28.8.08

Como dói!

Pois é: jogaram no ventilador da Wine Spectator: ela concedeu um “Prêmio de Excelência” por sua lista de vinhos a um restaurante inexistente, obra de um iconoclasta, autor e blogueiro Robin Goldstein. Veja o post abaixo: “O Zizinho estava certo”.
O Editor Executivo da WS, Thomas Matthews, explicou que a revista foi vítima de uma “trapaça visando publicidade”, que o programa “Restaurant Awards” existe desde 1981 para “encorajar restaurante a melhorar seus planos quanto aos vinhos”, já tendo avaliado mais de 45 mil cartas de vinho. Revelou que realmente a revista não visita cada restaurante do programa e que cerca a terça parte dos inscritos em 2008 não conseguiu qualquer premiação. Afirmou que telefonaram para o restaurante várias vezes, mas deram com uma secretária eletrônica. Encontraram, pelo Google, a casa no seu endereço em Milão e a mesma enviou um link para um website que listava pratos e vinhos oferecidos pela virtual Osteria.
Matthews negou aos Los Angeles Times que o objetivo do prêmio seja gerar receita para a revista: “O programa foi feito para reconhecer os esforços feitos pelos restaurantes em melhorar suas listas de vinhos; os prêmios contribuíram para a crescente popularidade do vinho desde que o programa começou em 1981”.
A revista costuma ser apelidada “Wine Speculator” por seus críticos (“especuladora”, quem conjectura sem conhecer os fatos ou envolta em interesse, lucro). A WS é muito poderosa, a mais famosa publicação sobre vinhos do mundo (ao lado da inglesa Decanter). Como todo Golias, está sujeita a pedradas e rasteiras. Concordo que seja uma grande divulgadora do vinho, mas não com a sua voz de dona da verdade.
Ganhar esse prêmio e colocá-lo na parede, ter o nome da casa na revista e no seu site é justa ambição de muitos restaurantes em todo o mundo. É uma forma de marketing e publicidade: custa apenas US$ 250,00. E é fácil obtê-lo. Esse ano houve 4.500 inscrições. E todas, menos 319, ganharam prêmios de Excelência e alguns outros com mais predicados. No total, a revista faturou mais de US$ 1 milhão com o programa, o que é um bocado de dinheiro em qualquer lugar.
Robin Goldstein explicou que seu objetivo foi expor “os critérios duvidosos utilizados pela revistas em seus prêmios para culinária e vinho”. A lista que criou para a Osteria l’Intrepido é composta de vinhos avaliados acidamente pelos críticos da WS. Na sua escala de 100 pontos, entre 50-75, o vinho não é recomendado. Um vinho medíocre é o que fica entre 75-79. Por exemplo, na lista temos o Amarone Clássico Tedeschi 1998, com 65 pontos (“... bolorento e cansado...”). O Amarone Clássico ‘La Fabriseria’ Tedeschi 1998 ficou nos 60 pontos (“... Inaceitável. Aroma de inseticida...”). Já o Brunello ‘La Casa’ Tenuta Capararzo 1982 chegou aos 67 pontos (“... Aromas de cocheira...”). Não há um vinho “bom” nessa lista (entre 80 e 84 pontos).
Esse formato de premiação está evidentemente sujeito a “abusos”, especialmente nesses tempos de Internet. Agora, atacar os blogueiros, como fez James Mollesworth, Editor Senior da revista, é enfiar a carapuça: “Esse é o problema da blogosfera. É o jornalismo de preguiçosos. Ninguém faz pesquisa pra valer, apenas sapecam num link e jogam alguma conjectura na parede e pronto, conseguem alguma audiência e tráfego...”
É conjectura o fato de que a revista fature muito bem com restaurantes que não visita e com listas de vinhos que não analisa? E, no caso, vinhos cotados como medíocres por ela mesma e de tal forma que se fossem avaliados a sério a Osteria l’Intrepido seria eliminada. O que o nosso Davi fez foi levantar o tapete e descobrir que esse prêmio que está fazendo água. Não foi jornalismo de preguiçosos. Robin teve ter tido uma trabalheira danada. E quem abusou de quem aqui?
Olha que esse foi um golpe revelado pelo autor. Será que outros restaurantes também não inventaram listas e agora se promovem com diplomas vazios? E os que fizeram tudo certinho? Têm o direito de pensar que o que interessou mesmo foi a grana e que sua lista sequer foi considerada.
Peço licença ao grande Drummond e à sua querida Itabira: o Prêmio de Excelência da Wine Spectator é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!

21.8.08

O Zizinho estava certo

A essa altura, o leitor já deve ter sabido que um restaurante inexistente ganhou o Prêmio de Excelência da badalada Wine Spectator.
Repasso a notícia em memória de um grande amigo, o Zizinho Leite Garcia, criador da melhor e mais tradicional pousada de Petrópolis, o Tambo de los Incas. Na verdade, ele foi o pioneiro da hotelaria de primeira classe na Serra. Pois Zizinho esteve ao ponto de candidatar o seu Tambo, no Vale do Cuiabá, no famoso Restaurant Awards da revista americana especializada em vinhos.
Em meados dos anos 90, Zizinho já tinha farejado a moda dos vinhos se avizinhando. E investiu um bocado: criou uma adega espetacular para serviço exclusivo da casa; abriu, na frente da pousada, uma delicatessen cujo ponto alto eram os vinhos. E levou seus funcionários a fazer curso na Associação Brasileira de Sommeliers – investimento em pessoal raro até hoje, entre restauradores. Não falo dos cursos rápidos, informativos. Mas os de longa duração, de formação de sommeliers.
Com tudo pronto, ele buscou divulgar a sua casa, onde além de uma cozinha originalmente criada por um chef suíço, que por sua vez legou seus conhecimentos ao fabuloso Serginho – ela agora contava com grandes rótulos e profissionais preparados para o serviço de vinhos. Quer mais o quê?
Várias vezes me questionou sobre a validade de inscrever o Tambo no concurso. Seu problema era pagar US$ 150,00 para poder concorrer. “Seu estou fazendo a coisa certa, vão saber e me avaliar. Não preciso pagar nada”, comentava. “O Guide Michelin, por exemplo, não cobra nada”. E, por isso, acabou não entrando. Mas ficava em dúvidas. Naqueles tempos, um hotel na Serra ganhara um desses prêmios, com mais algumas casas do Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Todas certamente colocaram o diploma que a revista concede a cada premiado na parede. Sabe lá o que é isso, uma distinção vinda do estrangeiro? Zizinho só não tinha dúvidas em continuar investindo na casa, com mais e melhores quartos, novos serviços, ampliação da adega, taças alemãs e austríacas, pessoal cada vez mais afiado etc.
Agora, um autor dedicado aos vinhos, Robin Goldstein (é sucesso o seu “The Wine Trials”, onde demonstra que mesmo degustadores profissionais não conseguem diferenciar um vinho de US$ 20,00 de outro de US$ 100,00) resolveu entrar no concurso. Pagou US$ 250,00 (o preço válido para a edição de 2008 do concurso) e inscreveu um restaurante fictício, cujo nome inventou: “Osteria l’Intrepido”. Em seguida, tramou um cardápio, segundo ele, “uma divertida mistura de receitas na nouvelle cuisine italiana”, e uma lista de vinhos. Submeteu tudo à revista (pagando a taxa, claro). A lista foi aprovada e Goldstein recebeu o “Prêmio de Excelência”. A revista publicou em sua edição de agosto uma referência ao prêmio e à Osteria. Veja aqui
Tem mais: a lista de vinhos aprovada e premiada foi em sua maior parte tirada de vinhos italianos testados pela revista nos últimos 20 anos – mas aqueles com a mais baixa pontuação. Veja a lista no site criado especialmente por Goldstein.
Goldstein comenta o óbvio: “É problemático, naturalmente, que um restaurante que não exista possa ter ganho o Prêmio de Excelência. Mas também problemático é o fato de que o prêmio não esteja particularmente ligado à qualidade da lista de vinhos, mesmo pelos padrões da própria “Wine Spectator”. Diga-se que a revista não se obriga a visitar os restaurantes. O que me parece ainda mais problemático.
Se fosse vivo, Zizinho estaria me perguntando, sorrindo, se sabia de restaurantes tirando os diplomas da parede. O Tambo continua lindo, tocado agora pela filha do velho mestre, a Gilka, e ainda com o mesmo pessoal formado pelo pai. O Zizinho sempre esteve certo.

17.8.08

Por via das dúvidas

Temo no que possa dar essa Lei Seca para motoristas. As eleições estão aí e diante do portentoso noticiário conseguido pela nova legislação alguns candidatos dados ao vício da abstinência (é um vício, segundo o Millôr), podem ter planos de ampliá-la. Uma coluna como “Adega & Bar” pode ser proibida, sua amiga aqui processada e até presa.
Por isso, para cair nas graças desses candidatos, ofereço algumas sugestões de leis ainda em vigor nos Estados Unidos, filhotes da famosa Lei Seca que lá vigorou de 1920 a 1933.
Na Califórnia, nenhuma bebida alcoólica pode estar a menos de dois metros da caixa registradora, caso a loja venda bebida alcoólica e também óleo combustível. Será que os clientes confundem latas de cerveja com as de óleo combustível? Em Dakota do Norte, bares e restaurantes estão proibidos de servir cerveja e pretzels ao mesmo tempo. Em Nebraska, os bares só podem vender cerveja se, ao mesmo tempo, estiverem com uma panela de sopa no fogo. Em Houston, é ilegal comprar cerveja depois da meia-noite de domingo, mas nos conformes comprá-la a qualquer hora a partir de segunda-feira. Como sabemos, as segundas-feiras começam um segundo depois da meia-noite de domingo. Dá pra entender? Em Nova York, a palavra “saloon” é proibida em letreiros. O restaurador Michael O’Neil não sabia disso quando colocou a tabuleta no seu estabelecimento. Para não perdê-la, mudou o nome da casa para “Baloon”.
No Missouri, garotos carregando sacos de lixo que contenham garrafas de vinho vazias podem ser indiciados por possessão ilegal de bebida alcoólica. No Michigan é proibido a jovens oferecerem garrafas de destilados a adultos. O que é pouco, pois no Kentucky mesmo um adulto pode passar cinco anos na cadeia se flagrado presenteando amigos com bebidas alcoólicas.
No Texas, motoristas com qualquer carga de bebida alcoólica não podem cruzar municípios do estado onde o álcool seja proibido. Têm de buscar outros caminhos. Já viu que essas encomendas vão custar a chegar. Esse mesmo Texas baniu a Enciclopédia Britannica porque ela ensina como fabricar cerveja em casa.
Se eu vivesse em Maryland estaria em sérios apuros. Lá um jornalista só pode comprar três garrafas de vinho de cada marca, desde que certificado por uma agência estadual como especializado na bebida. Já em St. Louis podemos sentar em qualquer lugar e fazer qualquer coisa, menos beber cerveja num balde. Em alguns estados, para beber é obrigatório sentar, já em outros só de pé. No Texas, em pé, mas só três goles.
Só espero que toda essa onda de temperança não resulte numa Carrie Nation, senhora famosa durante a Proibição por invadir bares com a bíblia numa mão e uma machadinha na outra a destruir copos e garrafas. Chegou a faturar com isso: tinha sempre miniaturas de sua machadinha para vender como suvenir. Temo que essa lei, de perfil islâmico, atravesse as rodovias e invada nossas casas, com novas Carrie Nation de bíblia e bafômetro em punho.
Por via das dúvidas, dependendo do andar da carruagem eleitoral, penso até em mudar nome da coluna para apenas “BS.” Uma sigla relacionada a bebidas? Não, apenas uma cuidadosa referência a “Bom Senso”, algo que talvez esteja faltando a esses rigores legais. A Proibição nos EUA, com todo o seu zero de tolerância, resultou em mais bebidas, mais bêbados e em mais crimes – o que levou à sua abolição.

