16.9.10

Pelo Nariz

Às vezes é bom brigar com namorados. Pelo menos, numa dessas ocasiões o lucro foi meu, pois ganhei um presentaço a título de reconciliação. Era o estojo básico do famoso “Le Nez Du Vin” (O Nariz do Vinho), que vem numa caixa coberta por um tecido vermelho que a fazia parecer um dicionário. Dentro dela, duas dúzias de frascos, cada um evocativo de um aroma específico de vinhos, tintos e brancos.
Na época, tinha acabado de me associar a uma loja de vinhos na Serra de Petrópolis. E, evidentemente, aprender sobre mais sobre a bebida era prioritário. Meu readmitido namorado deve ter gasto um bocado, pois esses kits custam um bocado. Ganhei o estojo com 24 aromas que custa hoje, lá fora, em torno dos 230 dólares. Já os vi por aqui, em muito poucos lugares, é verdade, na base dos 400 reais. Na Amazon estão custando hoje entre 400 dólares (o estojo mais completo, com 54 aromas) e 130,00, o mais simples, com 12 fragrâncias. Já pensou seus preços ao chegarem aqui?
Além dos frascos, o estojo contém dois manuais, ambos de autoria de Jean Lenoir, um famoso crítico de vinhos francês que há 30 anos criou O Nariz do Vinho, já com um certificado profissional em degustação de vinhos e com um diploma do Departamento de Ciência da Universidade de Dijon. Com base num dos cursos sobre sabor e aroma que dava na Borgonha (foi professor por 10 anos lá), aprendeu com a reconhecer aromas contidos em pequenos frascos, método utilizado por um de seus professores. E pouco a pouco começou a memorizar os aromas mais típicos em centenas de vidrinhos. E foi assim que chegou ao Le Nez Du Vin.
No primeiro manual, Lenoir introduz sua metodologia, explica sobre os aromas primários, secundários e terciários na bebida. Fala de notas de fruta, como cassis (ou groselha preta) e cereja, de notas florais, como as das rosas e das violetas, de notas vegetais (pimenta verde e trufas), notas de assados, como a dos defumados e notas de animais, como couro e almíscar (cheiro de peixe, de maresia). Ensina também que devemos desenvolver nossa “educação aromática” em ambientes livres de cheiros alheios, como os de cigarro ou mesmo de perfumes.
No segundo manual, Lenoir explica os aromas em cada um dos 24 frascos: limão, toranja (grapefruit), abacaxi, lichia, moscatel, pêra, morango, framboesa, cassis, groselha preta, amora, cereja, espinheiro (Fagara pterota), mel, violeta, pimenta verde, trufa, alcaçuz, broto da groselha, baunilha, pimenta, manteiga, torrada, amêndoa torrada e de defumado.
O autor explica como esses 24 aromas podem ser encontrados em muitas cepas. Um vinho com a italiana Sangiovese terá aromas de morango, framboesa, alcaçuz e algo de defumado. Já a Pinot Noir oferece cereja e violeta, groselha e alcaçuz. Vinhos de Bordeaux e da Borgonha exibirão notas de defumados. O manual sugere o óbvio: se conseguirmos praticar continuadamente com esses vidrinhos acabaremos por memorizar todos os seus aromas e, portanto, levar nossos narizes a identificar uma grande quantidade de vinhos.
Já falei sobre nariz por aqui (veja coluna Ai, o meu nariz). Exercitá-lo é importante, claro. Os perfumistas formados em Grasse, a 15 quilômetros de Cannes, França, conhecida com a capital mundial do perfume, são conhecidos como NEZ (nariz, em francês). São eles que criam, compõem os perfumes, as fragrâncias que tanto evaporam nossas bolsas quanto garantem nosso sucessoa partir de poucas gotas. Acho que Lenoir tirou daí o título dos seus estojos. (Saiba mais sobre o Le Nez Du Vin)
Quando ganhei Le Nez já tinha alguma prática. Comecei a aprender sobre aromas em vinícolas, com profissionais. O plá era ir para a ruas, para os mercados e começar a acostumar meu nasal a tudo que encontrasse: de alface ao limão, de manga às couves, cebolas, batatas. Meu aprendizado foi muito parecido como o da Meg Ryan na comédia romântica O Beijo, quando o seu par romântico, Kevin Kline, larápio e, ao mesmo tempo, vinicultor, lhe ensina a conhecer aromas dos vinhos. Ele tem uma mala velha e nela dezenas de frascos com fragrâncias de vinhos. Dentro da mala, havia folhas, galhos etc., tudo o que o francês conseguiu reunir para o seu próprio aprendizado.
Esses kits ajudam, tenho certeza. Mas é fundamental sair por aí obrigando o nariz a sair da preguiça e a tornar-se mais musculoso. Vamos aprender a diferenciar uma couve mineira de uma nabiça e temos de conhecer os vinhos, de todas as regiões, de todos os hemisférios. É uma missão interminável.
Sim, o nosso senso de olfato precisa ser educado. Ele é, quase sempre, subutilizado. Precisamos gastar um tempo cheirando e fazendo livres associações. Não é muito diferente de aprender letras: saber sobre literatura russa ou sobre os pintores expressionais ou até como ouvir o Rigoletto.
Uma vez, meus sobrinhos começaram a brincar com os frascos. Um deles pegou o de pimenta verde e disse: “Tem cheiro de salada”. Bem, pensei, está no caminho certo. No frasco de framboesa, ditou: “Parece iogurte de morango”. Entendi que ele não tinha a referência direta da fruta, mas o aroma lembrava as sobremesas de iogurte que consumia com freqüência. Nada mal. Seu irmão, mais novo, pegou o de “Defumado” (que para mim cheira como bacon ou carne defumada) e decretou: “Cheira como salame”. Eles estavam se utilizando do banco de dados de sua memória olfativa.
O crítico inglês Jamie Goode, que é PhD em biologia, explica que o vinho tem propriedades físicas que podem ser medidas, são reais. “Se diferentes pesquisadores examinarem um mesmo vinho utilizando ferramentas analíticas, como a da espectrofotometria, devemos esperar deles os mesmos resultados”.
Acontece que o vinho tem um grande número de componentes aromáticos que podem ser detectados pelo nosso sistema olfativo. Possui ainda elementos químicos que induzem a uma resposta do paladar.
Só que a composição química é uma propriedade do vinho, mas o sabor do mesmo não é, pois resulta da interação entre o provador e a bebida. E o provador vai trazer para essa experiência algo dele que alterará significativamente a percepção do vinho. Eu jamais percebi um cheiro de salame naquele frasco. Mas meu sobrinho, sim. E ele não estava errado.
Sim, nós não provamos da mesma maneira que os instrumentos de medição. A informação sensorial que recebemos durante uma degustação é codificada através de sinais elétricos pelos receptores olfativos, papilas gustativas e fotoreceptores visuais. Tudo isso passa por um processamento complicado em nosso cérebro antes de alcançar uma versão devidamente editada da realidade – a percepção consciente do vinho.
Assim, o que nós chamamos sabor do vinho não é propriedade do vinho, mas algo dependente do que processamos em nosso cérebro. E todas nós apresentamos diferenças quanto ao nosso repertório olfativo. “Cada um de nós tem o seu próprio mundo de sabor e aroma”, afirma o crítico inglês.
Daí que exercitar nossos narizes é muito bom, com ou sem Le Nez Du Vin. No meu caso, do jeito da Meg Ryan, ora brigando, ora fazendo as pazes com seu amor de ladrão. Mas sempre metendo o nariz onde nem sempre era chamada.
Por falar nisso, essas fragrâncias têm 10 anos de validade. Nem me lembro do nome completo do namorado gastador, mas as fragrâncias que me deixou ainda funcionam. Vivo birrando com namorados. E eles comigo. Mas presente como Le Nez Du Vin, nunca mais! Estou deixando passar as oportunidades pelo meu nariz.
Da Adega
Deise, Zona Sul e neozelandeses.
Pois o Zona Sul promoveu quinta-feira, dia 16, uma degustação de vinhos da Nova Zelândia, apresentados pela respeitada sommelier, consultora e crítica de vinhos Deise Novakoski e pela proprietária das vinícolas
Te Mara e Auntsfield, Janiene Bayliss. Dos Te Mara, estão Pinot Gris, Riesling, Sauvignon Blanc e Pinot Noir. Da Auntsfield, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Pinot Noir. A apresentação aconteceu no Zona Sul da Dias Ferreira, Leblon.
Aurora com novo Millésime. A poderosa Cooperativa Vinícola Aurora está lançando o seu Aurora Millésime 2008, o quinto de sua história. É um tinto 100% Cabernet Sauvignon. Millésime é francês para a data da safra. É normalmente utilizada quando a cepa ou cepas utilizadas no vinho foram todas colhidas no mesmo ano e quando essa particular colheita mostrou-se excepcional. As outras safras da Aurora de igual qualidade (e que tiveram, portanto, o seu Millésime) foram as de 1991, 1999, 2004 e 2005. Esse Cabernet passou por maceração prolongada e descansou em carvalho francês por 10 meses. Antes de sair para o mercado, ficou em garrafa por mais 12 meses. Chegará ao consumidor com 13% de álcool, mas bem equilibrado, potente e em torno dos 50 reais.
Saiba mais.

