28.5.05

Nomes

Pensei primeiro em “Palavras” como título de uma coluna sobre as palavras ligadas ao mundo das bebidas. Refletindo um pouco mais, optei por “Nomes”, que engloba palavras ou locuções com que se designam classes de coisas, pessoas, animais, acidentes geográficos. Vocês vão ver que temos até nomes de uvas se confundindo com nomes de pessoas. Logo, achei “Nomes”: é muito mais abrangente para que comecemos uma espécie de glossário, sem ordem, mas em nada desordenado. Sem preferências também: teremos verbetes de fermentados e destilados e sobre personalidades de destaque nesse meio. A coluna de hoje é a primeira de uma série, mas não esperem que continuemos na próxima semana, embora não tenhamos a menor vontade de repetir o George Lucas, que levou 29 anos para completar a série “Guerra nas Estrelas”. Vamos aos nomes e que o lado bom da força esteja com vocês.
Álcool – começou com uma palavra árabe para descrever um fino pó metálico usado como cosmético - como sombra e delineador para os olhos (al-kuhul). Por extensão, qualquer pó fino, impalpável, que representasse a concentração, a quintessência do material de origem. É do século XVII o sentido de “o puro espírito de alguma coisa” – pois a palavra começou a ser aplicada a fluídos que representassem a essência – ou o espírito – de alguma coisa. E, assim, a qualquer produto resultante da destilação. Daí “spirit”, a denominação de destilados em inglês.
Mas foi somente no século XVIII que álcool começou a ser utilizado no sentido de algo que você pudesse ou quisesse beber. Já alcoólico existe apenas a partir do século seguinte, como algo com sabor ruim, pelo excesso. Ou pelo rolo promovido pela turma do funil.
Rosé. Não, não é um vinho só para moças ou para metrosexuais. Fica entre o tinto e o branco, daí seu nome: rosado. Pode ser feito, hoje em dia, de duas maneiras: o suco do tinto fica pouco tempo em contato com as cascas das uvas (que fornecem a cor). Ou misturando-se uma quantidade de vinho tinto com vinho branco. O sabor do rosé por esse processo é bem diferente do conseguido pelo primeiro método, o da maceração. Pois esse vinho voltou à voga. Não deixe de tomá-lo como um branco, bem seco e resfriado. É bem refrescante (e não promove aquela barriguinha dos cervejeiros).
Reserva. Essa palavra aparece em diferentes formas (reserva, reserve, riserva), com diferentes significados em diferentes regiões viníferas. Nos Estados Unidos, “reserve” não tem definição oficial e pode ser usado num rótulo do jeito que o produtor quiser. Normalmente, a utilizam para valorizar o vinho (e sem qualquer justificativa para isso). “Riserva” e “Reserva” (utilizadas na Itália e na Espanha, respectivamente) são designações legais, autorizadas desde que certas condições sejam atendidas. Essas circunstâncias variam de região para região, mas na média têm relação com o tempo de maturação de um vinho. Num “riserva” italiano normalmente se indica que o vinho ficou cinco anos em barril de carvalho e depois em garrafa até ser colocado à venda. Num espanhol “reserva”, o vinho levou pelo menos três anos amadurecendo (e pelo menos um deles em barril de carvalho). Quanto maior o tempo de maturação ou de “reserva”, não tenha dúvidas: o vinho fica mais caro.
Bloody Mary. Muita gente pensa que o nome desse clássico coquetel tem origem em Mary Tudor, filha de Henrique VIII, da Inglaterra. “Maria Sanguinária” (“Bloody Mary”) seria um apelido seu por não parar de esfolar protestantes em nome da Igreja Católica. Mas o nosso Bloody Mary é criado muito mais tarde, nos agitadíssimos anos vinte, em plena idade do jazz. E dois barmen reclamam a autoria desse famoso coquetel, o pai curativo de todas as ressacas (é o que dizem).
Um deles, Fernand Petiot, um americano, barman (ou bartender, naqueles tempos) no legendário Harry’s Bar de Paris. Um dia, em 1926, testava coquetéis quando misturou duas porções iguais de suco de tomate e vodca. Algum cliente encostado ao balcão disse que a mistura lembrava um clube de Chicago chamado “Bucket of Blood” (“Balde de Sangue”; imagine só esse antro) e, mais especificamente, uma garota que conhecia de lá, chamada Mary. Imediatamente, o nome “Blood Mary” foi cunhado pelo barman.
Mais tarde, já de volta aos Estados Unidos, Petiot foi trabalhar no bar do hotel St. Regis. Tentou mudar o nome do coquetel. Não deu certo. Mas começou a adicionar uns toques na bebida: pimenta preta e vermelha, molho inglês, limão, Tabasco, numa versão mais picante que continua sendo utilizada, com mais alguma coisa e menos outra, até hoje.
Um outro barman, George Jessel, jura que criou o drinque na casa de um amigo, em Palm Beach, em 1927. Revela que o nome é uma homenagem a uma ricaça, Mary Brown Warburton, que acabava de chegar à casa do tal amigo. Ela logo pegou um copo, que escorregou de sua mão, derramando a nova criação de Jessel sobre seu vestido. Ela não perdeu a pose e disse: “Agora todos podem me chamar de Bloody Mary”. Parece meio anedota, mas enfim, cada qual com suas versões.
Aberto, Fechado. São palavras que com freqüência encontramos nas resenhas sobre vinhos, normalmente como uma referência à estrutura, concentração e corpo do vinho. Um vinho “fechado”, numa analogia feita pela revista Wine Spectator, pode ser comparado a uma pessoa quieta, reservada, envergonhada. Leva algum tempo e esforço para que cheguemos a ser amigas dessa pessoa, exatamente como um vinho com essa característica. Suas qualidades estão lá, guardadas, mas ainda não se “abriram”.
A comparação pode igualmente ser feita para uma pessoa completamente sociável, gregária, que todos conhecem. Um vinho “aberto” permite uma opinião imediata.
Na medida em que amadurece, um bom vinho experimenta um processo de abertura: seus taninos ficam mais suaves, sua estrutura inicial relaxa e ele começa a mostrar suas qualidades – coisa que, envergonhado, “fechado”, não fazia quando saiu da vinícola.
Daiquiri. Dizem que o nome desse drinque apareceu impresso, pela primeira vez em 1920, na esplêndida novela “Esse lado do paraíso”, do grande F. Scott Fitzgerald – que devia gostar muito da mistura, pois fez com que seu personagem pedisse logo quatro daiquiris duplos de uma só vez. O fato é que seu inventor é tido como um engenheiro americano, Jennings Cox, que juntou suco de limão, açúcar, rum e gelo num boteco da cidade de Daiquiri, em Cuba. Outros falam que o coquetel já existia naquela cidade e o gringo levou a receita com ele. Falam também que em Daiquiri a mistura só era tomada com “fins medicinais”. Você acredita em histórias de botequim? Nem eu.
Vinho Verde. Você já viu um vinho verde, verde? Pois ele é branco ou tinto. É chamado de verde, em Portugal, porque costumeiramente são vendidos bem jovens. É um vinho leve, ácido e às vezes ligeiramente espumante. A maioria dos tintos é bebida mesmo em Portugal e praticamente apenas o branco é exportado. Daí o pessoal pensar que o verde de seu nome está errado. É mesmo de dar um branco. São originários da maior região vinícola demarcada do país, a Costa Verde, acima da cidade do Porto.
Cuvée. Em francês, a palavra “cuve” significa tanque, tonel, cuba. Logo, “cuvée” é o vinho originário desse vasilhame. Uma vinícola pode lançar dois “cuvées” de uma mesma safra e variedade, mas com diferenças no sabor ou no metido de amadurecimento. Cuvée é também um blend de vinhos amadurecendo num mesmo tonel. Na região de Champagne, França, as “cuvées de prestige” são os melhores espumantes que uma vinícola pode produzir. Geralmente, são originários do melhores vinhedos, amadurecem mais tempo nas adegas do que os demais vinhos daquele produtor.
Chipre. Foi o primeiro país do Mediterrâneo a produzir vinho. A descoberta é recentíssima, feita por uma arqueóloga italiana. Maria-Rosaria Belgiorno revelou que descobriu evidências que a ilha produza vinhos há 6 mil anos. Ela encontrou potes e jarras datando de 3.500 anos A.C. Acreditava-se até agora que o vinho na região vinha de onde é hoje a Turquia e a Síria. O primeiro vinho foi de arroz, feito na China há cerca de 9 mil anos. Há evidências que o vinho feito de uvas data de 7 mil anos e tem origem no atual Iran.
Isabel. Lá pelos idos de 1844, a Princesa Isabel e seu marido, o Conde D’Eu viajaram pela Província de São Paulo. No diário de viagem, a Princesa comentada sobre um vinho produzido na Chácara Califórnia, propriedade do italiano Ângelo Feline: “Provei do melhor, não é mau, mas tem sempre aquele amère goüt resinoso que noto em quase todo o vinho feito no Brasil”.
O “gosto amargo resinoso” era resultado da fruta homônima da Princesa – a uva Isabel ou Isabella, ou Americana trazida dos Estados Unidos entre os anos de 1830 e 1840. Isabel, a uva, é uma vitis labruscana Bailey, uma híbrida espontânea labrusca-unífera. Foi a uva mais utilizada pelos produtores brasileiros, por ser muito resistente ao clima úmido e às pragas tropicais. Foi tão utilizada que fez desaparecer as castas européias no país, numa situação que apenas se reverteu com a chegada dos imigrantes italianos na Serra Gaúcha, quando começou a ser trocada pela vitis vinífera, ou seja: a espécie que resulta nas uvas com as quais se produzem os vinhos nacionais (e internacionais). Pois tudo isso aprendi no livro do Carlos Cabral, “Presença do Vinho no Brasil: um pouco de história”, da Editora Cultura (ISBN 85.293-0070-X). Não deixe de lê-lo. Aproveite Bienal do Livro, no Rio, para comprá-lo.
Jackie Gleason. “Beber remove cravos e espinhas. Não as minhas, mas das pessoas para quem olho”.
Essa é uma das tiradas de um grande bebedor e ator ainda maior (nasceu em 1916 e morreu em1987).
Viu? Não faltaram nomes de uvas e de personalidades. Logo, acho que o nome da coluna é apropriado.
Mas não deixe de comentar, através do soniamelier@terra.com.br