Questões de linguagem

Rua Mata-Cavalos: Machado de Assis não cansa de citar essa rua, onde nasceu e morou por bom tempo Bentinho, o protagonista de Dom Casmurro. Mas por que Mata-Cavalos?
E por que Bordeaux, Chardonnay, Pinot, Merlot, Sauvignon, Petrus etc.? Pois fizemos uma rápida investigação ao redor da etimologia de palavras recorrentes no mundo dos vinhos, sempre com a ajuda do google, de alguns livros e de uma ótima cronista de vinhos, a americana Jennifer Rosen. Eis aí no que deu:
Como todos os diletantes sabem, o jargão do vinho tem matriz na França. E, nesse país, Bordeaux é rico em ofertas lingüísticas. Veja o seu próprio nome: eau é água; bord é beira, margem. Au bord de l’eau significa “ficar à beira d’água”, que no caso, é sentar à beira do estuário do Gironde (que desemboca no Atlântico) e seus tributários, o rios Garonne e o Dordogne, que possibilitaram a Bordeaux tornar-se o sucesso que é hoje, com um importante porto comercial para vinhos e outros produtos.
Entre o Dordogne e o Garonne fica um pedaço de terra chamado, naturalmente, Entre-deux-mers, “Entre dois mares”.
Ao norte, na margem esquerda do Gironde, temos o Médoc, com apelações muito famosas pelos seus vinhos tintos: Margaux, Saint-Julien, Pauillac, Saint-Estèphe, Listrac e Moulis. Pois Médoc deve seu nome ao latim, Medicullicus, ou “terra dos Medulli, antiga tribo celta que ali habitava. O Médoc é terra dos grandes Châteaux. Na apelação de Pauillac temos os Châteaux Lafite-Rothschild, Mouton-Rothschild e Latour, entre outros.
Lafite é o nome da família que foi dona dessa propriedade desde a Idade Média. Só em 1868 é que o Barão James de Rothschild adquiriu o château. Lafite vem do gascão, la hite ou “pequena colina”. Mouton, propriedade de outro braço da família, significa carneiro, sempre presente nos rótulos de seus vinhos. A propriedade pertencia ao Baronato de Mouton. Latour refere-se à torre (tour) existente na entrada da propriedade.
Na apelação de Saint-Julien, ainda no Médoc, o Château Ducru-Beaucaillou é cortado por um belo riacho. E Beaucaillou é uma homenagem a esse riacho, pois beau caillou significa “belos seixos”. Outra propriedade do Médoc, o Château Beychevelle recebeu esse nome em razão dos veleiros navegando pelo Gironde. Todas as vezes que passavam diante da propriedade baixavam suas velas, pois estavam chegando ao porto. O comando “Baixar Velas!” em francês é Basse Voile!, que com o tempo deu nome ao château: Beychevelle.
Um dos vinhos mais caros e mais reverenciados do mundo, o Petrus, na apelação do Pomerol, pegou o seu nome da palavra grega petros, ou pedra. O nome foi transliterado para o latim como Petrus, que deu origem a Pierre, Peter e Pedro.
O nome de duas das principais uvas de Bordeaux, cabernet sauvignon (para os tintos) e sauvignon blanc (brancos) dividem a mesma raiz: sauvignon vem sauvage, selvagem. Merle é o nome dado a uma variedade de tordos e no dialeto de Bordeaux a um melro preto, o Merlot, outra das grandes uvas da região.
Já na Borgonha, só utilizam a Chardonnay (branca) e a Pinot Noir (tinta). Chardonnay vem do latim cardonnacum ou “lugar cheio de cardos“. Cardo (do latim cardu) é aquela planta emblema nacional da Escócia. Já a Pinot Noir, a mais escura das uvas da família Pinot, deve seu nome ao formato de seus cachos: de uma pinha.
Alguns dos famosos vinhedos da Borgonha revelam origens singelas: Chambertin foi cultivado por um camponês chamado Bertin. Aquele era o seu champ, seu campo, espaço de terreno. A região da Campânia, na Itália, tem a mesma raiz, assim como Champagne e a nossa Campanha gaúcha.
Um prestigioso branco da Borgonha, o Chablis Grand Cru Les Grenouilles tem em sua propriedade um grande número de rãs: são as Grenouilles.
Os nomes dos rios Reno (Rhein) na Alemanha, e Ródano (Rhône), na França possuem, ambos, raízes indo-européias. Mas o primeiro vem da raiz reie ou fluir, e o segundo de ret ou rodar, mas também pode ser assar, grelhar, tostar. Lá, a região do Côte Rôtie pode significar literalmente “declive tostado”, pois é uma rocha fortemente banhada pelo sol.
Na segunda metade do século XVI, bem antes dos tempos de Bentinho, quem quisesse tomar a direção de São Cristóvão, tinha que percorrer um caminho que saia dos Arcos (da Lapa), contornava o Morro do Desterro (Santa Teresa) e seguir por uma trilha enfrentando perigosos atoleiros e barrancos, que muitas vezes não só impediam como matavam os animais. Esse era o Caminho (depois Estrada e em seguida Rua) de Mata-Cavalos, hoje Rua do Riachuelo. Se houvesse uma vinícola por lá, por certo teríamos o vinho “Mata-Cavalos”, nome não muito mais estranho do que Château das Rãs, do Baixa a Vela!, ou do que um vinho feito com a uva do melro preto.
Peço desculpas às leitoras que enviaram e-mails nas últimas duas semanas. Um piripaque eletrônico ocorreu no meu PC. Segundo os técnicos, pode ter sido uma entorse lombar, um resfriado, uma crise de fígado, um ataque de gota... Nossa, a lista ficou enorme. Enfim, o meu Outlook voltou a funcionar e agora tento colocar a correspondência. Continuem escrevendo aqui para o Bolsa ou para a Soninha.
Da Adega
Que tipo de vinho você é? Lá da Bahia, a leitora Ludmila Aguiar fez o teste (
veja aqui) sugerido na coluna Um blend de assuntos. E descobriu que é a sofisticadíssima Pinot Noir. “Sofisticada e mundana, provavelmente você conhece mais sobre vinho do que a maioria dos degustadores. Tem excelente gosto e aborda todos os aspectos da vida com atitude de gourmet. Acredita que as pequenas coisas da vida devem ser valorizadas e apreciadas, desde que com a melhor qualidade possível. Demorar mais tempo em fazer uma refeição ou em dar uma volta pela cidade sempre será um tempo bem gasto. No fundo você é uma charmosa sedutora. Seu estilo em reuniões sociais é refinado – nunca “festeiro”. Está melhor em companhia de queijos caros e de aromas intensos”.
Ludmila, que faz parte da Confraria Amigas do Vinho, seção Salvador, implicou corretamente com a última frase do teste. Em inglês é: “Your company is enjoyed best with: Stinky expensive cheese". Stinky pode ser, literalmente, “fedorento”. Mas acho que estavam mesmo é querendo indicar um queijo de aroma intenso, como são normalmente os queijos azuis, os Roquefort, Gorgonzola, Stilton.
Aliás, não concordo com a harmonização sugerida: um vinho com a Pinot Noir, elegante e sutil, seria facilmente sobrepujado por queijos muito intensos e musculosos.
Vinho de James Joyce na praça. Os vinhos suíços estão de volta ao Brasil, agora pelas mãos da importadora e distribuidora Vitis Vinifera, baseada no Rio de Janeiro. Entre eles, a leitora vai encontrar o Fendant du Valais, o branco com uva Chasselas, o preferido de James Joyce, célebre autor de Ulisses, Finnegans Wake (onde o vinho é citado), Retrato de um artista quando jovem, entre outras obras-primas. Compre pelo site da
Vitis Vinifera.
Vertical de Haut Brion. A mesma Vitis Vinifera e a
Escola Mar de Vinho realizarão no próximo dia 25, das 19h30m às 22h30m, uma vertical daqueles que muitos consideram o maior vinho do mundo: o Château Haut-Brion safras de 1988, 1996, 2001 e de 2002. A apresentação será do professor Marcelo Copello. O evento compreende ainda um jantar assinado pela chef Ciça Roxo. Não perca: as vagas são pouquíssimas. Informações e reservas: 21-2235-7670/2235-3968 e vanessa.miranda@vitisvinifera.com.br
O universo do vinho, sob o olhar feminino. Esse é o nome do novo projeto da Confraria Amigas do Vinho. A cada mês, a Confraria apresentará uma vinícola ou uma importadora. E o primeiro encontro acontecerá já no dia 2 de setembro, quando Bianca Bittencourt apresentará a Casa Valduga, sua história e seus vinhos. O encontro, que inclui degustação de vinhos da Valduga e um bufê de pães variados, queijos e pastas, acontecerá às 19h30m no Porto Bay Hotel (Av. Atlântica, 1500, Copacabana, RJ. Para ingressos fale com a Ana Valéria (21-9968-2454 ou imprensa.amigasdovinho@hotmail.com) ou Kátia Regina (21-9983-8318) ou Maria Lúcia, Presidente Nacional da Confraria (21-9797-8277 ou amigasdovinho@uol.com.br )

13.8.08

De onde ninguém se chama João

Se houvesse uma olimpíada para vinhos, a China ameaçaria agora ganhar em pouco tempo um punhado de medalhas. Imaginem se apenas uma pequena parcela de sua população, hoje de um bilhão e trezentos e trinta milhões de habitantes, passasse a consumir um litro de vinho por mês. Poderia até faltar vinho em nossas mesas. A bebida começa a cair no gosto dos chineses.
Há cinco anos, a China mal conhecia vinho feito de uvas: era apenas um “acontecimento marginal”, relata a minha guru e sempre citada Jancis Robinson. Mas nesse curto espaço de tempo o país tornou-se o sexto maior produtor de uvas viníferas com aspirações grandiosas de tornar-se o maior produtor mundial de vinhos. Estima-se que até 2058, a China liderará a produção mundial, “com Cabernets capazes de concorrer com os de Bordeaux”. Ela já possui os vinhedos, mas ainda não a técnica.
No mercado de vinhos finos, a presença chinesa não é nada sutil. Os novos ricaços do país não param de correr atrás dos grands crus franceses. Por conta dessa voragem, os preços dos Romanée-Conti e Lafite normalmente altíssimos, chegaram à estratosfera.
Jancis Robinson esteve na China em 2002, 2005 e recentemente, em março de 2008. Ficou impressionada com a baixa qualidade dos vinhos e com a grande proporção destes que buscavam lembrar, mesmo longinquamente, os tintos franceses. Em março, a grande crítica inglesa notou o grande número de chineses com aspirações crescentes pelo estilo de vida ocidental e como o vinho tornou-se um acessório cada vez mais familiar a esse estilo.
Hong Kong hoje já rivaliza fortemente com Londres e Nova York como um importante centro comercial de vinhos. Estima-se que os colecionadores da Hong Kong respondam agora por um quarto dos vinhos vendidos em leilões. A empresa no momento líder do mercado de leilões nos Estados Unidos, a Acker Merrall & Condit, realizou o seu primeiro evento em Hong Kong e a resposta foi exuberante: venderam US$ 8,2 milhões.
Há dez anos o consumo de vinho cresce no país: 50% na primeira metade dessa década e estima-se em mais 70% na segunda metade. Claro que produtores, comerciantes e outros luminares do vinho, no ocidente, começaram a ver o país mais seriamente. O “imperador” do vinho Robert Parker, o mais famoso crítico do ocidente, acaba de fazer a sua primeira visita ao país, que incluiu um jantar de US$ 2.300 por cabeça na Grande Muralha. O site de Jancis Robinson já está sendo traduzido para o chinês. Contam-se às centenas as visitas de diretores de vinícolas para apresentar seus vinhos. Inclusive, produtores brasileiros ofereceram seus vinhos na International Wine Exposition em Shangai, em março último.
Recentemente, um milionário chinês, David Li, participou de um badalado leilão em Napa, Califórnia, e adquiriu por meio milhão de dólares seis magnums do Screaming Eagle 1992 (é considerado o melhor Cabernet Sauvignon do país – e um dos melhores do mundo; uma garrafa custa a partir de US$ 1 mil, isso quando puder ser encontrada). David Li declarou que “os vinhos do Vale de Napa são os melhores do mundo”.
E muita gente torce para que para que os demais novos ricos chineses imitem David Li. O problema é que eles cobiçam mesmo apenas os grandes vinhos franceses, particularmente os de Bordeaux e Borgonha: são suas pedras de toque, suas referências mais importantes. Já começaram a comprar vinícolas em Bordeaux, como acaba de acontecer com a venda do Château Latour-Laguens (que não tem relação com o famoso Château Latour). O Château Lafite transformou-se numa obsessão para os chineses fãs de vinho. Segundo apurou Jancis Robinson, preferem o Lafite a outros de mesmo porte, como o Mouton-Rothschild, Margaux, Latour ou o Haut-Brion, pois seu nome é mais fácil de pronunciar em mandarim do que os de outras marcas francesas. Será?
O caso é que os novos ricos chineses não diferem muito dos nossos: compram mais pelo prestígio rótulo, bebem marcas famosas, o que está na moda (desde que seja em Paris, Londres ou Nova York).
Para evitar que os chineses limpem as adegas de vinhos finos ocidentais só torcendo para que a indústria vinícola do país floresça. A China produz vinho desde a dinastia Han (206 a 220 A.C.). A bebida, porém, sempre foi estranha aos paladares chineses, tanto que a palavra mais usada para vinho é CHIEW, que significa genericamente bebida destilada e fermentada.
No fim dos anos 70, após a morte de Mao e a abertura da China para investimentos estrangeiros, um grupo de indústrias de bebidas ocidentais (Rémy Martin, Allied Domecq etc.) estabeleceram parcerias com vinícolas locais, que receberam equipamentos modernos e começaram a produzir vinhos ao nosso estilo, secos. Os vinhos chineses até então pareciam xaroposos e eram muito doces. Mais recentemente, verificou-se um aumento no número de pequenas vinícolas cujo objetivo é produzir vinhos com apelo internacional e, para isso, utilizam enólogos e consultores internacionais. Na província de Shanxi, um desses novos ricos, C. K. Chan, fundou uma vinícola que é réplica de um château francês, o Grace Vineyard (o nome está em inglês em razão da referência encontrada: seria “Vinhedo da Graça”). Produz um vinho com o blend clássico de Bordeaux (Cabernet, Merlot, Cabernet Franc), vendido a US$ 60,00 a garrafa.
No total, existem cerca de 450 vinícolas no país, da Mongólia, ao norte, até o Mar Amarelo, uma enorme faixa de terra compreendendo diferentes topografias, solos, climas e variedades de uvas. O sempre preciso crítico da Slate, Mike Steinberger, observa que não há razão para se pensar que o país não possa produzir vinhos de qualidade; a questão estaria em saber onde e com quais variedades. Mas a confiança é grande.
O fato é que para esse país continental e para a maioria dos mais de um bilhão de habitantes o vinho de uvas viníferas ainda é uma bebida estranha. Um experiente vinicultor inglês, Bartholomew Broadbent, sócio de uma vinícola a uns mil quilômetros a leste de Beijing, emprega um neozelandês como enólogo. Segundo ele, o maior desafio é “ensinar aos chineses a fazer vinhos adequados ao paladar ocidental. “Eles nunca provaram da comida ocidental e não existe ainda uma cultura do vinho. “Possuem a terra e o clima para fazer um grande vinho; agora é só uma questão de treino”. Essa vinícola já exporta vinhos para os Estados Unidos: um cabernet sauvignon, um riesling e um chardonnay, todos em torno dos US$ 13,00. Nenhum desses vinhos receberia uma medalha de ouro (ou 90 pontos de Robert Parker), diz Steinberger. Mas, acrescenta, “como diria Lao-tzu, uma jornada de vinhos de mil dólares começa com um simples gole”.
O chinês vai saber rapidinho o estilo de vinho do ocidental. Vai demorar mais tempo em ajustar suas comidas, normalmente mais doces, mais picantes e ácidas, aos vinhos – que não serão os tintos que tanto produzem. Mas os brancos delicados e elegantes: os Rieslings da Alemanha e os Gewürztraminer da Alsácia, por exemplo.
No lugar do Lao-tzu, fico com o nosso grande Haroldo Barbosa, que já sabia há tempos que “lá na China ninguém se chama João, e o china come sentado no chão”. É tudo diferente, menos a vontade de ganhar todos os ouros possíveis.