3.9.10

As taças de Helena e de Clara

Como segurar taças de vinho? Se a Taís Araújo segura as taças que tomou durante a novela pelo bojo, então é assim que devemos fazer, não é? Mas, olha, a Clara (Mariana Ximenes), que diferente da “Helena” de “Viver a Vida” é uma periguete, segura pela haste. A Clara seria mais bem educada, pelo menos enologicamente? Aparentemente, não. Já a Helena, Top Model, vem de uma família bem preparada, sua mãe é dona de uma pousada, sabida nas artes de servir bem. Helena tem vivência internacional, gira em ambientes refinados. Quem estará certa? E quem vai apostar que Helena já não tenha segurado a taça pela haste e Clara pelo bojo?
O caso é que as novelas, ao contrário do que se pensa, acabam sendo escolas eficientes. Há alguns anos, a italiana Eliana La Ferrara, economista de desenvolvimento, baseada na Universidade Bocconi, em Milão, analisando pesquisas antropológicas, reparou que brasileiras pobres começaram a decidir ter famílias menores (portanto, ter menos filhos), a partir do que viam nas nossas novelas.
La Ferrara e mais dois outros economistas, Alberto Chong e Suzanne Duryea, do Banco Interamericano de Desenvolvimento, partiram então para verificar se as novelas tinham realmente o poder de promover grandes alterações demográficas. E verificaram que, região por região brasileira, a partir da chegada das novelas da Globo, a taxa de nascimento decresceu. E descobriram mais: as crianças começaram a ser batizadas com nomes dos personagens da novela. Os telespectadores se identificavam fortemente com seus personagens, praticamente transformando-os em membros de suas famílias, contagiando-se com seus comportamentos. Daí, talvez, esse excesso de Maicons e Deivids.
Isso não acontece apenas com as novelas da Globo. Dois outros economistas e catedráticos, os americanos Emily Oster e Robert Jensen, verificaram que também na Índia, com o crescimento do acesso à TV a cabo, o índice de fertilidade dos casais também decaiu. E, mais, as indianas começaram a ter mais autonomia, a protestar com veemência contra a violência de seus maridos e a autorizar que suas filhas se matriculassem em escolas.
Na Índia, como no Brasil, as novelas costumam retratar vidas em centros urbanos e entre gente de classe média alta, na qual os personagens femininos trabalham fora e são donas de seus narizes – vidas que lá, como aqui, acabam se tornando aspirações.
Além do menor número de bebês, as novelas seriam a origem de um número maior de divórcios, de uma consciência maior contra abusos, violências. É de se louvar que estejam sendo utilizadas por grupos ativistas como os principais veículos educativos, para tratar de assuntos como preconceitos de várias ordens (racial, religioso e social, entre eles), para educar melhor sobre problemas de saúde e de comportamento (HIV, tetraplegia, síndrome de Down, homossexualismo etc.).
Não importa se as novelas acabem sendo a enésima versão de Romeu e Julieta misturada com Hamlets, Macbeths, Lears, Chapeuzinho Vermelho, Gata Borralheira no liquidificador criativo dos seus autores. São ainda o principal entretenimento do público em geral, com o poder de influenciar o cotidiano das pessoas. Antes, o núcleo dos ricos só bebia uísque e, nas festas, champanhe. Entre os pobres, só cerveja e as branquinhas. A partir dos anos 90, o vinho começou a aparecer e hoje os bens de vida tomam seus vinhos com freqüência e espumantes a toda a hora.
Bem, acho que me alonguei demais. Quem quiser ler mais sobre o poder das novelas procure aqui.
Afinal, quem está certa, Helena ou Clara? Segurar pelo bojo ou pela haste? Se dependermos das novelas, estamos fritas. Já vi novela com um protagonista fazendo um verdadeiro enochato. Ele desprezava “vinhos com a Pinotage”, não deixando de deitar regra ensinando que Pinotage é um cruzamento das francesas Pinot Noir e Cinsaut.
Sei que muito do que os personagens fazem, dependem de marcações da direção, da produção etc. Mas resulta também do trato social ou da base educacional de cada ator.
Tenho várias razões para preferir segurar pela haste. Em primeiro lugar, eu, Helena, Clara e todas nós teríamos dificuldades em apreciar as cores de nossos vinhos segurando a taça pelo bojo. E, fora a beleza dos matizes, a aparência dos vinhos diz um bocado sobre eles.
Por exemplo, se o vinho é de um branco pálido, provavelmente trata-se de um branco jovem e foi maturado em tanques de aço e não em carvalho. Você saberá de cara que a ausência do carvalho será sentida no sabor.
Já se o vinho é de um dourado profundo, quase com certeza será um branco com alguma idade ou oxidado (assim como o marido rico da Helena).
E se Helena continuasse a segurar o vinho pelo bojo, arriscaria dele ficar mais aquecido do que o recomendável. Seria que ela iria querer provar de um branco morno? A haste foi criada exatamente para isso: evitar que nossas mãos aquecessem a parte bojuda da taça, fazendo o mesmo com o vinho.
Fora isso, tenho mais uma razão, essa de matar: segurar pela haste é um bocado mais elegante. Talvez você conclua que as Top Models, na vida real ou nas novelas, têm lá seus tropeços. Ponto para a bandida da Clara: elegância é fundamental. E não se importe muito, amiga, pois no final sabemos que o lobo mau vai morrer e vamos todas brincar novamente na floresta.
Da Adega
Yosef e o Palhete de Ourém
. Um leitor, provavelmente espanhol, Yosef Arad, achou uma coluna publicada, imaginem, em julho de 2006, O que houve com o Clarete? Ele está procurando
"...el divino Clarete como lo conoci por primera vez en Portugal hace mas de 25 anios - Color Rubi, dulzon y suave como el terciopelo, igual a la mujer amada que lo compartio conmigo con queso cremoso portugues, uvas moscatel heladas y caviar rosado, en fin una tarde de amor y clarete...quiero recordarme de ese sabor pero no lo puedo encontrar en ningun mercado, sera que desaparecio como muchas otras cosas del siglo pasado ?"
Como na coluna falo de vários tipos ou de interpretações de Clarete (Claret, Clairet, Clairette, Clarete propriamente), o fato de ter provado desse vinho cor rubi, doce e suave, difícil de achar, acho que ele está se referindo ao Palhete de Ourém, uma especialidade portuguesa cuja produção tem séculos de história. Brancos, tintos e palhetes possuem uma linha cronológica de 800 anos, dos tempos em que D. Afonso Henriques celebrou uma série de acordos com a Ordem dos monges de Cister.
Mas para consegui-lo talvez Yosef precise viajar até Ourém, na sub-região da Alta Estrematura, Portugal. Falar em vinhos de Ourém é falar do “Medieval de Ourém”, é falar no vinho palhete. Um “vinho branco pintado com uvas tintas”, produção tradicional nas regiões dominadas pelos monges da Ordem de Cister e que se tornou, com o tempo, exclusivo da zona de Ourém.
Este vinho, hoje, fez com que se criasse uma DOC, denominação de origem controlada. Os produtores têm que ter as suas vinhas registradas. Para produzir o “Medieval de Ourém” são necessários 80 por cento de uvas brancas Fernão Pires e 20 por cento de uvas tintas da casta Trincadeira. As uvas brancas são colocadas em vasilhas de madeira. As uvas tintas são esmagadas e permanecem entre cinco a oito dias em grandes vasilhas, curtindo, de modo a que o líquido absorva a cor escura da casca. Após este processo, as duas qualidades são misturadas, permanecendo cerca de um mês nas barricas. Depois da fermentação, o vinho é passado a limpo. Existem 12 produtores deste vinho, sendo o maior a “Divinis” com o seu “Medieval”.
Yosef: o melhor é
viajar até a Estremadura. Tenho certeza que, lá, você encontrará o doce Palhete cor de rubi e terá mais uma tarde de amor.

28.8.10

Conversa de Botequim

Você está num bar sendo entrevistado pelo diretor de uma empresa. Em jogo o precioso cargo de gerente de uma divisão. Foi o diretor que o convidou e escolheu o local. No meio do papo, ele lhe oferece uma bebida. “Quer um refresco, uma cerveja, um vinho?” Então, você olha o cardápio e escolhe um simples “Merlot da casa”. Pensou que bebericar um vinho fizesse você parecer mais agradável, mais sofisticado do que se pedisse o cotidiano cafezinho?
Enganou-se, pois pelo vinho você foi avaliado como uma pessoa pouco inteligente, literalmente como um idiota. Foi reprovado, perdeu o lugar. Apenas por ter escolhido a bebida alcoólica.
Estamos comentando mais uma pesquisa sobre vinhos, realizada e apresentada recentemente. “Idiota” foi a expressão utilizada pelos pesquisadores norte-americanos que idealizaram a pesquisa: um da Universidade de Michigan (Scott Rick) e outro da Universidade da Pensilvânia (Maurice Schweitzer), ambos graduados em administração de empresas, professores e pesquisadores nas duas escolas.
Ambos acabam de apresentar e publicar os resultados de uma série de seis entrevistas que buscou associações causadas por bebidas alcoólicas em candidatos a empregos. Todos os pesquisados tinham nível de gerente de departamento.
Cada série reuniu cerca de 600 candidatos, foram feitas em sua maior parte em restaurantes e bares e filmadas (às escondidas). Esses vídeos, em seguidas, eram mostrados para grupos de gerentes e avaliados.
“Quando esses candidatos eram observados consumindo ou apenas segurando uma bebida eram avaliados como menos inteligentes (quando a bebida era alcoólica) do que se estivessem com uma água ou refresco”, comentam os pesquisadores. “Na verdade, a mera menção a bebida alcoólica pelos candidatos levava os avaliadores a considerá-los menos inteligentes, mesmo que não tivessem bebendo”.
Os pesquisadores deram o nome de “viés do idiota bebedor”, que valia para quem aceitasse cerveja ou vinho, fosse homem ou mulher. E o curioso é que essa noção persistia mesmo quando o avaliador também estava consumindo álcool e quando o entrevistado não escolheu beber, mas a ele foi oferecido um drinque. Viés ou distorção, talvez, dos gerentes que assistiram e deram notas aos vídeos.
Distorção, pois demonstra preconceito. Os candidatos claramente foram induzidos a beber qualquer coisa, estavam ora num bar, ora num restaurante, lugares próprios para esse tipo de consumo. Foram considerados inaptos, mesmo quando o entrevistador bebeu vinho em primeiro lugar.
É claro que ninguém estava ali para encher a cara. Acredito que a maioria bebia por cortesia. Se nos Estados Unidos acham que isso deixa as pessoas menos inteligentes ou “idiotas”, esse é mais um problema lá de cima.
Para mim, existem três tipos de bebedores de vinho. O bebedor como eu e você, leitora, que formamos o maior desses três grupos, que na maioria das vezes quer experimentar o Dal Pizzol Ancellota, uma Chenin Blanc da África do Sul, tentar um Pinot Noir da Nova Zelândia, um Casa Valduga Brut Premium, não ter problemas em pedir dicas ao dono da loja de vinhos. Ou seja, estamos aí para dar uma volta no mundo dos vinhos e aproveitar o que pudermos.
O esnobe do vinho (também chamado de enochato) forma o segundo grupo, aquele com ar de superioridade sobre qualquer matéria relativa aos vinhos; dono da verdade, ignora qualquer vinho que não esteja consagrado pelas revistas ou colunistas famosos; só bebe rótulos caros ou famosos (o que dá no mesmo), e acumula mais preconceitos do que conhecimento sobre quase tudo no mundo dos vinhos.
O terceiro grupo é o dos “aficionados do vinho”, aquelas pessoas entusiasmadas, boladas pela bebida. Elas naturalmente carregam um pouco de esnobismo, mas o negócio delas é estudar a matéria a fundo, saber sobre elas. Mas são mentes abertas, dividem seus conhecimentos. Lêem livros, fuxicam a internet, pertencem a confrarias, não se importam por rótulos, mas por qualidade, por bons preços e principalmente por variedade, pela chance de saber mais. Sabem que existe muito mais do que Bordeaux e Borgonha.
Agora, essa história de que um mero bebedor de vinho possa ser menos inteligente – ou mesmo idiota – só me faz rir. Um quarto grupo?
Tudo isso me lembra o centenário de Noel Rosa, que comemoramos esse ano. Noel também faz do bar, no caso o nosso querido e importante botequim, um lugar para conversas. O seu Conversa de Botequim, ao contrário dos bares e restaurantes da pesquisa americana, retrata um espaço democrático, um centro de integração social, um lugar sem diferenças sociais e preconceitos de qualquer ordem. É nele que todos se encontram, homens, mulheres, jovens e maduros. Novas amizades são feitas, velhas amizades se sedimentam. Está tudo lá no samba de Noel: aquele “dedo de prosa”, a cumplicidade do garçom, a quem pede dinheiro emprestado, pois o dele ficou com bicheiro, a despesa pendurada. O bar, o botequim, o lugar certo para beber e conversar.
Os dois catedráticos americanos também sabem que o consumo de álcool tem papel importante em muitas das relações profissionais, incluindo-se as entrevistas de trabalho, negociações e encontros informais. A presença do álcool nesses encontros pode criar uma atmosfera relaxante, facilitando a relação. Ao mesmo tempo, contudo, pode influenciar o comportamento de modo indesejável.
Os dois pesquisadores partiram da hipótese de que ver uma pessoa com álcool pode ser percebida como um problema. Essa percepção age como uma lente que leva a resultados ambíguos – tal como esse que classifica os entrevistados de idiotas ou menos inteligentes.
Será que os gerentes que analisaram os vídeos não sabem que conversar e também beber faz parte da história do mundo? Até Cristo, na Santa Ceia, sentou-se com seus amigos e todos se serviram de vinho. Judas foi o único que não bebeu; saiu mais cedo, com aquelas 30 moedas.
Por que tanto preconceito? Noel combateu intolerâncias de toda a ordem: contra mulheres, contra artistas, contra negros e até os sexuais (dedicou um samba a Madame Satã, Mulato Bamba). Uma senhora ousadia para a época.
O resultado da pesquisa é, lembrando Noel, uma média requentada... por preconceitos. Os idiotas são os outros.
Da Adega
O primeiro vinho fino em Tetra Pak
. No lugar do leite e do suco, põe vinho. Não qualquer um, mas o Onorabile, o novo vinho fino da Vinícola Wine Park, o primeiro em embalagem cartonada, asséptica, a nossa conhecida e prática Tetra Pak (nada de vidro, de rolha ou de cápsula). Nessa embalagem, o Onorabile virá com duas opções: o tinto (um Cabernet Sauvignon e Merlot) e o branco (Chardonnay e Riesling).
O Onorabile tem 33% a mais de vinho do que as garrafas tradicionais, de 750 ml. E a embalagem representa apenas 3% do peso do vinho, além de trazer um selo certificando que é confeccionada com papel cartão autenticado pelo Conselho de Manejo Florestal, organização que fixa os padrões para o gerenciamento responsável das florestas. No final, o meio ambiente é respeitado. O vinho fica protegido dos raios UV, não necessita de cuidados para armazenamento. Vinho fino, de qualidade, bem protegido, fácil de guardar – e mais barato. Na Argentina, esse tipo de produto representa 45% do total da produção. No Chile, é ainda maior: 52%. A novidade chega mês que vem às lojas. A Vinícola Wine Park fica em Garibaldi, na Serra Gaúcha, na antiga Maison Forestier. Seu espumante Gran Legado Brut Champenoise foi eleito o melhor nacional na Expovinis Brasil 2010.

