5.7.07

O vinho e o seu sorriso

Vinho cura cáries? Pois é, ainda na semana passada falei sobre os cuidados a tomar quanto ao noticiário sobre a saúde e as bebidas. Naquela ocasião dei como exemplo as notícias afirmando que poucos drinques por dia poderiam nos livrar da demência. Beba e não fique demente, eram os títulos. Mas os pesquisadores, da Universidade de Bari, Itália, (no artigo original, no jornal Neurology, especializado) faziam ressalvas. Não tinham dados do estilo de vidas das pessoas pesquisadas, não sabiam de suas dietas, por exemplo. Só as conheciam por relatórios médicos.
Agora, leio que para livrar-se das cáries e evitar ir ao dentista o melhor mesmo é tomar vinho. A fonte é de outra pesquisa italiana. Um grupo da Faculdade de Farmácia da Universidade de Pávia investigou os efeitos antibacterianos de vinhos brancos e tintos em nossa boca e garganta. Com ligeira vantagem para os tintos, ambas as variedades se saíram muito bem ao inibir o crescimento de várias cadeias de estreptococos (gênero de bactérias) relacionadas com a deterioração de nossos dentes e também, em muitos casos, com inflamações na garganta.
“Nossas descobertas parecem indicar que o vinho pode agir como um eficiente agente antimicrobiano contra estreptococos orais e podem ser ativos contra cáries e na prevenção de patologias do trato respiratório superior” – concluem dos pesquisadores de Pávia (referência do relatório original).
Apenas algumas das notícias ressalvavam um dado importante. Os cientistas italianos observam que seu trabalho foi realizado “in vitro”, em laboratório, sob condições controladas, em sistemas fechados, normalmente em tubos de ensaio. Nenhuma boca foi pesquisada. Vamos, portanto, esperar um pouco mais e ver o que acontece na vida real.
A síndrome do vinho tinto. As notas também não falavam nada sobre um outro problema – e grave - envolvendo vinhos e dentes. A bebida pode promover a tal da “síndrome do vinho tinto” e também o “Efeito Drácula”. Acontece normalmente com degustadores profissionais, pessoas que provam até centenas de vinhos por dia. Os dentes acabam manchados, avermelhados. A síndrome compreende o tingimento gradual de seus dentes até levar à sua destruição, pois os ácidos dos vinhos vão aos poucos corroendo o esmalte protetor. O remédio é não deixar de ir ao dentista, pelos menos uma vez a cada três meses.
O caso é que um cientista sul-africano, da Universidade Stellenbosch, ganhou o seu doutorado justamente por um trabalho demonstrando que os dentes de bebedores regulares de vinho tornam-se mais sensíveis, perdem a cor e até se esfacelam.
“Não é o vinho propriamente que estragará seus dentes. Porém, desde que o ácido está presente no álcool, ele vai corroer o esmalte, expondo a delicada dentina que ele protege”, diz o cientista sul-africano Usuf Chikte.
E o problema não se limita apenas aos degustadores profissionais. “Verificamos que quando uma pessoa bebe vinho, gasta bebendo-o pelo menos de 45 minutos a uma hora – tempo bastante para que o vinho afete seus dentes”.
O caso é que, conforme o cientista, qualquer comida ou bebida com um pH (indicação de acidez) menor do que 5,5 pode danificar nossos dentes. E o pH dos vinhos normalmente fica entre 2 e 3.
É por isso que não se recomenda escovar os dentes logo após uma degustação. “O ácido no vinho vai amolecer o esmalte nos dentes e se usamos uma escova vamos, na verdade, ajudar a retirar o esmalte”. A escova não deixa de ser um abrasivo.
O “Efeito Drácula” é quando os dentes (e língua e lábios) ficam tingidos, mas apenas temporariamente, após uma sessão de degustação. Trata-se simplesmente de uma camada de saliva misturada com vinho. Você dá um sorriso e vai parecer com qualquer vampiro do cinema. (Por falar nisso, existe até uma vinícola chamada Vampiro. Fica em Nova York e dizem que é propriedade de um círculo de desmodontídeos. Saiba mais aqui).
Para acabar com esse sorriso draculeano não precisamos de nenhum Van Helsing, o conhecido caçador de vampiros. Basta enxaguar bem a boca e esperar uma hora até que o equilíbrio de acidez natural volte ao normal. Só então escove os dentes. Provoque a salivação (com um chiclete com zero de açúcar, talvez), pois a saliva forma uma camada de glicoproteína (proteína que agrega moléculas de açúcar) que amortece os ácidos. Passe a usar uma escova de dentes mais macia. O creme dental deve ser pouco abrasivo, com um mínimo de flúor e bicarbonato. Escove mais no sentido vertical do que horizontal. Faça tudo isso, mas sem deixar de ir ao dentista regularmente.
Leia, mas de pé atrás, amiga. Não hesite em pesquisar sempre sobre todas as notícias envolvendo saúde (promovidas por vinhos, bananas etc.). Caso contrário você é quem vai ficar lelé com as conta dos médicos ou dos dentistas e acabar com um sorriso bem amarelo.
Da Adega
Para quem é de Porco
. A leitora Emília diz que gostou da matéria sobre o zodíaco chinês. E quer saber dos vinhos para quem é de Porco, mas com o elemento Terra dominante e relacionamentos bem sucedidos com Água e Metal.
Esse signo, como vimos, é de gente sociável, harmoniosa, distante de bate-bocas. Daí sempre conseguir amizades duradouras. Mas é ingênua além da conta e vítima de embrulhões.
Naquela matéria, recomendei um branco da uva Gewürtztraminer, que resulta em excelentes vinhos na Alsácia e bons na Áustria, Hungria, Nova Zelândia, nas partes frias da Califórnia e ainda aqui, em Santana do Livramento, RS, que já provei, gostei, mas esqueci o nome. Tem baixa acidez, é muito aromático e seu teor alcoólico costuma ser maior do que 13º. Parece dócil, mas é capaz de acompanhar pratos condimentados. Ou seja:enrola qualquer embrulhão. Mantenho a recomendação.
Lembro também dos Jerez e dos vinhos das Ilhas Canárias, ambos da Espanha, conhecidos pelo alto teor metálico. Os primeiros, famosos fortificados, são fáceis de encontrar (tente o “fino” Tio Pepe), o que não acontece com os segundos. Tente ainda um outro branco, mas com a uva Sauvignon Blanc, bem seco, ácido, refrescante. Pode ser francês, neozelandês, chileno ou brasileiro (como o premiado Miolo Fortaleza do Seival Sauvignon Blanc).
Toda essa lista compreende também o elemento Terra. Os vinhos citados normalmente representam bem a região de onde provêm, trazem quase sempre o cheiro de terra, a marca do “terroir” (o meio ambiente envolvendo o local onde cresce uma determinada variedade de uva; o termo deriva do francês “terre”).
Elos Rio 2007. A Lídio Carraro acaba de lançar mais um vinho da exclusiva e limitada linha comemorativa dos Jogos Pan-americanos Rio 2007. É o Elos Rio 2007, um tinto com 80% da Cabernet e 20% da Malbec, coloração vermelha e bem aromático.
O lote é limitado a apenas 3.500 garrafas. Vai virar vinho de colecionador. Mas você pode encontrá-lo já consultando o site da Lídio Carraro. Veja
aqui Tente também pelo telefone 0xx 54 3459-1222.

25.6.07

Que loucura!

Beba e não fique demente. Foi isso que li sobre um novo estudo realizado por cientistas do Departamento de Geriatria da Universidade de Bari, Itália.
O trabalho foi publicado em maio no jornal Neurology, mas li uma resenha a respeito na Wine Spectator. Em resumo: a notícia da WS (e de outras publicações) afirma que um ou dois drinques por dia pode nos ajudar a reduzir o desenvolvimento da demência. Mas, no final, somos tentados a substituir o “pode nos ajudar” por “vai acabar com a demência”.
Coço a cabeça: como é difícil entender que carboidratos, álcool, gorduras e um bando de outras coisas são considerados nocivos num dia e saudáveis no outro? Basta acompanhar os jornais. No meio dessa confusão, o álcool é o que mais se destaca. Estudos científicos proclamam que ele protege contra ataques cardíacos, enquanto outros sugerem que promove tendências à violência ou destrói o fígado.
Voltemos, porém, à pesquisa de Bari. Seus cientistas pesquisaram idosos italianos, 1.334 dos quais não apresentavam problemas de perda de função intelectual, seja como resultado de doenças ou de ferimentos. Mas 121 sofriam com o problema, embora levemente. A pesquisa coletou dados dos grupos relativos a um período de três anos e meio. E descobriu que no grupo dos 121 idosos, que bebiam menos de um drinque por dia (mas bebiam), a doença (demência) progredira numa taxa 8,5% menor do que aqueles que nada bebiam.
Beber mais do que aquele drinque diário não parecia melhor do que não beber nada. Mas isso as manchetes não falam. Elas proclamam coisas como “Beber melhora o cérebro”. “Um drinque por dia não deixa ninguém lelé”.
O que os cientistas de Bari disseram no documento publicado no Neurology foi que apenas um drinque por dia por dia poderia ajudar a controlar a demência. Poderia. Temos que prestar muita atenção com o que lemos, em particular sobre saúde.
Em muitos estudos desse tipo, os pesquisadores acompanham um grande grupo de pacientes sem que façam intervenções. No caso, analisaram dados médicos coletados num mesmo grupo ao longo de anos.
Por isso, pode ser difícil distinguir os efeitos do álcool de fatores derivados do estilo de vida dos pacientes.
O artigo da Neurology diz claramente: “É possível que estilos de vida moderados, que obviamente variam de acordo com diferentes ambientes culturais, protegem contra a demência. Por isso, pode ser que não seja devido ao efeito direto do álcool ou de substâncias específicas nas bebidas alcoólicas que essa proteção acontece”.
Isso é o que está escrito pelos cientistas de Bari. Mas não é o que se lê nas revistas: “um drinque por dia cura...”
O bom senso pode ajudar a explicar muita coisa. Um idoso de setenta anos que beba regularmente uma taça de vinho pode ser uma pessoa ainda está fisicamente em forma, sua dieta é saudável, come bem, sua saúde é suficientemente boa para dispensar remédios pesados o suficiente que os proíbam de beber. E ainda, por cima, têm vida social ativa. Todos esses fatores estão ligados a uma vida mental vigorosa. Até mesmo o beber moderadamente.
Os cientistas que estudam os efeitos de todos esses fatores (álcool, estilo de vida, saúde geral, remédios etc.) tentarão naturalmente separá-los. Mas não é fácil, pois há alguns problemas éticos no caminho deles, como forçar pacientes a consumir quantidades de álcool pré-determinadas e ver o que acontece. Sem esse tipo de controle sobre o assunto em estudo, os cientistas ficam limitados.
O caso, amiga, é que cientistas e editores de jornais quase nunca são as mesmas pessoas que anunciam relações inequívocas entre o álcool (ou qualquer outra substância) e boa saúde.
Os artigos na imprensa geralmente assumem que os leitores entendem que a correlação não é a causa, uma sutileza que se perde entre leigos como nós. Mas é preciso sutileza para apresentar esses estudos de modo justo.
O álcool pode oferecer alguma proteção contra o declínio intelectual. Já vimos aqui que o consumo moderado de álcool vem sendo relacionado com um declínio de doenças cardiovasculares, e uma boa saúde cardiovascular pode reduzir a progressão da demência. Pode reduzir, mas não curar.
O trabalho dos cientistas de Bari nota que algumas experiências mostram que o etanol encoraja a liberação de um elemento químico do cérebro que pode ser responsável por uma melhoria da memória. E que o álcool está associado a altos níveis de colesterol HDL (o bom), por sua vez relacionado com uma boa saúde das coronárias. E mais ainda que os antioxidantes no vinho, a principal bebida dos idosos italianos, pode também melhorar o desempenho cerebral.
Mas o que o estudo realmente fez foi identificar uma relação ente o consumo de álcool e a taxa de progressão de um leve problema cognitivo até a demência, segundo seus autores (um os autores é o Dr. Vincenzo Solfrizzi). É um estudo consistente com outros trabalhos indicando que um consumo moderado de álcool pode estar relacionado com um risco menor de demência, dependendo dos estilos de vida das pessoas.
Tudo isso é meio complicado para uma manchete. Por isso, amiga, com notícias sobre saúde é sempre bom ir à fonte. Caso contrário, quem fica lelé é você.
Da Adega
Um leitor admirador do Bolsa, enfrenta “um grande dilema”. Sua namorada não consegue gostar de vinho algum. Ela reclama que todos são secos, fortes, muito alcoólicos. Prefere vinhos doces, suaves. “Quais vinhos você me indicaria para começar a introduzi-la no mundo dos vinhos?” O prezado leitor recomenda que não me prenda a valores. Quer indicação de vinhos para tomar na serra, no mar, que “causassem a impressão de quero mais...”
Que bom, amigo, que sua namorada já tenha revelado a sua preferência: vinhos doces e com pouco álcool. Ou você pensa que os vinhos, para serem bons, têm de ser secos e fortes? O bonito nesse mundico é a possibilidade de variar. Já pensou beber coca-cola a vida inteira? É isso o que contribui para a demência.
Assim, eu recomendaria que você encontrasse urgente um Moscato d’Asti, um vinho do Piemonte, Itália, feito com a uva Moscato Bianco. Seu nível de álcool costuma ser apenas de 5,5%; é frutado e doce na medida certa. Ele é um frizzante (ou ligeiramente espumante), delicado, leve no paladar, um vinho perfeito até para o café da manhã. Os italianos até o bebem colocando gelo na taça. O Moscato é muito simples, com aquele jeito de quero mais, de beber na beira da piscina ou num piquenique.
Agora, você poderá escolher também outros vinhos doces naturais, verdadeiras maravilhas, mais caras, em sua maioria, do que o Moscato. Pesquise vinhos com os seguintes rótulos: Late Harvest, Barsac, Sauternes, Auslese, Banyuls, Beerenauslese, Bonnezeaux, Cadillac, Eiswein, Jurançon, Monbazillac, os vários Moscatel, Recioto, Vendame Tardive, Vin de Paille, Vin Santo, Vouvray. Pode tentar também os Portos, Madeira e Xerez. Só que o nível alcoólico, mais alto, vai atrapalhar. Ainda faço fé no Moscato d’Asti. Boa sorte.