12.8.08

O sabor que vem da terra

Terry Theise talvez seja pouco conhecido por aqui. Mas é importante personalidade do mundo dos vinhos nos Estados Unidos e na Europa. É um importador americano, renomado por descobrir vinhos de grande qualidade originários de pequenos produtores. Vive de importar vinhos da Alemanha, da Áustria e de Champagne. Anualmente publica um catálogo sobre suas novas descobertas, com comentários sempre provocantes, que valem nossa reflexão. O que apresento abaixo é parte de uma palestra que fez em San Francisco, EUA: uma “Meditação sobre a importância do Terroir”.
Terroir é um termo francês polêmico e para o qual não existe uma tradução específica. É mais do que “terra”. Seria a soma de solo, topografia e clima. Combinados darão a cada vinhedo o seu exclusivo Terroir, o que será refletido nos vinhos de modo mais ou menos consistente de ano para ano. É uma idéia mais aceita no Velho Mundo e menos no Novo. Vamos ao que Thiese tem a falar a respeito.
“Eu estudava na Alemanha quando entrei em contato com os vinhos. Explorei as regiões vinícolas e comecei a aprender por experiência e também pelo que as pessoas pensavam sobre os vinhos – que os sabores de um vinho vinham dos solos onde as vinhas eram cultivadas. Isso passou a ser simplesmente o meu entendimento de como o vinho era gerado. E fiquei muito chocado quando pela primeira vez soube que algumas pessoas não acreditavam nisso”.
“Na verdade, Terroir é algo pelo qual vale a pena lutar. E francamente essa luta tornou-se cansativa. Há dois tipos de pessoas nesse mundo. Aquelas que entendem que o solo faz o vinho; e aquelas que são idiotas”.
“Eis a minha definição de Terroir: é a causa e o efeito do relacionamento entre os componentes do solo e os sabores de um vinho, para os quais nenhuma outra explicação parece possível. É isso”.
“É obvio que existem fatores que influenciam o terroir: estrutura geológica, drenagem, o pH do solo etc. O clima age sobre o Terroir e naturalmente a mão do homem também”.
“Falar sobre a ação do solo é como dizer que em alguns anos Elvis (Presley) estava magro e gordo em outros. Os componentes estão lá, criando sabores, modificados por tudo o que acontece às uvas naquela safra, incluindo as nossas próprias ações. Mas os componentes estão lá”.
“Naturalmente, isso ainda não foi provado cientificamente. Mas é verdade. E verdade para mim significa que todos os corvos são pretos até que apareça um branco. Se eu encontrar evidência que contradiga essa minha hipótese mudo de opinião. Continuo esperando pelo corvo branco. Quando removemos todas as variáveis, verificamos que um tipo de solo resulta em determinados sabores e outros solos em outros”.
“Gosto de dizer que o texto escrito por um vinho está na terra. O viticultor determina a fonte. O sabor são as notas musicais e o produtor o maestro. A partitura é escrita antes que o mastro a conheça. Quem a escreve é a terra: o maestro apenas a interpreta. Uma vez perguntei a um produtor o que era mais importante para ele. Sua resposta: saber quando não fazer nada”.
“Fazer vinho é preservar o sabor que já existe”.
Traduzi aqui trechos de um artigo do blogueiro Alder Yarrow (“Vinography”) sobre a fala de Terry Thiese no referido seminário.

5.8.08

Que vinho é você?

“Sonia, venho guardando uns poucos vinhos numa velha geladeira, que deixei na lavanderia aqui de casa só para esse fim. Ouvi falar que isso não é bom, pois as rolhas ressecam. É verdade? Que outro lugar poderia guardar meus vinhos em casa?”
Querida leitora: ligada e numa temperatura constante a geladeira é o pior lugar possível para guardar vinhos permanentemente. Sim, as rolhas vão ressecar, deixar o ar entrar e o líquido sair. Funciona só se ficarem muito pouco tempo: digamos, uma semana. Além disso, as geladeiras comuns vibram – e os vinhos precisam ficar em paz, quietos, caso contrário os elementos que o constituem vão se confundir, se desestruturar. Pense num ônibus lotado, andando aos solavancos. Os climatizadores são, na verdade, geladeiras que “funcionam mal”, desligam-se mais vezes permitindo um ambiente com umidade controlada, de modo a não ressecar as rolhas (sabemos o que acontece ao deixarmos a porta de um refrigerador mal fechada: em três tempos, tudo lá dentro fica gotejando). Além disso, mal vibram. Na falta de uma adega climatiza, buscaria um lugar escuro, o mais fresco da casa, como aquele cantinho debaixo da escada. Num apartamento sem cantinhos ou escadas, eu evitaria fazer uma adega. Compraria vinhos apenas para o dia-a-dia ou para um jantar especial.
Qual o preço do conhaque Louis XIII Grand Champagne Très Vielle, da Remy Martin? Leitora possui uma garrafa deixada pelo seu pai, ainda no estojo original guardando uma bela garrafa de cristal Baccarat.
Apresar de ter procurado, não encontrei essa preciosidade em lojas brasileiras. Na França, numa loja especializada de Cognac, região onde o Louis XIII foi produzido, custa US$ 2.652,00. Imagine o seu preço ao chegar numa importadora daqui.
Por que tão caro? O Louis XIII é composto de mais de 1.200 dos melhores conhaques da Remy Martin, envelhecidos entre 40 e cem anos, em barris de carvalho da região de Limousin. Estima-se que cada garrafa teve a influência de pelo menos três gerações de mestres de adega (os encarregados pelos blendings) e do trabalho combinado de 10 mil pessoas. Cada garrafa é feita à mão e exclusiva. Falam que as impressões de seus sabores permanecem em nossas bocas por uma hora. Seu fosse a leitora, ficaria com o Louis XIII e aproveitaria cada gota dele, brindando sempre a lembrança do pai. Caso resolva vendê-lo por aqui, tentaria o ebay.
Meu marido, ao provar um vinho que ele mesmo comprou, o desqualificou, dizendo que o mesmo estava com a “doença da rolha”. Pediu que o jogasse fora. Mas será, Soninha, que esse mesmo vinho não daria para ser utilizado na cozinha? O tal do cheiro ruim não desapareceria na panela?
Amiga, só posso falar da minha experiência, que não foi boa ao tentar fazer o que você pretende. O molho que estava preparando era muito leve e o aroma de mofo, de jornal velho, ainda perdurou. Talvez, com molhos mais fortes esses aromas não fossem notados.
Um vinho com a doença da rolha (ou bouchonée, em francês) fica com aromas e sabores de mofo, para dizer o mínimo. Foi afetado pelo fungo do TCA (2,4,6 tricloroanisol), promovido ora pela exposição do carvalho a pesticidas ou pelo processo de esterilização de rolhas de cortiças, à base de cloro.
O crítico inglês Oz Clarke descobriu um método para eliminar o TCA. Ele envolve uma agulha de tricô num plástico de cozinha (desses que utilizamos para embrulhar e proteger comidas), introduz esse bastão encapuzado na garrafa e agita bem. Aparentemente, o plástico absorve o TCA. O vinho perde um pouco de sua estrutura, mas pode ser utilizado na cozinha, pelo menos.
Que tipo de vinho é você? Desta vez quem fez a pergunta foi o computador. Respondi a um teste na Internet e descobri que sou um vinho com a uva Chardonnay. Sou uma Chardonnay, amigas!
O teste consta de cinco perguntas muito simples. A primeira foi sobre o tipo de fundo musical que prefiro num bar: eclética, jazz, retro, clássica, exótica? Escolhi jazz.
A segunda, sobre a região de vinhos que escolheria para fazer um passeio. As opções compreendiam Austrália, África do Sul, Chile, França e Itália. Esqueceram do Brasil, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Nova Zelândia. Fiquei com a França.
Eu brindaria à amizade, paz mundial, alegria, vida ou à saúde? Fiquei com a amizade, nessa terceira prova.
E minha atitude quanto aos vinhos? Ela é casual (gosto, mas não faço muita questão); aberta (experimento qualquer coisa); moderna (conheço as novidades e sei o que experimentar em seguida); conhecedora (sei bastante a respeito e não me envergonho de ser um pouquinho esnobe)? Marquei a aberta: para um mundo tão diversificado quanto o do vinho, deixar de experimentar é perder tempo.
A quinta e última pergunta diz respeito a situações que lhe desagradem mais: infantilidades, sentir-se incompreendida; modas ultrapassadas, gente de baixo nível, falta de educação. Fiquei com a incompreensão. Para quem vive tentando se comunicar, a falta de entendimento é um sério problema, certo?
Daí que o resultado deu que sou um vinho com a Chardonnay. Sou: “fresca, espirituosa e clássica – sua personalidade tem muitas facetas. Você pode ser doce e leve. Ou profunda e complexa. Tem sempre algo a oferecer a qualquer pessoa: não espanta que seja tão popular. É acessível e jamais presunçosa, fácil de fazer amigos (e de amar). No fundo você é modesta, digna de confiança, educada e despretensiosa. Fica melhor em companhia de carnes frias ou de caça.”
Faça o teste você também, amiga. De minha parte tenho apenas um reparo: eu também sou chegada e muito a carnes quentes. De resto, sou uma feliz Chardonnay, pelo menos até o próximo teste.
Clique aqui, leitora, e saiba que tipo de vinho você é. E depois conte para o Bolsa ou para a Soninha para contar como se saiu.

