Leram o Artur Xexéo? O colunista não aguenta mais um bocado de coisas, como começar qualquer frase com a expressão “Na verdade...”, ou responder cansativamente “Com certeza...” O jornalista não aguenta mais o Luan Santana nem a Regina Casé bancando a simpática. Nem eu.
E como eu, Xexéo não aguenta mais “pesquisas científicas amaldiçoando o ovo e seus efeitos no colesterol, anos depois de o ovo ter sido abençoado por pesquisas científicas porque, afinal, o ovo tem bom colesterol, apesar de, anos antes, outras pesquisas já terem amaldiçoado o ovo etc. etc. etc.”
E isso, claro, vale também para a alface, a beterraba, o agrião e o que mais quisermos incluir, e no caso presente, as uvas e os vinhos. Depois do fenômeno do Paradoxo Francês, em 1991, quando o resveratrol apareceu como o John Wayne da luta contra as doenças cardíacas, a pesquisas não pararam mais. E as vendas dos vinhos passaram a crescer como nunca, particularmente a dos tintos.
Por conta do resveratrol (e de mais alguns outros componentes), o vinho foi transferido para as prateleiras das farmácias, indicado para tratar de doenças circulatórias, hepáticas, metabólicas, renais, mentais, cancerígenas é curar cataratas e transformar-se numa nova fonte da juventude. Tal como a história do ovo mencionada pelo Xexéo, com frequência vemos que a pesquisa B, mais recente, invalida a pesquisa A, mais antiga. E fique certa que o vindouro estudo C vai desbancar a pesquisa B.
O resultado é que grande fatia do consumo mundial do vinho se concentra em gente preocupada com saúde, gente que bebe vinho como remédio. Portanto, não é de estranhar que um novo comerciante de vinhos inglês, a Vinopic, esteja vendendo vinho (on-line) com base num baseado em suas qualidades para a saúde.
A Vinopic criou uma espécie de placar, um Intrinsic Quotient (“Quociente Intrínseco”), criado por um famoso pesquisador dos vinhos, o professor Roger Corder. Seu livro, “A Dieta do Vinho” (da editora Sextante) está até esgotado em português.
O cientista considera que o que tornam os vinhos mais protetores são os polifenóis, componentes químicos encontrados nas cascas e sementes das uvas, os principais contribuintes da cor e sabor dos vinhos tintos. Entre os polifenóis, os mais significativos seriam as procianidinas, encontradas também nas sementes das uvas e que podem funcionar como vasodilatadoras e, assim, proteger contra doenças cardíacas.
O professor descobriu também que certos vinhos contêm mais procianidinas do que outros e que, para a nossa saúde, deveríamos consumir de 300 a 500 mg delas diariamente. Verificou também que quanto menor a uva e maior o número de suas sementes, a quantidade potencial desse polifenol seria maior. E logo chegou aos vinhos com a uva Tannat, uma das variedades tradicionais do sul da França (e, agora, também do Uruguai). Outras castas teriam também boas quantidades daquele componente: Cabernet Sauvignon, Malbec (argentino), a italiana Sangiovese, entre outras.
O tal “Quociente Intrinsic” terá notas, exatamente como as que os críticos dão aos vinhos que degustam, à la Robert Parker e Wine Spectator. Podem ir de 50, para um tinto genérico, 80 para um tinto genérico com a “qualidade Vinopic”, 120 para um tinto de qualidade de Madiran, região das uvas Tannat. E não aguento igualmente esses excessos de pontos, marcas etc. para simplesmente falarmos de vinho.
Não tenho dúvidas que o site será um sucesso. Só não me vejo comprando vinhos em razão de saúde. Faço exercícios, como muita fruta e legumes, minha dieta é de colesterol reduzido. Não tenho nada contra a Tannat ou qualquer outra casta. Mas vinho é original e insuperável, a mais deliciosa e complexa das bebidas do planeta. Ele nos oferece estilos diferentes, do branco ácido ao rico tinto, ao encorpado sedoso, parados ou espumantes, secos ou doces. Podem ficar conosco de um dia a dez anos, a centenas de anos. Nenhuma outra bebida nos oferece tanta história, tantos costumes, tantas culturas e, de certa maneira, tanta espiritualidade. Quanto à geografia, o vinho é uma das poucas coisas no mundo da qual podemos identificar a sua origem. Vinho sobretudo é convívio, calor humano, um enlevo, uma ajudinha para irmos levando nossa vida numa boa.
Mas a turma de meia idade em diante não vai parar de comparar o seu tinto de 120 com outro de 110, como aquelas pessoas que trocam impressões sobre a qualidade da aplicação de injeção de suas farmácias preferidas.
Não aguento mais ouvir de vinho e medicina, que os tintos são mais saudáveis etc. E os Rieslings, os Sauvignon Blancs, os Chardonnays, os Viogniers? E a imensa tribo dos tintos não tão fartos dessas procianidinas? Não vou trocá-los por uma receita. Não me importo se papiros egípcios ou tabletes sumerianos já recomendavam vinho como ajuda para alguma aflição. Já pensou beber um copo d’água há 4 mil anos? Melhor o vinho, né? Ah, os soldados romanos só bebiam vinho. Aliás, de péssima qualidade, praticamente um vinagre, mas melhor que água, pois senão seriam varridos do mapa pelos Asterix do caminho.
Lembro que em dezembro de 2010, a empresa farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK), a segunda maior do mundo, interrompeu o desenvolvimento, em dezembro de 2010, da droga SRT501, baseada no resveratrol, destinada à prevenção de doenças circulatórias em razão de sua pouca eficácia e potencial em agravar problemas renais. Veja mais.
Nada demais. Afinal, a empresa pesquisou, investigou e, por fim, verificou que ia morrer na praia. E pararam: nada mais profissional e ético. O problema está no consumidor: ele quer transformar a bebida num remédio e pode até remexer numa gaveta de saúde até então fechada.
Que tal continuarmos a bebericar nosso vinho pensando em outros méritos? O colunista Dr. Vino diz que comprar vinho por motivos de saúde o deixa doente. Eu já disso que não aguento isso. E você, amiga?
Da Adega
Vinexpo. O grande salão mundial do vinho e destilados abriu domingo, 18, em Bordeaux, e vai até quinta-feira. Está reunindo 2.400 empresas produtoras de 47 países, mais de 50 mil profissionais de hotéis, bares, restaurantes, companhias aéreas, pessoal de imprensa. Uma senhora festa.
Wine Day Cantu. A importadora apresentará algumas novidades de seu portfolio em evento no Hotel Porto Bay (Av. Atlântica, 1500), dia 26 de julho, das 15 às 21 horas. Entre as novidades: os italianos Tenute Folonari e Tenute La Poderina e os franceses da Le Grands Chais de France. Os supertoscanos da I Giusti e Zanza, os chilenos da Viña Ventisquero, os argentinos da Susana Balbo/Dominio del Plata e os portugueses da Quinta do Vallado também estão na carta de vinhos preparada especialmente para o evento.
Mas as novidades ainda incluem vinícolas francesas, espanholas, chilenas, argentinas e uruguaias. Esse será o primeiro Wine Day Cantu no RJ. Imperdível.
Punto Final. Esse festejadíssimo Malbec, da vinícola Renacer, de Perdriel, ao dos Andes, está sendo oferecido por uma senhora barganha: R$ 39,00. Estamos falando do Punto Final Etiqueta Preta 2009. Veja aqui.
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