31.10.06

Análise sensorial dos vinhos

Para muita gente, muita mesmo, crítica de vinhos se resume a uma análise sensorial. Muitos, mas muitos mesmo, sugerem que o vinho só pode se avaliado em seus termos, ou seja: que a única coisa que realmente importa quando tentam determinar se um vinho é “bom ou não” é a sua combinação de aroma, textura, sabor, acidez, estrutura de taninos e complexidade.
O resultado desse tipo de análise sensorial (ou crítica de vinhos) é uma nota com três ou quatro linhas e um escore numérico. E, pronto, está feito o trabalho do crítico.
Não há dúvidas de que esse enfoque tem muito de verdadeiro. A análise sensorial é o coração da crítica de vinhos. O que está na garrafa importa muito. Mas não é a única coisa que importa. E quem não concorda com isso pode ser considerado pelo menos ingênuo dos contextos, dos ambientes em que se vive a experiência do vinho.
O entendimento, a avaliação e o pleno prazer de um vinho depende de muitas camadas desse contexto, cada uma delas ajudando a construir um quadro completo da bebida. E que camadas e que contexto seriam esses?
Os sentidos. Os analistas sensoriais (os críticos de vinho) começam colocando um pouco de vinho na taça. Fazem-na girar. Apreciam a cor, a viscosidade e os brilhos através do cristal. Inalam o vinho profundamente e avaliam seus aromas. Depois o bebem para sentir sua textura na língua e sentir seus sabores. Depois o engolem (ou cospem, se forem degustadores profissionais) e cuidadosamente avaliam aromas e sabores que ainda ficam na boca. Essa é a raiz de toda a apreciação de vinhos. Mas não é tudo. Falta alguma coisa.
Tipicidade. O mais teimoso dos críticos admitirá que uma avaliação apropriada do vinho compreende pelo menos uma camada adicional ao contexto puramente orgânico.
O conhecimento da variedade de uva utilizada na feitura do vinho e de onde elas cresceram permite ao provador avaliar melhor o vinho. O crítico poderá, ao menos, analisar se esse vinho é típico daquela uva e se é uma expressão do lugar onde ela cresceu. Mas faltam ainda mais camadas.
Humanidade e História. Além da garrafa e da uva, além da geografia da origem, todo vinho encerra sem dúvidas um contexto humano. Alguém preparou o solo e podou as vinhas. Certo que é mais de um alguém. Todos os vinhos têm uma história humana, a das pessoas que os criaram e cuidaram. Para entendermos completamente o vinho que provamos precisamos também considerar essa história.
Claro que o consumidor comum não tem obrigação de saber sobre quem fez o vinho, nada além do que está no seu rótulo, que muitas vezes não reconhece ou consegue pronunciar. Pode nunca saber da história de duzentos anos de uma família inteira de vinicultores. Ou a história pessoal de um produtor que começou no campo, colhendo uvas com as mãos. Essas coisas não são essenciais para o prazer de beber-se um vinho.
Mas são para mim. E deveriam ser para quem se considera um sério adepto da bebida. Uma crítica de vinho sem a história de quem fez e de onde veio o vinho é, em minha opinião, um mero exercício de juntar adjetivos (nem sempre inteligíveis) e um daqueles números, o placar final, a indefectível nota.
Cultura. Claro que a amiga já ouviu muitas vezes a frase: “Vinho é cultura”. Não poderia ser outra coisa. A bebida de reis e faraós, o salário dos soldados romanos, um sacramento secular, o ganha-pão de monges medievais e muito mais.
Na maioria dos lugares com uma história de mais de quatrocentos anos, a identidade dos seus vinhos está definitivamente emaranhada com as desses lugares. Os nomes (talvez complicados) dos vinhos franceses, italianos e alemães identificam ao mesmo tempo esses vinhos e suas cidades.
Quando colocamos um pouco deles em nossa taça estamos na verdade participando da evolução da cultura de um determinado lugar e de uma certa época.
Pense só: por que os Pinot Noir da Nova Zelândia, da Califórnia e da Borgonha têm sabores diferentes? Para responder a essa questão você tem que saber um pouquinho sobre as características do solo e do clima de cada um desses lugares e das leis que regulam a produção de vinhos em cada um deles e das práticas e tradições incorporadas pelos vinicultores dessas regiões. O produtor do vinho pode introduzir algumas diferenças estilísticas entre os vinhos, mas com freqüência elas são muito mais profundas do que essas práticas.
Ensopado de cordeiro e Chianti. Muscadet e ostras. Rioja e tapas. Essas combinações de vinhos e comidas não foram inventadas por nenhum chef, não resultam de nenhum experimento culinário. São produtos de um lugar específico e de uma época. Antes que o mundo do vinho ficasse globalizado, a maioria das pessoas bebia apenas os vinhos de sua vila, cidade ou, talvez, de suas regiões. Não surpreende, portanto, que aqueles vinhos tenham se apresentado com complementos perfeitos para as cozinhas e paladares locais.
Portanto, não é possível que os críticos de vinhos e mesmo os amantes da bebida ignorem a importância de entendermos de onde e quando vem o vinho no contexto da cultura mundial. Mas falta ainda uma camada nesse contexto.
Emoção e memória. Todas nós que gostamos de vinho tivemos, temos e vamos continuar a ter nossas experiências “perfeitas”. Aquele vinho no piquenique pra lá de simples, ao lado do namorado, aquela garrafa comprada na venda perto de casa resultaram num momento mágico. A luz da lua, o amor de sua vida (naquele momento) e o vinho que a cada gota parecia até melhor do que a hora desfrutada. São taças que você nunca esquecerá, mesmo com um novo namorado. Nunca deixe de fazer piqueniques.
Pois essa é a camada final do contexto que tentamos descrever. Ela compreende nossa psicologia, emoções e memória. Os melhores vinhos que provei foram quase sempre nas melhores companhias.
As amigas nunca me viram analisar sensorialmente um vinho na base de adjetivos e notas numéricas. Eu busco sempre um contexto que englobe os sentidos, as pessoas, a terra, as culturas, a história, a comida e a emoção. E dessa maneira não apago de minha memória vinhos fabulosos e namorados sofríveis. E vice-versa.

Sinais de mudança

Um amigo acaba de me presentear com um Cabernet chinês na certeza de que eu torceria o nariz. Não paro de ler sobre bons Chenin Blanc da Índia, sobre vinhos da Romênia, da Croácia, Grécia, Hungria, México, sem falar de conhecidos recém-chegados: os vinhos argentinos, chilenos, uruguaios, brasileiros, neozelandeses. E até da Inglaterra! Faz tempo que China e Índia produzem vinhos. A novidade é que indianos e chineses os estão consumindo mais e mais e os produzem com mais qualidade.
Meu amigo espantou-se quando disse que bebi com prazer o tal vinho chinês: um vinho honesto, uma demonstração de como equipamentos e técnicas modernas de produção se expandiram, resultando em produtos simples, baratos e decentes – em qualquer ponto do planeta.
O próprio presente do amigo já demonstra que alguma coisa está acontecendo. Noutros tempos eu ganharia um Bordeaux. Mas o chão de um sistema que parecia tão firme começa a tremer: vem aí uma reviravolta no mundo dos vinhos.
Tanto na Índia quanto na China o consumo de vinhos vem crescendo aceleradamente, em gordas taxas anuais de dois dígitos. Imaginem só uma fração dos bilhões de habitantes desses dois países em idade legal de beber transformando-se em fiéis consumidores de vinhos. Seria como jogar o Jô Soares num bidê cheio de vinho. Não sobraria uma gotinha.
Mesmo desconsiderando esses bilhões de novos admiradores de vinho, o mundo irá precisar de novos consumidores. Isso já está acontecendo se a França continuar a perder consumidores dentro de casa. Ela já foi o país que mais consumia vinho. Mas o francês hoje está bebendo 50% menos vinho do que em 1960, fato que está provocando uma pequena guerra civil entre produtores, governo e comerciantes. O aquecimento global é outro ator importante nessas mudanças: ele promete prejudicar bastante a produção do sul da França, sul da Itália, de toda Napa, Califórnia, e de toda a Espanha.
Essa revolução pode ser sentida também na mídia especializada, com as revistas bem estabelecidas, como a Wine Spectator, já sentindo os efeitos dos blogs. Existem na web hoje cerca de 20 milhões de blogs. E uma já influente parte desse novo meio é dedicada a vinhos. Só que seus autores e leitores apresentam atitudes e expectativas bem diferentes a respeito do vinho do que as adotadas hoje pelo coração da indústria do vinho (grupos de consumidores, críticos, restauradores, comerciantes). Vejam o que o filme “Sideways” promoveu na América: uma inesperada corrida atrás dos Pinot Noir. Vejam o crescimento dos vinhos orgânicos e biodinâmicos. O novo consumidor respeita, mas não adota os hábitos dos mais velhos ou do crítico laureado.
Sim, os recém-chegados também podem produzir vinhos simples, de qualidade e baratos. E daí? Mudanças acontecem sempre. E serão sempre bem-vindas. Então, leitor, brinde com vinho esses sinais. Mas evite os tênis chineses.