4.8.08

Ponto e vírgula

Numa solenidade oferecida pela embaixada francesa em Buenos Aires foi servido o espumante Chandon brasileiro, conta Daniela Pinheiro numa matéria sobre o jornalista argentino Jorge Lanata (revista piauí, julho). Noblesse oblige. Os espumantes nacionais são ótimos mesmo. Mas servido por franceses para argentinos? Estranho.
Não estranharia, contudo, se nossas embaixadas servissem espumantes importados. O governo não apóia o setor. Nossos vinhos estão sofrendo com o aumento da importação e do contrabando, principalmente dos países do Mercosul. Pode ir à Lidador ou à rede Pão de Açúcar, entre outras: os vinhos importados saem mais em conta do que os equivalentes nacionais, pois pagam muito menos impostos que os brasileiros. Aqui, onde o vinho não recebe quaisquer subsídios, como acontece com a maioria dos importados, só 5% do seu valor refere-se ao líquido, como lembra o crítico Carlos Cabral. “O resto é frete, garrafa, rótulo, caixa de papelão, salários, insumos e impostos”. Duas vezes mais do que os impostos cobrados dos importados. Estes, como diz o crítico e autor da “Presença do Vinho no Brasil”, são “um bom mal necessário, pois nos dão a oportunidade de constatarmos que porcaria se faz no mundo todo”. Há três anos, 53% dos vinhos vendidos no Brasil eram nacionais; hoje, de cada dez garrafas à venda, somente três são brasileiras; das sete restantes, quatro são sul-americanas. Não dá para entender.
Na França, encontramos até maiores estranhezas. Em St. Emilion, por exemplo, onde uma reclassificação das vinícolas é promovida pelo governo a cada 10 anos, em 1996 foi realizada a penúltima. Quem perdeu posição apelou e em julho uma corte reconsiderou a reclassificação. Quem desceu voltou a subir. Mas quem estava em cima, já com o vinho de 2006 engarrafado, pronto para ser vendido tomou um grande prejuízo. Muito dinheiro foi gasto em rótulos, garrafas, caixas. E mais dinheiro será perdido, pois o vinho não poderá ser cobrado de acordo com o padrão conquistado. É de pasmar.
Um eminente produtor do Beaujolais, Jean-Paul Brun, proprietário do Domaine des Terres Dorées, não poderá colocar o rótulo de Beaujolais nas 5 mil tantas caixas do seu “l’Ancienne 2007”. É que as autoridades francesas acharam que o vinho é “atípico” da appelation. Os burocratas de lá experimentaram o vinho e verificaram que o mesmo não estava no mesmo nível de mediocridade produzida na região. Vários críticos e especialistas experimentaram o vinho e o louvaram. Comentam que os burocratas querem padronizar a bebida por baixo; quem faz um “gran vin” está fora; incompreensível.
Lá o vinho já está sendo tratado como pornografia, e como tal estará também fora da Internet, onde não poderá mais promovê-lo ou vendê-lo. Além da ação dos burocratas, como vimos acima, temos o lobby antiálcool dominando o legislativo do país. Não é de estranhar, portanto, que os jovens adultos franceses (20 anos e mais) abandonaram o vinho por outras bebidas como cerveja e destilados, segundo pesquisa da Universidade de Montpellier. Acham que vinho é para gente velha; não entendem seus rótulos; o bom vinho é muito caro e o barato muito ruim; cerveja é mais fácil e em conta. É de assustar.
Na França, hoje, se debate (e calorosamente) o destino do ponto e vírgula, um “mero parasita, coisa insípida, denotando apenas incerteza, falta de audácia, pensamento impreciso”, segundo o autor e editor François Cavanna, favorável à eliminação do “point-virgule”. O sinal seria uma influência da língua inglesa. Logo, nocivo. Leia a divertida reportagem do inglês The Guardian aqui .
Por outro lado, o americaníssimo hambúrguer é agora très chic em Paris. Conhecemos países assim, envoltos em debates inúteis e fartos de burocracias destrutivas. Daí que, tentando homenagear o mestre Machado de Assis, que usa essa pontuação à perfeição, a empregamos à farta nesta coluna; representa apenas uma pausa maior que uma vírgula, evitando um ponto final para essas questões, pois temos esperanças por soluções que espantem os nossos espantos; os daqui e os de lá.

17.1.08

Leia sem moderação

Uma corte francesa decretou que, a partir de agora, artigos sobre vinhos em jornais devem apresentar as mesmas advertências contidas nos anúncios de bebidas alcoólicas. Quer dizer: qualquer conteúdo jornalístico sobre bebidas alcoólicas, a começar dos vinhos, passa a ser considerado um anúncio pago e deve passar a incluir advertências como “L’abus d’alcool est dangereux pour la santé. Consommer avec modération”, que é utilizada normalmente nos rótulos dos vinhos do país. Nada diferente das nossas “Evite o consumo excessivo de álcool”; “Beba com moderação” etc.
Algum juiz lá leu a matéria do diário Le Parisien, “O Triunfo da Champagne”, sobre o sucesso da bebida nas festas de Natal e imediatamente julgou o texto uma peça publicitária, mesmo que a página do jornal não fosse paga e o texto se identificasse claramente como matéria jornalística.
Claro que uma reportagem dessa natureza, como sempre, qualifica e recomenda marcas, fala sobre os produtores e apresenta preços, um serviço para os leitores. Mas o juiz achou que, até pelos seus entretítulos (“Boas e baratas”, “Champagne, a incontestável estrela da festa”, “Quatro garrafas de sonho”), se identificavam claramente como um anúncio.
Assim, a corte julgou que esse artigo tinha a intenção de “promover vendas de bebidas alcoólicas, exercendo ação psicológica sobre o leitor, incitando-o a comprar álcool”. E que “qualquer comunicação a favor de uma bebida alcoólica (tal como o artigo sobre o espumante) constitui uma publicidade e, portanto, sujeita ao código de saúde pública”.
O Le Parisien foi obrigado a pagar cinco mil euros à Associação Nacional de Prevenção ao Alcoolismo e à Dependência (ANPAA), mas sob protestos de que o artigo era puramente uma peça editorial.
A decisão é, sem dúvidas, uma escandalosa violação da liberdade de imprensa. Um dos dogmas do jornalismo numa democracia é a intocabilidade dos fatos tais como são registrados ou interpretados, sem interferência de governos ou de quaisquer outros órgãos. Nosso trabalho como jornalistas não é simplesmente “comunicar”. É informar, participar da educação dos leitores e não fazê-los encher a cara.
Parece até que o judiciário francês é uma “Appelation Descontrollée”. Em 2003, a corte de Villefranche-sur-Saône quase leva uma revista, a Lyon Mag, à falência, apenas por ter citado o comentário de um eminente crítico, François, Mauss, presidente do “Grande Júri Europeu de Vinhos” sobre os vinhos Beaujolais. Mauss afirmou que a região conscientemente comercializava um “vin de merde”.
A revista foi condenada a pagar perto de US$ 350 mil aos produtores de Beaujolais. Toda a imprensa do país protestou, houve apelação e só em 2005, a corte voltou atrás e liberou a revista da multa.
A publicidade de bebidas alcoólicas e cigarros na França é regida pela severa Lei Evin desde 1991. Ela proíbe desde anúncios dirigidos a jovens, publicidade de bebidas em televisão ou cinema e até patrocínios de eventos culturais e esportivos. Nos veículos, eventos ou lugares onde a publicidade é autorizada o seu conteúdo é controlado.
E mais, as mensagens e imagens contidas nos anúncios devem referir-se estritamente às qualidades dos produtos (como origem, composição, meios de produção, modos de consumo etc.).
Como conseqüência, desde 1991, a linguagem da publicidade perdeu o seu caráter sedutor. Não mais se permite mostrar-se de consumidores ou retratar atmosferas favoráveis ao consumo de bebidas. Por isso, as pessoas foram banidas dos anúncios.
Isso acontece no país que originou o lendário Paradoxo Francês. Em 1991, o famoso programa 60 Minutes, da CBS, levou ao ar uma reportagem mostrando porque os franceses sofrem relativamente pouco com doenças coronarianas, apesar de seu dieta ser extremamente rica em gorduras saturadas. A razão está no consumo regular de vinho, em particular o tinto, cujas vendas cresceram cerca de 40% só nos Estados Unidos, da noite para o dia. Pois a França parece agora preocupada que os leitores passem a achar que os vinhos sejam uma bebida saudável.
O Presidente Nicolas Sarkozy, em sua campanha eleitoral ano passado, prometeu reformar a Lei Evin. Mas nada fez até agora. Ele que, sobre os vinhos, diz que França deixou de ser competitiva por conta de uma legislação de má qualidade.
Paris Hilton e o Prosecco. E se a moda pega? Uma reportagem sobre o recém-divorciado Sarkozy e o seu anunciado casamento com a modelo e cantora Carla Bruni deveria conter também uma advertência: “O casamento pode ser prejudicial à sua saúde”.
Ou sobre as biografias da ex-mulher de Sarkozy, sempre apimentadas com as histórias de seu caso com um publicitário. Como terminaríamos uma matéria a respeito? “Maridos: evitem ser chifrados”. Ridículo!
As matérias sobre políticos deveriam ser acompanhadas por avisos como: “Atenção, políticos podem causar apoplexia”. As placas nas estradas também poderiam avisar: “Muito cuidado: estrada consertada pelo governo”.
E se os jornais franceses apenas reproduzissem a Marselhesa, o hino nacional francês: “Aux armes citoyens! Formez vos bataillons! Marchons, marchons, Qu'un sang impur abreuve nos sillons”. Seria uma incitação à violência e à ordem pública? Seriam multados também?
As matérias sobre a modelo (e celebridade) Paris Hilton promovendo anúncios de uma empresa de bebidas austríaca, a Rich Prosecco, também mereceriam cuidados. Vamos lembrar que a bisneta do fundador da cadeia de hotéis de mesmo nome conseguiu os seus 15 minutos de celebridade com um filme de TV fazendo sexo com seu namorado. Não processou ninguém. Deu certo e os 15 minutos estão se estendendo. A moça já tem uma bagagem invejável como atriz, cantora e modelo. Conhece bem o métier.
Hilton aparece nessa campanha como sempre: com roupas minúsculas e até nua e toda pintada de dourado, lembrando a loura de Goldfinger, um dos filmes de James Bond. Veja aqui.
Ela é o pulo do gato da empresa austríaca para vender um prosecco (uma uva italiana de origem, responsável por famosos espumantes) em três versões: um com sabor maracujá (Rich Passion), outro de cassis e morango (Rich Royal) e o terceiro de prosecco propriamente dito.
Os anúncios falam de um “drinque perfeito para começar a noite ou para um prazer especial, um prêmio ao final do dia”.
Já viram que não se trata de vinho, mas de marketing. Não entendo porque os produtores italianos do prosecco autêntico estejam uma fera. Vociferam contra o produto austríaco. Acham que ele (vem numa latinha) pode deformar a imagem do espumante original. Penso que eles deveriam parar de protestar e contra-atacar com uma campanha educativa, demonstrando as qualidades do espumante original.
Caso contrário, terão de protestar também contra o Marilyn Merlot, um sucesso de vendas nos Estados Unidos. Ou os vinhos da Madonna, sem falar do rótulo da atriz pornô, a norte-americana Savanna Samson, o Sogno Uno, italiano legítimo, feito pelo enólogo Roberto Cipresso – e elogiado (o vinho) até pelo imperador dos críticos, Robert Parker. Ninguém ficou desesperado com possíveis danos às imagens dos vinhos norte-americanos ou italianos, para ficar apenas nos exemplos acima.
Mas voltemos ao problema da censura, a sarna que os franceses ameaçam espalhar pela imprensa mundial. E se a moda pega?
As matérias sobre lançamento do Rich Prosecco da Paris Hilton deveriam incluir também uma advertência, como “Melhor beber com camisinha”, tal é a folha corrida da modelo?
Continue lendo esse blogo sem moderação.
Da Adega.
Casillero del Diablo com tampa de rosca
. A conhecida marca segue agora uma tendência renovadora e troca as tampas de cortiça, pelas “screwcaps”, de rosca metálica, nos vinhos brancos (Sauvignon Blanc). A nova versão chega ao mercado brasileiro ainda este mês.
A marca, que no Brasil é comercializada pela multinacional Pernod Ricard, está promovendo a substituição da cortiça por tampas de rosca metálica apenas nos seus vinhos brancos. As de cortiça permitem um acesso mínimo de oxigênio que favorecem mais à evolução dos tintos. Essa característica, contudo, é indesejável para os brancos, afetando em particular os seus aromas. O Casillero del Diablo é um dos carros-chefe da famosa vinícola chilena Concha y Toro e uma lenda, origem do seu nome, alimenta a sua história. Saiba mais
aqui.
Mais informações pelo SAC 0800 014 2011 ou pelo site da
Pernod Ricard.
Sou insuportavelmente otimista. Não sei como foi possível. Mas ontem bateu um motoqueiro da ECT na minha porta com um elegante embrulho cor-de-rosa. Achar a minha casa, aqui em Secretário, gente, é como conseguir entrar no Uzbequistão e chegar a Samarcanda, a cidade do Tamerlão, por onde esteve Marco Polo. O embrulho continha uma caixa também cor-de-rosa abrigando uma belíssima garrafa de cava rosé e duas belas flutes de cristal. Um gesto gentilíssimo do pessoal do Bolsa, que me classificou como no título acima. Estou insuportavelmente grata. E preocupada com o motoqueiro. Será que conseguiu voltar?

