultura do vinho, baseada na tradição de séculos, já seria intrinsecamente orgânica. Mas não. Com tantas pestes, o vinicultor é levado a utilizar elementos químicos e sintéticos. Solução que pode ser a final.
A agricultura orgânica preocupa-se com danos ao ecossistema. Suas técnicas foram popularizadas e nomeadas pelo fazendeiro e editor norte-americano J. I. Rodale em 1946, quando deu nome a esse novo sistema: Orgânico. Basicamente, os produtores de vinhos orgânicos evitam usar material químico e sintético no solo, nas vinhas e no produto acabado.
Mais antigo, o Sistema Biodinâmico parte de escritos do filósofo austríaco Rudolph Steiner, em 1924. É mais radical, principalmente no que é adicionado à terra, com preparados tirados da homeopatia para regular e melhorar o crescimento da vinha e a fertilidade do solo (e evitar ainda a erosão e proteger a quantidade e qualidade da água). Ainda lembramos que 60% de todos os herbicidas, 90% de todos os fungicidas e 30% de todos os inseticidas são cancerígenos segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.
No caso da Quintessa, a teoria é a de que se uma planta se mostra resistente a insetos ou à seca é sinal de que possui qualidades que promovem essa resistência. Daí fazer um “chá” dessa planta e rega-lo em outra transferindo essa qualidade. Assim como nós humanos somos encorajados a nos hidratarmos no verão, o mesmo é verdadeiro para as plantas.
No Brasil, o único vinho orgânico certificado é o Velho do Museu, da Juan Carrau. Lá no sul não precisam de protetores solares, por enquanto.

25.9.06

Happy hour: a hora do lucro

Sexta-feira é dia de muita gente em todo o mundo tomar umas e outras com colegas de trabalho no bar preferido, ao fim do expediente, no happy hour. O leitor sabia que esse happy hour faz aumentar salários? Em resumo, o salário da turma que sai com colegas de trabalho para beber é maior do que o dos abstêmios ou daqueles que optam por não sair.
Não, não se trata de um “achômetro”, mas de pesquisa séria realizada por uma ONG americana, a Reason Foundation, com base em Los Angeles, Califórnia. Uma organização considerada pelo Prêmio Nobel de Economia Milton Friedman um padrão de tolerância, civilidade e consistência na defesa das liberdades individuais.
A Reason patrocinou recentemente uma pesquisa realizada pela PhD e economista, Bethany Peters, e pelo professor de economia, Edward Stringham, também PhD. Os dois pesquisaram dados que colocavam na berlinda teorias de que a bebida promove efeitos econômicos desastrosos. E verificaram que o hábito de beber (moderadamente) e salários estão correlacionados positivamente.
Os dois PhDs analisaram principalmente uma pesquisa realizada nacionalmente sobre (o “General Social Survey” - “Levantamento Social Geral” - realizado anualmente pela Universidade de Chicago e que tem, entre outros, o governo americano como cliente). E concluíram que os homens pessoas que bebem ganham até 19% mais do que as abstêmias. Entre as mulheres, as que bebem socialmente chegam a fazer 23% mais. Tentaram também diferenciar quem bebe socialmente dos que não bebem comparando os salários daqueles que freqüentam bares pelo menos uma vez por mês com os que não freqüentam.
A conclusão dos dois economistas é a de que beber socialmente leva a um aumento do capital social. E capital social para os dois professores significa “as características sociais de uma pessoa, suas habilidades pessoais, seu carisma e em particular o tamanho do seu caderninho de endereços, o que vai permitir que ela colha frutos de sua interação com outras pessoas”. Se beber socialmente aumenta o capital social, logo pode também aumentar salários. Analisando o um “Levantamento da Qualidade do Emprego” o economista Philip Cook verificou acabavam ganhando sempre menos.
Fica claro no estudo que os “moscas de botequim” estão em perigo. A turma dos 35 drinques por semana está mais para o desemprego do que outra coisa. Não se trata também de apenas sair para “ver e ser visto”. Mas para trocar informações com amigos, fazer novas amizades, buscar novas oportunidades. Tudo isso além de um copinho de cerveja.Veja todo o levantamento

18.9.06

Confrarias - Para a amiga do ABC

A Mariana Maziero estuda jornalismo numa universidade do ABC paulista e com mais dois amigos, está escrevendo matéria sobre vinhos. Um dos tópicos é sobre a mulher nesse pedaço. Mas o que ela quer mesmo saber é sobre as confrarias de vinhos: o que é discutido nesses clubes, como participar, como e quando são realizados os encontros, que cursos são ministrados, que tipo de vinho é mais consumido pelo sexo feminino, ou até mesmo o tipo de vinho indicado ao nosso sexo, como a mulher é vista nesse cenário? Ufa! E as perguntas não acabam aqui. Vamos lá.
Uma confraria pode ser definida como um grupo de pessoas que se reúne periodicamente para provar e debater sobre vinhos, sobre o assunto que mais lhe interessa, motivo desses encontros. Isso acontece desde os tempos de escola, de modo impositivo, quando éramos chamados para “grupos” de estudo, seminários disso e daquilo.
O que é discutido nesse grupo (ou confraria)? Ora, nas palavras de uma das maiores degustadoras e críticas de vinho do mundo, a inglesa Jancis Robinson, “vinho é simplesmente a bebida mais deliciosa, variada e mais complexa do planeta”.
- Para mim é incrível que o suco fermentado de uma única fruta, a uva, pode oferecer tantos e tão diferentes estilos em forma líquida. De cor quase branca, leve ao rico púrpura quase preto, macio e encorpado. Vem parado ou é um espumante, pode ser seco, sequíssimo ou doce, dulcíssimo.
E tudo isso vem do trabalho do vinicultor e da natureza. A uva pode oferecer um vinho de menos de 8% de álcool, passando pela média de 13,5% até mais de 15%. E, mais, os melhores vinhos têm a habilidade de durar por décadas (às vezes, por séculos). E não apenas durar, mas de melhorar com o tempo. Essa é a marca que definitivamente o diferencia de qualquer outra bebida. Além de tudo isso, o vinho carrega com ele muita história, a própria história da humanidade. E geografia para ele é crucial. Ele pode ser produzido por uma grande indústria ou por apenas uma pessoa, artesanalmente.
Poderíamos continuar e continuar. E tudo acima (e muito mais) é debatido, discutido, assim como num grupo de pessoas interessadas por futebol, culinária ou pôquer – as perguntas e o interesse são intermináveis. Como os tintos fermentam? E os brancos? Como conseguem suas cores, seus aromas, sabores? Como prova-los corretamente? Com que comidas eles podem combinar? Quais as temperaturas certas para servir essa bebida? As perguntas nunca acabam.
Qualquer pessoa pode ingressar numa confraria – basta ter o mesmo interesse por vinho, sem que necessite ser especializado ou um sommelier.
Agora, é bom diferenciar uma confraria, tal como a apresentei acima de um clube de vinho – que é uma entidade que cobra uma taxa periódica para que você receba determinados vinhos em casa. Ou para que você participe de reuniões de degustações assistidas por uma pessoa especializada. Ou mesmo para que você participe de cursos sobre vinhos.
No final, uma confraria acaba promovendo essas degustações e cursos, na medida em que o grupo aumenta. Acaba também sugerindo uma taxa para a compra de vinhos e até o aluguel de um espaço onde a turma possa se reunir.
Para que se tenha uma idéia da força que uma confraria ou um clube pode ter: um levantamento feito em 2004 pela vinícolas da Califórnia (o maior estado produtor de vinhos dos EUA) revela que 24% das vendas diretas de vinhos foram feitas para clubes (ou confrarias). É uma senhora fatia de mercado. Acho que nenhuma marca de vinho tem, sozinha, essa participação em vendas, em qualquer parte do mundo.
Criar confrarias e clubes são idéias que vêm sendo utilizadas com sucesso pelas vinícolas e comerciantes de vinho. A Impexo, um importante importador e exportador de vinho, com sede no Rio e filial em São Paulo (Rua Coronel José Eusébio, 95, Travessa Dona Paula), oferece um Clube do Vinho. Veja aqui.
Basta você se cadastrar para receber uma newlettter relacionada ao setor vinícola, com informações sobre degustações e promoções dos vinhos vendidos pela casa.
A poderosa rede Pão de Açúcar tem não as suas “Confrarias Pão de Açúcar”, que se propõem a “desvendar os mistérios da degustação de vinhos”. Você vai a qualquer filial da rede e se informa com o atendente da seção de vinhos como aderir a um desses grupos. O Pão de Açúcar tem uma das maiores e melhores seções de vinhos do país, para esse tipo de loja. O que não é surpresa, pois a direção da casa entregou a parte de vinhos (das compras, à seleção e à promoção e educação) a um dos maiores especialistas em vinhos do Brasil, o crítico e historiador Carlos Cabral. Ele é um renomado especialista e historiador de vinhos (é autor da imperdível “Presença do Vinho no Brasil”) e fundador da mais antiga confraria de vinhos do país, a SBAV – Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, com sede em São Paulo (e hoje com filiais em vários estados).
Visite o site do Pão de Açúcar e saiba mais como inscrever-se nessas confrarias.
Existem sites na internet que se apresentam como clubes de vinho. É o exemplo do winept.com.
Aí mesmo em SP, temo um clube do vinho do Tatuapé. É o Vinus Club.
E veja também no site da Academia de Vinho uma das mais completas lista de associações, sociedades e confrarias enológicas.
Tenho certeza que cada um dos endereços que estão lá serão ótima referência para o trabalho que você estão fazendo. Vale, porém, prestar atenção nas confrarias que estão sendo criadas por mulheres e para mulheres. É o caso da Confraria Amigas do Vinho, criada no Rio de Janeiro e já com filiais em SP, Paraná, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. As Amigas do Vinho são filiadas à International Associated Women in Wine e à FEBAVE – Federação Brasileira de Confrarias e Associações Femininas do Vinho e do Espumante. Não deixe de visitar as Amigas do Vinho.
Qual o tipo de vinho mais consumido pelo sexo feminino? Não existe isso de “vinho para mulheres” e “vinho para homens”. É uma falácia do sexo masculino tentando mais uma vez submeter-nos. Vocês já devem saber que as mulheres possuem propriedades degustativas mais apuradas do que a dos homens.
Uma das maiores redes de supermercado da Inglaterra, a Tesco, contrata grávidas para testarem seus vinhos - que oferece em grande quantidade, qualidade e a bons preços. A equipe que negocia e compra vinhos para essa rede é composta quase que exclusivamente por mulheres e suas seleções são sempre elogiadas.
Seria a divisão de vinhos da Tesco radicalmente feminista, um clube da Luluzinha, onde homens não entram? Não, o caso não é bem esse. Sob o prisma científico, os homens perdem para as mulheres quando o negócio é identificar e qualificar aromas e sabores em geral e dos vinhos em particular. Segundo estudo do Grupo de Pesquisa Multissensorial da Universidade de Oxford, Inglaterra, as mulheres são melhores na identificação de aromas e sabores.
Através de técnicas, como a da ressonância magnética, cientistas e médicos registram o que acontece no nosso cérebro quanto nos submetemos a ações, como a de cheirar, por exemplo. O fluxo do sangue mostra quais as áreas são acionadas e com qual intensidade.
Não só a Universidade de Oxford chegou a esse resultado. A da Pensilvânia, nos Estados Unidos, também: demonstrou que as mulheres usam o cérebro até oito vezes mais do que os homens quando cheiram alguma coisa. "Sua capacidade olfativa tem amplo limite de detecção e definição mais aguda e certeira".
Numa outra pesquisa, realizada pelo Centro de Sentidos Químicos da Filadélfia, demonstrou-se que as mulheres em idade reprodutiva têm sua sensibilidade olfativa aumentada. Explica o estudo que "a mulher, nessa fase, precisa encontrar o seu par; precisa identificar fontes de alimentos nutritivos e evitar elementos tóxicos". É a velha luta evolucionária pela sobrevivência.
A Dra. Linda Bartshulk, da Universidade de Yale, coloca as mulheres na categoria de superdegustadoras, onde apenas se situam 25% das pessoas para quem as sensações de aroma e sabor são mais intensas. "35% das mulheres são superdegustadoras; apenas 15% dos homens estão nessa categoria".
Um crítico de vinhos inglês, Peter Richards, resolveu fazer conferir ele mesmo essas pesquisas. Foi para uma loja de vinhos e testou 20 clientes ao acaso, entre homens e mulheres. Ofereceu uma série de três taças de vinhos: duas com um branco espanhol e uma com um chileno também branco, todas apresentando apenas sutis diferenças.
Uma em cada duas mulheres identificou os aromas, contra apenas um homem em cada seis. Richard recolheu o seu time. A identificação de aromas e sabores ainda é uma área profissional dominada pelos homens, no mundo dos vinhos. Sua competência vem da prática, do exercício de cheirar e degustar diariamente.
Outro fato: nos Estados Unidos, são as mulheres as maiores compradoras de vinho (compram 60% dos vinhos do mercado) e consomem tanto quanto os homens. Essa história de que vinho branco e rosado é só para mulheres é historia de machista.
O que acontece é que a indústria do vinho vem há séculos sendo um negócio de homens. E só recentemente as mulheres estão podendo colocar um pé nessa porta – seja como enólogas, jornalistas, comerciantes etc. Os preconceitos ainda existem. A nossa citada Jancis Robinson ficou furiosa quando recebeu da revista Decanter (também inglesa e uma das melhores publicações do ramo) o título de “Homem do Ano” (personalidade do ano no setor de vinhos).
O vinho deixou há algum tempo de ser um produto elitista. É hoje um produto de consumo geral. Hoje, os produtores estão abrindo mercados como o da China, aparentemente estranho a essa bebida. Mas que, como “novo rico”, está querendo (e podendo comprar) os gostos ocidentais.
O vinho já é um mercado consolidado no Brasil, apesar de nosso baixo consumo per capita (2% da população). Só que, como em qualquer outro segmento, tem gente que se aventura demais, sem estudar o produto e o mercado. E acontece o que aconteceu com a febre das locadoras há alguns anos.
Temos bons vinhos no sul, onde agora, na Campanha gaúcha, encontraram uma boa área para vinhos, em particular os tintos. Na serra gaúcha, os brancos se dão melhor. Agora, usando técnicas especiais, estão produzindo vinho no Vale do São Francisco, em Pernambuco – vinho esse que já está sendo exportado para a Europa.
O crescimento se deve ao interesse pela bebida – que cresceu muito (aqui e em todo o mundo) a partir dos anos 80, principalmente pelas notícias a respeito dos efeitos positivos do vinho (o tinto em particular) para a saúde.
O interesse vem de muito tempo: quando morava no exterior, trabalhei uma vinícola, como picadora (colheitadora) e no laboratório da vinícola. No Brasil, tive uma loja de vinhos em Itaipava, na serra de Petrópolis e um atacado da bebida na cidade do Rio de Janeiro. Ambos os negócios não deram certo, pois sou péssima comerciante. Mas como jornalista formada não foi difícil aceitar convites para escrever sobre essa bebida maravilhosa.
Sou jornalista especializada em vinhos há oito anos. Se considerar meu tempo engajada com vinho no exterior, mais os tempos de comerciante e de jornalista, tenho uns 16 anos no ramo.
Escrevo de minha casa, em Secretário, um pequeno distrito ao lado de Itaipava. A internet é a minha grande aliada. Sou vizinha de porta de todo o mundo. Escrevo para o segundo caderno da Tribuna da Imprensa, o Tribuna Bis. Minha coluna (Adega & Bar) sai todas as quintas-feiras.
Escrevo também para um portal feminino, o Bolsa de Mulher. A coluna (Sonia Melier) costuma sair a partir das sextas-feiras.
E tenho o meu blog, o Sonia Melier. Não deixe de visitá-lo: http://soniamelier.blogspot.com/
Mulheres que atuam na área: conheço apenas de nome (e de admiração). Temos a Luciana Froes na Veja. A Deise Novakoski, que é sommelier de restaurantes classe A no Rio e escreve na Revista semanal de O Globo. E tem a Alexandra Corvo Alexandra Corvo é formada Sommelière pela Ecole d'ingenieurs Oenologiques de Changins, na Suíça e dirige a empresa Ciclo das Vinhas, especializada em cursos de vinhos para amadores e profissionais. Ela está sempre na Vejinha e no seu próprio site, o Ciclo das Vinhas.
Se ficou faltando alguma coisa é só clicar aqui para a Soninha. Será um prazer atendê-la. E não deixe de visitar o meu blog.