19.6.07

É isso aí, bicho!

Vou logo dizendo que não se trata do concurso de cachorros da Ana Maria Braga. É que volta e meia tropeço em sites ligando o mapa astral das pessoas às suas possíveis preferências por vinho. Até já andei publicando algumas colunas a respeito. Só que ainda não tinha encontrado nada sobre o horóscopo chinês e os vinhos.
Mas acabo de encontrar. Qual seria a conexão entre os vinhos e a astrologia chinesa, que além de tudo é um tantinho mais complicada do que a praticada desse lado do planeta?
Mas se você acredita que seus traços de temperamento e de caráter podem ser profetizados pelo ano em que nasceu no zodíaco chinês e se você também acredita que vinhos diferentes têm também temperamentos diferentes, então vale a pena dar uma olhada no que recolhemos de alguns sites.
Antes, porém, dê uma olhada nesse site para saber um pouco mais sobre o horóscopo chinês. Seus signos compreende 12 animais: Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Carneiro, Macaco, Galo, Cão e Porco, todos considerados um reflexo do universo. Eles aparecem cinco vezes durante um ciclo de 60 anos, cada vez de forma um pouco diferente.

Porco. É, sobretudo, uma pessoa sociável. leal, indulgente, imparcial, inteligente, sincera e bem informada. Um vinho significativo seria o branco da uva Gewürtztraminer. “Gerwürtz” quer dizer condimentado, temperado. São vinhos picantes e muito aromáticos, com sabores que lembram a lechia e rosas (ou flores em geral), além de especiarias como os cravos. Já “Traminer” vem de uma suposta origem da uva, o vilarejo de Tramim (ou Temeno), na região do Alto Adige, norte da Itália. É uva que dá excelentes vinhos nessa região e também na Alsácia, Áustria, Hungria, Nova Zelândia e até nas partes frias da Califórnia. Mas as pessoas desse signo gostam também de vinhos complexos, embora fáceis, como um Chateauneuf du Pape, do Ródano, França. Ou um Terranova Shiraz (medalha de ouro no 3º Concurso Internacional de Vinhos do Brasil).

Rato. Você é charmosa, sedutora, ativa, meticulosa, sociável, alegre, persistente. Seu vinho original seria o Furmint (seco), feito com a uva do mesmo nome, responsável por um dos vinhos doces naturais mais famosos do mundo, o Tokaji. Gosta também de vinhos cativantes, como os Rieslings alemães, que vão do seco (trocken) ao super doce e complexo (trockenbeerenauslese). Ou o Aurora Varietal Colheita Tardia 2002 (também medalha de ouro no concurso internacional La Mujer Elige).

Boi. Sua marca é a tenacidade, paciente, resistente às situações adversas. É resoluta, decidida, irrepreensível. Para você, vinhos intensos, como os vinhos doces do Canadá (icewine) ou os com a Riesling. No dia-a-dia, vinhos inocentes: rosados como os da Família Piagentini, Coleção Varietais. Ou os do sul da França, além das versões italianas (da região de Cerasuolo di Vittoria), espanholas e australianas.

Tigre. Claro, com esse nome, você é corajosa, audaciosa. Mas também generosa, ardente, ativa, sensível, nobre. Para equilibrar as coisas, vinhos benevolentes, o brasileiro Dal Pizzol Tannat ou o Boscato Gran Reserva Cabernet Sauvignon (ambos com medalhas de ouro). Tente também vinhos de grande sensibilidade, como o Grüner Veltliner, o mais famoso vinho branco da Áustria. Não os vemos quase por aqui, pois os austríacos bebem quase toda a sua produção.

Coelho. Virtuosa, generosa, sensata, bondosa, sensível e cheia de imaginação e educadíssima, uma mulher que valoriza a tranqüilidade. Para você, vinhos apaixonantes, como os doces de Bordeaux: os Sauternes e os Barsacs. Ou, para contrabalançar, outro nacional, o tinto e encorpado Cave Ouvidor Cabernet-Merlot 2004.

Dragão. Uma moça de muito caráter e energia, um tanto excêntrica e extravagante, cheia de admiradores. Um vinho suave, aromático, como um Pinot Noir, flexível o bastante para ora combinar com carnes vermelhas, ora com as brancas. Vinhos para o cotidiano com a uva Tempranillo, com o Miolo Fortaleza do Seival Tempranillo (outro com ouro) ou os espanhóis tradicionalmente feitos essa uva: os Rioja, os Ribera del Duero.

Cachorro. É generosa, popular, confiável, idealista, cuidadosa, gentil, sempre querendo ajudar, faz amigos vagarosa e cuidadosamente. Você fica com os clássicos, feitos pela Cabernet Sauvignon, como o nacional Cave Antiga Gran Reserva Cabernet Sauvignon (mais um ouro). Para impressionar, um vinho do Porto, de preferência um LBV (Late Bottled Vintage), uma especialidade realmente.

Macaco. Muito inteligente, cheia de humor, astuta, com grande carisma, autoconfiança em excesso, resolve problemas facilmente e aproveita-se muito bem das oportunidades que aparecem. Vinhos animados: o Fortaleza do Seival Sauvignon Blanc ou os Chenin Blanc da África do Sul, localmente chamados de Steen. No dia-a-dia, vinhos de qualidade a baixo preço: um Miolo Reserva Merlot, por exemplo.

Cavalo. Trabalhadora, independente, talentosa, jovial, aventureira. Vinhos que resultem em vantagem (i.e.: bons e baratos), como os Malbec argentinos, os Tannat uruguaios, os Shiraz como o nacional Terranova Shiraz. Para equilibrar, um Chablis, o grande branco da Borgonha feito com a Chardonnay. Os melhores são bem caros. Uma ótima saída é experimentar o Miolo Reserva Chardonnay (também ouro).

Serpente. Você é uma pensadora profunda, com ambições intelectuais e filosóficas, com reputação de sabedoria, daí ter talvez pequenos problemas de comunicação, pois é mais fechada. Gosta de vinhos opulentos, como os Chardonnay encorpados e frutados da Austrália e da Califórnia. Para o trivial, vai mesmo de Beaujolais, desde que servido um pouco mais frio. Se não forem os franceses, opta pelos Gamay da Dal Pizzol ou da Miolo, sempre muito bons.

Galo. Você pode ser uma faladora, extrovertida, ou apenas uma observadora, ora indecisa, ora confiante, agressiva por fora, mas insegura por dentro. Gosta mesmo é de vinhos seguramente agradáveis, os espumantes de preferência. Mas escolha as nacionais, sempre premiadas. Exemplos: Peterlongo Espumante Moscatel, o Miolo Millesime Espumante Brut 2004 (ouro), o Casa Valduga Espumante Moscatel 2006 (prata), Cavalleri Espumante Brut 2004 (também prata). A relação não acaba. Borbulhantes como esses servem para qualquer hora e ocasião. Um vinho antes da champagne? Escolha o nacional Boscato Gran Reserva Cabernet Sauvignon.

Carneiro. É extremamente criativa, muito feminina, elegante, doce, amorosa, com sensibilidade artística. Daí que seus vinhos têm algo de estético. Por exemplo: os Merlot, que podem ser suculentos e perfumados ou apenas rápidos, mas deliciosos. Tente o nosso Fabian Reserva Merlot (prata). A contrapartida são vinhos refrescantes, em particular os Sauvignon Blanc, aromáticos. Ou, novamente, os espumantes nacionais, como o Cave Antiga Espumante Moscatel.

Vou continuar buscando paridades astrais. Da próxima vez, quem sabe, encontro algo envolvendo os periquitos de realejo ou os biscoitos da sorte.
Consulte o site que indicamos, amiga, para saber exatamente qual o seu signo. E clique aqui para a Soninha no soniamelier@terra.com.br e diga qual o seu bicho, que indicaremos quais vinhos escolher.
Da Adega
Campeão Mundial
. Pois nossos vizinhos uruguaios saem mais uma vez na frente. Seu vinho, Dinastia 2004, foi eleito o melhor tinto no concurso mais antigo do mundo, o Vino Ljubljana
2007, realizado em maio na Eslovênia. Concorreu entre 543 vinhos de 24 países produtores. O Dinastia 2004 é da vinícola H. Stagnari, que ainda recebeu mais três medalhas. Duas para o Tannat Viejo 2004 e La Puebla 2004 e uma, de prata, para o Tannat Viejo 2003.
Falei campeão? Na verdade, é bicampeão mundial: é a segunda vez que a Stagnari recebe ouro nesse concurso.
Os vinhos dessa vinícola chegam ao Brasil pela Cantu Importadora (ligue para Telefone 0300.210.1010 ou clique em www.cantu.com.br). Mais informações com minhas amigas Alessandra Casolato (alecasolato@ch2a.com.br) ou Denise de Almeida (ch2a@ch2a.com.br).

É isso aí, bicho!