3.1.08

Pit Stop

Acho que vou começar o ano com o pé direito. Fiquei quase duas semanas sem beber, sem colocar nada, nadinha de álcool na boca. Só voltei a beber na antevéspera do Natal. Estava com problemas? A fim de me “livrar das toxinas”, de purificar meu corpo? Não, nada que passasse perto do Ganges.
Em primeiro lugar, finalmente, fiz o meu grande exame clínico, que deveria ser anual. Só que estava devendo uns bons três anos ao médico. Marquei para meados de outubro, fiz as malas e passei duas semanas no Rio, em casa de amigas – preocupada com meus cachorros e minhas galinhas em Secretário. Mas fiz todos os exames possíveis.
Entrei confiante. Afinal, colocava grande crédito nos vinhos que consumo há anos: meia garrafa diariamente. Esperava que ou o resveratrol ou as procianidinas dos tintos estivessem funcionando, como antioxidantes e drenos para minhas artérias. Meu estilo de vida é saudável, acho eu. Não fumo, como frugalmente, muita fruta e vegetais, evito frituras, carne só de vez em quando etc. Minha lida no sítio, correndo atrás de galinhas, limpando o terreno, arrumando a casa etc. contam como exercício físico regular. Não sou nem obesa, nem sedentária.
Bem, os resultados foram um tanto decepcionantes. Minha pressão está supimpa. Mas o colesterol, tanto o bom (LDL) quanto o ruim (HDL) estão altos. Um resultado ao mesmo tempo ruim e bom. Os triglicerídeos (que armazenam gordura) oscilam para cima e para baixo – mas na média estão perigosamente no limite (exatos 150 mg/dl).
E, novidade para mim, o médico, desta vez, pediu um exame adicional. É o que determina uma tal de Proteína C-reativa (PCR). Ela é produzida pelo fígado: aumenta quando temos alguma inflamação causada por doenças, acidentes ou estresse. O médico fala que é o único indicador de inflamação que sozinho prediz o risco de um ataque cardíaco. Não há riscos, mas o médico confessou que gostaria que os marcadores estivessem melhores, mais baixos (mais uma vez, o nível estava no limite: 1.0 mg/L. Abaixo disso, é baixo o risco de desenvolvermos alguma encrenca cardiovascular. Acima disso, bandeira amarela. Se passar de 3.0, o risco é muito grande.
Ele não condenou minha dieta, nem meu estilo de vida. Mas me receitou pílulas de estatina, para colocar os níveis de meu HDL em ordem. Não sei se vou tomá-las. Falam que as estatinas podem causar problemas nos músculos e no fígado. Com a quantidade de vinho que tomo, elas podem até ser fatais. Tenho a meu favor não fumar e um exemplar estilo de vida.
Mas muita coisa não conseguir responder ao médico. Quanto de vinho tenho de consumir para o resveratrol fazer efeito: uma taça, uma garrafa, um galão, uma caixa? Não adianta argumentar com as procianidinas, pois elas são encontradas em maiores quantidades nos tintos com a uva Tannat, da Gasconha, região do sudoeste francês. Teria de me mudar para lá.
E agora temos um estudo ligando colesterol com etanol, o álcool do vinho. O Departamento de Doenças do Fígado da Escola de Medicina da Universidade de Nova York pesquisou o consumo de etanol por ratos. Aparentemente, eles inibem a secreção de um ácido produzido pelo fígado e que, quando chega aos intestinos, funciona como um detergente para ajudar na absorção das gorduras.
Se não formos moderadas no consumo de vinho, estaremos contribuindo para aumentar os níveis de colesterol. Taí, o nó da questão. Estou torcendo para que essa pesquisa não dê em nada. Pobre dos ratinhos!
Meu médico concorda que o consumo moderado de vinho é recomendável. Mas pediu-me que considerasse melhor o meu, digamos, estilo de moderação. Também não me pediu para parar com as bebidas. Sugeriu, contudo, a alternativa de uma “descansada”. Em primeiro lugar ele quer ver os índices caírem, em particular o do tal PCR.
Acho que ele também quer saber se sou dependente, seja de vinhos ou de qualquer outra bebida alcoólica. Por quase toda a minha vida adulta venho bebendo diariamente. Moderadamente, afirmo eu!
Portanto, decidi aceitar o desafio. Logo após ter retornado a Secretário, com uma senhora pulga atrás das orelhas, fiquei as duas primeiras semanas de dezembro a seco. Apenas água, água, sucos e sucos, café e chás e mais café e chás.
Não tive problemas, pois me submeto a esse “descanso” há muito tempo (e, se não me engano, já escrevi sobre isso aqui). Não, não sou uma dependente física do álcool, nada de tremedeiras. Até agora, estou conseguindo parar sem precisar que me tranquem num quarto.
Claro, que, principalmente nas refeições, sentia a falta da minha taça de vinho. Mas olhava o copo com água com muito carinho e seguia em frente. À noite, a saudade do vinho aumentava. Televisão não é a fogueira da minha caverna, para lembrar o Veríssimo. O escritor disse que a fogueira deve ter sido a TV do homem das cavernas. Ele ficava lá hipnotizado pelo fogo, assim como se faz hoje quando se assiste TV, esperando o sono chegar.
Bebo vinho por puro prazer. E o prazer, como ensina o filósofo espanhol Juan Antonio Rivera, é um fenômeno cinético, que consiste na viagem da falta de comodidade para a comodidade. Sem dificuldades, encontrei ótimos e cômodos substitutos.
À noite, costumo beliscar uma fruta, tomar umas duas taças de vinho e prosseguir na leitura do livro da vez.
Nas duas semanas de abstenção, à noite, substitui o vinho por chás e a minha leitura foi a de “Milênio”, do Manuel Vázquez Montalbán, que criou o detetive Pepe Carvalho.
Pepe me colocou à prova. Ele, além de detetive e gourmet, é um sabido bebedor. Pois, amiga, o detetive espanhol me ajudou muito nessas duas semanas. A nossa imaginação concebeu um paliativo astuto e sutil para resolver o divórcio entre a vida real e os nossos apetites desmedidos: a ficção. Através dela, somos mais, somos outros, sem deixarmos de ser nós mesmas. É uma espécie de droga que consumo sem moderação.
Nada de tremedeiras, alucinações, aranhas gigantes nas minhas costas. Ótimas noites de sono profundo, uma sensação de mais tempo sobrando, pois não tinha que provar desse ou daquele vinho, não tinha que tomar notas etc.
Há muito tempo, li uma entrevista com o mestre Maynard A. Amerine, professor de enologia da Universidade da Califórnia, em Davis. Ele pesquisou aspectos técnicos do cultivo da uva e da produção de vinho. Seu trabalho é considerado peça fundamental pela sucesso da indústria vitivinícola em todo o mundo. Morreu aos 86 anos em 98.
Pois o professor Maynard dizia que se, num mês, pudermos parar de beber uma semana, ou “descansarmos” um mês inteiro num ano, então podemos estar certas de que temos um relacionamento saudável com o vinho.
Se eu bebo regularmente, não custa tomar um ou dois cuidados. Estou consumindo agora de duas a três taças por dia. Sei que não vou sair viva desse mundo (só para lembrar uma música do cantor country Hank Williams: “I’ll never get out of this world alive”). Agora, o vinho está entre as coisas que fazem esse mesmo mundo mais palatável para mim.
Se algumas das leitoras for uma bebedora regular de vinhos (ou de qualquer outra bebida alcoólica), porque não faz um teste, um pit stop ao contrário: parar para desabastecer. É só uma semana por mês. Faça isso e em seguida anote as suas reações e conte tudo aqui para a Soninha

27.12.07

As sobras da festa

O que fazer das sobras de vinhos, do que restou nas garrafas abertas na festa de ano-novo? É certo que no Natal você ficou com garrafas inacabadas. E o mesmo vai acontecer, agora, no réveillon. Você não vai jogar fora o que sobrou, vai? Só não sabe exatamente como guardar essas garrafas por mais algum tempo e, ainda assim, proteger o vinho de alguns de seus mais poderosos inimigos. O problema das sobras não diz respeito apenas às ocasiões de festas. Às vezes, sozinha, abro uma garrafa regular, de 750 ml (tamanho perfeito para duas pessoas). Vai sobrar metade, no mínimo. O que fazer?
Quando você abre uma garrafa de vinho, a bebida é apresentada ao ar, essa mistura de gases que responde pela atmosfera terrestre e é composta principalmente de Nitrogênio (78%), Oxigênio (21%), Argônio (1%) e dióxido de carbono (0,033%).
O oxigênio é que é o bicho-papão numa garrafa quase vazia. Sua presença transformará o vinho em vinagre. Ele dará vida à acetobacter, um gênero de bactérias aeróbicas com alta capacidade oxidativa. Ela vai o oxidar o álcool (etanol) e transformá-lo em ácido acético, o nosso querido vinagre. Dependendo da quantidade de ar na garrafa, o seu vinho estará cheirando a vinagrete entre três e cinco dias.
O oxigênio é também o principal instigador da oxidação de um vinho, mesmo que a garrafa esteja bem fechada. Um vinho branco bem guardado pode levar de 10 a 15 anos em bom estado. Durante esse tempo, o oxigênio consegue infiltrar-se pelas células da cortiça e, no final, a bebida vai ficar cheirando tal e qual a um Jerez.
Por isso, todos os dispositivos que se propõem a prolongar a vida de uma garrafa aberta visam sempre minimizar a exposição da bebida ao oxigênio. Vamos comentar os principais aparelhos ou recursos disponíveis – alguns deles se encontram nas caixas de brinquedos de seus filhos, podem acreditar.
Bombas ou fechadores a vácuo. O objetivo é retirar o ar da garrafa e, com ele, o oxigênio. Existem de vários tipos, como o Wine Vac ou, mais conhecido, o Vacu Vin, ambos disponíveis em lojas de vinhos aqui no Brasil.
Esses aparelhos vão realmente remover alguma quantidade de ar. Mas o oxigênio permanecerá no vinho, dissolvido. Quando bombeamos o ar para fora da garrafa com um equipamento como o Vacu Vin, baixamos a pressão na área livre (o espaço vazio, sem a bebida). Essa diferença de pressão permite que o oxigênio e os ésteres (componentes voláteis responsáveis pelos aromas do vinho) ocupem esse espaço de modo a criar um ambiente equilibrado. A observação é de Roger Boulton, professor de enologia e engenheiro químico na Universidade da Califórnia, em Davis, o principal centro de educação enológica dos Estados Unidos. “Assim, o vácuo pode reduzir a quantidade de oxigênio no vinho, mas ainda vai restar o suficiente para oxidá-lo”. E, pior, podemos perder os aromas da bebida.
Gás inerte. É um aerossol que, borrifado na garrafa vai substituir o ar por nitrogênio naquele espaço livre. É um gás inerte, sem odor. Para uso caseiro, temos frascos metálicos parecidos com embalagens de desodorantes domésticos. Veja uma versão caseira aqui. Em algumas lojas brasileiras de vinho ou de acessórios para cozinha podemos encontrar algumas marcas. As versões mais conhecidas por aqui são encontradas, porém, em alguns restaurantes e wine bars. São equipamentos parecidos com a Cruvinet ou com o WineKeeper, ideais para degustar um pouco dos vinhos de várias garrafas.
O problema aqui é saber se o que colocamos de gás lá dentro é o suficiente. Algumas instruções dizem que basta apenas um pffft!. Mas um pffft é o bastante para ocupar, digamos, dois terços vazios de uma garrafa? Não estaria mais para um pffffffffffft? Alguns fabricantes especificam um longo pfffffffft seguido de quatro pequenos pfft. O problema é que não podemos ver nem o ar sair nem o gás entrar. A quantidade deveria variar de acordo com o nível de vinho deixado na garrafa, não é?
Esse método é melhor, tem algum suporte científico? Mais uma vez o professor Boulton intervém. “O crédito desses métodos é baseado apenas no que dizem os fabricantes, mais do que em qualquer evidência científica de seu desempenho”. Realmente, não encontramos dados que cientificamente provem que os dois métodos acima sejam satisfatórios.
No caso do gás inerte, teríamos de utilizar, segundo o professor, todo o conteúdo do spray para fazer com que a maior parte do ar saia da garrafa. “Caso contrário, estaremos apenas diluindo o oxigênio”.
Métodos caseiros. Eis alguns deles:
a) Garrafas menores. A técnica é você decantar o vinho que sobrou em garrafas menores e de preferência enchê-las até o topo de modo a eliminar qualquer espaço livre. Para isso, é bom ter em estoque meias garrafas (375 ml) e garrafas de um quarto (187 ml), dessas utilizadas por empresas aéreas.
b) Bolas de gude. Pois é, não jogue fora as bolas de gude do Júnior, de preferência aquelas menores, lindas, que o meu afilhado, o Guilherme, chamava de “olhinho”, com manchas internas. Ferva-as e vá enchendo a garrafa de modo a que o vinho chegue até a borda inferior da rolha, não deixando espaço para ar no vasilhame. Na hora de voltar a servir a bebida, use um decantador e um coador, para que as bolas não quebrem suas taças (e façam com que o convidado fuja de sua casa). Sem dúvidas é ridículo oferecermos uma garrafa cheia de bolas de gude.
Esses dois métodos, mais simples e baratos, são mais eficientes do que a bomba a vácuo e os spray de gás inerte. Pelo menos, ficamos sabendo que não vamos perder aromas. Algum oxigênio ainda vai restar nas garrafas, mas os danos serão mínimos já que iremos “matar” aquele vinho em mais dois ou três dias. O segredo aqui, nessas soluções caseiras, é fazer a bebida encostar-se à rolha. É quando as bolas de gude funcionam melhor, pois nem sempre sobrou vinho bastante para encher sequer uma meia garrafa. As bolinhas de gude resolvem esse problema. Só não resolvem o grotesco da situação.
c) Refrigeração. Muitos recomendam congelar o vinho que sobrou. Mas o professor Boulton lembra que os vinhos, quanto mais gelados, mais solúveis ficam para o oxigênio. Ele sugere que refrigeremos os vinhos, apenas – desde que sejam bebidos em mais um ou dois dias.
Algumas pessoas congelam suas sobras. O princípio é o mesmo que manteve animais pré-históricos nas geleiras praticamente perfeitos depois de milhões de anos. Esses vinhos congelados são ressuscitados após uns quatro minutos no microondas, meia hora em banho-maria ou em quatro horas em temperatura ambiente. A situação garante que o vinho não vai se alterar.
Mas a oposição jura que o congelamento modificará a estrutura molecular do vinho, tal como acontece com comida congelada. O frio extremo torna o oxigênio mais solúvel. O estrago continuará a ser feito.
Opções não faltam para que a amiga aproveite as sobras de vinho. O que falta é um consenso: qual o melhor método?
Experimente alguns deles. São não os utilize em vinhos mais velhos, com 10 anos de idade ou mais. Você os deve beber de uma vez só – já que eles se encontram bem oxidados. Mais um pouco de oxigênio, eles vão pro vinagre. Não adianta, também, tentar alguma coisa com os vinhos doces ou com os espumantes. Os primeiros oxidam muito vagarosamente. Os outros são protegidos do ar pelo dióxido de carbono (as bolinhas).
Para o professor Boulton, quaisquer desses métodos carecem de comprovação científica. “Devemos duvidar de todos eles”, diz o enólogo.
As amigas podem até deixar sobras de vinho para 2008. Só não podem é poupar sua alegria em comemorar a passagem de mais uma etapa de vida.