O que você sabe sobre rolhas?

Quer dizer: sobre as rolhas de cortiça, as originais. Elas vão acabar e ser substituídas pelas sintéticas, ou pelas roscas metálicas, pelas rolhas técnicas (discos de cortiça e corpo de cortiça granulada) ou pelas "bag-in-box"?
Quem foi a primeira pessoa a utilizar uma rolha de cortiça numa garrafa de vinho? O que é “amadia”? Por quanto tempo uma boa rolha de cortiça pode proteger um vinho como um bom Bordeaux?
A APCOR (Associação Portuguesa da Cortiça), um consórcio de produtores de cortiça de Portugal, o maior produtor do mundo dessas tampas, projetou um curso online de modo a aumentar o conhecimento sobre as rolhas. É dirigido a profissionais, educadores e ao público em geral.
O caso é que a oxidação e principalmente a contaminação dos vinhos pelo TCA (2,4,6-trichloroanisole), um componente químico que infecta a rolha, deixando a bebida intragável pelo seu odor desagradável. Estima-se que, no total, a indústria vinícola perca até 7% de seus vinhos pela “doença da rolha”. É um senhor prejuízo e, daí, a busca por tampas alternativas.
A Nova Zelândia lidera a busca pela mudança, favorecendo as tampas de rosca, seguida pela Austrália e Estados Unidos. Mas se as mudanças são bem-vindas, a APCOR apresenta pesquisas para demonstrar que os consumidores amam a rolha natural (de cortiça pura), embora concorde que há ainda algum trabalho educativo a fazer sobre suas tampas.
Pesquisas, em particular uma realizada este ano nos Estados Unidos, demonstram que os consumidores preferem as rolhas de cortiça sobre todas as outras: nove consumidores entre 10 (94%) pensam que tampas que não as de cortiça “barateiam” os vinhos. Em 2005, a revista Wine Spectator mostrou que 81% dos questionados (via Internet) preferiam as de cortiça às de rosca de metal. Em 2004, uma importante empresa de consultoria especializada na indústria do vinho, a Wine Intelligence, realizou uma grande pesquisa sobre dois tipos de tampas: as de cortiça e as de metal (alumínio). Dois terços dos respondentes ficaram com as de cortiça, 52% rejeitaram as de metal. Assim, o melhor mesmo é saber mais sobre as rolhas de cortiça. Seguramente, elas são ecologicamente sustentáveis, o carvalho de onde deriva (o quercus suber), fértil na bacia do Mediterrâneo, jamais é derrubado e pode durar até 200 anos. Vale, portanto, fazer o teste no site “Real Cork”.
Você vai ficar sabendo que foi o lendário Dom Perignon o primeiro a usar uma rolha de cortiça numa garrafa - de Champagne. Que “amadia” é uma rolha de alta qualidade obtida apenas a partir da terceira colheita e que uma boa rolha pode proteger vinhos finos por até 25 anos. Não deixe de fazer o teste.