Vou logo dizendo que não se trata do concurso de cachorros da Ana Maria Braga. É que volta e meia tropeço em sites ligando o mapa astral das pessoas às suas possíveis preferências por vinho. Até já andei publicando algumas colunas a respeito. Só que ainda não tinha encontrado nada sobre o horóscopo chinês e os vinhos.
Mas acabo de encontrar. Qual seria a conexão entre os vinhos e a astrologia chinesa, que além de tudo é um tantinho mais complicada do que a praticada desse lado do planeta?
Mas se você acredita que seus traços de temperamento e de caráter podem ser profetizados pelo ano em que nasceu no zodíaco chinês e se você também acredita que vinhos diferentes têm também temperamentos diferentes, então vale a pena dar uma olhada no que recolhemos de alguns sites.
Antes, porém, dê uma olhada nesse site para saber um pouco mais sobre o horóscopo chinês. Seus signos compreende 12 animais: Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Carneiro, Macaco, Galo, Cão e Porco, todos considerados um reflexo do universo. Eles aparecem cinco vezes durante um ciclo de 60 anos, cada vez de forma um pouco diferente.
Porco. É, sobretudo, uma pessoa sociável. leal, indulgente, imparcial, inteligente, sincera e bem informada. Um vinho significativo seria o branco da uva Gewürtztraminer. “Gerwürtz” quer dizer condimentado, temperado. São vinhos picantes e muito aromáticos, com sabores que lembram a lechia e rosas (ou flores em geral), além de especiarias como os cravos.
Já “Traminer” vem de uma suposta origem da uva, o vilarejo de Tramim (ou Temeno), na região do Alto Adige, norte da Itália. É uva que dá excelentes vinhos nessa região e também na Alsácia, Áustria, Hungria, Nova Zelândia e até nas partes frias da Califórnia. Mas as pessoas desse signo gostam também de vinhos complexos, embora fáceis, como um Chateauneuf du Pape, do Ródano, França. Ou um Terranova Shiraz (medalha de ouro no 3º Concurso Internacional de Vinhos do Brasil).
Rato. Você é charmosa, sedutora, ativa, meticulosa, sociável, alegre, persistente. Seu vinho original seria o Furmint (seco), feito com a uva do mesmo nome, responsável por um dos vinhos doces naturais mais famosos do mundo, o Tokaji. Gosta também de vinhos cativantes, como os Rieslings alemães, que vão do seco (trocken) ao super doce e complexo (trockenbeerenauslese). Ou o Aurora Varietal Colheita Tardia 2002 (também medalha de ouro no concurso internacional La Mujer Elige).
Boi. Sua marca é a tenacidade, paciente, resistente às situações adversas. É resoluta, decidida, irrepreensível. Para você, vinhos intensos, como os vinhos doces do Canadá (icewine) ou os com a Riesling. No dia-a-dia, vinhos inocentes: rosados como os da Família Piagentini, Coleção Varietais. Ou os do sul da França, além das versões italianas (da região de Cerasuolo di Vittoria), espanholas e australianas.
Tigre. Claro, com esse nome, você é corajosa, audaciosa. Mas também generosa, ardente, ativa, sensível, nobre. Para equilibrar as coisas, vinhos benevolentes, o brasileiro Dal Pizzol Tannat ou o Boscato Gran Reserva Cabernet Sauvignon (ambos com medalhas de ouro). Tente também vinhos de grande sensibilidade, como o Grüner Veltliner, o mais famoso vinho branco da Áustria. Não os vemos quase por aqui, pois os austríacos bebem quase toda a sua produção.
Coelho. Virtuosa, generosa, sensata, bondosa, sensível e cheia de imaginação e educadíssima, uma mulher que valoriza a tranqüilidade. Para você, vinhos apaixonantes, como os doces de Bordeaux: os Sauternes e os Barsacs. Ou, para contrabalançar, outro nacional, o tinto e encorpado Cave Ouvidor Cabernet-Merlot 2004.
Dragão. Uma moça de muito caráter e energia, um tanto excêntrica e extravagante, cheia de admiradores. Um vinho suave, aromático, como um Pinot Noir, flexível o bastante para ora combinar com carnes vermelhas, ora com as brancas. Vinhos para o cotidiano com a uva Tempranillo, com o Miolo Fortaleza do Seival Tempranillo (outro com ouro) ou os espanhóis tradicionalmente feitos essa uva: os Rioja, os Ribera del Duero.
Cachorro. É generosa, popular, confiável, idealista, cuidadosa, gentil, sempre querendo ajudar, faz amigos vagarosa e cuidadosamente. Você fica com os clássicos, feitos pela Cabernet Sauvignon, como o nacional Cave Antiga Gran Reserva Cabernet Sauvignon (mais um ouro). Para impressionar, um vinho do Porto, de preferência um LBV (Late Bottled Vintage), uma especialidade realmente.
Macaco. Muito inteligente, cheia de humor, astuta, com grande carisma, autoconfiança em excesso, resolve problemas facilmente e aproveita-se muito bem das oportunidades que aparecem. Vinhos animados: o Fortaleza do Seival Sauvignon Blanc ou os Chenin Blanc da África do Sul, localmente chamados de Steen. No dia-a-dia, vinhos de qualidade a baixo preço: um Miolo Reserva Merlot, por exemplo.
Cavalo. Trabalhadora, independente, talentosa, jovial, aventureira. Vinhos que resultem em vantagem (i.e.: bons e baratos), como os Malbec argentinos, os Tannat uruguaios, os Shiraz como o nacional Terranova Shiraz.
Para equilibrar, um Chablis, o grande branco da Borgonha feito com a Chardonnay. Os melhores são bem caros. Uma ótima saída é experimentar o Miolo Reserva Chardonnay (também ouro).
Serpente. Você é uma pensadora profunda, com ambições intelectuais e filosóficas, com reputação de sabedoria, daí ter talvez pequenos problemas de comunicação, pois é mais fechada. Gosta de vinhos opulentos, como os Chardonnay encorpados e frutados da Austrália e da Califórnia. Para o trivial, vai mesmo de Beaujolais, desde que servido um pouco mais frio. Se não forem os franceses, opta pelos Gamay da Dal Pizzol ou da Miolo, sempre muito bons.
Galo. Você pode ser uma faladora, extrovertida, ou apenas uma observadora, ora indecisa, ora confiante, agressiva por fora, mas insegura por dentro. Gosta mesmo é de vinhos seguramente agradáveis, os espumantes de preferência. Mas escolha as nacionais, sempre premiadas. Exemplos: Peterlongo Espumante Moscatel, o Miolo Millesime Espumante Brut 2004 (ouro), o Casa Valduga Espumante Moscatel 2006 (prata), Cavalleri Espumante Brut 2004 (também prata). A relação não acaba. Borbulhantes como esses servem para qualquer hora e ocasião. Um vinho antes da champagne? Escolha o nacional Boscato Gran Reserva Cabernet Sauvignon.
Carneiro. É extremamente criativa, muito feminina, elegante, doce, amorosa, com sensibilidade artística. Daí que seus vinhos têm algo de estético. Por exemplo: os Merlot, que podem ser suculentos e perfumados ou apenas rápidos, mas deliciosos. Tente o nosso Fabian Reserva Merlot (prata). A contrapartida são vinhos refrescantes, em particular os Sauvignon Blanc, aromáticos. Ou, novamente, os espumantes nacionais, como o Cave Antiga Espumante Moscatel.
Vou continuar buscando paridades astrais. Da próxima vez, quem sabe, encontro algo envolvendo os periquitos de realejo ou os biscoitos da sorte.
Consulte o site que indicamos, amiga, para saber exatamente qual o seu signo. E clique aqui para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br e diga qual o seu bicho, que indicaremos quais vinhos escolher.
Da Adega
Campeão Mundial
. Pois nossos vizinhos uruguaios saem mais uma vez na frente. Seu vinho, Dinastia 2004, foi eleito o melhor tinto no concurso mais antigo do mundo, o Vino Ljubljana 2007, realizado em maio na Eslovênia. Concorreu entre 543 vinhos de 24 países produtores. O Dinastia 2004 é da vinícola H. Stagnari, que ainda recebeu mais três medalhas. Duas para o Tannat Viejo 2004 e La Puebla 2004 e uma, de prata, para o Tannat Viejo 2003.
Falei campeão? Na verdade, é bicampeão mundial: é a segunda vez que a Stagnari recebe ouro nesse concurso.
Os vinhos dessa vinícola chegam ao Brasil pela Cantu Importadora (ligue para Telefone 0300.210.1010 ou clique em
www.cantu.com.br). Mais informações com minhas amigas Alessandra Casolato (alecasolato@ch2a.com.br) ou Denise de Almeida (ch2a@ch2a.com.br).

18.6.07

Não leia essa coluna

O que mais o influencia a comprar um vinho? Opiniões de críticos, de amigos, dicas de vendedores nas lojas e em supermercados, uma tira promocional numa prateleira, destacando um vinho mais do que outro? Um cartaz dizendo que aquele vinho ganhou 92 pontos de Robert Parker ou da revista Wine Spectator? Ou você acredita mais nos seus critérios do que nos da crítica especializada ou amigos?
Uma pesquisa bem recente sobre o assunto foi realizada pela norte-americana Wine Opinions, uma firma de pesquisa especializada apenas em vinhos, a partir da Internet. Ela fornece a profissionais do vinho pesquisas sobre os consumidores, suas tendências, preferências etc.
Apesar de estar voltada para o mercado dos EUA, o referido levantamento (“Trajetória do vinho na mídia e a influência dos críticos”) pode nos ajudar a pensar como seriam as respostas aqui. Acho que não seriam muito diferentes. Mas, vamos aos principais resultados:

1) As opiniões mais influentes junto aos consumidores que compram vinhos no varejo até um máximo de R$ 40,00 são as de “amigos com conhecimento de vinho” (70%).
2) A revista Wine Spectator (54%) tem mais influência do que o super crítico, Robert Parker (41%). Isto entre consumidores de vinhos finos (acima daqueles R$ 40,00).
3) 24% dos pesquisados são leitores de blogs de vinho. É uma quantidade surpreendente, o dobro dos que lêem a Wine Spectator e o site do Robert Parker.
4) 87% dos respondentes concordam com a afirmação: “Eu confio mais no meu gosto do que no da crítica”. Mas 49% concordam que: “Tento sempre evitar vinhos com notas baixas”.
5) É interessante o fato de que muitos (42%) não concordam que: “Há uma grande diferença de qualidade entre um vinho de 92 pontos e outro de apenas 88”. Nota-se, porém, que 39% ficaram indecisos quanto a essa declaração.

Conclusões: em termos de comunicação, se poderia tentar utilizar uma “rede social” (a tal da “social networking”) na Internet para influenciar grupos de pessoas ligadas pelo vinho.
Os blogs sobre vinhos já ganharam crédito significativo, crescente. Não é à-toa que os colunistas da Wine Spectator têm agora seus blogs. Curioso é que os blogs são feitos por críticos e também dão notas. É a informalidade do blog que convence?
O papel do varejista está bem valorizado. Porém, os consumidores confiam mais nas suas próprias opiniões e param para pensar se usam ou não os critérios de pontos antes de tomar uma decisão de compra.
Os críticos não ficaram muito bem na fita. Eu deveria ter publicado outra coisa.

14.6.07

Gostei

Já pensou em acessar perto de um milhão e meio de vinhos, com resenhas, notas, comentários de várias fontes? Pois agora temos o Snooth. É um buscador e também um sistema de recomendações de vinhos, que podemos receber inclusive em nosso computador (basta que nos registremos no site e ofereçamos um mínimo de cinco recomendações pessoais).
O site foi lançado recentemente, ainda está sendo testado (versão beta), mas promete bastante. É bom que tenhamos na web um lugar onde buscar opiniões sobre produtos (no caso, vinhos) originárias de várias fontes.
A americana Wine Spectator oferece notas para 176 mil vinhos, que você pode procurar por nome, vinícola, região, varietal, safra, preço ou nota. A inglesa Decanter tem um arquivo com avaliações de 20.000 vinhos, dos quais seleciona e recomenda quatro mil anualmente.
Nas duas, as recomendações são feitas pelos colunistas da casa. A Snooth declara ter catalogado mais de 300 mil vinhos e analisado mais de um milhão de resenhas e notas. São análises de produtores, vinicultores, varejistas, importadores – e dos próprios leitores (ou “amigos”, como são chamados), além de dos seus próprios críticos. Você pode procurar por varietal, região, estilo, preço, tipo de remessa, mas também por “verão”, “churrasco”, “pouco álcool”, “carvalho”, “encorpado” etc. Vai encontrar os vinhos indicados para aquela estação ou especialidade culinária, ou estilo. A empresa está baseada em Nova York e não vende vinhos diretamente, mas associou-se a companhias (Astor Wines & Spirit) e wine.com para oferecer dicas de compras no varejo.
Snooth importa avaliações de outros sites e blogs e também as analisa até chegar ao seu próprio resultado, o “Snooth Rank”, um número simbolizado por uma taça de vinho. A nota máxima soma cinco taças (“Amei”). Seguem-se: 4 taças (“Gostei”), 3 taças (“Neutro”), 2 taças (“Não gostei”) e 1 taça (“Odiei”).
Esse foi o site onde encontrei, até hoje, o maior número de avaliações de vinhos brasileiros: 67, o que é estupendo. Exemplos: Rio Sol Paralelo 8 2004, com 3,5 taças; Casa Valduga Cabernet Sauvignon Seculum (2000), 3,5; Salton Cabernet-Merlot Talento 2003, 3,5; Amadeu Espumante Brut 2002, 3,5; Casa Valduga Espumante Brut (2002), 3,5; Miolo Reserva Cabernet Sauvignon 2004, 3,5; Persona Luiz 2002, da Casa Valduga, também com 3,5.
E também até algumas de nossas branquinhas. A Leão de Ouro (da Piagentini), com 3,5; a Sagatiba Velha Cachaça Preciosa, 3,5, e a Optimum Cachaça, 3,5.
Como sempre, faço restrições aos sistemas de pontuações, seja o dos 100 pontos, dos 20, das estrelas e esse das cinco taças. A maioria dos vinhos brasileiros citados merecia pelo menos 4 taças, um real e honesto “Gostei”.