20.12.07

Como será 2008?

O que poderá acontecer com as minhas bebidas, em particular com os meus vinhos em 2008? Examinei minhas folhinhas de chá e não descobri muitas novidades.
Vamos continuar ouvindo falar (mal, na maioria das vezes) dos vinhos com muito álcool, lendo sobre intermináveis e absurdos debates sobre a influência do terroir, sobre a massificação dos vinhos. E mais declarações sobre a falência (ou a propriedade) dos sistemas de pontuação (100 pontos, 20 pontos, três ou cinco estrelas?); sobre as picuinhas entre Robert Parker e seguidores e Jancis Robinson e acólitos; das novas regiões do vinho em razão do aquecimento global. E os rosados? Estão todos encantados com eles; voltaram a ocupar lugares de destaque na preferência dos consumidores. Volta e meia ouviremos sobre alterações nos rótulos para incluir todos os ingredientes que o enólogo utilizou para produzi-lo. E teremos mais sobre as inesgotáveis e surpreendentes descobertas sobre os benefícios do vinho para a nossa saúde. E mais a respeito dos vinhos exclusivos para a comunidade GLS, sem falar das inimagináveis combinações de vinhos com os pratos típicos de Cabrobró, bem como de harmonizações fantásticas de vinhos com música (já falamos disso aqui), com dor de cotovelo e com a exaustão (dirija 36 horas ininterruptamente: o vinho que você experimentar quando parar será di-vi-no!). A lista é enorme, mas déjà vu.
O oráculo do chá não operava ao meu gosto. Queria mesmo era comentar sobre algo que viesse afetar concretamente o mundo dos vinhos. Então, resolvi olhar de longe, o que é fácil quando se mora na Serra de Petrópolis. E acho que consegui divisar alguns tópicos importantes, pelo menos para mim.
O mundo verde. É assunto da máxima importância, por isso volto a ele. Vocês já entraram numa vinícola tradicional? Pela manhã, não se para de tossir e esfregar os olhos, pois o vinhedo está recebendo sprays de produtos químicos. Mas essa situação está mudando. Aos poucos, mas está mudando. Nos Estados Unidos, a cada semana uma vinícola converte-se de tradicional para orgânica ou biodinâmica. Cerca de 2% de todo o suprimento alimentar norte-americano compõe-se de orgânicos. Nos últimos dez anos, os produtos orgânicos cresceram pelo menos 20% no país (é o setor que mais rapidamente na agricultura do país). Alimentos orgânicos já podem ser encontrados em qualquer lugar. Nos EUA, a venda de vinhos orgânicos cresceu 28%, chegando aos 80 milhões de dólares. A Espanha já tem mais de 100 vinícolas praticando a produção orgânica ou biodinâmica. Já podemos tomar excelentes vinhos orgânicos na Borgonha.
Porém, o debate não é sobre a maior ou menor qualidade desses vinhos sobre os tradicionais. Destaco é a prática de não se utilizar herbicidas e pesticidas, de buscar-se a todo o custo respeitar a natureza, de plantar árvores como uma compensação pelo dióxido de carbono despejado na atmosfera como resultado da fermentação (as árvores podem absorver até uma tonelada de CO2 por ano). Falo é de práticas corretas sob o prisma ambiental, que podem ajudar a reparar o estrago que promovemos no meio ambiente (vide aquecimento global).
Daí, que consegui enxergar um pouco mais longe. E me preocupei.
O dragão chinês. Vi imediatamente a imensa sombra lançada pelo fogoso e descomunal dragão chinês. Sim, ela consegue chegar até aqui em casa.
A China já tem 450 mil hectares de vinhedos plantados, mais do que os Estados Unidos. Em 1997 tinha 200 mil hectares. A produção de uvas cresce 17% ao ano. O país é hoje potencialmente o maior mercado de vinhos do mundo.
Na maioria das vinhas cresce espécies selvagens da Vitis (como a Longyan, ou “olho do dragão”). As novas plantações são predominantemente da Vitis vinífera, com um forte domínio das uvas tintas, sendo a Cabernet Sauvignon a mais popular.
O chinês já foi um consumidor ingênuo, chegando a misturar refrigerante com o Bordeaux mais fino. Hoje, pelo menos o noveau riche de lá é mais esperto e muito guloso: é um dos maiores compradores nos leilões de vinhos raros ocidentais. Mas a pirataria e negócios por debaixo do pano ainda imperam. A qualidade é, em geral, suspeita. A maioria dos rótulos resulta de uma mistura de vinho a granel (quase todos do Chile) com vinho local (e até com suco de frutas e água).
Pesquisa da Vinexpo desse ano revela que a China será o oitavo maior consumidor de vinho do mundo lá pelo ano de 2012. Já está entre os 10 maiores consumidores de vinho desde 2006 e crescerá 70% até 2011. Esse ano a indústria de vinhos do país cresceu 26%, vendendo um total de US$ 813 milhões. Em 2017, os chineses estarão bebendo 50 milhões de caixas de vinho. Quem não quer ficar com um pedaço desse mercado? Os franceses são hoje os maiores exportadores (40%), seguidos pelos australianos (20%) e, de perto, pelos EUA e Chile.
Quem já opera lá hoje sofre com regras “não escritas”. Restaurantes e bares são os maiores compradores internos: mas figurar na lista de vinhos deles custa um bocado. Existem taxas por debaixo do pano para tudo, inclusive a obrigatoriedade de “presentinho$” de fim de ano para se manter na lista. Nos hotéis, praticamente todos os gerentes cobram por “incentivos” de venda, naturalmente tudo nas sombras. Não é bem uma novidade para os ocidentais.
Com todo esse monumental crescimento, a pergunta é: haverá uvas suficientes na China para atender a tal demanda? Aliás, haverá também uvas nos vinhedos ocidentais para atender à sede chinesa. Restará alguma coisa boa para o consumidor comum, para quem mora por aqui? A qualidade dos vinhos remanescentes será marcada pelo bafo do dragão? O vinho industrializado definitivamente vai imperar, com as Constellations da vida comprando mais e mais vinícolas para saciar o dragão (e encher seus bolsos)? Bordeaux já especula com preços por conta de uma suposta escassez de vinhos em razão do mercado chinês.
No rastro do dragão. As garrafas de vidro já começam a falar. O mercado chinês é monumental, sesquipedal: todos os esforços serão feitos para atendê-lo. Comentei numa coluna passada que produtores importantes, como o francês Castel, estão substituindo suas garrafas de vidro pelas de plástico.
Ora, só para água mineral engarrafada, produzem-se por ano, em todo o mundo, 2,7 milhões de toneladas de plástico. Elas são feitas a partir do petróleo cru, do qual se consome 1,5 milhões de barris de óleo (o suficiente para abastecer 100 mil automóveis por ano).
Cerca de 90% dessas garrafas de plástico são jogadas fora. Às vezes, no lixo. Mas em grande parte no solo. Elas podem levar até mil anos para se degradarem. Enquanto isso não acontece, despejam inexoravelmente produtos químicos que contaminam, não apenas o solo, mas a água existente no subsolo. É irônico, não? Supostamente, as água engarrafas deveriam ser pelo menos as mais saudáveis. Mas veja de onde as empresas vão retirar suas águas para abastecer o consumidor no futuro.
E não apenas as águas para consumo humano ficarão contaminadas. As utilizadas para irrigação também. Logo, a qualidade de nossas frutas (entre elas a uva) e legumes corre perigo.
A mania de água engarrafa acaba de receber uma senhora puxada de orelhas. A revista inglesa Decanter promoveu uma degustação onde se comparava a água de bica de Londres (originária do rio Tamisa) com 24 marcas de águas de todo o mundo. A degustação buscava analisar a qualidade, sabores etc. Pois á água fornecida pela CEDAE inglesa ficou em terceiro lugar em termos de sabor. É a mais barata delas. Leia sobre o teste aqui. Que pena que ainda não tenha chegado aqui a prática de servir apenas água filtrada, praticada agora pelos mais estrelados restaurantes de Nova York e San Francisco.
Pois é isso, amiga não poderia imaginar que um dia o Livro Vermelho do Camarada Mao acabaria no Irajá, transformado numa carta de vinhos, que de vermelho mesmo tem é uma grande quantidade de tintos.
Também não desconfiávamos que tal fato tem o potencial de danificar ainda mais o nosso sistema ambiental, via a produção de mais garrafas, sejam as de vidro ou as de plástico, via a industrialização das vinhas, o uso intensivo de químicas para aumentar a produção. Nossa sorte, ainda, é a de que aqui, os nossos melhores vinhos ainda resultam de produtores familiares, pequenos, que querem apenas conquistar o consumidor doméstico. Buscam qualidade.
Nesse Natal, beba vinho apenas por prazer, amigas. O mesmo prazer com que envio daqui o meu abraço para todas vocês. Feliz Natal.Se sonharem com algum dragão, escrevam aqui para a Soninha.