Gestação e Álcool

Beber durante a gravidez, mesmo com moderação, faz mal ao feto ou não? Um respeitado autor e crítico de vinhos, Daniel Rogov, cria polêmica com artigo que publicou num site também feminino como o Bolsa, exclusivo para mulheres que gostam de vinhos: o “Women Wine Critics Board”
O título do artigo já diz tudo: “Vinho e Gravidez – As mentiras que contam para as mulheres”. Rogov lembra que desde 1990 cada garrafa de vinho ou de destilado vendida nos Estados Unidos carrega uma advertência da autoridade máxima do país na área de saúde (o tal do “Surgeon General”) afirmando que “as mulheres não devem consumir bebidas alcoólicas durante a gestação em razão dos riscos de causar defeitos no feto”.
Diz o autor que, não bastando esse aviso, e aumentando a ansiedade em mulheres já preocupadas com sua própria saúde e a dos seus fetos, centenas de matérias na mídia devotam-se em convencê-las de que se beberem uma só gota de álcool durante a gravidez há uma chance de o bebê nascer deformado, viciado em álcool ou retardado.
Daniel Rogov aponta, contudo, que uma grande quantidade de pesquisas recentes e um reexame da questão de álcool na gravidez mostra que não há uma evidência conclusiva que demonstre danos aos fetos caso consumamos álcool moderadamente antes e durante a gravidez.
Segundo os médicos David Whiteen e Martin Lipp, da Universidade da Califórnia, em San Francisco, “a campanha contra beber-se durante a gravidez começou em 1973, quando vários estudos demonstram que o álcool consumido em demasia podia causar uma condição chamada de Síndrome Fetal do Álcool. Esses estudos mostraram que os filhos de muitas mães alcoólicas nasciam com um acúmulo de sérios defeitos”.
Mas esses mesmos médicos observam que “o que o governo convenientemente escolheu ignorar é que essa síndrome é extremamente rara, ocorrendo apenas em 3 bebês entre 100 mil nascimentos – e mesmo assim apenas quando a mãe abusava do álcool durante todo o período da gravidez”.
Lipp e Whiteen figuram entre o número crescente de médicos e pesquisadores que acham não haver razão de uma grávida preocupar-se ao beber apenas uma taça de vinho por dia. A revista Wine Spectator, inclusive, já publicou uma edição a respeito dessa controvérsia (31 de agosto de 1994) e seu editor na ocasião, Thomas Matthews, escreveu que “há inclusive novas pesquisas demonstrando que beber-se moderadamente durante a gravidez pode na verdade ajudar o desenvolvimento da criança após o nascimento”.
Nessa edição da WS, um artigo da famosa Jancis Robinson, Master of Wine, inglesa, autora e uma das maiores críticas e degustadoras de vinho do mundo – refere-se à posição subalterna que os homens sempre colocaram as mulheres, em particular durante a gravidez. “Os homens só vão parar de deitar regra sobre o comportamento das mulheres durante a gravidez no momento em que puderem ter filhos”, diz a inglesa.
“Estou convencida de que ninguém deve se sentir culpada em beber socialmente durante a gravidez”. A própria Jancis, mãe de três filhos, bebia uma taça de vinho diariamente nos seus tempos de grávida. Nas suas degustações apenas provava o vinho, sem ingerir qualquer quantidade de álcool, como manda o figurino. A crítica observa que ela e suas colegas profissionais do vinho devem ter verificado, como ela, que durante a gravidez suas habilidades gustativas melhoraram.
Voltemos ao artigo do Daniel Rogov. Ele não questiona do fato de que o consumo de grandes quantidades de álcool durante a gravidez pode prejudicar o feto. “Está provado, por exemplo, que filhos de mulheres que bebem mais de 3-4 taças de vinho diariamente seus bebês nascem com pesos e tamanhos menores do que as que bebem de uma a duas taças por dia. Além disso, tem-se como certo que ao tomar diariamente cinco ou mais taças de vinho (uma garrafa, praticamente) a gestante coloca o feto em perigo”.
Genevieve Knupfer, do Grupo de Pesquisa sobre o Álcool da Universidade de Berkeley, na Califórnia, observa que muito do que se fala deriva de estudos utilizando metodologia imprecisa. Em várias pesquisas, por exemplo, os pesquisadores definiram “bebedoras pesadas” como aquelas mulheres que consumiam mais de uma taça por dia.
Essa observação é confirmada pelo Dr. Michael Samuels, do New York City’s Doctor’s Hospital. “Muita informação foi distorcida com o objetivo de assustar as mulheres”. O médico revela que nascimentos com defeitos de qualquer natureza ocorrem em 3 a 5% dos bebês nascidos nos Estados Unidos. E somente de 1 a 2% tem relação com o álcool.
Com base nos números do Dr. Samuels e de outros pesquisadores, Daniel Rogov conclui que menos de 0,1% de todos os nascimentos defeituosos estão relacionados com o álcool e que mais de 90% das crianças afetadas são nascidas de mães com uma história de abuso de álcool.
O autor aponta ainda o fato de que nenhum estudo feito a partir de meados dos anos 80 conseguiu demonstrar a correlação direta entre consumo moderado de álcool e nascimentos problemáticos. Um desses estudos, englobando 33.300 mulheres da Califórnia, demonstrou que mesmo que 47% delas bebessem moderadamente durante a gravidez nenhum de seus bebês ficou dentro do perfil da “Síndrome Fetal do Álcool”. Os autores desse estudo concluíram que “o álcool em níveis moderados não é uma causa significante de má-formação em nossa sociedade e que é completamente injustificada a posição de que há perigo em beber-se moderadamente”.
Ao contrário. Alguns estudos até indicam que o beber moderado pode na verdade resultar em gestações de sucesso. É o caso de um estudo publicado em 1993 na “American Journal of Epidemiology”, por Ruth Little e Clarence Weinberg. As duas concluíram, por exemplo, que o número de perdas de fetos em razão de partos prematuros em mulheres que bebiam moderadamente era bem menor. E, mais: algum álcool pode até servir de proteção contra nascimentos prematuros.
O que é confirmado pela Dra. Martha Direnfeld, da Universidade de Haifa, Israel. Ela nota que, quando utilizado apropriadamente, o álcool é sabidamente uma ajuda para interromper contrações uterinas indesejadas e, assim, “salvar muitas gestações que poderiam ser espontaneamente abortadas”.
Nessa linha, o Dr. Robert Sokol, do Instituto Nacional de Abuso do Álcool, de Detroit, mostrou que são as bebedoras moderadas e não as abstêmias as que têm as melhores chances de ter um bebê com um peso ótimo. Em seu livro “O Álcool e o Feto”, os médicos Henry Rosset e Lynn Wiener fornecem dados demonstrando que filhos de bebedoras moderadas têm conseguido as notas mais altas nos testes de desenvolvimento (na faixa de 18 meses de idade).
Apesar de todas essas descobertas, o governo norte-americano, a Associação Médica Americana, a Associação Médica Britânica e a grande maioria dos médicos americanos e ingleses continuam a recomenda a completa abstenção do vinho, cerveja e destilados durante a gravidez. “É que esse é um debate tão emocional, ideológico e político quanto médico”.
A jornalista Katha Pollit, do The Nation, observa que “todas essas advertências permitem que o governo apareça como preocupado com nossos bebês – sem que tenha que gastar dinheiro ou mudar suas prioridades ou desafiar interesses velados”.
Voltamos ao editor do Wine Spectator, Thomas Matthews. “É importante perguntar: é arriscado se comparado a quê?” Num livro recente, “Os mitos da maternidade”, Shary Turner, sua autora, indica que o álcool é o único fator de risco lembrado às grávidas. “E a cafeína, o chocolate, as drogas para resfriados, o esmalte para unhas, as ostras cruas, as loções bronzeadoras? Tudo isso pode fazer mal ao feto”.
Não há 100% de certeza sobre a matéria e muitos continuam a insistir que a abstinência total é o melhor remédio. Outros, porém, acham ilógica essa atitude e concluem que os riscos e benefícios associados com o consumo moderado de vinho comparam-se favoravelmente à maioria das outras atividades do nosso dia-a-dia.
“Uma ou duas taças de vinho por dia podem ser parte de um estilo de vida saudável para a maioria das pessoas, inclusive para as grávidas”, afirmarm os médicos Whiteen e Lipp. Os ginecologistas e pesquisadores israelenses, Howard Carp e Martha Direnfeld também acham que as mulheres que já bebiam moderadamente antes da gravidez “não estarão colocando seus fetos em risco se continuarem da mesma maneira durante a gestação”.Daniel Rogov, cujo artigo é base dessa coluna, é o crítico de vinho e gastronomia do HaAretz, importante jornal israelense. É autor do Guia Rogov de Vinhos de Israel e um contribuinte regular do Wine Report de Tom Stevenson e do Guia de Vinhos de Bolso de Hugh Johnson, o famoso crítico inglês. Visite o seu site na Internet.
Claro que mais adiante publicarei algumas das contestações ao artigo de Rogov. Mas deixo aqui a minha posição. Fico com a sugestão de Jancis Robinson no artigo da Wine Spectator que citamos acima: “Deixem as mulheres decidir sobre vinho e gravidez”.
Muitas vezes é o excesso de trabalho que vai prejudicar a gestação e não uma tacinha de vinho.E você, leitora, qual a sua posição? Não deixe de dar a sua opinião aqui para a Soninha (no soniamelier@terra.com.br).

9.8.06

Brasileiros daqui e de lá

Os daqui. Primeiro vamos aos daqui, aliás, das daqui, pois falamos do que anda aprontando a Federação Brasileira de Confrarias e Associações Femininas do Vinho e do Espumante, a FEBAVE, que vai realizar em Caixas do Sul, RS, o seu primeiro encontro, nos dias 7 e 8 de outubro, no Samuara Hotel, em Caxias do Sul, RS. A entidade é constituída por integrantes das confrarias do Champanhe da Serra Gaúcha, da L'Arte Del Vino, Confraria Fina Flor do Vinho, do Champanhe de Florianópolis, do Vinho e do Champanhe de Novo Hamburgo, Feminina do Espumante e do Vinho do Vale dos Sinos e da Associação das Mulheres Amigas do Vinho da Serra Gaúcha.
Toda essa mulherada seriamente apreciadora de vinho vai realizar palestras, almoços harmonizados, degustações, selecionar e premiar a Dama do Vinho e do Espumante, entre outras atividades. Elas buscam motivar a presença feminina para aprimorar seus conhecimentos vinícolas, confraternizar com as demais confrarias e associações de vinho e espumante e, de resto, atrair apreciadoras (e apreciadores) da bebida. As inscrições já estão abertas. Basta falar com a Karen Giacomello Panizzon via karengpanizzon@terra.com.br ou pelos telefones: (54) 3292-2206 ou (54) 9978- 8677.
Nas próximas colunas estaremos fornecendo detalhes (palestrantes e temas a serem debatidos, vinhos a serem degustados etc.). De jeito algum perderia esse evento.
Brasileiros de lá. Você pode comprar vinhos brasileiros em Paris – pelo mesmo preço cobrado no Brasil! Eu não consigo entender, sou mesmo capenga em comércio (já tive uma loja de vinhos e dei com os burros n’água, justamente por esse motivo). Acho que o preço em reais, mais impostos, mais custos de transporte – tudo isso faria o vinho chegar lá pelo menos um pouco mais caro do que aqui. Mas não, o preço lá é parelho com o daqui. E olha que temos que considerar também o custo da loja, uma das “lojas de vinho do futuro”, a moderníssima Lavinia, 3-5 Boulevard de la Madeleine, 75001 Paris.
Já falei sobre a Lavinia aqui (ver “As lojas do futuro” aqui no Bolsa).
A Lavinia é a loja mais Novo Mundo de Paris, com perto de 1.500 metros quadrados. A empresa começou com lojas em Madri e em Barcelona e não faz muito tempo abriu em Paris. Oferece 6.000 rótulos diferentes de vinhos e destilados, dos quais 2.000 vinhos estrangeiros originários de 43 países. Vende também 500 itens diversos, entre acessórios e livros. Todas as garrafas estão guardadas em adegas climatizadas. Os vinhos são vendidos já na temperatura e umidade corretos.
É onde você vai encontrar vinhos dos Estados Unidos, Nova Zelândia, Argentina, Chile, Austrália etc e tal. E também, claro, da França, e os usuais suspeitos do velho continente. Todos os seus três andares são climatizados, seu estoque inclui centenas de destilados, uma ótima seleção de livros sobre vinhos em francês e em inglês, um bar para degustação e um restaurante. E um serviço impecável, via dezenas de simpáticos e atenciosos funcionários (e isso em Paris).
No primeiro andar, displays de vinhos nas paredes oferecem barganhas, especialidades (os orgânicos, por exemplo), os mais vendidos, ofertas da semana, sugestões de harmonização vinho-comida e degustações de um ou dois vinhos por semana (nada de plástico, apenas taças de vidro). Nesse andar ficam os vinhos franceses, não apenas os mais caros e raros, como também os de preços mais amistosos. É o lugar onde o Dr. Vino (referência de parte dessa coluna) conseguiu supremas barganhas francesas.
No andar de cima, a livraria, uma enorme coleção de armagnacs e cognacs, além do bar e restaurante. Para visitantes de fora da União Européia, a loja oferece 13% de devolução de impostos sobre compras acima de 300 euros (devolução só conseguida na volta pra casa, no aeroporto).
E os brasileiros nisso? Pois é, também temos vinhos brasileiros lá. São da nossa Miolo. Por causa deles, embora orgulhosa por estarem fazendo bonito em Paris, tropecei na questão de preços.
Por exemplo, o Miolo Cuvée Giuseppe 2003, tinto, garrafa de 750 ml, custa lá 16 euros ou R$ 44,47 (câmbio calculado dia 2 último). No site da Miolo, o preço é de R$ 44,00.
O Miolo Quinta do Seival 2003, tinto, 750 ml, está por 14,55 euros em Paris equivalente a R$ 40,44. No site da vinícola gaúcha esse vinho sai por R$ 40,00. E na Costi Bebidas, loja de Porto Alegre, por R$ 41,50.
O Miolo Terranova Cabernet Sauvignon-Shiraz 2003, tinto, 500 ml sai por 9,10 euros (ou R$ 25,29). Já na terra dele seu preço é bem mais cômodo: R$ 14,00.
Não sei, vai ver esses vinhos chegaram pelo “teletransporte” da Enterprise (da série “Jornada nas Estrelas”, lembram?). Os vinhos chegam num instantinho e sem aumento de custo, nada de pagar taxas, transportes etc. O pessoal da Lavinia apenas converte reais para euros. É mágica para mim.
Mas vai ver tudo isso é um esforço promocional para colocar o nosso vinho de modo favorável no exterior. Mas brasileiro também bebe vinho e gostaria de provar dessas novidades, todas elas fruto da parceria com o mundialmente famoso enólogo e consultor francês Michel Rolland, cujo fee é altíssimo. Mas preferiria pagar apenas pelo vinho e não pelo Michel.
O velho imita o novo. É realmente uma novidade, vinhos do Novo Mundo à venda na terra do vinho.
O escritor, filósofo, naturalista norte-americano Henry Thoreau, comenta em seu livro Walden sobre gente que adota servilmente o último estilo de moda de uma terra distante: “O macaco chefe em Paris põe um boné de viagem e todos os macacos da América fazem o mesmo”. Ele escreveu isso no século XIX.
Só que, agora, são os macacos franceses que imitam os da América e da Austrália: produtores franceses estão também usando bichinhos nos rótulos de seus vinhos, em particular os que seguem para exportação. Querem com isso concorrer com os vinhos do Novo Mundo com as mesmas armas de marketing.Eis aqui três exemplos bem recentes: O “Elephant on a Tightrope” (“Elefante numa corda bamba”; o nome original é mesmo em inglês, imaginem). Veja aqui o rótulo, que realmente é bem simpático.
Deram esse nome porque o elefante, falam eles, é conhecido pelo seu extraordinário equilíbrio e poderoso olfato. O vinho será, assim, equilibrado e muito aromático. Temos também o “Arrogant Frog” (“Rã Arrogante”), também em inglês. O produtor é Les Domaines Paul Mas. Veja o rótulo aqui.
O mais novo da lista vem com nome francês mesmo: “Chamarré”, que seria “ricamente colorido” ou “de cores variadas”. No seu rótulo, uma borboleta que muda de cor, conforme a garrafa (de tintos, brancos ou rosés). O produtor é a poderosa OVS, um grupo francês novo e ambicioso. OVS (Opéra Vins et Spiritueux) foi oficialmente apresentada em junho último na Vinexpo, em Bordeaux. E pretende com o “Chamarré” competir com as maiores marcas globais. Veja aqui o rótulo.
Essa linha engloba atualmente cinco varietais (Colombard-Sauvignon, Chardonnay-Sauvignon, Shiraz-Merlot, Cabernet-Grenache e um rosado, Grenache-Shiraz); cinco blends (dois brancos, dois tintos e um rosado) e dois vinhos de AOC: um branco do Jurançon e um tinto de Bordeaux.
Pois assim é que a necessidade é a mãe da invenção. Vamos ver se os franceses conseguem interromper a queda em suas vendas (dentro e fora de casa), saiam da corda bamba, percam a arrogância e voltem a fazer vinhos franceses de qualidade.