12.6.07

O que fazer com as taças

Recebo muitas perguntas sobre taças de vinho. Agora, então, com o Dia dos Namorados quase todas foram sobre que tipo de taças presentear o bem-amado da ocasião. Acontece que a coluna está saindo depois do dia 12. Mas não perco a chance de falar novamente sobre as taças. Temos novidades.
A primeira delas é sobre o eterno problema de quebrar taças. Em primeiro lugar, é inevitável. É de vidro? Então, quebra. Só que as taças, as boas taças não são nada baratas.
Uma solução é importar taças inquebráveis. Isso é o que garante a Schott Zwiesel, fabricante da coleção Tritan Forte. Eles garantem que são inquebráveis, ou pelo menos mais fortes e mais duráveis do que qualquer outra. São também leves e delicadas, um pouco menores do que as Riedel. Um crítico americano que reputo da maior qualidade, o Dr. Vino, as testou (deixando-as cair de uma altura de uns 15 centímetros sobre um piso de cimento) e elas sequer racharam.
A explicação é a de que incorporam titânio e zircônio ao cristal, dando uma dureza à superfície maior do que a do aço, segundo o fabricante. Tudo isso sem perder o brilho.
E olha que já podemos comprar dessas maravilhas aqui mesmo. As encontrei no site de compras do Pepper. Uma flute de champanhe custa R$ 35,00. A Schott Zwiesel é um fabricante alemão com mais de 100 anos de história. Taí uma boa solução para as taças do dia-a-dia.
Uma segunda solução é não chorar pelo leite derramado e tentar reciclar. Se uma taça (uma de vinho tinto, por exemplo) teve a sua haste quebrada e o que sobrou foi o copo propriamente dito, considere a sugestão do Lifehacker, um site de dicas e sugestões para simplificar nossas vidas. Veja aqui o que ele recomenda quando esse tipo de acidente acontece (e está sempre acontecendo): coloque o seu celular no copo; quando o despertador ligar até o vizinho vai acordar. O copo funciona como um amplificador. Muita gente (eu, inclusive) reclama que os alarmes dos celulares são muito fraquinhos, baixinhos. Taí a solução.
Podemos beber vinho em qualquer tipo de copo, até em copo de papel. Os italianos são mestres em beber em copos comuns. Assim, podem brindar à vontade que se quebrarem o prejuízo é nenhum. Só de vinho.
Acontece que nos dobramos às taças de cristal, com formatos diferenciados para cada tipo e estilo de vinho. A variedade é imensa. E os preços não ajudam. E quando quebram, o prejuízo é grande. Como se resolve isso?
Taças para o dia-a-dia. Considere a qualidade, mas compre pelo preço. E compre mais taças além daquelas que você acha que precisa. A verdade é que, não importa quanto você é cuidadosa, suas taças vão quebrar. Crianças, tapetes, maridos, namorados, amigos, cachorros nunca são confiáveis. Ah, e lavagens também (tocaremos nesse item daqui a pouco). Por isso, uma boa regrinha é comprar algumas taças extras para essas eventualidades (e com isso a sua coleção não fica deformada, com taças de diferentes tamanhos ou estilos).
Brancos contra Tintos. É mais um dos mitos do vinho isso de precisarmos de taças diferentes para diferentes tipos de vinho. Catadupas de testes compravam que as taças ISO permitem que aromas e bouquets de brancos e tintos sejam identificados tão bem quanto nas melhores taças Riedel. ISO é a International Standards Organization, organização internacional para a definição de normas. É a utilizada pelos craques do vinho, pelos renomados críticos quando degustam a bebida profissionalmente. E elas têm um e só um mesmo tamanho, não importa o tipo de vinho.
Não concordo com essa história de que vinhos tintos precisam de mais espaço para liberar seus aromas. Os brancos precisam de tanto espaço quanto eles, gente! Agora, se o debate é estético, tudo bem, não se fala mais nisso. Como regra geral, se a taça é mais alta do que larga, qualquer uma que você escolha vai servir tanto para brancos quanto para tintos.
Quanto à cor. A maioria dos amantes do vinho prefere as taças completamente lisas e transparentes de modo a apreciar as cores do vinho. Mas seu o seu guru do momento disse que elas devem ser verdes, tudo bem.
Para os espumantes. Não tem discussão, a opção é mesmo pelas “flutes”. Ora, champanhe ou espumante sem bolhas decepciona. E as flutes, aquelas taças parecidas com tulipas, mas com as bordas voltadas mais para dentro, são a segurança de que nossas bolinhas vão ficar lá por um tempo mais longo. Outro ponto é a altura delas: as bolinhas levam mais tempo viajando até a borda.
Lavando as taças. No caso de taças simples, de vidro, lave com água quente, enxágüe várias vezes até retirar todo o resíduo do vinho. Coloque-as de cabeça para baixo sobre o pano de prato. Deixe-as secar naturalmente. Se for o caso, use apenas sabão para retirar resíduos mais resistentes. Nesse caso, enxágüe ainda mais. Nenhum resíduo de sabão deve ficar na taça.
Quando a taça for de cristal, todo o cuidado é muito, muito pouco. O cristal é poroso e pode absorver sabores com facilidade, principalmente de sabão. Se isso acontecer, a sua taça ficará limpa, certamente, mas vai depois alterar o sabor do vinho.
Sempre evitei usar detergente. Prefiro usar a força da água quente e enxaguar repetidamente. Se algum resíduo ainda ficar, passo um pano macio. E, atenção, não use a lavadora para o cristal. Simplesmente, uma ou outra taça pode quebrar e com facilidade. E o uso detergente pode fazer escurecer a sua taça.
Vapor de água. O pessoal da Riedel (os fabricantes das mais famosas taças de cristal do mundo dos vinhos) recomenda que coloquemos as taças de cabeça para baixo sobre uma panela de água fervente. Um banho de vapor, portanto. Depois, seque-as com uma toalha de linho. Simples e eficiente.
Mais dicas sobre taças? Clique aqui para a Soninha no soniamlier@terra.com.br
Da Adega.
Lembram do Miles, o personagem do filme Sideways vidrado em Pinot Noir? Imagine só o que acharia ele de degustar um Pinot de outras paragens. Sim, o cenário dessa continuação do filme, o Sideways II, não seria o do belo Vale de Santa Ynez, em Santa Barbara, na Califórnia. A locação agora é num outro vale, igualmente belíssimo, na serra de Petrópolis.
Miles só quer saber de Pinot Noir: “É uma uva difícil de cultivar, casca fina, temperamental, amadurece logo. Não é uma sobrevivente como a Cabernet, que cresce em qualquer lugar, mesmo quando negligenciada. Não, a Pinot precisa de cuidados e atenções constantes. Só pode vingar em lugares específicos, em alguns cantos do mundo. Só os produtores mais pacientes e preparados podem com ela. Só alguém com tempo para entender o potencial da Pinot pode conseguir toda a sua expressão”. Reproduzo mais ou menos uma das fala do Miles para Maya (há um namorico entre os dois), que no filme é garçonete e enófila, uma discreta e sensata sommelier.
Corta para o Savigny-Les-Beaune Vieilles Vignes 2003, criado pelo jovem e dinâmico “negociant” Nicolas Potel, baseado em Nuits-Saint-Georges, Borgonha, considerado um dos melhores produtores de Grand Crus do país, fartamente elogiado pela crítica e pela imprensa especializada de todo o mundo.
Funde para o Rippon Lake Wanaka Pinot Noir 2003, um vinho dos Vinhedos Rippon, da sub-região de Wanaka, em Central Otago, Nova Zelândia, freqüentemente citado como o mais belo vinhedo daquele país. São ambos, por várias resenhas, consideradas expressões magníficas da Pinot Noir.
Corte para nova personagem, só que uma sommelier de verdade (e colunista de O Globo), Deise Novakosky, que esgotará o tema Pinot Noir, dia 16, esse sábado, a partir das 17.30 h, no
Tambo de Los Incas, no Vale do Cuiabá, Itaipava. Deise fará uma palestra sobre a casta Pinot Noir, seguida de degustação dos dois vinhaços acima, trazidos pela Premium Importadora. Essa é a parte imperdível desse filme. As reservas podem ser feitas pelos telefones: (24) 22225666/5667/5668. Ou pelo e-mail pousada@tambolosincas.com.br
O Miles, aparecendo, vai é se encantar com a surpreendente paisagem, com um hotel Premier Gran Cru e, claro, com esses novos Pinot Noir. Caso ele se engrace com a Deise, acho que vai acabar mal na fita, quase como no final do primeiro Sideways.
(Ah, e aproveite para testar as belas e funcionais taças oferecidas pelo hotel. Taí: são indicadas para namorados, desde que o tin-tin seja em meio a essa inesquecível locação. Isso é que é presente).

5.6.07

O certo é o que está perto

E se naquele restaurante cinco estrelas começarem a servir apenas água da bica (filtrada, naturalmente)? Nada de San Pellegrino, Perrier, Evian, Fiji etc. E se os vinhos forem apenas os mais próximos, só os gaúchos ou pernambucanos. E nada de importados.
É um feliz acaso que estejamos falando de uma ação envolvendo aquecimento global logo após o 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente. Falamos de um movimento correspondente e que começou na Califórnia, já chegou à Nova York e, no caso dos vinhos, está gerando grande ruído entre ingleses e neozelandeses.
A causa é vital: reduzir-se as emissões de gás carbônico (e o efeito estufa, o aquecimento global). Um carro 1.4, a gasolina, fazendo 250 km por semana emite anualmente 2,1 toneladas de gás carbônico. Se você utilizar apenas gás nesse mesmo carro e andar a mesma coisa semanalmente despejaria algo menos: 1,7 toneladas de CO2 por ano na atmosfera. Um caminhão a diesel, fazendo 2 000 km por semana (o que é pouco), despejaria anualmente no ar que respiramos 19,8 toneladas de gás carbônico. Agora, multiplica isso por milhares e mais milhares de automóveis e caminhões.
(Calcule no site da The CarbonNeutral Company o quanto de dióxido de carbono o seu carro despeja anualmente na atmosfera).
Grupos ambientalistas estão fazendo grande pressão para que nós e as indústrias reduzamos as emissões de CO2 ou encontremos maneiras naturais de neutralizar esse dano.
Você já sabe o que vem por aí. O planeta vai aquecer mais, a temperatura vai aumentar, tempestades vão devastar regiões, partes de cidades litorâneas, como o Rio de Janeiro, vão desaparecer. Com tudo isso, teremos mais epidemias de doenças tropicais. Mais desastres.
A lógica do movimento dos restaurantes (entre outros segmentos) é controlar os passos do CO2: se consumirmos itens originários de locais mais próximos estaremos contribuindo para reduzir essas emissões.
Servir água em jarras reutilizáveis faz mais sentido para o meio ambiente do que fabricar milhares de garrafas de água (90% delas de plástico) que alguém vai usar e jogar fora (e degradar o meio ambiente). Além disso, para cada litro de água produzido, o fabricante gasta mais cinco. Estaríamos desperdiçando água, além de petróleo e gás natural e jogando mais material tóxico na atmosfera, os excedentes da fabricação. Pense: beber água mineral ajuda a aumentar o preço do combustível, utilizado no fabrico e transporte da água.
Os donos do Del Posto (segundo o New York Times, o mais elegante e caro dos restaurantes do grupo de Joseph Bastianich e Mario Batali) aderiram ao movimento e vão colocar em cada jarra da sua água da bica (devidamente filtrada e carbonatada) a razão pela qual não dispõem mais de água engarrafada. "Enchendo navios com água e fazendo-os viajar milhares de quilômetros é ridículo”, diz um dos sócios.
Mas a idéia ainda está tomando corpo, em parte porque há grande lucro em vender água engarrafada. Os restaurantes (em Nova York) compram por um ou dois dólares a garrafa e a vende por oito e até mais. É o item com a maior margem de lucro das casas.
Os restaurantes ainda têm de contornar os fregueses: 50 a 60% deles preferem água engarrafa com gás.
Isso porque a indústria de água engarrafada não dorme no ponto: vende pureza e tenta convencer o consumidor que o seu produto é mais conveniente e mais seguro do que água encanada.
Contudo, uma das principais cientistas do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, um grupo ambientalista norte-americano (tem um milhão e 200 mil filiados), Dra. Gina Solomon, afirma que não há motivos para acreditar que água engarrafada seja melhor do que água da bica. Para começar, o suprimento de águas encanadas é mais fiscalizado do que as águas engarrafadas. Os testes feitos são apresentados ao público. Já os testes envolvendo as águas engarrafadas não precisam ser apresentados ao público.
Tomara que esse movimento ganhe força por lá. Um americano gera, em média, mais de 20 toneladas de dióxido de carbono (ou gases relacionados) por ano. Um cidadão de qualquer outra parte do planeta produz cerca de 4,5 toneladas no mesmo período.
Os caminhos do vinho. O Times, de Londres, publicou agora uma tabela sugerindo aos consumidores ingleses que trocassem os vinhos da Nova Zelândia pelos da França, pois assim ajudariam a reduzir emissões de CO2.
Os neozelandeses contra-argumentam: seus vinhos respeitam o meio ambiente de modo a compensar o impacto produzido pelo transporte da bebida por navio: são 18.331 km entre Auckland, a cidade mais importante da Nova Zelândia, e Londres; e 742 km entre Bordeaux e Londres).
E já temos vinícolas com projetos para ficar de bem com o planeta. As chilenas Cono Sur e Undurraga são, ao que parece, as líderes nesse processo. Fizeram parceria com a Londrina The CarbonNeutral Company (que citamos acima) especializada em processos para reduzir, eliminar ou compensar as emissões de gás carbônico.
Seus vinhos chegarão ao mercado com o selo da CarbonNeutral, garantindo que esses vinhos compensaram de algum modo o que de nocivo emitiram na produção e no transporte da bebida.
Nenhuma vinícola pode zerar suas emissões de CO2, já que liberar dióxido de carbono é parte do processo de fermentação. Mas pode limitar outras emissões, passando a utilizar biocombustíveis, energia solar e eólica e plantando mais árvores (que absorvem dióxido de carbono, tirando-o da atmosfera, como parte do processo de fotossíntese).
Uma simples árvore de bordo (cuja seiva é rica em açúcar) pode absorver o equivalente a 200 quilos de CO2 anualmente.
O processo compreende você plantar um número suficiente de árvores de modo a compensar o CO2 que a sua vinícola (ou a sua indústria) jogou na atmosfera.
Será, leitora, que o Fasano também vai passar a servir água da bica (filtrada, naturalmente)? E o que você fará a respeito dos vinhos: passará a comprar apenas os nacionais? Vai proibir o namorado beber a deliciosa Cerpinha, que vem lá do Amazonas? Responda aqui para a Soninha no soniamelier@terra.com.br
Da Adega
MundoVinho
. Não deixe de visitar um novo e útil serviço para vinhos. É o portal
MundoVinho, em funcionamento desde o último dia 4. Ele apresenta vinhos de todos os tipos, do Novo e Velho Mundo. É produzido e administrado por jornalistas sem vínculos com produtores, importadores, comerciantes ou outros agentes desse mercado. Busca facilitar a decisão de compras, qual o vinho combina melhor com um momento ou com um prato.
É interessante que o pessoal do portal não dá nota aos vinhos que comenta. Mas fala da região, do clima, do tipo de solo, das uvas, dos produtores, faixa de preço e faz uma avaliação final. Você chega a salivar. Melhor do que dar pontos.