Mais Nomes

Leitores que se deram ao trabalho de ler a coluna passada (“Nomes”) pediram mais. Sir Isaiah Berlin (1909-1997), historiador, filósofo e ensaísta inglês, disse que existem duas classes de escritores: os ouriços e as raposas. Os primeiros se enrolam formando uma bola e giram constantemente em torno dos mesmos assuntos. Os raposas vivem farejando assuntos os mais diferentes e raramente param num mesmo ponto. Assim, vamos dar uma de ouriço e voltar ao tema dos nomes, mas ainda no círculo das bebidas, mantendo a desordem como ordem e de algum modo tentando ser uma raposa e descobrir novidades.
Orgânico. Significa evitar produtos químicos para matar insetos, fungos, sementes ou fertilizantes químicos para nutrir o vinhedo. A principal vantagem da produção orgânica é a de minimizar os resíduos químicos no solo, na atmosfera, nas fontes de água natural e no vinho, finalmente. Ninguém pode afirmar quais os efeitos de longo prazo que esses resíduos promovem em nós e no planeta. Portanto, um vinho orgânico pode ser visto como um fermentado produzido com muita cautela, com muita segurança. Num vinhedo convencional (não orgânico), os produtores aplicam sprays com substâncias químicas para combater pragas e proteger a sua colheita. No curto prazo, essas aplicações têm sucesso. Mas com o tempo, elas adquirem resistência às químicas e reaparecem. Seus predadores naturais, as joaninhas, são também eliminadas pelo spray e o equilíbrio natural do vinhedo é destruído. Os resíduos químicos contaminam o solo, as fontes de água e o vinho. O sagrado “terroir” (conjunto de solo, sol, ventos, chuva numa determinada região) é adulterado a cada ano pelo uso de fertilizantes sintéticos, fungicidas e inseticidas.
Os vinhedos orgânicos preferem usar cavalos, para arar o solo e distribuir as sementes, por exemplo. Os tratores podem compactar o solo, mas poluem e não fornecem o adubo fertilizante, como os cavalos – que, ainda, fazem com sejamos menos gananciosos, pois a produção costuma ser muito pequena se comparada com a dos produtores convencionais, e fazem vinhos mais concentrados. Mas atenção que por ter a palavra “orgânico” no rótulo o vinho não é inerentemente melhor do que o não-orgânico. O produtor precisa manter a vinícola limpa, descontaminar o solo. E principalmente saber fazer vinho.
Biodinâmico. Um vinhedo biodinâmico é uma variante do orgânico. Também não utilizam fertilizantes, pesticidas, herbicidas – nada de químico ou sintético, exatamente como o orgânico. Mas acredita que na natureza existem forças vitais em ação e procura operar de acordo com o ritmo dessas forças. Por exemplo, as fases da lua. A passagem da lua por diferentes constelações exerce influências nos quatro elementos básicos: a água, a terra, o ar e o fogo, representados pelas folhas, raízes, frutos e flores, respectivamente. Uma lua crescente aumenta a vitalidade, o aroma ou a cor da planta. A minguante influencia os líquidos internos da planta. Tem algo de Santo Graal, de Código de Da Vinci nessa variante.
O celebérrimo Romanée Conti, em Vosne-Romanée, na Borgonha, é um vinho biodinâmico.
Força. As queridas leitoras podem se divertir assistindo a uma versão em animação do “Guerra nas Estrelas” e se deliciar com a grande batalha dos orgânicos contra o “lado negro da Força”, frutas, legumes e vegetais não orgânicos.
É o Store Wars, a “Guerras do Mercado”, onde o herói não é o Luke Skywalker, mas “Cuke” (Pepino) Skywalker. Seu mestre não mais é Obi Wan Kenobi, mas Obi Wan Cannoli (uma pasta enroladinha, famosa sobremesa siciliana). O Chewbacca, o co-piloto da Millenium Falcon, fiel escudeiro do Han Solo, passa a se chamar Chewbrócoli. E vai por aí.
É um desenho animado que tenta fazer com que você engrosse o “lado bom da Força” e passe a consumir produtos orgânicos. Veja aqui.
Doença da Rolha. É o que o francês chama de “bouchonné” (“odor de rolha”). A rolha de cortiça serve para selar o vinho na garrafa e evitar que se altere rapidamente e seja destruído pelo oxigênio. Porém, a rolha é um produto orgânico, com origem num tipo de carvalho, o “Quercus Suber”, o Sobreiro português, maior produtor de cortiça do mundo (e, logo, de rolhas para garrafas).
Essas rolhas contêm microorganismos que podem infectar o vinho (que deviam proteger) como resultado dos produtos químicos utilizados para tratá-las antes de cortadas e inseridas nas garrafas. O resultado é que o vinho fica cheirando a “papelão molhado, mofado”, “cachorro molhado” etc. No final, além do mau cheiro, o vinho tem o seu sabor também afetado.
A contaminação da rolha é feita por um elemento químico conhecido por TCA (trichloroanisole). Estimam que entre 7 e 10% de todo o vinho produzido no planeta chegue ao consumidor contaminado pelo TCA, ou seja: perdido. É muita coisa, são milhares de garrafas, uma fortuna. Há produtores mudando já faz tempo para tampas alternativas: rolhas de material sintético e roscas de metal são as opções mais procuradas. Parece que as tampas de rosca metálica vêm agradando mais.
Brettanomyces. Ou apenas “Brett”, no jargão dos conhecedores de vinho, é uma variedade de fermento indesejável, que ataca o vinho deixando nele odores desagradáveis, descritos como “cheiro de estábulo” (que é uma maneira delicada de nomear o cheiro da bosta de boi, na verdade).
Um vinho pode apresentar vários outros defeitos, como o “AV”, para acidez volátil, que deixa um cheiro de acetona, cola de aeromodelos etc. Mas isso fica para outra coluna.
Bogart. Sim, o grande ator, Humphrey Bogart (1899-1957), o Rick de Casablanca, o grande amor de Ingrid Bergman (a Ilsa do filme). Pois Bogart era um senhor bebedor. Conhecia demais esse departamento. Foi o verdadeiro criador do “Rat Pack”, grupo de amigos que recebia em casa para jogar conversa fora. E beber. Do grupo original faziam parte Richard Burton, Frank Sinatra, Judy Garland e naturalmente a última esposa do ator, Lauren Bacall.
Bogart, que fez o bebum capitão do barco, em “African Queen” bem que mereceu o Oscar de melhor ator. Mas quem levou a estatueta foi seu par, a grande Katherine Hepburn. Juram que foi nesse filme que fizeram o primeiro merchandising no cinema. Aquilo de mostrar um produto comercial meio que de passagem. É que a bebida do capitão era o gim Gordon’s. E ele carregava caixas e mais caixas da bebida no seu barco. A evangélica Hepburn joga tudo no rio.
Dizem que é do ator a frase “O mundo todo está três drinques atrasado”. Mas parece que a frase original foi: “Se todo o mundo bebesse três drinques, não teríamos problemas”. Eram os anos 50, em plena Guerra Fria. “Se Stalin, Truman e todos os outros tomassem três drinques agora poderíamos relaxar e nem das Nações Unidas íamos precisar”, acrescentou.
Ao morrer de câncer em 57, não deixou de mencionar as bebidas: “Eu não devia trocar o uísque pelos martini”.
Que a Força fique com vocês. Caso ela falte é só clicar para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br

O turbante da Carmem

Bebidas e comidas brasileiras ganham mais espaço nos EUA, que já conhecem bem a tequila e as salsas, tortilhas e tacos mexicanos. É o que leio numa matéria do Datamonitor, sobre as possibilidades de “novidades étnicas” nos EUA.
Não que comidas e bebidas brasileiras substituam imediatamente as ofertas mexicanas já no gosto do americano. Mas “o avanço firme dos produtos brasileiros sugere que o Brasil está no ponto de transformar-se no novo México para comidas e bebidas nos Estados Unidos”, diz o editor da Productscan Online, que organizou um levantamento sobre o assunto.
A matéria cita que pelo menos uma grande empresa, a belga InBev, maior produtora de cerveja do mundo e dona da AmBev, já está pronta para “fazer samba”. Ela está lançando a nossa antiga Brahma nos EUA (e em mais outros 14 países). A cerveja (a garrafa é igual à da Skol Beats) está sendo anunciada como leve, refrescante e com uma “nota de mamão papaia” em seu sabor. Mamão papaia? A publicidade do produto lá enfatiza “o otimismo brasileiro”, bem como o estilo de vida “relaxado” do país. Papaia, otimismo, vida relaxada? O site do produto vende a ginga brasileira, como um “effortless flair”. Pronto: com ginga e “jeito relaxado” já somos os substitutos ideais do mexicano preguiçoso, um clichê nos faroestes americanos.
A matéria fala ainda do sucesso da cachaça e da caipirinha nos bares e restaurantes do país. Revela o grande interesse pelas frutas brasileiras e que a indústria de alimentos e bebidas está procurando maneiras de incluir o guaraná como um ingrediente estimulante em energéticos e até em barras de chocolate e iogurtes. O açaí já se tornou moda lá. Um refrigerante, o “Sambazon”, feito com açaí, vende muito bem, “direto da floresta amazônica, o coração da terra”, com direito a índio no rótulo, e o “Puro Poder da Amazônia” como slogan. A mesma empresa, baseada na Califórnia, vende o açaí em tabletes, como poderoso antioxidante. A fruta era desconhecida do norte-americano até 2004. De lá para cá, já estrela em 16 novas bebidas, segundo o Productscan. Vale tudo: “Sambazon”, mistura samba com “Amazon”, tem índio no rótulo, açaí no conteúdo, vende força, energia: é o rock do americano doido. Outro sintoma da presença brasileira são as churrascarias, outro sucesso com os conhecidos rodízios onde não faltam as plaquetas vermelhas e verdes sobre as mesas. Elas começaram a ficar populares nas grandes cidades, mas agora podem ser encontradas em várias cidades do interior do país.
Diz o editor da Productscan, Tom Vierhile, que essas tendências nas áreas de comidas e bebidas indicam que “o país que deu a tanga ao planeta pode estar oferecendo um novo sabor de bebidas e comidas para o mundo”.
Além dos personagens da novela América, vamos torcer para que agricultores e produtores brasileiros tirem também uma casquinha dessa tendência. Do jeito que está, acho que apenas retocaram o turbante da Carmem Miranda.
Quer saber mais sobre os rocks malucos que existem no mundo das bebidas? É só perguntar para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

16.5.05

Edy e as ressacas

A Edy Rodrigues é bartender e adora a sua profissão. Mas fica intrigada com o vinho, em sua opinião a bebida mais saudável. Só não entende é como uma bebida dessas pode promover uma “ressaca pior que as outras, que nem Baco pode reverter”, diz ela. Ela quer saber que substâncias o vinho tem capazes de causar estragos olímpicos.
Bem, Edy, vinho é seguramente uma bebida saudável – mas apenas se consumido com moderação. Como qualquer outra bebida. Será que seus clientes ficaram apenas em duas ou três taças? Se bebem demais estão, naturalmente, sujeitos a uma ressaca, o tão terrível “dia seguinte”. Isso sem falar nas gracinhas e estragos que provocaram naquela fase “alegre” do porre, anterior à ressaca.
Mas o vinho, como disse, não é diferente das outras bebidas alcoólicas. Ressaca acontece por excesso de álcool e um e outro problemas com o seu cliente. Não se hidratou, estava com o estômago vazio, vinha de outros excessos, o corpo fatigado, suas resistências perigosamente abaixo do normal etc.
As histaminas. Agora, o vinho, em particular o tinto, possui algumas características que favorecem olímpicas dores de cabeças em algumas pessoas. Uma das principais razões é a histamina, quase sempre a culpada pelas dores de cabeça em quem consome vinho tinto.
A histamina é encontrada nas cascas de todas as uvas, brancas ou tintas. Acontece que os vinhos tintos fazem contato com essas cascas por um tempo bastante prolongado e, portanto, têm uma grande quantidade de histamina, ao contrário dos brancos.
Esse componente químico é uma proteína importante envolvida em muitas reações alérgicas. As alergias são causadas por uma resposta do nosso sistema imunológico a substâncias normalmente inócuas, como o pólen, a poeira. Essas respostas geralmente incluem a liberação de histamina causando vários sintomas alérgicos, contribuindo para inflamações, constrições vasculares etc.
O que acontece é que pessoas com baixa ou nenhuma tolerância à histamina acabam com coceiras na pele, narizes escorrendo, vermelhidão nas faces, diarréia, respiração entrecortada e uma senhora dor de cabeça. Até crise de asma pode acontecer em algumas pessoas. Basta uma taça para provocar todos ou alguns desses sintomas.
Para termos uma idéia sobre o papel da histamina na intolerância ao vinho, uma pesquisa demonstrou que 79% de pacientes que beberam 125 ml de vinho tinto (equivalente a 50 microgramas de histamina) tiveram alguns dos sintomas acima, apenas 30 minutos após tomar o vinho.
A verdade é que a maioria desses pacientes era intolerante ao vinho em razão da deficiência de uma importante enzima, responsável por metabolizar a histamina.
Pessoas com essa deficiência têm dor de cabeça crônica. O remédio para elas é fazer uma dieta livre de histaminas, com apoio de vitamina B6, que melhora a atividade da tal enzima citada acima.
Muita gente toma um anti-histamínico, como o Allegra ou o Claritin antes de sorver as suas taças de vinho. Mas o bom mesmo é consultar um médico e descrever esses sintomas – sem esquecer de dizer quantas taças tomou ou vem tomando. Ou pretende tomar.
Os congêneres. Esse é o termo genérico para as muitas e várias impurezas encontradas nos destilados e fermentados, quando abaixo de 100% de álcool por volume. Quanto mais baixo o teor alcoólico, maior a quantidade desses congêneres, componentes biologicamente ativos.
Essas impurezas, contudo, são precisamente os ingredientes que dão aos destilados o seu caráter. Daí a necessidade de conseguir-se um delicado equilíbrio que possa incluir o máximo de congêneres aromáticos numa bebida, enquanto eliminando aqueles nocivos.
A tarefa do produtor se complica ainda mais porque essas substâncias são muito variadas e incluem aldeídos, fenólicos e éteres. Cerca de 150 congêneres diferentes podem ser encontrados numa bebida recém destilada, seja uísque ou conhaque.
Embora estejam presentes em doses muito pequenas em vinhos e destilados, os congêneres contribuem de modo ainda pouco entendidos para a qualidade final da bebida.
Mas os pesquisadores sabem que eles contribuem para as ressacas também, pois as bebidas tradicionalmente com poucos congêneres (gim e vodca) resultam em ressacas mais leves, pouco severas, do que aquelas com quantidade maior: conhaque, uísque e vinho. É por isso que falam que as bebidas “escuras” são tidas como as mais favoráveis às ressacas – e, logo, às dores de cabeça.
O metanol. Quem bebe vinho além da conta sabe o que é uma ressaca: além das dores de cabeça, a náusea, vômitos, a sede insuperável.
Segundo o British Medical Journal, esses sintomas não devidos apenas ao consumo excessivo de álcool (etanol) comum nos vinhos, cervejas e destilados.
Porém, os médicos ingleses afirmam que esses sintomas são multiplicados quando o etanol deixa o nosso sistema. A maioria dos cientistas culpa os mencionados congêneres pela maioria dos problemas de excesso, entre eles as ressacas dos clientes da Edy.
E o metanol é um congênere comumente encontrado nos vinhos e quase sempre o culpado pela ressaca.
O etanol impede a ação o metanol. Pois é: o álcool que está circulando em seu sistema é que está ainda evitando que você ingresse no túnel de horror da ressaca. O que vai finalmente acontecer quando ele, por fim, é eliminado. O metanol está presente nos conhaques, uísques e vinhos tintos e é metabolizado pelas mesmas enzimas que operam o álcool, só que mais vagarosamente, pois essas ficam inibidas pela presença do etanol. Os cientistas acham que o metanol pode induzir a um aumento de histaminas, resultando em dores de cabeça inigualáveis.
Os sulfitos. Os sulfitos (sais do ácido sulfuroso) existem na natureza e são, desde os antigos romanos, utilizados para conservar alimentos, inclusive os vinhos. Cerca de 1% da população do planeta e 4% dos que sofrem de asma podem reagir negativamente a esse componente.
Os vinhos americanos, por lei, até colocam um alerta nos seus rótulos quanto a presença de sulfitos. Nos demais países, isso é considerado um preciosismo inútil. A quantidade de sulfitos é baixíssima, os problemas são raros. Tudo depende da sensibilidade dos consumidores e da quantidade de sulfitos. Os alimentos podem conter legalmente (nos Estados Unidos) níveis de 6 a 5 mil partes por milhão. A quantidade média de um vinho de grande qualidade está abaixo de 40 partes por milhão. Praticamente inexistente. Não há vinhos sem sulfitos.
Fenóis e taninos. Os fenóis, às vezes chamados de polifenóis, são substâncias químicas responsáveis pelos pigmentos naturais das frutas (e das uvas, portanto), pelos taninos e pelos componentes de sabor.
Os vinhos tintos possuem em média 10 vezes mais polifenóis que os brancos. E são eles os maiores responsáveis pelos benefícios de saúde dos vinhos: combatem do câncer aos problemas coronarianos.
Muitas pessoas são sensíveis aos fenóis taninos e acabam ficando com dor de cabeça. Mas dificilmente pegam uma ressaca por conta deles.
O álcool é um diurético natural, eliminando a água do seu sistema. Logo, o segredo é beber uma taça ou dose de qualquer alcoólico acompanhada de um copo d’água. Cada dose deve ser consumida a cada hora. Quer dizer: você deve levar duas horas para tomar duas doses. E não parar de beber água.
Um remédio ainda melhor é simplesmente beber moderadamente. Muito de qualquer coisa sempre é demais para a nossa saúde. E isso vale também para o vinho.
Pois é o que sei a respeito das ressacas e de outras mazelas ligadas ao vinho. Espero que os clientes da Edy tenham condições para ouvir a origem de suas dores e ressacas. Acho que a parte dolorosa da tarefa da Edy será sugerir moderação. Ou que passem antes num médico para saber mais de suas condições.
Edy, como ela falou, é uma bartender – que fica ali no bar fazendo aquelas misturas, preparando os coquetéis e demais drinques. Bar é abreviação de “barrier”, barreira, pois ao final do século XVI era necessária uma barricada para separar bebidas de bebedores. E palavra “bar” foi criada nessa época para descrever o edifício onde ficava essa perturbadora barreira.
A palavra que primeiro definiu a profissional responsável pelos drinques foi Barmaid, que aparece em 1772. Bartender começa a ser utilizada 50 anos depois. E o “mosca de botequim”, o “barfly”, surge já no século XX, pedindo bebida de graça, jogando conversa fora e tentando saber o telefone da bartender.
Logo, os bebedores radicais sempre causaram dores de cabeça. Em primeiro lugar nas bartenders e em seguida neles mesmos.
Façam como a Edy Rodrigues: escrevam para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br e tentem esclarecer as suas dúvidas.

