17.12.09

O vinho das deusas

Será que Dionísio, o deus grego do vinho, merece todo esse cartaz? Qual, afinal, o papel das mulheres na história do vinho. Dionísio e, tempos depois, seu equivalente romano Baco, são criações masculinas e muito recentes historicamente. Nos primórdios, quando as civilizações eram basicamente matriarcados, as divindades regentes do vinho e da vinha eram mulheres, o que é deixado esquecido pela maioria dos livros de história. Mas na história que conta, Dionísio foi dos últimos a chegar. Inclusive, foi o último deus a entrar no Olimpo, o 12º.
Ao que parece, não há muitas dúvidas de que foram mulheres as “descobridoras” do vinho. Está demonstrado que tecnologicamente o vinho feito de uvas cultivadas já era feito por volta de 6.000 a.C. no que é hoje a Geórgia, nas montanhas do Cáucaso. Existem até registros mais antigos de traços de vinho na Armênia, Iraque, Irã e China, embora haja confusão se de uvas, arroz, tâmara ou de mel.
Normalmente, eram as mulheres as encarregadas da colheita e Fo transporte desses frutos para vasilhames, a serem guardados em depósitos. Não é de estranhar, que uma dessas mulheres, ao dar uma olhada no depósito, se deparou com um desses jarros transbordando de bebida fermentada. Ela provou e adorou. Pronto, o vinho fora descoberto.
É mais ou menos isso o que conta uma antiqüíssima lenda, documentada na Epopéia de Gilgamesh, envolvendo um poderoso rei sumério do 28 a.C. Dizem que é o texto literário mais antigo que se conhece. Uma das mulheres do harém do rei Jamshid sofria de pavorosas enxaquecas (ah, nós e as enxaquecas!). Um dia, o rei descobriu que o vaso contendo suas uvas favoritas estava espumando e tinha um odor estranho. Assustado, mandou colocá-lo de lado, inseguro de comer as uvas. Ao ouvir isso, a odalisca decidiu beber daquele estranho líquido, para acabar logo com sua vida e o seu sofrimento. Mas aconteceu o contrário: ela adorou a bebida, que além de tudo a curou das dores e fez melhorar o seu humor. Logo, contou o acontecido ao rei, que então ordenou que se fizessem mais daquela bebida.
O império sumeriano ficava no que é hoje o Iraque. E é de lá que se registra a mais antiga divindade do vinho: Gestin, uma deusa, já adorada desde 3.000 a.C – isso por registros em tabuinhas de escrita cuneiforme. O provável é que seu culto tenha começado bem antes da invenção da escrita naquela região. Gestin em sumeriano pode ser traduzido por vinho, vinha ou uvas. Ela também é mencionada pelo Rig Veda, o “Livro dos Hinos” dos indianos, escrito entre 1.700 e 1.100 a.C. talvez o mais antigo texto religioso do mundo numa língua indo-européia. Os historiadores acham mais do que razoável que essas primeiras divindades do vinho fossem mulheres, pois as mais antigas deusas regiam a terra e a fertilidade. Gestin veio dessa base agrícola. Era ao mesmo tempo deusa do vinho e da lua. A relação com a lua identificava a deusa (e as mulheres) com as fases do nosso satélite. E com as alterações sazonais com a vida animal e vegetal: uma fase vegetativa produzindo apenas folhas e brotos, outra de floração, a penúltima de colheita e, por fim, a infecundidade. A analogia era feita com as fases férteis e estéreis da mulher, com o ciclo menstrual, normalmente de 28 dias. E o ano era dividido em ciclos lunares de 28 dias, num total de 12 ciclos, o período das revoluções da lua com relação ao sol.
Gestin não estava sozinha. Com o nome de Geshtinanna era a deusa do vinho e da fertilidade dos assírios (que viviam no norte do Iraque, Síria e em parte da atual Turquia). Muito mais tarde, em 1.500 a.C., na mesma região, é mencionada outra deusa do vinho, Paget. Ela trabalhava na vinha e ajudava a produzir vinho.
Entre 300 e 400 a.C., temos uma nova deusa na Suméria, Siduri. Os egípcios também tinham a sua, Renen-utet mencionada em hieróglifos datados de 1.300 a.C. Mais adiante, datado de 1.500 a.C descobrem-se estátuas da Deusa de Myrtos na ilha de Creta. Suas estátuas eram colocadas nos lugares dedicados à produção de vinho: a deusa tinha um pescoço de girafa, o corpo, no formato de uma barrica, era um vasilhame para vinho.
Falamos de um tempo em que as mulheres governavam. Aos homens era permitido caçar, pescar, colher alguns frutos, pastorear e ajudar a defender o território da tribo ou do clã contra invasores.
Milhares de anos depois, o Olimpo dos gregos reflete uma reviravolta nesse quadro. O deus-sol toma o lugar da mãe-lua, os homens passam a governar e as mulheres transformam-se (aos olhos deles) no “sexo frágil”.
Homero ignorou Dionísio em seus dois poemas. Dionísio era muito popular. Não tinha nada de seus parentes: não hera um herói, um titã. Os registros relativos ao deus grego do vinho só aparecem por volta de 500 a.C., enquanto os de Gestin datam de 3.000 a.C. As lendas falam que Dionísio teria vindo da Suméria e um autor se pergunta sobre possíveis conexões com Gestin, Paget e Siduri. Baco, o nome romano de Dionísio, só teve registros escritos por volta de 200 a.C., na decadência do império grego.