O certo é que está perto

E se naquele restaurante cinco estrelas começarem a servir apenas água da bica (filtrada, naturalmente)? Nada de San Pellegrino, Perrier, Evian, Fiji etc. E se os vinhos forem apenas os mais próximos, só os gaúchos ou pernambucanos. E nada de importados.
É um feliz acaso que estejamos falando de uma ação envolvendo aquecimento global logo após o 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente. Falamos de um movimento correspondente e que começou na Califórnia, já chegou à Nova York e, no caso dos vinhos, está gerando grande ruído entre ingleses e neozelandeses.
A causa é vital: reduzir-se as emissões de gás carbônico (e o efeito estufa, o aquecimento global). Um carro 1.4, a gasolina, fazendo 250 km por semana emite anualmente 2,1 toneladas de gás carbônico. Se você utilizar apenas gás nesse mesmo carro e andar a mesma coisa semanalmente despejaria algo menos: 1,7 toneladas de CO2 por ano na atmosfera. Um caminhão a diesel, fazendo 2 000 km por semana (o que é pouco), despejaria anualmente no ar que respiramos 19,8 toneladas de gás carbônico. Agora, multiplica isso por milhares e mais milhares de automóveis e caminhões.
(Calcule no site da The CarbonNeutral Company o quanto de dióxido de carbono o seu carro despeja anualmente na atmosfera).
Grupos ambientalistas estão fazendo grande pressão para que nós e as indústrias reduzamos as emissões de dióxido de carbono, o CO2, ou encontremos maneiras naturais de neutralizar esse dano.
Você já sabe o que vem por aí. O planeta vai aquecer mais, a temperatura vai aumentar, tempestades vão devastar regiões, partes de cidades litorâneas, como o Rio de Janeiro, vão desaparecer. Com tudo isso, teremos mais epidemias de doenças tropicais. Mais desastres.
A lógica do movimento dos restaurantes (entre outros segmentos) é controlar os passos do CO2: se consumirmos itens originários de locais mais próximos estaremos contribuindo para reduzir essas emissões.
Servir água em jarras reutilizáveis faz mais sentido para o meio ambiente do que fabricar milhares de garrafas de água (90% delas de plástico) que alguém vai usar e jogar fora (e degradar o meio ambiente). Além disso, para cada litro de água produzido, o fabricante gasta mais cinco. Estaríamos desperdiçando água, além de petróleo e gás natural e jogando mais material tóxico na atmosfera, os excedentes da fabricação. Pense: beber água mineral ajuda a aumentar o preço do combustível, utilizado no fabrico e transporte da água.
Os donos do Del Posto (segundo o New York Times, o mais elegante e caro dos restaurantes do grupo de Joseph Bastianich e do badalado Mario Batali) aderiram ao movimento e vão colocar em cada jarra da sua água da bica (devidamente filtrada e carbonatada) a razão pela qual não dispõem mais de água engarrafada. "Enchendo navios com água engarrafada e fazendo-os viajar milhares de quilômetros é ridículo”, diz um dos sócios.
Mas a idéia ainda está tomando corpo, em parte porque há grande lucro em vender água engarrafada. Os restaurantes (em Nova York) compram por um ou dois dólares a garrafa e a vende por oito e até mais. É o item com a maior margem de lucro das casas.
Os restaurantes ainda têm de contornar os fregueses: 50 a 60% deles preferem água engarrafa com gás.
Isso porque a indústria de água engarrafada não dorme no ponto: vende pureza e tenta convencer o consumidor que o seu produto é mais conveniente e mais seguro do que água encanada.
Contudo, uma das principais cientistas do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, um grupo ambientalista norte-americano (tem um milhão e 200 mil filiados), Dra. Gina Solomon, afirma que não há motivos para acreditar que água engarrafada seja melhor do que água da bica. Para começar, o suprimento de águas encanadas é mais fiscalizado do que as águas engarrafadas. Os testes feitos são apresentados ao público. Já os testes envolvendo as águas engarrafadas não precisam ser apresentados ao público.
Tomara que esse movimento ganhe força por lá. Um americano gera, em média, mais de 20 toneladas de dióxido de carbono (ou gases relacionados) por ano. Um cidadão de qualquer outra parte do planeta produz cerca de 4,5 toneladas no mesmo período.
Os caminhos do vinho. O Times, de Londres, publicou agora uma tabela sugerindo aos consumidores ingleses que trocassem os vinhos da Nova Zelândia pelos da França, pois assim ajudariam a reduzir emissões de CO2.
Os neozelandeses contra-argumentam: seus vinhos respeitam o meio ambiente de modo a compensar o impacto produzido pelo transporte da bebida por navio: são 18.331 km entre Auckland, a cidade mais importante da Nova Zelândia, e Londres; e 742 km entre Bordeaux e Londres).
E já temos vinícolas com projetos para ficar de bem com o planeta. As chilenas Cono Sur e Undurraga são, ao que parece, as líderes nesse processo. Fizeram parceria com a Londrina “The CarbonNeutral Company” (que citamos acima) especializada em processos para reduzir, eliminar ou compensar as emissões de gás carbônico.
Seus vinhos chegarão ao mercado com o selo da CarbonNeutral, garantindo que esses vinhos compensaram de algum modo o que de nocivo emitiram na produção e no transporte da bebida.
Nenhuma vinícola pode zerar suas emissões de CO2, já que liberar dióxido de carbono é parte do processo de fermentação. Mas pode limitar outras emissões, passando a utilizar biocombustíveis, energia solar e eólica e plantando mais árvores (que absorvem dióxido de carbono, tirando-o da atmosfera, como parte do processo de fotossíntese).
Uma simples árvore de bordo (cuja seiva é rica em açúcar) pode absorver o equivalente a 200 quilos de CO2 anualmente.
O processo compreende você plantar um número suficiente de árvores de modo a compensar o CO2 que a sua vinícola (ou a sua indústria) jogou na atmosfera.
Será, leitora, que o Fasano também vai passar a servir água da bica (filtrada, naturalmente)? E o que você fará a respeito dos vinhos: passará a comprar apenas os nacionais? Vai proibir o namorado beber a deliciosa Cerpinha, que vem lá do Amazonas?
Da Adega
MundoVinho. Não deixe de visitar um novo e útil serviço para vinhos. É o portal
MundoVinho, em funcionamento desde o último dia 4. Ele apresenta vinhos de todos os tipos, do Novo e Velho Mundo. É produzido e administrado por jornalistas sem vínculos com produtores, importadores, comerciantes ou outros agentes desse mercado. Busca facilitar a decisão de compras, qual o vinho combina melhor com um momento ou com um prato.
É interessante que o pessoal do portal não dá nota aos vinhos que comenta. Mas fala da região, do clima, do tipo de solo, das uvas, dos produtores, faixa de preço e faz uma avaliação final. Você chega a salivar. Melhor do que dar pontos.