22.8.10

Tiro no pé e outras

Servir champanhe como cerveja. Cientistas da Universidade de Reims, a maior e principal cidade da terra do espumante, Champagne, descobriram que devemos servir a preciosa bebida como cerveja. Ou seja, sem aquele cuidado, vagar, meticulosidade dos sommeliers, que resultam numa perda maior de dióxido de carbono (CO2), as imprescindíveis bolinhas. Servindo como uma cerveja – e assim produzindo mais bolhas na taça – a concentração de CO2 dissolvido será bem menor. No fim, fazendo como os cervejeiros, você terá mais bolhas na taça.
Os cientistas de Reims confirmaram também que quanto mais alta a temperatura da bebida, maior será a perda de CO2 dissolvido durante o serviço, provando que baixas temperaturas prolongam a difusão das bolhas e a viscosidade da bebida. A bebida ficará mais tempo gelada, retendo mais bolhas. Leia um resumo da pesquisa aqui.
Quer um drinque, beba vinho. A autora, jornalista e blogueira Kara Newman oferece dicas curiosas, caso você queira substituir coquetéis por vinhos.
Se a leitora gosta de coquetéis à base de gim, beba Sauvignon Blanc, a cepa branca original de Bordeaux (mas que vinga em quase todas as regiões vinícolas). Ela também é límpida ácida, refrescante, com notas que lembram limão e ervas, tal como o gim.
Chá gelado? Substitua por um vinho com a Pinot Noir: não é muito encorpado e contém taninos, tal como o chá.
Gosta de um café expresso? Em seu lugar, tente vinhos com a Shiraz/Syrah ou com a Malbec. São igualmente escuros, robustos e fortes, tal como o expresso.
Seu drinque preferido é a Piña Colada? Troque-o por um vinho com a Viognier, uma cepa branca originária também da França, perfumada e suculenta, que virou moda a partir dos 90 e faz o vinho mais famoso da região de Condrieu, no Vale do Ródano (é a única branca permitida lá). Mas, por favor, não use aquelas sombrinhas decorativas do drinque cubano, o delicioso “abacaxi amassado”, numa tradução literal.
É caída por uma cervejinha leve? Procure por um vinho argentino com a Torrontés, a grande cepa branca do país. É leve, saboroso e não muito doce.
Troque o uísque do fim de tarde por vinhos com a Nebbiolo, Barolo ou por um Barbaresco: uma grande variedade de aromas e sabores nesses tintos italianos sempre bem encorpados.
O seu drinque preferido é mesmo uma água mineral gasosa (de preferência a Pellegrino)? A solução está na Cava, o famoso, seco, ácido e refrescante espumante espanhol.
Estou doida para testar essas dicas para voltar ao assunto.
Garrafa com dois gargalos. Sempre tive certeza de que não visitei ainda todos os corredores desse hospício que é o mundo das bebidas (e em particular o dos vinhos). Não é que criaram agora uma garrafa de vinho com dois gargalos? Quem ocupa essa enfermaria são aos criativos da Ampro. Deram até um nome a ela: “Design Business Bottle”, uma “garrafa de negócios com design”, projetada, especial para uma reunião de negócios.
Foi feita, segundo seus criadores, para “capturar a essência do seu negócio em conexão com o negócio do cliente”. Daí os dois gargalos: um para uma parte e outro para o cliente. Funciona como uma lembrança para cada contrato que assinarmos. A garrafa tem dois gargalos, cada um coberto por dois copos: um vem com a inscrição “Nosso Negócio” e o outro com “Seu Negócio”. O vinho é doce, como o pessoal da Ampro espera que corram os negócios de ambos os lados. Veja a garrafa aqui. O bom é que esse hospício fica bem longe: a Ampro, empresa de design, premiadíssima em todo o mundo, é baseada em Bucareste, Romênia.
Um escocês no seu tanque. Pois é, já está criado um novo combustível, derivado de uísque escocês dos legítimos. O biodiesel nasceu das bolações da turma da Universidade Napier, em Edimburgo e pode ser usado em qualquer carro, não precisando de adaptações. Emprega os dois principais subprodutos do processo de produção da bebida: o “pot ale” (também chamado de ”burnt”, que são resíduos ricos em proteína deixados no alambique) e o “draff”, os grãos deixados após a fermentação. Essas substâncias eram utilizadas até agora como ração animal. Mas podem ser transformados em butanol, transformando-se em ração para seu carro.
Por ano, na Escócia, são produzidos 1.600 milhões de litros de “pot ale” e 187 mil toneladas de “draff”, quantidades que animam os cientistas a levarem essa novidade para os postos de gasolina – pelo menos na Escócia. Será que o bafômetro vai confundir-se? O bafo do carro vai misturar-se ao do motorista? Queria ver aqui.
Um tiro no pé. Ano que vem teremos garrafas de vinho com um novo selo de controle, igual ao das garrafas de uísque. Ele valerá para os nossos e os vinhos importados. A Receita Federal alega que com isso inibirá a fraude, em particular na importação. O Instituto Brasileiro do Vinho, que reúne todos os produtores nacionais, diz que pelo menos 25% dos 60 milhões de litros de vinhos importados (dados de 2007) entraram no país ilegalmente.
O grande crítico e autor Carlos Cabral diz que esse é mais um entulho arbitrário. “Como se já não bastasse a gangorra do câmbio, e os inúmeros impostos que caem sobre os vinhos importados, excluindo-se os do Mercosul, este imposto, segundo os “gênios” que o defendem, fariam o consumidor migrar do vinho importado para o vinho nacional. Ledo engano, além de estúpida convicção. Alguns produtores brasileiros ainda julgam que o Brasil é um imenso cartório, e antes de serem competitivos e criadores buscam na proteção do Estado uma desculpa para suas incompetências”. Veja mais.
A excelente Deise Novakoski lembrou recentemente na sua coluna que “estamos em tempo de nota fiscal eletrônica, do Sistema Público de Escrituração Digital (Sped), dos medidores de vazão e de outros mecanismos modernos de combate à sonegação; Não há razão plausível que justifique a ressurreição de selagem, concordam?”
Mas acontece que a lei da selagem foi aprovada com 13 votos favoráveis e apenas dois contra. Aprovada pelos produtores. A colunista lembra que o enólogo Luiz Henrique Zanini disponibilizou o endereço uvifam@hotmail.com para todos os que gostam ou estão envolvidos com o vinho, de consumidores, a produtores, importadores e revendedores possam se manifestar. Nossos próprios produtores deram um tiro no pé. (Leia mais: “Vinho no país da burocracia”, Rio Show, O Globo, 16 de julho de 2010).

14.8.10

Ozzy e o elefante na sala

Estava muito bêbado, como sempre, quando sua mulher e empresária o deixou no quarto de um hotel e sem roupas, para que não saísse. Mas ele vestiu um dos vestidos dela e se perdeu pelas ruas de San Antonio, Texas, com uma garrafa de Courvoisier. Aí, sentiu uma vontade intensa de urinar, sem idéia de onde eram os banheiros públicos. Precisava se aliviar, ali mesmo, naquele instante. Olhou em volta, encontrou uma esquina tranqüila e começou a urinar numa parede caindo aos pedaços.
Aí, ouviu uma voz atrás dele.
-- Você me dá nojo.
Voltou-se e viu um sujeito com chapéu de caubói.
-- Você é uma desgraça, sabe disso?
-- Minha namorada roubou minhas roupas – explicou. – O que mais eu devia vestir?
-- Não é o vestido, seu inglês veado. Essa parede que você está usando como banheiro é parte do Alamo.
Ozzy Osbourne foi imediatamente algemado e preso. Ele tinha mijado num dos principais monumentos históricos dos Estados Unidos. Imaginem alguém vandalizar a estátua do Cristo Redentor!
Ele até que tentou tirar a carteira de motorista; insistiu uma dezena de vezes, mas sempre acabava com o carro na grama ou desmaiava ao volante. Pois estava sempre bêbado. Resolveu o problema comprando um cavalo, meio de transporte que não compreendia exames (fora o fato de que, supostamente, o cavalo andava sempre sóbrio).
Fez xixi no copo de um empresário; nos hotéis era comum não conseguir chegar ao quarto, pois apagava nos corredores, impedindo a passagem. Escondia “tortas” de haxixe e, depois, não conseguia lembrar-se onde as havia colocado. O resultado é que um pouco dessa erva foi oferecida, por engano, como bolo a um pastor. Que ficou zureta por uma semana. O mesmo aconteceu com seu cachorro, que não parou de correr por dias.
Sim, é verdade que comeu a cabeça de um morcego em pleno palco. Só que pensava que era um morcego de plástico, normalmente usado para encenações. Acontece que jogaram um de verdade no palco, ele pegou e com a boca retirou-lhe a cabeça.
A primeira coisa que perguntou ao entrar no famoso centro de reabilitação Betty Ford foi onde era o bar. Até mesmo tentou matar sua mulher, mãe de três dos seus filhos, empresária, grande arquiteta e incentivadora de sua carreira. Não é de espantar, pois fora carreiras de cocaína, maconha, haxixe, bolinhas, gim, uísque, canecas e mais canecas de cerveja e quatro garrafas de Hennessy diárias, ainda fumava trinta charutos por dia, sem contar os inúmeros maços de cigarro. Todos os dias, nos últimos 40 anos, ele misturava tudo isso e mandava. É de espantar que tenha sido um grande nome no mundo pop, que ainda seja muito popular e seus discos e shows continuem fazendo sucesso, vendendo muito. É de espantar que continue vivo.
Acabei de ler “Eu sou Ozzy”, autobiografia de Ozzy Osbourne, um dos nomes mais importantes do rock, um dos criadores da famosa banda Black Sabbath, personalidade alucinada, talentosa, mas com uma longa história de abusos ligada às drogas e ao álcool. Nesses 40 anos de história, contudo, não falta humor, candura e amor. Ele “inventou” o heavy metal e quase tudo na vida dele tem sido heavy.
E o que tem esse livro e a vida de John Osbourne a ver com vinhos (ou com as bebidas, em geral), temas constantes dessa coluna?
Olha, leitora, diante de mim está mais uma reportagem sobre os miraculosos efeitos do vinho para a saúde de seus bebedores. Desta vez, uma pesquisa inglesa afirma que o vinho e, de resto, as bebidas alcoólicas, reduzem não só o risco como a severidade das artrites – o que vale para pessoas que bebem mais de 10 dias por mês.
Outra matéria, desta vez sobre uma pesquisa norte-americana, informa que o resveratrol, componente químico existente nas cascas das uvas tintas, faz com que vivamos mais tempo, além de reduzir a diabetes tipo 2, doenças do coração,, inclusive ataques cardíacos.
Não estou duvidando das propriedades do vinho ou do álcool para a saúde. Afinal, muitas dessas pesquisas são comprovadas. Acontece que um consumidor menos atento pode ficar pensando que as bebidas alcoólicas podem nos transmitir superpoderes, habilidades sobre-humanas.
E uma das qualidades da história que Ozzy nos conta é que, se ele teve alguma habilidade sobre-humana, foi continuar vivo aos sessenta e tantos anos e ainda com alguma saúde. Para espanto de muitos médicos! E isso ele só conseguiu quando finalmente parou de drogar-se e de beber.
Ao divulgarmos matérias sobre saúde e bebidas, estamos potencialmente induzindo nossos leitores a beber, pois beber faria bem à saúde. Sabemos que uma parcela dos consumidores precisa apenas de uma ou duas desculpas para pisar na bola.
Mas não posso deixar de ver que sempre teremos um elefante na sala. As pessoas produzem, vendem, servem e bebem vinho porque o álcool que ele contém nos faz sentir bem. Claro, o vinho tem muitas outras qualidades. É gostoso, aromático, tem cores fabulosas, melhora o gosto das comidas, é peça fundamental em celebrações, fora o fato de ser uma sombra da humanidade, sempre presente em sua história. Muita gente acha, como eu, que o sucesso comercial do vinho está primariamente no seu conteúdo alcoólico. Só que parece que ninguém vê esse elefante. Sob esse aspecto, de sentirmo-nos bem, o vinho e as drogas não são muito diferentes. Não espanta que o governo da Califórnia utilize o sucesso da sua indústria vinícola (muitos empregos, grande faturamento) para legalizar, taxar e regular o consumo da maconha no estado.
O crítico deve sempre estabelecer um diálogo entre a criação e a recepção, entre a arte ou a manufatura sobre a qual escreve (vinhos, bebidas no caso) e a sociedade. Precisamos alertar para os elefantes à nossa volta.
Ozzy é disléxico, tem transtorno de déficit de atenção (hiperatividade), o que resultou num grande complexo de insegurança. Não aceitava fracasso, rejeição ou qualquer tipo de pressão. E passou a se automedicar com as bebidas e as drogas. Numa das clínicas de desintoxicação que freqüentou, conheceu um dentista que, para beber (sempre às escondidas) enchia o tanque de água do limpador de pára-brisa com gim em seu BMW. Desconectava o tubo de plástico do bocal do capô e o redirecionava para o painel. Para beber, bastava entrar no carro. E com a cuca cheia de gim, chegou uma vez ao consultório tão bêbado que acidentalmente fez um buraco na cabeça de um paciente. O dentista não tinha os problemas de Ozzy. Mas era um alcoólico.
Eu sou Ozzy é uma leitura divertida e instrutiva. Ozzy nos fala na primeira pessoa, como se estivéssemos batendo um papo, uma longa conversa que começa numa cidadezinha operária na Inglaterra, onde mal tinha para comer e acaba com Ozzy e família muito unidos, prósperos e felizes. Vamos saber um bocado sobre o mundo do rock and roll e muito sobre o elefante na sala que ninguém quer ver.
Da Adega
Degustação de tops chilenos
. É a sua chance de participar de uma degustação às cegas de cinco grandes rótulos chilenos. Revelo, porém quais as belezas que você provará sem conhecer os rótulos: Almaviva 2006, El Principal 2006, Don Melchor 2006, Caliterra Cenit 2006 e Caballo Loco N°11.
A degustação será harmonizada com queijos (brie, grana padano, reblochon, chabichou, Saint maure). Ao final, haverá um jantar especial. A promoção é da
Ville du Vin, um grupo que hoje conta com sete lojas, a maioria em São Paulo. Essa degustação de chilenos será realizada na sua unidade de Vila Nova Conceição, SP. Reservas pelo telefone (11) 3045-8137 ou pelo e-mail.
Australiano em bag in box. Já começam a proliferar por aqui as bag in box para vinhos. São embalagens tipo longa vida, mas como uma bexiga de plástico no interior que garante a conservação e o sabor do vinho inalterado por meses.
Agora, direto da Austrália, chega ao mercado o Stanley Shiraz Cabernet Sauvignon 2006. Mas numa caixa de 4 litros, a primeira a ser oferecida aqui. É um blend de 60% Cabernet e 40% Shiraz e 12,5% de volume alcoólico.
A novidade está sendo vendida pela
Boxer do Brasil, grande importadora de cervejas que agora está também de olho nos vinhos.

