28.11.06

A Dieta do Vinho

Tem um guru novo na praça, que promete vinho, chocolate e vida longa e boa para os seus seguidores. Já estamos na estação de grandes comilanças e muitos copos; na época de mostrar os corpinhos sarados nas praias. Logo, não custa contar para vocês as novidades do professor Roger Corder, um respeitadíssimo cientista inglês, que acaba de lançar em Londres o livro The Wine Diet, a Dieta do Vinho.
O professor é especialista em doenças cardiovasculares e propõe uma dieta eclética e liberal que vai de vinhos de Rioja, Espanha, aos Cabernets sul-americanos. Ele lembra o que as pessoas sabem há séculos: o vinho pode ser bom para nós. E cita Paracelso, o físico, alquimista, astrólogo suíço do século XVI: “vinho é um alimento, um remédio e um veneno – é só uma questão de dose”.
Roger Corder é professor de terapêutica experimental no Instituto de Pesquisa William Harvey, pertencente à Escola de Medicina de Londres. Passou anos reunindo evidências dos benefícios médicos, potencialmente gigantescos, dos vinhos tintos. Acrescente-se que ele não esqueceu do que se anda falando a respeito do chocolate preto, com qualidades similares. E, pronto, temos a ciência preferida dos gourmets.
O professor conseguiu inverter o antigo provérbio dos nutricionistas: “Se é delicioso, deve ser nocivo”. Ele começou suas pesquisas em 1999. E já em 2001 anunciou que, com sua equipe, tinha descoberto que o vinho tinto conseguia botar um freio numa das moléculas mais importantes a causar doenças coronarianas. É a tal de endotelina-1. Descobriu que certos tipos de polifenóis (um elemento químico das plantas), chamados de procianidinas, promovem saúde e são chaves do vinho. Não só existem abundantemente nos vinhos tintos como também no chocolate e de algumas frutinhas vermelhas - principalmente o arando (em português) ou cranberry (em inglês), ou canneberge (francês) e ainda arándono rojo (em espanhol).
Em sua essência, o professor afirma que se bebermos vinhos com alto grau de procianidinas estaremos melhorando a função de limpar os vasos sangüíneos e, assim, nos protegendo de doenças cardíacas, enfartos, diabetes, demência e possivelmente de alguns tipos de câncer. “Os bebedores de vinho são geralmente mais saudáveis e com freqüência vivem mais tempo”, afirma o professor. “Isso não é um sonho. Passei muitos anos pesquisando os benefícios do vinho para a saúde e posso afirmar que são esses bebedores que sofrerão menos com doenças cardíacas, diabetes e demência”.
Como é a dieta. Ela é diferente das demais: nada de contar calorias. É muito simples: apenas procura repetir o que fazem alguns dos povos mais longevos do mundo – da Sardenha, Creta e do sudoeste rural da França. Não existem serviços básicos de saúde nessas regiões. E, no entanto, as pessoas vivem bem e por muito, muito tempo. Se cuidam apenas tomando vinho todos os dias e comendo comidas frescas, não processadas.
O caso é buscarmos vinhos tintos com quantidades decentes de procianidinas. Mas os vinhos não são rotineiramente analisados pelo conteúdo dessas substâncias. O recurso é simples: basta sabermos o conteúdo total de polifenóis. Mas como?
Os produtores cada vez mais mencionam um tal de IPT (do francês Indice des Plyphénols Totaux) em suas informações técnicas, que podem ser achadas na internet e em algumas revistas especializadas.
Em geral, quanto mais alto o IPT, maior a quantidade de procianidinas num vinho. O professor criou uma escala, que vai de * (um asterisco) até ***** (cinco asteriscos), onde a maioria dos tintos tem pelo menos um *. Uma taça de um vinho com *****, super rico, contem pelo menos 120 mg de procianidinas. Uma taça com *** terá entre 60 e 90 mg. Um vinho médio poderá conter entre 30-45 mg da substância.
O professor cita os vinhos do Madiran, região do sudoeste francês, um santuário do vinho tinto. E os cabernet sauvignon argentinos, que o cientista toma como padrão. Assim, fica mais fácil nos abastecermos para essa dieta. Agora, pode ter como certo, amigas, que nossos tintos estão em pé de igualdade, são ricos em polifenóis. Não precisamos de *****. A turma em Creta e na Sardenha bebe direto do barril. São vinhos caseiros. Lá, ninguém se importa com asteriscos e procianidina é palavrão.
Ele reprova vinhos com alto teor de álcool (ficamos com a média tradicional de 12% de álcool por volume) e recomenda que só os bebamos às refeições, moderadamente (uma ou duas taças).
Um outro grupo de alimentos apresenta-se como fonte alternativa de procianidinas. Exemplos: o chocolate preto, maçãs, as frutinhas vermelhas citadas acima. A romã é fonte muito rica de diferentes polifenóis e pode substituir muito bem as procianidinas do vinho. Para quem não pode consumir álcool, temos, portanto deliciosos substitutos.
As maçãs contêm quantidades modestas de vitamina C, potássio, ácido fólico e fibras. Recentemente, descobriu-se que são uma fonte rica em procianidinas. As boas cidras, feitas ao modo tradicional, podem conter altos níveis desse elemento, mais alto até do que muitos vinhos e com apenas 6% de álcool. São boas alternativas (e mais baratas) do que o vinho tinto. Mas cuidado com as cidras industrializadas (as que vemos chegar aos montes nas prateleiras de supermercado, para as festas): o suco de maçã é rotineiramente filtrado, removendo grande parte das procianidinas. Melhor ficar com uma maçã por dia, cujo conteúdo médio desse polifenol é equivalente a uma taça de 125 ml de vinho tinto.
A arando (ou cranberry etc.) é fonte rica de procianidina, além de prevenir infecções do trato urinário, como a cistite. A recomendação do cientista é a de fazermos nós mesmas nosso próprio suco, pois o industrializado leva muito açúcar.
De um modo geral, a maioria das frutinhas vermelhas forma uma rica fonte de vários polifenóis. Na média, 100g dessas frutinhas podem conter uma quantidade de polifenóis igual a uma taça de 125 ml de vinho tinto rico em procianidina.
E também temos as nozes. Elas aparecem aqui como uma surpresa, pois são ricas em gordura. Pois o professor Corder descobriu que pessoas que costumeiramente comem nozes apresentam um índice de doenças cardíacas mais baixo do que as que nunca ou raramente as comem. Um estudo investigou 34 mil adventistas do Sétimo Dia, na Califórnia. Os que comiam nozes mais de cinco vezes por semana apresentaram um nível de doenças cardíacas 50% mais baixo. É que esses frutos são uma das mais ricas fontes de polifenóis.
Outra grande fonte de procianidinas é a canela, aquela mesma da Gabriela. É um tempero versátil, tanto para pratos doces como para os salgados.
O chá, preto ou verde, tem também bons níveis de polifenóis. O cientista cita estudos concluindo que três xícaras de chá diariamente podem reduzir o risco de doenças cardíacas em apenas 11%. Outras pesquisas, feitas em hospitais, demonstraram que 900 ml de chá preto por dia, durante quatro semanas, melhoraram a condição de pacientes com doenças coronarianas.
Assim, jogando com uma dieta mediterrânea, com muitos legumes, frutas, azeite, pouquíssima ou nenhuma fritura, chocolate e muitas das frutinhas citadas aqui e uma ou duas taças de vinho tinto por dia, podemos seguir adiante com mais saúde e por mais tempo.

21.11.06

Os esnobes do vinho

A maioria da crítica o chama de enochato. O esnobe do vinho leva com ele uma mancha negativa, tão negativa quanto a definição do Aurélio para a palavra: esnobe é quem pratica o esnobismo, por sua vez, a pessoa com “tendência a desprezar relações humildes, a aferir méritos pelas exterioridades, e, pois, a admirar e/ou respeitar exageradamente os que têm grande prestígio ou alta posição social. Esnobismo é um “exacerbado sentimento de superioridade”, uma “afetação de gosto e/ou admiração excessiva ao que está em voga”.
Os esnobes do vinho existem em diversas vestes, em várias subespécies e são fáceis de identificar. Num jantar, será ele quem vai contradizer a pessoa tida como a mais conhecedora de vinho na mesa. Ao cheirar o vinho, vai identificar não apenas a região e a vinícola, mas também o que o vinicultor decidiu no dia em que as uvas foram colhidas. Fala demais.
Uma outra subcategoria é representada pelo tipo acima que começa a vomitar jargão técnico. Toca a falar de “fermentação malolática”, “maceração carbônica”, “micro-oxigenação”, “pneumatage”, “batonage”, “pigeage”. É o tipo técnico.
Ao seu lado, desfila o colecionador: possui todas as grandes garrafas de todas as grandes safras. “Também tenho esse vinho” é o seu refrão. E suas regiões queridas são sempre Bordeaux e Borgonha. Conhece todos os chateaux e domaines, sem falar de seus donos e donas e de seus produtores como se os conhecesse desde criancinha. Não adianta visitá-lo em casa na esperança de provar algumas daquelas maravilhas. Só estarão “prontas” daqui há dez, vinte anos. Vão às lojas e procuram os vinhos mais caros, fazem o mesmo nos restaurantes. Entre eles, temos os endinheirados de verdade e os caloteiros.
A crítica Natalie MacLean ainda identificou mais uma subespécie: a do “maníaco por saúde”. Não gosta de vinho necessariamente, mas o consome como remédio. “Em vez de uma tabela de safra, carrega uma lista com o nível de resveratrol de vários vinhos. Recalculou sua expectativa de vida baseado num reduzido risco de ataque cardíaco, pois bebe uma taça e meia de vinho diariamente”. É o eno-hipocondríaco.
Mas esnobes e esnobismos são parte fundamental desse mundo, tanto quanto as formigas em piqueniques.
No dicionário Webster, snob é uma pessoa tida como “arrogante, desagradável; um indivíduo que se arroga méritos que não possui...”; “aquele que tem um ar de superioridade ofensivo, em matérias de conhecimento ou gosto”. Ou seja, o Webster está semelhante ao do Aurélio e da maioria das definições.
Contudo, o dicionário de Cambridge acrescenta uma qualidade na definição: esnobe é uma pessoa “dotada de altos padrões e que não está satisfeita com as coisas que as pessoas comuns gostam”. Se há uma desaprovação, por outro lado acrescenta uma explicação para o esnobismo: a insatisfação com os padrões adotados pela galera.
Se a amiga viu o filme Sideways (que não cansa de passar na televisão) notou que o personagem principal, Miles, é vidrado em vinho, mas não tem nada de esnobe: é um humilde professor, escreveu um cartapácio que os editores recusam, sua esposa o abandonou. Está duro, mas surrupia dinheiro da mãe para visitar vinícolas no Vale de Santa Ynez, na Califórnia. Viaja com um amigo, ator, que não entende nada de vinhos, apenas gosta de bebê-los, e tenta encontrar o melhor Pinot Noir que a terra pode oferecer.
Miles é um personagem inseguro, carente. Mas é vidrado em vinhos, está absolutamente apaixonado e sabe quase tudo sobre a bebida. É o que os americanos chamam de wine geek.
Tenho um amigo, o Eduardo Courreges, engenheiro, possui uma gráfica aqui na Washington Luis, e roda o novo Jornal do Brasil. Ele é capaz de passar todo um dia conversando a respeito de serifas e pontos e se uma letra em particular tem o formato correto para a sua fonte. O Eduardo, na sua especialidade, é um geek, palavra que até o Shakespeare usou e que em seu tempo tinha o significado de tolo, idiota. Mas que chegou ao século XXI associada a computadores e à internet designando “uma pessoa com um talento e um interesse por tecnologia e programação acima do normal”. Bill Gates e Paul Allen, os fundadores da Microsoft, são geeks em suas origens. Ainda muito jovens criaram um sistema operacional que puxou o tapete debaixo da então poderosa IBM e mudaram a face da informática em todo o planeta. Hoje os dois são apenas bilionários, que não dão jeito nas “windows” do meu computador. O sistema deveria ter mais “gates”.
Um wine geek, tal como um geek da informática é completamente consumido pelo seu campo de interesse, o vinho. Ele experimenta de tudo, quer saber tudo sobre vinhos, sem preconceitos. Prova vinhos secos e doces, brancos, tintos e rosados, vinhos do Velho e do Novo Mundo, degusta uvas pouco conhecidas, está sempre em busca de aventuras enológicas. Em português, ele seria um CDF (sabe, aquele menino chato, de óculos, que vive estudando, tira nota máxima em todas as matérias). Mas um CDF não necessariamente chato, quase sempre casual, que não se importa em saber o que vai comer para escolher o vinho. Ele primeiro escolhe o vinho e a harmonização pouco importa.
Mais uma vez os americanos têm uma expressão para definir o que nós, no começo da nossa conversa, chamamos de esnobe, no sentido negativo.
É o cork dork, mais ou menos, “o idiota da rolha”, uma pessoa tola e presunçosa – a respeito do vinho. É ele quem vai segurar a taça pela base. Não admite nem pega-la pela haste. Vai girá-la até a exaustão. Antes do colocar o nariz na taça fará um longo discurso sobre as supostas características do vinho que seque provou. Por fim, ao cheirar o vinho, anunciará o seu desapontamento com o aroma. O cork dork ama tudo o que é francês, os barris têm de ser de carvalho novo e os vinhos bem velhos (e sabemos que essas escolhas não são necessariamente as melhores). É capaz de, além de cheirar o vinho, escutá-lo também. Coloca os ouvidos na taça de champagne, pois afirma que, pelo som do borbulhar do espumante, consegue distinguir um Krug de um Roederer.
Esnobes, wine geeks, cork dorks, enochatos: eles podem ser maçantes por vezes. Mas sem eles saberíamos cada vez menos sobre o mundo dos vinhos e o que essa bebida pode nos oferecer.
Seja com comida, vinho, café, azeite etc. não há nada de errado em tentar dotar-se de altos padrões e desejar o melhor, o acima do comum. E acho que podemos continuar buscando esses “altos padrões” sem levantar nossos narizes e, ainda por cima, ajudar as pessoas a se aventurarem em experiências mais ousadas seja com o vinho, a comida, o café, roupas etc.
Amiga, você gosta de vinhos como uma wine geek ou cork dork? Para você, valem mais as definições do Aurélio e do Webster para esnobe e esnobismo no vinho? Ou você se encaixa mais nos altos padrões do verbete do dicionário de Cambridge?