Absoluta Verdade

A KRP, agência de Relações Públicas da vodca Absolut no Brasil, escreve solicitando correção de erro que teríamos cometido na coluna de 28 de abril, “Abril Costurado” (veja post logo abaixo). A matéria informa sobre a proposta de compra da Allied Domecq pela francesa Pernod Ricard em parceria com a americana Fortune Brands.
A KPR diz que o erro foi “mencionar a marca Absolut como participante dessa fusão, que não tem nenhuma relação com esta aliança”. Fala ainda que “Future Brands distribui, nos EUA, ABSOLUT e Jim Beam”.
Ué, mas não foi isso que escrevi? Cito a coluna do dia 28: “Já a compra da Allied compreendeu uma parceria entre a Pernod Ricard e o conglomerado americano Fortune Brands, dona de destilados, equipamentos esportivos e produtos domésticos. Ela já distribui o uísque Jim Beam e a vodca Absolut...” Nada falo da marca envolvida em fusões e compras. Mas talvez não tenha ficado claro. A vodca Absolut pertence ao grupo sueco Vin&Spirit. E não participa dessa compra. Pronto.
O caso é que a aquisição da Allied pela dupla Pernod-Fortune não pode ainda ser considerada definitiva, pois outros colossos do mundo das bebidas parecem dispostos a melhorar a proposta de US$ 14,2 bilhões dos franceses.
A Constellation Brands, que comprou a Mondavi ano passado e a BLR Hardy em 2003, estuda uma contraproposta e procura aliados para isso. A Brown-Forman, dona de marcas como o Jack Daniel’s, está analisando as suas chances. A Diageo, a número um em bebidas alcoólicas do planeta, quer também entrar nessa briga. Outra candidata é a Bacardi. Nessa arena, só entra bicho grande.
A aquisição da Allied deixaria a Pernod como a segunda maior do mundo, colada na Diageo. Leio na Wine Spectator que a francesa está até disposta a livrar-se da Seagram’s e da vodca Wyborowa para ficar apenas com a Stolichnaya, vendida pela Allied a partir de exclusivo contrato de distribuição com a russa Soyuzplodimport. É uma proposta difícil de igualar. A Diageo e a Bacardi dificilmente vão abrir mão da Smirnoff e da Grey Goose, respectivamente. A Constellation poderia abdicar de suas várias marcas de vodca, mas sua distribuição perde para a da Pernod.
O segmento de cervejas vem perdendo vendas, enquanto vinhos e destilados crescem nos Estados Unidos. Existem poucas marcas de qualidade à venda atualmente. Daí, a atração pela Allied.
O mercado norte-americano, o grande alvo desta transação, é o que mais cresce nos segmentos de vinhos e destilados. Se a Pernod tem sucesso na compra, ficará com 20 das maiores marcas de destilados do mundo. A Diageo fecharia com 17.
O título da coluna é uma homenagem à célebre campanha da Absolut, que durante 25 anos criou um ícone a partir de uma garrafa, sempre começando os anúncios pelo nome da marca. Um desses anúncios é “Absolut Truth”, “Absoluta Verdade”, título que abona também o conteúdo de nossa coluna.
Quer saber? Bebidas é no Sonia Melier. Ligue-se: soniamelier@terra.com.br

6.5.05

Mentiras brancas

Será que existe um tipo de vinho exclusivo para mulheres? Melhor: será que as mulheres precisam de uma versão exclusivamente feminina do nosso querido fermentado? A indústria americana, segundo leio em várias matérias, do New York Times (Veja aqui, somente para assinantes) à Associated Press , está determinada a nos seduzir, fazer de nós sólidas consumidoras de vinhos.
Não é para menos, pois enquanto os homens ficam contando os pontos que os vinhos ganham dos críticos e pesquisando as safras nas várias regiões, as mulheres é que movimentam essa indústria: são responsáveis por 77% das compras e 60% do consumo de vinhos na América.
Por isso mesmo, uma vinícola do porte da Beringer Blass, baseada em Napa, na Califórnia, mas pertencente ao poderoso grupo australiano Foster’s, está lançando um vinho branco, um Chardonnay, com baixo volume de álcool e pouquíssimas calorias. Seu nome: White Lie Early Season Chardonnay.
O nome do vinho, White Lie, me ajudou a entender melhor que tipo de consumidora esses produtores estão buscando. Não se trata do segmento feminino como um todo, mas de uma parte dele, talvez a mais afluente ou a mais visível em termos de mídia.
White Lie é aquela mentirinha quase sempre sem importância, inofensiva, diplomática, trivial, que evita conflitos ou nega racionalizar verdades ou problemas. Um exemplo possível é quando o marido chega em casa com aquele bafo de uísque e pergunta tatibitate se o dia da esposa foi bom. “Agora está melhor!”, responde nossa Escrava Isaura com um sorriso Kolynos, mais falso do que o loiro de seus cabelos, tentando agradar quem que se faz desagradável e evitando perguntas mais sérias. Nada de “discutir a relação”.
Esse vinho vem com um rótulo vermelho de esmalte de unha, e letras cursivas, de novelas baratas. Sua campanha promocional envolve a autora Jennifer Weiner, com vários best sellers no currículo, como o “Good in Bed”, livros ao estilo do “Diário de Bridge Jones”, uma categoria que os americanos chamam de “chick-lit” – com jovens independentes, normalmente solteiras, quase sempre cosmopolitas, disputando bons empregos. Quer dizer: “mudernas”, embora, ao final, alimentem o sonho de um grande amor em sua vida. Ou vivam lambendo as feridas por causa do amor de sua vida. Pois é, o tal “amor de sua vida” continua em cartaz. Todas querem um Mr. Big (ou uma Ms. Big) até que a morte os separe (ou, se não for possível, um bom advogado).
Os Estados Unidos são o país da segmentação. Sabem exatamente quantos homens vestem camisas sociais de listas vermelhas verticais, onde vivem, trabalham, o que comem, quanto ganham etc. E como se comportam diante dos homens que vestem camisas vermelhas com listas horizontais. É por aí.
Há tempos temos lá vinhos para os consumidores gays. E mais recentemente, essa segmentação se ampliou. Em mais alguns dias, uma vinícola de Washington lançará um vinho dedicado às “jovens trabalhadoras”, o “Working Girl White”, como um comprimento às mulheres trabalhadores, segundo a dona, Kato Charlton, da Olympic Cellars.
Uma vinícola de Napa faz o “Seduction”, um tinto: “voluptuoso, com sabores sensuais e um beijo de veludo”, diz o rótulo.
Em janeiro, um produtor de Seattle apresentará o “Mad Housewife”, para a dona de casa tensa, sempre nervosa. No rótulo teremos: “Em algum lugar no frio escuro da lavanderia, depois da lixeira, entre dos brinquedos espalhados. Essa é sua hora”. Francamente!
A coisa não para aí. Temos até um vinho dirigido a amigos dos cães, o “Dog House”, a ser lançado por esses dias, nas versões tinta (Cabernet) e branca (Chardonnay), por cerca de 9 dólares, 50 centavos dos quais para apoiar a instituição “Guide Dogs for the Blind” (Cães Guias para Cegos), sem fins lucrativos. O “Dog House”, por sua vez, se encaixa numa nova tendência de marketing nos States, com vinhos apresentando uma variedade de animais nos rótulos, de pingüins, a porcos, cangurus, gatos e, agora, a cães. O australiano “Yellow Tail”, com um canguru amarelo no rótulo, é o importado que mais vende no país. Não sei se esses vinhos são vendidos em veterinárias.
O professor Robert Smiley, diretor de programas da Universidade da Califórnia, na cidade de Davis, especializada em enologia, diz que apenas 10% dos americanos bebem vinho regularmente. “Num supermercado, onde cerca de um terço de todos os vinhos é comprado, os consumidores ficam confusos e nervosos ao verem centenas de garrafas e rótulos diferentes”.
“Refrigerantes, cervejas e cafés são dominados por marcas bem conhecidas, que gastam dez vezes mais em promoção do que toda a indústria do vinho”, diz ele. “E para competir, os produtores de vinhos têm de ser inovadores”.
Pois os marqueteiros da Beringer foram bem inovadores. Criaram uma promoção com a própria Jennifer Weiner, autora de sucesso, (do já citado “Good in Bed”, e de “In Her Shoes”, que está sendo filmado), que participará de reuniões em clubes de livros e promoverá um concurso nacional sobre as melhores histórias envolvendo “mentiras brancas”.
As rolhas do vinho levam mensagens representativas dessas mentirinhas: “Estarei em casa as sete”; “Essa é a cor natural (dos meus cabelos)”, “Comprei na liquidação”, “Dinheiro não é importante”. Algumas garrafas oferecerão ainda imãs de geladeira com outra “mentira branca”: “Não como nada entre as refeições”.
O White Lie Early Season Chardonnay (feito com a uva branca mais popular nos Estados Unidos), custará 10 dólares a garrafa.
Será um vinho com baixo volume de álcool, apenas 9,8% e pouquíssimas calorias: 97,4%. Os produtores buscaram um nicho que ligar as mulheres de modo positivo ao vinho e ao humor. Nada de muito álcool, nada de ficar tonta – e de perder a forma.
Linda Bisson, que também é professora da Universidade da Califórnia, em Davis, não está muito convencida dessa idéia, mas concorda que muitas mulheres não gostam de bebidas muito pesadas, com muito álcool - e acha que esse vinho talvez possa agradar esse segmento de mulheres.
Volto a repetir uma experiência de marketing que acompanhei de perto, ao longo de alguns anos, com a tentativa de se criar e manter uma marca feminina de cigarros entre as fumantes brasileiras. Nenhuma vingou. O lançamento mais sofisticado, mais caro, o dos cigarros Charm, acabou com o cigarro sendo preferido mesmo pelos homens. Pode? As mulheres que fumam, fumam as marcas existentes no mercado, sem cobrar o "sexo" dos produtos.
Acho que queremos conhecer mais e melhores vinhos, com preços pra lá de justos, claro. Talvez não queiramos saber se esse é um vinho pra gays, lésbicas, cachorros ou para homens. Para nós, talvez, o vinho tem de ser bom e caber em nossa bolsa. E isso. Agora, se Mr. Big gostar dele, melhor para Mr. Big, pois a bebida eu já provei e aprovei.
Diga querida leitora: você se sentiria mais confortável se tomasse um vinho feito só para você, ou seja, pensando apenas no gênero feminino? Ou, não importaria se a calcinha mais parecesse uma cueca, pois o caso é apenas tomar um bom vinho?
Responda aqui para a Soninha através do soniamelier@terra.com.br