6.8.10

Fazer o quê?

Aceito ou não?
O sommelier passou com uma garrafa aberta, colocou-a no balcão do bar e chamou o maître (que, no caso, era também o dono do restaurante onde eu esperava por uma amiga).
O rosto denunciava aborrecimento e frustração. “Olha só, o cliente devolveu a garrafa só porque não gostou do vinho”. Conhecia todo mundo naquele restaurante, que ficava num ótimo ponto, próximo ao Museu Imperial, em Petrópolis. O sommelier, formado pela Associação Brasileira de Sommeliers, no Rio, já acumulava rica experiência tanto em lojas de vinho como em restaurantes. O dono era velho conhecido e assíduo cliente da minha loja, em Itaipava, onde todo o fim de semana levava pelo menos uma caixa de vinho.
Perguntei se ele ia ficar no prejuízo ou mandar devolver a garrafa. Antes de responder, provou um pouco do vinho. Nada de anormal: não estava oxidado nem contaminado com a tal da “doença da rolha”. Já falei sobre esse problema aqui: veja O saca-rolhas vai se aposentar.
O meu amigo, igualmente frustrado, perguntou-se: “Será que as pessoas pensam que eu sou uma loja, sou um Serviço de Atendimento ao Cliente? A garantia que dou está aqui (apontando as suas três geladeiras climatizadas); minha lista de vinhos não é grande, mas posso garantir a origem das garrafas. Esse vinho não tem defeito algum. Só porque o cliente não gostou dele? Ofereço outra e fico no prejuízo? E se ele comprasse uma lâmina de barbear, levasse para a casa, usasse e não gostasse? Ia conseguir devolvê-la à loja, sem mais nem menos?”
O que você faria no lugar o maître, leitora?
Claro que se aquela garrafa tivesse os problemas citados acima, deveria realmente ser devolvida, sem questões. Aqui no Brasil, os restaurantes ficaram no prejuízo. Mas em alguns países, essa garrafa poderia ser devolvida ao importador ou à loja de onde o vinho foi comprado.
As coisas podem ficar mais esquisitas com relação às garrafas mais antigas, por exemplo, um vinho de 1988. Muitas coisas acontecem dentro da garrafa à medida que o vinho envelhece. Aromas de couro ou de cogumelos são comuns, mas a maioria das pessoas os estranha, pois está mais acostumada com vinhos jovens, de safras recentes (pelo menos, 90% dos vinhos consumidos). E cabe ao sommelier explicar que o vinho se transforma na garrafa à medida que envelhece. E que essa transformação pode representar na verdade uma mudança na qualidade do vinho. Quando o vinho é bom, ele ganhará novos aromas, novos sabores, adquire qualidades que a maioria dos consumidores desconhece. Outros, simplesmente, perderão o que tinham de frutado, ficam demasiadamente macios, frágeis mesmo: esgotam-se, acabam “cansados”.
Uma garrafa, como a que foi recusada, nem sempre pode ser reutilizada. Talvez, possa ser vendida na base da taça, no caso dos restaurantes que também servem vinhos dessa maneira. Quando se trata de um vinho mais antigo, fica difícil servi-lo na base da taça, pois se oxida muito rapidamente.
O tal cliente reclamão solicitou do sommelier uma aventura, experimentar “algo novo”. E o profissional foi correto em escolher um vinho artesanal, feito de modo não convencional, completamente diferente do que o grosso da indústria oferece - logo, diverso do que a maioria das pessoas costuma consumir. O cliente estranhou e recusou-se a continuar naquela “aventura” (que ele mesmo havia solicitado). Os bons sommeliers costumam deixar bem claro que vinhos como esses poderão parecer estranhos às papilas gustativas dos clientes.
Mas eles adoram quando o salão está cheio de gente interessada em experimentar novidades.
Por isso, não entendo quando a maioria dos clientes dá carta branca aos chefs para criar seus pratos, da maneira que quiserem. Estão sempre prontos a experimentá-los, sem reclamações (e a pagar preços salgadíssimos por eles). Contudo, mostram-se limitados na escolha de vinhos. Se o cliente for assim, pobre de espírito, não deveria desejar “aventuras”. Que fosse honesto com o sommelier.
Aliás, os preços das bebidas e os dos vinhos em particular são sempre uma dificuldade no negócio de restauração. As margens costumam ser pequenas e cada centavo conta. E a maioria das queixas sobre os restaurantes, que eu saiba, recai sobre os vinhos – “sempre muito caros”. Mas considerando tudo, aluguéis, equipamento (taças etc.), salários (a começar o do sommelier), pode ter certeza de que não se faz muito dinheiro com o vinho. Os preços estão altos, sim, mas verifique o que o governo cobra de taxas, impostos etc. do importador ao atacadista. É desesperador.
No final, o nosso sommelier voltou com uma nova garrafa, aceita pelo cliente manhoso. Nas boas casas, o cliente sempre terá razão. E o vinho devolvido ficou comigo mesmo.
Era um Tempranillo Condessa de Leganza Reserva La Mancha 2002. Um tinto feito em La Mancha, a mesma região de onde sairá o vinho de Andres Iniesta, o meio-campista que fez o gol da vitória sobre a Holanda, sagrando campeã do mundo a Espanha. Esse vinho não tem muito de artesanal, mas vem de uma região muito pouco conhecida entre nós. Uma maravilhosa cor rubi, frutas como numa compota, madeira, cacau, longo na boca. Tempranilho é a mesma Aragonês em Portugal. Uma delícia que nos custou, a mim e à amiga que estava esperando, umas 40 pratas, com um desconto, pois o vinho já estava aberto e já fora experimentado. Mesmo assim, uma senhora barganha. Salvei a casa e minhas papilas aplaudiram. E acho que o Iniesta vai marcar mais gols com seu novo vinho. Fazer o quê? Craque é craque.
Da Adega
Premium em meias garrafas
. A Casa Valduga acaba de lançar novas garrafas de Cabernet Sauvignon e Chardonnay em garrafas de 375 mm. Ideais para quem bebe sozinho ou em mesas onde se disputam carnes e peixes. Agora, o mercado conta com o Premium Cabernet Sauvignon 2007 e o Premium Chardonnay 2010 nessas garrafinhas – que custam metade da garrafa de 750 ml. Saiba mais no site da
Casa Valduga.
Para o Papai. Cerveja Bauhaus, 600 ml. É uma lager e é Premium, pois é ouro-malte (poucas são feitas assim no Brasil). E é mineiríssima, terra do ouro. A promoção é da
Vinis.

30.7.10

Veneno e contraveneno

O TAMANHO DAS TAÇAS. Poderia ser também o tamanho da sobriedade. Há algum tempo, os bares ingleses inventaram de servir vinho em taças de tamanhos fora do padrão, bem maiores, o que levou a protestos pelas autoridades da saúde. Com os vinhos com maior teor alcoólico, beber “apenas” uma taça poderia resultar em problemas.
A Riedel, o mais famoso fabricantes de taças do mundo, oferece algumas taças com capacidade de até 621 ml. Certo: não vamos enchê-las até a boca; até a metade é o suficiente (e prudente). Mas 306 ml é uma grande quantidade, quase metade de uma garrafa de vinho.
Mas agora inventaram uma taça ainda maior, gigantesca, com a capacidade para todos aqueles 750 ml. VEJA AQUI, não só a taça como o vídeo. A novidade custa 12,99 dólares e está à venda na Kotula, uma rede de lojas de presentes e engenhocas espalhadas pelos Estados Unidos.
A propaganda da Kotula diz que a enorme taça “é a coisa mais apropriada para uma noite aconchegante”. Agora, quem jurar ter bebido apenas “uma” taça, poderá estar falando a verdade ou fazer o bafômetro explodir e ir em cana (sem duplo sentido).
RESSACA. Depois de uma taça dessas, prepare-se para uma ressaca. Fala-se que um dos remédios é curá-la é com seu próprio veneno, o álcool. Em inglês, existe uma expressão coloquial que explica esse tipo de “tratamento”: hair of the dog, literalmente, “pelo do cachorro”. Isso porque nos tempos de Shakespeare, se uma pessoa fosse mordida por um cão raivoso, hidrófobo, o remédio era colocar um pouco do pelo daquele cão na ferida. Daí que, para ressacas, o “pelo do cachorro” virou metáfora para o remédio da manhã seguinte à bebedeira: um pouco mais de álcool. Claro que não cura, nem da ferida, da hidrofobia ou do porre. Em alguns casos, contudo, pode ajudar.
Tais remédios têm o cativante formato de drinques muito saborosos (revigorantes, alguns), tidos como próprios para ressacas. Vamos a alguns deles:
BLOODY MARY. É um clássico. Primeiro, os ingredientes: vodka ou gim (uma dose ou 30 ml), 150 ml de suco de tomate, um pouco de sal de aipo (sal de mesa misturado com grãos de aipo secos e moídos, utilizado para dar melhor sabor aos grelhados de peixes, carnes, caldos e bloody marys), um salpico de tabasco, outro tanto de pimenta do reino preta, umas cinco gotas de molho inglês, um tantinho de raiz-forte (muita gente prefere usar wasabi ou mostarda preta: uma colher de chá) e uma colher de chá de suco de limão.
Num copo alto, coloque a vodca (ou gim ou tequila) e gelo à vontade. Depois vá colocando os demais ingredientes listados acima. Decore com talos de aipo. É o drinque da manhã seguinte, alimenta e ajuda a dissipar o nevoeiro. Estou sempre preparando um para mim, mas não preciso de ressacas para tomá-los.
SUCO DE PICLES. Pois não é que na Rússia e na Polônia a turma da ressaca prefere suco de picles como “pelo do cachorro”. Suco de picles nada mais é do que aquela salmoura que conserva pepinos, cebolinhas, couves-flor, os produtos mais utilizados como picles.
Acontece que a salmoura daqueles potes é constituída de água, sal, vinagre (ácido acético) e cloreto de cálcio. Funciona como um poderoso isotônico. Já li notícias que essa salmoura foi a “arma secreta” de times de futebol americano, jogando sob um sol de lascar. Garantem que esse suco pode evitar câimbra em atletas. Um fabricante de picles, a norte-americana Golden Pickle, oferece inclusive um isotônico, o “”Pickle Juice Sport”, afirmando que ele possui 15 vezes mais eletrólitos que o Gatorade.
O melhor é beber logo a salmoura e depois comer os picles. E deixar de namorar por umas doze horas.
ME LEVANTA. O título é criação minha; o original é “Harry’s Pick-Me-Up”. Como eu não conheço o Harry e copiei a receita de um livro emprestado (“The Savoy Cocktail Club”), fiquei com esse mesmo, pois é considerado um energizador clássico. Um “levanta defunto”, como dizemos aqui.
Leva dose e meia de conhaque (a marca você escolhe), meia dose de grenadina (normalmente, um xarope de romã, mas pode usar também xarope ou licor de groselha, de framboesa e até mesmo xarope de açúcar); uma colher de sobremesa de limão. Misture tudo num copo alto. Complete com um espumante.
OSTRA DA PRADO. Outra tradução literal de “Prairie Oyster”, outro drinque tradicional para as conseqüências de um porre. Um ovo, uma colher de chá de molho inglês, sal, pimenta do reino e tabasco.
Quebre o ovo e reserve a gema. Junte o milho inglês, o sal a pimenta e o tabasco num copo comum. Beba de um gole só.
Dá bons resultados? Bem, funcionou para James Bond em Thunderball (007 Contra a Chantagem Atômica).
Tamanho não é documento, todo mundo sabe. E o melhor para a ressaca é beber moderadamente. Mas alguns dos remédios acima funcionam muito bem, ora como um aperitivo, ora como um restaurador de forças.
Da Adega
Delícias suíças
. A L’Orangerie, casa de vinhos em Laranjeiras, Rio, está programando uma noite de degustação de delícias suíças – agora mesmo, 4ª. feira, dia 4 de agosto. A noite inclui entrada de batatas assadas ao molho de cebolas, pimentão e gruyere com bouquets de brócolis, devidamente acompanhadas pelo Johannisberg de Chamoson e pelo Petit Arvine du Valais. Haverá mais vinhos para degustar, como o Pinot Noir du Valais e o Domaine Eveche du Valais. No jantar, um Syrah du Valais acompanhará torta de cebolas à moda Schaffhausen, com desfiado de carne e mini legumes. Na sobremesa, um suflê de morangos, um Marsanne Valais. A casa fica na Rua General Glicério, 364. Visite o seu
site.
Prazeres da Mesa em Fortaleza. A segunda edição desse grande evento gastronômico ainda está em Recife, mas se prepara para desembarcar em Fortaleza, onde fica nos dias 4 e 5, no SENAC daquela capital. Na programação, debates sobre a “Identidade da Cozinha Cearense”, aulas de cozinha, confeitaria, panificação e etiqueta, além de degustação de comes e bebes (vinhos em particular). Os restaurantes mais importantes da cidade vão participar.
Saiba mais sobre tudo o que acontecerá em Fortaleza no
site da revista.