16.11.06

O Nouveau e as panacéias

Já que esta coluna sai justo no dia do lançamento do Beaujolais Nouveau, oficialmente, a partir da meia-noite da terceira quinta-feira de novembro, em todo o mundo, vamos comentar a respeito. O Nouveau tem uma história bastante original: é uma uva, um vinho, uma região e seus vinicultores se promovendo às suas próprias custas.
Mas lembraremos também outros experimentos promocionais: como a de se promover à custa do vinho ou de vender-se um vinho via celebridades. O vinho é a panacéia da moda.
Beaujolais Nouveau. Poucos conseguem o sucesso de imagem e vendas desse vinho jovem. Ele não dependeu até hoje a não ser de sua humilde, mas resistente uva, a Gamay. E do esforço de centenas de vinicultores.
É uma senhora manobra de coordenação e marketing. Beaujolais fica ao sul da Borgonha (oficialmente é um distrito dela). A turma colhe rapidamente as uvas, Gamay, a fermentam e engarrafam seu suco de modo a que as 60 milhões de garrafas, esse ano, estejam nas lojas à meia-noite de hoje. Viajam de avião, trem, caminhão, cavalo, elefante etc. Um senhor exercício de coordenação, driblando diferentes fusos horários. Metade dessas garrafas fica na França, mesmo, e já vi parisienses tomar o primeiro gole logo no café da manhã. Lá, o comerciante que vender o nouveau antes do seu lançamento oficial é pesadamente multado.
A festa em torno do Nouveau começou na França logo depois da II Guerra e se espalhou para o resto do mundo a partir dos anos 80. Hoje chega a 150 países, pelo menos. As uvas são colhidas em setembro e o vinho fica pronto já nos primeiros dias de novembro. Um Bordeaux de classe leva pelo menos dois anos para chegar ao mercado depois das uvas colhidas. Um Barolo Riserva, uns cinco anos.
Mas atenção que não é o primeiro vinho do ano. Em outras partes do mundo, da Itália à Califórnia, em regiões da França como a Provence e o Languedoc, vinhos similares chegaram ao mercado antes do nouveau. Na Itália, temos os “novellos”, por exemplo, com uvas pouco conhecidas como a Teroldego e Lagrein. Isso sem contar com o hemisfério sul, onde a colheita é feita entre março e abril.
Não é também um vinho “cult” ou para colecionadores ou mesmo para contemplação. A pressa com que é feito compromete a sua profundidade. Mas quando a safra é boa, como dizem foi a desse ano (dizem isso sempre) e os frutos são colhidos bem maduros, o Nouveau é bem fresco e leve. E vem com muita fruta. Imagine: as uvas são jogadas, inteiras, num tanque inox onde injetam dióxido de carbono. A possibilidade de aromas e sabores de frutos, assim, é bem grande. Pense assim: se um Borgonha pode ser uma sonata de Beethoven, um Beaujolais chega a ser uma gostosa balada.
Brindo em particular à teimosia da uva Gamay. O Duque da Borgonha, um certo Felipe, ordenou em 1395 que essa uva fosse eliminada da região, pois a tinha como “daninha e desleal”, talvez pelo seu vigor rústico. Queria espaço para a Pinot Noir. Mas como um gato teimoso, a Gamay voltava sempre até que se transformou, nesse sucesso – comercial e didático, pois por ela muita gente começa a conhecer o mundo dos vinhos.
Falam que esse ano o vinho virá com fortes aromas de frutinhas vermelhas. Mas isso dependerá do produtor. O mais famoso é Georges Duboeuf, chamado “O Rei de Beaujolais”, que controla 10% de toda a sua produção. Experimente também os de Bouchard Aîné, Joseph Drouhin, Louis Jadot, Jaffelin, Mommessin e Rodet. Cuidado com os preços.
O vinho da Madonna. Ela se reinventa a cada dia. Canta, dança, escreve livros infantis, adota crianças africanas, 21 anos de vida profissional exemplar. E agora seu pai, Tony Ciccone(vinicultor desde 1995), vai lançar o “Vinho da Madonna”, diretamente do “Vinhedo Ciccone”, em Michigan, EUA. Será uma edição limitada, com garrafas assinadas pela cantora, dançarina, autora, supermãe, ao custo de 40 dólares a garrafa. “É o melhor vinho que Tony fez até hoje”, diz um amigo da família. Amigo mesmo.Foi o ótimo Sérgio Rodrigues, que assina as também imperdíveis colunas “A Palavra é” e e Todoprosa , quem deu a dica de um artigo de Ed Pilkington no inglês “Guardian”, e que levou à citação abaixo:
Se minha teoria estiver correta, é assustador porque sugere que as celebridades acreditam na publicidade em torno de suas habilidades. Pior, indica uma profundidade de obsessão pública com os famosos que é ainda mais extrema do que costumamos imaginar. Uma coisa é querer saber qual celebridade está dormindo com qual (…). Mas querer ouvir as mais íntimas histórias que uma celebridade conta para seus filhos na hora de dormir, independentemente de seu valor, beira o bizarro. (Leia aqui todo o artigo)
Kick Ass Red. Mike Dikta, famosíssimo ex-treinador de futebol americano (aquele em que a bola parece um zepelim, a porrada come solta e o juiz só apita quando 20 brutamontes do time A estão em cima do gorila do time B), ganhador do Super Ball, a Copa do Mundo deles lá, resolveu lançar um vinho. Claro que em parceria com um vinicultor da Califórnia.
Nome do vinho: Mike Ditka Kick Ass Red, que seria “Vinho Legal Mike Ditka Tinto”. Legal, de bárbaro, formidável etc. Mas, numa tradução mais ao pé da letra, Tinto Pé na Bunda de Mike Ditka. Fico pensando na qualidade ou no nível de álcool desse vinho, que já nos chega com um pé na bunda. E em como essa celebridade acredita em suas habilidades (só para lembrar o artigo do Guardian).
O vinho de Bond. Estou falando de Bond, James Bond. No seu próximo filme, James Bond, numa refilmagem de “Casino Royale”, vai beber um Premier Grand Cru Classe de St-Emilion, o Chateau Ângelus (parece que da safra de 1982), além do champagne Bollinger, desde Moonraker, (“007 Contra o Foguete da Morte”, de 1979) ligada ao 007. Tem sempre um Bond novo, como esse agora, Daniel Craig, também inglês. Mas os vinhos nos filmes do agente secreto costumam ser velhos, como esse Ângelus 82. As mulheres ele as consome jovens mesmo.
Não duvide que Bond, esse personagem ficcional que nos acompanha desde os anos 50 em livros e desde os 60 em filmes, ainda vende mais vinho que Madonna (e seu pai) e do técnico bundão. Mais do que muitas celebridades.
Vinhos podem dar prestígio. Mas só o Beaujolais Nouveau para conquistar essa imensidão de público, em todo o mundo, com a sua simplicidade, pouco status, leveza, às custas apenas de seus anônimos vinicultores e de sua Gamay.

11.11.06

O passarinho do seu Plínio

Na venda mais próxima, há cinco minutinhos daqui de casa, em Secretário, Petrópolis, o seu Plínio voltou a vender vinhos. Ele tem uma vendinha quebra-galhos: o pão vem de uma das melhores padarias da Serra, a Princesa de Bonsucesso (que, naturalmente, fica em Bonsucesso, entre Nogueira e Itaipava). E o resto compra do comércio local, de detergentes, dentifrícios, a arroz, feijão, açúcar, Melhoral etc.
E, agora, vinho. Apenas um rótulo, o Periquita, vendido a R$ 26,00, a garrafa de 750 ml. Não sei como ele conseguir logo o da safra 2004, muito elogiado pelos críticos. Também não sei como ele chegou à barganha dos 26 reais. Será que conseguiu da Diageo, distribuidora da marca? Antes, seu pai, vez por outra, punha um ou dois rótulos na prateleira, vinhos verdes, na maior parte. Passou o tempo, seu Plínio assumiu o negócio e os vinhos foram esquecidos. Por um pouco.
E o Periquita 2004 vem inaugurar esse novo tempo da nossa salvadora vendinha. Não é pouca coisa, não. É difícil pensar em outro vinho com tamanha garra. É a marca de vinho de mesa engarrafado mais antiga de Portugal, uma das mais antigas em todo o mundo. Existe há 153 anos e mantém o mesmo rótulo até hoje. Foi criado por José Maria da Fonseca, em Vila Nogueira do Azeitão, ao sul de Lisboa, a partir de uvas tintas Castelão Francês, que o homem trazia do Ribatejo, de uma propriedade que se chamava Cova da Periquita, na hoje Região Demarcada das Terras do Sado.
O 2004 leva 70% de Castelão, 20% de Trincadeira e 10% de Aragonês (a mesma espanhola Tempranillo). O vinho ficou tão famoso, tão querido em todo o mundo, que Periquita passou a sinônimo de Castelão. O caso é que, 153 safras depois, ele continua ótimo de beber: um vinho fácil, muita fruta, muito saboroso, muita personalidade. Ao primeiro gole, você vê Cabral, Caminha, Dom João VI, Eça, Fernando Pessoa, além do próprio seu Plínio. Um verdadeiro português. Sua origem logo se apresenta.
Perguntei a ele como conseguiu o 2004. Respondeu de modo vago: “amigos, amigos”. Perguntei se ia continua trazendo mais vinhos. Disse que ia depender das vendas. Imediatamente comprometi-me com uma caixa, desde que ele aceitasse dividir a conta em três. Aceitou vender apenas seis garrafas. Só tinha duas caixas de 12. Metade de uma caixa para ele, metade para mim e o restante para os demais fregueses.
Fui mais fundo. Quis saber se ele não ia aproveitar o tradicional barulho na mídia e trazer também o Beaujolais Nouveau, com lançamento mundial marcado, como sempre, para a terceira quinta-feira de novembro (dia 16 próximo). Seu Plínio pediu que eu soletrasse o nome do vinho francês. Depois o nome da uva, a Gamay. Expliquei que a cada ano ele tem um sabor diferente, uma surpresa buscada por seus admiradores. Mas seu Plínio disse que não arriscaria. “Ninguém aqui vai entender esse francês. Fico como o meu, que tem nome de passarinho”. Não se pode ver nada de errado na escolha de seu Plínio.