28.5.07

Do prêt-à-porter à haute couture

Leitora diz que marido costuma guardar seus charutos no climatizador de vinhos da casa. Isso dá problemas?
Numa adega climatizada, os vinhos ficam guardados sob um regime de 13 graus Celsius e 70% de umidade. Já os charutos, a condição ideal é 21ºC e entre 68 e 72% de umidade. A adega climatizada é gelada demais para os charutos. Se a umidade é relativa à temperatura, para cada grau abaixo dos 21ºC dos charutos, a umidade deveria aumentar proporcionalmente. Então, se a sua adega está na base dos 13ºC, os charutos deveriam ficar sob 80% de umidade. Com o ar ambiente da adega muito frio não teremos muita umidade em suspensão. No climatizador, os charutos acabariam por ressecar. Li isso na Wine Spectator.
Leitora leu que álcool demais faz “encolher” o cérebro. Como é isso?
Mamãe, meu cérebro encolheu! Pois é, amiga, também li sobre isso (na decanter.com).
É um estudo da Academia de Neurologia de Boston, Massachusetts. Diz que se bebermos muito e constantemente nosso cérebro pode ter o volume reduzido em até 1,6%. Pesquisaram 1.839 pessoas entre 34 e 88 anos para concluir que “um maior consumo de álcool tem correlação negativa com o volume do cérebro”. A turma que ficou com a redução maior, 1,6% é a que bebia mais de 14 drinques por semana.
Atenção que o estudo não menciona o vinho. Já que bebo (vinho) desde criancinha meu cérebro deveria ter encolhido uns 50%. Mas balanço a cachola e nada chacoalha.
Lembro que uma semana depois dessa nota (saiu em nove de maio), li uma matéria na Wine Spectator afirmando que o champagne protege as células do cérebro contra danos provocados por insultos cerebrais e doenças como as de Alzheimer e de Parkinson. Nesse caso, a pesquisa resulta de uma parceria entre a Universidade de Reading, Inglaterra, e a Università degli studi di Cagliari, em Monserrato, Itália.
Em resumo, descobriram que o champanhe tem grandes quantidades de polifenóis, poderosos antioxidantes, que podem proteger contra danos neurológicos. Quer dizer: com o champanhe nosso cérebro não “encolhe”. Fica protegido.
Mas por causa disso não saia bebendo champanhe a torto e a direito, amiga. Os testes foram feitos em camundongos. Vamos esperar um pouco mais para ver. Como sempre, continuaremos a beber nossos espumantes com moderação. Estou testando há bem mais tempo e até agora, tudo bem, não fui insultada ainda.
Leitor diz que não tem um climatizador e seu tinto (seu estilo preferido) é refrigerado numa geladeira. Qual é a temperatura correta? O que acontece se estiver muito o pouco gelado.
Amigo, estabeleceu-se que a maioria dos tintos deve ser consumida entre 15,5ºC e 21,1ºC.
Quando os tintos estão muito gelados (digamos que tenham saído direto de uma adega climatizada, nos seus 13ºC, ou da geladeira, lá pelos seus 7ºC), os taninos vão se destacar demasiadamente, o vinho ficará muito adstringente, difícil de beber.
Por sua vez, se a temperatura ficar acima dos 21ºC, o álcool é que vai aparecer mais, com o vinho insosso e esquentando sua garganta.
Se o amigo não tem climatizador, uma dica é deixá-lo num balde com gelo por uns dez minutos. Depois, retire-o e deixe-o chegar até os 16-21ºC.
Outra leitora quer saber quais são finalmente os aditivos do vinho: como o vinicultor “tempera" nossos vinhos.
Ótima pergunta, amiga. Os produtores de vinho tentam sempre passar por cima dela. Para eles, o melhor dos mundos seria continuar com seus rótulos românticos: seu vinho é um pouco de alquimia, misturado a solos e climas maravilhosos e práticas enológicas ensinadas por Noé.
Se tivessem de listar todos os produtos e processos utilizados em nosso vinho, os rótulos teriam de cobrir toda a garrafa. E nós ficaríamos apavoradas.
A lista abaixo foi publicada pela Organização da Vinha e do Vinho (OIV), que reúne 43 países (o Brasil inclusive) do Novo e Velho Mundo e até do Oriente. Ela regula procedimentos científicos e técnicos relativos às vinhas, vinhos e uvas. E estabelece práticas enológicas e processos físicos autorizados. As substâncias abaixo podem ser acrescentadas ao vinho, ao mosto ou a ambos:
ACIDIFICAÇÃO: ácidos láctico, málico e tartárico.
CLARIFICAÇÃO: alginato de
cálcio e de potássio, caseinatos de potássio, caseína, dióxido de silício,
gelatina alimentar, goma arábica (acácia), cola de pescado (subproduto de
peixes, obtido pelo tratamento de matérias primas ricas em substâncias
colágenas: cabeça, pele, esqueleto, bexiga natatória, etc.), leite, proteínas de
origem vegetal, silicato de alumínio, sulfato de ferro, diatomita, celulose.
DESCOLORANTES: polivinilpolipirrolidona (PVPP), carvão
ativado.
DESACIDIFICAÇÃO: bactérias lácticas, carbonato de potássio, tártaro
neutro de potássio, carbonato de cálcio. DESODORIZANTE: sulfato de cobre.
ELABORAÇÃO: lascas de carvalho, acetaldeído, ácido
metatartárico.
ENRIQUECIMENTO: tanino e oxigênio.
ENZIMAS: celulasa,
beta-glucanasa, pectolíticos, uréase.
FERMENTAÇÃO: agente antiespumante
(ácido oléico), bisulfito de amônia, cloridrato de tiamina, paredes celulares de
levedura, leveduras de fermentação, fosfatos diamônico e de amônio.
CONSERVANTES: disulfito de amônia, ácido sórbico, anidrido sulfuroso,
argônio, nitrogênio, bisulfito de potássio, dimetil dicarbonato, dióxido de
carbono, metabisulfito de potássio, lisozima, sorbato potássico, ácido
ascórbico.
REAGENTES SEQÜESTRANTES: fitato de cálcio, ácido cítrico.
ESTABILIZADORES: tartrato de cálcio, manoproteínas de leveduras.
Quanto aos processos físicos, a OIV autoriza a eliminação do dióxido de enxofre por essa via. E ainda: a centrifugação, as micro e ultra-filtração, a osmose inversa, a evaporação, tratamentos térmicos, eletrodiálise, resinas de intercâmbio de íons e o emprego da coluna de cone rotativo.
O documento compara a lista da OIV com o que é permitido na União Européia, na Suíça e nos Estados Unidos. Veja a lista completa aqui.
Não se alarme, amiga: esses produtos e processos são usados ocasionalmente; alguns deles, habitualmente, e sempre em quantidades mínimas, reguladas, e dentro de limites apropriados. A qualidade final de um vinho é devida à interação entre o vinhedo, o clima e o ser humano que faz a bebida. O famoso enólogo e professor francês, Emile Peynaud escreveu que a intervenção humana na vinificação deve “destacar as características naturais do vinho”. Mas às vezes serve para mascarar um simples prêt-à-porter de haute couture.

22.5.07

A bola da vez

Jornais e revistas estão cheios de matérias sobre vinho. Pode ser o efeito do inverno chegando. Mas acho que já deu pra todo mundo notar que a bebida está ficando mais democrática, mais acessível e, mais importante, caindo no gosto de todos, não importam as estações, pois temos vinhos para todas elas.
Uma longa e ótima matéria é a que li agora na Época. Seu título destaca que o vinho agora é o rei do supermercado e que deixou de ser um produto das elites para ser adotado pela nossa classe média. Veja toda a matéria aqui.
Em todo o mundo, o vinho vai abraçando não apenas todas as classes sociais, mas também todas as faixas de idade. Sim, o que tenho lido por aqui versa mais sobre o maior acesso da classe média aos vinho, até então considerada bebida só acessível aos mais endinheirados e mais maduros de idade.
Mas isso vem mudando em todo o mundo. A Vinexpo, organizadora, da maior feira do vinho do mundo, realizada a cada dois anos em Bordeaux, realizou uma pesquisa entre jovens em idade legal de beber, em vários países. E seus resultados mostram que esse público importantíssimo está muito interessado nos vinhos, mas precisa de maior atenção por parte dos produtores.
A pesquisa reuniu 100 bebedores ocasionais de vinho, na faixa de 20 a 25 anos. Recrutou gente de Londres, Paris, Bruxelas, Nova York e Tóquio – 20 de cada cidade para discussões em grupo. (Acho essa amostragem pequena; a revista Decanter, inglesa, realizou outra, semelhante, mas com 500 jovens, entre 18 e 15 anos).
O que pensam os jovens entrevistados pela Vinexpo?

Que o vinho tem uma imagem saudável; que não é uma bebida para jovens; quem bebe vinho quase sempre tem um emprego (?). Todos querem que a imagem do vinho seja mais jovem e que o mito seja retirado da cultura envolvendo a bebida.
Preferem vinhos varietais, que sejam “leves e frutados”, que sejam menos confusos e fáceis de comprar. As centenas de possibilidades de escolha, os vários estilos, os rótulos complicados e a imagem “pomposa” dos vinhos os confundem e desencorajam.
Para esse grupo o vinho é um lubrificante social, uma fonte de prazer sem culpa.
Esse “prazer sem culpa” é explicado melhor pela pesquisa da Decanter, onde os jovens afirmaram que o vinho não é o culpado pelo “beber até cair” (um problemaço na Inglaterra: a turma não sai para beber socialmente, sai para tomar porre).
E, bem mais importante, que "a responsabilidade por beber adequadamente é dos pais e não do governo". Olha que são os próprios jovens ingleses falando.
Isso pode até ser uma boa dica para o movimento Propaganda sem Bebida, (do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo e da Unidade de Álcool e Drogas da Universidade Federal de SP). O movimento já recolheu 700 mil assinaturas para motivar o Congresso Nacional a aprovar lei que proíba a publicidade de bebidas alcoólicas (tal como a de cigarros).
Educação começa em casa, como sabemos. Nos pubs ingleses é comum proibir a entrada de crianças e cachorros. Proibição funciona? Olha só o exemplo da Lei Seca americana, entre 1920 e 1933. Os Al Capones da vida adoraram.
Mas voltemos às pesquisas. A da Vinexpo me parece um tanto banal. Anotei respostas bobas como “Vinho nos ajuda a participar das festas”; “Uma taça de vinho ... “É bonita pelo seu brilho ... brilho dourado ... vermelhos densos como veludo...” E, do Japão, veio essa: “Virou moda oferecer à namorada uma garrafa de vinho feito no ano em que ela nasceu”.
Mais importante para mim, considerando os jovens, é uma pesquisa informal reunindo 181 estudantes da Columbia Business School, feita recentemente pelo diretor da revista Wine & Spirits, Philipe Newlin. Esse grupo tinha entre 26 e 30 anos.
Eis algumas respostas:
Imagem: 86% dos respondentes acham a imagem do vinho “sofisticada” (contra 5% que julgam “legal” e “na moda”, e 5% que consideram “esnobe”, “elitista”).
Saúde: a maioria concordou que o vinho é uma escolha mais saudável, mas 65% acham que a preocupação com a saúde não é o que promove a sua escolha por beber vinhos.
Freqüência: 65% declaram beber vinho de 2 a 4 vezes por semana. Apenas 6% afirmam beber uma taça diariamente.
Recomendações: compram vinho a partir do boca-a-boca: recomendações de amigos, em particular.
Social: 39% dos pesquisados apontam os restaurantes como o principal lugar onde bebem vinho. Seguem-se reuniões com amigos.
Varietais: Os tipos de uvas são a primeira coisa que 35% olham nos rótulos quando compra vinhos. Seguem-se o país de origem e o preço. A marca do vinho (por exemplo: “Miolo”, “Chateau de tal”) são é importante para 2%.
Média de gastos: garrafas entre US$ 15,00 e US 20,00 (há dois anos, numa pesquisa idêntica, na mesma Columbia, os jovens gastavam um pouco menos: entre 10 e 15 dólares).
Educação: 61% acreditam que beberiam mais vinho que conhecem mais sobre a bebida.
Porque bebem: 80% bebem vinho porque dão mais ênfase à qualidade do que à quantidade da bebida.
Temos aqui, por exemplo, que esses jovens aceitam mais recomendações de amigos e do seu círculo social do que dos críticos, da mídia. Os críticos estão distantes, já os amigos estão logo ali. Você pode dividir um vinho com eles, bater um papo. A bebida foi feita para isso.
É esse o grupo que fez do vinho a sua bebida preferida, tomando o lugar da cerveja, nos Estados Unidos.
Carlos Cabral, diretor de vinhos dos supermercados Pão de Açúcar, revela que “o vinho se tornou um item comum no carrinho da classe média”. As vendas dessa rede crescem 20% ao ano. "O vinho está substituindo o refrigerante no almoço de domingo e a cerveja à beira da piscina. E se tornou protagonista de uma das maiores explosões de consumo em curso no Brasil", diz Cabral.
Tenho certeza que esses jovens adultos (25-30 anos) já estão nesse trem há tempos. Tive loja de vinhos em Itaipava e testemunhei a presença dos jovens. Em 2000, quando o Periquita completou 150 anos, compramos umas 20 caixas. 80% desse vinho foram consumidos por jovens. Era julho, frio na Serra. Entravam na loja, compravam uma ou duas garrafas levavam o vinho para suas festinhas. A turma mais velha olhava o Periquita com superioridade. Azar o deles. Escolhiam pelo preço (maior).
Que os jovens precisam saber mais é o óbvio ululante. Vale para todas as gerações. Todas nós já passamos por isso. Gostamos da bebida e fomos à luta para saber mais, não importando a chuva, vento e poeira que pegamos. Está valendo à pena.O vinho é ou não é a bola da vez, leitora?

17.5.07

Cianidina ou Pinot Noir?