17.12.07

O Livro Vermelho dos vinhos

Penso que toquei em alguns dos principais fatos e tendências do mundo das bebidas, em particular, o dos vinhos, nesse ano cujo fogo agora se apaga. Falar do que vem pela frente parece fácil, dada a imensa sombra lançada pelo fogoso dragão chinês que chega até aqui em casa, na Serra de Petrópolis.
A China já tem 450 mil hectares de vinhedos plantados, mais do que os Estados Unidos. Em 1997 tinha 200 mil hectares. A produção de uvas cresce 17% ao ano. O país é hoje potencialmente o maior mercado de vinhos do mundo.
Na maioria das vinhas cresce espécies selvagens da Vitis (como a Longyan, ou “olho do dragão”). As novas plantações são predominantemente da Vitis vinífera, com um forte domínio das uvas tintas, sendo a Cabernet Sauvignon a mais popular.
O chinês já foi um consumidor ingênuo, chegando a misturar refrigerante com o Bordeaux mais fino. Hoje, pelo menos o noveau riche de lá é mais esperto e muito guloso: é um dos maiores compradores nos leilões de vinhos raros ocidentais. Mas a pirataria e negócios por debaixo do pano ainda imperam. A qualidade é, em geral, suspeita. A maioria dos rótulos resulta de uma mistura de vinho a granel (quase todos do Chile) com vinho local (e até com suco de frutas e água).
Pesquisa da Vinexpo desse ano revela que a China será o oitavo maior consumidor de vinho do mundo lá pelo ano de 2012. Já está entre os 10 maiores consumidores de vinho desde 2006 e crescerá 70% até 2011. Esse ano a indústria de vinhos do país cresceu 26%, vendendo um total de US$ 813 milhões. Em 2017, os chineses estarão bebendo 50 milhões de caixas de vinho. Quem não quer ficar com um pedaço desse mercado? Os franceses são hoje os maiores exportadores (40%), seguidos pelos australianos (20%) e, de perto, pelos EUA e Chile.
Quem já opera lá hoje sofre com regras “não escritas”. Restaurantes e bares são os maiores compradores internos: mas figurar na lista vinhos deles custa um bocado. Existem taxas por debaixo do pano para tudo, inclusive a obrigatoriedade de “presentinho$” de fim de ano para se manter na lista. Nos hotéis, praticamente todos os gerentes cobram por “incentivos” de venda, naturalmente tudo nas sombras. Não bem uma novidade para os ocidentais.
Com todo esse monumental crescimento, a pergunta é se haverá uvas suficientes na China para atender a tal demanda. Aliás, se haverá também uvas nos vinhedos ocidentais para atender à sede chinesa. Restará alguma coisa boa para quem mora por aqui? A qualidade dos vinhos remanescentes será marcada pelo bafo do dragão? O vinho industrializado definitivamente vai imperar, com as Constellations da vida comprando mais e mais vinícolas para poder dar conta do dragão. Bordeaux já especula com preços por conta de uma suposta escassez de vinhos em razão do mercado chinês.
Quem diria, o Livro Vermelho do Camarada Mao acabou no Irajá, transformado numa carta de vinhos, que de vermelho mesmo tem é uma grande quantidade de tintos. Um Natal pra lá de feliz e muito azul para você e família, leitor.

13.12.07

Sobre pérolas

Acho que podemos sempre criar ocasiões para brindar, festejar, ofertar. Mas essa é a época do ano em que fazemos isso com mais freqüência, em que o espírito de fraternidade atinge o seu auge. E brindamos, brindamos sem parar. A história começou na Antiguidade com brindes à saúde – para que nossos convivas não pensassem que a bebida estivesse envenenada e que ninguém fosse fazer com eles o que os pombos fazem com as estátuas. E os espumantes são, com certeza, a grande pedida nas festas de fim de ano, onde além de saúde se deseja felicidade. E sobre eles as bolhinhas tenho três comentários:
A razão das bolhas. A fermentação do vinho produz álcool e dióxido de carbono (CO2) – que é o gás presente nos espumantes, o responsável pelas queridas bolhinhas (ou “pérolas gasosas”, como li outro dia). Falam os técnicos que uma garrafa de 750 ml de espumante pode conter até 20 milhões de unidades dessas “perolas”. Não me pergunte como contaram. Muitos profissionais acreditam que essas bolhas brotam de imperfeições, riscos e saliências nas taças. Muitos restaurantes, inclusive, arranham suas taças esperando servir espumantes mais borbulhantes.
Nada disso. Físicos brasileiros e franceses (entre eles, Gérard Liger-Belair, da Universidade de Reims, França, e Alberto Tufaile, da Universidade de São Paulo) fizeram um grande estudo sobre os ritmos das bolhas nas flutes. E descobriram que elas nascem de sujeirinhas na taça, em pontos da parede do copo aos quais aderiram diminutas impurezas, em geral fibras de celulose de 100 micrometros vindas do ar, inofensivas à saúde. Ou, sim, são subprodutos de copos mal lavados.
Assim, amiga, não adianta colocar uma colher de chá no gargalho das garrafas para segurar as bolhas. Podem lavar à vontade que aquelas microscópicas sujeirinhas vão estar sempre no ar. E estimular as nossas bolhinhas. Leia a interessante matéria no Jornal do Vinho.
Para quem não se importa. Não se importa com o aquecimento global, com diferença cada vez maior entre ricos e pobres, não dá a mínima para a exclusão social; não está nem aí para assuntos como risco ambiental, desmatamento, proteção da flora e fauna, conservação da biodiversidade. Então, temos um espumante especial para você.
É a Yellowboam – a garrafa mais preciosa até hoje produzida pela Veuve Clicquot, uma venerável casa de Champagne com mais de 200 anos de história, em comemoração ao 130º aniversário do Veuve Clicquot Yellow Label, o seu rótulo mais importante. São 3.600 garrafas Jeroboam (de 3 litros), com cápsulas pintadas a ouro de 22,4 quilates e a tela de metal (de proteção da rolha) inteiramente em ouro de 24 quilates gravados com a assinatura de Madame Clicquot, a própria viúva. Os rótulos da garrafa não utilizam papel, mas são feitos de três tipos de peles exóticas. Você escolhe: crocodilo, avestruz ou arraia. Cada garrafa vem numa caixa de madeira finíssima, dentro da qual é anexada uma carteira de couro. Veja aqui. Preço: 1.250 Euros, ou 2.600 reais (sem impostos etc.). Pode ser que seja um bom presente. Mas a Yellowboam me envergonha. Eu me importo com cada um dos itens listados no início desse tópico. E me dói pensar no destino de crocodilos, arraias e avestruzes.
Gosto mais do filme. Pois o Martin Scorsese criou e dirigiu um documentário de quase 10 minutos para a Freixenet, uma das maiores produtora de espumantes da Espanha. Lá espumante é chamado de cava, palavra de origem catalã que significa adega. A cava vem da região de Penedés, na Catalunha, e compreende uma dúzia de produtores usando a mesma técnica de Champagne, o “método tradicional”.
Pois a Freixenet resolveu mudar a sua promoção de Natal (há 40 anos, comerciais com uma celebridade acompanhada por bailarinas representando as bolhinhas e um tema musical). Agora, porém, a empresa decidiu renovar. E encarregou Martin Scorsese para rodar um curta metragem, onde só impunha três itens: que fosse exibida uma garrafa do seu espumante “Cava Nevada”, aparecesse a palavra “Reserva” e de que houvesse um brinde.
O premiadíssimo diretor resolve então virar a mesa e prestar uma homenagem a Alfred Hitchcock, o mestre do suspense (“Janela Indiscreta”, “Intriga Internacional”, “Psicose”, “Os pássaros” etc.). Ele descobriu o roteiro de um filme que o mestre não conseguiu realizar. O roteiro, contudo, estava incompleto. Mesmo assim, ele filmou o roteiro sobrevivente e recriou a parte que faltava. O nome do documentário é “A Chave para o Reserva” (“The Key to Reserve”). Mostra um homem carregando uma caixa no Carnegie Hall de Nova York, durante um concerto, cuja peça tocada é o tema musical do filme “Intriga Internacional”. O personagem guarda a caixa e entra num camarote à procura da chave para abri-la. Ela está numa lâmpada, que ele abre com seu lenço. Mas é visto por um violinista, cúmplice do marido de sua amada (ela e o marido assistem ao concerto nas poltronas). Acontece uma luta mortal. E, portanto, está na hora de você ver o documentário (em espanhol, catalão ou inglês). Adorei as referências a Hitichcock, com lembranças a Cary Grant (o lenço com as iniciais ROT, do personagem de Cary Grant em “Intriga Internacional”), um flash tal e qual o disparado em “Janela Indiscreta” e os pássaros se reunindo ameaçadoramente na janela da sala onde o diretor comenta o filme.
O filme, em minha opinião, é superior à cava da Freixenet. Mas certamente será um estímulo para que a empresa eleve a sua qualidade. Ela sabe tudo sobre espumantes.
Os espumantes nacionais. Suas vendas não param de crescer, até porque suas qualidades são cada vez mais reconhecidas. Estão sempre figurando nos primeiros lugares de concursos internacionais importantes. Inclusive, a francesa Béatrice Da Ros, diretora da União de Enólogos da Franca e do concurso Vinalles Internationales, declarou que “os espumantes brasileiros são comparáveis a alguns dos melhores do mundo”.
No Concurso Vinus, realizado em setembro último na cidade de San Rafael, em Mendoza, Argentina, os brasileiros apresentaram 24 amostras para concorrer com 684 garrafas de 24 países. Ganhamos 17 medalhas: sete de ouro e 10 de prata. E os nossos espumantes se destacaram, com sempre, com nove dos nossos 17 ouros. Eis os premiados:
Medalha de Ouro: Aurora Espumante Moscatel (Cooperativa Vinícola Aurora), Casa Valduga Espumante Moscatel Premium 2006 (Casa Valduga Vinhos Finos), Panizzon Espumante Prosecco Brut 2006 (Sociedade de Bebidas Panizzon), Valmarino Espumante Moscatel 2007 (Estabelecimento Vinícola Valmarino).
Medalha de Prata: Casa Valduga Espumante Brut Premium 2004 (Casa Valduga Vinhos Finos), Cave D’Castro Espumante Moscatel 2006 (Vinhos Finos Casa Garcia), Conde de Foucauld Espumante Brut (Cooperativa Vinícola Aurora), Panizzon Espumante Moscatel 2007 (Sociedade de Bebidas Panizzon), Salton Espumante Brut Reserva Ouro (Vinícola Salton),
Nessas festas, inclua sempre as nossas “pérolas”, são sempre preciosas e a preços convidativos.
Se quiser uma lista com mais espumantes é só clicar aqui para a Soninha no soniamelier@terra.com.br
Da Adega.
Os espumantes da Famiglia Fornari. Continuamos com os espumantes. Agora, os argentinos da Famiglia Fornari, que a Importadora
Cantu está trazendo para cá. São vinhos assinados pelo enólogo Ceza Azevedo, que já respondeu pelos espumantes Mumm, da Pernod Ricard. São três estilos: os Famiglia Fornari Brut, Demi-Sec e Brut Reserva.
Porchetta Allá Romana. O chef Chico Ferreira, da
Romã Produções Gastronômicas, oferece essa deliciosa receita de porchetta para incrementar as festas de fim de ano. Vamos a ela, que pode ser servida para 20 pessoas.
Ingredientes:
1 leitão inteiro de 7 kg, que, após desossado inteiro, sem cabeça, paleta e pernil fique com algo em torno de 2,8 e 3 kg;
2 colheres (sopa) de sementes de erva-doce levemente amassadas;
5 ramos de alecrim picado;
1 xícara de salsinha picada;
12 dentes de alho amassados;
1 xícara de vinho branco;
1 xícara (chá) de suco de limão;
1 xícara (chá) de óleo de oliva;
1 kg de lingüiça toscana fresca sem pele e desmanchada;
300 kg de pancetta em fatias finas;
Óleo de oliva;
Sal;
Pimenta-do-reino;
Modo de preparo:
Sua preparação tem início ainda no açougue. Peça ao açougueiro que desosse o leitão, descartando a cabeça e separando os pernis e as paletas. Corte a carne destas partes em cubos e reserve. O restante do leitão deve ficar com o formato de um retângulo com a pele intacta e algumas partes mais carnudas, como o lombo, e outras menos, como a coluna. Apare a carne das partes muito grossas de forma que fique o mais nivelado possível, corte essas aparas em cubos e junte à carne dos pernis e paletas.
Tempere a porchetta e os cubos de carne com o sal, a pimenta do reino, as sementes de erva doce, o alho, o alecrim, a salsinha, o vinho branco, o suco de limão e um pouco de azeite de oliva. Deixe marinando na geladeira por uma noite. No dia seguinte tire a porchetta do tempero e deixe escorrer para secar bem (isto facilita o trabalho de costurar). Abra-a em uma tábua e distribua as fatias de porchetta, a lingüiça e os cubos de carne. Enrole tudo e feche a carne costurando pelo couro. Amarre a porchetta com um barbante para que fique com o formato cilíndrico.
Leve a porchetta para assar em cima de uma grelha dentro de uma assadeira grande com o lado da costura virado para baixo (quem não tiver assadeira com grelha, pode improvisar usando alguns palitos japoneses, os hashis). Regue com a marinada, cubra com papel alumínio e asse por 3 horas, regando e virando constantemente. Sempre deve restar algum líquido no fundo da assadeira, se secar demais junte um pouco de água.
Depois deste tempo, retire o papel alumínio, pincele com um pouco de azeite de oliva e leve para dourar em fogo forte por aproximadamente 20 minutos. Retire do fogo, espere esfriar um pouco e retire o barbante. Enrole a porchetta em papel alumínio, enrole bem forte por fora com fita adesiva e leve à geladeira para que permaneça bem firme. No dia seguinte desembrulhe, corte em fatias finas e sirva a porchetta fria com gomos de limão, azeite de oliva e uma salada de folhas verdes.
Bom apetite!