24.10.06

Perguntas e Respostas

O título já diz tudo: aproveito para atualizar a pilha de perguntas que chegam via e-mail.
Pergunta: Leitora quer saber se é verdade se aquela concavidade na base da maioria das garrafas de vinho serve mesmo para ajudar no serviço da bebida, criando uma “pega” para o vasilhame. E também se é verdade que quanto mais profunda essa depressão melhor é o vinho, pois ela teria relação com pressão.
Resposta: Essa concavidade é uma lembrança dos tempos em que o vidro das garrafas era muito frágil e ainda feito artesanalmente por sopradores. Foram eles que criaram essa depressão pensando em fortalecer a garrafa. Esse recurso foi muito útil principalmente para as garrafas de Champagne, onde a pressão interna é muito alta e constante. O vidro moderno é muito mais forte e as garrafas são produzidas industrialmente, por máquinas, sem a necessidade dessas concavidades. Falam também que elas ajudam a reunir sedimentos do vinho ou facilitar servir a bebida (isso se o leitor tiver polegares muito fortes). Bobagem. A verdade é que são mantidas por uma tradição puramente estética, embora não duvide que, quanto maior for a concavidade mais forte parecerá a garrafa (e o vinho). Logo: uma questão de estética e de marketing.
Pergunta: Dois leitores brigam pela mais antiga região demarcada de vinhos: um diz que é a França, outro que é a Alemanha.
Resposta: Ninguém ganhou. A mais antiga região demarcada do mundo foi criada em Portugal, no Douro, e tem 250 anos. Vamos lembrar que na antiguidade Portugal exportava vinhos para o Império Romano. Os vinhos franceses vieram muito depois.
Selecionei essa questão de propósito, pois o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto vai realizar uma degustação de seus vinhos no Rio no próximo dia 6 de novembro, a partir das 16 horas, na Casa de Cultura Julieta de Serpa, um palacete no Flamengo. Um importante acontecimento que vai marcar justamente os 250 anos dessa primeiríssima região demarcada. Para degustar as preciosidades a serem apresentadas, os chefs Francesco Carli (do Cipriani), Frédéric de Maeyer (do Eça) e Mónica Rangel, (do Gosto com Gosto, de Visconde de Mauá) criarão entradas e sobremesas especiais.
Pergunta: O vinho das garrafas magnum é exatamente o mesmo das garrafas comuns? Ou seja, o leitor acha que o vinho colocado nas garrafas de 1,5 litros não é o mesmo do que vai nas garrafas de 750 ml.
Resposta: Leitor, é o mesmo vinho, pode ter certeza. E é sempre o mesmo vinho o que vai para as meia-garrafas ou para as de 187 ml (também chamada de Pony ou Split – utilizadas quase que exclusivamente para espumantes) ou para qualquer um tamanhos de garrafas de vinho. Alguns produtores usam a magnum ou a jeroboão (3 litros), a Balthazar (12 litros) ou a Soverign (50 litros) ou para qualquer dos 13 tamanhos dessas garrafas, pois acreditam que o vinho nelas amadurece mais lentamente (ou seja: um recipiente mais apropriado para a guarda dos vinhos). Além disso, a produção dessas garrafas é muito pequena e por isso conseguem preços mais altos junto aos colecionadores.
Pergunta: Qual a melhor maneira de removermos uma rolha que suspeitamos esteja muito saturada, perigando de esfarelar-se dentro da garrafa?
Resposta: Em primeiro lugar, eu esqueceria imediatamente o saca-rolhas comum. Depois, tentaria utilizar aquele outro, de duas lâminas. É só colocar cada lâmina entre a rolha e o vidro do gargalo da garrafa e delicadamente forçar os dois dentes até quase o limite do cabo (ou da empunhadura, onde os dentes estão fixados). Com jeito, torcer para direita e esquerda e ir puxando. A rolha costuma sair.
Outra maneira é utilizar o saca-rolhas de injeção de gás: com uma agulha através da rolha injeta-se gás inerte na garrafa, resultando na expulsão da tampa. Uma versão mais comum é uma “bombinha” que, também através de agulha, injeta ar que acaba fazendo sair a rolha (e às vezes explodindo a garrafa).
Contudo, talvez nada disso dê certo. Então, relaxe. Tente tirar com o saca-rolhas comum. O que de cortiça se desfizer dentro da garrafa pode ser retirado com um filtro de papel (aquele utilizado para coar café) ou uma gaze de musselina. Nesse caso, não esqueça do decantador.
Pergunta: Leitora quer remover rótulos de vinho para utilizá-los como referência. Já tentou com água quente e fria, sem bons resultados. Existem produtos específicos para essa tarefa?
Resposta: O caso é que alguns rótulos são colados (cola comum) e outros adesivados (cola industrial, mais potente). Os colados são mais fáceis de retirar, pelo menos para mim. Coloco a garrafa em água morna por 20-30 minutos e, pronto, o rótulo se solta.
Os adesivados são bem mais difíceis. Precisamos de alguma coisa que derreta o adesivo. Tento com o secador de cabelo, coloco a garrafa no forno do fogão (numa temperatura bem baixa) por uns 10 minutos e depois uso uma lâmina (uma gilete) e experimento com muita calma a retirada do rótulo.
O segredo principal é tentar tudo isso primeiramente no contra-rótulo. Se funcionar nele, funciona no principal. O único problema é se a leitora resolver colecioná-lo também.
Pergunta: O que significa VDQS?
Resposta: “Vin Delimite de Qualité Superieure” (mais ou menos “Vinho Delimitado de Qualidade Superior”) é uma designação exclusivamente francesa relativa à qualidade dos vinhos entre “Vin de Pays” e “Appellation Contrôlée”. A categoria VDQS responde por menos de 1% da produção de vinhos na França e serve mais como um campo de testes para pequenas regiões viníferas, muitas das quais poderão ganhar, mais tarde, o status de Appellation Contrôlée. “Vin de Pays” é o vinho regional, uma categoria criada para encorajar a produção de vinhos que sejam superiores em qualidade ao “Vin de Table” (vinho de mesa), o mais básico nível de vinhos no país (apenas 12% da produção nacional). Continuando na mesma letra, temos também o VDN, abreviação de “Vin Doux Naturel”, um vinho que, como diz o nome, seria doce pela própria natureza. Só que, interessante, eles são adocicados artificialmente. Isto é: o açúcar contido na uva, que viraria álcool pela ação dos levedos, tem a sua transformação interrompida pela introdução de alguma aguardente. O fermento morre e sobra vinho com muito açúcar.
Pergunta: Leitora quer saber se o crítico Robert Parker Jr. é mesmo a pessoa mais influente no mundo dos vinhos atualmente.
Resposta: Poderia citar uns 50 nomes que hoje possuem influência direta sobre o estilo de vinhos que consumimos. Eles são ora vinhateiros, produtores, escritores, críticos, comerciantes ou empresários. O que temos de considerar é a palavra “direta”. Por exemplo, temos o empresário Georg Riedel, criador das famosas (e caríssimas) taças Riedel, que revolucionaram a qualidade dos copos onde os vinhos são servidos. Pois o famoso Riedel tem grande influência apenas na maneira através da qual o vinho é apresentado. Mas nenhum controle sobre o estilo dos vinhos.
Quanto a Robert Parker: não se pode negar que ele continua a ter enorme influência nos paladares dos consumidores, em particular dos norte-americanos e na maneira com que alguns vinhos são feitos ao redor do mundo, principalmente os Cabernet Sauvignon e os clássicos blends de Bordeaux. Advogado, transformou sua paixão pelo vinho em ganha-pão ao lançar em 1978 a sua newsletter (“Wine Advocate”) com avaliações de vinhos. Ele criou uma escala de 100 pontos para pontuar os vinhos, um sistema digamos simplístico que caiu no gosto dos norte-americanos. Uma nota 90 ou acima é sinal de status e venda certa para o vinho – o que leva produtores a serem acusados de adaptar seus estilos para agradar ao paladar de Parker. Ninguém pode negar o poder da influência desse norte-americano. Mas ela vem preocupando muitos produtores, que agora se distanciam de Parker. Sua influência vem lentamente diminuindo.
Mas para mim a mais importante pessoa a moldar do mundo dos vinhos hoje é você, sou eu, somos nós os consumidores.

19.10.06

Château Picard 2267

Sim, duas garrafas de um vinho da safra do ano 2267 foram vendidas por US$ 6.600,00 (R$ 14 mil). Mais caras do que o Château Petrus 2005 (US$ 3.300,00 a garrafa), considerado o vinho mais caro do mundo atualmente. Um absurdo de caras principalmente considerando que as garrafas do Picard 2267 estavam vazias. Sim, compraram apenas as garrafas. Mas como isso é possível? É que no mundo da ficção, amiga, tudo é possível. E, como veremos mais adiante, no mundo dos vinhos também.
Essas duas garrafas do século 22 pertenciam ao Capitão Jean-Luc Picard (na vida real, o ator Patrick Stewart), comandante da nave estelar Enterprise, da célebre série “Jornada das Estrelas”.
Elas aparecem como parte do cenário de uma seqüência festiva do 10º longa metragem da série, Nêmesis, filme de 2002. E conseguiram recentemente essa alta cotação num leilão da Christie’s de Manhattan, Nova York.
Só sei disso porque meu sobrinho, o Guilherme, é mestre em ficção científica. Sabe tudo sobre a “Jornada nas Estrelas”. Ele me revelou que o Capitão Picard nasceu e foi criado no vinhedo da família, em Labarre, França. Seu pai é um excelente vinicultor e cuida dos vinhos com seu filho mais velho, Robert. Labarre é um lugar naturalmente ficcional, embora exista um bocado de La Barre: nos departamentos de Jura, de Haute-Saône, na Vendéia (La Barre-de-Monts) etc.
Essas garrafas faziam parte do leilão 40 Anos de Star Trek: a Coleção, realizado de 5 a 7 de outubro passado para celebrar o quadragésimo aniversário da série. O leiloeiro reuniu mais de mil lotes com material da série na televisão e no cinema, com figurinos, objetos de cena (como as garrafas do Château Picard), cenários, modelos das várias Enterprises e das naves alienígenas e das estações espaciais. O destaque no leilão foi a cadeira do primeiro comandante da nave estelar, o Capitão James Kirk, estimada entre 8 e 12 mil dólares.
Mas, diacho, porque estou falando de garrafas vazias de vinho do século 22? Existe um mercado para elas, colecionadores vidrados pela “Jornada das Estrelas” e devidamente enricados que as compram. Com essas garrafas, objetos de cena etc. embarcam num mundo imaginário. Nada de mais nisso. Se gostassem de vinhos, as garrafas deveriam de estar cheias, penso eu.
Essa nota poderia servir apenas como uma curiosidade. Mas ela também funciona como uma lembrança que infelizmente nada tem de ficcional. Um símbolo que se origina do filme onde elas aparecem: Nêmesis.
Nêmesis é a deusa grega da ética, da retribuição, da justiça distributiva, que lutava contra, por exemplo, o excesso de riqueza ou de felicidade de uns e a extrema pobreza e o infortúnio de outros. Estaria desempregada no Brasil.
Pois no filme, a história é principalmente a das terríveis conseqüências que teria a trama de substituir o Capitão Picard, o nosso “mocinho”, por um clone. Claro que o “bandido” é o clone, cujo objetivo era o de levar à Terra uma forma de irradiação capaz de eliminar toda a vida em nosso planeta, me conta o Guilherme.
Onde entra a Nêmesis? Temos um Capitão Picard bom, que vive para salvar a Terra e planetas dessa e de outras galáxias. E tempos um clone seu: um Picard mau, capaz de nos destruir. A justiça distributiva, que impede excessos, equilibra tudo, funcionou: o Picard mau é destruído à muito custo.
Pois temos também clones no mundo dos vinhos. São as uvas e fermentos geneticamente modificados. É sempre bom sabermos o que estamos comendo e, no caso, bebendo. Um simples suco à base de soja, por exemplo, pode conter um elemento estranho, algo que não foi devidamente pesquisado e que ninguém pode afirmar que vai se entender adequadamente com o nosso organismo. O pequeno momento de prazer proporcionado pelo suco pode muito bem roubar anos de nossa saúde.
O próprio Picard, o verdadeiro, era criticado pelo seu irmão vinhateiro, Robert, por beber synthehol, nome genérico lá naquelas alturas para bebidas alcoólicas artificiais, cujos efeitos intoxicantes eram todos ilusórios e não químicos (isso no vasto repertório do mundo criado pela série). Segundo seu irmão, Picard teria perdido o seu paladar pela “coisa verdadeira”, o vinho, pelo fato de beber synthehol, a ilusão.
Você deve ainda lembrar o bafafá que deu (e vai continuar a dar) essa história do governo aprovar o plantio de soja transgênica. Como é assunto que resulta na qualidade do que colocamos na mesa para comer e beber, que mexe com nosso prazer e saúde, achei que as amigas deveriam se interessar.
Frankstein. Esse você conhece: é aquela criatura, feita de partes de outros humanos, e que, ao final, se volta contra seu criador.
Parece um grão como qualquer outro. Mas inseriram nele um ou mais elementos que o transformam numa outra coisa, num transgênico – um alimento geneticamente modificado, resultado da transferência de um gene de um organismo para outro. Aqui também se opõem dois lados.
Cientistas descobriram como alterar diretamente os genes (unidades hereditárias ou genéticas situadas nos cromossomos e que determinam as características de um indivíduo ou de um alimento), permitindo que adquiram vantagens possuídas por outras espécies de plantas, animais ou humanos. Por exemplo, uma variedade de milho geneticamente modificada pode conter o gene tirado de uma bactéria que produz um tóxico químico que combate lagartas, larvas, dando ao grão uma defesa contra insetos nocivos. Essa tecnologia pode também promover colheitas mais volumosas que não necessitem de muitos pesticidas. Ou, ainda, conseguir plantas que se desenvolvam melhor sob condições difíceis, como as secas.
A oposição acha, porém, que a engenharia genética é uma tecnologia radical, que ultrapassa as barreiras genéticas entre humanos, animais e plantas. Ao combinar genes de espécies diferentes e não relacionadas entre si, comprometendo os códigos genéticos, criam-se novos organismos que passarão suas alterações adiante, através da hereditariedade. Os cientistas hoje estão retalhando, inserindo, recombinando, rearranjando, editando e programando material genético. Os genes de animais e mesmo humanos estão sendo inseridos em plantas ou animais, criando formas transgênicas nunca imaginadas. Pela primeira vez na história os seres humanos estão se tornando os arquitetos da vida. Engenheiros biológicos criarão dezenas de milhares de novos organismos nos próximos anos. Assim, a engenharia genética causa preocupação de ordem ética e social sem precedentes, fora desafios sérios para o meio ambiente, a saúde humana e animal e para o futuro da agricultura.
Onde está a Nêmesis?
Sempre cismamos com a tentativa de alterarem geneticamente as uvas. Mas será que o vinho feito de uvas geneticamente modificadas terá o mesmo sabor, o mesmo valor? Será que os alimentos em geral serão mais seguros? Os consumidores têm o direito e o dever de ter dúvidas e de saber mais. Na Inglaterra uma pesquisa consultou 37 mil pessoas. E 93% delas acharam que a tecnologia genética é movida por lucro e não pelo interesse público. Para eles, só produtores agrícolas (e seus fornecedores, os laboratórios) é que lucrariam com essa prática. Nós, consumidores, ficaríamos com os prejuízos.
Na Europa, Austrália e Nova Zelândia há séria oposição ao uso de uvas e fermentos (para uvas) geneticamente modificados. Mas nos Estados Unidos, o americano já consome soja e milho transgênicos. E recentemente colocaram no mercado um fermento (o ML01) que pode ser utilizado legalmente nas uvas (e, portanto, na produção de vinhos).
Ou seja, daqui um pouco vamos ter um clone do Capitão Picard em forma de uva e, naturalmente, sem que nada nos seja informado nos oferecerão um vinho dessa variedade mutante. Será uma Cabernet Franc ou Francstein? Será que passaremos algo parecido com o synthehol consumido na Enterprise?
Viu, amiga, como o mundo é pequeno e redondo, por mais distantes que sejam as galáxias? Começamos com um vinho do século 22, que não existe, mas que consegue aqui e agora um preço estratosférico.
Continuamos com a luta do Capitão Picard contra o seu clone. E já que falávamos de vinhos e seres falsos, aproveitamos o embalo (ou o empuxo, em se tratando de naves interestelares), para relembrar um perigo que ronda aqueles que, como nós e o irmão de Picard, o verdadeiro vinhateiro, insistimos em beber a “coisa verdadeira”.
Para dúvidas sobre bebidas e viagens especais clique para a Soninha Melier (e o Guilherme) via soniamelier@terra.com.br

