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23.10.07

Vinho, uma ferramenta

Os colecionadores de vinho continuam comprando muito, ignorando até a grave crise da maior bolha imobiliária da história. Para eles, vinho é igual a prestígio, a poder, vale qualquer preço, está acima de qualquer crise. Não é preciso sequer apreciá-lo, apenas desfrutar da força que inspiram alguns de seus rótulos e safras. Ele certifica celebridades, empresta fama, concede autoridade.
É o enocentrismo, um sistema onde as pessoas idolatram não a bebida, mas a sua influência, a sua magia. Só assim entendo que alguém dê 157 mil dólares por uma garrafa, com o fez, em 1985, Christopher Forbes, o filho do bilionário Malcolm Forbes, o dono da revista Forbes, já morto. Ele comprou em leilão uma garrafa de um Lafite do ano de 1787, que teria pertencido a Thomas Jefferson, um dos pais da América. Outro multimilionário, Bill Koch, comprou quatro dessas garrafas por meio milhão de dólares. E hoje processa o ex-proprietário delas por achar que são falsas. Até o FBI investiga esse caso.
E a Martha Stewart, a Ana Maria Braga norte-americana? Ela é muito mais rica e poderosa, mesmo depois de ficar um tempo na prisão por mentir para o fisco. Sua empresa tem braços no mundo editorial (revistas e livros), programas de TV e rádio, sites na internet e promove ações de merchandising. E agora oferece uma coleção de vinhos. Vinhos da E&J Gallo, a maior produtora dos EUA. Da bebida, Martha sabe mesmo é que ela harmoniza com celebridade. Logo, precisava ter a dela. Poderia continuar falando do vinho da atriz pornô Savanna Samson, dos vinhos de celebridades vivas e mortas, todos embalados por esse tipo de magia.
Mais recentemente, a japonesa Nintendo lançou um jogo eletrônico no qual você escolhe um dos 120 vinhos listados para tentar combinar com algumas sugestões de comida. Parece instrutivo, mas não deixa de chamar a atenção que um mundo estranho ao vinho esteja já caidinho pelo que a bebida pode simbolizar (e ajudar a faturar).
Isso me lembra da febre pelas relíquias religiosas. Ter pedaços da cruz de Cristo, cueiros do menino Jesus, ossinhos de santos, sudários – valiam na Idade Média milhares de moedas de ouro e muito mais. Parodiando Eça de Queiroz (em A Relíquia), essas tão ambicionadas garrafas não valem pela autenticidade que possuem, mas pelo poder que inspiram.
Jefferson, o 3º presidente norte-americano, amava os vinhos, mas para degustá-los. Ocupava-se em construir um país, fazer história, ao contrário de Forbes: “Comprei mais do que uma garrafa, comprei um pedaço de história”.
A garrafa do Lafite 1787 ficou exposta num salão da revista, em Nova York, recebendo luz direta. Se ainda não era, virou vinagre de vez. Quando saiu vitorioso da Christie’s, de Londres, em 1985, colocou a garrafa (provavelmente falsificada) numa sacola com a logomarca e o famoso slogan de sua empresa: “Capitalist Tool” (“Ferramenta Capitalista”).