6.12.07

A cor da vez

Sabemos que muita gente escolhe vinho pela cor. E por muito tempo a maioria das pessoas decidia apenas entre tintos, brancos e rosados. Mas agora existe um grupo de consumidores, que cresce a cada dia, que só escolhe vinho por cor – apenas por uma determinada cor. Certamente, optariam por uma das três citadas, certo? Mas, não. A cor preferida é outra.
É verde. Não o verde dos vinhos portugueses, aqueles produzidos no noroeste do país, muito refrescantes, com aquela “agulha”, a ligeira efervescência a nos pinicar a língua. São verdes apenas nome (derivado talvez de sua juventude: eles não amadurecem como os demais), pois só os encontramos nas versões tinta e branca.
O verde aqui é qualquer vinho orgânico ou biodinâmico ou natural, uma bebida ecologicamente correta. Nos Estados Unidos, segundo uma pesquisa da National Restaurant Association (Associação Nacional de Restaurantes), são os vinhos orgânicos que estão sendo mais procurados. A revista pesquisou mais de mil chefs sobre o que, entre as bebidas alcoólicas, está atraindo mais os freqüentadores dos seus estabelecimentos.
A surpresa não é grande. A tendência do consumidor de lá pelo que é benéfico para o meio ambiente é bem evidente. Vinhos orgânicos são produzidos e consumidos desde 1960 no país. Só chegaram à Europa na década de 90. No Brasil, que eu saiba, o primeiro vinho orgânico foi o Cabernet Sauvignon Juan Carrau, de 1997. Em 1999, Carrau lançou um segundo, um branco com a Gewürztraminer. Ambos fazem parte da Linha Verde do Velho Museu, vinícola de Carrau na Serra Gaúcha.
O site Planeta Orgânico explica que todo alimento orgânico é mais do que um produto sem agrotóxicos.
“É o resultado de um sistema de produção agrícola que busca manejar de forma equilibrada o solo e demais recursos naturais (água, plantas, animais, insetos, etc.), conservando-os a longo prazo e mantendo a harmonia desses elementos entre si e com os seres humanos. Deste modo, para se obter um alimento verdadeiramente orgânico, é necessário administrar conhecimentos de diversas ciências (agronomia, ecologia, sociologia, economia, entre outras) para que o agricultor, através de um trabalho harmonizado com a natureza, possa ofertar ao consumidor alimentos que promovam não apenas a saúde deste último, mas também do planeta como um todo”.
Nos Estados Unidos, os consumidores compram os orgânicos por que seriam melhores para a saúde; porque são produtos que protegem o meio ambiente. E porque acham que são vinhos de grande qualidade. Noto que os produtos orgânicos produzidos no Brasil (somos até exportadores) também ganharam imagem de produtos de alta qualidade.
De um modo geral, tanto os vinhos orgânicos quanto os convencionais gozam dessa imagem positiva, isenta de reprovações quando pensamos o quanto de danos os humanos estão provocando no planeta: as emissões de carbono, os produtos químicos perigosos, o lixo não-reciclável etc.
Tomamos o nosso vinho envoltas num clima de romance e história: aqueles gregos, romanos, os monges, os artesões produzindo um produto puro, enquanto nós aqui pensando que o aquecimento global está bem a léguas de nossa querida taça.
Será mesmo? Como o vinho poderia prejudicar o meio ambiente?
O problema da água. Fungicidas, herbicidas e fertilizantes usados para combater o mofo, pestes e tornar as vinhas mais produtivas podem afetar o lençol freático, a água subterrânea, que pode ficar contaminada para ser bebida ou utilizada para irrigar outras culturas.
Da mesma maneira, o despejo da água utilizada pelas vinícolas para lavar barris e tanques pode danificar ecossistemas de rios, lagos e lagoas. Não, não culpe apenas os grandes grupos. Os pequenos produtores não fazem diferente dos grandes.
A grande ressalva é a de que 99% da água utilizada na produção de vinho vão para a irrigação, muito mais do que na cultura do arroz, por exemplo (2.380 litros de água por quilo do grão).
O caso das garrafas. Para fazermos vidro precisamos fundir muita areia (mais dióxido de silício, carbonato de sódio e carbonato de cálcio), a uma temperatura altíssima, acima dos 1.500º C. Todo esse calor exige um consumo fenomenal de energia, que vai resultar em emissões de gases do efeito estufa, aqueles que absorvem parte da radiação infravermelha, aumentando a temperatura da Terra, provocando mudanças climáticas. Além disso, o transporte de, digamos, mil garrafas de vidro vai gerar mais energia (mais emissões de CO2) do que o de mil garrafas de plástico, mais leves. Fazer o quê? Substituir o vidro pelo plástico? O vidro é reciclável, já o plástico. O problema aqui está longe de uma solução.
A pegada de carbono. É a medida do impacto das atividades humanas sobre o meio ambiente, em termos da quantidade de gases do efeito estufa produzido. A medida é feita em unidades de dióxido de carbono. O processo de fermentação nas vinícolas gera CO2, outros equipamentos na vinícola (prensas etc.) também produzem esse gás. Mas a maior quantidade de pegadas está nas viagens que os vinhos fazem da vinícola para seus destinos. Perambulam por todo o mundo. Não existem muitas estatísticas a respeito, mas a Viña Ventisqueiro, chilena, calculou que um container com 1.540 caixas de seus vinhos, do Chile para a Inglaterra, equivale ao consumo de duas toneladas de petróleo. É praticamente impossível projetar o dano causado pelo transporte do vinho, por qualquer meio, em qualquer lugar. Mas devem ser menores do que as emissões promovidas por qualquer bebida em garrafas de plástico. Pobre consolo.
O lixo do vinho. Vinho não é apenas juntar uvas com fermento. Parece limpo, mas deixa, ao final, um monte de lixo, na forma de cascas, talos, hastes, sementes, polpas - é um bagaço pouco utilizado pelas vinícolas. Algumas, o emprega como fertilizante, outras para fazer destilados (grappa, bagaceira etc.). Uma boa novidade é que já estão conseguindo transformá-lo em combustível. A vinícola canadense Inniskillin, importante produtora de “vinhos de gelo”, já está enviando o bagaço de sua produção para uma empresa de Ontário especializada em energia alternativa. Lá o bagaço se transforma em biogás, enquanto se decompõe ajudado por microorganismos, liberando gás metano. Aliás, o lixo orgânico, do óleo de cozinha ao cocô do totó, pode ser transformado em gás metano. Residências em Ontário já começam a ser aquecidas através desse recurso. Enquanto isso, a União Européia já votou a favor, por razões de proteção do meio ambiente, da obrigatoriedade da destilação de subprodutos do vinho, como o citado bagaço. Serão transformados em álcool. Mas soluções como a Inniskillin são até melhores.
O problema humano. Do Novo ao Velho Mundo, a indústria do vinho utiliza intensivamente o trabalho humano, trabalho manual, com trabalhadores recrutados sazonalmente. Em qualquer parte vamos encontrar imigrantes ilegais, como os mexicanos na Califórnia, ou Tailandeses na Nova Zelândia trabalhando sob condições inadequadas ou inescrupulosas. Pois é, bóias-frias são tratados da mesma maneira em todo o mundo. E essa é uma pegada desumana, que precisa ser corrigida.
Diante disso, acho ótimo que vinhos orgânicos estejam sendo mais procurados. Acho que sua maior qualidade é um manejo correto do meio ambiente, o que implica em saúde para a Terra e para os seus moradores. Mas eles não estão livres dos problemas relatados acima.
Preferiria que a moda pelo verde não ficasse restrita a um sistema de produção agrícola. Mas a um cuidado maior, necessário e urgente com a Mãe Terra.
Como estão suas pegadas de carbono, leitora? Fale aqui com a Soninha : tenho dicas para reduzi-las.
Da Adega
Loja Virtual vai atender todo o país. A World Wine, uma das três maiores importadoras de vinhos finos do país, inaugurou no último dia 4, terça-feira, a sua primeira loja virtual. A empresa possui uma lista de 1.200 rótulos de mais de 220 produtores de 15 países (como França, Itália, Chile, Argentina etc.). Desses, 160 estão já disponíveis no site (veja
aqui). O objetivo da WW é gradualmente aumentar a oferta até chegar ao total importado.
Noto que eles não cobram (ou embutem no preço) o custo do transporte, na maioria dos casos. Para quem mora na Grande São Paulo, no Rio (capital) e Vitória, o vinho chega em 3 dias úteis. Para o interior de São Paulo, do Rio de Janeiro e Espírito Santo e também para Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Salvador a bebida chega em 5 dias. Bahia, Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais: 7 dias. Amazonas: 15 dias (sujeito a taxa de armazenamento). As demais regiões em 10 dias úteis.
Além da Internet, a WW oferece um serviço de televendas, para auxiliar o consumidor para tirar dúvidas, oferecer dicas etc. A World Wine confia no crescimento do comércio virtual, que em 2006 resultou num faturamento de R$ 4,4 bilhões (cresceu 76%) vendendo livros, revistas, CDs, DVDs e equipamentos eletrônicos. As regiões sul e sudeste lideram as vendas (na base de 70% de participação).

3.12.07

Saber sobre vinhos

Leitor pede que eu recomende livros sobre vinhos. Quer “ter o maior conhecimento possível sobre a matéria”. É um pedido recorrente. Só que, antes, acho melhor fazer um rápido comentário sobre o que entendo por conhecimento.
Penso que é preciso mais horas de samba para apreciarmos um Chico Buarque do que um Adoniran Barbosa. Olha que ambos são gênios da classe. Mas um é mais simples e outro mais complexo (oferece mais elementos para a nossa degustação). No o assunto é cinema, repare nos graus de complexidade que existem num Chaplin, Hitchcock, Glauber Rocha ou Bergman. Igualmente, todos eles pilares no seu ofício, mas com diferentes escalas de acessibilidade.
Cultura – ou conhecimento – implica na conquista de habilidades para percebermos todos os atrativos e singularidades de qualquer coisa: cerveja, literatura, moda, gastronomia, fumo, arquitetura, galinha d’angola (o meu caso) etc. À medida que acumulamos essas habilidades, armazenamos mais conhecimentos.
O economista americano (nascido na Hungria) Tibor Scitosky (1910-2002), professor de Stanford, definia cultura como “essa parte do conhecimento que provê a redundância necessária para tornar um estímulo desfrutável. A cultura é a informação preliminar que se tem de possuir para gozar do processamento de informação posterior” (The Joyless Economy, Oxford, NY).
Portanto, comece por aqueles estímulos mais desfrutáveis. Se o caso é literatura policial, inicie pelo princípio, Edgard Allan Poe, Conan Doyle, Agatha Christie; e continue com Hammett, Chandler, Rex Stout, Simenon. Não esqueça os nossos: Eliane Paiva, Patrícia Melo, Tony Belloto, Luiz Alfredo Garcia-Roza. Saboreie o travesso do Mandrake, de Rubem Fonseca. Compare-o com o Maigret, com o Bellini, o Nero Wolfe ou o Poirot. Vai notar que esses personagens oferecem camadas variadas e diferenciadas de prazer. E assim acumulamos bastante conhecimento sobre o romance policial. Sem mistérios.
A mesma coisa com os vinhos. Saber sobre eles é experimentá-los, antes de tudo. Anote o que provou: cores, aromas, sabores. E siga em frente, não pare nunca. A cultura – ou conhecimento – não se nutre de teorias, mas de familiarização ou, como diz o filósofo espanhol Juan Antonio Rivera, “da freqüência a estímulos que faz com que a novidade inicial que continham para nós vá se tornando pouco a pouco reduzida”.
Um dia, você conhece um vinho novo, com uvas que nunca ouviu falar, de uma região e vinícola desconhecidas. Novidades implicam sempre num desafio à nossa capacidade de avaliação. Muita gente prefere ficar no conforto do já conhecido. Mas o desfrute máximo é quando aceitamos o risco de experimentar. A essa altura, já teremos muitos conhecimentos para avaliar devidamente qualquer novidade. Estaremos mais sabidos do que qualquer enciclopédia. Querido leitor, não pare de experimentar. Nos intervalos, leia algum livro sobre vinhos. Você vai poder até criticá-lo.
Sabores chilenos. No Brasil, a enóloga chilena Marcela Chandía, da Viña Calina, para conhecer o nosso mercado e apresentar seus vinhos. Entre eles, o Calina Chardonnay Reserva 2004, o Calina Carbernet Sauvignon Reserva 2006 e o Alcance Carmenère 2005. A Viña Calina é uma das vinícolas de maior sucesso no Chile. A enóloga vem a convite da importadora World Wine.