16.10.06

Hermitager

Volto a uma história, já contada aqui, apenas para cumprir o prometido na coluna passada, completando a série de “casos” envolvendo a uva Syrah. É com essa uva que são feitos os tintos mais famosos da mais famosa “appellation contrôlée” do norte do Ródano, o Hermitage.
Um dos contos de Cross Channel (“Através do Canal” – não sei se já saiu uma edição brasileira desse livro) do premiadíssimo inglês Julian Barnes (“O Papagaio de Flaubert”, “Metroland”, o recente “Um toque de limão”, entre outros) é sobre duas solteironas inglesas que sem querer se envolvem com a Syrah. Compram uma propriedade no Médoc, em Bordeaux, para lá passar o resto dos seus dias admirando a beleza da paisagem ao longo do rio Gironde, com suas imponentes e históricas propriedades, como Latour e Margaux.
Mas recuperar as videiras e voltar a produzir um bom vinho seria outra e importante atividade da dupla. Resolvem estudar a matéria a fundo e começam a conhecer a realidade da cultura local. Na época, início do século XX, Bordeaux sofria com os desastrosos impactos da phylloxera, a praga que devastou quase todos os vinhedos não só da França, mas em quase toda a Europa. A recuperação foi muito difícil. Safras boas e vinhos bons eram acontecimentos improváveis. Como saída, uma parcela de vinicultores bordaleses e principalmente os comerciantes, importadores e engarrafadores adotaram como prática misturar ao vinho bordalês o Hermitage – um vinho potentíssimo, encorpadíssimo, de vida longuíssima. O hábito gerou até o verbo hermitager, um sinônimo de fraude. Na época, os vinhos eram vendidos em barris e só engarrafados depois de devidamente batizados com a Syrah do Ródano. As inglesas recusam-se ao embuste e conseguem com muito trabalho e seriedade produzir vinho legítimo, com o sabor da sua terra. honrando a sua geografia.
Mas o embuste acabou? Se antes era hermitager hoje temos o parkerizar, onde os vinhos, utilizando-se de técnicas e manipulações as mais variadas, é levado a ter mais taninos, mais álcool, cor mais profunda, mais sabores de frutas, mais corpo. Tudo isso para cair no gosto do maior crítico de vinhos do mundo, Robert Parker Jr. E, assim, ganhar as notas mais altas, ter o preço elevado e vender mais.
Não que Parker compactue com essa prática. Mas os produtores sabem de seus gostos e da influência de suas notas. Logo, “parkerizam” seus vinhos. É o “hermitager” contemporâneo.
O nome Hermitage (“Ermida”), título do conto de Barnes, já mostra o gato com rabo de fora. Ermida em francês é “ermitage”, sem o H. O nome do vinho ganhou essa marca inglesa desde o século XVII: um rastro dos que praticavam o “hermitager”. Hoje, “parkerizar” é prática do mundo globalizado. Existe em qualquer hemisfério com o vinho perdendo os valores conferidos por sua terra, o que foi evitado pelas solteironas do conto de Barnes.

2.10.06

Como você escolhe um vinho?

Decidir sobre a compra de um vinho não é nada simples. Numa loja, você fica diante de uma quantidade e variedade imensa de garrafas, centenas de rótulos, uvas, cores, estilos, safras, regiões e preços bem diferentes.
O preço pode limitar a sua escolha. Mas hoje as ofertas são inúmeras para qualquer nível de preço. Você, então, apela para o quê? Regiões, estilos, um rótulo um pouco mais ousado, a dica do vendedor?Afinal, o que nos leva a comprar um vinho do qual nunca ouvimos falar? Um blogueiro americano, Tom Wark fez essa mesma pergunta aos seus leitores, através de uma pesquisa online. Eis as respostas.
Para 33% deles, o produtor do vinho (a vinícola ou o vinhateiro) é o mais importante. Para 31%, é a uva, a varietal, o que vale mais. A região vem em terceiro lugar, com 18%, e o preço logo em seguida, com 17%. Curiosamente, o rótulo só é importante para 1% dos leitores. Contudo, rótulos com animais, por exemplo, vendem como água nos EUA. Esse resultado talvez possa ser atribuído ao nível de informação dos leitores do blog.
Quanto ao preço: para um vinho de até 15 dólares (R$ 32,00), 42% disseram que a uva é o que conta. Mas a partir daí tudo muda. Para os vinhos entre 15 e 30 dólares, 52% escolhem pelo produtor. Acima de US$ 30,00, 71% também confirmaram o produtor como primordial. Nos EUA (ou pelo menos para os leitores do blog) nota-se a influência do produtor e, portanto, do poder de uma marca.
Intrigado com a pobre colocação do item região, o blogueiro insistiu e fez uma pergunta extra: “Você está disposto a pagar mais por vinhos simplesmente porque eles são de uma região em particular?” E 67% disseram que sim e 33% que não. Os primeiros declararam-se como tendo um conhecimento mais profundo sobre a bebida.
Nesses tempos de globalização, de grandes conglomerados, o mundo dos vinhos também sofre o impacto da produção de massa, de marcas cuja origem passa a não ter importância.
Porém, o que interesse mesmo no vinho é a sua diversidade, onde a região, o seu solo de origem é primordial. É o tal do “terroir”.
Por séculos, a cultura global do vinho foi feita em torno de sua identidade geográfica, onde nasceu, cresceu e foi feito. Talvez porque a consciência de lugar ainda seja o processo mais básico e natural do aprendizado humano. Saber onde estamos é fundamental para a nossa segurança psicológica. Mas a aventura de conhecer novas plagas também é fundamental.
“Uma vez que tenhamos provado e conhecido 20 ou 30 varietais (quase 100% dos vinhos no mercado), o passo seguinte na escala educacional é a região”, afirma Roger Dial, editor da Appellation America, importante site sobre vitivinicultura nos EUA. “É impossível conhecer todos os produtores de vinhos com uva Merlot. O mais fácil é começar a distinguir entre Merlots de Bordeaux, da Itália, do Chile etc.”
Confere com a minha experiência pessoal. Numa loja de vinhos que tive em Petrópolis, RJ, cerca de um terço dos clientes (os mais “sabidos”) comprava vinhos pela região, outro terço pelo preço e os demais humildemente pediam nossa opinião. Eu os adorava.
Acho que há muitas maneiras para resolver essa questão. Para começar, a mais simples (e quase sempre eficiente) é começar a perguntar aos atendentes das lojas (de um supermercado até uma loja especializada, digamos, numa determinada região).
Você tem a impressão de que gosta de um determinado tipo de vinho (tinto, branco ou rosado etc.) e tem um limite de preço. Já é uma grande ajuda para o atendente - que com certeza lhe dará uma dezena de sugestões: uma delas será do seu gosto e do tamanho do seu bolso. Pronto, não foi difícil.
Outra dica é entrar para um clube ou uma confraria de vinhos. E lá você começará a aprender, aprender provando vinhos dos mais variados estilos – e descobrir quais os seus preferidos.
A Impexo, um importante importador e exportador de vinho, com sede no Rio e filial em São Paulo oferece um Clube do Vinho. Veja aqui.
Basta você se cadastrar para receber uma newlettter relacionada ao setor vinícola, com informações sobre degustações e promoções dos vinhos vendidos pela casa. A poderosa rede Pão de Açúcar tem as suas “Confrarias Pão de Açúcar”, que se propõem a “desvendar os mistérios da degustação de vinhos”. Você vai a qualquer filial da rede e se informa com o atendente da seção de vinhos como aderir a um desses grupos. Essa rede tem uma das maiores e melhores seções de vinhos do país, para esse tipo de loja. O que não é surpresa, pois a direção da casa entregou a parte de vinhos (das compras, à seleção e à promoção e educação) a um dos maiores especialistas em vinhos do Brasil, o crítico e historiador Carlos Cabral. Ele é um renomado especialista e historiador de vinhos (é autor da imperdível Presença do Vinho no Brasil) e fundador da mais antiga confraria de vinhos do país, a SBAV – Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, com sede em São Paulo (e hoje com filiais em vários estados).
Visite o site do Pão de Açúcar e saiba mais como inscrever-se nessas confrarias.
Existem sites na internet que se apresentam como clubes de vinho. É o exemplo do winept.com.
De qualquer modo, é mesmo difícil para qualquer um estabelecer a diferença, digamos, entre um vinho da uva Merlot de R$ 20,00 e outro de R$ 120,00, da mesma uva, do mesmo produtor e da mesma região. A primeira impressão é de que o mais caro é melhor.
Nem sempre, amiga. Existe uma fórmula fácil de aplicar: o custo de produção mais a quantidade quase sempre determinam o preço dos vinhos. Pagando muito por uma garrafa de vinho não significa que ele será bom. Pode apenas significar que o seu custo de produção foi alto – e, claro, quem vai cobrir esse custo é você. Considere também que esse custo não dita a qualidade do vinho.
É por isso que muitas vezes as pequenas vinícolas oferecem ótimos vinhos por preços bem mais convidativos.
Então, leitora, não se impressione com os preços e não pare de considerar a incrível variedade dos vinhos. Experimente o máximo que puder – de preferência aprendendo o que cada região tem a oferecer. E, sempre que possível, pergunte.
Hoje, a oferta de informações sobre vinhos na mídia é mil vezes maior do que nos tempos em que eu tinha a loja. Você tem todas as chances de fazer uma compra muito mais bem informada.