25.7.10

Pais e vinhos

A coluna de hoje está um verdadeiro patchwork, emendando dicas que só têm em comum o vinho, mas todas para o Dia dos Pais. Vamos começar com um presente criado por uma especialista em bonecas e utensílios de pano, mestre em retalhos.
Dia dos Pais: 1)Porta-vinho. Quem sabe, seu pai vai gostar de substituir as frágeis sacolas de plástico por um porta-vinhos de pano, acolchoado, mais seguro e elegante? Veja só a criação da Bonecaria Mandú. Se tiver dificuldades em acessar, fale com a própria dona e criadora da bonecaria, a Sueli Mandú, através de e-mail. O atelier fica em Osasco, São Paulo.
Dia dos Pais: 2) Beber sem derramar. Vi a foto de um prato de madeira, com um recorte para colocação de uma taça de vinho. Ou seja: nosso convidado pode comer de pé, que a taça copo fica segura, basta colocá-la nessa abertura do prato: suas haste e base ficarão para baixo e apenas o corpo aparecerá na superfície do prato. E assim evitamos que o vinho seja derramado, manche roupas e tapetes. Tenho uma coleção de seis pratos de madeira, originalmente comprados para queijos. Mandei fazer os recortes num carpinteiro aqui perto (uns 10 cm da borda para o centro do prato e uns três cm de largura) e rapidinho fiquei com pratos próprios para coquetéis. Neles, coloco salgados, queijos, torradas etc. e as taças de vinho, claro. Quem quiser comer sentada (e tiver lugar) é só retirar o copo do entalhe e colocar na mesa. Papai vai achar esperto.
Dia dos Pais: 3) iPhone e vinhos. Seu pai gostaria de se atualizar e ter um smartphone – e, além disso, adora os vinhos, mas não consegue pronunciar Trockenbeerenauslese ou qualquer daqueles nomes de regiões e uvas, tão complicados. Então, a dica é comprar um iPhone e, com ele, um programinha que ensina a articular corretamente mais de 200 termos especializados, de regiões, cepas e vinhos franceses, alemães e italianos. Veja só o que é o Enotria Guide. Custa só 3 dólares. Vai ajudar a você não mais apontar para o cardápio para informar o vinho que deseja.
Dia dos Pais: 4) Flores e vinhos. Você pode também transformar a já corriqueira garrafa de vinho que sempre oferece no Dia dos Pais num presente surpreendente, inesquecível. Que ta combinar uma cesta de flores com um vinho. Temos aqui exemplos de combinam os aromas das flores com o do vinho.

Primeiro arranjo: madressilva, jasmim, rosas vermelhas e ainda
um tanto de tomilho para embelezar ainda mais a cesta.
A madressilva e o jasmim nos trazem aromas florais e de pêssego. O vinho para combinar seria um argentino com a uva branca Torrontés. Dica: Crios de Susana Balbo Torrontès 2009. Encontrei esse vinho, há tempos, no Alipão Vinhos e Cia, em Botafogo.
Veja aqui. A Susana Balbo é enóloga e renomada produtora argentina. Visite o seu site.
Se quiser acrescentar um prato especial para o dia, tente um camarão levemente refogado (sautée), com molho de laranja, suco de limão, uma colher de sopa de azeite e tempero a gosto (sal, alho e pimenta do reino).

Segundo arranjo: ranúnculo, dálias, a linda scabiosa, violetas, folhas de manjericão e de orégano – tudo isso num jarro médio ou numa taça grande de vinho. Os aromas mais predominantes serão de violetas, cereja e morangos (ou, em resumo, de frutinhas vermelhas). É uma soma de aromas que aproximam o arranjo de um Pinot Noir jovem (seus aromas típicos são de frutas vermelhas). Os bons Pinot não são fáceis de encontrar, mas você pode pesquisar os da Borgonha (os melhores, mas caros) ou tentar os bons exemplares espanhóis, portugueses, italianos, norte-americanos (principalmente os do Oregon), chilenos e neozelandeses.
Uma combinação clássica é pato ao molho de amoras.

Ingredientes: uma xícara de amoras, uma cebola roxa das grandes, picada; meia taça de vinho tinto (use o mesmo ou de mesma qualidade do presenteado), duas colheres das de chá de azeite, 4 peitos de pato com pele, sal e pimenta do reino à vontade, meio copo de água, 2 colheres de mel, 3 colheres das de sopa de manteiga, uma colher das de chá de tomilho. Ponha a panela no fogo. Coloque as amoras e as amasse. Em seguida, acrescente as cebolas, o vinho tinto e o azeite. Junte os filés de pato com a pele virada para baixo; espere selar e em seguida desvire os filés. Reserve os filés no molho por 30 minutos, pós o que seque-os e tempere com sal e pimenta, deixando-os numa frigideira grande, virados com a pele para baixo. Cozinhe (fogo alto) por um minuto. Reduza para fogo baixo e cozinhe até que a pele fique bem tostada (uns 6 minutos). Vire os filés e cozinhe até que fiquem ao ponto (mais uns 3 minutos). Deixe descansar por uns 5 minutos.
Limpe a gordura da frigideira e acrescente os filés e junte mais meia taça de vinho. Ferva até que o molho fique reduzido pela metade. Acrescente o que sobrou do molho e cozinhe em fogo moderado. Coloque os filés numa caçarola, livre-se do molho, e acrescente mel e manteiga, tomilho e sal e pimenta a gosto. Corte os filés em tiras diagonais e os transfira para os pratos. Decore com um pouco de vinho tinto em volta das tiras de filé e com o que sobrou de amoras. E pronto.


Feliz Dia dos Pais!
Da Adega
Caçarolas e cremes no inverno
. Mas se, afinal, você resolver convidar o velho para sair, não se esqueça do Festival de Caçarolas e Cremes do Cantaloup. Elas vão aquecer ainda mais o carinho que existe entre vocês. Experimente: tem a de lentilhas com paleta de cordeiro e foie gras, a de frutos do mar, o creme de ervilha com tempurá de salmão e gergelim, o creme de mandioquinha com camarão ao aroma de maracujá. Esse festival vai só até o dia 7 de agosto. Seu eu morasse em São Paulo, não perderia. Iria lá só para lembrar de meu querido pai.
O
Cantaloup fica na Manuel Guedes, 474, Itaim. Seu telefone é (11) 3078-3445.

15.7.10

A bebida do campeão

Da água ao Terere. Um jogador de futebol precisa de líquidos para suportar a verdadeira maratona que faz em campo. São nove quilômetros em média, distâncias que percorre correndo, pulando, driblando, cabeceando, dando carrinhos e bicicletas, trombando, caindo e levantando.
Bebem e comem carboidratos, de preferência para que recebam pelo menos umas cinco mil calorias por dia. Consomem, em condições normal, de 30 a 60 gramas de carboidratos por hora, durante um jogo de noventa minutes, de modo a retardar a fadiga muscular, reidratar-se e a melhorar o seu desempenho.
As políticas praticadas pelas Seleções variam. Ora as opções consideram água e isotônicos (tipo Gatorade, feita de água, sais minerais e carboidratos). Algumas seleções permitem uma ou duas taças de vinho às refeições. O Maradona falava que não só o vinho, mas outro tipo de conforto era permitido em seu time: as mulheres.
Mas, para mim, a seleção Paraguaia fez a diferença. Trouxe para a África do Sul o seu Terere, uma bebida nacional, mas também consumida e fartamente no Brasil e na Argentina.
Trata-se da erva-mate, que o gaúcho usa no seu chimarrão. Mas no Paraguai é consumida com água fria. Já era consumida pelos índios guaranis, antes da invasão espanhola e continua hoje como uma parte importante da cultura do país. E, claro, dos hábitos dos jogadores paraguaios.
É uma bebida muito popular, apesar de não ser alcoólica. E é estimulante (contém cafeína) e, assim, utilizada em lugar do café. O Terere tem ainda uma segunda e importantíssima qualidade. É uma bebida de confraternização. Os paraguaios costumam levar garrafas térmicas (para a água), cuias (como as do chimarrão) e a erva mate. Colocam a era na cuia, juntam água e através de uma “bomba’ (um canudo metálico) a bebem, fazendo passar a cuia para um amigo ou conhecido que esteja próximo. A prática é a mesma no sul brasileiro e na Argentina. É considerada não apenas refrescante, mas também um remédio, bom para dores de cabeça e diarréias.
E foi assim que a seleção paraguaia se hidratou e refrescou na África do Sul.
Andres Iniesta e o vinho. Autor do gol que deu à Espanha o título de campeã mundial de futebol, melhor jogador em campo segundo a FIFA, o meio-campista Andres Iniesta, 26 anos, está perto de conseguir mais um título: o de maior produtor de vinhos finos da região de Castilla La Mancha, onde está investindo nove milhões de euros em vinhedos e numa vinícola, a Bodega Iniesta, na sua cidade natal, Fuentealbilla.
Iniesta saiu de lá muito cedo, aos 13 anos, quando ingressou na escolinha de futebol do Barcelona. De lá pra cá, transformou-se num dos mais técnicos jogadores de futebol do mundo e ajudou o time catalão a ser o primeiro na Liga dos Campeões e no campeonato europeu.
Fuentealbilla tem apenas dois mil habitantes, metade dos quais trabalha na cooperativa de vinhos da cidade. Porém, não se utiliza da tecnologia que Iniesta vai adotar sua vinícola, a Bodega Iniesta, quando estiver pronta. Castilla La Mancha, na região central do país, produz cerca de metade de todo o vinho espanhol. E é o vinho que liga o craque à sua terra natal.
Se Dom Quixote, o protagonista de Cervantes, o fidalgo que perdeu a razão por ler tantos romances de cavalaria, lutava contra moinhos de vento pensando que fossem gigantes, Iniesta sabe que terá de lutar contra a fama e a qualidade dos vinhos da região de La Rioja, gigantes de verdade. O jogador-vinicultor é muito competitivo, como vimos em campo, e está se preparando para esse jogo que não durará uma ou duas horas.
O Sancho Pança de Iniesta é o seu pai. É ele quem cuida dos investimentos de seu filho. A vinícola, quando pronta, deverá produzir 700 mil garrafas de vinhos tinto, branco e rosé por ano. A produção começará já em setembro. Iniesta pretende, já de início, exportar parte de seu vinho para a Inglaterra e Alemanha, onde poderá ser vendido em restaurantes por 40 euros a garrafa.
“Isto aqui é a Liga dos Campeões”, diz ele, comparando o negócio de vinhos com a principal competição do futebol europeu. “Se você não produz o melhor vinho, está morto”, completa.
Ele está certo: a justa fama de grande jogador e de campeão do mundo de seu filho tem de ser aproveitada, uma reputação que certamente ajudará nas vendas, embora saiba que esperará décadas para que o rótulo da sua bodega se estabeleça num mercado apinhado de ofertas.
Ao investir nove milhões de euros no negócio do vinho, Iniesta era simplesmente o meio-de-campo do Barcelona, uma senhor craque, não resta dúvida. Ele não esperou a Copa para abrir o bolso.
De qualquer modo, ser campeão mundial, o homem que fez o gol da vitória da Espanha, será um excelente negócio. Mas ele sabe que será melhor ainda para seus netos.