5.5.05

Tiros nos Vinhedos

O premiado documentário “Mondovino” estréia agora, 6 de maio. Seu diretor, uma mescla de sommelier e cineasta, o americano Johnathan Nossiter, esteve agora em SP, para a feira ExpoVinis 2005, onde conduziu uma degustação de alguns dos vinhos que aparecem em seu filme –.
Ao contrário de “Sideways”, que conquistou um Oscar de roteiro, com uma história bem-humorada, em torno do amor e da uva Pinot Noir, “Mondovino” vem promovendo tempestades desde Cannes, quando se apresentou ao lado de “Fahrenheit 9/11”, do polêmico Michael Moore. Pois “Mondovino” é também um filme de mocinhos e bandidos, tal como a fita de Moore.
Nossiter esteve no sul do Brasil, na Sardenha, no Languedoc, em Bordeaux, Borgonha, Toscana, Uruguai. Entrevistou magnatas, celebridades, e modestos vinicultores. Por 158 minutos, o diretor mostra as grandes empresas tomando pequenos vinhedos de assalto para fazer um vinho “como o americano gosta”.
A jornalista Carla Rodrigues em sua ótima coluna no site “nominimo”, fala, sobre o filme, que a principal marca do vinho “é justamente o envelhecimento, ameaçado pela indústria”.
Não é bem assim, acho eu. Mais de 90% dos vinhos são produzidos para serem tomados logo, bem jovens. O envelhecimento é a marca dos vinhos mais caros e mais raros. Itens de investidores e colecionadores. O que Nossiter coloca em questão é a transformação do vinho numa coca-cola. O mesmo sabor em todo o planeta. Como os EUA são os maiores compradores e estão entre os maiores e melhores consumidores (não discutem preço), os produtores são incentivados a produzir algo que os americanos gostem, mesmo contrariando o caráter de suas regiões. Nossiter nega que seu filme seja antiamericano ou mesmo antiglobalização. Diz que seu filme é “contra a homogeneização global do vinho”.
O diretor mostra o povo do vilarejo de Aniane, no Languedoc, impedindo os planos de conquista do então gigante Robert Mondavi (acabou quebrando e comprado por um gigante ainda maior, a Constellation). Temos entrevistas com gente famosa, como o consultor francês Michel Rolland, uma espécie de Steven Spielberg do vinho, que ajuda seus clientes a criar bestsellers em dezenas de países segundo a fórmula do “gosto global” (isto é: do norte-americano).
A entrevista principal é com o maior crítico de vinhos do mundo, o norte-americano Robert Parker, cujo nariz e palato estão assegurados em US$ 1 milhão, e que criou um método de qualificar vinhos através de notas, de 50 a 100. Certo: é mais fácil quantificar do que qualificar. As notas de Parker podem fazer um vinho ir para o céu ou para o inferno. Recentemente Nossiter enviou um post para o website de Parker acusando os críticos de seu filme de macarthismo, orelianismo e má-fé, de dissimulados, difamadores e egoístas.
Não perca “Mondovino”. Você vai entrar num tiroteio. E saber que o mundo dos vinhos nada tem de luvas e polainas.
Comente o filme aqui, no soniamelier@terra.com.br

28.4.05

Dica de presente: ExpoVinis

Você vai à ExpoVinis 2005, experimenta vinhos de centenas de vinícolas de dezenas de países de três continentes e, por fim, escolhe aquele (ou aqueles) que sua mãe gostaria de provar ou de ter à mesa agora no 12 de maio. Improvável que alguma lembrança venha a ser mais bem pesquisada, provada e querida do que esta.
Mas a maior feira de vinhos da América Latina guarda outros presentes. Por exemplo, é improvável que num mesmo evento tenhamos a reunião de pelo menos cinco grandes estrelas do mundo do vinho.Sobre Steven Spurrier, o editor de uma das melhores revistas de vinhos do mundo, a inglesa Decanter, já escrevi a respeito . Veja no post abaixo, "Spurrier vem aí".
Pois o Spurrier vai conduzir uma degustação sobre os espumantes brasileiros, cada vez melhores, e um debate sobre o presente e o futuro dos vinhos sul-americanos. Vai fazer mais: vai reeditar um evento que o deixou famoso até hoje, uma degustação realizada em Paris em 1976 que colocou no pódio mundial os vinhos da Califórnia.
Spurrier, hoje na casa dos 60, tem de 41 anos de vinho. Começou em 1964 como trainee de um comerciante de vinhos em Londres. Em seguida, mudou-se para Paris e abriu a sua loja de vinhos, a Les Caves de la Madeleine. Consultor editorial da revista Decanter há 11 anos, Spurrier é autor e editor de livros sobre vinhos e tem papel destacado na divulgação dos vinhos do Novo Mundo.
Em 1976, em Paris, ele organizou um teste cego que reuniu os mais prestigiosos vinhos de Bordeaux e da Borgonha e apenas dois vinhos da Califórnia, um Cabernet Sauvignon e um Chardonnay. Pois, os vinhos americanos chegaram em primeiro – e com pontos concedidos por uma maioria de degustadores profissionais franceses. Um repórter da revista Time estava presente e anunciou para o mundo o novo Waterloo francês. Hoje, as garrafas dos vinhos vencedores, um Stag’s Leap 1973 Cabernet Sauvignon e um Château Montelena Chardonnay 1973, da vinícola Barret, fazem parte da coleção permanente no Smithsonian.
Vamos ter um cineasta, o americano Johnathan Nossiter, que dirigiu o documentário Mondovino, uma tempestade que anda varrendo o mundo dos vinhos menos de um ano após ser apresentado em Cannes.
O diretor vai conduzir uma degustação de vinhos citados no seu filme, como o Bianchetti Tinto (Vale do São Francisco, Brasil), Dal Pizzol Tannat (Serra Gaúcha, Brasil), San Pedro de Yacochuya (Região Salta, Argentina), Família Magrez (Uruguai), entre outros. Durante a degustação haverá apresentação de trechos do filme e debates.
Patrício Tapia, jornalista chileno, volta à ExpoVinis. Ele é autor do importante guia “Descorchados” sobre os vinhos de seu país, responsável pela avaliação dos vinhos do Cone Sul para a importante revista norte-americana Wine & Spirits. Tapia também é colunista da “Prazeres da Mesa”, revista nacional sobre gastronomia.
Pensa que é só isso? O enólogo e historiador Carlos Cabral, fundador da SBAV, Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, a entidade pioneira em reunir amantes da bebida para debatê-la e prová-la seriamente.
Cabral vai apresentar um panorama do vinho no Brasil, tema que só ele mesmo pode esgotar, autor que é do fundamental “Presença do Vinho no Brasil: um pouco de história” (ISBN 85.293-0070-X). Não perca o papo do Cabral, nem deixe de ler seu livro.
E o colunista Jorge Lucki, também da Prazeres da Mesa”, conduzirá degustação de seis grandes Barolos da safra de2000 que receberam o “Tre Bicchieri”, as “três taças”, classificação máxima para vinhos de qualidade da publicação italiana especializada nos fermentados e em comidas, a Gambero Rosso.
Pois você já entendeu: a ExpoVinis é na verdade um presente de mãe pra filho, pelo menos para os amantes de vinhos.
Mas terminou? Nada disso. Vamos ter ainda a final do Concurso Sommelier Revelação ExpoVinis 2005, com prova prática de degustação e serviço de cinco candidatos previamente classificados pela Associação Brasileira de Sommeliers – capítulos de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília.Enfim, não há porque vacilar. A ExpoVinis tem o defeito de ser curtíssima. Vai de 3 a 5 de maio. Será realizada na ITM Expo, Avenida Roberto Zuccolo, 555, Vila Leopoldina, São Paulo. Ligue para a Exponor Brasil, via (21) 3151-6444 ou acesse o site. Está aberta das 14 às 19 horas para profissionais do setor e das 19 às 22 horas para o público em geral. Não deixe de ir.
Mondovino e Nossiter
Agora, uma palavrinha final sobre um participante que está provocando tsunamis no mundo dos vinhos, Johnathan Nossiter, criador e diretor do documentário Mondovino.
O filme foi apresentado em Cannes ao lado do já então badalado “Fahrenheit 9/11”, do polêmico e premiado Michael Moore, criticando as políticas do presidente Bush no Oriente Médio. Um documentário com mocinhos e bandidos.
Mondovino é também um filme com mocinhos e bandidos, só que acontece no mundo dos vinhos, com direito a trapaças, ameaças de morte, abusos de poder.
O diretor americano Jonathan Nossiter, 43, que além de experimentado documentarista, é considerado ótimo sommelier, grande conhecedor dos fermentados. Na ocasião, Mondovino representou uma surpresa para a crítica, pois foi selecionado à última hora para concorrer ao prêmio máximo, a Palma de Ouro. Nossiter esteve no sul do Brasil, na Sardenha, no Languedoc, em Bordeaux, Borgonha, Toscana, Uruguai. Entrevistou magnatas, celebridades, e modestos vinicultores.
Por 158 minutos, o diretor mostra um mundo dos vinhos também conturbado, com as grandes empresas tomando pequenos vinhedos de assalto para fazer um vinho “como o americano gosta”, sem diversidade. Mas Nossiter nega que seu filme seja uma denúncia ou antiamericano ou mesmo antiglobalização. “O vinho para mil é o único produto na Terra tão complexo quanto o ser humano”, explicou. “O que mais odeio no mundo dos vinhos não é nada relacionado com a bebida, mas com o esnobismo. Acho que o público vai reagir assim também quando vir essas pessoas (no filme)”, disse.
O diretor nos apresenta o povo do vilarejo de Aniane, no Languedoc, impedindo os planos do (na época) gigante Robert Mondavi (faturamento então de US$ 500 milhões anuais) de comprar um vinhedo. Em contrapartida, revela os favores dos clãs florentinos dos Frescobaldis e Antinoris, grandes produtores italianos, para negociar com Mondavi. O conglomerado de Robert Mondavi ruiu logo depois e foi absorvido pela gigante Constellation.
Temos ainda entrevistas com gente famosa, como o consultor francês Michel Rolland, descrito como uma espécie de Steven Spielberg do vinho, que ajuda seus clientes a criar bestsellers em dezenas de países segundo a fórmula do “gosto global”. O "efeito especial" que ele promove parecer ser esse: uma cocalização dos vinhos, tudo igual, ao gosto do consumidor norte-americano.
A entrevista principal é com o maior crítico de vinhos do mundo, o norte-americano Robert Parker, cujo nariz e palato estão assegurados em US$ 1 milhão. As notas de Parker podem fazer um vinho ir para o céu ou para o inferno, no momento em que são publicadas. Na entrevista, na casa do crítico em Maryland, EUA, Parker informa que acabara de cancelar uma viagem em razão de ameaças de morte (mais um charme do crítico). Recentemente Nossiter enviou um post de 4.300 palavras para o website de Parker, acusando os críticos de seu filme de macarthismo, orelianismo e má-fé. Os parceiros de Parker (Rovani e o crítico Mark Squires) são taxados de “dissimulados, difamadores e egoístas”.
Mas é particularmente o parceiro de Parker nas suas degustações, Pierre-Antoine Rovani, o mais atacado. Nossiter o aponta como um apologista de Mussolini, um fascista, anti-semita, “monolítico e egoísta”.
O post não coloca apenas Parker e seus parceiros no mesmo saco. Ataca também um bom número de publicações especializadas em vinho, como a Wine Spectator, Decanter, Revue du Vin de France e a Gambero Rosso, acusadas de falta de vigor crítico e investigativo.
Nossiter recusa a acusação de que Mondovino é uma polêmica antiglobalização. “Sou filho de Bernard Nossiter, destacado repórter de economia e correspondente estrangeiro do Washington Post e New York Times. Meu pai viajou com a família através do planeta...” Diz que seu filme é “contra a homogeneização global e não propriamente contra a globalização”.
Nossiter documenta as tradições que passam de geração para geração de vinicultores. São produtores independentes que estão hoje travando uma batalha pela sua sobrevivência e de suas tradições contra as multinacionais do vinho. Nossiter, contudo, afirma que Mondovino não é um filme político. “É sobretudo um filme sobre pessoas. Não há mocinhos nem bandidos, aqui”. Mas o tiroteio que estamos ouvido parecem mesmo o de um bang-bang, daqueles de grande qualidade, um clássico.
O filme está agora nos Estados Unidos. Espero que venha pra cá também. De qualquer modo, Nossiter promete uma versão em DVD. Não custa você conferir pessoalmente com o diretor.
Pois ai está a minha dica para o Dia das Mães. É apenas o mundo dos vinhos reunido na ITM Expo.
Faça contato pelo soniamelier@terra.com.br