26.9.06

Happy hour e outras horas

Amigas, não recusem o tradicional happy hour das sextas-feiras. Façam como muita gente em todo o mundo e saiam com suas amigas (e amigos) para o bar de sua preferência.
Pois vocês sabiam que esse happy hour faz aumentar salários? Em resumo, o salário da turma que sai com colegas de trabalho para beber é maior do que o dos abstêmios ou daqueles que optam por não sair.Não, não se trata de um “achômetro”, mas de pesquisa séria realizada por uma ONG americana, a Reason Foundation, com base em Los Angeles, Califórnia.
Uma organização considerada pelo Prêmio Nobel de Economia Milton Friedman, um padrão de tolerância, civilidade e consistência na defesa das liberdades individuais.
A Reason patrocinou recentemente uma pesquisa realizada pela PhD e economista, Bethany Peters, e pelo professor de economia, Edward Stringham, também PhD. Os dois pesquisaram dados que colocavam na berlinda teorias de que a bebida promove efeitos econômicos desastrosos. E verificaram que o hábito de beber (moderadamente) e salários estão correlacionados positivamente.
Os dois PhDs analisaram principalmente uma pesquisa realizada nacionalmente sobre (o “General Social Survey” - “Levantamento Social Geral” - realizado anualmente pela Universidade de Chicago e que tem, entre outros, o governo americano como cliente). E concluíram que os homens pessoas que bebem ganham até 19% mais do que as abstêmias. Entre as mulheres, as que bebem socialmente chegam a fazer 23% mais. Tentaram também diferenciar quem bebe socialmente dos que não bebem comparando os salários daqueles que freqüentam bares pelo menos uma vez por mês com os que não freqüentam.
Observa-se que tipicamente os bebedores tendem a ser mais sociáveis dos que os abstêmios. Um economista, Philip Cook explicou num estudo anterior que beber é uma atividade social e uma das razões pelas quais as pessoas bebem é a de tornarem-se mais sociáveis. Em outro estudo (como o de Olé-Jorgen Skog, “Interação Social e a Distribuição do Consumo de Álcool”, de 1980), demonstra-se que os bebedores moderados possuem as redes sociais mais fortes.
A conclusão dos dois economistas é a de que beber socialmente leva a um aumento do capital social. E capital social para os dois professores significa “as características sociais de uma pessoa, suas habilidades pessoais, seu carisma e em particular o tamanho do seu caderninho de endereços, o que vai permitir que ela colha frutos de sua interação com outras pessoas”. Se beber socialmente aumenta o capital social, logo pode também aumentar salários. Analisando o um “Levantamento da Qualidade do Emprego” o economista Philip Cook verificou acabavam ganhando sempre menos.
O “Levantamento Social Geral” responde a questões como a freqüência com a qual os respondentes vão a bares e restaurantes, seus padrões salariais, suas características demográficas e costumes quanto às bebidas alcoólicas.
Fica claro no estudo que os “moscas de botequim” estão em perigo. A turma dos 35 drinques por semana está mais para o desemprego do que outra coisa. Não se trata também de apenas sair para “ver e ser visto”. Mas para trocar informações com amigos, fazer novas amizades, buscar novas oportunidades. Tudo isso além de um copinho de cerveja. Não esqueçam dos cartões de vista e do caderninho de endereços: não saiam do trabalho sem eles.Veja todo o levantamento (inclusive notas e referências).
Papa Benedito: o novo sommelier. A Associação Italiana de Sommeliers concedeu ao Papa Benedito XVI o título honorário de sommelier. O que está criando uma saia (ou batina) justa para o Vaticano. A Santa Sé não confirmou a notícia, embora a Associação Italiana de Sommeliers tenha declarado que o Papa aceitara o título. Isso acontece num momento em que líderes muçulmanos estão protestando contra por uma suposta e desrespeitosa intromissão do papa nos credos maometanos.
Recentemente, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad recusou a comparecer a um jantar oferecido pelo Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, porque seria servido vinho, impensável para um muçulmano rigoroso. (Na verdade, o iraniano não queria mais conversas com Bush, com quem trombou por causa de armas nucleares. E olha que Busch, presente ao jantar, é outro abstêmio convicto).
Será que o Papa recebeu esse título por dizer que “era um humilde servo no vinhedo do Senhor”, no seu discurso inaugural? Ou porque compareceu a uma cerimônia de iniciação a sommeliers, quando recebeu um “Taste-Vin” de prata (uma pequena taça de metal utilizada para provar vinhos)?
A porta-voz do Vaticano, Irmã Maria Elizabeth declarou à revista inglesa Decanter que não existe um registro oficial da honraria e que, de qualquer modo, “isso não é realmente uma prioridade para o Papa”.
Vinho e religião. Como vimos, vinho e religião podem causar problemas, mesmo para aqueles afeitos ao vinho como um sacramento. O vinicultor Stephen Reustle, dono da “Prayer Rock Vineyard” (mais ou menos “Vinhedo da Pedra da Oração”), um cristão devoto, imprimiu um verso da Bíblia em cerca de 6000 rolhas e colocou em garrafas do seu Pinot Noir, Syrah e Riesling. Tirou a idéia de um outro vinhedo, que usa as rolhas com uma citação de Mahatma Gandhi.
A citação é do Eclesiastes: “Beba o seu vinho com o coração feliz, pois Deus o aprova”.
Mas nos Estados Unidos assuntos da igreja não se misturam com os de estado. E o nosso vinicultor foi oficialmente avisado pelas autoridades que deverá retirar a menção ao Velho Testamento (a alegação formal era a de que “não se pode criar uma informação enganosa a partir de chamadas curativas ou terapêuticas em embalagens ou criar associações duvidosas entre consumo de álcool e saúde...”). Reustle poderá no máximo vender as garrafas já arrolhadas e não repetir o feito nas próximas.
Em resumo, se as amigas não tiverem problemas com religião e bebidas, o negócio é aproveitar a próximo happy hour, sexta-feira. Vai fazer novos amigos e possivelmente aumentar seus salários.

Vinho, cerveja e babosa

Vinho X Cerveja. Sempre me perguntam porque prefiro vinho à cerveja. Vejam: eu bebo cerveja, gosto muito. Mas prefiro vinho. O assunto poderia terminar aqui. Mas como acham que sou a “expert” em bebidas me cobram as razões, uma postura racional, didática. Só levando no bom humor. Mas conheço um colega, Mark Fisher, que escreve o blog “Uncorked”, e oferece alguns bons motivos para justificar a minha preferência.
10 razões que tornam o vinho melhor que a cerveja:
1. A amiga já ouviu falar de uma “barriga de vinho”?
2. As taças de vinho pesam menos do que os canecos de cerveja.
3. Com o vinho, você arrotará menos (caso evite muita Champagne). Desculpem: poderia optar por “eructação”, que, para mim, equivale a dois arrotos lingüísticos.
4. Com vinho você vai bem menos ao toalete, concorda?
5. Ainda não vi nenhum filme onde a cerveja seja a estrela principal e ainda por cima é indicada para o Oscar (tal como aconteceu com Sideways, ano passado).
6. Vinho envelhece melhor (assim como aqueles que o bebem).
7. Jesus não transformou água em cerveja. Esse milagre hoje está a cargo das cervejeiras, que conseguem transformar cerveja em água num instante.
8. O vinho vai melhor com qualquer tipo de comida e não apenas com lingüiça, fritas e pastéis.
9. Nenhum homem vai ganhar pontos conosco se disser que sabe tudo de cervejas. Caso ele dissesse isso sobre vinhos, sua nota seria próxima de 10, certo?
10. E, para acabar com a argumentação: o vinho é simplesmente a bebida mais deliciosa, mais variada e mais complexa do planeta. É incrível como o suco fermentado de uma fruta apenas, a uva, pode nos oferecer estilos tão diferentes de líquido. Isso é apenas uma amostra do que a maior crítica de vinhos e degustadora do mundo, em minha opinião, Jancis Robison, pensa sobre a bebida.
Mas, cervejeiros, não percam por esperar. Nas próximas colunas vou apresentar as 10 principais razões pelas quais a cerveja é melhor do que o vinho.
A babosa e as uvas. As uvas também usam protetor solar, tá pensando o quê? Você pega um bronzeado hoje e enruga amanhã. As uvas também. Pensando assim, um produtor de Napa, Califórnia, que adota o método biodinâmico em seu vinhedo, aplica um “chá” em suas uvas de modo a prevenir que murchem sob o sol. Essa solução junta algas (para absorver raios ultravioletas) e “Aloe vera” (babosa) como um suavizante.
O vinicultor é Aaron Pott e a vinícola a Quintessa , de propriedade do casal Agustín e Valeria Huneeus. São 113,3 hectares em Rutherford onde produzem um blend de cabernet e merlot com o mesmo nome da vinícola, Quintessa. E que já recebeu extraordinários 94 pontos da revista Wine Enthusiast.
A vinícola não deixa de usar as formas tradicionais para abrandar o calor no verão: poda adequada das folhas e ramos das videiras e a rega da vinha com água fresca.
O composto de algas e babosa está relacionado com a biodinâmica, uma forma de agricultura onde é proibido o uso de pesticidas, herbicidas e fertilizantes artificiais e promove a diversidade no plantio e da vida animal para controlar pestes.
Os vinhos orgânicos já são uma realidade no mercado. Nossa ignorância dizia que a cultura do vinho, baseada na tradição de séculos, já seria intrinsecamente orgânica. Mas não. Com tantas pestes, o vinicultor é levado a utilizar elementos químicos e sintéticos. Solução que pode ser a final.
A agricultura orgânica preocupa-se com danos ao ecossistema. Suas técnicas foram popularizadas e nomeadas pelo fazendeiro e editor norte-americano J. I. Rodale em 1946, quando deu nome a esse novo sistema: Orgânico. Basicamente, os produtores de vinhos orgânicos evitam usar material químico e sintético no solo, nas vinhas e no produto acabado.
Mais antigo, o Sistema Biodinâmico parte de escritos do filósofo austríaco Rudolph Steiner, em 1924. É mais radical, principalmente no que é adicionado à terra, com preparados tirados da homeopatia para regular e melhorar o crescimento da vinha e a fertilidade do solo (e evitar ainda a erosão e proteger a quantidade e qualidade da água). Ainda lembramos que 60% de todos os herbicidas, 90% de todos os fungicidas e 30% de todos os inseticidas são cancerígenos segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.
No caso da Quintessa, a teoria é a de que se uma planta se mostra resistente a insetos ou à seca é sinal de que possui qualidades que promovem essa resistência. Daí fazer um “chá” dessa planta e rega-lo em outra transferindo essa qualidade. Assim como nós humanos somos encorajados a nos hidratarmos no verão, o mesmo é verdadeiro para as plantas.
No Brasil, o único vinho orgânico certificado é o Velho do Museu, da Juan Carrau. Lá no sul não precisam de protetores solares, por enquanto.

25.9.06

Happy hour: a hora do lucro

Sexta-feira é dia de muita gente em todo o mundo tomar umas e outras com colegas de trabalho no bar preferido, ao fim do expediente, no happy hour. O leitor sabia que esse happy hour faz aumentar salários? Em resumo, o salário da turma que sai com colegas de trabalho para beber é maior do que o dos abstêmios ou daqueles que optam por não sair.
Não, não se trata de um “achômetro”, mas de pesquisa séria realizada por uma ONG americana, a Reason Foundation, com base em Los Angeles, Califórnia. Uma organização considerada pelo Prêmio Nobel de Economia Milton Friedman um padrão de tolerância, civilidade e consistência na defesa das liberdades individuais.
A Reason patrocinou recentemente uma pesquisa realizada pela PhD e economista, Bethany Peters, e pelo professor de economia, Edward Stringham, também PhD. Os dois pesquisaram dados que colocavam na berlinda teorias de que a bebida promove efeitos econômicos desastrosos. E verificaram que o hábito de beber (moderadamente) e salários estão correlacionados positivamente.
Os dois PhDs analisaram principalmente uma pesquisa realizada nacionalmente sobre (o “General Social Survey” - “Levantamento Social Geral” - realizado anualmente pela Universidade de Chicago e que tem, entre outros, o governo americano como cliente). E concluíram que os homens pessoas que bebem ganham até 19% mais do que as abstêmias. Entre as mulheres, as que bebem socialmente chegam a fazer 23% mais. Tentaram também diferenciar quem bebe socialmente dos que não bebem comparando os salários daqueles que freqüentam bares pelo menos uma vez por mês com os que não freqüentam.
A conclusão dos dois economistas é a de que beber socialmente leva a um aumento do capital social. E capital social para os dois professores significa “as características sociais de uma pessoa, suas habilidades pessoais, seu carisma e em particular o tamanho do seu caderninho de endereços, o que vai permitir que ela colha frutos de sua interação com outras pessoas”. Se beber socialmente aumenta o capital social, logo pode também aumentar salários. Analisando o um “Levantamento da Qualidade do Emprego” o economista Philip Cook verificou acabavam ganhando sempre menos.
Fica claro no estudo que os “moscas de botequim” estão em perigo. A turma dos 35 drinques por semana está mais para o desemprego do que outra coisa. Não se trata também de apenas sair para “ver e ser visto”. Mas para trocar informações com amigos, fazer novas amizades, buscar novas oportunidades. Tudo isso além de um copinho de cerveja.Veja todo o levantamento