7.11.06

Liberdade para os glutões

Agora, sim. Podemos comer quantos doces quisermos, quantas batatas fritas e picanhas suando gordura desejarmos. Calorias e carboidratos que se danem! E isso graças a uma substância natural encontrada fartamente nos vinhos tintos, o já famoso resveratrol, um componente produzido pelas uvas, entre outras plantas e frutas.
Pelo menos, amigas, isso é o que demonstram pesquisadores da Escola Médica de Harvard e do Instituto Nacional Envelhecimento, ambos nos Estados Unidos. Eles publicaram os resultados de suas novíssimas pesquisas agora no início de novembro na revista Nature.
Segundo o trabalho desses cientistas, grandes doses diárias de resveratrol podem compensar dietas demasiadamente calóricas, em nada saudáveis, aquelas que promovem ou agravam o problema da obesidade em todo o mundo. E faz mais: mesmo com essa dieta e mesmo entre obesos, o tratamento com o fenólico pode prolongar nossas vidas, mais que entre magros que não consomem essa dieta de alta caloria.
Tudo isso se nós, humanos, respondermos ao resveratrol tal como camundongos de laboratório o fizeram. Pois é: primeiro experimentaram neles. Somos as próximas na fila.
O resveratrol é encontrado, entre outras frutas, em grandes quantidades nas cascas das uvas e, portanto, também no vinho tinto. Ele é tido como o responsável pelo chamado Paradoxo Francês, o intrigante fato que deixa o povo francês gozar de uma dieta gordurosa e sofrer menos com doenças cardiovasculares do que os americanos, por exemplo. Essa teoria foi exposta em 1992 na TV, no programa 60 Minutos e fez aumentar a procura pelo vinho tinto em todo o mundo de uma hora para outra.
Os pesquisadores alimentaram um grupo de camundongos com uma dieta na qual 60% das calorias se originavam de pura gordura. Esse regime começava quando os ratinhos, todos machos, atingiam um ano de idade, equivalente à nossa meia-idade.
Como era de se esperar, os camundongos desse grupo logo apresentaram sinais de diabetes, de fígados aumentados e acabavam morrendo muito mais cedo do que o grupo de ratinhos alimentados com uma dieta padrão.
Aí entra um terceiro grupo de ratinhos. Foram alimentados com dieta de muita gordura, tal como aconteceu com a primeira turma. Só que, além dessa alimentação, eles consumiam uma grande dose diária de resveratrol.
O resveratrol não impediu que ganhassem peso ou que ficassem gordos como barriquinhas, tal como os do primeiro grupo. Mas evitou os altos níveis de glicose e insulina na corrente sangüínea, sinais evidentes de diabetes. Além disso, os seus fígados mantiveram-se no seu tamanho normal.
Agora, o mais espantoso: o resveratrol fez com que os ratinhos desse ganhassem mais tempo de vida.
Eles morreram muitos meses depois do que os camundongos alimentados com muita gordura. E no mesmo período de tempo do que os ratinhos com a dieta padrão, saudável.
Ou seja: tiveram todos os prazeres desfrutados por um glutão, mas sem pagar com diabetes, doenças cardíacas etc.
Os pesquisadores tentaram também estimar o efeito do resveratrol na qualidade da vida física dos camundongos. Fizeram os ratinhos andarem no equivalente a uma espécie de esteira ergométrica. E a turma que consumia resveratrol saiu-se melhor na media em que envelhecia, terminando com o mesmo nível de potência física do que os que consumiam a dieta normal.
Os pesquisadores foram liderados por David Sinclair e Joseph Baur, na Escola Médica de Harvard, e por Rafael de Cabo, no Instituto Nacional de Envelhecimento.
Acham que, em princípio, o seu estudo mostra que o resveratrol, consumido “em doses apropriadas, pode reduzir muitas das conseqüências negativas do consumo excessivo de calorias e ainda melhorar a saúde e estender o tempo de vida dos humanos”.
A amiga está pensando em imediatamente aumentar a quantidade de taças de vinho tinto no seu dia-a-dia? Não é por aí, cuidado!
Os nossos simpáticos ratinhos consumiam uma pesada dose de resveratrol: 24 miligramas por quilo de peso.
O vinho tinto pode ter entre 1,5 a 3 miligramas de resveratrol por litro. Portanto, uma pessoa lá nos seus 70 quilos precisaria beber entre 1.500 a 3.000 garrafas de vinhos todos os dias para chegar à dose consumida pelos ratinhos.
Convenhamos, amigas, pode ser a quantidade de resveratrol ótima para estender a sua vida de glutona. Mas é álcool demais para qualquer pessoa, não é não? Você não vai viver a tempo nem para curtir aquela ressaca.
Existem empresas que vendem extratos de resveratrol. Uma delas é a Longevinex. Seus comprimidos, alega ela, podem conter de cinco a 15 taças de um bom vinho tinto. Saiba mais sobre ela aqui.
Fico intrigada é com o fato de que o Dr. Sinclair, figura principal nessa pesquisa, é também o fundador de uma empresa, a Sirtris Pharmaceuticals, responsável por desenvolver várias drogas que imitam a ação do resveratrol.
Seria melhor, pelo menos para a minha cabeça, que o grupo responsável pela pesquisa não tivesse qualquer tipo de relacionamento (em particular o comercial) com drogas que competem ou imitam o principal pesquisado: o resveratrol.
A Sirtris está testando uma dessas drogas, que seria uma versão melhorada do resveratrol, com o objetivo de verificar se ela ajuda a controlar os níveis de glicose em diabéticos. Um dos executivos da empresa diz que não acreditar que se possam alcançar níveis terapêuticos em humanos com o resveratrol comum.
Enfim, vamos esperar para ver. Enquanto isso, que tal uma tacinha de vinho? Ela vai valer pela bebida, pelo prazer que nos dará e não pela suposição de que é um remédio.

31.10.06

Análise sensorial dos vinhos

Para muita gente, muita mesmo, crítica de vinhos se resume a uma análise sensorial. Muitos, mas muitos mesmo, sugerem que o vinho só pode se avaliado em seus termos, ou seja: que a única coisa que realmente importa quando tentam determinar se um vinho é “bom ou não” é a sua combinação de aroma, textura, sabor, acidez, estrutura de taninos e complexidade.
O resultado desse tipo de análise sensorial (ou crítica de vinhos) é uma nota com três ou quatro linhas e um escore numérico. E, pronto, está feito o trabalho do crítico.
Não há dúvidas de que esse enfoque tem muito de verdadeiro. A análise sensorial é o coração da crítica de vinhos. O que está na garrafa importa muito. Mas não é a única coisa que importa. E quem não concorda com isso pode ser considerado pelo menos ingênuo dos contextos, dos ambientes em que se vive a experiência do vinho.
O entendimento, a avaliação e o pleno prazer de um vinho depende de muitas camadas desse contexto, cada uma delas ajudando a construir um quadro completo da bebida. E que camadas e que contexto seriam esses?
Os sentidos. Os analistas sensoriais (os críticos de vinho) começam colocando um pouco de vinho na taça. Fazem-na girar. Apreciam a cor, a viscosidade e os brilhos através do cristal. Inalam o vinho profundamente e avaliam seus aromas. Depois o bebem para sentir sua textura na língua e sentir seus sabores. Depois o engolem (ou cospem, se forem degustadores profissionais) e cuidadosamente avaliam aromas e sabores que ainda ficam na boca. Essa é a raiz de toda a apreciação de vinhos. Mas não é tudo. Falta alguma coisa.
Tipicidade. O mais teimoso dos críticos admitirá que uma avaliação apropriada do vinho compreende pelo menos uma camada adicional ao contexto puramente orgânico.
O conhecimento da variedade de uva utilizada na feitura do vinho e de onde elas cresceram permite ao provador avaliar melhor o vinho. O crítico poderá, ao menos, analisar se esse vinho é típico daquela uva e se é uma expressão do lugar onde ela cresceu. Mas faltam ainda mais camadas.
Humanidade e História. Além da garrafa e da uva, além da geografia da origem, todo vinho encerra sem dúvidas um contexto humano. Alguém preparou o solo e podou as vinhas. Certo que é mais de um alguém. Todos os vinhos têm uma história humana, a das pessoas que os criaram e cuidaram. Para entendermos completamente o vinho que provamos precisamos também considerar essa história.
Claro que o consumidor comum não tem obrigação de saber sobre quem fez o vinho, nada além do que está no seu rótulo, que muitas vezes não reconhece ou consegue pronunciar. Pode nunca saber da história de duzentos anos de uma família inteira de vinicultores. Ou a história pessoal de um produtor que começou no campo, colhendo uvas com as mãos. Essas coisas não são essenciais para o prazer de beber-se um vinho.
Mas são para mim. E deveriam ser para quem se considera um sério adepto da bebida. Uma crítica de vinho sem a história de quem fez e de onde veio o vinho é, em minha opinião, um mero exercício de juntar adjetivos (nem sempre inteligíveis) e um daqueles números, o placar final, a indefectível nota.
Cultura. Claro que a amiga já ouviu muitas vezes a frase: “Vinho é cultura”. Não poderia ser outra coisa. A bebida de reis e faraós, o salário dos soldados romanos, um sacramento secular, o ganha-pão de monges medievais e muito mais.
Na maioria dos lugares com uma história de mais de quatrocentos anos, a identidade dos seus vinhos está definitivamente emaranhada com as desses lugares. Os nomes (talvez complicados) dos vinhos franceses, italianos e alemães identificam ao mesmo tempo esses vinhos e suas cidades.
Quando colocamos um pouco deles em nossa taça estamos na verdade participando da evolução da cultura de um determinado lugar e de uma certa época.
Pense só: por que os Pinot Noir da Nova Zelândia, da Califórnia e da Borgonha têm sabores diferentes? Para responder a essa questão você tem que saber um pouquinho sobre as características do solo e do clima de cada um desses lugares e das leis que regulam a produção de vinhos em cada um deles e das práticas e tradições incorporadas pelos vinicultores dessas regiões. O produtor do vinho pode introduzir algumas diferenças estilísticas entre os vinhos, mas com freqüência elas são muito mais profundas do que essas práticas.
Ensopado de cordeiro e Chianti. Muscadet e ostras. Rioja e tapas. Essas combinações de vinhos e comidas não foram inventadas por nenhum chef, não resultam de nenhum experimento culinário. São produtos de um lugar específico e de uma época. Antes que o mundo do vinho ficasse globalizado, a maioria das pessoas bebia apenas os vinhos de sua vila, cidade ou, talvez, de suas regiões. Não surpreende, portanto, que aqueles vinhos tenham se apresentado com complementos perfeitos para as cozinhas e paladares locais.
Portanto, não é possível que os críticos de vinhos e mesmo os amantes da bebida ignorem a importância de entendermos de onde e quando vem o vinho no contexto da cultura mundial. Mas falta ainda uma camada nesse contexto.
Emoção e memória. Todas nós que gostamos de vinho tivemos, temos e vamos continuar a ter nossas experiências “perfeitas”. Aquele vinho no piquenique pra lá de simples, ao lado do namorado, aquela garrafa comprada na venda perto de casa resultaram num momento mágico. A luz da lua, o amor de sua vida (naquele momento) e o vinho que a cada gota parecia até melhor do que a hora desfrutada. São taças que você nunca esquecerá, mesmo com um novo namorado. Nunca deixe de fazer piqueniques.
Pois essa é a camada final do contexto que tentamos descrever. Ela compreende nossa psicologia, emoções e memória. Os melhores vinhos que provei foram quase sempre nas melhores companhias.
As amigas nunca me viram analisar sensorialmente um vinho na base de adjetivos e notas numéricas. Eu busco sempre um contexto que englobe os sentidos, as pessoas, a terra, as culturas, a história, a comida e a emoção. E dessa maneira não apago de minha memória vinhos fabulosos e namorados sofríveis. E vice-versa.

Sinais de mudança

Um amigo acaba de me presentear com um Cabernet chinês na certeza de que eu torceria o nariz. Não paro de ler sobre bons Chenin Blanc da Índia, sobre vinhos da Romênia, da Croácia, Grécia, Hungria, México, sem falar de conhecidos recém-chegados: os vinhos argentinos, chilenos, uruguaios, brasileiros, neozelandeses. E até da Inglaterra! Faz tempo que China e Índia produzem vinhos. A novidade é que indianos e chineses os estão consumindo mais e mais e os produzem com mais qualidade.
Meu amigo espantou-se quando disse que bebi com prazer o tal vinho chinês: um vinho honesto, uma demonstração de como equipamentos e técnicas modernas de produção se expandiram, resultando em produtos simples, baratos e decentes – em qualquer ponto do planeta.
O próprio presente do amigo já demonstra que alguma coisa está acontecendo. Noutros tempos eu ganharia um Bordeaux. Mas o chão de um sistema que parecia tão firme começa a tremer: vem aí uma reviravolta no mundo dos vinhos.
Tanto na Índia quanto na China o consumo de vinhos vem crescendo aceleradamente, em gordas taxas anuais de dois dígitos. Imaginem só uma fração dos bilhões de habitantes desses dois países em idade legal de beber transformando-se em fiéis consumidores de vinhos. Seria como jogar o Jô Soares num bidê cheio de vinho. Não sobraria uma gotinha.
Mesmo desconsiderando esses bilhões de novos admiradores de vinho, o mundo irá precisar de novos consumidores. Isso já está acontecendo se a França continuar a perder consumidores dentro de casa. Ela já foi o país que mais consumia vinho. Mas o francês hoje está bebendo 50% menos vinho do que em 1960, fato que está provocando uma pequena guerra civil entre produtores, governo e comerciantes. O aquecimento global é outro ator importante nessas mudanças: ele promete prejudicar bastante a produção do sul da França, sul da Itália, de toda Napa, Califórnia, e de toda a Espanha.
Essa revolução pode ser sentida também na mídia especializada, com as revistas bem estabelecidas, como a Wine Spectator, já sentindo os efeitos dos blogs. Existem na web hoje cerca de 20 milhões de blogs. E uma já influente parte desse novo meio é dedicada a vinhos. Só que seus autores e leitores apresentam atitudes e expectativas bem diferentes a respeito do vinho do que as adotadas hoje pelo coração da indústria do vinho (grupos de consumidores, críticos, restauradores, comerciantes). Vejam o que o filme “Sideways” promoveu na América: uma inesperada corrida atrás dos Pinot Noir. Vejam o crescimento dos vinhos orgânicos e biodinâmicos. O novo consumidor respeita, mas não adota os hábitos dos mais velhos ou do crítico laureado.
Sim, os recém-chegados também podem produzir vinhos simples, de qualidade e baratos. E daí? Mudanças acontecem sempre. E serão sempre bem-vindas. Então, leitor, brinde com vinho esses sinais. Mas evite os tênis chineses.