8.7.10

Vinhos biodinâmicos, um blefe?

“Biodinâmica é um blefe”, afirma o vinicultor americano Stuart Smith, que criou um blog cujo título é exatamente a frase que abre essa coluna. Smith abriu uma senhora polêmica, do tipo religião X ciência ou entre Criacionistas X Darwinistas. E, para começar, seu principal alvo tem sido Rudolf Steiner, o fundador da Agricultura Biodinâmica.
Vinhos orgânicos são aqueles produzidos a partir de uvas orgânicas, cultivadas sem o uso de fertilizantes, pesticidas, fungicidas e herbicidas artificiais. Na bebida também não se acrescentará um secular conservante, o sulfito (dióxido de enxofre ou anidrido sulfuroso, SO2), embora os que ocorrem naturalmente durante a fermentação continuarão presentes no vinho.
A vinicultura biodinâmica parte da orgânica, pois também exclui os elementos químicos no preparo da terra e no cultivo das uvas. Mas incorpora novas idéias a respeito da vinha e do ecossistema, considerando aspectos como influências astrológicas e dos ciclos lunares. O vinicultor não realiza manipulações comuns, como uso de levedos especiais ou ajustes de acidez. O vinhedo é tratado como um organismo vivo e o objetivo é promover a saúde de todo o conjunto em torno dele: as vinhas, o solo, os insetos etc. O problema, talvez, seja que algumas das práticas da biodinâmica parecem ser puro vodu. Por exemplo, borrifar os vinhedos com um preparo de estrume de gado ou com um composto de cristais de quartzo, ambos colocados em chifres de boi, em seguida enterrados no solo por seis meses. O composto é diluído e aspergido em datas, horas e fases da lua específicas, de acordo com práticas astrológicas e homeopáticas (esses preparos têm de ser aspergidos por toda a área plantada).
Em junho de 1924, o filósofo austríaco Rudolf Steiner deu uma série de conferências sobre agricultura a uma de centenas de seus seguidores, na cidade de Koberwitz, Polônia. E essas conferências se transformaram na base da agricultura biodinâmica, embora Steiner nunca tivesse sido agricultor em sua vida.
Stuart Smith acha Steiner uma espécie de charlatão ou alguém saído de uma comunidade hippie entupido de LSD. No seu blog, ele transcreve um pouco da página 11 do livro Agricultura, de Steiner, que reúne todas as conferências e debates daquele junho de 1924. Em resumo, Steiner afirma que os alimentos que consumimos vão para o estômago, mas “não participam do desenvolvimento de nossos ossos, músculos e outros tecidos. Eles só contribuem para o desenvolvimento de nossa cabeça”. Para ele, o desenvolvimento de nossos membros, ossos etc. é feito “através da nossa respiração e mesmo via nossos órgãos sensoriais”. Steiner insiste: “Por outro lado, se quiser saber de que substância é feita o seu cérebro, então precisa olhar para a sua comida”. Steiner nunca chegou a explicar as origens de seus achados. Nunca citou quaisquer pesquisas ou experimentos que confirmasse suas teorias. E nem estava interessado nisso. Ele entendia um universo no qual qualidades “etéreas” penetram nas matérias brutas de modo a lhes dar vida. O projeto de Steiner era criar uma “Ciência Espiritual”.
Já em pleno século 21, o principal discípulo de Steiner e um dos líderes da vinicultura biodinâmica, o francês Nicolas Joly, produtor famoso no Vale do Loire, escreveu um livro, “Biodynamic Wine, Demystified” (“Vinho Biodinâmico, Desmistificado”), onde não cumpre o que o título do livro promete.
Joly explica que o preparo com quartzo/sílica num chifre de boi enterrado no solo funciona como um microchip de computador. “Age como um link ou meio, uma espécie de antena receptiva para certas forças que irradiam a partir do sistema solar. Esse pó está impregnado de certas energias, freqüências e de informação”. Essa carga energética “é dada pela natureza através do chifre e a terra onde ele está enterrado. Se estivermos no verão, essa preparação estimula as folhas e a fotossíntese”.
Steiner dizia que certos insetos-praga são espontaneamente criados por “influência cósmica” (pg. 115 do seu livro) e que comer batatas “é um dos fatores que tornou homens e animais materialistas” (pg. 149), que “a maioria de nossas doenças acontecem quando nosso corpo astral está conectado mais intensamente com o físico do que deveria, normalmente” (pp. 116-17). Não acreditava que as plantas podiam adoecer; era poderiam parecer doentes quando “As influências da Lua sobre o sol tornam-se muito fortes” (pp. 117-18).
As preparações propostas incluem a já conhecida de esterco num chifre (Preparação 500) ou com quartzo (Preparação 501), de flores de mil-folhas numa bexiga de veado (502), de camomila no intestino de uma vaca (503), de casca de carvalho no crânio de um animal doméstico (505) ou dente-de-leão no mesentério (parte do intestino delgado) de um bovino (pp. 72-99).
Steiner explicava, por exemplo, que “a bexiga do veado está conectada às forças do universo ... é a própria imagem do cosmo ... e, como resultado, “aumenta as forças da mil-folhas para combinar o enxofre com outras substâncias”.
Essas práticas esotéricas, essa espécie de vodu agrícola, não encontram fundamento na ciência. Funcionam? A agricultura biodinâmica é melhor do que a orgânica, da qual deriva? Qual a sua eficiência? Várias instituições e centros de pesquisas, laboratórios ao redor do mundo respondem que a vinicultura biodinâmica se sai melhor do que a padrão, não orgânica no que respeita à fertilidade do solo ou à biodiversidade. Mas isso não prova nada, já que a agricultura biodinâmica precisa necessariamente ser orgânica.
Um estudo de seis anos promovido pela Universidade de Washington e pela Universidade da Califórnia e vários outras entidades de pesquisa científica não conseguiu descobrir qualquer diferença entre as práticas orgânicas e as biodinâmicas. Os tais preparados melhoram o solo? “Nenhuma diferença foi estabelecida entre os solos fertilizados por compostos biodinâmicos em face dos orgânicos”.
Então, qual a razão de se gastar tanto tempo, pessoal e dinheiro com esses preparos? Imagine quanto de estrume, chifre, pessoal e dinheiro serão necessários para borrifar um Maracanã de bosta de boi? Uma teoria é a de que vinicultor um diferencial de qualidade, uma novidade, para que o seu vinho se destaque num mercado muito competitivo. Pode ser.
Pode ser que a relação entre vinho de qualidade e a cultura biodinâmica seja, no máximo, incidental. Só que não há como negar que os franceses de Chapoutier, Château La Tour Figeac, Zind Humbrecht e Ostertag, Coulée de Serrant, Domaine Leroy, Domaine Huët, Le Flaive, de Nikolaihof, na Áustria, de Benziger, Fetzer. Sinskey e Araujo, na Califórnia, e do próprio Joly sejam reconhecidos como de grande qualidade mundialmente. E a lista é bem mais longa. Hoje, mais de 10% dos vinhedos reconhecidos como orgânicos, na França, é ocupada pelos Biodinâmicos. Vale acrescentar que os dois críticos de vinho mais influentes do mundo, a inglesa Jancis Robinson e o americano Robert Parker, estão gostando desses vinhos. Parker já declarou publicamente que ele mesmo está aplicando métodos biodinâmicos em parte do vinhedo Beaux-Frères, no Oregon, que tem com seu cunhado.
O fato é que a agricultura biodinâmica, como a orgânica, tem uma concepção melhor da terra. Uma concepção sustentável. As duas contrastam radicalmente do modelo industrial, da agro-química, que primeiro esteriliza a terra e depois a entope com derivados de petróleo.
Se Steiner era um lunático, se os biodinâmicos usam vodu, acendem velas para a Mãe Terra, buscam fluidos cósmicos em chifres de boi com estrume, pouco importa. Importa é que estamos tratando a terra com o máximo de respeito e carinho, preservando o espaço em que vivemos e onde cultivamos. No final, o provável é que tenhamos um bom produto.
Da Adega
Maison des Caves. A importadora apresentará no próximo dia 22, às 22 horas, o seu novo portfólio de vinhos, o que será feito apropriadamente com sabor. O sommelier International Bruno Hermenegildo (formado pela Federazione Italiana de Sommeliers) apresentará uma seleção de rótulos trazidos da África do Sul e da Espanha. A
Maison des Caves fica no Casa Shopping, Barra, RJ.
Valduga com mais um rosé. A Casa Valduga já se prepara para tempos mais quentes e está lançando o Premium Merlot Rosé. Ela foi das primeiras vinícolas a apostar na retomada do consumo dos rosados por aqui. O novo rosé é feito com 100% de Merlot da safra deste ano. Cor salmão com fundo violáceo e brilhante. Harmoniza com frutos do mar, peixes, carnes brancas. E com um tempo à beira mar ou da piscina.