18.9.06

Confrarias - Para a amiga do ABC

A Mariana Maziero estuda jornalismo numa universidade do ABC paulista e com mais dois amigos, está escrevendo matéria sobre vinhos. Um dos tópicos é sobre a mulher nesse pedaço. Mas o que ela quer mesmo saber é sobre as confrarias de vinhos: o que é discutido nesses clubes, como participar, como e quando são realizados os encontros, que cursos são ministrados, que tipo de vinho é mais consumido pelo sexo feminino, ou até mesmo o tipo de vinho indicado ao nosso sexo, como a mulher é vista nesse cenário? Ufa! E as perguntas não acabam aqui. Vamos lá.
Uma confraria pode ser definida como um grupo de pessoas que se reúne periodicamente para provar e debater sobre vinhos, sobre o assunto que mais lhe interessa, motivo desses encontros. Isso acontece desde os tempos de escola, de modo impositivo, quando éramos chamados para “grupos” de estudo, seminários disso e daquilo.
O que é discutido nesse grupo (ou confraria)? Ora, nas palavras de uma das maiores degustadoras e críticas de vinho do mundo, a inglesa Jancis Robinson, “vinho é simplesmente a bebida mais deliciosa, variada e mais complexa do planeta”.
- Para mim é incrível que o suco fermentado de uma única fruta, a uva, pode oferecer tantos e tão diferentes estilos em forma líquida. De cor quase branca, leve ao rico púrpura quase preto, macio e encorpado. Vem parado ou é um espumante, pode ser seco, sequíssimo ou doce, dulcíssimo.
E tudo isso vem do trabalho do vinicultor e da natureza. A uva pode oferecer um vinho de menos de 8% de álcool, passando pela média de 13,5% até mais de 15%. E, mais, os melhores vinhos têm a habilidade de durar por décadas (às vezes, por séculos). E não apenas durar, mas de melhorar com o tempo. Essa é a marca que definitivamente o diferencia de qualquer outra bebida. Além de tudo isso, o vinho carrega com ele muita história, a própria história da humanidade. E geografia para ele é crucial. Ele pode ser produzido por uma grande indústria ou por apenas uma pessoa, artesanalmente.
Poderíamos continuar e continuar. E tudo acima (e muito mais) é debatido, discutido, assim como num grupo de pessoas interessadas por futebol, culinária ou pôquer – as perguntas e o interesse são intermináveis. Como os tintos fermentam? E os brancos? Como conseguem suas cores, seus aromas, sabores? Como prova-los corretamente? Com que comidas eles podem combinar? Quais as temperaturas certas para servir essa bebida? As perguntas nunca acabam.
Qualquer pessoa pode ingressar numa confraria – basta ter o mesmo interesse por vinho, sem que necessite ser especializado ou um sommelier.
Agora, é bom diferenciar uma confraria, tal como a apresentei acima de um clube de vinho – que é uma entidade que cobra uma taxa periódica para que você receba determinados vinhos em casa. Ou para que você participe de reuniões de degustações assistidas por uma pessoa especializada. Ou mesmo para que você participe de cursos sobre vinhos.
No final, uma confraria acaba promovendo essas degustações e cursos, na medida em que o grupo aumenta. Acaba também sugerindo uma taxa para a compra de vinhos e até o aluguel de um espaço onde a turma possa se reunir.
Para que se tenha uma idéia da força que uma confraria ou um clube pode ter: um levantamento feito em 2004 pela vinícolas da Califórnia (o maior estado produtor de vinhos dos EUA) revela que 24% das vendas diretas de vinhos foram feitas para clubes (ou confrarias). É uma senhora fatia de mercado. Acho que nenhuma marca de vinho tem, sozinha, essa participação em vendas, em qualquer parte do mundo.
Criar confrarias e clubes são idéias que vêm sendo utilizadas com sucesso pelas vinícolas e comerciantes de vinho. A Impexo, um importante importador e exportador de vinho, com sede no Rio e filial em São Paulo (Rua Coronel José Eusébio, 95, Travessa Dona Paula), oferece um Clube do Vinho. Veja aqui.
Basta você se cadastrar para receber uma newlettter relacionada ao setor vinícola, com informações sobre degustações e promoções dos vinhos vendidos pela casa.
A poderosa rede Pão de Açúcar tem não as suas “Confrarias Pão de Açúcar”, que se propõem a “desvendar os mistérios da degustação de vinhos”. Você vai a qualquer filial da rede e se informa com o atendente da seção de vinhos como aderir a um desses grupos. O Pão de Açúcar tem uma das maiores e melhores seções de vinhos do país, para esse tipo de loja. O que não é surpresa, pois a direção da casa entregou a parte de vinhos (das compras, à seleção e à promoção e educação) a um dos maiores especialistas em vinhos do Brasil, o crítico e historiador Carlos Cabral. Ele é um renomado especialista e historiador de vinhos (é autor da imperdível “Presença do Vinho no Brasil”) e fundador da mais antiga confraria de vinhos do país, a SBAV – Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, com sede em São Paulo (e hoje com filiais em vários estados).
Visite o site do Pão de Açúcar e saiba mais como inscrever-se nessas confrarias.
Existem sites na internet que se apresentam como clubes de vinho. É o exemplo do winept.com.
Aí mesmo em SP, temo um clube do vinho do Tatuapé. É o Vinus Club.
E veja também no site da Academia de Vinho uma das mais completas lista de associações, sociedades e confrarias enológicas.
Tenho certeza que cada um dos endereços que estão lá serão ótima referência para o trabalho que você estão fazendo. Vale, porém, prestar atenção nas confrarias que estão sendo criadas por mulheres e para mulheres. É o caso da Confraria Amigas do Vinho, criada no Rio de Janeiro e já com filiais em SP, Paraná, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. As Amigas do Vinho são filiadas à International Associated Women in Wine e à FEBAVE – Federação Brasileira de Confrarias e Associações Femininas do Vinho e do Espumante. Não deixe de visitar as Amigas do Vinho.
Qual o tipo de vinho mais consumido pelo sexo feminino? Não existe isso de “vinho para mulheres” e “vinho para homens”. É uma falácia do sexo masculino tentando mais uma vez submeter-nos. Vocês já devem saber que as mulheres possuem propriedades degustativas mais apuradas do que a dos homens.
Uma das maiores redes de supermercado da Inglaterra, a Tesco, contrata grávidas para testarem seus vinhos - que oferece em grande quantidade, qualidade e a bons preços. A equipe que negocia e compra vinhos para essa rede é composta quase que exclusivamente por mulheres e suas seleções são sempre elogiadas.
Seria a divisão de vinhos da Tesco radicalmente feminista, um clube da Luluzinha, onde homens não entram? Não, o caso não é bem esse. Sob o prisma científico, os homens perdem para as mulheres quando o negócio é identificar e qualificar aromas e sabores em geral e dos vinhos em particular. Segundo estudo do Grupo de Pesquisa Multissensorial da Universidade de Oxford, Inglaterra, as mulheres são melhores na identificação de aromas e sabores.
Através de técnicas, como a da ressonância magnética, cientistas e médicos registram o que acontece no nosso cérebro quanto nos submetemos a ações, como a de cheirar, por exemplo. O fluxo do sangue mostra quais as áreas são acionadas e com qual intensidade.
Não só a Universidade de Oxford chegou a esse resultado. A da Pensilvânia, nos Estados Unidos, também: demonstrou que as mulheres usam o cérebro até oito vezes mais do que os homens quando cheiram alguma coisa. "Sua capacidade olfativa tem amplo limite de detecção e definição mais aguda e certeira".
Numa outra pesquisa, realizada pelo Centro de Sentidos Químicos da Filadélfia, demonstrou-se que as mulheres em idade reprodutiva têm sua sensibilidade olfativa aumentada. Explica o estudo que "a mulher, nessa fase, precisa encontrar o seu par; precisa identificar fontes de alimentos nutritivos e evitar elementos tóxicos". É a velha luta evolucionária pela sobrevivência.
A Dra. Linda Bartshulk, da Universidade de Yale, coloca as mulheres na categoria de superdegustadoras, onde apenas se situam 25% das pessoas para quem as sensações de aroma e sabor são mais intensas. "35% das mulheres são superdegustadoras; apenas 15% dos homens estão nessa categoria".
Um crítico de vinhos inglês, Peter Richards, resolveu fazer conferir ele mesmo essas pesquisas. Foi para uma loja de vinhos e testou 20 clientes ao acaso, entre homens e mulheres. Ofereceu uma série de três taças de vinhos: duas com um branco espanhol e uma com um chileno também branco, todas apresentando apenas sutis diferenças.
Uma em cada duas mulheres identificou os aromas, contra apenas um homem em cada seis. Richard recolheu o seu time. A identificação de aromas e sabores ainda é uma área profissional dominada pelos homens, no mundo dos vinhos. Sua competência vem da prática, do exercício de cheirar e degustar diariamente.
Outro fato: nos Estados Unidos, são as mulheres as maiores compradoras de vinho (compram 60% dos vinhos do mercado) e consomem tanto quanto os homens. Essa história de que vinho branco e rosado é só para mulheres é historia de machista.
O que acontece é que a indústria do vinho vem há séculos sendo um negócio de homens. E só recentemente as mulheres estão podendo colocar um pé nessa porta – seja como enólogas, jornalistas, comerciantes etc. Os preconceitos ainda existem. A nossa citada Jancis Robinson ficou furiosa quando recebeu da revista Decanter (também inglesa e uma das melhores publicações do ramo) o título de “Homem do Ano” (personalidade do ano no setor de vinhos).
O vinho deixou há algum tempo de ser um produto elitista. É hoje um produto de consumo geral. Hoje, os produtores estão abrindo mercados como o da China, aparentemente estranho a essa bebida. Mas que, como “novo rico”, está querendo (e podendo comprar) os gostos ocidentais.
O vinho já é um mercado consolidado no Brasil, apesar de nosso baixo consumo per capita (2% da população). Só que, como em qualquer outro segmento, tem gente que se aventura demais, sem estudar o produto e o mercado. E acontece o que aconteceu com a febre das locadoras há alguns anos.
Temos bons vinhos no sul, onde agora, na Campanha gaúcha, encontraram uma boa área para vinhos, em particular os tintos. Na serra gaúcha, os brancos se dão melhor. Agora, usando técnicas especiais, estão produzindo vinho no Vale do São Francisco, em Pernambuco – vinho esse que já está sendo exportado para a Europa.
O crescimento se deve ao interesse pela bebida – que cresceu muito (aqui e em todo o mundo) a partir dos anos 80, principalmente pelas notícias a respeito dos efeitos positivos do vinho (o tinto em particular) para a saúde.
O interesse vem de muito tempo: quando morava no exterior, trabalhei uma vinícola, como picadora (colheitadora) e no laboratório da vinícola. No Brasil, tive uma loja de vinhos em Itaipava, na serra de Petrópolis e um atacado da bebida na cidade do Rio de Janeiro. Ambos os negócios não deram certo, pois sou péssima comerciante. Mas como jornalista formada não foi difícil aceitar convites para escrever sobre essa bebida maravilhosa.
Sou jornalista especializada em vinhos há oito anos. Se considerar meu tempo engajada com vinho no exterior, mais os tempos de comerciante e de jornalista, tenho uns 16 anos no ramo.
Escrevo de minha casa, em Secretário, um pequeno distrito ao lado de Itaipava. A internet é a minha grande aliada. Sou vizinha de porta de todo o mundo. Escrevo para o segundo caderno da Tribuna da Imprensa, o Tribuna Bis. Minha coluna (Adega & Bar) sai todas as quintas-feiras.
Escrevo também para um portal feminino, o Bolsa de Mulher. A coluna (Sonia Melier) costuma sair a partir das sextas-feiras.
E tenho o meu blog, o Sonia Melier. Não deixe de visitá-lo: http://soniamelier.blogspot.com/
Mulheres que atuam na área: conheço apenas de nome (e de admiração). Temos a Luciana Froes na Veja. A Deise Novakoski, que é sommelier de restaurantes classe A no Rio e escreve na Revista semanal de O Globo. E tem a Alexandra Corvo Alexandra Corvo é formada Sommelière pela Ecole d'ingenieurs Oenologiques de Changins, na Suíça e dirige a empresa Ciclo das Vinhas, especializada em cursos de vinhos para amadores e profissionais. Ela está sempre na Vejinha e no seu próprio site, o Ciclo das Vinhas.
Se ficou faltando alguma coisa é só clicar aqui para a Soninha. Será um prazer atendê-la. E não deixe de visitar o meu blog.

O que você sabe sobre rolhas?

