5.6.07

O certo é que está perto

E se naquele restaurante cinco estrelas começarem a servir apenas água da bica (filtrada, naturalmente)? Nada de San Pellegrino, Perrier, Evian, Fiji etc. E se os vinhos forem apenas os mais próximos, só os gaúchos ou pernambucanos. E nada de importados.
É um feliz acaso que estejamos falando de uma ação envolvendo aquecimento global logo após o 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente. Falamos de um movimento correspondente e que começou na Califórnia, já chegou à Nova York e, no caso dos vinhos, está gerando grande ruído entre ingleses e neozelandeses.
A causa é vital: reduzir-se as emissões de gás carbônico (e o efeito estufa, o aquecimento global). Um carro 1.4, a gasolina, fazendo 250 km por semana emite anualmente 2,1 toneladas de gás carbônico. Se você utilizar apenas gás nesse mesmo carro e andar a mesma coisa semanalmente despejaria algo menos: 1,7 toneladas de CO2 por ano na atmosfera. Um caminhão a diesel, fazendo 2 000 km por semana (o que é pouco), despejaria anualmente no ar que respiramos 19,8 toneladas de gás carbônico. Agora, multiplica isso por milhares e mais milhares de automóveis e caminhões.
(Calcule no site da The CarbonNeutral Company o quanto de dióxido de carbono o seu carro despeja anualmente na atmosfera).
Grupos ambientalistas estão fazendo grande pressão para que nós e as indústrias reduzamos as emissões de dióxido de carbono, o CO2, ou encontremos maneiras naturais de neutralizar esse dano.
Você já sabe o que vem por aí. O planeta vai aquecer mais, a temperatura vai aumentar, tempestades vão devastar regiões, partes de cidades litorâneas, como o Rio de Janeiro, vão desaparecer. Com tudo isso, teremos mais epidemias de doenças tropicais. Mais desastres.
A lógica do movimento dos restaurantes (entre outros segmentos) é controlar os passos do CO2: se consumirmos itens originários de locais mais próximos estaremos contribuindo para reduzir essas emissões.
Servir água em jarras reutilizáveis faz mais sentido para o meio ambiente do que fabricar milhares de garrafas de água (90% delas de plástico) que alguém vai usar e jogar fora (e degradar o meio ambiente). Além disso, para cada litro de água produzido, o fabricante gasta mais cinco. Estaríamos desperdiçando água, além de petróleo e gás natural e jogando mais material tóxico na atmosfera, os excedentes da fabricação. Pense: beber água mineral ajuda a aumentar o preço do combustível, utilizado no fabrico e transporte da água.
Os donos do Del Posto (segundo o New York Times, o mais elegante e caro dos restaurantes do grupo de Joseph Bastianich e do badalado Mario Batali) aderiram ao movimento e vão colocar em cada jarra da sua água da bica (devidamente filtrada e carbonatada) a razão pela qual não dispõem mais de água engarrafada. "Enchendo navios com água engarrafada e fazendo-os viajar milhares de quilômetros é ridículo”, diz um dos sócios.
Mas a idéia ainda está tomando corpo, em parte porque há grande lucro em vender água engarrafada. Os restaurantes (em Nova York) compram por um ou dois dólares a garrafa e a vende por oito e até mais. É o item com a maior margem de lucro das casas.
Os restaurantes ainda têm de contornar os fregueses: 50 a 60% deles preferem água engarrafa com gás.
Isso porque a indústria de água engarrafada não dorme no ponto: vende pureza e tenta convencer o consumidor que o seu produto é mais conveniente e mais seguro do que água encanada.
Contudo, uma das principais cientistas do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, um grupo ambientalista norte-americano (tem um milhão e 200 mil filiados), Dra. Gina Solomon, afirma que não há motivos para acreditar que água engarrafada seja melhor do que água da bica. Para começar, o suprimento de águas encanadas é mais fiscalizado do que as águas engarrafadas. Os testes feitos são apresentados ao público. Já os testes envolvendo as águas engarrafadas não precisam ser apresentados ao público.
Tomara que esse movimento ganhe força por lá. Um americano gera, em média, mais de 20 toneladas de dióxido de carbono (ou gases relacionados) por ano. Um cidadão de qualquer outra parte do planeta produz cerca de 4,5 toneladas no mesmo período.
Os caminhos do vinho. O Times, de Londres, publicou agora uma tabela sugerindo aos consumidores ingleses que trocassem os vinhos da Nova Zelândia pelos da França, pois assim ajudariam a reduzir emissões de CO2.
Os neozelandeses contra-argumentam: seus vinhos respeitam o meio ambiente de modo a compensar o impacto produzido pelo transporte da bebida por navio: são 18.331 km entre Auckland, a cidade mais importante da Nova Zelândia, e Londres; e 742 km entre Bordeaux e Londres).
E já temos vinícolas com projetos para ficar de bem com o planeta. As chilenas Cono Sur e Undurraga são, ao que parece, as líderes nesse processo. Fizeram parceria com a Londrina “The CarbonNeutral Company” (que citamos acima) especializada em processos para reduzir, eliminar ou compensar as emissões de gás carbônico.
Seus vinhos chegarão ao mercado com o selo da CarbonNeutral, garantindo que esses vinhos compensaram de algum modo o que de nocivo emitiram na produção e no transporte da bebida.
Nenhuma vinícola pode zerar suas emissões de CO2, já que liberar dióxido de carbono é parte do processo de fermentação. Mas pode limitar outras emissões, passando a utilizar biocombustíveis, energia solar e eólica e plantando mais árvores (que absorvem dióxido de carbono, tirando-o da atmosfera, como parte do processo de fotossíntese).
Uma simples árvore de bordo (cuja seiva é rica em açúcar) pode absorver o equivalente a 200 quilos de CO2 anualmente.
O processo compreende você plantar um número suficiente de árvores de modo a compensar o CO2 que a sua vinícola (ou a sua indústria) jogou na atmosfera.
Será, leitora, que o Fasano também vai passar a servir água da bica (filtrada, naturalmente)? E o que você fará a respeito dos vinhos: passará a comprar apenas os nacionais? Vai proibir o namorado beber a deliciosa Cerpinha, que vem lá do Amazonas?
Da Adega
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