30.6.10

Cartas na mesa

Cartas de Vinho: suas origens podem ter cinco mil anos, pelo menos. As cartas brasileiras agora premiadas pela revista Prazeres da Mesa representam uma senhora viagem.
Os egípcios já registravam seus vinhos. Na tumba de Tutancâmon, por exemplo, foram achadas dezenas de ânforas de vinho, todas com registros da região de origem, das safras, da qualidade (“vinho novo”, “vinho fresco” ou de “ótima qualidade”), do estilo (se o vinho era doce ou seco) e, muito importante, o nome do vinhateiro-chefe. Nas ruínas de Pompéia ainda se reconhecem centenas de tabernas, estabelecimentos simples que tinham em suas paredes listas de vinhos e seus preços. Ofereciam do mais ordinário ao famoso Falerno, o vinho dos imperadores.
O tempo passa, os romanos constroem suas magníficas estradas e nelas aparecem as estalagens, locais onde os viajantes podiam encontrar algum abrigo: uma refeição, uma cama, um estábulo para o seu cavalo. E vinho para matar a sede. Ao lado delas, as tavernas ofereciam bebidas (principalmente o vinho) e alguma comida.
No século III d.C., o barril substituiu a ânfora. Mais leve, resistente e fácil de deslocar, abasteciam aquelas estalagens e tabernas. Apenas, não havia muita variedade, serviam-se vinhos de apenas um tipo, da região mais próxima.
E essa situação não mudou muito até que os restaurantes fossem criados, na França do século XIX, tal como os conhecemos hoje. Mas séculos antes, os restaurants eram lugares aonde se ia apenas para restaurar as forças, tomar uma pequena xícara de caldo de carne. Era um termo “médico”, assim como o conhaque, o grão-de-bico e o chocolate exemplos de substâncias “restaurativas”.
As guildas pré-revolução francesa estabeleciam monopólios: as charcutarias eram fornecedoras exclusivas de salsichas, presuntos e outros derivados de carne de porco; os açougueiros só podiam vender carnes cruas de outros animais; os rôtisseurs só forneciam carne de caça; os vendedores de pão de mel, os fabricantes de vinagres, os pâtisseurs eram todos regidos por estatutos exclusivos. Um famoso restaurateur, Boulanger, foi processado por vender um prato de pata de carneiro ao molho branco que não era considerado um restaurant, mas um ragu (que não é um caldo e, além disso, preparado de vários ingredientes diferentes).
Dos caldos à prodigalidade dos restaurantes que transformaram Paris na capital mundial da gastronomia, precisou haver uma revolução, abolindo guildas e normas, abrindo caminho para lugares que se tornaram cumes da extravagância culinária, onde a palavra gastronomia foi criada e que tornavam Paris uma cidade “moderna”.
E as primeiras cartas de vinho que conhecemos datam dessa época. Em fins de 1800, os restaurantes serviam uns poucos vinhos, de umas poucas regiões. Havia Bordeaux, algum Borgonha, champanhe, talvez algum alemão. Não havia lá essas necessidades de especificações, pois todos sabiam que os vinhos eram feitos apenas de uma só forma. Por exemplo, sabiam que um Chianti só poderia ter 100% da Sangiovese. Hoje, pode ser assim ou ter a companhia de uma Cabernet Sauvignon e por isso passar a ser chamado de supertoscano. Um Bordeaux de “garage” é outro animal. Informar o cliente sobre o que ele pode escolher é hoje trabalho mais complexo, mais difícil.
Daí a importância de prêmios que incentivem as nossas cartas. Como andamos nesse capítulo?
A Prazeres da Mesa vem de premiar as nossas melhores cartas e o fez em três categorias: Excelência, Grande Excelência e Cartas Especializadas. A escolha foi coordenada pelo colunista Maurice Bibas. A revista, nesse oitavo ano de premiações, recebeu 360 inscrições.
O troféu Excelência, para as melhores cartas de 2010 com 50 a 200 rótulos, teve os seguintes vencedores: Adega Santiago (SP), Arábia (SP), Bacalhoeiro (SP), Buttina (SP, Charpentier (Campos do Jordão), Dalva e Dito (SP), Divina Gula (Maceió), Dressing (SP), Ecco (SP), Empório Alto dos Pinheiros (SP), Limonn (SP), Pobre Juan (SP) e Praça São Lourenço (SP), Komka (Rio Grande do Sul), Lake's (Distrito Federal) e Vinoclub Bistrô (Rio de Janeiro).
Já o Grande Prêmio de Excelência, que elegeu as melhores cartas com mais de 200 rótulos, foi para A Figueira Rubaiyat, Amadeus, Arola Vintetres, Baby Beef Rubaiyat, Bellini, Café Journal, Emiliano, Fogo de Chão, La Casserole, Olivetto, Porto Rubaiyat, Ráscal, Varanda Grill, Vento Haragano, Vicolo Nostro e Vinheria Percussi (todos de São Paulo), Durski (Paraná), Giuseppe Grill, Laguiole, Mr Lam e Terzetto (Rio de Janeiro), Taste Vin (Minas Gerais) e Pampulhinha (Rio Grande do Sul).
O release que recebi informa que essas duas categorias “avaliaram o compromisso dos estabelecimentos em manter oferta de vinhos acima da média, com bom acondicionamento, equipamentos apropriados, profissionais especializados e atenção à qualidade dos vinhos oferecidos”.
Com toda certeza, esses foram também critérios considerados na categoria Cartas Especializados, com casas que se destacaram por ter a melhor seleção de rótulos brasileiros, portugueses, argentinos e chilenos. As escolhidas foram Dalva e Dito (vinhos brasileiros – SP), Durski (vinhos portugueses – PR), Pampulhinha (vinhos chilenos) e Komka (vinhos argentinos), ambas do Rio Grande do Sul.
A premiação também considerou os profissionais do vinho. Daniela Bravin foi eleita Sommelière do Ano pelo seu trabalho à frente do paulistano Ici Bistrô; já o sommelier Manoel Beato, responsável pelas adegas do Grupo Fasano, ganhou o título de Personalidade do Vinho – não só pelo conhecimento aprofundado que tem da bebida, mas também por ser considerado pelo júri um verdadeiro “poeta do vinho”.
Alguns restaurantes (não falo necessariamente dos que compõem as listas acima) organizam suas cartas por variedade das cepas, outros por regiões e até os que destacam os vários estilos. Alguns, inclusive, ficam mais espertos e apresentam seus vinhos por critérios mais pessoais: “Vinhos para românticos”, “Vinhos para Celebrar”, “Vinhos Rebeldes”. Ou mesmo em função dos perfis de sabor: “Secos”, “Brancos com acidez”, “Tintos frutados”, “Vinhos para refrescar” (ou para aquecer). A apresentação pelo “corpo” do vinho não é incomum: “Brancos leves”, Brancos encorpados”, “Tintos de peso” etc.
Alguns optam por cartas pequenas, já outros podem apresentar tomos enciclopédicos. O lendário Tour d’Argent, em Paris, possui uma adega com mais de 450 mil garrafas, cujo valor foi estimado em 2009 em 25 milhões de euros.
Já fiz cartas para restaurantes com fotos a cores dos vinhos (saudades da minha Mavika), mais uma breve descrição dos mesmos. Fizeram sucesso. Além de facilitar e motivar os clientes, ajudavam o pessoal do salão a achar as garrafas. Mas hoje, temos restaurantes utilizando “tablets”, um pequeno laptop que vai à mesa do cliente através dos quais ele pode escolher milhares de vinhos, visualizando-os, informar-se sobre vinhedos, região, safra, vinhateiro-chefe, todas as características da bebida, enfim. E ainda fazer cruzamentos, como os pratos que melhor combinam com determinada garrafa. Veja aqui.
Ah, mas os preços nos restaurantes são sempre mais altos. O caso é que o vinho nessas casas é apenas uma peça do conjunto de itens que o restaurador cria para melhorar suas margens e poder cobrir os custos de estabelecimentos da categoria dos acima. Eles têm de pagar o açougueiro, o padeiro, a decoração do salão, sem contar os comerciantes de vinhos. Têm de pagar os salários do pessoal da cozinha e do salão. E, no que respeita os vinhos, têm de treinar seu pessoal para que possam oferecê-los com propriedade. Isso custa tempo, material (no caso, provar dos vinhos que ajudarão a vender) e dinheiro, claro. Além disso, temos os custos de adegas climatizadas, taças, baldes etc. Ah, acrescente aí aluguéis, taxas, impostos, seguros.
É certo que a leitora poderia comprar aquele Chianti num supermercado por um preço menor, ir para casa e, sem mais aquela, bebê-lo. Mas não vai gozar da experiência de um tempo agradável, muitas vezes inesquecível, num lugar que fez o possível para que seu vinho e comida combinassem tão bem.
Da Adega
Copa e frio vendem mais vinho. A Copa do Mundo mais o frio resultam em mais consumo de vinho. O aumento em junho e julho deve ser de 10% em relação a 2008. O diretor de marketing do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Diego Bertolini, acredita também que, entre outras razões, as pessoas podem beber vinho em dias e horários em que tradicionalmente não haveria consumo, como nos dias de semana. Além disso, 80% das pessoas assistem os jogos em casa. “Isso nos ajuda, pois o costume de beber vinho é um hábito mais residencial, e o frio da estação também influencia o consumidor”.
Leia a matéria toda aqui.

22.6.10

Não evite o melhor

Na coluna passada eu aconselhava “evite o melhor”, o oposto do que afirmo agora. Em pleno Dia dos Namorados tramei uma degustação pretendendo dar uma lição num candidato a namorado. Para mim, ele se apresentava como o bam bam bam do vinho. Cheia de brios, resolvi dar uma lição. Dei, mas o resultado foi o desaparecimento do futuro namorado. Faltou-me humildade. Eu deveria ter pensado mais em mim e menos nos vinhos. E a verdadeira combinação, no caso, não era vinho & comida. Era coisa muito melhor.
Volto ao assunto porque em plena semana dos Namorados, o chefão da celebrada Champagne Taittinger, Pierre Emmanuel Taittinger, afirmou que seu champanhe, indubitavelmente um artigo de luxo, não teme a concorrência dos Proseccos, Cavas e de qualquer outro tipo de espumante. O que ele mais teme é a concorrência do Viagra.
A afirmação foi feita num debate sobre o desempenho dos artigos de luxo nesse ambiente de crise econômica, que se abate mais dramaticamente sobre o hemisfério norte.
Pierre Taittinger explica que “nada é melhor do que uma taça de champanhe para ajudar a esquecer as tensões e pressões do mundo moderno”. Eu não pensei nisso.
“Estou preocupado com o débito dos países, o dinheiro será mais curto. Mas sempre haverá tempo para fazer amor e beber champanhe”. Eu também não pensei nisso.
Ao citar o Viagra como o grande concorrente, o presidente da Taittinger não fez mais do que lembrar o que não mencionei na coluna passada: vinho combina muito bem com sexo.
Enquanto a Soninha aqui ficou envolvida no grande debate mundial sobre harmonização de vinhos e comidas, sobre o que é melhor, selecionar primeiro a comida para depois escolher o vinho. Ou o inverso: primeiro escolher o vinho e só depois a comida. Ou não dar a mínima bola para isso tudo: comer e beber o que estiver na frente.
Pois é, mas como diz um colunista, “se o vinho é gostoso nos seus lábios é melhor ainda nos lábios do seu parceiro”. Combinar vinho e comida, portanto, não é o fim da história. É apenas uma pequena parte.
Os vinhos combinam muito bem com, digamos, “atividades”. Um vinho branco pela manhã, um Riesling, por exemplo, para animar o dia que vem pela frente. Um bom Pinot Noir à noite, aquecendo o papo com os amigos. Um vinho para refrescar, um vinho para animar, acompanhando uma leitura, um filme.
O tal candidato nunca deixou de lançar aqueles olhares. E a boba da Soninha incapaz de perceber que ele queria jogar o mais popular jogo dos casais que acabam de se conhecer. Papear sobre o que eles têm em comum. Quais seus restaurantes preferidos? E filmes, livros, passeios, moda? A lista é infindável. Era só não falar sobre vinhos que a coisa poderia engrenar.
Mesmo assim, fui convidada para jantar num Dia dos Namorados. O que fiz? Um jantar vegetariano para um sujeito que detestava esse tipo de dieta.
Eu deveria fazer o mais simples, pois combinar vinho com sensualidade ou sexo é bem mais fácil do que com comida, graças à versatilidade da natureza do sexo. Ele vai bem com qualquer vinho. Seu único trabalho é escolher.
Isto é, se no tal jantar acontecer aquele zumbido, aquela química e em seguida beijos e toques, você escolhe se o vinho vai ser antes ou depois do sexo. Apenas isso.
Eu poderia escolher um restaurante e aceitar qualquer vinho que ele me oferecesse. Se pedissem minha opinião poderia sugerir um tinto (parece que os tintos aumentam o desejo sexual nas mulheres, segundo os italianos). Contudo, minha escolha final seria champanhe. E nacional. Pronto.
Não acho que vinho ou catuaba tenham toda essa eficácia. Não dou bola para essas pesquisas. O que importa é a mágica, o clima que um encontro desses pode proporcionar. Boa vontade o meu parceiro teve, tanto que não se poupou jogando olhares e na primeira oportunidade me convidou. Logo o quê? Para um jantar de Namorados.
De qualquer modo, vinho e sexo combinam bem. E melhor ainda quando esse encontro produz faíscas. As faíscas do champanhe, primeiramente. Você percebe sua pele aquecer, o tempo começa a correr mais vagarosamente, seu coração parece repleto. Até aqui, a promessa de um romance. Se o sexo, depois, não for bom, não coloque a culpa na bebida ou no clima que antecipou a cama.
Como em qualquer harmonização, é importante ao combinarmos vinho e sexo manter em perspectiva as corretas proporções. Se beber pouco, nada vai acontecer. Se beber muito, pode haver lambança. Tenho certeza, amiga, que você saberá encontrar a dose perfeita.
O chefão da Taittinger se engana: o vinho será sempre mais romântico de que qualquer pílula. O Viagra não tem essa competência.
Da Adega.
Festa Junina pela melhor doceira de Sampa
. Bolo de fubá, canjica e arroz doce e mais uma variada e deliciosa variedade de bolos, tortas, doce e mini-doces e guloseimas da roça. Passe na premiadíssima
Pâtisserie Mara Mello e faça hmmmmmmm!
Os Melhores do Ano. A revista
Prazeres da Mesa promoveu dia 8 último a eleição dos melhores do ano da gastronomia nesse país. São 16 categorias. Eis a relação:
CHEF DO ANO (profissional que tenha se destacado no último ano): Roberta
Sudbrack, Roberta Sudbrack, Rio de Janeiro
CHEF REVELAÇÃO (jovem profissional
que tenha despontado na profissão nos últimos dois anos): Eudes Assis, Seu
Sebastião, Maresias, SP
RESTAURANTE DO ANO (casa que prima pela excelência de
sua cozinha, serviço perfeito e gostoso ambiente): Maní, São Paulo,
SP
SOMMELIER (profissional que se mantém atualizado e que é um grande devoto
dos melhores rótulos, nem sempre os mais caros): Daniela Bravin, Ici Bistrô, São
Paulo, SP
BAR DO ANO (casa que tenha um perfeito serviço etílico, mas que
cuida também com carinho da deliciosa baixa gastronomia): Bottagalo, São Paulo,
SP
BARISTA DO ANO (aquele que serve o melhor café do país): Yara Castanho,
Suplicy Cafés Especiais, São Paulo, SP
RESTAURANTE DE COZINHA BRASILEIRA
(prêmio concedido às casas que divulgam nossa cultura à mesa): Mocotó, São
Paulo, SP
BANQUETEIRO (profissional que comanda as festas mais comentadas do
país): Carlos Bertolazzi, C.U.C.I.N.A, São Paulo, SP
BRIGADA DE OURO
(restaurante que tem equipe afinadíssima, onde o serviço e as gentilezas são
pontos fortes): Fasano, São Paulo, SP
ARTESÃO DA GASTRONOMIA (aquele pequeno
e tradicional produtor que há anos abastece os gourmets de plantão com suas
delícias artesanais): Companhia das Ervas (ervas e temperos)
BARMAN (mestre
das coqueteleiras, profissional que sabe as alquimias dos drinques perfeitos):
Marcelo Vasconcellos, Pandoro, São Paulo, SP
CASA ESPECIALIZADA
(estabelecimento que apostou na tendência de vender um só tipo de produto):
Maria Brigadeiro, São Paulo, SP
CHEF PÂTISSIER (o grande artista do açúcar,
muitas vezes escondido nos bastidores das confeitarias): Marcello Magaldi,
Buffet Fasano, São Paulo, SP
PERSONALIDADE DA GASTRONOMIA (homenagem ao
profissional que venha fazendo algo de relevante pela gastronomia brasileira nos
últimos anos): Vicente La Pastina
RESPONSABILIDADE SOCIAL NA GASTRONOMIA:
Instituto Maniva
PERSONALIDADE DO VINHO (homenagem ao profissional que venha
fazendo algo de relevante pelo mundo do vinho nos últimos anos): Manoel Beato