24.10.06

Perguntas e Respostas

O título já diz tudo: aproveito para atualizar a pilha de perguntas que chegam via e-mail.
Pergunta: Leitora quer saber se é verdade se aquela concavidade na base da maioria das garrafas de vinho serve mesmo para ajudar no serviço da bebida, criando uma “pega” para o vasilhame. E também se é verdade que quanto mais profunda essa depressão melhor é o vinho, pois ela teria relação com pressão.
Resposta: Essa concavidade é uma lembrança dos tempos em que o vidro das garrafas era muito frágil e ainda feito artesanalmente por sopradores. Foram eles que criaram essa depressão pensando em fortalecer a garrafa. Esse recurso foi muito útil principalmente para as garrafas de Champagne, onde a pressão interna é muito alta e constante. O vidro moderno é muito mais forte e as garrafas são produzidas industrialmente, por máquinas, sem a necessidade dessas concavidades. Falam também que elas ajudam a reunir sedimentos do vinho ou facilitar servir a bebida (isso se o leitor tiver polegares muito fortes). Bobagem. A verdade é que são mantidas por uma tradição puramente estética, embora não duvide que, quanto maior for a concavidade mais forte parecerá a garrafa (e o vinho). Logo: uma questão de estética e de marketing.
Pergunta: Dois leitores brigam pela mais antiga região demarcada de vinhos: um diz que é a França, outro que é a Alemanha.
Resposta: Ninguém ganhou. A mais antiga região demarcada do mundo foi criada em Portugal, no Douro, e tem 250 anos. Vamos lembrar que na antiguidade Portugal exportava vinhos para o Império Romano. Os vinhos franceses vieram muito depois.
Selecionei essa questão de propósito, pois o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto vai realizar uma degustação de seus vinhos no Rio no próximo dia 6 de novembro, a partir das 16 horas, na Casa de Cultura Julieta de Serpa, um palacete no Flamengo. Um importante acontecimento que vai marcar justamente os 250 anos dessa primeiríssima região demarcada. Para degustar as preciosidades a serem apresentadas, os chefs Francesco Carli (do Cipriani), Frédéric de Maeyer (do Eça) e Mónica Rangel, (do Gosto com Gosto, de Visconde de Mauá) criarão entradas e sobremesas especiais.
Pergunta: O vinho das garrafas magnum é exatamente o mesmo das garrafas comuns? Ou seja, o leitor acha que o vinho colocado nas garrafas de 1,5 litros não é o mesmo do que vai nas garrafas de 750 ml.
Resposta: Leitor, é o mesmo vinho, pode ter certeza. E é sempre o mesmo vinho o que vai para as meia-garrafas ou para as de 187 ml (também chamada de Pony ou Split – utilizadas quase que exclusivamente para espumantes) ou para qualquer um tamanhos de garrafas de vinho. Alguns produtores usam a magnum ou a jeroboão (3 litros), a Balthazar (12 litros) ou a Soverign (50 litros) ou para qualquer dos 13 tamanhos dessas garrafas, pois acreditam que o vinho nelas amadurece mais lentamente (ou seja: um recipiente mais apropriado para a guarda dos vinhos). Além disso, a produção dessas garrafas é muito pequena e por isso conseguem preços mais altos junto aos colecionadores.
Pergunta: Qual a melhor maneira de removermos uma rolha que suspeitamos esteja muito saturada, perigando de esfarelar-se dentro da garrafa?
Resposta: Em primeiro lugar, eu esqueceria imediatamente o saca-rolhas comum. Depois, tentaria utilizar aquele outro, de duas lâminas. É só colocar cada lâmina entre a rolha e o vidro do gargalo da garrafa e delicadamente forçar os dois dentes até quase o limite do cabo (ou da empunhadura, onde os dentes estão fixados). Com jeito, torcer para direita e esquerda e ir puxando. A rolha costuma sair.
Outra maneira é utilizar o saca-rolhas de injeção de gás: com uma agulha através da rolha injeta-se gás inerte na garrafa, resultando na expulsão da tampa. Uma versão mais comum é uma “bombinha” que, também através de agulha, injeta ar que acaba fazendo sair a rolha (e às vezes explodindo a garrafa).
Contudo, talvez nada disso dê certo. Então, relaxe. Tente tirar com o saca-rolhas comum. O que de cortiça se desfizer dentro da garrafa pode ser retirado com um filtro de papel (aquele utilizado para coar café) ou uma gaze de musselina. Nesse caso, não esqueça do decantador.
Pergunta: Leitora quer remover rótulos de vinho para utilizá-los como referência. Já tentou com água quente e fria, sem bons resultados. Existem produtos específicos para essa tarefa?
Resposta: O caso é que alguns rótulos são colados (cola comum) e outros adesivados (cola industrial, mais potente). Os colados são mais fáceis de retirar, pelo menos para mim. Coloco a garrafa em água morna por 20-30 minutos e, pronto, o rótulo se solta.
Os adesivados são bem mais difíceis. Precisamos de alguma coisa que derreta o adesivo. Tento com o secador de cabelo, coloco a garrafa no forno do fogão (numa temperatura bem baixa) por uns 10 minutos e depois uso uma lâmina (uma gilete) e experimento com muita calma a retirada do rótulo.
O segredo principal é tentar tudo isso primeiramente no contra-rótulo. Se funcionar nele, funciona no principal. O único problema é se a leitora resolver colecioná-lo também.
Pergunta: O que significa VDQS?
Resposta: “Vin Delimite de Qualité Superieure” (mais ou menos “Vinho Delimitado de Qualidade Superior”) é uma designação exclusivamente francesa relativa à qualidade dos vinhos entre “Vin de Pays” e “Appellation Contrôlée”. A categoria VDQS responde por menos de 1% da produção de vinhos na França e serve mais como um campo de testes para pequenas regiões viníferas, muitas das quais poderão ganhar, mais tarde, o status de Appellation Contrôlée. “Vin de Pays” é o vinho regional, uma categoria criada para encorajar a produção de vinhos que sejam superiores em qualidade ao “Vin de Table” (vinho de mesa), o mais básico nível de vinhos no país (apenas 12% da produção nacional). Continuando na mesma letra, temos também o VDN, abreviação de “Vin Doux Naturel”, um vinho que, como diz o nome, seria doce pela própria natureza. Só que, interessante, eles são adocicados artificialmente. Isto é: o açúcar contido na uva, que viraria álcool pela ação dos levedos, tem a sua transformação interrompida pela introdução de alguma aguardente. O fermento morre e sobra vinho com muito açúcar.
Pergunta: Leitora quer saber se o crítico Robert Parker Jr. é mesmo a pessoa mais influente no mundo dos vinhos atualmente.
Resposta: Poderia citar uns 50 nomes que hoje possuem influência direta sobre o estilo de vinhos que consumimos. Eles são ora vinhateiros, produtores, escritores, críticos, comerciantes ou empresários. O que temos de considerar é a palavra “direta”. Por exemplo, temos o empresário Georg Riedel, criador das famosas (e caríssimas) taças Riedel, que revolucionaram a qualidade dos copos onde os vinhos são servidos. Pois o famoso Riedel tem grande influência apenas na maneira através da qual o vinho é apresentado. Mas nenhum controle sobre o estilo dos vinhos.
Quanto a Robert Parker: não se pode negar que ele continua a ter enorme influência nos paladares dos consumidores, em particular dos norte-americanos e na maneira com que alguns vinhos são feitos ao redor do mundo, principalmente os Cabernet Sauvignon e os clássicos blends de Bordeaux. Advogado, transformou sua paixão pelo vinho em ganha-pão ao lançar em 1978 a sua newsletter (“Wine Advocate”) com avaliações de vinhos. Ele criou uma escala de 100 pontos para pontuar os vinhos, um sistema digamos simplístico que caiu no gosto dos norte-americanos. Uma nota 90 ou acima é sinal de status e venda certa para o vinho – o que leva produtores a serem acusados de adaptar seus estilos para agradar ao paladar de Parker. Ninguém pode negar o poder da influência desse norte-americano. Mas ela vem preocupando muitos produtores, que agora se distanciam de Parker. Sua influência vem lentamente diminuindo.
Mas para mim a mais importante pessoa a moldar do mundo dos vinhos hoje é você, sou eu, somos nós os consumidores.