Abril costurado

Abril agitado no mundo das bebidas. A francesa Pernod Ricard está comprando o gigante inglês Allied Domecq por US$ 14,2 bilhões, a maior aquisição desse setor desde a venda da Seagram em 2001. O conglomerado francês, assim, dobra de tamanho pela segunda vez em apenas quatro anos.
Enquanto a Pernod Ricard, terceira maior produtora de destilados do mundo, simplesmente está comprando a segunda maior, a australiana e cervejeira Foster’s compra outra conterrânea, a Southcorp – e por uma oferta de US$ 2,5 bilhões se transforma no segundo maior produtor de vinhos do mundo, atrás apenas da nova-iorquina Constellation Brands.
A Southcorp, a maior produtora de vinhos da Austrália, resistiu ao cerco da Foster’s por três meses, recusando uma oferta inicial de US$ 3,24 por ação. A cervejeira vinha de adquirir 19% das ações da Southcorp, via a compra de ações da família Oatley. No final, aumentou a oferta para US$ 3,33 por ação.
A californiana Gallo, maior produtora de vinhos do mundo até o final do ano passado, cai agora para o terceiro lugar no ranking global. A Constellation chegou ao primeiro com a compra da Mondavi em novembro do ano passado.
A nova companhia terá marcas importantes de vinho: Beringer, Wolf Blass, Meridian, Château St. Jean, Château Souverain, Stag’s Leap, a celebérrima Penfolds, Lindemans, Rosemount e Wynn’s.
Já a compra da Allied compreendeu uma parceria entre a Pernod Ricard e o conglomerado americano Fortune Brands, dona de destilados, equipamentos esportivos e produtos domésticos. Ela já distribui o uísque Jim Beam e a vodka Absolut. Com a aquisição, dobrará suas vendas de vinhos e destilados e ficará entre as quatro maiores empresas de bebidas do mundo. Levará as marcas: Canadian Club, de uísque, Courvoisier, um famoso conhaque francês, Maker’s Mark, de bourbon, e com a tequila Sauza.
A Pernod Ricard ficará, da Allied Domecq, com o uísque Ballantine’s, o gim Beefeater, os licores Kahlua e Tia Maria, o rum Malibu, a vodka Stolichnaya, com os vinhos Montana (Nova Zelândia), Bodegas y Bebidas (Espanha), Camp Viejo (Espanha), champanhes Mumm e Perrier Jouet. Já detém os uísques Jameson e Bushmills (irlandeses), o escocês Chivas Regal, o gim Seagram’s, o bourbon Wild Turkey, o conhaque Martell e os vinhos Jacob’s Creek.
Contudo, enquanto martelos não são definitivamente batidos (o que deve acontecer em julho), a Constellation, a número um do mundo em destilados e vinhos, declara interesse em entrar nessa disputa.
Depois da Allied serão muito poucas as companhias a oferecer marcas como o gim Beefeter ou o conhaque Courvoisier. É natural, portanto, que algumas companhias ou mesmo um grupo de empresas estejam tentadas a fazer contra-ofertas.
Mas será difícil chegar perto das cartas que a Pernot Ricard e a Fortune Brands colocaram na mesa – mais de 14 bilhões de dólares!
A Constellation ainda está digerindo a compra da Mondavi, por US$ 1,04 bilhão ano passado. O mais provável é que queira comprar apenas algumas marcas da Allied. Além do mais, o conglomerado não tem a rede de distribuidores ao redor do mundo que a Pernod, a Fortune e a Allied possuem.
De qualquer modo, a Constellation contratou os bancos de investimento Rothschild e Merrill Lynch para avaliar uma oferta à Allied, provavelmente em parceria com a Brown-Forman Corporation, dona da Jack Daniel’s e Southern Comfort, entre outras marcas, e com a Bacardi (dona do famoso rum e ainda lambendo as feridas em razão da compra da vodka Grey Goose por US$ 2 bilhões, em 2004.
A Pernod e a Foster’s ficarão com um elenco de marcas competitivas em qualquer mercado, em particular no norte-americano – que é o grande alvo de todas as empresas de bebidas.
Foi um abril agitado, em nada despedaçado, ao contrário, devidamente costurado, que confirma a tendência de fusões no setor de bebidas. Alguém aí falou em globalização?
Sonia Melier ainda não está costurada e atende pelo soniamelier@terra.com.br

15.4.05

De safra variada

A Safra Feminina
Maria Lúcia da Costa Rodrigues, fundadora da confraria Amigas do Vinho, envia a boa matéria que a revista Criativa de abril realizou sobre “A safra feminina”.
A matéria fala sobre a influência que as mulheres começam a exercer em restaurantes e distribuidoras de vinhos no Brasil, justamente numa posição ainda dominada por homens – a de sommelier.
A reportagem expõe os preconceitos contra as mulheres que, entretanto, agora estão começando a mostrar suas garras como profissionais do vinho.
O vinho é um agente civilizador e, como tal, não tardará a democratizar a participação dos sexos em seu mundico.
Não custa lembrar que somos nós as maiores compradoras e consumidoras de vinho, em média, em todo o planeta (dado do Wine Market Council).
Mais do que os homens, as mulheres se envolvem mais com os vinhos: preferem a bebida aos coquetéis (já os homens...) e consomem vinho com mais regularidade (dados da Vinexpo Américas e da Canyon Road Winery, da Califórnia).
O sentido do olfato entre as mulheres é mais desenvolvido do que o dos homens, o que lhes favorece no ofício da degustação (e, portanto no de sommelier), pois podem melhor do que ninguém detectar aromas e todas as suas sutilezas e analisar melhor a bebida. Essa faculdade já foi comprovada cientificamente (dado da Universidade da Califórnia, em Davis, através da professora emérita Carole Meredith).
No Reino Unido, cerca de 40% dos críticos de vinho são mulheres. E são todas de seleção: o Times tem a Jane MacQuitty, The Sunday Times a Joanna Simon e o Financial Times a minha guru Jancis Robinson.
Mas no resto do mundo são pouquíssimas as colunas de vinho assinadas por mulheres. Com absoluta certeza, sou a única a escrever sobre esse néctar em Secretário, modesto distrito de Petrópolis, onde também crio carijós.
“A Safra Feminina” apresenta depoimentos de mulheres que hoje lideram movimentos em torno de maior conhecimento e participação das mulheres no mundo dos vinhos, como o da amiga Maria Lúcia.Visite o site das Amigas do Vinho e solicite a matéria na íntegra.
A Safra Masculina
Enquanto isso, na Filadélfia, EUA, realizou-se uma grande concurso de vinhos (considerado “o mais prestigioso”), a Starwine Internationl Wine Competition.
Participaram 60 degustadores de 20 países, que provaram 2 mil vinhos de 30 nações.
E não deu outra: a maioria dos premiados foi só de homens, inclusive o de melhor sommelier, Nunzio Alioto, de um famoso restaurante de São Francisco.
De dez premiados, apenas uma mulher, Alpana Singh, foi premiada, por “Relevantes Serviços de Restaurante”. Ela é a sommelier no restaurante 4 estrelas de Chicago, o Everest. Tem 24 anos e é Master Sommelier desde os 21.
Mas a competição não parou na Alpana. Não é que arrumaram um jeito de eleger o “Sommelier Mais Sexy”, um tal Paul Brunet, naturalmente um francês, já que estamos no século XIX, tudo que cheira a sacanagem é francês.
Onde trabalha o Paul Brunet, o pessoal da Starwine não diz. Ou não sabe, não quer dizer ou talvez ele esteja desempregado. Mas é sexy, logo... Filadélfia tem sempre algo no meio!
Falam apenas que é um professor de vinho e “bon vivant”. Foi eleito pelo seu “charme, elegância e graça, que descrevem perfeitamente um bom vinho bem como um Sexy Sommelier”. Não é uma graça?
Se fosse uma mulher e “bonne vivant” eu queria ver. Ia ser um tal de jogar pedra na Geni.A matéria sobre a competição da Starwine está aqui .
A Safra da Terrinha
Mais uma dica das Amigas do Vinho: dia 6 de maio você já tem programa. É a degustação de uma partida dos melhores vinhos portugueses, com a presença de 24 de seus produtores.
Vamos conhecer o Brunheda Vinhas Velhas Tinto 2001 (Douro), o Incógnito Tinto 2002 (Alentejo), o Quinta da Falorca Garrafeira Tinto 2000 (Dão), o Vale de Ancho Reserva Tinto 2001 (Alentejo), o Mouchão Tinto 2000 (Alentejo), o Pera Manca Branco 2002 (Alentejo) e mais outros 60 vinhos portugueses entre marcas consagradas e lançamentos recentes no Brasil.
Por região, teremos:
Alentejo – António Saramago, Borba, Casa de Sabicos, Cortes de Cima, Couteiro-Mor, Eborae Vitis e Vinus, Francisco Nunes Garcia, Fundação Eugénio de Almeida, Herdade do Meio, Herdade Porto da Bouga, Monte do Pintor, Monte dos Cabaços, Mouchão, Roquevale e Tapada do Barão.
Dão – Quinta do Cerrado e Quinta Vale das Escadinhas.
Douro – Bago de Touriga, Burmester, Gilberts, Quinta das Peixotas e Quinta de Brunheda.
Estremadura – Fonte das Moças e Quinta das Cerejeiras.
Terras do Sado – António Saramago.
Será, como disse, no dia 6 de maio, de 16 às 22 horas, no Hotel Sheraton Barra (Av. Lúcio Costa, 3.150).
As Amigas do Vinho terão o preço especial de 80 reais.
Se vocês quiserem aparecer (e tenho certeza que vão querer) é só ligar para o Sr. Ivan Barros pelos telefones 2491-5403, 3491-6659 ou pelo 9958-8265, todos do Rio (21). O fax é o 21-2491-6175. Se quiser utilizar a internet, mande seu bilhete pelo champvin@globo.com
O evento é realizado pela Adega Alentejana
Qualquer dúvida é só clicar novamente no site das Amigas do Vinho.
Alfredo di Roma com nova Carta
O enófilo Paulo Nicolay, expert que já responde pela adega do Enoteca Fashion, no Fashion Mall, em São Conrado, Rio de Janeiro, é o responsável pela reformulação da nova carta do tradicional Afredo di Roma, no Hotel InterContinental Rio, também em São Conrado.
São 120 rótulos destacando vinhos de Portugal, França, Espanha e Itália. Do Novo Mundo, temos a especialidade australiana, com a uva Shiraz, a chilena Carmenère, a Malbec argentina e a Sauvignon Blanc neozelandesa.
O Alfredo di Roma, especializado em gastronomia italiana, com o menu assinado pelo chef Jair Lima, está recomendando a salada de camarão com fava olho de peixe e o risoto de cordeiro com presunto de Parma frito, perfumando com grapa italiana. Na dúvida, temos o peito de pato com crosta de sal grosso e mostarda com molho de laranja.
Vale voltar ao Alfredo, agora com melhores ofertas de vinhos (além dos pratos saborosos).
Reserve pelo (21) 3323-2200, ramal 8522.
Credenciamento para a ExpoVinis Brasil
Atenção que a maior feira de vinhos da América do Sul, a ExpoVinis Brasil começa agorinha: vai de 3 a 5 de maio, na ITM Expo: Av. Engenheiro Roberto Zucollo, 555, São Paulo, SP.
Os jornalistas e blogueiros que desejarem se credenciar é só informarem nome, cargo, veículo e telefone, através do e-mail credenciamento@ch2a.com.br
A credencial deverá ser retirada na Salda de Imprensa com equipe da CH2A. Maiores informações com a Alessandra Casolato (alecasolato@ch2a.com.br), Jailde Barreto (ch2a@ch2a.com.br0 ou diretamente para o CH2A: (11) 3253.7052.Veja logo abaixo nosso post sobre o evento: Spurrier vem aí.
Atenção, gente! Sonia Melier agora está no soniamelier@terra.com.br