Quer dizer: sobre as rolhas de cortiça, as originais. Elas vão acabar e ser substituídas pelas sintéticas, ou pelas roscas metálicas, pelas rolhas técnicas (discos de cortiça e corpo de cortiça granulada) ou pelas "bag-in-box"?
Quem foi a primeira pessoa a utilizar uma rolha de cortiça numa garrafa de vinho? O que é “amadia”? Por quanto tempo uma boa rolha de cortiça pode proteger um vinho como um bom Bordeaux?
A APCOR (Associação Portuguesa da Cortiça), um consórcio de produtores de cortiça de Portugal, o maior produtor do mundo dessas tampas, projetou um curso online de modo a aumentar o conhecimento sobre as rolhas. É dirigido a profissionais, educadores e ao público em geral.
O caso é que a oxidação e principalmente a contaminação dos vinhos pelo TCA (2,4,6-trichloroanisole), um componente químico que infecta a rolha, deixando a bebida intragável pelo seu odor desagradável. Estima-se que, no total, a indústria vinícola perca até 7% de seus vinhos pela “doença da rolha”. É um senhor prejuízo e, daí, a busca por tampas alternativas.
A Nova Zelândia lidera a busca pela mudança, favorecendo as tampas de rosca, seguida pela Austrália e Estados Unidos. Mas se as mudanças são bem-vindas, a APCOR apresenta pesquisas para demonstrar que os consumidores amam a rolha natural (de cortiça pura), embora concorde que há ainda algum trabalho educativo a fazer sobre suas tampas.
Pesquisas, em particular uma realizada este ano nos Estados Unidos, demonstram que os consumidores preferem as rolhas de cortiça sobre todas as outras: nove consumidores entre 10 (94%) pensam que tampas que não as de cortiça “barateiam” os vinhos. Em 2005, a revista Wine Spectator mostrou que 81% dos questionados (via Internet) preferiam as de cortiça às de rosca de metal. Em 2004, uma importante empresa de consultoria especializada na indústria do vinho, a Wine Intelligence, realizou uma grande pesquisa sobre dois tipos de tampas: as de cortiça e as de metal (alumínio). Dois terços dos respondentes ficaram com as de cortiça, 52% rejeitaram as de metal. Assim, o melhor mesmo é saber mais sobre as rolhas de cortiça. Seguramente, elas são ecologicamente sustentáveis, o carvalho de onde deriva (o quercus suber), fértil na bacia do Mediterrâneo, jamais é derrubado e pode durar até 200 anos. Vale, portanto, fazer o teste no site “Real Cork”.
Você vai ficar sabendo que foi o lendário Dom Perignon o primeiro a usar uma rolha de cortiça numa garrafa - de Champagne. Que “amadia” é uma rolha de alta qualidade obtida apenas a partir da terceira colheita e que uma boa rolha pode proteger vinhos finos por até 25 anos. Não deixe de fazer o teste.

Gestação e Álcool

Beber durante a gravidez, mesmo com moderação, faz mal ao feto ou não? Um respeitado autor e crítico de vinhos, Daniel Rogov, cria polêmica com artigo que publicou num site também feminino como o Bolsa, exclusivo para mulheres que gostam de vinhos: o “Women Wine Critics Board”
O título do artigo já diz tudo: “Vinho e Gravidez – As mentiras que contam para as mulheres”. Rogov lembra que desde 1990 cada garrafa de vinho ou de destilado vendida nos Estados Unidos carrega uma advertência da autoridade máxima do país na área de saúde (o tal do “Surgeon General”) afirmando que “as mulheres não devem consumir bebidas alcoólicas durante a gestação em razão dos riscos de causar defeitos no feto”.
Diz o autor que, não bastando esse aviso, e aumentando a ansiedade em mulheres já preocupadas com sua própria saúde e a dos seus fetos, centenas de matérias na mídia devotam-se em convencê-las de que se beberem uma só gota de álcool durante a gravidez há uma chance de o bebê nascer deformado, viciado em álcool ou retardado.
Daniel Rogov aponta, contudo, que uma grande quantidade de pesquisas recentes e um reexame da questão de álcool na gravidez mostra que não há uma evidência conclusiva que demonstre danos aos fetos caso consumamos álcool moderadamente antes e durante a gravidez.
Segundo os médicos David Whiteen e Martin Lipp, da Universidade da Califórnia, em San Francisco, “a campanha contra beber-se durante a gravidez começou em 1973, quando vários estudos demonstram que o álcool consumido em demasia podia causar uma condição chamada de Síndrome Fetal do Álcool. Esses estudos mostraram que os filhos de muitas mães alcoólicas nasciam com um acúmulo de sérios defeitos”.
Mas esses mesmos médicos observam que “o que o governo convenientemente escolheu ignorar é que essa síndrome é extremamente rara, ocorrendo apenas em 3 bebês entre 100 mil nascimentos – e mesmo assim apenas quando a mãe abusava do álcool durante todo o período da gravidez”.
Lipp e Whiteen figuram entre o número crescente de médicos e pesquisadores que acham não haver razão de uma grávida preocupar-se ao beber apenas uma taça de vinho por dia. A revista Wine Spectator, inclusive, já publicou uma edição a respeito dessa controvérsia (31 de agosto de 1994) e seu editor na ocasião, Thomas Matthews, escreveu que “há inclusive novas pesquisas demonstrando que beber-se moderadamente durante a gravidez pode na verdade ajudar o desenvolvimento da criança após o nascimento”.
Nessa edição da WS, um artigo da famosa Jancis Robinson, Master of Wine, inglesa, autora e uma das maiores críticas e degustadoras de vinho do mundo – refere-se à posição subalterna que os homens sempre colocaram as mulheres, em particular durante a gravidez. “Os homens só vão parar de deitar regra sobre o comportamento das mulheres durante a gravidez no momento em que puderem ter filhos”, diz a inglesa.
“Estou convencida de que ninguém deve se sentir culpada em beber socialmente durante a gravidez”. A própria Jancis, mãe de três filhos, bebia uma taça de vinho diariamente nos seus tempos de grávida. Nas suas degustações apenas provava o vinho, sem ingerir qualquer quantidade de álcool, como manda o figurino. A crítica observa que ela e suas colegas profissionais do vinho devem ter verificado, como ela, que durante a gravidez suas habilidades gustativas melhoraram.
Voltemos ao artigo do Daniel Rogov. Ele não questiona do fato de que o consumo de grandes quantidades de álcool durante a gravidez pode prejudicar o feto. “Está provado, por exemplo, que filhos de mulheres que bebem mais de 3-4 taças de vinho diariamente seus bebês nascem com pesos e tamanhos menores do que as que bebem de uma a duas taças por dia. Além disso, tem-se como certo que ao tomar diariamente cinco ou mais taças de vinho (uma garrafa, praticamente) a gestante coloca o feto em perigo”.
Genevieve Knupfer, do Grupo de Pesquisa sobre o Álcool da Universidade de Berkeley, na Califórnia, observa que muito do que se fala deriva de estudos utilizando metodologia imprecisa. Em várias pesquisas, por exemplo, os pesquisadores definiram “bebedoras pesadas” como aquelas mulheres que consumiam mais de uma taça por dia.
Essa observação é confirmada pelo Dr. Michael Samuels, do New York City’s Doctor’s Hospital. “Muita informação foi distorcida com o objetivo de assustar as mulheres”. O médico revela que nascimentos com defeitos de qualquer natureza ocorrem em 3 a 5% dos bebês nascidos nos Estados Unidos. E somente de 1 a 2% tem relação com o álcool.
Com base nos números do Dr. Samuels e de outros pesquisadores, Daniel Rogov conclui que menos de 0,1% de todos os nascimentos defeituosos estão relacionados com o álcool e que mais de 90% das crianças afetadas são nascidas de mães com uma história de abuso de álcool.
O autor aponta ainda o fato de que nenhum estudo feito a partir de meados dos anos 80 conseguiu demonstrar a correlação direta entre consumo moderado de álcool e nascimentos problemáticos. Um desses estudos, englobando 33.300 mulheres da Califórnia, demonstrou que mesmo que 47% delas bebessem moderadamente durante a gravidez nenhum de seus bebês ficou dentro do perfil da “Síndrome Fetal do Álcool”. Os autores desse estudo concluíram que “o álcool em níveis moderados não é uma causa significante de má-formação em nossa sociedade e que é completamente injustificada a posição de que há perigo em beber-se moderadamente”.
Ao contrário. Alguns estudos até indicam que o beber moderado pode na verdade resultar em gestações de sucesso. É o caso de um estudo publicado em 1993 na “American Journal of Epidemiology”, por Ruth Little e Clarence Weinberg. As duas concluíram, por exemplo, que o número de perdas de fetos em razão de partos prematuros em mulheres que bebiam moderadamente era bem menor. E, mais: algum álcool pode até servir de proteção contra nascimentos prematuros.
O que é confirmado pela Dra. Martha Direnfeld, da Universidade de Haifa, Israel. Ela nota que, quando utilizado apropriadamente, o álcool é sabidamente uma ajuda para interromper contrações uterinas indesejadas e, assim, “salvar muitas gestações que poderiam ser espontaneamente abortadas”.
Nessa linha, o Dr. Robert Sokol, do Instituto Nacional de Abuso do Álcool, de Detroit, mostrou que são as bebedoras moderadas e não as abstêmias as que têm as melhores chances de ter um bebê com um peso ótimo. Em seu livro “O Álcool e o Feto”, os médicos Henry Rosset e Lynn Wiener fornecem dados demonstrando que filhos de bebedoras moderadas têm conseguido as notas mais altas nos testes de desenvolvimento (na faixa de 18 meses de idade).
Apesar de todas essas descobertas, o governo norte-americano, a Associação Médica Americana, a Associação Médica Britânica e a grande maioria dos médicos americanos e ingleses continuam a recomenda a completa abstenção do vinho, cerveja e destilados durante a gravidez. “É que esse é um debate tão emocional, ideológico e político quanto médico”.
A jornalista Katha Pollit, do The Nation, observa que “todas essas advertências permitem que o governo apareça como preocupado com nossos bebês – sem que tenha que gastar dinheiro ou mudar suas prioridades ou desafiar interesses velados”.
Voltamos ao editor do Wine Spectator, Thomas Matthews. “É importante perguntar: é arriscado se comparado a quê?” Num livro recente, “Os mitos da maternidade”, Shary Turner, sua autora, indica que o álcool é o único fator de risco lembrado às grávidas. “E a cafeína, o chocolate, as drogas para resfriados, o esmalte para unhas, as ostras cruas, as loções bronzeadoras? Tudo isso pode fazer mal ao feto”.
Não há 100% de certeza sobre a matéria e muitos continuam a insistir que a abstinência total é o melhor remédio. Outros, porém, acham ilógica essa atitude e concluem que os riscos e benefícios associados com o consumo moderado de vinho comparam-se favoravelmente à maioria das outras atividades do nosso dia-a-dia.
“Uma ou duas taças de vinho por dia podem ser parte de um estilo de vida saudável para a maioria das pessoas, inclusive para as grávidas”, afirmarm os médicos Whiteen e Lipp. Os ginecologistas e pesquisadores israelenses, Howard Carp e Martha Direnfeld também acham que as mulheres que já bebiam moderadamente antes da gravidez “não estarão colocando seus fetos em risco se continuarem da mesma maneira durante a gestação”.Daniel Rogov, cujo artigo é base dessa coluna, é o crítico de vinho e gastronomia do HaAretz, importante jornal israelense. É autor do Guia Rogov de Vinhos de Israel e um contribuinte regular do Wine Report de Tom Stevenson e do Guia de Vinhos de Bolso de Hugh Johnson, o famoso crítico inglês. Visite o seu site na Internet.
Claro que mais adiante publicarei algumas das contestações ao artigo de Rogov. Mas deixo aqui a minha posição. Fico com a sugestão de Jancis Robinson no artigo da Wine Spectator que citamos acima: “Deixem as mulheres decidir sobre vinho e gravidez”.
Muitas vezes é o excesso de trabalho que vai prejudicar a gestação e não uma tacinha de vinho.E você, leitora, qual a sua posição? Não deixe de dar a sua opinião aqui para a Soninha (no soniamelier@terra.com.br).