8.6.10

Vinhos e Namorados: evite o melhor

Ah, eu namorei muito. Talvez para compensar, eu hoje namore quase nada. Mas continuo de olho no Dia dos Namorados. Ele tem de ser festejado, se possível em mais de uma data, todas as semanas, quem sabe? Mas é preciso tomar alguns cuidados. No meu caso, evitar falar sobre vinhos. Sair para jantar no dia dos namorados, um vinho à mesa, devidamente escolhido pelo homem que te convidou – seu namorado ou forte candidato a sê-lo. Tudo isso é clichê, eu sei, e muito pouco feminista. Mas é assim que será.
Era uma vez a Soninha, sócia de uma loja de vinhos em Itaipava. Minha parte não era a comercial, eu apenas palpitava nas compras, no estilo da loja, de seus serviços e ajudava no atendimento.
Entre em cena um certo cliente, mais maduro do que eu (e isso importava?). Chegou num carrinho esporte, desses sem capota, uma antiguidade bem cuidada, aparato regular entre homens maduros que querem fazer bonito com as mulheres. Deu uma demorada olhada na vitrine e entrou. Só que chegou no momento em que eu estava degustando um Fleurie, com um, velho freqüentador da loja. Pudera, o Cru Beaujolais era uma novidade, na minha e em qualquer loja. Tínhamos comprado uma leva com mostras de todas as 10 sub-regiões de Beaujolais.
O cliente entrou, cumprimentou e logo se dirigiu ao balcão com ar de pidão. Claro que ofereci uma taça ao cavalheiro. Imediatamente segurou a taça pela base, com o polegar e o indicador, girou-a cuidadosamente. “É preciso deixar o ar entrar, fazer o vinho respirar”, falou, notando que eu e meu amigo segurávamos nossas taças pela haste, bebericávamos sem maiores compromissos. Mas o visitante continuou na sua interpretação de connaisseur. Levantou a taça contra um ponto de luz para apreciar as sutilezas da cor. Em seguida, mergulhou o nariz na taça para aspirar o seu bouquet. E só então provou do vinho. “Até que tem alguma coisa de aromático”, concedeu. Ia comentar mais quando pediu para ver o rótulo. E descobriu que era um Beaujolais. “Até que esse não é dos piores”, lascou. Meu amigo tentou explicar: “Olha, esse é um verdadeiro Cru, nada a ver com o Nouveau; é um vinho sutil, com bastante fruta, flores e até um tanto picante...” e foi por ai elogiando o Cru.
O novo cliente sorriu, e explicou que não iria perder tempo com os Beaujolais. Contudo, passou a freqüentar a loja. Dava uma olhada nas prateleiras, comprava uma ou outra garrafa. Tínhamos Borgonhas simples, mas bons, Bordeaux simpáticos, interessantes alemães e dignos alsacianos, australianos, argentinos, chilenos, norte-americanos, portugueses, espanhóis, italianos, austríacos, sul-africanos. E não poderiam faltar, os brasileiros da Miolo e da Dal Pizzol.
Além da boa coleção de Crus Beaujolais, conseguimos outra novidade, um supertoscano, um Sasso Al Poggio 2004, da Família Piccini, Toscana. Naquela época, os supertoscanos ainda eram uma das sensações no mundo dos vinhos. Vinhos potentes, que desrespeitavam as clássicas regras da DOC/DOCG por misturarem a obrigatória e veramente italiana Sangiovese com cepas “estrangeiras”, no caso as estrelas de Bordeaux: Cabernet Sauvignon e Merlot. Vendíamos com pouquíssima margem, mais pelo prestígio que poderiam trazer para a loja.
Nosso novo cliente parecia interessado apenas em vinhos pontuados, chancelados pelos papas da época, de Robert Parker (já então considerado o maior crítico de vinhos do mundo, o “nariz de um milhão de dólares”) e a revista Wine Spectator. Pecado esperar encontrá-los na nossa loja. Os vinhos bem pontuados por Parker (criador do sistema de qualificar vinhos metricamente, com os seus 100 pontos) eram quase que completamente comprados pelas grandes casas, exportadoras, colecionadores, comerciantes do hemisfério norte. Seus preços atingiam alturas insuportáveis.
Para um homem com uma relíquia importada sobre rodas, uma Mont Blanc brilhando no bolso da camisa e que citava Parker, assinava a Wine Spectator, e que só queria saber de pontos era de se esperar que só escolhesse as garrafas mais caras. E ao longo de uns poucos fins de semana levou todos os nossos Sasso Al Poggio 2004, que, claro, tinha ganho 90 pontos da Wine Spectator. Outra curiosidade: não me poupava com seus olhares mornos.
Não escondia também demonstrações do que achava fosse alto conhecimento. Falava de aromas de couro, de frutas cristalizadas, notas de chocolate, dizia que estava na lista de espera do Stag’s Leap, que acabara de comprar em leilão uma caixa do Château Lynch-Bages 1985. Comentava sobre o “retrogosto” e até dava exemplos de quantos segundos o sabor de alguns vinhos ainda ficavam na boca, tal como Parker. Os Bordeaux da loja eram medíocres (ele não dava a menor bola para os nossos Mouton Cadet, campeões de venda), não tolerava os Chardonnay (era moda na época entre os seres dessa tribo não beber dessa uva), os Beaujolais, já sabemos, ele desprezava. Os Borgonhas eram “da mais baixa categoria”. Tínhamos exemplares de “Côte de Beaune”, penúltimo lugar na hierarquia da região. Eram excelentes, na boca e no bolso.
Eu replicava: para quem está em busca de status, essa hierarquia pode até funcionar. Mas para quem quer custo-benefício, o negócio é encontrar prazeres nos vinhos “menores”. Os nossos tinham preços em conta e eram deliciosos, podem acreditar. O importante não é o fetiche, mas o prazer encontrado numa taça. Apesar disso, os olhares continuaram.
Além desse calo mental criado pelos sistemas de pontuação de vinhos, o nosso cliente adotava também clichês, do tipo vinho tinto com carne vermelha, vinho branco com carne branca, vinho com vegetais nem pensar. As taças Spiegelau disponíveis na loja seriam inferiores às suas preferidas Riedel (certamente celebradas por Parker). Ficava penalizado por só dispormos de taças para Cabernet Sauvignon e Chardonnay, que vendíamos como genéricas para tintos e brancos. E piorava o nosso dia ponderando que se vendíamos Borgonhas, tínhamos de ter taças abalonadas típicas daqueles vinhos.
Eu ia levando. Até que um dia o limite dos olhares foi ultrapassado. O elegante cliente resolveu me pontuar também. Convidou-me para um jantar e justo no Dia dos Namorados. Ali tinha coisa. O homem queria mais do que vinho.
Com um amigo, o Dudu, chef de um restaurante de comida italiana não muito longe da loja, tramei um “jantar de namorados”. Ele seria o mais vegetariano possível e os vinhos servidos às cegas (um saco de pão cobrindo a garrafa). Dudu é um craque: passou bom tempo fora do Brasil e cozinhou em restaurantes londrinos e italianos. Ele entrou com as comidas e até com alguns vinhos.
Meu candidato a namorado chegou à hora marcada, trazendo com ele um sorriso superior, tal como James Bond diante do Dr. No.
O primeiro prato era uma sopa, a Ribollita, famosa na Toscana, derivada do minestrone. Em seguida, pimentão vermelho recheado com queijo de cabra, cozido com molho de tomate, lascas de pimenta malagueta. E, por fim, aspargos frescos com molho hollandaise. Para sobremesa, também de origem italiana, “Seios de Virgem” ou Minni di virgini, bolinhos dedicados a Santa Agatha feitos de ricota coberta com marzipan e decorados com duas cerejas, uma em cada bolinho (ou em cada “seio”). Para elas, um vinho doce, um Late Harvest chileno.
Já vimos que o nosso candidato a namorado não admitia vegetais com vinho, com aspargos, então, era um atentado (“são o inimigo número um dos vinhos”, dizia, repetindo dezenas de críticos). Vinhos doces, ou de sobremesas, aceitava apenas os franceses (os Sauternes liderando) e alguns Rieslings.
Com a Ribollita, servimos um ótimo Chianti Classico, com 100% da grande cepa toscana, a tinta Sangiovese. Como a degustação era às cegas, estranhou um vinho tinto na taça. Com sopa? Pois é, explicamos, é que temos um prato forte, denso. Logo, um vinho um pouco mais potente para acompanhá-la.
Com o pimentão recheado, um prato mais picante, uma harmonização por oposição: um branco austríaco com a Grüner Veltliner, que tinha em casa, com notas florais, excelente acidez e também algo de pimenta do reino branca.
Não fomos rigorosamente vegetarianos, como se pode ver pelo queijo de cabra e pelo molho hollandaise aveludando os aspargos. Como esse prato experimentamos um Sancerre da vila de Bué, delicioso com seus aromas minerais e cítricos.
O vinho de sobremesa era um Late Harvest chileno, da Concha & Toro: alguma fruta, damasco e mel, a doce e prolongada lembrança desse jantar-degustação. Pelo menos na boca seria assim.
Meu pretenso namorado mal comeu. Provou daqui e dali. Estava sem graça. Não quis palpitar sobre os vinhos e nem se interessou em olhar os rótulos; insistia em que nada combinava com legumes e vegetais.
Mas foi elegante o tempo todo. Mal a mesa foi limpa, agradeceu, inventou uma desculpa e se retirou. Não cheguei a usar de umas citações que pretendia lascar em cima do candidato a enólogo e a namorado. Uma, do Einstein, contra a sua numerologia: “Nem tudo que pode ser contado, conta. E nem tudo que conta pode ser contado”. Outra, do Voltaire: “O melhor é o pior inimigo do bom”, para abrir-se mais: vinhos baratos não são ruins necessariamente. E não interessa o rótulo, a origem, o brasão: o que vale é o que está na taça.
O caso é que fiquei sozinha. A frase do Voltaire cairia como uma luva para mim. Ele era um enófilo empedernido. Nove fora a ladainha sobre vinhos, não chegava a ser um chato. Seus comentários podiam azedar meu dia, mas quase sempre eram corretos. Claro que tínhamos que melhorar nosso acervo.
Ele poderia não ser o melhor par, um esnobe etc. Mas poderia tornar-se um bom parceiro, um amigo. Talvez o jantar do Dia dos Namorados tomasse outro rumo se eu não saísse por ai querendo dar lições ou a pregar peças nos outros. Num certo sentido, eu fui a chata.
Perdi o cliente. Perdi a pose. Perdi o namorado. Só não perdi as esperanças. Em outros encontros, os vinhos nunca mais entraram na minha agenda. Só os bebi e com gosto.
Da Adega
Areje seu namorado. Já que estamos no assunto, considere presentear seu namorado com um Wine Finer, acessório que promete aeração e filtração do vinho em poucos minutos. Além disso, serve como corta gotas e tampa da garrafa. Dê só uma olhadinha no
site.
Aliás, no site temos depoimento de sommeliers e empresários do vinho elogiando o novo aerado. Uma de suas utilidades é tirar da nossa frente o tradicional decantador, sempre útil, claro, mas de difícil limpeza.
Segundo a demonstração no site, o vinho já chega à taça devidamente “respirado” e sem resíduos, já filtrado.