19.10.06

Château Picard 2267

Sim, duas garrafas de um vinho da safra do ano 2267 foram vendidas por US$ 6.600,00 (R$ 14 mil). Mais caras do que o Château Petrus 2005 (US$ 3.300,00 a garrafa), considerado o vinho mais caro do mundo atualmente. Um absurdo de caras principalmente considerando que as garrafas do Picard 2267 estavam vazias. Sim, compraram apenas as garrafas. Mas como isso é possível? É que no mundo da ficção, amiga, tudo é possível. E, como veremos mais adiante, no mundo dos vinhos também.
Essas duas garrafas do século 22 pertenciam ao Capitão Jean-Luc Picard (na vida real, o ator Patrick Stewart), comandante da nave estelar Enterprise, da célebre série “Jornada das Estrelas”.
Elas aparecem como parte do cenário de uma seqüência festiva do 10º longa metragem da série, Nêmesis, filme de 2002. E conseguiram recentemente essa alta cotação num leilão da Christie’s de Manhattan, Nova York.
Só sei disso porque meu sobrinho, o Guilherme, é mestre em ficção científica. Sabe tudo sobre a “Jornada nas Estrelas”. Ele me revelou que o Capitão Picard nasceu e foi criado no vinhedo da família, em Labarre, França. Seu pai é um excelente vinicultor e cuida dos vinhos com seu filho mais velho, Robert. Labarre é um lugar naturalmente ficcional, embora exista um bocado de La Barre: nos departamentos de Jura, de Haute-Saône, na Vendéia (La Barre-de-Monts) etc.
Essas garrafas faziam parte do leilão 40 Anos de Star Trek: a Coleção, realizado de 5 a 7 de outubro passado para celebrar o quadragésimo aniversário da série. O leiloeiro reuniu mais de mil lotes com material da série na televisão e no cinema, com figurinos, objetos de cena (como as garrafas do Château Picard), cenários, modelos das várias Enterprises e das naves alienígenas e das estações espaciais. O destaque no leilão foi a cadeira do primeiro comandante da nave estelar, o Capitão James Kirk, estimada entre 8 e 12 mil dólares.
Mas, diacho, porque estou falando de garrafas vazias de vinho do século 22? Existe um mercado para elas, colecionadores vidrados pela “Jornada das Estrelas” e devidamente enricados que as compram. Com essas garrafas, objetos de cena etc. embarcam num mundo imaginário. Nada de mais nisso. Se gostassem de vinhos, as garrafas deveriam de estar cheias, penso eu.
Essa nota poderia servir apenas como uma curiosidade. Mas ela também funciona como uma lembrança que infelizmente nada tem de ficcional. Um símbolo que se origina do filme onde elas aparecem: Nêmesis.
Nêmesis é a deusa grega da ética, da retribuição, da justiça distributiva, que lutava contra, por exemplo, o excesso de riqueza ou de felicidade de uns e a extrema pobreza e o infortúnio de outros. Estaria desempregada no Brasil.
Pois no filme, a história é principalmente a das terríveis conseqüências que teria a trama de substituir o Capitão Picard, o nosso “mocinho”, por um clone. Claro que o “bandido” é o clone, cujo objetivo era o de levar à Terra uma forma de irradiação capaz de eliminar toda a vida em nosso planeta, me conta o Guilherme.
Onde entra a Nêmesis? Temos um Capitão Picard bom, que vive para salvar a Terra e planetas dessa e de outras galáxias. E tempos um clone seu: um Picard mau, capaz de nos destruir. A justiça distributiva, que impede excessos, equilibra tudo, funcionou: o Picard mau é destruído à muito custo.
Pois temos também clones no mundo dos vinhos. São as uvas e fermentos geneticamente modificados. É sempre bom sabermos o que estamos comendo e, no caso, bebendo. Um simples suco à base de soja, por exemplo, pode conter um elemento estranho, algo que não foi devidamente pesquisado e que ninguém pode afirmar que vai se entender adequadamente com o nosso organismo. O pequeno momento de prazer proporcionado pelo suco pode muito bem roubar anos de nossa saúde.
O próprio Picard, o verdadeiro, era criticado pelo seu irmão vinhateiro, Robert, por beber synthehol, nome genérico lá naquelas alturas para bebidas alcoólicas artificiais, cujos efeitos intoxicantes eram todos ilusórios e não químicos (isso no vasto repertório do mundo criado pela série). Segundo seu irmão, Picard teria perdido o seu paladar pela “coisa verdadeira”, o vinho, pelo fato de beber synthehol, a ilusão.
Você deve ainda lembrar o bafafá que deu (e vai continuar a dar) essa história do governo aprovar o plantio de soja transgênica. Como é assunto que resulta na qualidade do que colocamos na mesa para comer e beber, que mexe com nosso prazer e saúde, achei que as amigas deveriam se interessar.
Frankstein. Esse você conhece: é aquela criatura, feita de partes de outros humanos, e que, ao final, se volta contra seu criador.
Parece um grão como qualquer outro. Mas inseriram nele um ou mais elementos que o transformam numa outra coisa, num transgênico – um alimento geneticamente modificado, resultado da transferência de um gene de um organismo para outro. Aqui também se opõem dois lados.
Cientistas descobriram como alterar diretamente os genes (unidades hereditárias ou genéticas situadas nos cromossomos e que determinam as características de um indivíduo ou de um alimento), permitindo que adquiram vantagens possuídas por outras espécies de plantas, animais ou humanos. Por exemplo, uma variedade de milho geneticamente modificada pode conter o gene tirado de uma bactéria que produz um tóxico químico que combate lagartas, larvas, dando ao grão uma defesa contra insetos nocivos. Essa tecnologia pode também promover colheitas mais volumosas que não necessitem de muitos pesticidas. Ou, ainda, conseguir plantas que se desenvolvam melhor sob condições difíceis, como as secas.
A oposição acha, porém, que a engenharia genética é uma tecnologia radical, que ultrapassa as barreiras genéticas entre humanos, animais e plantas. Ao combinar genes de espécies diferentes e não relacionadas entre si, comprometendo os códigos genéticos, criam-se novos organismos que passarão suas alterações adiante, através da hereditariedade. Os cientistas hoje estão retalhando, inserindo, recombinando, rearranjando, editando e programando material genético. Os genes de animais e mesmo humanos estão sendo inseridos em plantas ou animais, criando formas transgênicas nunca imaginadas. Pela primeira vez na história os seres humanos estão se tornando os arquitetos da vida. Engenheiros biológicos criarão dezenas de milhares de novos organismos nos próximos anos. Assim, a engenharia genética causa preocupação de ordem ética e social sem precedentes, fora desafios sérios para o meio ambiente, a saúde humana e animal e para o futuro da agricultura.
Onde está a Nêmesis?
Sempre cismamos com a tentativa de alterarem geneticamente as uvas. Mas será que o vinho feito de uvas geneticamente modificadas terá o mesmo sabor, o mesmo valor? Será que os alimentos em geral serão mais seguros? Os consumidores têm o direito e o dever de ter dúvidas e de saber mais. Na Inglaterra uma pesquisa consultou 37 mil pessoas. E 93% delas acharam que a tecnologia genética é movida por lucro e não pelo interesse público. Para eles, só produtores agrícolas (e seus fornecedores, os laboratórios) é que lucrariam com essa prática. Nós, consumidores, ficaríamos com os prejuízos.
Na Europa, Austrália e Nova Zelândia há séria oposição ao uso de uvas e fermentos (para uvas) geneticamente modificados. Mas nos Estados Unidos, o americano já consome soja e milho transgênicos. E recentemente colocaram no mercado um fermento (o ML01) que pode ser utilizado legalmente nas uvas (e, portanto, na produção de vinhos).
Ou seja, daqui um pouco vamos ter um clone do Capitão Picard em forma de uva e, naturalmente, sem que nada nos seja informado nos oferecerão um vinho dessa variedade mutante. Será uma Cabernet Franc ou Francstein? Será que passaremos algo parecido com o synthehol consumido na Enterprise?
Viu, amiga, como o mundo é pequeno e redondo, por mais distantes que sejam as galáxias? Começamos com um vinho do século 22, que não existe, mas que consegue aqui e agora um preço estratosférico.
Continuamos com a luta do Capitão Picard contra o seu clone. E já que falávamos de vinhos e seres falsos, aproveitamos o embalo (ou o empuxo, em se tratando de naves interestelares), para relembrar um perigo que ronda aqueles que, como nós e o irmão de Picard, o verdadeiro vinhateiro, insistimos em beber a “coisa verdadeira”.
Para dúvidas sobre bebidas e viagens especais clique para a Soninha Melier (e o Guilherme) via soniamelier@terra.com.br

16.10.06

Hermitager

Volto a uma história, já contada aqui, apenas para cumprir o prometido na coluna passada, completando a série de “casos” envolvendo a uva Syrah. É com essa uva que são feitos os tintos mais famosos da mais famosa “appellation contrôlée” do norte do Ródano, o Hermitage.
Um dos contos de Cross Channel (“Através do Canal” – não sei se já saiu uma edição brasileira desse livro) do premiadíssimo inglês Julian Barnes (“O Papagaio de Flaubert”, “Metroland”, o recente “Um toque de limão”, entre outros) é sobre duas solteironas inglesas que sem querer se envolvem com a Syrah. Compram uma propriedade no Médoc, em Bordeaux, para lá passar o resto dos seus dias admirando a beleza da paisagem ao longo do rio Gironde, com suas imponentes e históricas propriedades, como Latour e Margaux.
Mas recuperar as videiras e voltar a produzir um bom vinho seria outra e importante atividade da dupla. Resolvem estudar a matéria a fundo e começam a conhecer a realidade da cultura local. Na época, início do século XX, Bordeaux sofria com os desastrosos impactos da phylloxera, a praga que devastou quase todos os vinhedos não só da França, mas em quase toda a Europa. A recuperação foi muito difícil. Safras boas e vinhos bons eram acontecimentos improváveis. Como saída, uma parcela de vinicultores bordaleses e principalmente os comerciantes, importadores e engarrafadores adotaram como prática misturar ao vinho bordalês o Hermitage – um vinho potentíssimo, encorpadíssimo, de vida longuíssima. O hábito gerou até o verbo hermitager, um sinônimo de fraude. Na época, os vinhos eram vendidos em barris e só engarrafados depois de devidamente batizados com a Syrah do Ródano. As inglesas recusam-se ao embuste e conseguem com muito trabalho e seriedade produzir vinho legítimo, com o sabor da sua terra. honrando a sua geografia.
Mas o embuste acabou? Se antes era hermitager hoje temos o parkerizar, onde os vinhos, utilizando-se de técnicas e manipulações as mais variadas, é levado a ter mais taninos, mais álcool, cor mais profunda, mais sabores de frutas, mais corpo. Tudo isso para cair no gosto do maior crítico de vinhos do mundo, Robert Parker Jr. E, assim, ganhar as notas mais altas, ter o preço elevado e vender mais.
Não que Parker compactue com essa prática. Mas os produtores sabem de seus gostos e da influência de suas notas. Logo, “parkerizam” seus vinhos. É o “hermitager” contemporâneo.
O nome Hermitage (“Ermida”), título do conto de Barnes, já mostra o gato com rabo de fora. Ermida em francês é “ermitage”, sem o H. O nome do vinho ganhou essa marca inglesa desde o século XVII: um rastro dos que praticavam o “hermitager”. Hoje, “parkerizar” é prática do mundo globalizado. Existe em qualquer hemisfério com o vinho perdendo os valores conferidos por sua terra, o que foi evitado pelas solteironas do conto de Barnes.

2.10.06

Como você escolhe um vinho?

Decidir sobre a compra de um vinho não é nada simples. Numa loja, você fica diante de uma quantidade e variedade imensa de garrafas, centenas de rótulos, uvas, cores, estilos, safras, regiões e preços bem diferentes.
O preço pode limitar a sua escolha. Mas hoje as ofertas são inúmeras para qualquer nível de preço. Você, então, apela para o quê? Regiões, estilos, um rótulo um pouco mais ousado, a dica do vendedor?Afinal, o que nos leva a comprar um vinho do qual nunca ouvimos falar? Um blogueiro americano, Tom Wark fez essa mesma pergunta aos seus leitores, através de uma pesquisa online. Eis as respostas.
Para 33% deles, o produtor do vinho (a vinícola ou o vinhateiro) é o mais importante. Para 31%, é a uva, a varietal, o que vale mais. A região vem em terceiro lugar, com 18%, e o preço logo em seguida, com 17%. Curiosamente, o rótulo só é importante para 1% dos leitores. Contudo, rótulos com animais, por exemplo, vendem como água nos EUA. Esse resultado talvez possa ser atribuído ao nível de informação dos leitores do blog.
Quanto ao preço: para um vinho de até 15 dólares (R$ 32,00), 42% disseram que a uva é o que conta. Mas a partir daí tudo muda. Para os vinhos entre 15 e 30 dólares, 52% escolhem pelo produtor. Acima de US$ 30,00, 71% também confirmaram o produtor como primordial. Nos EUA (ou pelo menos para os leitores do blog) nota-se a influência do produtor e, portanto, do poder de uma marca.
Intrigado com a pobre colocação do item região, o blogueiro insistiu e fez uma pergunta extra: “Você está disposto a pagar mais por vinhos simplesmente porque eles são de uma região em particular?” E 67% disseram que sim e 33% que não. Os primeiros declararam-se como tendo um conhecimento mais profundo sobre a bebida.
Nesses tempos de globalização, de grandes conglomerados, o mundo dos vinhos também sofre o impacto da produção de massa, de marcas cuja origem passa a não ter importância.
Porém, o que interesse mesmo no vinho é a sua diversidade, onde a região, o seu solo de origem é primordial. É o tal do “terroir”.
Por séculos, a cultura global do vinho foi feita em torno de sua identidade geográfica, onde nasceu, cresceu e foi feito. Talvez porque a consciência de lugar ainda seja o processo mais básico e natural do aprendizado humano. Saber onde estamos é fundamental para a nossa segurança psicológica. Mas a aventura de conhecer novas plagas também é fundamental.
“Uma vez que tenhamos provado e conhecido 20 ou 30 varietais (quase 100% dos vinhos no mercado), o passo seguinte na escala educacional é a região”, afirma Roger Dial, editor da Appellation America, importante site sobre vitivinicultura nos EUA. “É impossível conhecer todos os produtores de vinhos com uva Merlot. O mais fácil é começar a distinguir entre Merlots de Bordeaux, da Itália, do Chile etc.”
Confere com a minha experiência pessoal. Numa loja de vinhos que tive em Petrópolis, RJ, cerca de um terço dos clientes (os mais “sabidos”) comprava vinhos pela região, outro terço pelo preço e os demais humildemente pediam nossa opinião. Eu os adorava.
Acho que há muitas maneiras para resolver essa questão. Para começar, a mais simples (e quase sempre eficiente) é começar a perguntar aos atendentes das lojas (de um supermercado até uma loja especializada, digamos, numa determinada região).
Você tem a impressão de que gosta de um determinado tipo de vinho (tinto, branco ou rosado etc.) e tem um limite de preço. Já é uma grande ajuda para o atendente - que com certeza lhe dará uma dezena de sugestões: uma delas será do seu gosto e do tamanho do seu bolso. Pronto, não foi difícil.
Outra dica é entrar para um clube ou uma confraria de vinhos. E lá você começará a aprender, aprender provando vinhos dos mais variados estilos – e descobrir quais os seus preferidos.
A Impexo, um importante importador e exportador de vinho, com sede no Rio e filial em São Paulo oferece um Clube do Vinho. Veja aqui.
Basta você se cadastrar para receber uma newlettter relacionada ao setor vinícola, com informações sobre degustações e promoções dos vinhos vendidos pela casa. A poderosa rede Pão de Açúcar tem as suas “Confrarias Pão de Açúcar”, que se propõem a “desvendar os mistérios da degustação de vinhos”. Você vai a qualquer filial da rede e se informa com o atendente da seção de vinhos como aderir a um desses grupos. Essa rede tem uma das maiores e melhores seções de vinhos do país, para esse tipo de loja. O que não é surpresa, pois a direção da casa entregou a parte de vinhos (das compras, à seleção e à promoção e educação) a um dos maiores especialistas em vinhos do Brasil, o crítico e historiador Carlos Cabral. Ele é um renomado especialista e historiador de vinhos (é autor da imperdível Presença do Vinho no Brasil) e fundador da mais antiga confraria de vinhos do país, a SBAV – Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, com sede em São Paulo (e hoje com filiais em vários estados).
Visite o site do Pão de Açúcar e saiba mais como inscrever-se nessas confrarias.
Existem sites na internet que se apresentam como clubes de vinho. É o exemplo do winept.com.
De qualquer modo, é mesmo difícil para qualquer um estabelecer a diferença, digamos, entre um vinho da uva Merlot de R$ 20,00 e outro de R$ 120,00, da mesma uva, do mesmo produtor e da mesma região. A primeira impressão é de que o mais caro é melhor.
Nem sempre, amiga. Existe uma fórmula fácil de aplicar: o custo de produção mais a quantidade quase sempre determinam o preço dos vinhos. Pagando muito por uma garrafa de vinho não significa que ele será bom. Pode apenas significar que o seu custo de produção foi alto – e, claro, quem vai cobrir esse custo é você. Considere também que esse custo não dita a qualidade do vinho.
É por isso que muitas vezes as pequenas vinícolas oferecem ótimos vinhos por preços bem mais convidativos.
Então, leitora, não se impressione com os preços e não pare de considerar a incrível variedade dos vinhos. Experimente o máximo que puder – de preferência aprendendo o que cada região tem a oferecer. E, sempre que possível, pergunte.
Hoje, a oferta de informações sobre vinhos na mídia é mil vezes maior do que nos tempos em que eu tinha a loja. Você tem todas as chances de fazer uma compra muito mais bem informada.