3.8.06

Com Mel ou com fel?

Você bebeu além da conta, comportou-se muito mal, foi agressivo e soltou a língua. Ofendeu quem não devia, foi extremamente contundente com outras, raças, etnias e outras classe sociais. Acabou preso.
Espera aí, estamos falando do Mel Gibson e do seu porre de tequila?
Não exatamente. Estamos perguntando o quanto de verdade existe no discurso de uma pessoa embriagada?
Além de dirigir embriagado, fugir da polícia, resistir com violência à prisão, Gibson ofendeu os judeus principalmente (o xerife que o prendeu é judeu). Depois do acontecido distribuiu uma declaração à imprensa se desculpando: “Agi como uma pessoa completamente fora de controle quando fui presa e disse coisas que não acredito sejam verdades e que são desprezíveis. Estou profundamente envergonhado de tudo o que disse. Aproveito a oportunidade para desculpar-me com os policiais envolvidos no meu comportamento beligerante. Eles sempre estiveram por perto me protegendo em minha comunidade e provavelmente salvaram-se de mim mesmo”.
E acrescentou: “Tenho lutado com a doença do alcoolismo por toda a minha vida de adulto e lamento profundamente esse meu comportamento horroroso”.
Seu Demerval, que, como vocês sabem, tem um modesto comércio aqui perto de casa (e vende umas poucas bebidas, inclusive vinhos), em Secretário, afirma que “o álcool provoca muitas confissões, principalmente de casais, com péssimos resultados para ambos os lados. É difícil mentir quando se está bêbado”.
Mas talvez não seja assim tão simples. O álcool afeta o centro de decisões executivas do cérebro, localizado nos lóbulos frontais – o que influencia o poder de julgamento das pessoas e libera inibições. Mas os especialistas são relutantes em afirmar que ele seja um soro da verdade.
O professor de farmacologia e toxicologia da Universidade do Texas, em Austin, Carlton Erickson, tem uma opinião quase igual à do Demerval. Quase.
“As pessoas, quando intoxicadas (pelo álcool), realmente fazem e dizem coisas que comumente evitariam. É como se fosse um espelho da alma”.
Mas se esse espelho reflete uma imagem perfeita ou distorcida é outra questão, afirma do cientista.
“Estudo álcool por 40 anos e só posso afirmar que não há evidência suficiente para afirmarmos que essa imagem é acurada”, diz o Dr. Erickson, que dirige o Centro de Pesquisa e Educação sobre Vícios, do Colégio de Farmácia da Universidade do Texas.
Vimos que o ator se desculpou. Afirmou que disse coisas que ele não acredita que sejam verdadeiras.
Richard Wood é um veterano operador de polígrafos (o conhecido “detector de mentiras”, tão usado por algumas polícias, em particular a norte-americana), na cidade de Arlington. Ele acha que por décadas essas máquinas vêm conseguindo retirar verdades das pessoas que examina.
Mas Wood não as examina se estiverem embriagadas. “Pessoas embriagadas tendem a falar demais. Álcool não é um soro da verdade”, repete ele.
Observamos que um estudo feito pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos concluiu que “há pouca base para esperar-se de um teste de polígrafo alto nível de exatidão”. Os testes de polígrafos são normalmente utilizados em investigações policiais nos Estados Unidos. Contudo, nenhum réu ou testemunha pode ser forçado a submeter-se a ele. Só algumas cortes admitem evidências a partir desse exame.
Ames Sweet, diretora de comunicações do Conselho Nacional sobre Alcoolismo e Dependência de Drogas, em Nova York, concorda com Richard Wood. “Álcool solta a língua, mas não necessariamente a verdade”, afirma.
“Ele estimula as pessoas de uma maneira que às vezes suplanta a verdade. Há muitas coisas que vêm juntas da verdade. E verdade não á apenas uma proposta do tipo sim-ou-não”, explica a diretora.
Ela acrescenta que o álcool afeta a percepção dos fatos. “O álcool gera um certo elemento fantástico. Pode haver um grão de mentira nas verdades, assim como um grão de verdade nas mentiras”.
Mesmo em pequenas quantidades, o álcool pode levar as pessoas a dizer coisas que não diriam se sóbrias, afirma a Dra. Prema Manjunath, psiquiatra judiciária do Hospital John Peter Smith, em Fort Worth. “Outra coisa que ele provoca é destacar qualidades preexistentes: se a pessoas estava zangada antes pode ficar mais zangada depois de beber”.
Talvez por isso, a médica Stevie Hansen diz não é incomum uma pessoa que bebe demais entrar em brigas por motivos absolutamente toldos, que não a incomodavam. A médica é chefe dos serviços a drogados num hospital para doentes mentais, no município de Tarrant. “A bebida não reflete a personalidade das pessoas. Só porque você está bêbada não quer dizer que a verdade aparece”.
Já o professor de psiquiatria do Centro Médico de Dallas (da mesma Universidade do Texas), Dr. Bryon Adinoff, indica que beber demais pode ser comparado a um estado de sonho.
“Quando dormimos nossas defesas caem, o mesmo acontecendo quando estamos embriagados. Certamente sonhamos com fazer coisas que jamais faríamos e não queremos fazer e podemos nunca realizar”.
As notícias sobre o porre e a prisão do ator apresentam um dado intrigante. O nível de álcool no sangue de Gibson era, no momento da prisão, de 0,12, o que não assim tão alto para um alcoólatra (como ele mesmo se retratou). O limite de álcool na Califórnia é de 0,08.
“Uma pessoa acostumada a beber muito todos os dias pode não ficar com boa aparência, mas não ia ficar cambaleando por ai com 0.3 ou 0.4”, diz o Dr. Bryon. “Já um abstêmio estaria morto com esses níveis ou certamente em coma”.
O álcool pode levar pessoas a desinibir-se. “Mas em bebedores freqüentes chega a efeitos muito mais sérios, como psicose induzida pelo álcool”, explica a Dra. Prema Manjunath.
“As pessoas ouvem vozes, ficam paranóicas, vêm elefantes e ratos, têm alucinações. Acreditam que alguém as persegue. Deliram, acreditam em coisas que estão completamente fora do perfil de seu caráter”.
Apesar de ter lido para ele toda essa série de argumentos médicos e científicos, seu Demerval não pareceu muito convencido. “Sei por experiência própria que o álcool já me fez dizer coisas que eu desejaria não ter dito”. Seu Demerval não permite que se beba no seu estabelecimento. “Pode comprar aqui, mas beber só em casa”.
“Vem cá, o pai desse garoto não foi aquele que afirmou que o Holocausto nunca existiu? Por que estranhar que ele tenha ofendido os judeus?”
Uma saia justa, realmente.
Amiga, você acha que o álcool pode ser um soro da verdade? Acredita que o Mel Gibson não quis realmente dizer o que disse? É justo que Hollywood arquive o ator?