Sobre vinho e saúde, temos uma nova estrela. Não, dessa vez não é o resveratrol. A boa novidade tem um nome complicado: Cianidina-3-ramnosídeo, uma antocianina, um pigmento que vai do roxo ao azul encontrado largamente em frutas e vegetais.
A cianidina é o tipo mais comum de antocianina. No caso dos vinhos, é o elemento químico que fornece a cor vermelha das cascas das uvas e da própria bebida. Em particular, a Cianidina-3-ramnosídeo (C-3-R, para os íntimos), protege a fruta (no caso, a uva) das radiações ultravioletas. Possui também qualidades antioxidantes, entre elas a de prevenir de certos tipos de cânceres.
O pessoal do Departamento de Patologia da Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia, responsável por esse estudo, testou a C-3-R em vários tipos de leucemia e de linfomas.
Todas as células cancerosas morreram em 18 horas e até em menos tempo. E, melhor ainda: nenhuma das células normais (não atacadas por esses dois tipos de câncer) foi danificada ou intoxicada.
Os testes continuam, mas parece que, agora, os cientistas identificaram um novo aspecto positivo para beber-se vinho tinto. Não apenas ele vai ajudar na digestão, um delicioso companheiro das comidas, como pode ser chave para um coração mais saudável. É agora um possível preventivo para o câncer e talvez um eliminador de quimioterapias.
Só tem um porém: sabe-se que os níveis de C-3-R utilizados para eliminar leucemia e linfoma, segundo o referido estudo, são muito grandes. Teríamos que beber garrafas e mais garrafas de vinho. Portanto, não saia correndo para as lojas e gaste todas as suas economias em caixas de vinho. Há sempre o risco de uma cirrose hepática.
Certamente, esse trabalho vai resultar em fórmulas que a indústria farmacêutica disponibilizará nas doses apropriadas. Enquanto isso, quem quiser driblar futuros problemas pode continuar a beber o seu vinho tinto, sabendo que a C-3-R vai atingir células de nosso corpo e talvez prevenir doenças que silenciosamente tentam se conjurar.
O que sabemos, por estudos da Universidade da Califórnia (Davis) é que algumas varietais, de algumas regiões, produzem quantidades maiores de antioxidantes. Em particular, a Pinot Noir foi identificada como possuidora de grandes quantidades da C-3-R e de resveratrol. As regiões são o Oregon, nos Estados Unidos, e a Borgonha, na França, sempre áreas mais frias, portanto.
Cuidado. Mas temos que considerar que esses suplementos ainda não foram devidamente testados. Sabe-se que esses antioxidantes do vinho possuem importantes atributos.
Publiquei aqui, há tempos, uma pesquisa feita pelo Instituto Nacional de Saúde sobre Envelhecimento, nos Estados Unidos. Alimentaram camundongos com uma dieta de muita gordura (que poderia levar a diabetes e doenças do coração). Após engordarem bastante, alguns desses animais receberam mega-doses de resveratrol.
Os camundongos que não receberam o antioxidante, farto nas uvas e vinhos tintos, contraíram várias doenças e morreram rapidamente.
Os tratados com resveratrol não desenvolveram quaisquer doenças e viveram tanto quanto os animais alimentados com uma dieta sadia.
Quando isso foi noticiado, a indústria farmacêutica jogou no mercado vários suplementos alimentares com base no resveratrol. E as vendas explodiram.
Mas o médico Felipe Sierra, envolvido na citada pesquisa, alerta que o trabalho, nesse estágio, “não significa nada para as pessoas, pois não sabemos o que acontece com o resveratrol em nossos corpos. Nosso metabolismo é diferente dos camundongos”.
O resveratrol é um componente natural encontrado nos vinhos tintos que se provou bom para a nossa saúde, mas as quantidades ministradas aos bichinhos foram exorbitantemente altas, bem mais do que qualquer pessoa possa consumir.
Câncer nas tampas de metal? Poderia escrever o ano todo sobre vinho e saúde: não há semana em que não leia alguma coisa a respeito sobre a face saudável do vinho. Porém, não faltam notas alarmantes.
No início de maio, um crítico de vinhos neozelandês, Keith Stewart, afirmou que há uma relação entre o um selo de plástico utilizado nas tampas de rosca metálica, (cada vez mais adotadas principalmente na Nova Zelândia) e o câncer de mama.
O tal selo é feito de um tipo de plástico, o PVDC, utilizado como uma camada para melhorar a impermeabilização de uma vasta gama de embalagens (inclusive garrafas) de alimentos e bebidas. É uma barreira contra oxidação, vapores, aromas e gases. Segundo o crítico, o PVDC seria um dos elementos químicos que afetam o sistema endócrino e impedem que os hormônios cumpram suas funções no corpo humano.
Só tem um detalhe: a indústria vinícola da Nova Zelândia solicitou em peso que Stewart apresentasse os estudos que o levaram a criar a nota. Imploraram que citassem os vinhos contaminados por esse selo nas roscas metálicas.
E o crítico até agora não apresentou qualquer evidência. Diz que sabe dos riscos desse tipo de selo desde 2003 e que a indústria neozelandesa não está pesquisando o bastante sobre esse tipo de tecnologia (as tampas de rosca metálica).
O caso é que a maioria de garrafas com tampa de rosca metálica utiliza desse selo há muitos anos (na maioria dos destilados: uísques, gins, vodcas etc.) e até hoje não se registraram casos de câncer.
O crítico diz que os casos de câncer de mama na NZ aumentaram 98% nos últimos 50 anos. “Mais ainda agora que as mulheres são as maiores compradoras de vinho e os principais alvos da campanha em prol das tampas metálicas”, afirma.
Diz ainda que existe evidência científica contra o PVDC e que se deve alertar contra beber-se vinho em garrafas de tampa metálica. Em tempo: 80% do vinho neozelandês e quase que 100% do seu Sauvignon Blanc estão em garrafas com esse tipo de tampa.
Só que as provas ainda não foram apresentadas. Alarmar apenas por alarmar também faz mal à saúde.
O que faz bem? E alarme é também o que acontece quando descobrem mais algum benefício no vinho e todos saem correndo atrás da bebida ou de seus suplementos.
Acho melhor é seguir o conselho do médico Stuart Seides, cardiologista do Washington Hospital Center. Ele acha que devemos parar de buscar no vinho outra coisa que não seja o prazer pela bebida.
“Meu conselho é economizar dinheiro e, em vez de suplementos alimentares, comprar uma boa garrafa e desfrutá-la aos poucos nas refeições”.

O que vai no seu vinho

Se os produtores de vinho tivessem de listar todos os produtos e processos utilizados em nosso vinho, os rótulos teriam de cobrir toda a garrafa. E os consumidores ficariam apavorados. A lista abaixo foi publicada pela Organização da Vinha e do Vinho (OIV), que reúne 43 países (o Brasil inclusive) do Novo e Velho Mundo e até do Oriente. Ela regula procedimentos científicos e técnicos relativos às vinhas, vinhos e uvas. E estabelece práticas enológicas e processos físicos. As substâncias abaixo podem ser acrescentadas ao vinho, ao mosto ou a ambos:
Acidificação: ácidos láctico, málico e tartárico. Clarificação: alginato de cálcio e de potássio, caseinatos de potássio, caseína, dióxido de silício, gelatina alimentar, goma arábica (acácia), cola de pescado (subproduto de peixes, obtido pelo tratamento de matérias primas ricas em substâncias colágenas: cabeça, pele, esqueleto, bexiga natatória, etc.), leite, proteínas de origem vegetal, silicato de alumínio, sulfato de ferro, diatomita, celulose. Descolorantes: polivinilpolipirrolidona (PVPP), carvão ativado. Desacidificação: bactérias lácticas, carbonato de potássio, tártaro neutro de potássio, carbonato de cálcio. Desodorizante: sulfato de cobre. Elaboração: lascas de carvalho, acetaldeído, ácido metatartárico. Enriquecimento: tanino e oxigênio. Enzimas: celulasa, beta-glucanasa, pectolíticos, uréase. Fermentação: agente antiespumante (ácido oléico), bisulfito de amônia, cloridrato de tiamina, paredes celulares de levedura, leveduras de fermentação, fosfatos diamônico e de amônio. Conservantes: disulfito de amônia, ácido sórbico, anidrido sulfuroso, argônio, nitrogênio, bisulfito de potássio, dimetil dicarbonato, dióxido de carbono, metabisulfito de potássio, lisozima, sorbato potássico, ácido ascórbico. Reagentes Seqüestrantes: fitato de cálcio, ácido cítrico. Estabilizadores: tartrato de cálcio, manoproteínas de leveduras.
Quanto aos processos físicos, a OIV autoriza a eliminação do dióxido de enxofre por essa via. E ainda: a centrifugação, as micro e ultra-filtração, a osmose inversa, a evaporação, tratamentos térmicos, eletrodiálise, resinas de intercâmbio de íons e o emprego da coluna de cone rotativo. O documento compara a lista da OIV com o que é permitido na União Européia, na Suíça e nos Estados Unidos. Veja a lista completa aqui.
Não se alarme, leitor: esses produtos e processos são usados ocasionalmente; alguns deles, habitualmente, e sempre em quantidades mínimas, reguladas, e dentro de limites apropriados. A qualidade final de um vinho é devida à interação entre o vinhedo, o clima e o ser humano que faz a bebida. O famoso enólogo e professor francês, Emile Peynaud escreveu que a intervenção humana na vinificação deve “destacar as características naturais do vinho”. Mas às vezes serve para mascarar um simples prêt-à-porter de haute couture.

8.5.07

O que se perde

SARKOZY E OS VINHOS. Li na inglesa Decanter que a categoria dos vinicultores, produtores e negociantes de vinhos franceses votou em Nicolas Sarkozy, eleito novo presidente francês. Os principais órgãos de classe, a CIVC (Champagne), BIVB (Borgonha) e a CIVB (Bordeaux) ficaram em cima do muro, sem posição oficial. Mas muitos vinicultores acham que Sarkozy vai afrouxar as restrições quanto à publicidade de vinhos. Referem-se à famosa Lei Evin, instituída em 1991 com a finalidade de lutar contra o alcoolismo e proteger os jovens. Na prática, impede a publicidade de bebidas alcoólicas no país.
Os editoriais falam que a França passará por uma reforma radical, que o novo presidente é forte e não é paternalista. Sei não, mas no geral essa classe na França, ao menos pelo que leio, sempre gostou de se encostar na “viúva”. Se o governo lhes retira a ajuda, perdem a cabeça.
L’irrigation légalisée. Não sabia? A irrigação dos vinhedos franceses era proibida. Oficialmente, as autoridades viam uma boa chuvarada como uma bênção e a irrigação como uma maneira perigosa de fazer aumentar o volume de vinho. O aquecimento global, ao que parece, fez mudar essa atitude. A irrigação será permitida entre 15 de junho e 15 de agosto. Para irrigar, cada vinhedo AC (Appellation d’Origine Contrôlée) terá de obter autorização dos fiscais do governo. O curioso é que sistemas como a eficiente irrigação por gotejo, ecologicamente correta, estão fora da lei. É de perder a paciência.
ELA NÃO GOSTOU, ELE SIM. A consagrada Jancis Robinson baixou o sarrafo no que provou do Bordeaux 2006. “Diria que, com um punhado de exceções, essa é uma safra para ser comprada apenas se houver algum espaço na adega”. “Uma boa safra só para cogumelos e trufas, mas não para vinho”. A Wine Spectator, também acha que 2006 foi uma safra irregular.
Já o “imperador do vinho”, Robert Parker, saúda a safra como “superior à de 2004”. Seus destaques são: Mouton Rothschild, La Mission Haut Brion e Bellevue Mondotte de St. Emilion. Claro que nenhum desses está na lista de JR, que salienta, entre os brancos: Haut-Brion Blanc, Laville Haut-Brion, Margaux, Yquem. Entre os tintos: Cos d’Estournel, Haut-Brion, Lafite, Latour, Léoville Barton, Léoville Las Cases, Margaux, Palmer, Angélus, Le Pin, Vieux Château Certan, Lafleur, La Fleur Pétrus. Parker, parece, impediu que os bordelenses perdessem o sono.
O VINHO DE ANTONIETA. Enquanto isso, a realeza francesa revive dias de glórias. Um dos mais famosos pontos históricos do país, o Palácio de Versalhes, antiga residência de Maria Antonieta e do seu marido Luiz XVI, está produzindo vinho. Videiras foram plantadas ao redor do Trianon, a residência particular da rainha. Essas vinhas já deram frutos (Merlot e Cabernet Sauvignon) e o primeiro vinho (prensado, fermentado e amadurecido na Provence) é um Colheita Tardia rosado, o “Le Vin de Marie-Antoniette”. Preço: cada garrafa custará 11 mil reais. Por essas e outras é que Maria e Luiz perderam a cabeça.

6.5.07

Esses nomes...