26.9.06

Happy hour e outras horas

Amigas, não recusem o tradicional happy hour das sextas-feiras. Façam como muita gente em todo o mundo e saiam com suas amigas (e amigos) para o bar de sua preferência.
Pois vocês sabiam que esse happy hour faz aumentar salários? Em resumo, o salário da turma que sai com colegas de trabalho para beber é maior do que o dos abstêmios ou daqueles que optam por não sair.Não, não se trata de um “achômetro”, mas de pesquisa séria realizada por uma ONG americana, a Reason Foundation, com base em Los Angeles, Califórnia.
Uma organização considerada pelo Prêmio Nobel de Economia Milton Friedman, um padrão de tolerância, civilidade e consistência na defesa das liberdades individuais.
A Reason patrocinou recentemente uma pesquisa realizada pela PhD e economista, Bethany Peters, e pelo professor de economia, Edward Stringham, também PhD. Os dois pesquisaram dados que colocavam na berlinda teorias de que a bebida promove efeitos econômicos desastrosos. E verificaram que o hábito de beber (moderadamente) e salários estão correlacionados positivamente.
Os dois PhDs analisaram principalmente uma pesquisa realizada nacionalmente sobre (o “General Social Survey” - “Levantamento Social Geral” - realizado anualmente pela Universidade de Chicago e que tem, entre outros, o governo americano como cliente). E concluíram que os homens pessoas que bebem ganham até 19% mais do que as abstêmias. Entre as mulheres, as que bebem socialmente chegam a fazer 23% mais. Tentaram também diferenciar quem bebe socialmente dos que não bebem comparando os salários daqueles que freqüentam bares pelo menos uma vez por mês com os que não freqüentam.
Observa-se que tipicamente os bebedores tendem a ser mais sociáveis dos que os abstêmios. Um economista, Philip Cook explicou num estudo anterior que beber é uma atividade social e uma das razões pelas quais as pessoas bebem é a de tornarem-se mais sociáveis. Em outro estudo (como o de Olé-Jorgen Skog, “Interação Social e a Distribuição do Consumo de Álcool”, de 1980), demonstra-se que os bebedores moderados possuem as redes sociais mais fortes.
A conclusão dos dois economistas é a de que beber socialmente leva a um aumento do capital social. E capital social para os dois professores significa “as características sociais de uma pessoa, suas habilidades pessoais, seu carisma e em particular o tamanho do seu caderninho de endereços, o que vai permitir que ela colha frutos de sua interação com outras pessoas”. Se beber socialmente aumenta o capital social, logo pode também aumentar salários. Analisando o um “Levantamento da Qualidade do Emprego” o economista Philip Cook verificou acabavam ganhando sempre menos.
O “Levantamento Social Geral” responde a questões como a freqüência com a qual os respondentes vão a bares e restaurantes, seus padrões salariais, suas características demográficas e costumes quanto às bebidas alcoólicas.
Fica claro no estudo que os “moscas de botequim” estão em perigo. A turma dos 35 drinques por semana está mais para o desemprego do que outra coisa. Não se trata também de apenas sair para “ver e ser visto”. Mas para trocar informações com amigos, fazer novas amizades, buscar novas oportunidades. Tudo isso além de um copinho de cerveja. Não esqueçam dos cartões de vista e do caderninho de endereços: não saiam do trabalho sem eles.Veja todo o levantamento (inclusive notas e referências).
Papa Benedito: o novo sommelier. A Associação Italiana de Sommeliers concedeu ao Papa Benedito XVI o título honorário de sommelier. O que está criando uma saia (ou batina) justa para o Vaticano. A Santa Sé não confirmou a notícia, embora a Associação Italiana de Sommeliers tenha declarado que o Papa aceitara o título. Isso acontece num momento em que líderes muçulmanos estão protestando contra por uma suposta e desrespeitosa intromissão do papa nos credos maometanos.
Recentemente, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad recusou a comparecer a um jantar oferecido pelo Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, porque seria servido vinho, impensável para um muçulmano rigoroso. (Na verdade, o iraniano não queria mais conversas com Bush, com quem trombou por causa de armas nucleares. E olha que Busch, presente ao jantar, é outro abstêmio convicto).
Será que o Papa recebeu esse título por dizer que “era um humilde servo no vinhedo do Senhor”, no seu discurso inaugural? Ou porque compareceu a uma cerimônia de iniciação a sommeliers, quando recebeu um “Taste-Vin” de prata (uma pequena taça de metal utilizada para provar vinhos)?
A porta-voz do Vaticano, Irmã Maria Elizabeth declarou à revista inglesa Decanter que não existe um registro oficial da honraria e que, de qualquer modo, “isso não é realmente uma prioridade para o Papa”.
Vinho e religião. Como vimos, vinho e religião podem causar problemas, mesmo para aqueles afeitos ao vinho como um sacramento. O vinicultor Stephen Reustle, dono da “Prayer Rock Vineyard” (mais ou menos “Vinhedo da Pedra da Oração”), um cristão devoto, imprimiu um verso da Bíblia em cerca de 6000 rolhas e colocou em garrafas do seu Pinot Noir, Syrah e Riesling. Tirou a idéia de um outro vinhedo, que usa as rolhas com uma citação de Mahatma Gandhi.
A citação é do Eclesiastes: “Beba o seu vinho com o coração feliz, pois Deus o aprova”.
Mas nos Estados Unidos assuntos da igreja não se misturam com os de estado. E o nosso vinicultor foi oficialmente avisado pelas autoridades que deverá retirar a menção ao Velho Testamento (a alegação formal era a de que “não se pode criar uma informação enganosa a partir de chamadas curativas ou terapêuticas em embalagens ou criar associações duvidosas entre consumo de álcool e saúde...”). Reustle poderá no máximo vender as garrafas já arrolhadas e não repetir o feito nas próximas.
Em resumo, se as amigas não tiverem problemas com religião e bebidas, o negócio é aproveitar a próximo happy hour, sexta-feira. Vai fazer novos amigos e possivelmente aumentar seus salários.

Vinho, cerveja e babosa

Vinho X Cerveja. Sempre me perguntam porque prefiro vinho à cerveja. Vejam: eu bebo cerveja, gosto muito. Mas prefiro vinho. O assunto poderia terminar aqui. Mas como acham que sou a “expert” em bebidas me cobram as razões, uma postura racional, didática. Só levando no bom humor. Mas conheço um colega, Mark Fisher, que escreve o blog “Uncorked”, e oferece alguns bons motivos para justificar a minha preferência.
10 razões que tornam o vinho melhor que a cerveja:
1. A amiga já ouviu falar de uma “barriga de vinho”?
2. As taças de vinho pesam menos do que os canecos de cerveja.
3. Com o vinho, você arrotará menos (caso evite muita Champagne). Desculpem: poderia optar por “eructação”, que, para mim, equivale a dois arrotos lingüísticos.
4. Com vinho você vai bem menos ao toalete, concorda?
5. Ainda não vi nenhum filme onde a cerveja seja a estrela principal e ainda por cima é indicada para o Oscar (tal como aconteceu com Sideways, ano passado).
6. Vinho envelhece melhor (assim como aqueles que o bebem).
7. Jesus não transformou água em cerveja. Esse milagre hoje está a cargo das cervejeiras, que conseguem transformar cerveja em água num instante.
8. O vinho vai melhor com qualquer tipo de comida e não apenas com lingüiça, fritas e pastéis.
9. Nenhum homem vai ganhar pontos conosco se disser que sabe tudo de cervejas. Caso ele dissesse isso sobre vinhos, sua nota seria próxima de 10, certo?
10. E, para acabar com a argumentação: o vinho é simplesmente a bebida mais deliciosa, mais variada e mais complexa do planeta. É incrível como o suco fermentado de uma fruta apenas, a uva, pode nos oferecer estilos tão diferentes de líquido. Isso é apenas uma amostra do que a maior crítica de vinhos e degustadora do mundo, em minha opinião, Jancis Robison, pensa sobre a bebida.
Mas, cervejeiros, não percam por esperar. Nas próximas colunas vou apresentar as 10 principais razões pelas quais a cerveja é melhor do que o vinho.
A babosa e as uvas. As uvas também usam protetor solar, tá pensando o quê? Você pega um bronzeado hoje e enruga amanhã. As uvas também. Pensando assim, um produtor de Napa, Califórnia, que adota o método biodinâmico em seu vinhedo, aplica um “chá” em suas uvas de modo a prevenir que murchem sob o sol. Essa solução junta algas (para absorver raios ultravioletas) e “Aloe vera” (babosa) como um suavizante.
O vinicultor é Aaron Pott e a vinícola a Quintessa , de propriedade do casal Agustín e Valeria Huneeus. São 113,3 hectares em Rutherford onde produzem um blend de cabernet e merlot com o mesmo nome da vinícola, Quintessa. E que já recebeu extraordinários 94 pontos da revista Wine Enthusiast.
A vinícola não deixa de usar as formas tradicionais para abrandar o calor no verão: poda adequada das folhas e ramos das videiras e a rega da vinha com água fresca.
O composto de algas e babosa está relacionado com a biodinâmica, uma forma de agricultura onde é proibido o uso de pesticidas, herbicidas e fertilizantes artificiais e promove a diversidade no plantio e da vida animal para controlar pestes.
Os vinhos orgânicos já são uma realidade no mercado. Nossa ignorância dizia que a cultura do vinho, baseada na tradição de séculos, já seria intrinsecamente orgânica. Mas não. Com tantas pestes, o vinicultor é levado a utilizar elementos químicos e sintéticos. Solução que pode ser a final.
A agricultura orgânica preocupa-se com danos ao ecossistema. Suas técnicas foram popularizadas e nomeadas pelo fazendeiro e editor norte-americano J. I. Rodale em 1946, quando deu nome a esse novo sistema: Orgânico. Basicamente, os produtores de vinhos orgânicos evitam usar material químico e sintético no solo, nas vinhas e no produto acabado.
Mais antigo, o Sistema Biodinâmico parte de escritos do filósofo austríaco Rudolph Steiner, em 1924. É mais radical, principalmente no que é adicionado à terra, com preparados tirados da homeopatia para regular e melhorar o crescimento da vinha e a fertilidade do solo (e evitar ainda a erosão e proteger a quantidade e qualidade da água). Ainda lembramos que 60% de todos os herbicidas, 90% de todos os fungicidas e 30% de todos os inseticidas são cancerígenos segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.
No caso da Quintessa, a teoria é a de que se uma planta se mostra resistente a insetos ou à seca é sinal de que possui qualidades que promovem essa resistência. Daí fazer um “chá” dessa planta e rega-lo em outra transferindo essa qualidade. Assim como nós humanos somos encorajados a nos hidratarmos no verão, o mesmo é verdadeiro para as plantas.
No Brasil, o único vinho orgânico certificado é o Velho do Museu, da Juan Carrau. Lá no sul não precisam de protetores solares, por enquanto.