2.8.06

Terroir em transe

Não se trata de uma alegoria política, como no “Terra em transe” de Glauber Rocha, mas de um comentário sobre um grupo de nordestinos transformados em sommeliers dos melhores restaurantes do Rio, alguns inclusive com prêmios internacionais, tal como li em O Globo, do último domingo. O “transe” não é uma aflição, mas a luta que esse grupo vem travando vitoriosamente para ficar íntimo do “terroir”, um conceito chave para saber-se efetivamente de vinhos, o que sempre me deu muita dor de cabeça, e nesse caso, aflição de verdade, quando trabalhei em restaurantes e lojas de vinho.
Desesperadamente tentava saber mais sobre a conexão entre o perfil organoléptico dos vinhos e seus lugares de origem, que em suma vem a ser o tal do terroir (o meio ambiente em que as uvas são cultivadas: solo, clima, topografia, variedade de uva e até mesmo o fator humano, como ele interfere no cultivo e na produção do vinho etc.).
Com muito esforço tentava distinguir as filosofias de produção dos vinhos manufaturados daqueles feitos artesanalmente; das diferenças entre os vinhos do Velho Mundo e os do Novo Mundo. O sistema produtivo do primeiro destaca a importância do terroir, o que não acontece no segundo.
E, pelo que li, nossos sommeliers do Rio das Pedras conseguiram chegar lá. Quem duvidar vá ao restaurante Estação Azul, onde esse grande grupo se reúne nas suas noites de folga (domingos ou segundas-feiras) para degustar vinhos de rótulos caríssimos, trazidos às vezes por importadoras. Experimentam, trocam notas, debatem e vão aprendendo. E a cada vez aumentam seus conhecimentos e, assim, vão poder servir melhor a clientela de seus restaurantes. Vão poder decidir na elaboração da adega, das cartas de vinho e até mesmo na própria cozinha das casas onde trabalham. É uma tarefa muito difícil – que definitivamente não começa abrindo-se rolhas.
Um desafio. Você tem um restaurante, sabe que os vinhos estão cativando mais e mais os clientes e, portanto, precisa incluí-los entre as suas ofertas. Por outro lado, a sua equipe é capaz de recomendar, de descrever, vender e servir todos os vinhos que estarão em sua carta? Sabe as diferenças entre Syrah e Petite Syrah? Ou a turma vai apenas dizer para o cliente “Olha, esse Merlot é legal”?
É uma tarefa sempre difícil para a maioria dos restauradores: implementar um programa de treinamento de vinhos para o pessoal do salão de modo a educá-los (não apenas informá-los) e ajudá-los a vender o que está na adega.
É difícil em razão ora do limitado conhecimento sobre vinhos da gerência, da falta de uma estrutura para um programa de treinamento, do custo dos vinhos utilizados pelos funcionários nas degustações, ora pela própria falta de cooperação deles – que precisam antever as vantagens daquela hora extra de trabalho, o treinamento propriamente. Elas precisam fazer sentido.
Quando tive loja de vinhos e era chamada para treinamento de vinhos em restaurantes adotei um sistema que se resumia em: a) o aprendizado tinha que ser tão leve e divertido quanto o ato de saborear um vinho; b) usava todos os recursos disponíveis: a internet, livros, revistas, e inclusive profissionais (entre importadores, donos de lojas, comerciantes e até professores dos cursos estabelecidos).
As lições. Já que treinava funcionários, ensinava sobre vinhos, preparava a turma para jogá-la aos sabichões e esnobes, precisava me comportar como professora mesmo. E construí um programa a partir de lições.
Primeira lição: O que é vinho? Inclui, entre outras coisas, como o vinho é feito, suas características, seus sabores e aromas.
Segunda lição: Variedades de Uvas. Procurava descrever os diferentes tipos de uvas utilizados para fazer vinho, as características de cada vinho com aquelas uvas. Era de grande utilidade um cartão com para listar cada uva e as suas características. Um exemplo:
Sobre a Chardonnay, o vinho branco mais consumido e que normalmente se encaixa em três categorias. O rico, com carvalho, amanteigado, um estilo usualmente produzido nos Estados Unidos, potente que precisa realmente ser acompanhado de comida para ser devidamente apreciado – geralmente com um prato rico em sabores. Um atum, pato ou qualquer coisa com um molho denso cremoso.
O segundo estilo é o rico em sabores de frutas tropicais (papaia, maçã, pêra e até de banana). A Austrália é praticamente a “dona” desse estilo, que pode muito bem acompanhar frutos do mar, galinha ou peru.
O terceiro apresenta um sabor mineral, da terra, um Chardonnay que vai do ácido ao creme fresco, mas sempre com o sabor de “terra”. É o estilo original, da Borgonha. Normalmente, vai bem com frutos do mar.
Já viram que as lições podem ser muito animadas. E, na verdade, bem simples.
Claro que só a Chardonnay dá uma hora de aula. Mas você vai apresentar também a Sauvignon Blanc e uvas que começam a aparecer por aqui: a Pinot Grigio (ou Pinot Gris), a Viognier, a Gewürztraminer (a da Alsácia e a da Alemanha).
E, claro, depois temos as aulas com as tintas, a começar com as reputadíssimas Cabernet Sauvignon, a Merlot, a Pinot Noir, a Syrah e a sua equivalente do Novo Mundo, a Shiraz, a Sangiovese (não pode faltar num restaurante de massas, pois é a prima dona do Chianti). E vai por ai.
Lição 3: As regiões vinícolas, onde descrevia as diferentes áreas do globo onde o vinho é feito. Separava por continente e não necessariamente por região. Ficava mais fácil assim.
Lição 4: Servir e vender o vinho. Era a lição final, onde explicava como servir uma garrafa com propriedade e algumas técnicas de venda. Afinal, fica fácil entender que 10% sobre uma caipirinha ou um chope é nada se comparado com 10% sobre um Barolo. Garçom depende mesmo é da gorjeta. E aquele que responde pelos vinhos muito mais. É aquela gorjeta à parte, necessariamente mais gorda, pois foi ele que transformou uma simples refeição num feliz acontecimento, graças à recomendação do vinho apropriado.
Após cada lição tínhamos uma rodada de degustação e de testes. A turma, como qualquer outra, precisa internalizar as informações. Essa era a hora. E, por falar nisso, as lições duravam em média uma hora.
As degustações compreendiam sempre vinhos que pudessem responder pelas lições: as diferenças de sabores e aromas, as variedades de uvas, as regiões vinícolas. Tinha sempre vinhos simples para essas aulas. Ao fim do “curso” oferecia vinhos de rótulos mais caros como prêmio.
Além das aulas, que na maioria das vezes compreendiam a presença do gerente da casa, estabelecia que a cada reunião da equipe dos restaurantes (em média, uma reunião geral por semana), os vinhos tinham sempre que ser comentados. E experimentados, como os novos rótulos que chegavam à adega (e na carta). Durante um mês ou dois, participava dessas reuniões e degustações. Perguntava a opinião deles, que sabores descobriram e com qual prato do cardápio achavam que aquele vinho devia acompanhar.
Fazia também com que os chefs preparassem pratos complementaras de modo a demonstrar como certos vinhos vão melhor com certas comidas. Era sempre muito divertido.
Ou seja, nesses um ou dois meses complementares, estava repetindo as lições, mas de outro modo, na prática, na vida real. E era a ocasião de criar promoções: por exemplo, aquele que vender mais garrafas de Pinot Noir numa semana leva uma de graça para casa (garrafa essa que eu mesma, representante de uma loja, cedia para o restaurante).
Aprendi que todo o restaurante que serve vinho sabe que tem que buscar sempre novas maneiras de melhorar suas vendas. Por isso, me surpreende que nem todos eles têm consciência da importância de continuar treinando a sua equipe a conhecer mais, a vender e a servir vinho. Quando um garçom tem um entendimento maior de qualquer item, costuma apreciá-lo melhor. Com o vinho, não é diferente: quando a equipe do restaurante ficar entusiasmada com a bebida a grana costuma melhorar para todo o mundo.
Daí que o país de ficção do filme do Glauber, Eldorado, vira realidade, pois o transe não é uma aflição, é uma luta que os sommelier de Rio das Pedras transformaram em vitória.
Eles, de uma maneira ou de outra, seguiram as lições acima na prática, fazendo com que os mestres fossem eles próprios. E isso é raríssimo de acontecer.

Já no seu Demerval

Uma caixa de 12 garrafas do Château Petrus 2005 está custando 37 mil dólares, ou pouco mais de três mil dólares a garrafa. E o vinho sequer está engarrafado. O imperador dos críticos, Robert Parker Jr., deu 96 pontos ao vinho (96 para um máximo de 100), isso na prova en primeur, com a bebida ainda no barril. James Suckling, da Wine Spectator, deu 95. Essa pontuação será corrigida em abril de 2008, com o vinho já na garrafa. Mas já tem gente comprando, segundo a Bordeaux Index, por esse preço mesmo, sequer se importando com um eventual rebaixamento da nota em 2008 (e, com ela, o preço).
Com esse dinheiro poderíamos comprar 21 garrafas do Château Ausone 2005, três caixas do Château Latour 2005, 19 caixas do Château Pichon-Longueville-Lalande 2005 ou 4.509 garrafas do Miolo Reserva Merlot 2004, vendidas por R$ 18,00 cada garrafa pelo seu Demerval no seu modesto comércio aqui perto de casa, em Secretário, Petrópolis.

Poderia comprar também uma aliança de platina com 16 diamantes na Tiffany de Nova York. Tem um nome apropriado para um infarto: “A um passo da eternidade”.
Já o preço da tequila mexicana “Pasión Azteca MX”, por 225 mil dólares a garrafa, não me impressiona. É que a garrafa é toda de platina. Se quiser uma barganha, compre a versão “Pasión Azteca México”, de ouro com platina por apenas US$ 150 mil.
Não me impressiona porque o que justifica o preço é o que está dentro da garrafa. Por exemplo: a última garrafa do whisky Macallan Fine and Rare Collection, 60 anos, foi vendida não faz muito tempo por US$ 38 mil, segundo a revista Forbes. A garrafa é apenas de vidro. Você, contudo, pode provar dessa maravilha no Old Homestead Steakhouse (Borgata Hotel Casino & Spa em Atlantic City, Nova Jersey). Custa apenas US$ 3.300,00 uma dose de 3,5 ml.
Existe, contudo, um Macallan possível de comprar: é o de 40 anos (foi produzido em 1939 e somente engarrafado em 1979: daí os 40 anos). Preço: US$ 10.125,00 – a garrafa. O terceiro na lista da Forbes é o Chivas Regal Royal Salute 50 anos: US$ 10 mil. A observar que o Macallan é um single malt e o Chivas um blended Scotch.
A garrafa de vinho mais cara que ainda pode ser bebida foi vendida num leilão em 2001 na Sotheby's americana por US$ 23.929.00 a garrafa. Era a de um Montrachet 1978, da Domaine de la Romanée-Conti. Pertencia a um lote de sete garrafas vendido por US$ 167.500,00. Dois colecionadores começaram a disputar esse lote e os preços acabaram na estratosfera, onde reside a vaidade desse tipo de pessoa. O extraordinário é que se trata de um vinho branco.
Se considerarmos garrafas maiores, uma Jeroboão (6 litros) do Mouton-Rothschild 1945 saiu por US$ 114.614,00, num leilão da Christie’s de Londres, em 1997. O comprador preferiu ficar anônimo. Assim, se ele abriu a garrafa e o vinho já estava passado ninguém ficará sabendo. Já se aconteceu o contrário, não fui convidada infelizmente. Mas tem sempre o seu Demerval aqui do lado.

27.7.06

O que houve com o Clarete?