9.8.06

Brasileiros daqui e de lá

Os daqui. Primeiro vamos aos daqui, aliás, das daqui, pois falamos do que anda aprontando a Federação Brasileira de Confrarias e Associações Femininas do Vinho e do Espumante, a FEBAVE, que vai realizar em Caixas do Sul, RS, o seu primeiro encontro, nos dias 7 e 8 de outubro, no Samuara Hotel, em Caxias do Sul, RS. A entidade é constituída por integrantes das confrarias do Champanhe da Serra Gaúcha, da L'Arte Del Vino, Confraria Fina Flor do Vinho, do Champanhe de Florianópolis, do Vinho e do Champanhe de Novo Hamburgo, Feminina do Espumante e do Vinho do Vale dos Sinos e da Associação das Mulheres Amigas do Vinho da Serra Gaúcha.
Toda essa mulherada seriamente apreciadora de vinho vai realizar palestras, almoços harmonizados, degustações, selecionar e premiar a Dama do Vinho e do Espumante, entre outras atividades. Elas buscam motivar a presença feminina para aprimorar seus conhecimentos vinícolas, confraternizar com as demais confrarias e associações de vinho e espumante e, de resto, atrair apreciadoras (e apreciadores) da bebida. As inscrições já estão abertas. Basta falar com a Karen Giacomello Panizzon via karengpanizzon@terra.com.br ou pelos telefones: (54) 3292-2206 ou (54) 9978- 8677.
Nas próximas colunas estaremos fornecendo detalhes (palestrantes e temas a serem debatidos, vinhos a serem degustados etc.). De jeito algum perderia esse evento.
Brasileiros de lá. Você pode comprar vinhos brasileiros em Paris – pelo mesmo preço cobrado no Brasil! Eu não consigo entender, sou mesmo capenga em comércio (já tive uma loja de vinhos e dei com os burros n’água, justamente por esse motivo). Acho que o preço em reais, mais impostos, mais custos de transporte – tudo isso faria o vinho chegar lá pelo menos um pouco mais caro do que aqui. Mas não, o preço lá é parelho com o daqui. E olha que temos que considerar também o custo da loja, uma das “lojas de vinho do futuro”, a moderníssima Lavinia, 3-5 Boulevard de la Madeleine, 75001 Paris.
Já falei sobre a Lavinia aqui (ver “As lojas do futuro” aqui no Bolsa).
A Lavinia é a loja mais Novo Mundo de Paris, com perto de 1.500 metros quadrados. A empresa começou com lojas em Madri e em Barcelona e não faz muito tempo abriu em Paris. Oferece 6.000 rótulos diferentes de vinhos e destilados, dos quais 2.000 vinhos estrangeiros originários de 43 países. Vende também 500 itens diversos, entre acessórios e livros. Todas as garrafas estão guardadas em adegas climatizadas. Os vinhos são vendidos já na temperatura e umidade corretos.
É onde você vai encontrar vinhos dos Estados Unidos, Nova Zelândia, Argentina, Chile, Austrália etc e tal. E também, claro, da França, e os usuais suspeitos do velho continente. Todos os seus três andares são climatizados, seu estoque inclui centenas de destilados, uma ótima seleção de livros sobre vinhos em francês e em inglês, um bar para degustação e um restaurante. E um serviço impecável, via dezenas de simpáticos e atenciosos funcionários (e isso em Paris).
No primeiro andar, displays de vinhos nas paredes oferecem barganhas, especialidades (os orgânicos, por exemplo), os mais vendidos, ofertas da semana, sugestões de harmonização vinho-comida e degustações de um ou dois vinhos por semana (nada de plástico, apenas taças de vidro). Nesse andar ficam os vinhos franceses, não apenas os mais caros e raros, como também os de preços mais amistosos. É o lugar onde o Dr. Vino (referência de parte dessa coluna) conseguiu supremas barganhas francesas.
No andar de cima, a livraria, uma enorme coleção de armagnacs e cognacs, além do bar e restaurante. Para visitantes de fora da União Européia, a loja oferece 13% de devolução de impostos sobre compras acima de 300 euros (devolução só conseguida na volta pra casa, no aeroporto).
E os brasileiros nisso? Pois é, também temos vinhos brasileiros lá. São da nossa Miolo. Por causa deles, embora orgulhosa por estarem fazendo bonito em Paris, tropecei na questão de preços.
Por exemplo, o Miolo Cuvée Giuseppe 2003, tinto, garrafa de 750 ml, custa lá 16 euros ou R$ 44,47 (câmbio calculado dia 2 último). No site da Miolo, o preço é de R$ 44,00.
O Miolo Quinta do Seival 2003, tinto, 750 ml, está por 14,55 euros em Paris equivalente a R$ 40,44. No site da vinícola gaúcha esse vinho sai por R$ 40,00. E na Costi Bebidas, loja de Porto Alegre, por R$ 41,50.
O Miolo Terranova Cabernet Sauvignon-Shiraz 2003, tinto, 500 ml sai por 9,10 euros (ou R$ 25,29). Já na terra dele seu preço é bem mais cômodo: R$ 14,00.
Não sei, vai ver esses vinhos chegaram pelo “teletransporte” da Enterprise (da série “Jornada nas Estrelas”, lembram?). Os vinhos chegam num instantinho e sem aumento de custo, nada de pagar taxas, transportes etc. O pessoal da Lavinia apenas converte reais para euros. É mágica para mim.
Mas vai ver tudo isso é um esforço promocional para colocar o nosso vinho de modo favorável no exterior. Mas brasileiro também bebe vinho e gostaria de provar dessas novidades, todas elas fruto da parceria com o mundialmente famoso enólogo e consultor francês Michel Rolland, cujo fee é altíssimo. Mas preferiria pagar apenas pelo vinho e não pelo Michel.
O velho imita o novo. É realmente uma novidade, vinhos do Novo Mundo à venda na terra do vinho.
O escritor, filósofo, naturalista norte-americano Henry Thoreau, comenta em seu livro Walden sobre gente que adota servilmente o último estilo de moda de uma terra distante: “O macaco chefe em Paris põe um boné de viagem e todos os macacos da América fazem o mesmo”. Ele escreveu isso no século XIX.
Só que, agora, são os macacos franceses que imitam os da América e da Austrália: produtores franceses estão também usando bichinhos nos rótulos de seus vinhos, em particular os que seguem para exportação. Querem com isso concorrer com os vinhos do Novo Mundo com as mesmas armas de marketing.Eis aqui três exemplos bem recentes: O “Elephant on a Tightrope” (“Elefante numa corda bamba”; o nome original é mesmo em inglês, imaginem). Veja aqui o rótulo, que realmente é bem simpático.
Deram esse nome porque o elefante, falam eles, é conhecido pelo seu extraordinário equilíbrio e poderoso olfato. O vinho será, assim, equilibrado e muito aromático. Temos também o “Arrogant Frog” (“Rã Arrogante”), também em inglês. O produtor é Les Domaines Paul Mas. Veja o rótulo aqui.
O mais novo da lista vem com nome francês mesmo: “Chamarré”, que seria “ricamente colorido” ou “de cores variadas”. No seu rótulo, uma borboleta que muda de cor, conforme a garrafa (de tintos, brancos ou rosés). O produtor é a poderosa OVS, um grupo francês novo e ambicioso. OVS (Opéra Vins et Spiritueux) foi oficialmente apresentada em junho último na Vinexpo, em Bordeaux. E pretende com o “Chamarré” competir com as maiores marcas globais. Veja aqui o rótulo.
Essa linha engloba atualmente cinco varietais (Colombard-Sauvignon, Chardonnay-Sauvignon, Shiraz-Merlot, Cabernet-Grenache e um rosado, Grenache-Shiraz); cinco blends (dois brancos, dois tintos e um rosado) e dois vinhos de AOC: um branco do Jurançon e um tinto de Bordeaux.
Pois assim é que a necessidade é a mãe da invenção. Vamos ver se os franceses conseguem interromper a queda em suas vendas (dentro e fora de casa), saiam da corda bamba, percam a arrogância e voltem a fazer vinhos franceses de qualidade.

3.8.06

Com Mel ou com fel?

Você bebeu além da conta, comportou-se muito mal, foi agressivo e soltou a língua. Ofendeu quem não devia, foi extremamente contundente com outras, raças, etnias e outras classe sociais. Acabou preso.
Espera aí, estamos falando do Mel Gibson e do seu porre de tequila?
Não exatamente. Estamos perguntando o quanto de verdade existe no discurso de uma pessoa embriagada?
Além de dirigir embriagado, fugir da polícia, resistir com violência à prisão, Gibson ofendeu os judeus principalmente (o xerife que o prendeu é judeu). Depois do acontecido distribuiu uma declaração à imprensa se desculpando: “Agi como uma pessoa completamente fora de controle quando fui presa e disse coisas que não acredito sejam verdades e que são desprezíveis. Estou profundamente envergonhado de tudo o que disse. Aproveito a oportunidade para desculpar-me com os policiais envolvidos no meu comportamento beligerante. Eles sempre estiveram por perto me protegendo em minha comunidade e provavelmente salvaram-se de mim mesmo”.
E acrescentou: “Tenho lutado com a doença do alcoolismo por toda a minha vida de adulto e lamento profundamente esse meu comportamento horroroso”.
Seu Demerval, que, como vocês sabem, tem um modesto comércio aqui perto de casa (e vende umas poucas bebidas, inclusive vinhos), em Secretário, afirma que “o álcool provoca muitas confissões, principalmente de casais, com péssimos resultados para ambos os lados. É difícil mentir quando se está bêbado”.
Mas talvez não seja assim tão simples. O álcool afeta o centro de decisões executivas do cérebro, localizado nos lóbulos frontais – o que influencia o poder de julgamento das pessoas e libera inibições. Mas os especialistas são relutantes em afirmar que ele seja um soro da verdade.
O professor de farmacologia e toxicologia da Universidade do Texas, em Austin, Carlton Erickson, tem uma opinião quase igual à do Demerval. Quase.
“As pessoas, quando intoxicadas (pelo álcool), realmente fazem e dizem coisas que comumente evitariam. É como se fosse um espelho da alma”.
Mas se esse espelho reflete uma imagem perfeita ou distorcida é outra questão, afirma do cientista.
“Estudo álcool por 40 anos e só posso afirmar que não há evidência suficiente para afirmarmos que essa imagem é acurada”, diz o Dr. Erickson, que dirige o Centro de Pesquisa e Educação sobre Vícios, do Colégio de Farmácia da Universidade do Texas.
Vimos que o ator se desculpou. Afirmou que disse coisas que ele não acredita que sejam verdadeiras.
Richard Wood é um veterano operador de polígrafos (o conhecido “detector de mentiras”, tão usado por algumas polícias, em particular a norte-americana), na cidade de Arlington. Ele acha que por décadas essas máquinas vêm conseguindo retirar verdades das pessoas que examina.
Mas Wood não as examina se estiverem embriagadas. “Pessoas embriagadas tendem a falar demais. Álcool não é um soro da verdade”, repete ele.
Observamos que um estudo feito pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos concluiu que “há pouca base para esperar-se de um teste de polígrafo alto nível de exatidão”. Os testes de polígrafos são normalmente utilizados em investigações policiais nos Estados Unidos. Contudo, nenhum réu ou testemunha pode ser forçado a submeter-se a ele. Só algumas cortes admitem evidências a partir desse exame.
Ames Sweet, diretora de comunicações do Conselho Nacional sobre Alcoolismo e Dependência de Drogas, em Nova York, concorda com Richard Wood. “Álcool solta a língua, mas não necessariamente a verdade”, afirma.
“Ele estimula as pessoas de uma maneira que às vezes suplanta a verdade. Há muitas coisas que vêm juntas da verdade. E verdade não á apenas uma proposta do tipo sim-ou-não”, explica a diretora.
Ela acrescenta que o álcool afeta a percepção dos fatos. “O álcool gera um certo elemento fantástico. Pode haver um grão de mentira nas verdades, assim como um grão de verdade nas mentiras”.
Mesmo em pequenas quantidades, o álcool pode levar as pessoas a dizer coisas que não diriam se sóbrias, afirma a Dra. Prema Manjunath, psiquiatra judiciária do Hospital John Peter Smith, em Fort Worth. “Outra coisa que ele provoca é destacar qualidades preexistentes: se a pessoas estava zangada antes pode ficar mais zangada depois de beber”.
Talvez por isso, a médica Stevie Hansen diz não é incomum uma pessoa que bebe demais entrar em brigas por motivos absolutamente toldos, que não a incomodavam. A médica é chefe dos serviços a drogados num hospital para doentes mentais, no município de Tarrant. “A bebida não reflete a personalidade das pessoas. Só porque você está bêbada não quer dizer que a verdade aparece”.
Já o professor de psiquiatria do Centro Médico de Dallas (da mesma Universidade do Texas), Dr. Bryon Adinoff, indica que beber demais pode ser comparado a um estado de sonho.
“Quando dormimos nossas defesas caem, o mesmo acontecendo quando estamos embriagados. Certamente sonhamos com fazer coisas que jamais faríamos e não queremos fazer e podemos nunca realizar”.
As notícias sobre o porre e a prisão do ator apresentam um dado intrigante. O nível de álcool no sangue de Gibson era, no momento da prisão, de 0,12, o que não assim tão alto para um alcoólatra (como ele mesmo se retratou). O limite de álcool na Califórnia é de 0,08.
“Uma pessoa acostumada a beber muito todos os dias pode não ficar com boa aparência, mas não ia ficar cambaleando por ai com 0.3 ou 0.4”, diz o Dr. Bryon. “Já um abstêmio estaria morto com esses níveis ou certamente em coma”.
O álcool pode levar pessoas a desinibir-se. “Mas em bebedores freqüentes chega a efeitos muito mais sérios, como psicose induzida pelo álcool”, explica a Dra. Prema Manjunath.
“As pessoas ouvem vozes, ficam paranóicas, vêm elefantes e ratos, têm alucinações. Acreditam que alguém as persegue. Deliram, acreditam em coisas que estão completamente fora do perfil de seu caráter”.
Apesar de ter lido para ele toda essa série de argumentos médicos e científicos, seu Demerval não pareceu muito convencido. “Sei por experiência própria que o álcool já me fez dizer coisas que eu desejaria não ter dito”. Seu Demerval não permite que se beba no seu estabelecimento. “Pode comprar aqui, mas beber só em casa”.
“Vem cá, o pai desse garoto não foi aquele que afirmou que o Holocausto nunca existiu? Por que estranhar que ele tenha ofendido os judeus?”
Uma saia justa, realmente.
Amiga, você acha que o álcool pode ser um soro da verdade? Acredita que o Mel Gibson não quis realmente dizer o que disse? É justo que Hollywood arquive o ator?