25.9.06

Happy hour: a hora do lucro

Sexta-feira é dia de muita gente em todo o mundo tomar umas e outras com colegas de trabalho no bar preferido, ao fim do expediente, no happy hour. O leitor sabia que esse happy hour faz aumentar salários? Em resumo, o salário da turma que sai com colegas de trabalho para beber é maior do que o dos abstêmios ou daqueles que optam por não sair.
Não, não se trata de um “achômetro”, mas de pesquisa séria realizada por uma ONG americana, a Reason Foundation, com base em Los Angeles, Califórnia. Uma organização considerada pelo Prêmio Nobel de Economia Milton Friedman um padrão de tolerância, civilidade e consistência na defesa das liberdades individuais.
A Reason patrocinou recentemente uma pesquisa realizada pela PhD e economista, Bethany Peters, e pelo professor de economia, Edward Stringham, também PhD. Os dois pesquisaram dados que colocavam na berlinda teorias de que a bebida promove efeitos econômicos desastrosos. E verificaram que o hábito de beber (moderadamente) e salários estão correlacionados positivamente.
Os dois PhDs analisaram principalmente uma pesquisa realizada nacionalmente sobre (o “General Social Survey” - “Levantamento Social Geral” - realizado anualmente pela Universidade de Chicago e que tem, entre outros, o governo americano como cliente). E concluíram que os homens pessoas que bebem ganham até 19% mais do que as abstêmias. Entre as mulheres, as que bebem socialmente chegam a fazer 23% mais. Tentaram também diferenciar quem bebe socialmente dos que não bebem comparando os salários daqueles que freqüentam bares pelo menos uma vez por mês com os que não freqüentam.
A conclusão dos dois economistas é a de que beber socialmente leva a um aumento do capital social. E capital social para os dois professores significa “as características sociais de uma pessoa, suas habilidades pessoais, seu carisma e em particular o tamanho do seu caderninho de endereços, o que vai permitir que ela colha frutos de sua interação com outras pessoas”. Se beber socialmente aumenta o capital social, logo pode também aumentar salários. Analisando o um “Levantamento da Qualidade do Emprego” o economista Philip Cook verificou acabavam ganhando sempre menos.
Fica claro no estudo que os “moscas de botequim” estão em perigo. A turma dos 35 drinques por semana está mais para o desemprego do que outra coisa. Não se trata também de apenas sair para “ver e ser visto”. Mas para trocar informações com amigos, fazer novas amizades, buscar novas oportunidades. Tudo isso além de um copinho de cerveja.Veja todo o levantamento

18.9.06

Confrarias - Para a amiga do ABC

A Mariana Maziero estuda jornalismo numa universidade do ABC paulista e com mais dois amigos, está escrevendo matéria sobre vinhos. Um dos tópicos é sobre a mulher nesse pedaço. Mas o que ela quer mesmo saber é sobre as confrarias de vinhos: o que é discutido nesses clubes, como participar, como e quando são realizados os encontros, que cursos são ministrados, que tipo de vinho é mais consumido pelo sexo feminino, ou até mesmo o tipo de vinho indicado ao nosso sexo, como a mulher é vista nesse cenário? Ufa! E as perguntas não acabam aqui. Vamos lá.
Uma confraria pode ser definida como um grupo de pessoas que se reúne periodicamente para provar e debater sobre vinhos, sobre o assunto que mais lhe interessa, motivo desses encontros. Isso acontece desde os tempos de escola, de modo impositivo, quando éramos chamados para “grupos” de estudo, seminários disso e daquilo.
O que é discutido nesse grupo (ou confraria)? Ora, nas palavras de uma das maiores degustadoras e críticas de vinho do mundo, a inglesa Jancis Robinson, “vinho é simplesmente a bebida mais deliciosa, variada e mais complexa do planeta”.
- Para mim é incrível que o suco fermentado de uma única fruta, a uva, pode oferecer tantos e tão diferentes estilos em forma líquida. De cor quase branca, leve ao rico púrpura quase preto, macio e encorpado. Vem parado ou é um espumante, pode ser seco, sequíssimo ou doce, dulcíssimo.
E tudo isso vem do trabalho do vinicultor e da natureza. A uva pode oferecer um vinho de menos de 8% de álcool, passando pela média de 13,5% até mais de 15%. E, mais, os melhores vinhos têm a habilidade de durar por décadas (às vezes, por séculos). E não apenas durar, mas de melhorar com o tempo. Essa é a marca que definitivamente o diferencia de qualquer outra bebida. Além de tudo isso, o vinho carrega com ele muita história, a própria história da humanidade. E geografia para ele é crucial. Ele pode ser produzido por uma grande indústria ou por apenas uma pessoa, artesanalmente.
Poderíamos continuar e continuar. E tudo acima (e muito mais) é debatido, discutido, assim como num grupo de pessoas interessadas por futebol, culinária ou pôquer – as perguntas e o interesse são intermináveis. Como os tintos fermentam? E os brancos? Como conseguem suas cores, seus aromas, sabores? Como prova-los corretamente? Com que comidas eles podem combinar? Quais as temperaturas certas para servir essa bebida? As perguntas nunca acabam.
Qualquer pessoa pode ingressar numa confraria – basta ter o mesmo interesse por vinho, sem que necessite ser especializado ou um sommelier.
Agora, é bom diferenciar uma confraria, tal como a apresentei acima de um clube de vinho – que é uma entidade que cobra uma taxa periódica para que você receba determinados vinhos em casa. Ou para que você participe de reuniões de degustações assistidas por uma pessoa especializada. Ou mesmo para que você participe de cursos sobre vinhos.
No final, uma confraria acaba promovendo essas degustações e cursos, na medida em que o grupo aumenta. Acaba também sugerindo uma taxa para a compra de vinhos e até o aluguel de um espaço onde a turma possa se reunir.
Para que se tenha uma idéia da força que uma confraria ou um clube pode ter: um levantamento feito em 2004 pela vinícolas da Califórnia (o maior estado produtor de vinhos dos EUA) revela que 24% das vendas diretas de vinhos foram feitas para clubes (ou confrarias). É uma senhora fatia de mercado. Acho que nenhuma marca de vinho tem, sozinha, essa participação em vendas, em qualquer parte do mundo.
Criar confrarias e clubes são idéias que vêm sendo utilizadas com sucesso pelas vinícolas e comerciantes de vinho. A Impexo, um importante importador e exportador de vinho, com sede no Rio e filial em São Paulo (Rua Coronel José Eusébio, 95, Travessa Dona Paula), oferece um Clube do Vinho. Veja aqui.
Basta você se cadastrar para receber uma newlettter relacionada ao setor vinícola, com informações sobre degustações e promoções dos vinhos vendidos pela casa.
A poderosa rede Pão de Açúcar tem não as suas “Confrarias Pão de Açúcar”, que se propõem a “desvendar os mistérios da degustação de vinhos”. Você vai a qualquer filial da rede e se informa com o atendente da seção de vinhos como aderir a um desses grupos. O Pão de Açúcar tem uma das maiores e melhores seções de vinhos do país, para esse tipo de loja. O que não é surpresa, pois a direção da casa entregou a parte de vinhos (das compras, à seleção e à promoção e educação) a um dos maiores especialistas em vinhos do Brasil, o crítico e historiador Carlos Cabral. Ele é um renomado especialista e historiador de vinhos (é autor da imperdível “Presença do Vinho no Brasil”) e fundador da mais antiga confraria de vinhos do país, a SBAV – Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, com sede em São Paulo (e hoje com filiais em vários estados).
Visite o site do Pão de Açúcar e saiba mais como inscrever-se nessas confrarias.
Existem sites na internet que se apresentam como clubes de vinho. É o exemplo do winept.com.
Aí mesmo em SP, temo um clube do vinho do Tatuapé. É o Vinus Club.
E veja também no site da Academia de Vinho uma das mais completas lista de associações, sociedades e confrarias enológicas.
Tenho certeza que cada um dos endereços que estão lá serão ótima referência para o trabalho que você estão fazendo. Vale, porém, prestar atenção nas confrarias que estão sendo criadas por mulheres e para mulheres. É o caso da Confraria Amigas do Vinho, criada no Rio de Janeiro e já com filiais em SP, Paraná, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. As Amigas do Vinho são filiadas à International Associated Women in Wine e à FEBAVE – Federação Brasileira de Confrarias e Associações Femininas do Vinho e do Espumante. Não deixe de visitar as Amigas do Vinho.
Qual o tipo de vinho mais consumido pelo sexo feminino? Não existe isso de “vinho para mulheres” e “vinho para homens”. É uma falácia do sexo masculino tentando mais uma vez submeter-nos. Vocês já devem saber que as mulheres possuem propriedades degustativas mais apuradas do que a dos homens.
Uma das maiores redes de supermercado da Inglaterra, a Tesco, contrata grávidas para testarem seus vinhos - que oferece em grande quantidade, qualidade e a bons preços. A equipe que negocia e compra vinhos para essa rede é composta quase que exclusivamente por mulheres e suas seleções são sempre elogiadas.
Seria a divisão de vinhos da Tesco radicalmente feminista, um clube da Luluzinha, onde homens não entram? Não, o caso não é bem esse. Sob o prisma científico, os homens perdem para as mulheres quando o negócio é identificar e qualificar aromas e sabores em geral e dos vinhos em particular. Segundo estudo do Grupo de Pesquisa Multissensorial da Universidade de Oxford, Inglaterra, as mulheres são melhores na identificação de aromas e sabores.
Através de técnicas, como a da ressonância magnética, cientistas e médicos registram o que acontece no nosso cérebro quanto nos submetemos a ações, como a de cheirar, por exemplo. O fluxo do sangue mostra quais as áreas são acionadas e com qual intensidade.
Não só a Universidade de Oxford chegou a esse resultado. A da Pensilvânia, nos Estados Unidos, também: demonstrou que as mulheres usam o cérebro até oito vezes mais do que os homens quando cheiram alguma coisa. "Sua capacidade olfativa tem amplo limite de detecção e definição mais aguda e certeira".
Numa outra pesquisa, realizada pelo Centro de Sentidos Químicos da Filadélfia, demonstrou-se que as mulheres em idade reprodutiva têm sua sensibilidade olfativa aumentada. Explica o estudo que "a mulher, nessa fase, precisa encontrar o seu par; precisa identificar fontes de alimentos nutritivos e evitar elementos tóxicos". É a velha luta evolucionária pela sobrevivência.
A Dra. Linda Bartshulk, da Universidade de Yale, coloca as mulheres na categoria de superdegustadoras, onde apenas se situam 25% das pessoas para quem as sensações de aroma e sabor são mais intensas. "35% das mulheres são superdegustadoras; apenas 15% dos homens estão nessa categoria".
Um crítico de vinhos inglês, Peter Richards, resolveu fazer conferir ele mesmo essas pesquisas. Foi para uma loja de vinhos e testou 20 clientes ao acaso, entre homens e mulheres. Ofereceu uma série de três taças de vinhos: duas com um branco espanhol e uma com um chileno também branco, todas apresentando apenas sutis diferenças.
Uma em cada duas mulheres identificou os aromas, contra apenas um homem em cada seis. Richard recolheu o seu time. A identificação de aromas e sabores ainda é uma área profissional dominada pelos homens, no mundo dos vinhos. Sua competência vem da prática, do exercício de cheirar e degustar diariamente.
Outro fato: nos Estados Unidos, são as mulheres as maiores compradoras de vinho (compram 60% dos vinhos do mercado) e consomem tanto quanto os homens. Essa história de que vinho branco e rosado é só para mulheres é historia de machista.
O que acontece é que a indústria do vinho vem há séculos sendo um negócio de homens. E só recentemente as mulheres estão podendo colocar um pé nessa porta – seja como enólogas, jornalistas, comerciantes etc. Os preconceitos ainda existem. A nossa citada Jancis Robinson ficou furiosa quando recebeu da revista Decanter (também inglesa e uma das melhores publicações do ramo) o título de “Homem do Ano” (personalidade do ano no setor de vinhos).
O vinho deixou há algum tempo de ser um produto elitista. É hoje um produto de consumo geral. Hoje, os produtores estão abrindo mercados como o da China, aparentemente estranho a essa bebida. Mas que, como “novo rico”, está querendo (e podendo comprar) os gostos ocidentais.
O vinho já é um mercado consolidado no Brasil, apesar de nosso baixo consumo per capita (2% da população). Só que, como em qualquer outro segmento, tem gente que se aventura demais, sem estudar o produto e o mercado. E acontece o que aconteceu com a febre das locadoras há alguns anos.
Temos bons vinhos no sul, onde agora, na Campanha gaúcha, encontraram uma boa área para vinhos, em particular os tintos. Na serra gaúcha, os brancos se dão melhor. Agora, usando técnicas especiais, estão produzindo vinho no Vale do São Francisco, em Pernambuco – vinho esse que já está sendo exportado para a Europa.
O crescimento se deve ao interesse pela bebida – que cresceu muito (aqui e em todo o mundo) a partir dos anos 80, principalmente pelas notícias a respeito dos efeitos positivos do vinho (o tinto em particular) para a saúde.
O interesse vem de muito tempo: quando morava no exterior, trabalhei uma vinícola, como picadora (colheitadora) e no laboratório da vinícola. No Brasil, tive uma loja de vinhos em Itaipava, na serra de Petrópolis e um atacado da bebida na cidade do Rio de Janeiro. Ambos os negócios não deram certo, pois sou péssima comerciante. Mas como jornalista formada não foi difícil aceitar convites para escrever sobre essa bebida maravilhosa.
Sou jornalista especializada em vinhos há oito anos. Se considerar meu tempo engajada com vinho no exterior, mais os tempos de comerciante e de jornalista, tenho uns 16 anos no ramo.
Escrevo de minha casa, em Secretário, um pequeno distrito ao lado de Itaipava. A internet é a minha grande aliada. Sou vizinha de porta de todo o mundo. Escrevo para o segundo caderno da Tribuna da Imprensa, o Tribuna Bis. Minha coluna (Adega & Bar) sai todas as quintas-feiras.
Escrevo também para um portal feminino, o Bolsa de Mulher. A coluna (Sonia Melier) costuma sair a partir das sextas-feiras.
E tenho o meu blog, o Sonia Melier. Não deixe de visitá-lo: http://soniamelier.blogspot.com/
Mulheres que atuam na área: conheço apenas de nome (e de admiração). Temos a Luciana Froes na Veja. A Deise Novakoski, que é sommelier de restaurantes classe A no Rio e escreve na Revista semanal de O Globo. E tem a Alexandra Corvo Alexandra Corvo é formada Sommelière pela Ecole d'ingenieurs Oenologiques de Changins, na Suíça e dirige a empresa Ciclo das Vinhas, especializada em cursos de vinhos para amadores e profissionais. Ela está sempre na Vejinha e no seu próprio site, o Ciclo das Vinhas.
Se ficou faltando alguma coisa é só clicar aqui para a Soninha. Será um prazer atendê-la. E não deixe de visitar o meu blog.