8.4.05

Teimosia

Essa é uma história sobre teimosia, obstinação, vontade. Começa num lugar improvável para os vinhos, a Fazenda Santa Maria, no Vale do São Francisco, em pleno sertão nordestino, distante uns 500 quilômetros de Recife.
A fazenda é na verdade uma vinícola e produz duas safras por ano. Seu vinho principal, o Rio Sol, está vendendo o que quer na Alemanha, Holanda, Finlândia e agora chega à Inglaterra e já está seduzindo consumidores e críticos de vinho.
A Santa Maria pertence ao médico Henrique da Fonte. Depois de praticar psiquiatria no Recife, Rio e Paris, escolheu ficar perto da terra de sua família e alimentou o sonho de fazer seu próprio vinho.
Fez contato com Carlos Moura, 31, diretor da empresa portuguesa Dão Sul, que buscava terras no sul do Brasil para instalar uma vinícola. O sul é o reduto tradicional dos vinhos brasileiros, mas seu clima é muito úmido.
Entra em cena, então, Otávio Piva de Albuquerque, o presidente do Grupo Expand, pioneiro distribuidor de vinhos no país, importante importador, dono de uma cadeia de wine bars no Rio e na sua São Paulo e sobretudo grande incentivador da bebida entre nós.
Está criado assim o projeto ViniBrazil, cujo resultado mais recente é o Rio Sol.
A Fazenda é banhada pelo Rio São Francisco. Os agricultores têm sempre que ficar de olho nos jacarés: às vezes eles saem do rio e podem morder o pessoal que está nas videiras.
Nesse clima quente, conseguem-se duas colheitas por ano nos 200 hectares de vinhas de Cabernet Sauvignon e Syrah, de onde saem as uvas para a produção do Rio Sol. Em outras áreas são feitas experiências com variedades portuguesas e francesas.
Se fossem deixadas ao acaso, as vinhas poderiam produzir até cinco safras a cada dois anos em razão do clima quente. Mas, diz Moura, “é o caso de irmos aprendendo. Não há livro sobre a produção de vinhos nessas condições. Portanto, estudamos tudo o tempo todo".
O caso é que água não falta e regulando o seu suprimento podem controlar o desenvolvimento do vinhedo e chegar a duas safras anuais. A água vem de uma enorme bacia, do tamanho do País de Gales, formada por uma represa do São Francisco.
Essa história é contada pelo repórter e crítico de vinhos inglês Andrew Catchpole, do jornal Telegraph.
Diz ele que, se substituirmos os crocodilos por cangurus e os coqueirais pelos eucaliptos australianos, o vinhedo de Santa Maria poderia estar na Austrália – país que reflete o estilo do Rio Sol.
O crítico inglês afirma que esse vinho tem tudo para seduzir o consumidor estrangeiro: é um tinto fácil de beber, apetitoso, cheio de frutas. Tão bom quanto argentinos, chilenos e uruguaios que fazem as glórias dos vinhos do Novo Mundo no exterior.
Catchpole até arrisca que a nossa Caipirinha, até agora a maior contribuição brasileira para o mundo das bebidas, já tem um concorrente sério, o Rio Sol, “um vinho fora do comum, atraente”.
O crítico inglês avalia o Rio Sol Cabernet/Syrah 2003: abundantes aromas de frutos, com destaque para o cassis, e com bastante corpo para enfrentar os sabores da cozinha rústica da Itália e da península Ibérica. É vendido nas lojas da Expand por R$ 24,80.
O enólogo, crítico e historiador Carlos Cabral, que acaba de nos brindar com a “Presença do Vinho no Brasil”, uma minuciosa, surpreendente e valiosa história do vinho em nosso país, do momento em que chega com Cabral ao Brasil, até os dias que correm, nos fala do “fetiche da mercadoria”.
“Não consumimos apenas o produto, mas também (ou talvez sobretudo), a marca, a procedência, a tradição, ou seja, tudo aquilo que individualiza e diferencia um produto de um similar qualquer”.
Cabral conta de nossa teimosia em produzir vinhos de qualidade, sobretudo a partir da revolução promovida pelos imigrantes italianos no Rio Grande do Sul, construindo uma indústria nacional que só faz crescer e melhorar. E se estender, pois já chegou a uma região inesperada, no vale do São Francisco, origem do Rio Sol.
O fato é que o tal fetiche não está resistindo à nossa obstinação, a vontade de ter sempre um vinho à nossa mesa – fato que, aliás, não deixamos de ter desde Cabral, o navegante, o que é confirmado por Cabral, o historiador.
O feitiço perde forças e a hora está chegando para o vinho nacional, sem ufanismos.A matéria do inglês Andrew Catchpole está no Telegraph.
O livro “Presença do Vinho no Brasil: um pouco de história”, de Carlos Cabral, é da Editora Cultura, São Paulo (código ISBN 85.293-0070-X). Acaba de ser lançado e você não pode deixar de lê-lo.
Se quiser mais dicas sobre o Rio Sol e o livro do Carlos Cabral (onde comprá-lo ou encomendá-lo) é só clicar para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

26.3.05

Se você vai a uma degustação

Só saia de casa depois de bem alimentada, com o estômago devidamente forrado.
Arrume um motorista que não beba. Ou vá de táxi, ônibus. Mas não dirija – depois da degustação, claro.
Numa degustação profissional, temos cuspidores à disposição – aqueles baldes especiais para deitarmos fora o vinho que está em nossa boca.
Mas na maioria desses eventos, não diretamente dirigidos a degustadores profissionais, não temos esses cuspidores. Temos que beber o vinho mesmo. Afinal, formos ali para isso.
Tomemos o caso da degustação dos vinhos uruguaios, que vai acontecer dia 4 de abril (veja o post abaixo: “Os bons vinhos do vizinho”). Serão apresentados vinhos de 15 vinícolas.
Caso você consiga o improvável, ou seja, provar apenas um vinho de cada bodega, consumirá 15 taças, com pequenas porções de vinho, que modestamente consideramos equivalentes a 8 taças regulares. É muito vinho colocado em seu sistema num espaço de mais ou menos duas horas. É muito pouco tempo.
Logo, não dirija. E beba água após cada taça de vinho. Isso vai hidratá-la, além de evitar que os sabores da primeira taça se confundam com os da segunda – e assim por diante.
Cheire o vinho, em primeiro lugar. Coloque a taça no balcão, gire-a gentilmente (o balcão estará servindo de apoio mais seguro; você pode até fazer isso segurando a taça, mas se não tiver prática, arrisca salpicar de vinho os seus vizinhos). Isso ajudará a que os aromas naturais do vinho sejam liberados. Aproxime a taça de seu nariz e dê uma boa inalada.
Você gosta de vinhos, está ali para conhecer novos rótulos, novas uvas, novos blends, vinhos de outras regiões ou países. Não precisa se preocupar com as palavras para descrever os aromas percebidos por essa inalada. Isso é coisa para os críticos de vinhos, que têm um vocabulário todo especial, muitas vezes lotado de pernosticismos intraduzíveis ou ridículos.
Apenas force um pouco a sua memória: você pode perceber desde aromas de chocolate, baunilha, de grama, de frutas, de flores, de ervas, especiarias, de leite, manteiga e até mesmo de suor, papelão mofado, xixi de gato, óleo diesel. Enfim, quanto mais aromas você detectar, melhor o vinho perceber. Nesses casos, os críticos chamam o vinho de complexo. Ele é mais rico, tem mais qualidades.
O vinho talvez seja a única bebida a proporcionar tanto prazeres intelectuais quanto sensoriais. Deixe os gostos intelectuais com os esnobes, por enquanto, e se entregue aos seus sentidos, treine-os.
Bom, você já deu aquela aspirada e percebeu um punhado de aromas. Já pode provar?
Não, ainda não. Antes, coloque a taça de volta no balcão e agite-a novamente. Mais ar fará contato com a bebida e isso permitirá que você examine melhor a sua cor, sua transparência e clareza.
Os vinhos não devem apresentar-se enevoados. Devemos poder ver até o outro lado da taça. Em alguns deles, você notará algumas partículas, sedimentos naturais de um vinho que não foi filtrado, pois o produtor procurou não retirar elementos naturais da bebida. Normalmente, esses sedimentos não representam problemas. Para melhor examinar a sua cor (repare na variação de cores, do centro da taça para a borda), coloque a taça contra um guardanapo imaculadamente branco, evitando que outras cores (do balcão, das luzes etc.) alterem a do vinho.
No caso da especialidade uruguaia, vinhos com a uva Tannat, repare que rubro profundo, quase negro. Uma beleza.
Agora, sim, está na hora de provar um pouco do vinho. Faça a bebida girar em sua boca, praticamente bochechando. Os melhores vinhos vão liberar diferentes sabores. Numa segunda provada, você poderá descobrir mais detalhes, como adstringência, acidez, presença maior ou menor de açúcar e álcool. Fique apenas no bocejo. Vai pegar muito mal se você gargarejar.
Para encerrar, não tema em fazer perguntas. Os produtores, os representantes das vinícolas estão ali preparadíssimos para tirar quaisquer dúvidas. E farão isso com imenso prazer.
Depois, chame o motorista e volte pra casa, com memória ainda cheia dos sabores, aromas e cores que uma simples taça pode oferecer. O vinho é isso: um calidoscópio de prazeres numa só garrafa. Nenhuma outra bebida se compara. Aquela ida a uma degustação, que você estava pensando ser uma chatice vai se provar mais animada do que um parque de diversões.
Perguntas? Clique para soniamelier@terra.com.br