“Borrado das Moscas”: porque será que os portugueses colocaram esse nome numa uva? E os italianos, com o equivalente “Cacamosca”? Podemos até descobrir a origem do nome “Sauvignon”, parte de Cabernet, Blanc etc. No passado, era uma maneira de dizer “cheiro ou sabor da vinha”. Nomes como o da branca “Albana”, uma variedade de Emilia-Romagna, vem claramente da palavra “alba”, amanhecer, cor da uva na primeira luz do dia. É até poético. Já Malbec, Chardonnay, Grenache etc., talvez quisessem dizer alguma coisa, mas suas raízes se perderam no tempo.
Dizem que a titica de “Cacamosca” e de “Borrado das Moscas” tem origem nas manchas pretas em suas cascas. Divertido, mas pouco apetitoso. A “Borrado” é o nome dado à casta “Bical”, branca, no Dão, Douro e Bairradas.
A “Borraçal” dá pinta que segue essa linha, digamos, excremental. Porém, seu nome quer dizer terreno pantanoso, lameiro. É uma tinta comum em Portugal e Espanha, com vários sinônimos, como: “Caiño Gordo”, “Caiño Grande", “Caiño Grosso”, “Caiño Redondo”, “Esfarrapa” e “Olho de Sapo”. Quase certamente essa “Caiño” significa o mesmo “Cainho” de que fala o Aurélio: algo próprio de cão.
Um cão colhudo? Agora, como traduzir a “Caiño de Bago Gordo”, tinta tradicional da Galiza? Um cão colhudo? Mas colhudo pela anatomia ou pela valentia?
E quanto à “Esgana Cão”? O que será que aconteceu com os pobres cachorros do Porto, onde essas uvas, muito ácidas, entram na produção dos brancos? A “Tinta Cão”, que significa “Cão Vermelho”, é outra referência canina, também da região do Porto.
A húngara “Juhfark” se traduz como “Rabo de Carneiro”, e a portuguesa “Rabo de Ovelha” carecem de boa explicação. Essa é plantada por toda Portugal, em particular na região do Douro. É branca; melhor que fosse tinta.
Da terrinha temos também a tinta, presente no Vinho Verde, “Espadeiro”, ou aquele que maneja bem a espada, espadachim. E ainda a “Bastardo”, uma das variedades tintas do vinho do Porto. O nome diz tudo. Na França, porém, é chamada de “Trousseau”, parecendo que tem pai e mãe conhecidos.
De volta a Portugal, encontramos nomes próprios, como “João de Santarém” e “Maria Gomes”. A primeira, uma tinta do Ribatejo, é a mesma Periquita, Trincadeira ou Castelão Francês. A “Maria Gomes” é a segunda mais importante variedade branca de Bairradas (ao lado da Bical).
Com nomes próprios temos várias, como a Pedro Ximénes ou Pedro Jiménez ou Pedro Giménez, na Argentina. Falam que essa uva tem origem nas Ilhas Canárias e veio para a região de Jerez, Espanha, na bagagem de certo soldado, o próprio Pedro Ximenez. Na Espanha é usada ao lado da Palomino Fino para fazer o delicioso Xerez (ou Jerez) e para fazer o vinho de sobremesa de mesmo nome. Na Argentina é uma uva “criolla”, natural do país, a mais plantada varietal branca, usada para fazer vinhos fortificados como os de Jerez.
“Alvarinho” seria um tratamento carinhoso para Álvaro? O Aurélio diz que alvarinho são bexigas benignas que atacam cabras e ovelhas. Sei não. Quem sabe seu nome se relacione mais a “alvorecer”, “alvorada”, “alvorejar”, pois é uma branca das castas da região dos Vinhos Verdes (na sub-região de Monção).
Um Álvaro Orelhudo? Já a tinta “Alvarelhão” me remete a algum “Álvaro de Orelhas de Abano”. Ou seria o aumentativo de “Alvarinho”, algo com bexigas enormes? Enfim, é uma casta da região demarcada dos Vinhos Verdes. Testes de DNA demonstram que ela tem como ancestral a “Esgana Cão”. Cresce também no Douro e no Dão.
“Louise Swenson”, “Lucie Kuhlmann”, “Kay Gray” são o trio feminino de uma nova série americana? Nada disso: são uvas híbridas criadas por Elmer Swenson (1913 – 2004), famoso enólogo, pioneiro nos Estados Unidos nesse tipo de trabalho. Foram feitas para resistir aos climas muito frios do norte dos Estados Unidos.
Uma uva híbrida é produto de um cruzamento entre variedades da mesma espécie, tipicamente da Vitis Vinifera, a espécie européia de uva, originária da Eurásia, e que deu variedades nobres como a Riesling, Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Merlot, Gamay etc.
E se enganou quem pensa que “Branquinha” é água do ribeirão ou vem de um alambique. Ela é portuguesa com certeza, casta branca das regiões de Lafões e Encostas da Nave.
Um pé no saco? Da Itália, temos a branca e aromática “Arneis”, do Piemonte. No dialeto local significa “uma pessoa difícil, nervosa, um pé no saco”, difícil de cultivar que é. Em outras regiões é chamada de Nebbiolo Blanco. É de lá também a “Pediroso” ou “pés vermelhos” por sua habilidade em manchar (os pés, na “pisa” das uvas).
Os italianos, contudo, têm uma casta que soluciona grandes problemas. É a “Pagadebit”: por ser muito produtiva e resistente à parasitas e a clima adverso, ela “paga os débitos” dos vinicultores, mesmo em anos ruins.
A argentina “Criolla Chica” tem casca rosada e é usada para vinhos brancos simples. É a mesma “Pais” chilena, sinônimo da tinta “Mission”, de origem espanhola e muito plantada no México e Califórnia no século XVIII, apenas para uso religioso, como indica o seu nome.
(“Criollo” é o nome utilizado para representar, na América Espanhola, filhos de espanhóis com mestiços, índios ou com pessoas nascidas localmente de pais espanhóis.).
A Turquia oferece a complicada tinta “Okuzgozu”. Pelo som de seu nome seria incapaz de adivinhar que significa “Olho de Vaca”. Da Grécia, vem a “Xinomavro”, ou “Negro Amargo”, e a “Agiorghitiko”, literalmente “São Jorge”.
E “Negroamaro” (novamente “Negro Amargo”) é o nome dessa uva do sul da Itália, de onde temos também a “Tazzelenghe”, que se traduz como “serrote de língua”, pela sua grande adstringência. Na mesma linha, os franceses têm a “Picpoul” ou “Picapoll” (em catalão), pois “pica os lábios” por sua forte acidez. É de lá também a “Pignolo” ou “coisa espinhenta, dificultosa”.
A “Tinta Roriz” é presença certa em quase todos os cortes de vinho do Porto. Parece que é apenas uma indicação geográfica: Roriz é uma freguesia seja no Concelho (circunscrição administrativa inferior a distrito) de Chaves, no de Barcelos ou no de Santo Tirso. Na Espanha, é a famosa “Tempranillo”.
Uma uva para o Lula? Curiosos e carinhosos são os nomes das também brancas “Viosinho” e “Donzelinho”, variedades usadas, ao lado da “Malvasia Fina”, Codega e Rabigato, para fazer vinhos do Porto brancos.
A espanhola “Bobal”, lembra “bobagem”, “bobalhona”, mas é uma uva tinta usada em cortes pela potência de sua cor. Tem sinônimos como Provechón e “Requena” e é plantada por todo o país.
Com um nome que lembra festa, música, a “Balada” é também uma variedade tinta da Espanha.
A “Uva Rara”, da Lombardia, é a mesma Bonarda, do Piemonte. É tudo, menos rara. E a “Schiava” quer dizer “escrava”, uma variedade tinta, base dos vinhos do Trentino Alto Adige. É chamada de “Vernatsch” ou “Trollinger” no sul do Tirol, Alemanha. Pelo que apurei, “Vernatsch” quer dizer simplesmente “local” ou “vernacular” (que quer dizer “linguagem local, genuína, pura”). “Trollinger” pode ser uma evolução de “Tyrolinger” (ou “algo que vem do Tirol”). A própria “Schiava”, além de “escrava”, lembra “Slavic”, por suas origens eslavas.
Podíamos escrever muitas colunas sobre nomes e apelidos de uvas. A cada dia colecionamos um novo, quase sempre uma divertida surpresa, como a italiana “Cagnina”, que literalmente significa “cadelinha”. Seria uma referência canina ou humana?
E se aqui no Brasil começássemos a dar nomes às uvas novas, criadas por aqui mesmo? A uva “Lula” seria uma branca para acompanhar frutos do mar? Ou uma tinha perfeita para pizzas?

A minha outra metade

Parece que beber um vinho com o seu ou a sua parceira, o seu ou a sua amiga já não é simples e prazeroso o bastante. A novidade agora é cooperar: casais dividindo uma garrafa de vinho devem colaborar um com o outro. Caso contrário, alguém ficará a ver navios.
Explico, amiga leitora: criaram agora um jogo de taças que obriga a que os casais bebam praticamente ao mesmo tempo. É a tal cooperação.
São duas taças de vinho tal como as conhecemos. Porém, estão interligadas, a partir de suas bases, por um tubo de plástico – como se fossem irmãs siameses ligadas por esse moderno cordão umbilical.
As taças, assim, transformam-se em vasos comunicantes. Quando colocamos vinho numa taça, a bebida vai passando para a outra. Se você encher uma delas pela metade, a outra também terá o mesmo nível.
E aí entra um problema: se você tentar beber sozinha a sua taça (isto é: sem a “cooperação” do seu parceiro), terá de levá-la a boca, naturalmente. Para isso, você terá que colocá-la no nível de seus lábios. A taça ficará mais alta, portanto, do que a da seu parceiro, para onde correrá a bebida. E sua taça ficará vazia.
Entendeu a cooperação? A danada da dinâmica dos fluidos obrigará os parceiros a beberem ao mesmo tempo, o mesmo gole, a mesma quantidade e sempre no mesmo nível.
O criador das taças, o designer Jim Rokos as chama de “Minha Outra Metade”.
Se você for esperta, e dominar por completo a teoria dos vasos comunicantes, poderá deixar que seu (ou sua) colega de copo beba mais que você e transforme-se numa presa mais fácil. Basta colocar sua taça em mais alto do que a dele. Mas se estiver mais a fim da bebida, basta apertar o tubo, impedindo que o vinho passe para o vizinho e beber o que quiser. Quanto devolver a taça à mesa, parte do vinho que estava na taça vizinha correrá para o seu copo. É quando você desistiu de cooperar.
Veja aqui as duas taças e, em seguida, um casal em ação no site do Gizmodo, especializado em engenhocas e brinquedos.
A humanidade já bebeu vinho (e outras bebidas) utilizando-se de chifres ocos (inclusive, de crânios), vasilhames de cerâmica, de madeira, de barro, de latão, em copos e taças de vidro, cristal, prata e ouro. Em “botas” de couro (usadas até hoje na Espanha) e até direto das ânforas, utilizando canudinhos de papiro (no Antigo Egito).
Sempre me pareceu muito simples buscar prazer numa simples taça de vinho durante uma refeição ou ao lado de amigos. Mas volta e meia, aparecem com essas engenhocas: ora para ajudar a abrir a garrafa, seja para resfriá-la, servir o vinho, decantá-lo, guardá-lo e até, nos últimos tempos, envelhecê-lo em três tempos.
Essas criações surgem sempre como a última novidade, itens essenciais. Seus formatos são interessantes, mas na maioria das vezes revelam-se desnecessárias, bobinhas.
E a experiência de dividir um vinho com alguém sempre foi um importante degrau no processo de socialização, de conhecimento mútuo. E, claro, de romance. Ninguém até agora precisou de taças “siamesas”, unidas por um cordão umbilical de plástico, para esquentar uma amizade, melhorar um papo, colocar os assuntos em dia.
Mas vivemos tempos “mudernos”, sujeitos a criações tais como essas taças da “Minha outra metade”: uma engenhoca bizarra, freak. Podem ser até divertidas. Mas é o desastroso da situação que vai fazer rir: um casal tentando manejar taças e tubos, coordenar movimentos para beber ao mesmo tempo.
Um comentarista acha inclusive que para beber teremos de ficar de cabeça para baixo, de modo a manter a taça sempre no nível da mesa onde está colocada. Já pensou se tentarmos essa operação e estivermos usando saia na ocasião? Tem tudo para virar “pegadinha”.
A taça de Kunigunde. Essas taças são, digamos, uma versão mais tecnocrática e muito menos romântica do que a taça de Kunigunde. Já ouviram falar? Dela, só temos uma lenda, medieval, do tipo “Era uma vez...”
Era uma vez uma linda dama que se apaixonara por um jovem ourives. Ela já tinha recusado muitos pretendentes, todos ricos e nobres. Então, resolveu confessar o seu amor secreto ao seu pai, um poderoso senhor da região.
Ele ficou tão furioso que mandou jogar o pobre ourives na mais escura das masmorras.
Kunigunde ficou desesperada, o coração partido, não parava de chorar. Mas, enfim, conseguiu comover seu pai.
Seu pai um dia a chamou e disse: “Se o seu ourives conseguir fazer um cálice com o qual duas pessoas possam beber ao mesmo tempo, sem respingar uma única gota, eu o libertarei e você poderá tornar-se sua esposa”.
Ele estava certo que ninguém poderia vencer esse desafio. Mas o amor inspirou o jovem e em poucos dias conseguiu criar um cálice com o formato de uma saia. Ninguém jamais vira um igual.
Na parte de cima do cálice, um modelo de sua bem-amada com os braços levantados segurando um vaso bojudo e móvel (através de eixos em cada uma das mãos da preso modelo).
Nada mais fácil para duas pessoas beberem simultaneamente nesse cálice. Foi o que Kunigunde e seu amado fizeram. E seu pai finalmente cede.
A nossa história termina bem, como seria de esperar. A a jovem dama e o seu ourives se casam e vivem felizes para sempre.
A partir daquele dia só beberam seus vinhos naquela taça, que se transformou num símbolo de amor, fidelidade e boa sorte para todos os casais que bebessem dele.
Esse cálice, que é comercializado e custa muito caro, aparece exclusivamente nos rótulos dos vinhos da Warwick Estate, de uma das mais importantes regiões vinícolas da África do Sul, Stellenbosch. Parece que essa “lenda” foi criada por lá.
E a taça casamenteira você pode ver aqui.
A amiga ficaria com qual das taças: a “Minha outra metade”, a da Kunigunde ou com nenhuma delas?