O que você sabe sobre rolhas?

Quer dizer: sobre as rolhas de cortiça, as originais. Elas vão acabar e ser substituídas pelas sintéticas, ou pelas roscas metálicas, pelas rolhas técnicas (discos de cortiça e corpo de cortiça granulada) ou pelas "bag-in-box"?
Quem foi a primeira pessoa a utilizar uma rolha de cortiça numa garrafa de vinho? O que é “amadia”? Por quanto tempo uma boa rolha de cortiça pode proteger um vinho como um bom Bordeaux?
A APCOR (Associação Portuguesa da Cortiça), um consórcio de produtores de cortiça de Portugal, o maior produtor do mundo dessas tampas, projetou um curso online de modo a aumentar o conhecimento sobre as rolhas. É dirigido a profissionais, educadores e ao público em geral.
O caso é que a oxidação e principalmente a contaminação dos vinhos pelo TCA (2,4,6-trichloroanisole), um componente químico que infecta a rolha, deixando a bebida intragável pelo seu odor desagradável. Estima-se que, no total, a indústria vinícola perca até 7% de seus vinhos pela “doença da rolha”. É um senhor prejuízo e, daí, a busca por tampas alternativas.
A Nova Zelândia lidera a busca pela mudança, favorecendo as tampas de rosca, seguida pela Austrália e Estados Unidos. Mas se as mudanças são bem-vindas, a APCOR apresenta pesquisas para demonstrar que os consumidores amam a rolha natural (de cortiça pura), embora concorde que há ainda algum trabalho educativo a fazer sobre suas tampas.
Pesquisas, em particular uma realizada este ano nos Estados Unidos, demonstram que os consumidores preferem as rolhas de cortiça sobre todas as outras: nove consumidores entre 10 (94%) pensam que tampas que não as de cortiça “barateiam” os vinhos. Em 2005, a revista Wine Spectator mostrou que 81% dos questionados (via Internet) preferiam as de cortiça às de rosca de metal. Em 2004, uma importante empresa de consultoria especializada na indústria do vinho, a Wine Intelligence, realizou uma grande pesquisa sobre dois tipos de tampas: as de cortiça e as de metal (alumínio). Dois terços dos respondentes ficaram com as de cortiça, 52% rejeitaram as de metal. Assim, o melhor mesmo é saber mais sobre as rolhas de cortiça. Seguramente, elas são ecologicamente sustentáveis, o carvalho de onde deriva (o quercus suber), fértil na bacia do Mediterrâneo, jamais é derrubado e pode durar até 200 anos. Vale, portanto, fazer o teste no site “Real Cork”.
Você vai ficar sabendo que foi o lendário Dom Perignon o primeiro a usar uma rolha de cortiça numa garrafa - de Champagne. Que “amadia” é uma rolha de alta qualidade obtida apenas a partir da terceira colheita e que uma boa rolha pode proteger vinhos finos por até 25 anos. Não deixe de fazer o teste.

Gestação e Álcool

Beber durante a gravidez, mesmo com moderação, faz mal ao feto ou não? Um respeitado autor e crítico de vinhos, Daniel Rogov, cria polêmica com artigo que publicou num site também feminino como o Bolsa, exclusivo para mulheres que gostam de vinhos: o “Women Wine Critics Board
O título do artigo já diz tudo: “Vinho e Gravidez – As mentiras que contam para as mulheres”. Rogov lembra que desde 1990 cada garrafa de vinho ou de destilado vendida nos Estados Unidos carrega uma advertência da autoridade máxima do país na área de saúde (o tal do “Surgeon General”) afirmando que “as mulheres não devem consumir bebidas alcoólicas durante a gestação em razão dos riscos de causar defeitos no feto”.
Diz o autor que, não bastando esse aviso, e aumentando a ansiedade em mulheres já preocupadas com sua própria saúde e a dos seus fetos, centenas de matérias na mídia devotam-se em convencê-las de que se beberem uma só gota de álcool durante a gravidez há uma chance de o bebê nascer deformado, viciado em álcool ou retardado.
Daniel Rogov aponta, contudo, que uma grande quantidade de pesquisas recentes e um reexame da questão de álcool na gravidez mostra que não há uma evidência conclusiva que demonstre danos aos fetos caso consumamos álcool moderadamente antes e durante a gravidez.
Segundo os médicos David Whiteen e Martin Lipp, da Universidade da Califórnia, em San Francisco, “a campanha contra beber-se durante a gravidez começou em 1973, quando vários estudos demonstram que o álcool consumido em demasia podia causar uma condição chamada de Síndrome Fetal do Álcool. Esses estudos mostraram que os filhos de muitas mães alcoólicas nasciam com um acúmulo de sérios defeitos”.
Mas esses mesmos médicos observam que “o que o governo convenientemente escolheu ignorar é que essa síndrome é extremamente rara, ocorrendo apenas em 3 bebês entre 100 mil nascimentos – e mesmo assim apenas quando a mãe abusava do álcool durante todo o período da gravidez”.
Lipp e Whiteen figuram entre o número crescente de médicos e pesquisadores que acham não haver razão de uma grávida preocupar-se ao beber apenas uma taça de vinho por dia. A revista Wine Spectator, inclusive, já publicou uma edição a respeito dessa controvérsia (31 de agosto de 1994) e seu editor na ocasião, Thomas Matthews, escreveu que “há inclusive novas pesquisas demonstrando que beber-se moderadamente durante a gravidez pode na verdade ajudar o desenvolvimento da criança após o nascimento”.
Nessa edição da WS, um artigo da famosa Jancis Robinson, Master of Wine, inglesa, autora e uma das maiores críticas e degustadoras de vinho do mundo – refere-se à posição subalterna que os homens sempre colocaram as mulheres, em particular durante a gravidez. “Os homens só vão parar de deitar regra sobre o comportamento das mulheres durante a gravidez no momento em que puderem ter filhos”, diz a inglesa.
“Estou convencida de que ninguém deve se sentir culpada em beber socialmente durante a gravidez”. A própria Jancis, mãe de três filhos, bebia uma taça de vinho diariamente nos seus tempos de grávida. Nas suas degustações apenas provava o vinho, sem ingerir qualquer quantidade de álcool, como manda o figurino. A crítica observa que ela e suas colegas profissionais do vinho devem ter verificado, como ela, que durante a gravidez suas habilidades gustativas melhoraram.
Voltemos ao artigo do Daniel Rogov. Ele não questiona do fato de que o consumo de grandes quantidades de álcool durante a gravidez pode prejudicar o feto. “Está provado, por exemplo, que filhos de mulheres que bebem mais de 3-4 taças de vinho diariamente seus bebês nascem com pesos e tamanhos menores do que as que bebem de uma a duas taças por dia. Além disso, tem-se como certo que ao tomar diariamente cinco ou mais taças de vinho (uma garrafa, praticamente) a gestante coloca o feto em perigo”.
Genevieve Knupfer, do Grupo de Pesquisa sobre o Álcool da Universidade de Berkeley, na Califórnia, observa que muito do que se fala deriva de estudos utilizando metodologia imprecisa. Em várias pesquisas, por exemplo, os pesquisadores definiram “bebedoras pesadas” como aquelas mulheres que consumiam mais de uma taça por dia.
Essa observação é confirmada pelo Dr. Michael Samuels, do New York City’s Doctor’s Hospital. “Muita informação foi distorcida com o objetivo de assustar as mulheres”. O médico revela que nascimentos com defeitos de qualquer natureza ocorrem em 3 a 5% dos bebês nascidos nos Estados Unidos. E somente de 1 a 2% tem relação com o álcool.
Com base nos números do Dr. Samuels e de outros pesquisadores, Daniel Rogov conclui que menos de 0,1% de todos os nascimentos defeituosos estão relacionados com o álcool e que mais de 90% das crianças afetadas são nascidas de mães com uma história de abuso de álcool.
O autor aponta ainda o fato de que nenhum estudo feito a partir de meados dos anos 80 conseguiu demonstrar a correlação direta entre consumo moderado de álcool e nascimentos problemáticos. Um desses estudos, englobando 33.300 mulheres da Califórnia, demonstrou que mesmo que 47% delas bebessem moderadamente durante a gravidez nenhum de seus bebês ficou dentro do perfil da “Síndrome Fetal do Álcool”. Os autores desse estudo concluíram que “o álcool em níveis moderados não é uma causa significante de má-formação em nossa sociedade e que é completamente injustificada a posição de que há perigo em beber-se moderadamente”.
Ao contrário. Alguns estudos até indicam que o beber moderado pode na verdade resultar em gestações de sucesso. É o caso de um estudo publicado em 1993 na “American Journal of Epidemiology”, por Ruth Little e Clarence Weinberg. As duas concluíram, por exemplo, que o número de perdas de fetos em razão de partos prematuros em mulheres que bebiam moderadamente era bem menor. E, mais: algum álcool pode até servir de proteção contra nascimentos prematuros.
O que é confirmado pela Dra. Martha Direnfeld, da Universidade de Haifa, Israel. Ela nota que, quando utilizado apropriadamente, o álcool é sabidamente uma ajuda para interromper contrações uterinas indesejadas e, assim, “salvar muitas gestações que poderiam ser espontaneamente abortadas”.
Nessa linha, o Dr. Robert Sokol, do Instituto Nacional de Abuso do Álcool, de Detroit, mostrou que são as bebedoras moderadas e não as abstêmias as que têm as melhores chances de ter um bebê com um peso ótimo. Em seu livro “O Álcool e o Feto”, os médicos Henry Rosset e Lynn Wiener fornecem dados demonstrando que filhos de bebedoras moderadas têm conseguido as notas mais altas nos testes de desenvolvimento (na faixa de 18 meses de idade).
Apesar de todas essas descobertas, o governo norte-americano, a Associação Médica Americana, a Associação Médica Britânica e a grande maioria dos médicos americanos e ingleses continuam a recomenda a completa abstenção do vinho, cerveja e destilados durante a gravidez. “É que esse é um debate tão emocional, ideológico e político quanto médico”.
A jornalista Katha Pollit, do The Nation, observa que “todas essas advertências permitem que o governo apareça como preocupado com nossos bebês – sem que tenha que gastar dinheiro ou mudar suas prioridades ou desafiar interesses velados”.
Voltamos ao editor do Wine Spectator, Thomas Matthews. “É importante perguntar: é arriscado se comparado a quê?” Num livro recente, “Os mitos da maternidade”, Shary Turner, sua autora, indica que o álcool é o único fator de risco lembrado às grávidas. “E a cafeína, o chocolate, as drogas para resfriados, o esmalte para unhas, as ostras cruas, as loções bronzeadoras? Tudo isso pode fazer mal ao feto”.
Não há 100% de certeza sobre a matéria e muitos continuam a insistir que a abstinência total é o melhor remédio. Outros, porém, acham ilógica essa atitude e concluem que os riscos e benefícios associados com o consumo moderado de vinho comparam-se favoravelmente à maioria das outras atividades do nosso dia-a-dia.
“Uma ou duas taças de vinho por dia podem ser parte de um estilo de vida saudável para a maioria das pessoas, inclusive para as grávidas”, afirmarm os médicos Whiteen e Lipp. Os ginecologistas e pesquisadores israelenses, Howard Carp e Martha Direnfeld também acham que as mulheres que já bebiam moderadamente antes da gravidez “não estarão colocando seus fetos em risco se continuarem da mesma maneira durante a gestação”.Daniel Rogov, cujo artigo é base dessa coluna, é o crítico de vinho e gastronomia do HaAretz, importante jornal israelense. É autor do Guia Rogov de Vinhos de Israel e um contribuinte regular do Wine Report de Tom Stevenson e do Guia de Vinhos de Bolso de Hugh Johnson, o famoso crítico inglês. Visite o seu site na Internet.
Claro que mais adiante publicarei algumas das contestações ao artigo de Rogov. Mas deixo aqui a minha posição. Fico com a sugestão de Jancis Robinson no artigo da Wine Spectator que citamos acima: “Deixem as mulheres decidir sobre vinho e gravidez”.
Muitas vezes é o excesso de trabalho que vai prejudicar a gestação e não uma tacinha de vinho.E você, leitora, qual a sua posição? Não deixe de dar a sua opinião aqui para a Soninha (no soniamelier@terra.com.br).