Um fiel leitor, Roldão Simas, nota que se escutava muito falar em vinho clarete. E hoje em dia não mais. O que houve com o clarete? O que é clarete?
Clarete, tal como utilizamos normalmente hoje, é a forma que os ingleses (os americanos, não) geralmente utilizam para descrever os vinhos tintos de Bordeaux. É grafado com o “t” mudo: Claret.
Na França medieval maioria dos vinhos tintos resultava de uma breve fermentação, normalmente não mais do que um ou dois dias. Esse curto período de contato do suco com as cascas das uvas produzia um vinho de cor muito pálida, provavelmente muito parecidos com os rosados de hoje. Esses vinhos, exportados de Bordeaux, eram chamados de vinum clarum, ou Clairet – e foi dessa última palavra que derivou o termo inglês Claret.
Outros vinhos, muito mais escuros também eram produzidos, levando-se o que restou da primeira fermentação para uma nova prensagem. E o vinho que resultava era chamado de vinum rubeum purum, bin vermelh ou pinpin.
Embora a forma clairet fosse largamente utilizada na França medieval, a expressão claret parece não ter sido muito utilizada na Inglaterra até o século XVI. Na segunda metade do século XVII, um novo tipo de vinho, de qualidade muito melhor e de cor mais escura, começou a ser produzida nas regiões de Graves e no Médoc. Mais atenção era dada à seleção das uvas, melhorou-se a técnica de vinificação, utilizaram-se barris de carvalho novos. Então, no começo do século XVIII, os ingleses começaram a chamar esses vinhos de Novos Clarets Franceses e os mais famosos entre eles eram o Haut-Brion, Lafite, Latour e Margaux.
(The Oxford Companion to Wine – segunda edição. (Editado por Jancis Robinson, MW).
Clairet – estilo de vinho rosado escuro que é uma especialidade da região de Bordeaux, lembrando os vinhos tintos exportados em grande quantidade de Bordeaux para a Inglaterra, na Idade Média. Foi esse Clairet que originalmente inspirou a expressão inglesa Claret.
Como é feito? Uvas tintas são fermentadas em contato com suas cascas por cerca de 24 horas. Então retiram as cascas e a fermentação continua até secar. O sumo pega muito pouco a cor tinta, fica mais para o rosado. A bebida é então engarrafada para ser vendida sob a apelação “Bordeaux Clairet” e deve ser bebida o mais jovem possível. Falam que se originou em Quinsac, nas Premières Côtes de Bordeaux.
Clairette. É um nome muito utilizado para uvas brancas do sul da França. Como, por exemplo, a Clairette Ronde, do Languedoc (que é a uva Ugni Blanc, versão da Trebbiano italiana, que entra na produção do Conhaque e do Armagnac). As Clairettes servem também como sinônimos para a uva Bourboulenc.
Clarete. É também uma expressão espanhola para um vinho de matiz entre o rosé (que os espanhóis chamam literalmente de rosado) e um tinto leve. Relaciona-se etimologicamente (mas não enologicamente) ao Claret inglês e tem origem em claro – que significa isso mesmo, claro.
A palavra foi utilizada nos rótulos de vinhos espanhóis até sua proibição, em razão da entrada da Espanha na União Européia, em 1986. Mas ainda é empregada no país como uma expressão descritiva.
Clarete. Em Portugal é o vinho tinto “pouco colorido”. Mas lá temos também o vinho Palhete (ou Palheto), um vinho tinto obtido “da curtimenta parcial de uvas tintas ou da curtimenta conjunta de uvas tintas e brancas, não podendo as uvas brancas ultrapassar 15% do total".
Temos aí, na verdade, um rosé ou rosado. Existe, inclusive, uma designação oficial: Palhete de Ourém, para os vinhos dessa região, em complemento à designação “Vinho Regional Estremadura”, com uvas tintas e brancas originais da região de Ourém e lá vinificadas.
É uma bebida de origem medieval, com maiôs de 800 anos de história, finalmente regularizada pelo governo português em 2001. O palhete tem uma cor próxima ao do rubi claro.
Clarete. No Brasil, pela Lei nº 10.970, de 12 de novembro de 2004, os vinhos são assim classificados quanto às suas cores: a) tinto; b) rosado, rosé ou clarete; c) branco. Ou seja: clarete e rosado são a mesma coisa. Saiba mais sobre a Lei do Vinho no Brasil aqui . Essa definição se repete nos glossários dos sites da Associação Brasileira de Enologia (veja aqui). E também no da União Brasileira de Vitivinicultura (veja aqui).
Numa carta a um amigo seu, o poeta português Antero de Quental (1842-1891) fala ter provado alguns vinhos do Minho enviados por esse amigo. “Como originalidade ponho o clarete acima de tudo... Ao seco acho-o seco de mais e, no gênero, prefiro-lhe o bastardo... Em conclusão: como tipo ponho o clarete em 1º lugar e ponho em último o seco”, avalia o poeta.
Ou seja, parece que se estabelece aqui uma diferença quanto ao teor de açúcar do vinho, pois entendemos pela carta que o clarete seria mais doce. Isso altera alguma coisa? Acho que não: podemos ter um clarete doce, meio doce ou seco, quanto ao volume de açúcar. E ele não deixaria de ser clarete.
Mas para criar mais confusão, o missivista fala de uma preferência pelo “bastardo”. A casta Bastardo é uma das utilizadas na região de Denominação de Origem Controlada da Beira Interior. É também uma das uvas tintas utilizadas no vinho do Porto (as variedades de destaque lá são: touriga nacional, tinta roriz, tinta barroca, touriga francesa, tinta cão, donzelinho, tinta francisca e mourisco tinto, além da bastardo). Os Portos são, contudo, doces. Fico confusa: o poeta teria bebido um tantinho a mais e ousou comparar vinhos doces com secos, ou simplesmente firmou que prefere os vinhos doces?
Mas esse estilo de clarete doce tem um fundamento.
Tenho aqui o texto de um anúncio de rádio (um spot), dos idos de 1947, na Rádio Tupi, onde o locutor lia o texto ao vivo, direto, durante um programa do lendário Almirante. O programa era patrocinado pelo Vinho Único e os estilos dos vinhos dessa marca eram apresentados: “clarete, grande vinho branco doce, moscatel licoroso, malvasia tipo porto, espumante tinto e licoroso...”
Não dá muito para entender as classificações do anúncio, pois, vejam: temos aí um “malvasia tipo porto”. Mas Malvasia (ou Malmsey ou Malvazia) é uma das quatro grandes variedades que fazem o vinho da Madeira. Será que usaram “tipo porto” em substituição a Madeira para facilitar o entendimento do ouvinte? Só que, no Brasil, Madeira e Porto eram igualmente conhecidos, como tudo de gostoso vindo de Portugal para a colônia.
A confusão é maior por existir uma variedade, a Malvasia Fina, conhecida também como Vital, plantada na região do Douro e que contribui como blend para o vinho do Porto branco – mas muita rara no Brasil dos anos 50.
E, reparem, quase todos os vinhos são “licorosos”. Durante muitos anos, os vinhos rosé, rosados ou claretes (como nas definições portuguesa, espanhola e brasileira) eram doces – uma tradição que vem até de antes do famoso Mateus Rosé, um dos maiores produtos de exportação de Portugal em todos os tempos. O Mateus ajudou a embalar a imagem de doçura dos rosados. Nos Estados Unidos, hoje, os rosés são ainda considerados pela maioria dos consumidores como vinhos doces – graças ao Mateus e também os rosados feitos lá com a uva Zinfandel.
Então o clarete seria o quê? Um rosado doce, “licoroso”? Apenas um vinho tinto? Se fosse, porque não chamá-lo apenas de tinto, tal como o anúncio fez com o “tinto espumante licoroso"?
Os rosados contemporâneos são em sua maioria secos, repetem a tradição medieval. Vinhos tintos claros porque seu sumo não ficou muito tempo em contato com as cascas das uvas. Ou, num segundo método: uma mistura de brancos e tintos.
Enfim, hoje a expressão clarete só é utilizada em alguns rótulos portugueses. Mas o seu significado se mantém: é um vinho tinto pálido ou um rosado mais acentuado, chegando ao rubi.
E seu ancestral, claret, continua firme como a denominação até hoje utilizada pelos ingleses para os tintos de Bordeaux. Mas ainda vemos a palavra Claret em alguns rótulos bordaleses – certamente dirigidos especificamente aos consumidores ingleses.
A expressão em nossa língua caiu em desuso quando a Espanha e Portugal ingressaram na União Européia, cujas leis relativas aos vinhos impõem que as cores destes sejam apenas tintas, brancas e rosadas. E o clarete foi aposentado.
O inverno vai chegando ao fim, com as praias cariocas cheias de gente procurando mais calor e mais cor. E com o calor, leitora, não deixe de experimentar mais os roses, rosados ou claretes, tal como a definição da lei brasileira. São excelentes para refrescar.

20.7.06

Vinho dá dinheiro?

Na França, temos o grupo dos vinhos finos, alguns dos quais estão sendo pré-vendidos (os da safra de 2005) por 750 dólares a garrafa. E tem um grande número de produtores saindo do negócio, pois os vinhos comuns estão encalhando.
Mas, na edição de 13 de julho da revista francesa de negócios "Challenges" (e via blog Dr. Vino), 31 das 500 pessoas mais ricas da França vive (muito bem) dos vinhos e destilados.
Seus nomes (o valor líquido de suas fortunas está em milhões de euros):
O número um da lista, o mais rico francês, é Bernard Arnault, CEO da LVMH (LVMH-Moët Hennessy-Louis Vuitton S.A.), o maior conglomerado de artigos de luxo do mundo. É a matriz da Daslu, com marcas como Dior, Tag Heuer, Omas, Celine, Lacroix, Donna Karan, Pucci, Fendi, Kenzo, Guerlain, Kenzo, entre outras.
Quanto aos vinhos, possui a Moët et Chandon, o venerado Château d'Yquem, a Chandon Estates (espumantes em vários países, inclusive o Brasil), além de vinícolas em pelo mundo. Fortuna de Bernard Arnault: 17.205.
Em seguida, temos Patrick Ricard (em 26º lugar), da Pernod-Ricard: 1.278.
Pierre Castel (28º), da Castel Fréres, (vinhos Castel, mais exportadoras de bebidas etc.), com 1.200.
As famílias Chandon-Moët e Hennessy (do conhaque) estão em 45º: 905 milhões.
Dominique Herlard-Dubreuil (53º), da Remy Cointreau: 726.
Jean-Claude Rouzaud (88º), do champanhe Louis Roederer: 375.
Bernard Magrez (96º), do Cru Classé Pape-Clement: 335.
Eric de Rothschild (100º), do Château Lafite Rothschild: 311.
Corinne Montzelopoulos (116º), do Château Margaux: 260.
A família Nonancourt (146º), do champanhe Laurent Perrier: 202.
Paul-François Vranken (191º), do champanhe Vranken: 154.
Albert e Robert Cohen-Skalli (194), dos vinhos Skalli: 150.
Philippine de Rothschild (194), dos vinhos da Baron Phillippe de Rothschild, com seu ilustre Mouton: 150.
Pierre Cointreau (233º), do grupo Remy Cointreau (conhaque, champanhe, licores): 127.
Michel Reybier (242º), do Domaines Reybier (vinhos como o Cos d'Estournel): 120.
A família Lurton (276º), dos Vinhedos André Lurton: 100.
Família Bollinger (310º), do champanhe Bollinger: 90.
Antoinnete Coury (329º), do licor Grand Marnier: 83.
Carol Duval-Leroy (336º), do champanhe de mesmo nome: 80.
Helfrish e Bimmerle (também em 336º), Grands Chais de France (exportadores, negociantes): 80.
Christian Moueix (374º), da Antoine Moueix et fils (negociantes): 72.
O queridinho de Robert Parker, Gerard Perse (376º), do Château Pavie: 70.
Delon e d'Alton (402º), do cru classé Château Léoville Las Cases: 65.
Jean Pol-Roger e C. de Billy (426º), do champanhe Pol-Roger: 60.
Didier Cuvelier (457º), com o cru classé Leoville-Poyferre: 55.
E as famílias Leroy e Villaine (477º), do célebre Romanée-Conti: 44.
Fazer dinheiro com vinho é simples: para vender US$ 1 milhão em vinhos basta começar investindo US$ 10 milhões.