25.3.05

A taça da alegria

Os primeiros brasileiros a tomar vinho feito de uvas fermentadas foram dois tupiniquins, em 1500, nessa mesma época de Páscoa. Afonso Lopes, um dos pilotos da esquadra de Cabral trouxe dois índios a bordo da nau capitânia no dia 30 de abril. Ofereceram a eles pão, peixe cozido, doces, mel, figos secos. Não quiseram comer nada. Por fim, diz Pero Vaz de Caminha, “trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram na boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais”.
Explica Carlos Cabral no seu imperdível “Presença do Vinho no Brasil” (Editora Cultura, ISBN 85.293-0070-X; o livro começou a ser distribuído para as livrarias em março) que a favor dos indígenas, que recusaram o vinho, “podemos argumentar que a bebida oferecida não tinha a elegância de aromas e paladar que encontramos nos vinhos de hoje. Até porque, após uma viagem de 42 dias no Atlântico, o nobre vinho alentejano tinha passado todas as horas do dia e da noite sacolejando vigorosamente e, por melhor qualidade que tivesse, foi um vinho judiado o tempo todo”.
É que os tupiniquins tinham seu próprio vinho, o cauim, fermentado feito de mandioca que tomavam apenas em rituais, esclarece Carlos Cabral.
Diz o brilhante enófilo e historiador que o vinho de uva e o trigo para a missa faziam parte da logística das primeiras viagens dos colonizadores.
Pois o vinho foi aos poucos entrando na vida do brasileiro e hoje já os estamos produzindo com grande qualidade e até com mais resveratrol do que os chilenos, argentinos e portugueses.
É que os vinhos gaúchos contem uma substância, o resveratrol, em maior quantidade que a dos três concorrentes citados acima, conforme confirmam as pesquisas dos cientistas do Departamento de Tecnologia e Ciência da Universidade de Santa Maria (RS).
O resveratrol é considerado um poderosíssimo antioxidante, peça fundamental no combate a uma das maiores causas de mortalidade no Ocidente: as doenças cardíacas.
Numa outra ponta, o farmacologista carioca Roberto Soares de Moura, 68, trabalha há cinco anos na depuração de um extrato da casca da uva que predomina nos parreirais brasileiros, a vitis labrusca. Esse extrato será em mais uns dois anos uma senhora arma contra a hipertensão.
Por isso, nesses tempos de Páscoa, vamos abrir nossas garrafas e celebrar. A teimosia do vinho no Brasil, e sua importância em nossas mesas. Sim, pois o vinho, até mesmo com base em rituais religiosos, é presença obrigatória.
E o teste? Claro que não esqueci do teste. Você respondeu mesmo as 20 questões formuladas pelos médicos do Hospital Universitário Johns Hopkins? Pois leia essa coluna até o fim: a resposta estará lá.
Mas continuemos, que a Páscoa tem preferência.
A Bíblia tal como hoje a conhecemos tem como base textos em grego, onde a palavra “oinos” só é utilizada para significar vinho fermentado – ou seja, com álcool.
Sabemos que a Páscoa, tal como uma variedade de celebrações cristãs, deriva diretamente de ritos e costumes judaicos, que, por sua vez, se originaram lá nos primórdios do homem, quando apenas se adorava o deus sol, a irmã lua, os raios e os trovões e se festejava, por exemplo, a chegada da primavera. A Páscoa é uma lembrança daqueles tempos.
A Santa Ceia, realizada na primavera, distava apenas seis meses da colheita da uva. Não se conheciam técnicas de conservação então. Logo, seria impossível que tomassem apenas suco de uva: ele já teria virado vinagre. Ou, mais provável, teria fermentado e virado vinho. E os textos originais a respeito só se referem a “oinos”.
Jesus e discípulos fizeram uma ceia dentro da tradição da Páscoa judaica, que comemora a libertação dos hebreus da escravidão no Egito, dois mil anos antes do nascimento de Cristo. E é da tradição judaica que se tome 4 e apenas 4 taças de vinho, cada uma com um significado preciso.
A primeira é a taça da santificação, a segunda a do julgamento, a terceira é a da redenção e a quarta a da louvação ou da alegria. É muito provável que Jesus tenha dito (Mateus, 26:28) “Este é meu sangue... derramado em benefício de muitos ... para que tenham perdoados seus pecados...” na terceira taça, a da redenção.
Quanto ao vinho sacramental, o chamado “vinho de missa”: é um vinho como outro qualquer, com álcool, cuja origem e graduação vão depender da supervisão do padre ou do superior da ordem religiosa. Não existe também qualquer restrição quanto ao estilo, se branco ou tinto, embora esse último tenha a preferência por melhor lembrar o sangue de Cristo.
Na frota de Cabral se rezava missa todos os dias. Tinha que ter vinho. O Brasil foi colonizado por católicos fervorosos. Para isso era preciso ter vinho sempre. E assim a bebida foi sendo implantada na terra dos tupiniquins.
Peixes e Chocolates. A Páscoa é tempo de opostos: peixes, normalmente salgados, como o bacalhau seco que herdamos dos portugueses; e chocolates. Sal em demasia e doce além da conta não são lá muito fáceis de combinar com vinhos.
Não sei bem porque aqui na Semana Santa consumimos mais peixes, o bacalhau em particular, do que carnes. Explico: o católico passa a Quaresma fazendo jejum de carne, substituída por aves e peixes. Logo, seriam aceitáveis pratos de carnes vermelhas. Talvez, a forte herança portuguesa, com seus deliciosos pratos de bacalhau, tenha pesado mais.
E quais os vinhos que vão melhor com peixes e chocolates? O prato tradicional aqui, deliciosa herança portuguesa, é o bacalhau, que, dependendo de sua receita, admite tanto os brancos quanto os tintos. Aqui, preferimos o bacalhau mais salgado e seco, com muito azeite, temperos, sabores fortes.
O resultado é que, nesse caso, a melhor escolha é a de tintos. Se apenas os temperos forem dominantes, mas o sal usado com parcimônia, podem ser tintos jovens, com bons taninos. Muito salgado, devemos escolher um tinto leve, frutado, com taninos ao longe. Pode ser um de Bordeaux, de Beaujolais, os italianos Valpolicella e Dolcetto, um espanhol de Rioja ou um Pinot Noir da Califórnia. Também pode ser um Cabernet Sauvignon da Serra Gaúcha – um Salton, um Baron de Lantier, um Dal Pizzol, um Miolo. Oferecemos boas opções a preços bem competitivos.
Se em vez do bacalhau seco (cujos preços nem o ministro Antônio Palocci consegue baixar), você preferir um peixe fresco ou frutos do mar, é quase certo que resultarão em pratos com uma acidez ligeiramente mais evidente. Nesse caso, experimente vinhos com a uva Sauvignon Blanc: os franceses, chilenos e neozelandeses oferecem ótimas opções.
Já com o chocolate a coisa complica. Seu sabor é muito forte, dominante. E geralmente apenas vinhos igualmente poderosos podem competir. Tente com um bom Syrah, um doce como o Tokaj Azsú, um Banyuls ou um Porto Tawny de 10 anos, que prefiro.
Muita gente gosta de chocolate com Cabernet Sauvignon, como os da Califórnia. Não estou nesse time. Os vinhos tintos com forte presença de taninos, como os grandes de Bordeaux, mesmo os jovens, não suportam o sabor do chocolate, nem mesmo os doces de Sauternes e de Montbazillac.
Mas já o Banyuls é considerado como o tradicional companheiro do chocolate. É um tinto doce natural, dos Pirineus franceses.
Se o chocolate não for amargo ou apenas moderadamente amargo você pode contar também com tintos leves com poucos taninos, como um Beaujolais ou um Rioja. Ou, com um complemento doce, além do Porto: um Sherry, um Madeira ou um Marsala.
Assim, na ceia de Páscoa, vamos confirmar a presença do vinho em nossas mesas. O cauim, afinal, só era usado em cerimônias como as de antropofagia.
Resposta do Teste.
Essa é a resposta às perguntas formuladas no post "Vinho e Alcoolismo: um teste". Veja abaixo.

Segundo o Departamento de Programas para a Saúde do Hospital Johns Hopkins, dos Estados Unidos, que formulou as 20 perguntas contidas na coluna passada, quem respondeu 3 de quaisquer das questões com um SIM tem um padrão de beber negativo e pode ser considerado alcoólico ou dependente de álcool. Deve logo procurar um profissional de saúde.

E agora vamos beber a taça da louvação, a taça da alegria. Feliz Páscoa!
Sonia Melier está no soniamelier@terra.com.br

Os bons vinhos do vizinho

O Uruguai promove seus ótimos vinhos dia 4 de abril, no Sheraton do Rio, numa apresentação de bodegas importantes, seguida de degustação de seus vinhos, num acontecimento especial, já que os vinhos de nossos vizinhos têm tudo para igualar-se aos da Califórnia, Chile, Argentina, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul.
Os produtores uruguaios rapidamente encontraram na uva francesa Tannat um veio para vinhos potentes, de grande qualidade. Um achado equivalente ao da Malbec pelos argentinos, da Shiraz pelos australianos e da Pinot Noir e Sauvignon Blanc pelos neozelandeses. Vinhos de grande qualidade que não perderam a personalidade ao se adaptaram a novas terras.
Mas além de tornarem-se especialistas nessa uva, os uruguaios vêm modernizando o setor. A partir de 1990, por exemplo, aparecem os tanques de aço inoxidável.
O país produz em média um milhão de hl de vinhos anualmente, exporta algo em torno de 4 milhões de litros de vinhos anuais, sendo que praticamente a metade é comprada pelo Brasil, seu principal cliente.
O uruguaio está hoje entre os 10 maiores consumidores mundiais de vinho, com 33,5 litros anuais per capita – todo mundo consumindo principalmente os seus fortes Tannats.
Lá e carne bovina ainda dominam a economia do país. Só a partir dos anos 80 é que vinicultura aparece como fonte de divisas de importância.
Tem 9 mil hectares plantados em solo argiloso e calcário, sob um clima temperado e úmido. Apesar de muita chuva, durante a colheita, entre fevereiro e março, há estiagem.
A cepa Tannat no Uruguai é um acaso. O imigrante Pascual Harriague, um basco francês, conseguiu mudas da uva de um conterrâneo seu, na Argentina, lá por volta de 1870. O cultivo da Tannat rapidamente se espalhou que a cepa acabou conhecida pelo nome de Harriague.
Mas lá se plantam também outras variedades, como a Sauvignon Blanc, Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Riesling, Gewürztraminer e até a Viognier. Uma outra especialidade de sua vinicultura é a Vidiella, uma forma de Folle Noire.
O acontecimento é promovido pelo INAVI - Instituto Nacional de Vitivinicultura do Uruguay – e por Bodegas de Uruguay.
As seguintes vinícolas estarão apresentando seus vinhos:

Ariano Hermanos, Bodega Bouza, Bruzzone Y Sciutto, Carlos Pizzorno, Castel Pujol-Bodegas Carrau, Castillo Viejo, Dante Irurtia, De Lucca, Los Cerros de San Juan, Juan Toscanini e Hijos, Juanico, Montes Toscanini, Nelson H. Stagnari e Pisano.

Essa será a quinta apresentação de vinhos uruguaios no país e acontecerá apenas no 4 de abril, das 15 às 21 horas, no Sheraton Leblon, São Gávea (Av. Niemeyer, 121).
Se quiser maiores informações, falem com a Aline, da Cristina Neves Comunicação & Eventos: (11) 5092-3247/48 ou pelo aline@cristinaneves.com.br
Eu não perderia esse acontecimento.
Sonia Melier agora está no soniamelier@terra.com.br

20.3.05

Spurrier vem aí

Vem aí a maior feira de vinhos da América Latina, a Expovinis Brasil 2005, na sua 9a. edição. E com ela, chega o mestre Steven Spurrier, consultor de vinhos, escritor, assessor editorial de uma das mais importantes revistas de especializadas em vinhos no mundo, a inglesa Decanter. Pode marcar na agenda: de 3 a 5 de maio, em São Paulo, no ITM Expo (Avenida Roberto Zuccolo, 555, Vila Leopoldina).
Em paralelo à Expovinis, acontece também a Epicure 2005.
O evento está aberto a profissionais do vinho, hotelaria e enogastronomia. E também ao público. Se você tiver mais de 18 anos, paga uma pequena entrada, visita uma área de 11 mil m2 com centenas de expositores e centenas de vinícolas da África do Sul, Argentina, Austrália, Brasil, Chile, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, Nova Zelândia, Portugal, entre outros. Pode naturalmente degustar vinhos.
O ingresso custará R$ 25,00 para quem não trouxer taça (ou trouxer uma de casa) e R$ 30,00 para fazer provas com uma taça ISO (a taça de degustação recomendada pela International Standards Organisation). Vale por um curso de vinhos.
Mas vou me abalar de Secretário para São Paulo especialmente para assistir à palestra de Steven Spurrier, cuja data ainda não está marcada (e talvez nem seja palestra, mas a condução de uma degustação).
O inglês, hoje na casa dos 60, tem de 41 anos de vinho. Começou em 1964 como trainee de um comerciante de vinhos em Londres. Em seguida, mudou-se para Paris e abriu a sua loja de vinhos, a Les Caves de la Madeleine.
Consultor editorial da revista Decanter há 11 anos, Spurrier é um dos três únicos agraciados, em 20 anos, com o Grande Prêmio da Academia Internacional do Vinho.
Autor e editor de livros sobre vinho, o inglês recebeu também o Maestro Award, da Vinícola Beaulieu, por destacados serviços à indústria vinícola dos Estados Unidos. Pois é, Steven Spurrier tem um papel muito importante, histórico até, na divulgação dos vinhos do Novo Mundo.
Em 1976, em Paris, ele organizou um teste cego que reuniu os mais prestigiosos vinhos de Bordeaux e da Borgonha e apenas dois vinhos da Califórnia, um Cabernet Sauvignon e um Chardonnay. Pois, os vinhos americanos chegaram em primeiro – e com pontos concedidos por uma maioria de degustadores profissionais franceses. Um repórter da revista Time estava presente e anunciou para o mundo o novo Waterloo francês. Hoje, as garrafas dos vinhos vencedores, um Stag’s Leap 1973 Cabernet Sauvignon e um Château Montelena Chardonnay 1973, da vinícola Barret, fazem parte da coleção permanente no Smithsonian.
Eu colocaria Steven Spurrier entre as 10 pessoas mais importantes do mundo dos vinhos. Até porque ele acha que o palato das mulheres é superior ao dos homens em particular na prova de vinhos.
Falei em 10 pessoas? Vamos reduzir para cinco. Pode ter certeza, em maio estou lá na Expovinis.
Sonia Melier agora no soniamelier@terra.com.br