A cultura mudou, os homens começaram a comandar e as mulheres ficaram em segundo plano. Em Roma, se o marido pegasse a esposa bebendo vinho podia, por lei, matá-la no ato.
Nos tempos que correm, as mulheres já deram a volta por cima, apesar da atividade ser ainda preferentemente masculina. E seu papel nessa indústria só faz crescer. Basta lembrar de Nicole-Barbe Ponsardin, a lendária Veuve Clicquot, viúva aos 27 anos, inventora do remuage, aquele ritual de girar as garrafas para conduzir as borras de fermento para os gargalos, facilitando a sua retirada. Fez mais: ela popularizou o champagne em todo o mundo. Era a bebida consagrada na longínqua corte russa, isso em pleno século 19.
Falar da relevância feminina no mundo dos vinhos hoje é fácil, mas alongará demais essa coluna. Vamos lembrar-nos da Dra. Ann Noble, professora, durante 25 anos, de viticultura e enologia na Universidade da Califórnia, em Davis. Especializada nos aspectos sensoriais, ensinando a milhares de alunos como perceber aromas e como degustar vinhos. Ficou mais conhecida por ter criado a famosa Roda do Aroma, um soberbo recurso para descrever a complexidade de aromas e sabores da bebida.
Já a Dra. Carole Meredith chocou o mundo dos vinhos revelando a modesta origem genética da nobre uva Chardonnay: ela é originária de uma medíocre e quase extinta Gouais Blanc. A Dra. Meredith, também professora da Universidade da Califórnia, é uma das mais respeitadas geneticistas, especializada em plantas.
A inglesa Jancis Robinson será para sempre a minha guru, talvez a guru de todos os que se ocupam com os vinhos. É das mais notáveis autoras, com livros indispensáveis sobre os vinhos, em particular a monumental e imprescindível The Oxford Companion to Wine, a mais completa enciclopédia sobre a bebida escrita até hoje.
Entre as brasileiras, lembro sempre da Rosana Wagner, engenheira química, enóloga, fundadora da Vitivícola Cordilheira de Santana, na fronteira com o Uruguai. Escolheu o local a dedo e logo o seu Chardonnay 2005 recebia prêmios. E tem ainda a Monica Rosseti, diretora técnica da vinícola Lidio Carraro, causando impacto por ocupar uma posição tradicionalmente deixada aos homens. Vanessa Stefani, formada em viticultura e enologia, é uma das quatro enólogas da Casa Perini. Acha que “hoje o setor já sabe respeitar a opinião das jovens enólogas”.
Não podemos esquecer-nos da Deise Novakoski, a nossa primeira sommelière, formada na primeira turma da Associação Brasileira de Somméliers (ABS), há 26 anos. Ela penou: ninguém sabia direito o que era um sommelier, quanto mais uma sommelière. Hoje, está consagrada: é autora de livros sobre vinho, apresentadora de um programa de degustação na TV e segue com uma coluna sobre bebida (o vinho, em particular), na revista Rio Show, de O Globo. É pioneira na divulgação do vinho em nosso país.
As mulheres já são maioria nos cursos de vinhos, organizam confrarias em torno da bebida, são as maiores compradores de vinhos em todo o mundo (nos EUA elas compram 55% de todo o vinho). E assim a conexão das mulheres com o vinho foi retomada e cresce vigorosamente, com foco principalmente na amizade, na saúde, no bom senso e no romance. Somos um orgulho para qualquer deusa do vinho.
Da Adega
Trivento, o melhor argentino. A vinícola Trivento recebeu o troféu de “Melhor produtor de vinhos da Argentina”, em 2009, na International Wine & Spirits Competition, Reino Unido. A cada ano, a IWSC destaca os que fazem diferença na indústria do vinho, considerando seus padrões de qualidade, variedade, valor e educação para o consumidor. No certame, a
Trivento apresentou 22 vinhos, dos quais 18 foram premiados. O Trivento Golden Reserve Malbec 2007 alcançou o ouro no prêmio “Melhor de sua categoria”, de vinhos argentinos.
Geléias gourmet. O grupo
Famiglia Valduga Co, através da sua Casa de Madeira, especializada em alimentos finos, 100% naturais, está apresentando três novas geléias da linha extra gourmet: Malbec, Cabernet Sauvignon e Mirtilo. As iguarias não utilizam aromatizantes, conservantes e são feitas artesanalmente, à moda dos primeiros imigrantes italianos. Saiba mais no site da Casa de Madeira.
Mais mulheres. Só para reforçar a coluna: Janice Casagrande é diretora da Casa Valduga. Maria Inés Pina é gerente da Trivento e quem recebeu o prêmio da IWSC. Estamos em todas, amigas.
Paul Hobbs. Mas não pensem que sou de rasgar sutiãs. Aos homens o que é dos homens. Não deixem de ler a entrevista de Paul Hobbs, um dos mais importantes enólogos e produtores de vinho dos Estados Unidos. Veja
aqui.

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