Vinhos - em quadrinhos

No concurso entre sommeliers na França, Joe Satake foi o vencedor, mas recusa o prêmio. Um gênio, ele recolhe-se a uma orgulhosa solidão. E pensa: ‘Não há vinho ruim. Quando encontra um vinho é só dar um tempo para tele. As várias jóias de um vinho são como companheiras – ocasionalmente uma doce história, às vezes uma amarga. Vinhos não mentem – os sommelier conseguem ver a verdade dentro deles. Cada vez é um novo encontro. ´
E cada vez é uma nova surpresa. Se as amigas pensam que a última moda em vender vinhos é colocar bichinhos simpáticos nos rótulos, como faz o australiano Yellow Tail (da Casela Wines e seu canguru do rótulo, que por sinal não vejo nada muito amarelo em sua cauda), disparado o importado mais vendido nos Estados Unidos. Pois se pensam assim, estão enganadas.
Há cerca de uma década, numa terra muito distante, uma simples história em quadrinhos com milhares de admiradores transformou um vinho da Califórnia, novo naquele pedaço, num senhor sucesso, do dia para a noite. E esses quadrinhos não tinham cangurus, ursinhos, gatos, cachorros, pingüins, galos etc. – os bichinhos que fazem sucesso nos rótulos dos vinhos norte-americanos. Lá, tem bichinho no rótulo, vende. com certeza.
Mas a terra distante é o Japão, onde uma história em quadrinhos para adultos, chamada de mangá, editada regularmente num dos mais importantes diários do país, e que tem como personagem principal um sommelier meio fanfarrão chamado Joe Satake.
E o vinho que Joe Satake ajudou a transformar num “cult” do dia para a noite foi um Calera Pinot Noir, da Califórnia. E cada vez que os quadrinhos de Satake chegam às bancas, uma multidão de japoneses amantes de vinhos espera fazem filas nas lojas em busca de qualquer garrafa de Calera disponível.
Calera é o nome espanhol para um forno de cal (cal, a substância branca, pulverizada, obtida através da calcinação de rochas calcárias, submetidas a altas temperaturas nesse forno). É também o nome de uma vinícola, a Calera Wine Company. Seu nome é tirado de uma obsessão de seu fundador, Josh Jensen: fazer o melhor vinho baseado em Borgonhas, em particular o famoso Pinot Noir tão procurado por Miles, o personagem principal do filme Sideways. E Jensen procurou terras calcárias como as da Borgonha. E as achou no Monte Harlan (no distrito de San Benito, nas Montanhas Gabilan, Califórnia), numa área que tinha sido anteriormente uma pedreira de calcário. Saiba mais sobre a Calera Wine Company aqui.
Quando os quadrinhos de Joe Satake apareceram no Japão, o Calera Pinot Noir já estava listado com um dos grandes vinhos da América. Quando Josh Jensen viajou ao Japão para conduzir degustações de seu Pinot Noir em Tóquio e Osaka fãs do seu Calera enfrentaram filas para que ele autografasse os rótulos de garrafas vazias do seu vinho. Joe Satake funcionou e continua funcionando.
Veja o Joe Satake aqui, na capa da Sommelier, sempre ao lado de uma garota bonita e sempre segurando uma taça de vinho.
Mangá. Mangá é a palavra japonesa para história em quadrinhos. Quanto a estilos, ele mistura os do oriente e também do ocidente. Tem origem na China, mas foi no Japão que fixou residência. Tomou o seu formato atual logo após a II Guerra. Não é preciso dizer que tem imensa aceitação no Japão, onde explora uma grande variedade de temas, satisfazendo leitores de todas as idades, classes e sexo. As histórias em quadrinho japonesas formam uma indústria que fatura muito mais do que o seu equivalente norte-americano. Vendem milhares de cópias semanalmente e são respeitadas tanto como uma forma de arte quanto como uma forma de literatura popular. Saiba mais sobre o mangá aqui.
O Sommelier Satake. O nosso Joe Satake começou a aparecer numa série de mangá chamada Sommelier. Ele é a estrela, um brilhante degustador de vinhos, com um conhecimento enciclopédico dos vinhos de cada região, tanto as obscuras quanto aqueles Grands Crus. Entre as degustações de vinho, Joe ainda resolve crimes complicados e sempre fica com a mocinha (a garota mais bonita do pedaço, naturalmente).
Nessa edição da Sommelier, em parte referida na abertura da coluna, quando Joe Satake ganha o concurso de degustação, ele relembra uma outra prova onde teve de degustar dois vinhos às cegas (ou seja: você desconhece a marca do vinho).
Um deles era o superstar e caríssimo Romanée-Conti, o orgulho da Borgonha, o mais famoso de todos os vinhos feitos com a Pinot Noir – coisa para colecionadores sabidos e abastados (como o Boni, o famoso superexecutivo da Rede Globo). O outro era um vinho da Califórnia, o Calera Pinot Noir, dos vinhedos Jensen.
Um sommelier rival, pra lá de invejoso e cheio de truques, tenta enganar Satake descrevendo os vinhos de modo a concluir que o melhor deles era o Romannée-Conti.
Mas, no último minuto, Satake percebe que só podia haver um vinho similar ao DRC, o Calera, que o nosso herói aponta como o vencedor. Não só ele manteve o seu prestígio como derrotou o seu rival e evitou uma senhora injustiça. E ainda ficou com uma garota de sonhos que estava acompanhando o concurso. (Não estranhe, essa é uma história em quadrinhos). É dessa maneira que o vinho californiano vai sendo anunciado.
Essa historinha apareceu no Sommelier há dez anos. Logo após chegar as bancas, teve o número esgotado e as lojas se entupiram de japoneses fanáticos por vinho atrás de uma garrafa de Calera Pinot Noir. Foi o formidável Joe Satake que lançou a marca.
Hoje, dez anos depois, a Calera-mania continua não apenas forte, mas crescendo, segundo Josh Jensen. “Vendemos hoje 23% de nossa produção para o Japão, cerca de sete mil caixas por ano”.
O produtor americano confessa que não estava preparado para isso. Não esperava que uma simples história em quadrinho tornasse seu vinho tão importante para os consumidores japoneses.
Quer dizer que sempre podemos encontrar maneiras criativas de vender vinho. Nos Estados Unidos, temos a moda dos bichinhos nos rótulos. Lá (e talvez aqui) usar histórias em quadrinhos pode ser um problema, pois crianças e adolescentes podem influenciar-se, afinal estamos falando de uma bebida alcoólica. O mangá japonês fala muito bem para audiências adultas.
Os quadrinhos aqui já são utilizados na comunicação didática, mais voltada para o público mirim.
Aqui, o mais comum é pegar uma personalidade e recriá-la em quadrinhos, principalmente para os baixinhos. Foi assim com o Pelé. Foi assim agora, nos tempos da Copa, com o Ronaldinho Gaúcho (e parece que nos quadrinhos ele se saiu melhor do que em campo).
Mas convenhamos que os quadrinhos aqui bem que poderiam ajudar um imenso público a saber mais sobre vinhos. E como beber com moderação. O negócio é achar o nosso Joe Satake. Acho que esse herói nasceu da cabeça de seus criadores (Kaitani Shinobu e Hori Kenichi).
E aqui, como seria. Teríamos modelos da vida real?
Amiga leitora: quem você acha seria o perfeito Joe Satake brasileiro? O Renato Machado, o Claude Troisgros, o Dado Dolabella, o Reynaldo Giannechini? Quem mais?
Respostas para a Soninha via soniamelier@terra.com.br

11.5.06

Os vencedores da Expovinis

Eis aqui os melhores vinhos apresentados a mais recente edição (a 10ª) da Expovinis Brasil 2006, realizada no início do mês em São Paulo.

Foram selecionados 54 vinhos, agrupados em estilos: oito rosados, 15 brancos (Sauvignon Blanc, Chardonnays e de outras castas), 11 espumantes (Champagne e outros espumantes) e 20 tintos leves (seis nacionais, sete ao estilo de Bordeaux e sete outros: de Portugal, Espanha e Itália). A seleção é a seguinte:

  • Rosados: Torres Santa Digna Cabernet Sauvignon 2005 (Reloco).
  • Brancos com a Sauvignon Blanc: Hunter’s 2004 (Premium).
  • Brancos com a Chardonnay: Trinity Hill 1999 (Premium).
  • Brancos de outras castas: Lodge Hill Jim Barry Riesling 2003 (KMM).
  • Espumantes Cava Brut Nature Juvé y Camps (Península) e Cava Cordoníu Cuvée Raventós (Interfood).
  • Champagnes: Piper-Heidsieck Jean Paul Gaultier Cuvée Special Brut (Interfood).
  • Tintos leves: Quinta de Sauguinhal Óbidos 2000 (Adega Alentejana).
  • Tintos ao estilo Bordeaux: St Hallett Old Block Shiraz 2001 (KMM) e Leo d’Honor Garrafeira Grande Escolha 2001 (Lusitana) – houve, portanto, um empate.
  • Tintos de Portugal, Espanha e Itália: Quinta do Crasto Vinha da Ponte 2003 (Qualimpor).

O objetivo do júri era selecionar os “Dez Mais”. Só que houve empate no grupo de vinhos ao estilo de Bordeaux. E então acabamos com 11 belos vinhos.

O júri. Só degustadores experimentados e de nível internacional. Nos dois primeiros dias, seus integrantes percorreram individualmente os estandes da feira e cada um listou os melhores tintos, brancos, espumantes e rosados que degustaram. As listas foram compiladas e anotados os nomes dos vinhos com mais indicações, havendo algumas eliminações. Foram selecionados, como vimos, 54 vinhos. No terceiro dia, os vinhos foram reunidos e degustados rigorosamente às cegas, por todos os jurados, sob o comando de Jorge Lucki. E o resultado é o que temos acima.

O júri foi integrado por: Stephen Brook, editor da revista Decanter; John Hancock, enólogo neozelandês; José Maria Santana, jornalista colaborador da revista Gula; Marcelo Copello, editor da revista Adega e colaborador da Gazeta Mercantil; Manoel Beato, sommelier-chefe do grupo Fasano; Ricardo Farias, presidente da Associação Brasileira de Sommeliers, Rio de Janeiro (ABS-RJ); Daniel Pinto, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Amigois do Vinho, São Paulo (SBAV-SP); Márcio de Oliveira, diretor de degustações da SBAV-MG; José Luiz Pagliari, professor de Enologia no Senac–SP e Sérgio Inglez de Souza, especialista em vinhos brasileiros. A presidência do júri foi do especialista Jorge Lucki, colaborador do jornal Valor Econômico, e a coordenação esteve a cargo de José Ivan Santos, consultor do evento.

Nas Águas de Maigret

A amiga Roberta Campos Babo andou escrevendo em sua coluna “O que há para ler” na Tribuna da Imprensa sobre a coleção de novelas do célebre inspetor Jules Maigret, criação do belga Simenon, agora editada pela Nova Fronteira – o que me a esse assunto: os hábitos do célebre inspetor com relação às bebidas. No livro mencionado pela Roberta, UM ENGANO DE MAIGRET (o 19º da coleção), revela-se que quando o Maigret inicia uma investigação com Calvados (destilado feito de maçã), por exemplo, era com Calvados que continuava (pg. 166). Assim temos investigações-cerveja, investigações-vinho e até mesmo investigações-uísque (para desespero do inspetor, que aparece em 102 livros de Simenon, o primeiro em 1930 e o último em 1972). Poucos autores escreveram histórias policiais tão bem como o belga. E tão bem sobre as bebidas.

As que aparecem nessas novelas não têm função física, como nas novelas de Dashiel Hammet (com excessos de gim e rye) ou do atualíssimo e ótimo Lawrence Block, cujo herói, o ex-tira Mattew Scudder, só bebe bourbon (para esquecer) e café (talvez para lembrar). Scudder faz o tipo “durão”.