18.3.05

Vinho e Alcoolismo: um teste

Só mais uma palavrinha sobre o filme Sideways. Na verdade, sobre um problema mais grave: alcoolismo.É que Robin Garr, responsável pelo ótimo site Wine Lover’s Page abriu um debate sobre um tópico que raramente aparece nas conversas entre amantes do vinho: o tênue limite entre conhecimento, prazer, beber demais e alcoolismo. A pergunta que ele faz é se os personagens do filme retratam os tipos do mundo real, as pessoas que conhecemos adeptas dos vinhos. Ou seriam personagens grosseiramente exagerados, estereotipados.
A pergunta tem como base o fato de Miles (Paul Giamatti) e Jack (Thomas Haden Church), os dois amigos que decidem visitar vinícolas no Vale de Santa Ynez, Califórnia, encherem a cara a maior parte do filme. Miles é um professor de inglês, novelista recusado, divorciado, duro. Jack é um ator, mulherengo e está para casar: a viagem é justamente a sua despedida de solteiro. Miles é um pretensioso conhecedor de vinhos com uma tara por Pinot Noir, mas parece andar por essa estreita trilha entre o gosto pelos vinhos e o alcoolismo.
O debate aberto por Robin Garr é provocativo, pois a maioria dos amantes de vinhos conscientemente recusa-se a pensar na bebida como elemento inebriante. Ouço muitas pessoas afirmando que, como apenas bebem vinho, não podem ser dependentes de álcool. Bebo vinho, logo sou “superior”?
Acho que o próprio filme tem essa resposta. Miles abusa, sim, mas não é um alcoólico. No filme, ele sabe precisamente o que quer e o que não quer beber (vinhos com a uva Merlot, por exemplo), retirar-se de lugares onde poderia continuar a beber. Ele deseja experimentar a maior quantidade de vinhos possível. Não bebe outra coisa que não seja vinho. Os efeitos do álcool são um infeliz subproduto. O álcool não me parece o principal objetivo de Miles.
Esse é um personagem que não demonstra falta de vontade, característica como em qualquer dependente. Talvez, no máximo, repita Santo Agostinho quando moço: “Dá-me a castidade e a continência, mas não agora”. O próprio Agostinho reconhecia a covardia dessa posição.
Miles não precisa que lhe amarrem a um mastro para que possa resistir ao canto das sereias, como fez Ulisses, numa artimanha destinada a suprir a falta de autocontrole que aconteceria se atravessasse com seu barco o país das sirenas descuidadamente. Ele não superestima sua firmeza de caráter.
Estamos primeiramente tratando de uma obra de ficção e o cinema tem um filme que retrata perfeita e brilhantemente o alcoolismo, essa espécie de carência de vontade. É Farrapo Humano (The Lost Weekend, 1945), de Billy Wilder.
Aqui temos Don Birnam (Ray Milland, acho que no melhor papel de sua carreira, pelo qual mereceu um Oscar) que rouba para beber. Miles rouba a mãe, mas para viajar com o amigo por uma semana de farras.
Don Birnam quer ser novelista, mas vende sua máquina de escrever para tomar mais um copo, não se importando com o fato de que “os copos estão unidos uns aos outros como as cerejas num cesto”, como explica o filósofo espanhol Juan Antonio Rivera no seu esplêndido “O que Sócrates Diria a Woody Allen” (Editora Planeta do Brasil, ISBN 85-7665-019-3).
O personagem aqui trava uma luta sem fim e sem piedade pela próxima garrafa. É um alcoólatra, um ser que perdeu a tração, a vontade.
O alcoolismo é uma doença que compreende uma compulsão pela bebida e a inabilidade em limitar o seu consumo, resultando em dependência física, em grande tolerância à bebida, na necessidade de quantidades cada vez maiores, não importando se nesse caminho o portador perca o emprego, a família, a saúde e se exponha a problemas com a lei.
Mas para a ajudar as amigas a terem uma idéia melhor sobre se Miles é ou não um alcoólatra, tente responder ao questionário abaixo, criado pelos médicos do Hospital Universitário Johns Hopkins. É muito simples.
1) Perde tempo de trabalho por causa de bebida? (Sim ou Não?);
2) A bebida lhe causa problemas em casa? (S/N);
3) Você bebe porque é tímido? (S/N);
4) A bebida está afetando a sua reputação? (S/N);
5) Já sentiu sensação de remorso depois de beber? (s/N);
6) Teve problemas financeiros por causa da bebida? (S/N);
7) Prefere companhias e lugares “inferiores” (botecos “pés-de-chinelo” etc.) quando bebe? (S/N);
8) A bebida o torna descuidado com o bem-estar da sua família? (S/N);
9) Ficou menos ambicioso depois que passou a beber? (S/N);
10) Fica ansioso pela hora de tomar um drinque? (S/N);
11) Na manhã seguinte, acorda com vontade de beber? (S/N);
12) Acha que a bebida tem dificultado o seu sono? (S/N);
13) Tem sido menos eficiente depois que passou a beber? (S/N)
14. A bebida está atrapalhando seu trabalho ou seus negócios? (S/N);
15) Acha que bebe para fugir de problemas ou de amolações? (S/N);
16) Você bebe sozinho? (S/N);
17) Já perdeu a memória como resultado da bebida? (S/N);
18) Já recebeu tratamento médico em razão da bebida? (S/N);
19) A bebida faz aumentar a sua autoconfiança? (S/N);
20) Já foi hospitalizado ou internado como resultado da bebida? (S/N).
Esse teste lhe ajudará a conhecer um pouco melhor o Miles e inclusive a você mesma. É a ficção nos ajudando a conhecer melhor o mundo real.
Espere só um pouquinho pela resposta, pois passei esse teste em outros veículos e não quero ninguém “colando” a resposta nesse blog. É só um tempinho.
Sonia Melier agora no soniamelier@terra.com.br

14.3.05

Além dos rótulos

O que esperamos de um rótulo de vinho? Em primeiríssimo lugar, que ele nos diga o que existe dentro da garrafa. Contudo, muitas vezes eles não cumprem essa obrigação e, ao contrário, despertam gostos sinistros no público.
O que dizer de rótulos com a foto do cruel ditador soviético Josef Stalin? Ou de Hitler, de Lênin, de Mão Zedong, de Guevara e Fidel Castro?
Rótulos que procuram vender a garrafa e não o vinho. Transformam o produto numa piada de tremendo mau gosto, forçando algum tipo de propaganda adicional, já que a qualidade do vinho certamente não vai ajudar.
Veja o caso das nossas cachaças, que levam nome indicativos de machismo (água-de-briga, água-que-passarinho-não-bebe, brasa) ou de uma falta dele (amansa corno etc.), entre dezenas de alusões. A maioria delas, porém, não dá para passar do segundo gole.
Há pouco tempo, em 2003, as relações entre a Alemanha e a Itália ficaram arranhadas porque o produtor Alessandro Lunardelli torna seus rótulos apelações do terror político: fotos de Hitler com a triste saudação nazista, ou opcionalmente, fotos de “heróis” nazistas, como Goering e Rommel, além do ditador italiano Benito Mussolini.
A venda desses vinhos é permitida na Itália, mas o governo alemão protestou contra a comercialização dos mesmos através da Internet. Na Alemanha, são proibidos, pois o governo veta qualquer referência gráfica ao nazismo.
Lunardelli criou em 1995 uma coleção, “série histórica”, eufemismo para valorizar uma idéia grosseira, que no fundo mantém viva a fama de genocidas. No caso do rótulo com Hitler, só podemos concluir que se trata de propaganda do nacional socialismo: o ditador aparece com o braço direito estendido na saudação nazista. Numa legenda da foto, as palavras de ordem do III Reich: “Ein Volk, Ein Reich, Ein Fuehrer” (um povo, um império, um líder).
Lunardelli talvez não venda mais pela internet, mas continua faturando o genocído.
O caso dos vinhos com Stalin é bem mais recente, aconteceu agorinha. A histórica vinícola Massandra, da Ucrânia, resolveu comemorar a Conferência de Yalta, realizada num castelo bem próximo da vinícola, na Criméia, há 60 anos. Nessa conferência, os líderes mundiais de então, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt, o Primeiro Ministro Winston Churchill e o ditador Stalin retalharam geopoliticamente a Europa Ocidental, o que foi efetivado ao término da II Guerra. Os três líderes pousaram para uma foto, hoje utilizada como referência obrigatória da conferência: aparecem os três sentados no tal castelo, olhando para a câmera. Pois foi essa foto que a vinícola utilizou. Uma atitude talvez bem intencionada, mas que acabou em desastre.
Os três líderes estão no rótulo de um vinho ao estilo de Jerez e em outro à moda de um Porto.
Só que quando esses dois vinhos chegaram a Winnipeg, Canadá, a comunidade de ucranianos que habita a região protestou. Vive no Canadá forçada por aquele acordo em Yalta, que levou centenas de milhares de europeus orientais a viver em países controlados pelo antigo bloco soviético – e onde muitos foram assassinados.
“Não quero que Stalin seja esquecido, mas lembrado exatamente por aquilo que era: um genocida assassino”, declarou Lubomyr Luciuk, dirigente da Associação Canadense-Ucraniana de Liberdades Civis.
Cerca de 3% dos canadenses, mais de um milhão de pessoas, são descendentes de ucranianos. Depois da guerra, aproximadamente 40 mil deles, refugiados políticos, abrigaram-se no Canadá.
Evidentemente, os vinhos foram retirados da prateleira. Serão devolvidos ao importador ou receberão rótulos novos.
Aqui na América do Sul, já tivemos um vinho com o ditador chileno Pinochet no rótulo. Um caso de puxa-saquismo descarado, bastante comum nos tempos de ditadura.
Sim, temos essa linha de rótulos, que tenta vender através do sinistro, através da bajulação ou da crítica política, caso do vinho com o rótulo da atual Primeiro Ministro italiano Silvio Berlusconi. Que, claro, foi retirado das prateleiras. Mas fez lá o seu barulho.
O que começa bem. Pois é, nem sempre acaba bem. Em 1924, o Barão Philippe de Rothschild comissionou o pintor cubista Jean Carlu para desenhar o rótulo do seu Château Mouton-Rothschild, daquele ano, o primeiro vinho a ser engarrafado na própria vinícola (até então, eram embarricados e engarrafados pelos negociantes, na maioria das vezes em Londres).
A partir de 1945, o Barão transformou o evento de 1924 numa prática anual, que não só deu prestígio ao seu vinho como facilitou a vida de colecionadores, que podem comprar rótulos de uma determinada safra e substituir pelos velhos, rasgados etc. do mesmo ano.
Desde então, artistas de grande prestígio vêm criando os rótulos do Mouton. Entre eles, temos Miró, Chagall, Braque, Picasso, Warhol, Bacon, Balthus. Para a safra de 2002, agora no mercado, o rótulo foi criado pelo russo (emigrado para os Estados Unidos) Ilya Kabakov.
A invenção do Barão é até hoje imitada em todo o mundo. Mas nunca conseguiu os resultados conseguidos pelo Mouton. Em 2002, o grande produtor português Herdade do Esporão teve que retirar do mercado 300 mil garrafas do seu Esporão Reserva, recusado pelos americanos, pois o desenho do rótulo mostrava um sultão ou califa barbado e de turbante extraordinariamente parecido com Osama bin Laden. O pior é que esse vinho chegou a Nova York um dia depois da catástrofe de 11 de setembro. O rótulo foi substituído pela imagem de um rei e rainha medievais bebendo vinho.
Temos vinhos que buscam homenagear personalidades bem mais simpáticas e que até hoje concentram admiradores.
O Marilyn Merlot explora a foto em que a atriz, Marilyn Monroe, aparece nua no célebre calendário – nudez disfarçada por borbulhas de vinho.
Os vinhos da Marilyn existem desde 1985, transformaram-se numa curiosidade e vendem muito bem. São licenciados pelos representantes legais da atriz.
Esses rótulos prestam tributo a artistas mortos. E são bem comentados pela crítica de vinhos. A coleção de vinhos que levam a imagem da lenda do rock Elvis Presley, por exemplo, adotam nomes dos sucessos do interprete: King Cab (Rei Cabernet), Jailhouse Red (tinto), Blue Suede Chadonnay – com vendas extraordinárias nos Estados Unidos.
O líder do famoso grupo The Grateful Dead, Jerry Garcia, é lembrado não por uma marca especial de maconha, mas por uma coleção de vinhos - um merlot, um chardonnay e um cabernet – muito elogiada.
Temos vinhos oportunistas. A mesma vinícola que produziu o vinho do Pinochet, na última Copa lançou um saudando o astro argentino Maradona, tentando arrebatar torcedores portenhos. Claro que esse vinho durou pouco tempo. O oportunismo tem pernas curtas.
O mundo dos vinhos é um grande chamariz. E o que vemos nos últimos tempos e uma quantidade cada vez maior de celebridades dedicarem-se à produção de vinhos. Temos gente como o Francis Ford Coppola, do Poderoso Chefão, até Bob Dylan, o veterano cantor pop Sir Cliff Richard, o ator Simon Neill (do Parque Jurássico, Piano e Caçada ao Outubro Vermelho), o cantor Sting, com uma rica propriedade na Toscana, o ator francês Gerard Depardieu com vinícolas espalhadas pela França, Itália e Argélia.
Nesse ponto, a história fica um pouco diferente. Essas celebridades não querem aparecer nos rótulos, apenas fazer bons vinhos.
Você pode até encomendar vinhos com rótulos personalizados. Por exemplo: eu posso criar um “Sonia Melier Noir”, naturalmente um Pinot Noir com a minha assinatura e a vinheta que aparece aí em cima. Claro que o vinho vem de um vinícola, eu entro apenas com a minha figura, nome e o farol que farei para amigos e amigas. Os rótulos também satisfazem vaidades.
O que você acha de Lula, Ronaldinho, Danielle, Gisele, Chico Buarque em rótulos de vinhos brasileiros? Venderiam mais ou menos? Acho que fariam sucesso por alguns momentos e depois sumiriam do mapa, num ciclo de vida que corre em paralelo com o das celebridades: são apenas 15 minutos e acabou.
O desenho de Kabakov, para o Mouton 2002 que mencionamos acima, tem o título de Okho, janela em russo. Através dessa janela, vemos uma miríade de asas, numa alegoria da mágica de um grande vinho. E é isso que os rótulos devem passar, a mágica, a alegria dos vinhos. E não esquecer de informar o que está dentro da garrafa.
Não deixe de dar sua opinião: escreva para soniamelier@terra.com.br