2.8.06

Terroir em transe

Não se trata de uma alegoria política, como no “Terra em transe” de Glauber Rocha, mas de um comentário sobre um grupo de nordestinos transformados em sommeliers dos melhores restaurantes do Rio, alguns inclusive com prêmios internacionais, tal como li em O Globo, do último domingo. O “transe” não é uma aflição, mas a luta que esse grupo vem travando vitoriosamente para ficar íntimo do “terroir”, um conceito chave para saber-se efetivamente de vinhos, o que sempre me deu muita dor de cabeça, e nesse caso, aflição de verdade, quando trabalhei em restaurantes e lojas de vinho.
Desesperadamente tentava saber mais sobre a conexão entre o perfil organoléptico dos vinhos e seus lugares de origem, que em suma vem a ser o tal do terroir (o meio ambiente em que as uvas são cultivadas: solo, clima, topografia, variedade de uva e até mesmo o fator humano, como ele interfere no cultivo e na produção do vinho etc.).
Com muito esforço tentava distinguir as filosofias de produção dos vinhos manufaturados daqueles feitos artesanalmente; das diferenças entre os vinhos do Velho Mundo e os do Novo Mundo. O sistema produtivo do primeiro destaca a importância do terroir, o que não acontece no segundo.
E, pelo que li, nossos sommeliers do Rio das Pedras conseguiram chegar lá. Quem duvidar vá ao restaurante Estação Azul, onde esse grande grupo se reúne nas suas noites de folga (domingos ou segundas-feiras) para degustar vinhos de rótulos caríssimos, trazidos às vezes por importadoras. Experimentam, trocam notas, debatem e vão aprendendo. E a cada vez aumentam seus conhecimentos e, assim, vão poder servir melhor a clientela de seus restaurantes. Vão poder decidir na elaboração da adega, das cartas de vinho e até mesmo na própria cozinha das casas onde trabalham. É uma tarefa muito difícil – que definitivamente não começa abrindo-se rolhas.
Um desafio. Você tem um restaurante, sabe que os vinhos estão cativando mais e mais os clientes e, portanto, precisa incluí-los entre as suas ofertas. Por outro lado, a sua equipe é capaz de recomendar, de descrever, vender e servir todos os vinhos que estarão em sua carta? Sabe as diferenças entre Syrah e Petite Syrah? Ou a turma vai apenas dizer para o cliente “Olha, esse Merlot é legal”?
É uma tarefa sempre difícil para a maioria dos restauradores: implementar um programa de treinamento de vinhos para o pessoal do salão de modo a educá-los (não apenas informá-los) e ajudá-los a vender o que está na adega.
É difícil em razão ora do limitado conhecimento sobre vinhos da gerência, da falta de uma estrutura para um programa de treinamento, do custo dos vinhos utilizados pelos funcionários nas degustações, ora pela própria falta de cooperação deles – que precisam antever as vantagens daquela hora extra de trabalho, o treinamento propriamente. Elas precisam fazer sentido.
Quando tive loja de vinhos e era chamada para treinamento de vinhos em restaurantes adotei um sistema que se resumia em: a) o aprendizado tinha que ser tão leve e divertido quanto o ato de saborear um vinho; b) usava todos os recursos disponíveis: a internet, livros, revistas, e inclusive profissionais (entre importadores, donos de lojas, comerciantes e até professores dos cursos estabelecidos).
As lições. Já que treinava funcionários, ensinava sobre vinhos, preparava a turma para jogá-la aos sabichões e esnobes, precisava me comportar como professora mesmo. E construí um programa a partir de lições.
Primeira lição: O que é vinho? Inclui, entre outras coisas, como o vinho é feito, suas características, seus sabores e aromas.
Segunda lição: Variedades de Uvas. Procurava descrever os diferentes tipos de uvas utilizados para fazer vinho, as características de cada vinho com aquelas uvas. Era de grande utilidade um cartão com para listar cada uva e as suas características. Um exemplo:
Sobre a Chardonnay, o vinho branco mais consumido e que normalmente se encaixa em três categorias. O rico, com carvalho, amanteigado, um estilo usualmente produzido nos Estados Unidos, potente que precisa realmente ser acompanhado de comida para ser devidamente apreciado – geralmente com um prato rico em sabores. Um atum, pato ou qualquer coisa com um molho denso cremoso.
O segundo estilo é o rico em sabores de frutas tropicais (papaia, maçã, pêra e até de banana). A Austrália é praticamente a “dona” desse estilo, que pode muito bem acompanhar frutos do mar, galinha ou peru.
O terceiro apresenta um sabor mineral, da terra, um Chardonnay que vai do ácido ao creme fresco, mas sempre com o sabor de “terra”. É o estilo original, da Borgonha. Normalmente, vai bem com frutos do mar.
Já viram que as lições podem ser muito animadas. E, na verdade, bem simples.
Claro que só a Chardonnay dá uma hora de aula. Mas você vai apresentar também a Sauvignon Blanc e uvas que começam a aparecer por aqui: a Pinot Grigio (ou Pinot Gris), a Viognier, a Gewürztraminer (a da Alsácia e a da Alemanha).
E, claro, depois temos as aulas com as tintas, a começar com as reputadíssimas Cabernet Sauvignon, a Merlot, a Pinot Noir, a Syrah e a sua equivalente do Novo Mundo, a Shiraz, a Sangiovese (não pode faltar num restaurante de massas, pois é a prima dona do Chianti). E vai por ai.
Lição 3: As regiões vinícolas, onde descrevia as diferentes áreas do globo onde o vinho é feito. Separava por continente e não necessariamente por região. Ficava mais fácil assim.
Lição 4: Servir e vender o vinho. Era a lição final, onde explicava como servir uma garrafa com propriedade e algumas técnicas de venda. Afinal, fica fácil entender que 10% sobre uma caipirinha ou um chope é nada se comparado com 10% sobre um Barolo. Garçom depende mesmo é da gorjeta. E aquele que responde pelos vinhos muito mais. É aquela gorjeta à parte, necessariamente mais gorda, pois foi ele que transformou uma simples refeição num feliz acontecimento, graças à recomendação do vinho apropriado.
Após cada lição tínhamos uma rodada de degustação e de testes. A turma, como qualquer outra, precisa internalizar as informações. Essa era a hora. E, por falar nisso, as lições duravam em média uma hora.
As degustações compreendiam sempre vinhos que pudessem responder pelas lições: as diferenças de sabores e aromas, as variedades de uvas, as regiões vinícolas. Tinha sempre vinhos simples para essas aulas. Ao fim do “curso” oferecia vinhos de rótulos mais caros como prêmio.
Além das aulas, que na maioria das vezes compreendiam a presença do gerente da casa, estabelecia que a cada reunião da equipe dos restaurantes (em média, uma reunião geral por semana), os vinhos tinham sempre que ser comentados. E experimentados, como os novos rótulos que chegavam à adega (e na carta). Durante um mês ou dois, participava dessas reuniões e degustações. Perguntava a opinião deles, que sabores descobriram e com qual prato do cardápio achavam que aquele vinho devia acompanhar.
Fazia também com que os chefs preparassem pratos complementaras de modo a demonstrar como certos vinhos vão melhor com certas comidas. Era sempre muito divertido.
Ou seja, nesses um ou dois meses complementares, estava repetindo as lições, mas de outro modo, na prática, na vida real. E era a ocasião de criar promoções: por exemplo, aquele que vender mais garrafas de Pinot Noir numa semana leva uma de graça para casa (garrafa essa que eu mesma, representante de uma loja, cedia para o restaurante).
Aprendi que todo o restaurante que serve vinho sabe que tem que buscar sempre novas maneiras de melhorar suas vendas. Por isso, me surpreende que nem todos eles têm consciência da importância de continuar treinando a sua equipe a conhecer mais, a vender e a servir vinho. Quando um garçom tem um entendimento maior de qualquer item, costuma apreciá-lo melhor. Com o vinho, não é diferente: quando a equipe do restaurante ficar entusiasmada com a bebida a grana costuma melhorar para todo o mundo.
Daí que o país de ficção do filme do Glauber, Eldorado, vira realidade, pois o transe não é uma aflição, é uma luta que os sommelier de Rio das Pedras transformaram em vitória.
Eles, de uma maneira ou de outra, seguiram as lições acima na prática, fazendo com que os mestres fossem eles próprios. E isso é raríssimo de acontecer.

Já no seu Demerval

Uma caixa de 12 garrafas do Château Petrus 2005 está custando 37 mil dólares, ou pouco mais de três mil dólares a garrafa. E o vinho sequer está engarrafado. O imperador dos críticos, Robert Parker Jr., deu 96 pontos ao vinho (96 para um máximo de 100), isso na prova en primeur, com a bebida ainda no barril. James Suckling, da Wine Spectator, deu 95. Essa pontuação será corrigida em abril de 2008, com o vinho já na garrafa. Mas já tem gente comprando, segundo a Bordeaux Index, por esse preço mesmo, sequer se importando com um eventual rebaixamento da nota em 2008 (e, com ela, o preço).
Com esse dinheiro poderíamos comprar 21 garrafas do Château Ausone 2005, três caixas do Château Latour 2005, 19 caixas do Château Pichon-Longueville-Lalande 2005 ou 4.509 garrafas do Miolo Reserva Merlot 2004, vendidas por R$ 18,00 cada garrafa pelo seu Demerval no seu modesto comércio aqui perto de casa, em Secretário, Petrópolis.

Poderia comprar também uma aliança de platina com 16 diamantes na Tiffany de Nova York. Tem um nome apropriado para um infarto: “A um passo da eternidade”.
Já o preço da tequila mexicana “Pasión Azteca MX”, por 225 mil dólares a garrafa, não me impressiona. É que a garrafa é toda de platina. Se quiser uma barganha, compre a versão “Pasión Azteca México”, de ouro com platina por apenas US$ 150 mil.
Não me impressiona porque o que justifica o preço é o que está dentro da garrafa. Por exemplo: a última garrafa do whisky Macallan Fine and Rare Collection, 60 anos, foi vendida não faz muito tempo por US$ 38 mil, segundo a revista Forbes. A garrafa é apenas de vidro. Você, contudo, pode provar dessa maravilha no Old Homestead Steakhouse (Borgata Hotel Casino & Spa em Atlantic City, Nova Jersey). Custa apenas US$ 3.300,00 uma dose de 3,5 ml.
Existe, contudo, um Macallan possível de comprar: é o de 40 anos (foi produzido em 1939 e somente engarrafado em 1979: daí os 40 anos). Preço: US$ 10.125,00 – a garrafa. O terceiro na lista da Forbes é o Chivas Regal Royal Salute 50 anos: US$ 10 mil. A observar que o Macallan é um single malt e o Chivas um blended Scotch.
A garrafa de vinho mais cara que ainda pode ser bebida foi vendida num leilão em 2001 na Sotheby's americana por US$ 23.929.00 a garrafa. Era a de um Montrachet 1978, da Domaine de la Romanée-Conti. Pertencia a um lote de sete garrafas vendido por US$ 167.500,00. Dois colecionadores começaram a disputar esse lote e os preços acabaram na estratosfera, onde reside a vaidade desse tipo de pessoa. O extraordinário é que se trata de um vinho branco.
Se considerarmos garrafas maiores, uma Jeroboão (6 litros) do Mouton-Rothschild 1945 saiu por US$ 114.614,00, num leilão da Christie’s de Londres, em 1997. O comprador preferiu ficar anônimo. Assim, se ele abriu a garrafa e o vinho já estava passado ninguém ficará sabendo. Já se aconteceu o contrário, não fui convidada infelizmente. Mas tem sempre o seu Demerval aqui do lado.