As bebidas em Simenon fazem parte da cultura do francês, do cenário onde se incluem dos bistrôs, os cafés e os restaurantes. Não se bebe para ficar tonto ou esquecer ou por vício. As bebidas parecem indicar um sistema social, apontam para grupos, classes, sexos, regras de hospitalidade e de comportamento. Diferente de qualquer outro detetive, Maigret tenta estudar os homens, entender o meio social. Ele pondera sobre suas impressões, não é analítico, mas imaginativo: busca desencavar um sistema de regras. As pistas que levanta raramente estão ligadas ao crime e ao criminoso. Mas se consegue captar a atmosfera, acaba quase sempre diante do culpado.

E nesse processo de observação, quase que antropológico, os hábitos com as bebidas resultam sempre em boas pistas: é o comportamento que mais claramente indica a estrutura social das personagens. O mundo está dividido entre trabalhadores, a pequena burguesia, a alta burguesia e a aristocracia - divisões mais econômicas do que ideológicas.

O que ele bebeu ao longo dessas 70 novelas?

Por ordem de quantidade: cerveja, conhaque (Armagnac, Calvados, Marc, Conhaques de ameixa e de framboesa), café, vinho (na maioria dos casos, vinhos brancos), licores (Chartreuse, Curaçao), Pastis, Martini, Rum, grogue (um destilado com água quente), e uísque. Só bebeu chá quando doente. Madame Maigret, contudo, só bebia chá de ervas. Era um modelo do figurino feminino.

E o que as demais personagens bebiam?

As mulheres praticamente só bebiam chás e água (de Vichy) e Champagne (apenas as ricas), que o inspetor jamais bebeu, assim como gim (só via um raro Martini) e rum (apenas quando misturado no grogue). Seus vinhos de preferência eram o Beaujolais, o Chavignol, o Pouilly-Fuissé, o Pouilly-Fumé, o Saint-Emilion, o Sancerre e o Vouvray. Interessante é que dessa lista apenas o Beaujolais e o Saint-Emilion são tintos.

Nas aventuras de Maigret, anormalidades seriam não beber (álcool) e não fumar. O natural seria fumar (cigarros ou cachimbo, como ele), beber e comer fartamente. Maigret, portanto, suspeitaria de quem faz greve de fome, só bebe água e não fuma. Inclusive, água para ele nunca foi sinônimo de pureza ou de “limpeza” – que só poderiam acontecer debaixo de lei e ordem, comendo e bebendo à farta, dentro do figurino da época.

Spas perto e longe

Spas de vinho. Quem pensa que Spas de vinho só na Europa, em particular o badalado Caudalie, em Bordeaux, pode tratar de economizar uns trocados e partir para a Argentina. Vá para Mendoza, a capital do vinho do país, e de lá parta para Cayate, a principal região produtora de Salta, umas três horas de van para o sul de Mendoza. Então, no coração do vale Calchaquíes, você encontra fácil o Pátios, um hotel-fazenda de apenas 30 quartos. Ele oferece um spa de vinho como nenhum outro. Você submerge em cascas e talos de uvas (ora tintas, ora brancas) e rejuvenesce se rosto e corpo – não apenas com uvas, mas também com cereais usados pela ancestral cultura dos índios Calchaqui.

O Patios é administrado pelo grupo Starwood, um dos maiores do mundo em hotelaria, com 733 hotéis espalhados pelo globo. Tem cerca de 120 mil funcionários e responde pelo Sheraton, Four Points, St. Regis, Le Meridien, W Hotels, entre outros. Já viu que sabem das coisas e o spa argentino é de primeiríssima ordem.

Não deixe de visitar: Patios de Cafayate Hotel & Spa. Ruta Nacional 40 y Ruta Nacional 68, Cafayate, Salta 4427, Argentina. Telefone: (54) (3868) 421 747. Fax: (54) (3868) 422 753.

Spas de cerveja. Claro que o sucesso dos spas de vinho (tanto que da Europa já chegaram à América do Sul) despertou a atenção da turma da cerveja - principalmente agora que os turistas e torcedores vão chegar, por conta da Copa do Mundo. E agora temos ofertas de banhos de cerveja e outras espumantes terapias vindas da Áustria, Alemanha e República Checa. Acabam de inaugurar os spas com terapias cervejeiras da Chodovar, cervejaria em Chodova Plana, na República Checa. Usam lá a sua famosa e escura “lager”. Banhos de cerveja em ofurôs são a grande oferta da Kummeroer Hof, em Neuzelle, Alemanha.

Mas é na Áustria que esses tratamentos chegam fazem, digamos, a espuma necessária. Uma cervejaria, a Starkenbert (www.bierschwimmbad.com) chega a encher uma piscina com barris e mais barris de cerveja de sua ótima Pilsner. E, bem perto de Salzburg, o Landhotel Moorhof (www.moorhof.com) é o que oferece o mais completo tratamento de cerveja, do spa à mesa de jantar. Quem conhece o assunto diz que cerveja é ótima para a pele em razão de suas vitaminas e fermento. Um banho numa dessas piscinas ou ofurôs custa na casa dos 44 euros (uns 116 reais). E você tem direito a canecos de chope – só para não perder o costume. O problema é não acabar dormindo durante os banhos (ou tratamento, como quiser).

E eu que achava que meu tratamento no Bar Luiz, há 114 anos oferecendo um senhor chope, era o que me bastava.





Vinhos e Vegetarianos

Será que um vegetariano teria problemas em consumir vinhos? Vegetariano seria o adepto de uma alimentação exclusivamente à base de vegetais, claro. Numa versão mais radical, ele não consome produtos de origem animal, nem os que tenham sido testados em animais. São os chamados vegans ou veganos: não consomem carne, peixe, mariscos, laticínios, mel, ovos. E fazem disso uma filosofia de vida: não usam peles, couro, lã, seda, cera de abelha, própolis, medicamentos ou cosméticos testados em animais etc. Algumas fontes ensinam que vegetarianos e vegans (ou veganos) seriam hoje a mesma coisa. Outras estabelecem diferenças. Veja os sites que consultei: aqui e aqui.

Voltando à questão: qual seria o problema de consumir vinhos para vegetarianos ou para os vegans?

É cada vez mais raro no mundo dos vinhos, mas você ainda encontra em vinícolas do Velho Mundo, por exemplo, muitos produtores quebrando grandes quantidades de ovos, separando a clara da gema. O trabalho é lento e cuidadoso, mas eles o consideram essencial.

O objetivo é evitar que essas partículas turvem o vinho.Querem o vinho claro, brilhante, bonito de ver.

Claras de ovo têm sido utilizadas há centenas de anos nas regiões da Borgonha e de Bordeaux, na França, em também em Portugal, por exemplo. Conta-se que na terrinha os monges utilizavam as claras para “afinar” seus vinhos e passavam as gemas para as freiras. Daí o festival de doces com ovos, uma das deliciosas marcas da cozinha portuguesa.

Mas outros elementos têm sido utilizados. E a maioria deles, para infelicidade dos vegetarianos, de origem animal. Gelatinas feitas de tecidos, cartilagens de animais (de vacas e porcos, em particular); aglomerados derivados de crustáceos (da quitina, mais especificamente, a substância que os reveste); gelatinas feitas de vísceras de peixes. Utiliza-se também a caseína, uma proteína existente no leite e até sangue coagulado, de origem animal.

O vinho normalmente contem apenas uvas, fermento e uma pequena porção de sulfitos (sais do ácido sulfuroso, acrescentados ou criados durante a fermentação), que servem para a conservação da bebida.

As claras de ovo e as demais substâncias de origem animal servem de “agentes clarificadores”, que vão clarear o vinho removendo sólidos insolúveis. São células mortas, fragmentos das cascas das uvas, dos talos, sementes, polpas e também colóides, substâncias microscópicas, a maior parte formada de moléculas orgânicas que sobraram do processo de fermentação. Elas respondem, por exemplo, por qualidades como a viscosidade do vinho, o seu “corpo”; como estão em excesso, o produtor quer eliminá-las.

Esses produtores poderiam não utilizar nada e esperar que todos esses elementos se assentassem no fundo dos barris ou dos tanques de armazenamento da bebida, quando então começariam a retirar apenas a parte superior da bebida, devidamente “clarificada”.

Mas isso levaria um tempo enorme, o que resultaria em gastos maiores, pois quanto mais tempo a bebida leva para ser comercializada, mais cara ela fica para o produtor (e, logo, para nós consumidoras).

Então, nossos produtores há centenas de anos começaram a usar claras de ovos e outros elementos para “afinar” seus vinhos mais rapidamente. Eles têm uma polaridade oposta à dos vinhos. Assim, atraem aquelas partículas que turvam a bebida e as levam para o fundo do barril. Fica mais rápido e fácil de retirá-las, em seguida. Além disso, são baratíssimos.

Nem todos os produtores, contudo, utilizam elementos de origem animal. Empregam a bentonita, uma sílica (silicato de alumínio hidratado) natural, que absorve soluções aquosas – ou seja, têm o mesmo efeito das gelatinas. Só que sua origem é a terra. Vinhos clarificados com bentonita são perfeitamente aceitos por vegetarianos. Mas como eles poderão saber? Essa informação não consta dos rótulos.

A verdade é que nenhum desses produtos vai aparecer ou alterar o vinho quando finalmente ele for colocado nas garrafas. Ninguém será capaz de percebê-los. Mas aqui o que conta é o princípio, a filosofia que orienta os vegetarianos.

Contudo, existem vinhos que podem servir a essa filosofia. São aqueles que têm nos rótulos dizeres como “não afinado e não filtrado” (“unfined and unfiltered”), particularmente originários dos Estados Unidos, onde essas palavras servem até para demonstrar uma vantagem mercadológica.

Um vinho marcado como “unfined” não teria passado por um agente clarificador. O vinho às vezes foi filtrado (passou por um filtro microscópico para remover as impurezas), sem que tenha sido “afinado” (não se submeteu aos agentes clarificadores).

Mas isso é o que dizem esses rótulos. Como ter certeza? Um pouco mais seguros são os vinhos “kosher” feitos segundo as estritas leis do judaísmo. A União das Congregações dos Judeus Ortodoxos dos Estados Unidos garantem que os vinhos por ela cerficados não usam qualquer tipo de agente clarificador de origem animal. Mas ressalvam que não podem assegurar as condições de produção dos vinhos kosher de outros países.

Nos supermercados ou lojas especializadas fica praticamente impossível para o vegetariano escolher o vinho mais apropriado: os rótulos não esclarecem nada sobre o processo de filtragem ou “clarificação”. Talvez a solução esteja em consultar importadores ou lojas de sua confiança.

Mesmo alguns refrigerantes e sucos podem conter corantes de origem animal. É uma situação difícil. Na Inglaterra é publicado um guia que orienta os vegetarianos sobre que produtos comprar, inclusive bebidas, sem que se tema por contatos com produtos de origem animais na sua fabricação. Veja aqui.

Talvez os vegetarianos que eventualmente me lêem não tenham ficado muito felizes. Os vinhos deveriam ter mais informações em seus rótulos, só que atualmente apenas um país se preocupa que essa questão, os Estados Unidos, onde os rótulos seguramente vão transformar-se em bulas em pouco mais tempo. É só esperar.